O empreendedorismo Negro é um dos caminhos

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A definição da palavra empreendedorismo está ligada a capacidade de identificar oportunidades, solucionar problemas, agregar valores e contribuir para a sociedade de maneira inovadora. No âmbito empresarial, normalmente têm o objetivo de criar novas empresas ou produtos e trazer mudanças em setores específicos ou remodelá-los por inteiro.

“O afro-empreendedorismo, além de carregar esse aspecto do empreendedorismo, também contém em sua essência uma ideologia e como proposta um engajamento que alcança o público, e que reafirma sua raiz. Outro fator interessante, é que ele serve como canal para gerar discussões sobre assuntos de extrema relevância como a inserção social, o racismo e o empoderamento”, afirma Laís Mathias, social mídia da Clave de Fá.

Empreender. A troca e a venda de mercadorias se faz presente desde sempre entre os povos africanos e a antropóloga e contadora de histórias Nathalia Grilo explica como tudo começou:

No início da sociedade humana, em África, cada família possuía uma determinada habilidade: pesca, agricultura, forja do ferro, artesanato etc.
Aos poucos, essas famílias perceberam que poderiam estocar seus produtos e assim trocá-los com outras famílias. Todos saiam satisfeitos e nada faltava aos povoados locais.
Se tratava de troca de habilidades, de dons e de experiências.
Assim nasceu a feira livre!
Com o tempo, as cidades cresceram e uma quantidade de pessoas de outras bandas da terra ali chegaram tornando a comunicação e a negociação muito complicada já que vinham de outras culturas e falavam outras línguas.
Surge então a moeda! Ela nasce pra equilibrar as trocas, criando uma linguagem universal. O comércio se espalhou pelo mundo e assim, feiras de todos os tipos em todos os lugares começaram a surgir.
Em África, na região Yorubá as mulheres tiveram e têm ainda hoje papel crucial na organização das cidades, já que é a partir do ambiente dos mercados populares (lugares exclusivos das mulheres) que ali a vida acontecia.
Diálogo, oralidade, barganha, negociação, olho no olho era assim a vida nas feiras; muito diferente dos supermercados e dos shoppings de hoje em dia, lugares de alienação, impessoalidade e frieza”.


Entre a vida livre no Continente Africano e a vinda através de sequestro para o Brasil, transformados em coisa para justificar a escravidão, são roubadas das pessoas negras a liberdade, a autonomia e o direito de conhecer as próprias histórias. A luta para sair do lugar de subalternidade, da informalidade e de minoria econômica e social se dá há muito tempo e um dos caminhos encontrados é através do empreendedorismo.

Um dos caminhos encontrados, não o único. Em consulta a fontes para a construção desse texto, nos deparamos com um levantamento feito pelo Sebrae com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), onde foi encontrado que, 50% dos donos de negócio são afrodescendentes, 49% são brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais (https://goo.gl/wzDgdg ). Porém, de acordo com Pedro Borges do Alma Preta (https://goo.gl/TChnvH ) quando falamos de empreendedores, as diferenças entre o empreendedorismo negro e branco são gritantes, quando tratamos dos empresários negros, “estamos falando de cabeleireiros, de pessoas que montam uma pequena oficina de costura ou distribuidora de produtos para cabelo, e que muitas vezes precisam se virar sozinhas. Já o empreendedor branco em geral, por ter uma questão econômica e social mais elevada, já começa seu negócio em condição mais favorável e em pouco tempo poderá crescer, contratar funcionários e investir mais. Esta é a grande diferença”.

No relatório da pesquisa sobre o perfil étnico-racial do empreendedor brasileiro, o Sebrae faz uma distinção entre o empresário por “conta-própria” e o “empregador”. O primeiro seria o sujeito que trabalha sozinho, ou tem a ajuda de um sócio. O segundo disponibiliza de uma melhor infraestrutura e pode então contratar funcionários. Entre os negros, 91% são empreendedores por conta própria e apenas 9% são empregadores. Já entre os brancos, os números são de 78% e 22%, respectivamente.

É importante discutirmos esses números para fazermos uma comparação crítica entre os trabalhadores que o Sebrae coloca como empreendedores, sabendo que existe uma hiato grande entre o trabalhador negro formal portador do MEI que não emprega outra pessoa e o microempresário branco que já começa sua startup com subsídios governamentais e crédito bancário.

A Feira Preta é um exemplo de afroempreendedorismo bem sucedido que realizou seu 15º evento, criada em 2002 pela Gestora de Eventos Adriana Barbosa, o objetivo da Feira Preta é mostrar à sociedade o que está sendo produzido pelo o segmento negro em termos de produtos e serviços, incentivar o desenvolvimento sustentável das micro e pequenas empresas e gerar emprego e renda, além de reunir, em um único espaço, todas as linguagens artísticas para difundir a cultura negra. A Feira tem caráter anual e envolve empreendedores e artistas, negros ou não, cuja produção seja voltada aos negros ou tenha a ver com as culturas africanas e afro-brasileira.

Fortalecimento econômico é também a criação de ferramentas específicas e a possibilidade de contato  entre o empresariado negro e os seus potenciais clientes, nicho de atuação da  a Afrobusiness (http://www.afrobusiness.com.br/), uma instituição sem fins econômicos que tem como objetivo a criação de mecanismos que promovam a interação entre empreendedores e profissionais liberais fortalecendo o processo de inclusão social e econômica da população negra.

Fernanda Leôncio, Relações Institucionais do AfroBussiness Brasil respondeu algumas de nossas perguntas:

O que é o Afrobusiness?

A Afrobusiness é uma associação sem fins lucrativos. O nosso principal objetivo é promover a capacitação e integração entre empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais, fortalecendo o processo de inclusão econômica da população negra

Como e quando surgiu? E de quem foi a ideia inicial?

O projeto nasceu há dois anos. A Afrobusiness começou com uma relação comercial frutífera entre os outros dois fundadores, um publicitário e o outro profissional liberal. Eles foram apresentados por um terceiro profissional (não negro) e aconteceu uma identificação muito grande e resolvemos aumentar a escala destas transações entre empresários negros. O desejo por gerar negócios entre empresários negros, era mútuo. Pois nós três acreditávamos que esta era uma forma de fortalecer os empreendimentos dentro da nossa comunidade, assim promovendo de alguma forma o fortalecimento econômico do povo negro. Seguindo um modelo já existente em outras comunidades, como por exemplo, os judeus.

 O que a Afrobusiness espera alcançar? E como espera estar no futuro?

A Afrobusiness basicamente deseja ser um ator (Não é nosso objetivo reinventar a roda) no ecossistema empreendedor.

Desejamos disponibilizar novas tecnologias à serviço dos empreendedores, fortalecer redes de apoio integradas à outras instituições, utilizar ferramentas financeiras pensadas para atender as necessidades da população negra e materializar o Black Money. Queremos ajudar no processo de reescrita dos dados relacionados à população negra.

Quais são as maiores dificuldades?

Empreender têm suas dores e sabores e cada estágio do negócio apresenta desafios específicos. Quando um negro empreende encontra os desafios naturais e os impostos pelas desigualdades étnicas, o racismo é a principal delas, porque com ele surgem “barreiras invisíveis”, que atrapalham o desenvolvimento destes negócios.

Como associação, por exemplo, tivemos muita dificuldade para abertura de uma conta bancária. Hoje, também por conta dos escândalos relacionados à corrupção, existe uma marginalização das associações/ongs e etc. Alguns bancos associam essas instituições à lavagem de dinheiro, colocando entraves desnecessários em alguns processos.

 Qual é o alcance?

Hoje atuamos com 4 principais pilares:

1- Networking: Através das redes de relacionamento, onde intermediamos negócios entre os empresários. Ferramentas de comunicação onde compartilhamos cases de empreendedores negros e seus desafios.

2- Eventos: Encontros presenciais entre empresários

3- Educação: Capacitação de empreendedores, atualmente estamos promovendo a inclusão destes empresários no mercado digital, popularizando a venda dos produtos via internet.

4- Ferramentas Financeiras: Promover a inclusão destes empresários, muitas vezes marginalizados pelas instituições bancárias. A partir do segundo semestre vamos disponibilizar essas ferramentas.

Como foi fundar e como é manter uma empresa desse porte, sendo uma mulher negra?

Participar deste processo de criação, sendo uma mulher negra é algo empoderador e ao mesmo tempo político. Gosto de participar dos processos e comemorar cada conquista e novos desafios que vão surgindo, finaliza Fernanda Leôncio.


O empreendedorismo negro tem uma conexão direta com a autonomia financeira e consequentemente com a inserção social, e essa inserção confere às pessoas negras, de modo geral, a noção de pertencimento. E essa noção é muito valiosa a população negra em razão do racismo estrutural que temos no país.

Reiterando o dito no começo do texto, o empreendedorismo negro é um dos caminhos para a correção dos processos históricos que marginalizam e estigmatizam a população negra e vinculado a outras iniciativas, como às políticas públicas específicas, por exemplo, esse caminho fica muito mais forte.

1 ano do Governo Interino. Como as mudanças impactam na vida das mulheres negras?

Foto: Lula Marques/ Agência PT

 

Ao longo de toda a história do Brasil, o país foi impactado por inúmeras crises que não possuíam como prioridade o aspecto social, mas sim, o mercadológico. Nos anos 90, houve uma profunda crise econômica, onde viveu-se com o capital estagnado e o temor do fantasma da hiperinflação era constante. Os países latino-americanos estavam em frente a um enorme endividamento e o Brasil chegou a ponto de ter 70% de dívida estatal, e a partir desse momento, o gasto público se torna desequilibrado.

Para escapar desse cenário, resgatou-se a reforma que havia se iniciado nos anos 70, que previa a reestruturação da administração pública a fim de estabilizar o crescimento da economia, defendendo o ponto de que o problema seria do Estado e que por isso seria preciso reduzir o gasto do Estado com as políticas públicas, o que não se difere de hoje.

O Estado passou a se somente regulador, reduzindo os gastos na área social e transferindo os gastos para o setor privado e para a sociedade civil.
Foi no governo do Presidente Collor que as privatizações tomaram forma, onde se entregou uma parcela significativa do patrimônio público ao capital estrangeiro, principalmente a grupos norte-americanos. É a partir da reforma do Estado que o mercado ficou entendido como primeiro setor, o Estado seria o segundo setor e a junção do Estado com a sociedade civil seria o terceiro setor, além de ONGs executando políticas públicas através de trabalho voluntário e ações sociais.

Os Direitos Sociais (garantidos pela Constituição Federal de 88) são uma conquista que se obteve ao longo do desenvolvimento social, com o objetivo de garantir condições mínimas aos indivíduos, eles tiveram seu ápice no século XX, e trata-se de uma regulação que permite resolver os conflitos sociais com o objetivo de corrigir desigualdades entre as classes sociais.

A Constituição Federal de 1988 assegura ao indivíduo o básico necessário para a sua existência digna, onde a maior parte dos Direitos Sociais depende da atuação do Estado. Na Constituição os Direitos Sociais são garantidos no CAPÍTULO II, dos artigos 6º ao 11º.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.  (Brasil, 1988).


A constituição Federal de 1988 introduz no seu artigo 194, o parágrafo único que diz:

Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade com base nos objetivos de: universalidade de cobertura e do atendimento; uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; seletividade e distribuição das prestações dos benefícios e serviços; irredutibilidade do valor dos benefícios; equidade das formas de participação no custeio; diversidade da base de financiamento; caráter democrático e descentralização da gestão administrativa com participação da comunidade, em especial, de trabalhadores, empresários e aposentados. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 apud CABRAL, 1995, pag. 124).


Também foram introduzidas modificações nos planos de benefícios, incorporando novos direitos e recompondo valores. Dentre as alterações, destaca-se: licença maternidade de 120 dias, extensiva aos rurais e domésticos; direito à pensão para maridos e companheiros; redução do limite de idade – 60 anos para homens e 55 para mulheres; aposentadoria proporcional para as mulheres aos 25 anos de serviço; direito de contribuição independente do exercício de atividade; recomposição das aposentadorias e pensões pelo número de salários mínimos da época da concessão; integralidade do 13º salário, e correção das últimas 36 contribuições para efeito de cálculo do salário de benefício.

A tríade da Seguridade Social no Brasil é composta por: Saúde, Assistência e Previdência. Sendo a  Previdência Social uma seguradora social do Governo Federal, em regime contributivo, portanto, para ter direitos aos benefícios, o trabalhador precisa estar inscrito e manter o pagamento das contribuições em dia.


Proposições do Governo Temer e rebatimentos nos direitos sociais

No final do ano passado com 53 votos a favor e 16 contra, o Senado aprovou em segundo turno, o texto base da Proposta de Emenda à Constituição do Teto de Gastos (PEC 55, PEC 241 ou PEC do Fim do Mundo), que congela todos os gastos públicos para os próximos 20 anos. A medida já vinha tramitando desde o início do governo do presidente Michel Temer (PMDB).

O caráter elitista do congelamento de gastos ocorre pelo esvaziamento da concretização de direitos sociais previstos na Constituição Federal e segundo o Defensor Público Federal, Fernando Antonio Holanda Pereira Junior, “os direitos sociais, a exemplo da saúde, educação, moradia, previdência social, entre outros expressos ou não no texto constitucional, por constituírem ações positivas do Estado, carecem para a sua concretização, de dispêndio de recursos financeiros. Acontece que as principais medidas de austeridade divulgadas pelo Governo, encabeçadas pela PEC 55, são direcionadas à redução do papel assistencial do Estado, imprescindível à manutenção da teia de segurança da população mais carente, dependente do bom e regular financiamento das políticas sociais não usufruídas na mesma escala pelos entusiastas do ajuste fiscal”.

As consequências para os trabalhadores serão sentidas também no desmonte da Justiça do Trabalho promovida pela PEC, a Juíza do Trabalho, Valdete Souto Severo afirma que ao contrário do que nos dizem, o objetivo da PEC 55 não é conter gastos e com isso enfrentar a crise. Trata-se de um movimento de desmonte do Estado Social. O que a aprovação da PEC 55 propiciará concretamente, será o fechamento da Justiça do Trabalho, dos hospitais públicos, das escolas e faculdades.

Segundo matéria escrita por Gil Alessi e publicada pelo Jornal El País:

“A proposta também inclui um mecanismo que pode levar ao congelamento do valor do salário mínimo, que seria reajustado apenas segundo a inflação. O texto prevê que, se o Estado não cumprir o teto de gastos da PEC, fica vetado a dar aumento acima da inflação com impacto nas despesas obrigatórias. Como o salário mínimo está vinculado atualmente a benefícios da Previdência, o aumento real ficaria proibido. O Governo tem dito que na prática nada deve mudar até 2019, data formal em que fica valendo a regra atual para o cálculo deste valor, soma a inflação à variação (percentual de crescimento real) do PIB de dois anos antes. A regra em vigor possibilitou aumento real (acima da inflação), um fator que ajudou a reduzir o nível de desigualdade dos últimos anos”.

A PEC 55 colocará limite em gastos que historicamente crescem todos os anos em um ritmo acima da inflação, como educação e saúde. Além disso, gastos com programas sociais também podem ser afetados pelo congelamento. A medida prejudicará o alcance e a qualidade dos serviços públicos oferecidos e aumentará a problemática no cumprimento dos mecanismos já em vigor, como os investimentos do Plano Nacional de Educação. Aprovado em 2014, o PNE tem metas de universalização da educação e cria um plano de carreira para professores da rede pública, uma das categorias mais mal pagas do País. A medida também sucateará o Sistema Único de Saúde (SUS), utilizado principalmente pela população de baixa renda que não dispõe de plano de saúde.

Subfinanciado desde a sua criação, o SUS já tinha a sua sustentabilidade ameaçada pelas transformações que o País passa: um acelerado envelhecimento da população, acompanhado do aumento da prevalência de doenças crônicas, a demandar tratamentos prolongados e dispendiosos. De acordo com o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde do governo Lula, a PEC 241 apenas agrava o problema, com a perspectiva de perda real de recursos.

Temporão afirma que “a decisão do Congresso é uma condenação de morte para milhares de brasileiros que terão a saúde impactada por essa medida irresponsável”, para o ex-ministro, o País renuncia ao seu futuro ao sacrificar a saúde e a educação no ajuste fiscal: “Estamos falando de fechamento de leitos hospitalares, de encerramento de serviços de saúde, de demissões de profissionais, de redução de acesso, de aumento da demora no atendimento. Se existe um problema macroeconômico a ser enfrentado, do ponto de vista dos gastos públicos, há outros caminhos. Mas este governo não parece disposto a enfrentar a questão da reforma tributária. Temos uma estrutura tributária regressiva no Brasil, que penaliza os trabalhadores assalariados e a classe média, enquanto os ricos permanecem com seus privilégios intocados”.

De acordo com o australiano Philip Alston, relator especial da Organização das Nações Unidas para a Pobreza Extrema e os Direitos Humanos, a aprovação da PEC 55 é um erro histórico e que provocará um retrocesso social: “Eu acredito que quando mudanças dramáticas são propostas, é essencial que haja um debate público, com a as informações detalhadas a respeito das consequências dessas medidas. Eu não acho apropriado acelerar essa discussão no Congresso e acho particularmente inapropriado que um governo que não foi eleito proponha medidas tão radicais e imutáveis nas políticas econômicas e sociais”.

Outra medida que provoca um duro golpe nos direitos sociais conquistados é a PEC 287 ou PEC da Reforma da Previdência, que prevê, entre outras propostas, o estabelecimento de idade mínima de 65 anos para os contribuintes homens e 62 anos para contribuintes mulheres, reivindicarem aposentadorias. As novas regras irão atingir os trabalhadores dos setores público e privado e de acordo com o governo, a única categoria que não será afetada pelas novas normas previdenciárias é a dos militares. Pelas regras propostas pela gestão Temer, o trabalhador que desejar se aposentar recebendo a aposentadoria integral deverá contribuir por 49 anos.

 

Imagem: Jornal da Paraíba
Imagem: Jornal da Paraíba

 

O estudo do Ipea “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça” divulgado no início de março, tendo como base os indicadores extraídos da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, relativos ao período de 1995 a 2015, comprovam que a desigualdade de gênero é histórica e pode se agravar, tendo em vista o cenário de redução de direitos e de políticas públicas no atual governo Além das mulheres trabalharem mais em atividades precarizadas e acumular com funções domésticas, outros dados que chamam atenção são: a proporção de mulheres que chefiam os domicílios aumentou de 24,8% para 43% nos últimos 20 anos; e mulheres negras possuem o menor rendimento em relação a homens brancos e negros e mulheres brancas, variando entre
R$ 1.027,5 a R$ 2.509,7.

De acordo com Jucimeri Isolda Silveira, coordenadora do núcleo de Direitos Humanos e professora do Curso de Serviço Social e do Mestrado em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR, “ as políticas pontuais e meritocráticas fracassaram no Brasil desde a década de 1930. Do mesmo modo, as ilusões neoliberais que apostam na capacidade do mercado de reduzir desigualdade se mostram ineficazes. Não há outra forma de reduzir vulnerabilidades e violações de direitos que não sejam por políticas públicas universais, integradas, redistributivas, afirmativas e de qualidade, associadas às políticas econômicas que gerem emprego e renda, e que promovam desenvolvimento territorial. A redução de direitos e de políticas públicas tem sido a medida adotada pelo governo Temer como justificativa para o ajuste fiscal. A lógica é simples e trágica: menos direitos e políticas sociais, mais pobreza e desigualdade. O cenário será de aumento da pobreza que afeta especialmente as mulheres negras, a infância e a juventude, com aprofundamento da desigualdade social, racial e de gênero no Brasil”.

As desigualdades aumentam e aprofundam os riscos de violência. 59,4% dos registros de violência doméstica na Central de Atendimento à Violência – Ligue 180 são de mulheres negras (2013). 62,8% das vítimas de morte materna são negras, uma situação que poderia ser perfeitamente evitada com acesso à informação e atenção no pré-natal e parto. (SIM/Ministério da Saúde, 2012). As maioria das mulheres que afirmam ter passado por algum tipo de violência obstétrica também são mulheres negras, compondo 65, 9% dos dados (2014). Ainda, as mulheres negras têm duas vezes mais chances de serem assassinadas do que as mulheres brancas (Ministério da Justiça/2015), entre 2002 e 2013 houve um aumento de 54,2% dos homicídios de mulheres negras (ONU Mulheres e SPM/2015) e entre 2000 e 2014 houve crescimento de 567% da população carcerária feminina, sendo 68% de mulheres negras e em situação de prisão por crimes que poderiam, sem dúvidas, ter utilizadas alternativas penais que não o cárcere (Ministério da Justiça/2015).

E no dia 28 de abril o País parou, quando o povo decidiu que mostraria sua insatisfação a esse pacote de retrocessos com a Greve Geral nas ruas. Com transportes públicos parados, estradas e avenidas bloqueadas, 26 estados mais o Distrito Federal, cruzaram os braços numa união para muitos inédita do sindicalismo brasileiro e dos movimentos sociais, junto aos setores significativos da igreja católica e outros segmentos. Essa união produziu um movimento que não se tem notícia desde 1917, quando ocorreu a primeira Greve Geral no Brasil.

O presidente interino possui a rejeição de 92% dos brasileiros e isso foi comprovado nas ruas com a Greve Geral, através de marchas, piquetes, bloqueios de rodovias e atos culturais em todo o País.

A PEC 241 e a PEC 287 rasgam a Constituição Federal de 1988 e consolidam a perda de direitos duramente conquistados pelos trabalhadores durante décadas, quando colocam em curso pacotes de medidas irresponsáveis que visam para manutenção de privilégios dos mais abastados e promoção do status quo, a retirada de benefícios que foram conquistados a duras penas pela classe que é colocada à margem e que sustenta esse país nas costas. As PECs citadas acima ou o Pacote da Maldade é um período marcado pelo retrocesso, pelo conservadorismo e pela ganância desmedida daqueles que com o poder nas mãos, usam dele para enriquecer a custa da educação, saúde e por fim, da vida do povo que foi posto na base da pirâmide econômica e social do país.


Referências Bibliográficas:

BOSCHETTI, I; SALVADOR, E. da S. Orçamento da seguridade social e política econômica: perversa alquimia. Serviço Social e Sociedade, São Paulo, v.87, p.25-57, 2003

CABRAL,M.S.R.  As políticas brasileiras de seguridade social. Previdência Social. 1995

http://justificando.cartacapital.com.br/2016/12/14/10-materiais-do-justificando-para-entender-o-que-significa-aprovacao-da-pec-241/

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/10/politica/1476125574_221053.html

http://www.cartacapital.com.br/politica/toda-uma-geracao-esta-condenada-diz-relator-da-onu-sobre-a-pec-55

http://www.cartacapital.com.br/politica/201cpec-241-e-condenacao-de-morte-para-milhares-de-brasileiros201d

http://g1.globo.com/economia/noticia/veja-as-mudancas-que-o-governo-propoe-com-a-reforma-da-previdencia.ghtml  

https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2017/O-destino-das-mulheres-pobres-e-negras-no-Brasil-de-Temer

http://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2017/04/greve-geral-de-28-de-abril-ja-esta-na-historia-mas-promete-desdobramentos

 


O Fundo Baobá, em parceria com a Ri-Happy e a Estrela desenvolveu uma linha de bonecas negras, a Adunni

“Ela é tão linda! Parece uma boneca!” Esta frase é muito popular, principalmente quando falamos de bebês ou crianças pequenas. Parece (e pode até ser) uma frase completamente despretensiosa, mas você já parou para pensar no significado político e social que esta simples frase carrega? Será que essa frase é dita com a mesma frequência para crianças brancas e negras?

Entendendo a necessidade social de oferecer às crianças negras uma boneca que dialogue com suas identidades, fortaleça sua autoestima e também propicie uma conexão comportamental real com o brinquedo, o Baobá – Fundo para Equidade Racial – em parceria com a Ri-Happy e a Estrela lançam no mercado a linha Adunni, que é composta por três bonecas (uma bebê e duas fashion doll), que buscam reforçar a representatividade das culturas e identidades negras em um país onde negros aparecem 7 vezes menos do que modelos brancos em campanhas publicitárias – segundos dados da agência de propaganda Heads, mesmo sendo um país majoritariamente negro (53% da população, segundo o IBGE), dificultando a formação e a reafirmação de estereótipos positivos de pessoas negras, especialmente entre crianças.

“Para uma menina, ganhar uma boneca negra que reflete suas características físicas, que via de regra não são vistas como padrão ou sinônimo de beleza pela sociedade, vai muito além de um simples brinquedo.. Esta boneca pode gerar uma conexão afetiva que vai além do conceito lúdico; ela vai reflete a identidade da criança, fazendo com que ela se sinta representada na boneca negra. Reconhecer a própria identidade em um brinquedo é fortalecer a autoestima da criança. Estes foram os motivadores para a criação da linha Adunni, que na Língua Iorubá significa a doçura chegou ao lar”, explica Selma Moreira, Diretora Executiva do Fundo Baobá.

A linha Adduni terá venda exclusiva nas lojas Ri-Happy em todo o Brasil a partir do dia 15 de dezembro com o foco de venda na principal data comercial brasileira para o público infantil, que é o Natal. Para cada boneca vendida a Ri-Happy vai destinar um percentual para o Fundo Baobá investir em iniciativas que promovam a equidade racial.

As Bonecas podem ser compradas nas lojas da Ri Happy e na loja virtual: https://goo.gl/vq7Mrn

O resgate histórico feito através do 20 de novembro

 

Não precisamos mais consultar ninguém para concluirmos
da legitimidade dos nossos direitos, da realidade angustiosa de
nossa situação e do acumpliciamento de várias forças
interessadas em nos menosprezar e condicionar,
mesmo, até o nosso desaparecimento!

Manifesto da Convenção Nacional do Negro Brasileiro (A Gazeta, 13 nov. 1945)

 

Durante todo o período em que o regime escravista foi vigente, os negros que foram escravizados¹ empreenderam diversas formas de escaparem daquilo que ficou conhecido como um período marcado pela repressão, pela violência e pelo controle. Dentre as mais variadas manifestações de resistências, os quilombos, também conhecidos como mocambos, funcionavam como comunidades de negros escravizados fugidos que conseguiam escapar do  domínio de seus captores.

Sendo os quilombos locais de refúgio e resistência, os negros escravizados escolhiam localidades de difícil acesso que impedissem uma possível recaptura. Um dos quilombos mais conhecidos da história do Brasil foi Palmares, instalado na Serra da Barriga, atual região de Alagoas. Com o passar do tempo, Palmares se transformou em uma espécie de confederação, que abrigava os vários quilombos que existiam naquela localidade.

A prosperidade e a capacidade de organização desse imenso quilombo representaram uma séria ameaça para a ordem escravocrata vigente, não sendo por acaso, que os vários governos que controlavam a região organizaram diversas expedições que tinham por objetivo estabelecer a destruição definitiva de Palmares. Contudo, os negros escravizados – agora quilombolas, resistiram de maneira eficaz e, ao longo de oitenta nos, conseguiram derrotar aproximadamente trinta expedições militares organizadas com esse mesmo objetivo.

No comando de algumas dessas batalhas onde as expedições militares foram derrotadas, estava Zumbi, que quer dizer “a força do espírito presente”. Zumbi era filho de guerreiros angolanos e  nasceu livre, mas foi capturado ainda criança e aos 15 anos foge e volta ao quilombo, onde permanece lutando até a sua morte em 20 de novembro de 1695. Por sua forte e intensa resistência ao regime escravocrata, tornou-se símbolo de luta e combate ao racismo.

O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra é celebrado nesta data (20 de novembro) e foi instituído oficialmente pela lei 12.519 de 10 de novembro de 2011 após intensa articulação de organizações do Movimento Negro Brasileiro. A data é utilizada como gancho para a reflexão a cerca do papel das negras e negros na construção do país, para discutir as violações aos direitos da população negra, o enfrentamento ao racismo, sobre mais oportunidades para ascensão socioeconômica dos afro-brasileiros e demais aspectos da questão racial no Brasil.
Segundo Elisa Larkin do nascimento, em seu livro O Sortilégio da Cor (2003), O movimento negro surge no início do século XX como herdeiro e continuação de uma luta já em movimento desde os primórdios da constituição do Brasil. A luta quilombola atravessa todo o período colonial e o do império, resistindo e contribuindo para a derrocada das estruturas da economia escravocrata.

A abolição é assinada em 1888, as relações econômicas e os modos de produção mudam, contudo a população negra, que segundo dados do IBGE soma53,6% do povo brasileiro, continua em situações de risco e desigualdade, ocupando as funções menos qualificadas no mercado de trabalho, sem acesso as terras ancestralmente ocupadas no campo e na condição de maiores agentes e vítimas da violência nas periferias das grandes cidades.

“É verdade corrente que o Brasil, mesmo tendo findado formalmente seu passado escravista, com a promulgação, em 1888, da Lei Áurea, não conseguiu ainda saldar a dívida histórica com os descendentes dos homens e mulheres africanos feitos cativos ao longo de mais de três séculos. Isto porque, aos escravos libertos naquela ocasião, assim como a seus descendentes, não foram asseguradas garantias que os livrassem das amarras econômicas, sociais e políticas que continuam a caracterizar a existência de negras e negros brasileiros até hoje”, avalia o ex-ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Eloi Ferreira de Araujo.
 
Nota: ¹ Optamos por usar o termo escravizado, por entender que “escravo” é condição inerente e imutável e escravizado, ao contrário, é uma pessoa que antes fora livre.

Fontes: Brasil escola, UNE, EBC e o livro O sortilégio da cor de Eliza Larkin do Nascimento.

Juventude Negra é tema de seminário promovido pelo Instituto Unibanco, Fundo Baobá e UFSCar

No próximo dia 24 de outubro, evento reunirá educadores, pesquisadores e estudantes para discutir o papel da gestão escolar na redução das desigualdades raciais

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No evento, também será lançada a segunda edição do edital para fomento de projetos de escolas e ONGs com vistas à promoção da equidade racial

 

Com o objetivo de identificar, reconhecer e acompanhar projetos de gestão escolar que contribuam para a redução das desigualdades raciais no ambiente escolar, acontece no dia 24 de outubro o II Seminário Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra. Ao final do evento, será lançado o II Edital Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra.

Ambas as iniciativas são realizadas pelo Instituto Unibanco, Baobá – Fundo para Equidade Racial e Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O seminário reunirá especialistas e profissionais ligados à educação e à temática racial para discutir os desafios e estratégias para uma gestão escolar que construa relações de equidade racial na escola, levando à melhoria dos resultados educacionais de jovens negros, principalmente no Ensino Médio. O edital (que será lançado no evento) selecionará dez projetos de gestão a serem desenvolvidos ao longo de 2017 em escolas públicas brasileiras.

O evento é voltado aos profissionais da educação, gestores públicos, acadêmicos, representantes de organizações ligadas aos movimentos negros, direitos humanos e educação e demais interessados. Informações sobre a programação e inscrições para o seminário podem ser feitas no site do Instituto Unibanco (clique aqui).

A discussão do equidade racial na educação é necessária, uma vez que nas últimas décadas o acesso das juventudes negras à educação cresceu significativamente: mais da metade dos brasileiros de 15 a 17 anos que se autodeclararam pretos ou pardos ao IBGE está matriculada no Ensino Médio – no início da década, apenas 25% desses estudantes frequentavam a escola. O crescimento é animador, porém os resultados educacionais ainda são muito inferiores quando se compara o desempenho de alunos negros aos resultados dos demais estudantes no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

 

Participações

Na parte da manhã, os temas discutidos serão “Direitos humanos e os desafios da diversidade no Ensino Médio”, com a participação de Macaé Maria Evaristo dos Santos, secretária de Educação de Minas Gerais, e da jornalista Flávia Oliveira, comentarista na GloboNews e colunista de O Globo. Na mesa “Juventude em Movimento”, o debate  contará com a presença do estudante e ativista Pablo Spinelli e de Camila Gomes, do coletivo Maria Lab, além de Djamila Ribeiro, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

A sessão da tarde será iniciada pela mesa “Soluções possíveis e evidências”, que tratará de iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas na agenda racial, com Denise Carreira, da Ação Educativa; Anna Helena Altenfelder, do Centro de Estudos em Pesquisa Educação e Ação Comunitária (Cenpec); e Cida Bento, do Centro de Estudos de Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT).

O lançamento do edital será feito no encerramento do encontro pelos representantes das instituições organizadoras: Ricardo Henriques, Sueli Carneiro, do Geledés e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, e Valter Silvério, da UFScar.

 

O edital

Em sua primeira edição, em 2014, o edital recebeu 124 inscrições, de 20 estados brasileiros e do Distrito Federal e selecionou dez projetos que foram desenvolvidos ao longo de 2015. Para a segunda edição, poderão se inscrever escolas públicas de Ensino Médio ou organizações sociais em parceria com escolas públicas de Ensino Médio. Os dez projetos selecionados nesta segunda edição receberão fomento de até R$ 35 mil, contarão com monitoramento realizado pelo Fundo Baobá e serão avaliados pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

As inscrições serão realizadas por formulário online que estará disponível no período de 24 de outubro a 30 de novembro de 2016 no site do Instituto Unibanco.

 

SERVIÇO

II Seminário Gestão Escolar para Equidade – Juventude negra

Data: 24 de outubro (segunda-feira)

Horário: das 9h às 18h

Local: Praça das Artes

Av. São João, 281 – Centro, São Paulo/SP

Programação

9h Welcome coffee

 

9h30 Abertura

Hélio Santos – Baobá – Fundo para Equidade Racial

Ricardo Henriques – Instituto Unibanco

Valter Silvério – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

10h Direitos humanos e os desafios da diversidade no Ensino Médio

Flávia Oliveira – GloboNews/O Globo

Macaé Maria Evaristo dos Santos – Secretaria de Educação de Minas Gerais

11h30 Juventude em movimento

Camila Gomes – Coletivo MariaLab

Djamila Ribeiro – Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de SãoPaulo

Pablo Spinelli – Coletivo RUA e estudante de Ensino Médio

13h Almoço

 

14h Soluções possíveis e evidências

Anna Helena Altenfelder – Cenpec

Cida Bento – CEERT

Denise Carreira – Ação Educativa

Fabiana Carvalho – Instituto Federal do Ceará (IFCE)

18h Lançamento do II Edital Gestão Escolar para a Equidade: Juventude Negra

Ricardo Henriques – Instituto Unibanco

Sueli Carneiro – Geledés e Baobá (Conselho Deliberativo)

Valter Silvério – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Coluna Ubuntu: Projeto “Saúde da População Negra em foco”

O Fundo Baobá já apoiou mais de 30 projetos ao longo de sua existência e, para mostrar os resultados, perspectivas e dificuldades que cada organização enfrentou para que seu projeto fosse concretizado, decidiu criar a coluna “Ubuntu” realizando entrevistas com coordenadores/idealizadores das iniciativas para entender um pouco melhor sobre cada instituição e suas atividades.

A entrevista a seguir foi realizada com uma das coordenadoras da Associação Cultural de Mulheres Negras – ACMUN, Simone Cruz, que desenvolve um trabalho de conscientização da população negra porto-alegrense sobre um direito que pouquíssimos conhecem e utilizam: a Política de Saúde da População Negra em Porto Alegre.

A seguir, leia a entrevista completa que o Fundo Baobá fez com a ACMUN.

Fundo Baobá (FB): O que é a Associação Cultural de Mulheres Negras? Como ela surgiu?

Simone Cruz (SC): A Associação Cultural de Mulheres Negras – ACMUN foi fundada no dia 05 de junho de 1994, por um grupo de mulheres negras na Vila Maria da Conceição, periferia de Porto Alegre, vinculadas as Agentes Pastorais Negras (APNs) com a missão de desenvolver ações para o fim da discriminação de gênero, raça e etnia a partir da valorização e promoção da população negra, em especial das mulheres negras.

FB: Por que o foco da ACMUN são mulheres? Qual foi a necessidade de envolver esse público específico neste projeto?

SC: A ACMUN foi criada por mulheres negras, à qual sempre houve o entendimento de que essa população necessitava de um olhar especifico sobre suas questões devido ao fato de vivenciar inúmeras formas de discriminações por ser mulher e negra. Por fazerem parte dos dois grupos, somente as mulheres negras são capazes de saber e sentir o que é viver com o racismo e machismo simultaneamente.

FB: Quais são as principais atividades realizadas pelo projeto da ACMUN?

SC: Durante o desenvolvimento do projeto, as principais ações realizadas foram a aplicação de enquetes junto à comunidade negra e usuárixs do SUS, a fim de saber dessxs pessoas se elxs tinham conhecimento sobre a existência da Política de Saúde da População Negra em Porto Alegre e qual a avaliação sobre a mesma. Também realizamos entrevistas no centro da cidade com a população negra para elaboração de um vídeo que foi postado no Facebook (clique aqui para assistir), assim como uma publicação online com os dados coletados das enquetes, e um seminário de lançamento tanto do vídeo quanto da publicação.

FB: Quais foram as principais dificuldades que a Associação encontrou/encontra?

SC: Durante o desenvolvimento do projeto não tivemos grandes dificuldades para sua execução. A não ser o fato de que, inicialmente, havíamos definido trabalhar com usuários e trabalhadores da saúde, entretanto estes últimos foram excluídos da proposta devido a burocracia para a realização das entrevistas no seu ambiente de trabalho. O mais importante foi o fato de que, priorizando o projeto com os usuários, não perdemos o principal objetivo do projeto que foi contribuir com a implementação da Política de Saúde da População Negra em Porto Alegre.

FB: Quais foram/foi a(s) maior(es) surpresa(s) que o projeto trouxe para a Associação?

SC: Talvez não foram exatamente surpresas, mas verificamos que durante as enquetes realizadas com a população negra nas oito regiões de saúde de Porto Alegre, 75% das pessoas entrevistadas foram mulheres, o que confirmou que são as mulheres que mais utilizam o serviço de saúde público. Também o fato de que 79% das pessoas entrevistadas nunca tinham escutado falar sobre a política – isso já era previsto –, mas 86% avaliaram que a existência dessa política como “boa” ou “ótima”.

FB: Como vocês souberam do Fundo Baobá e do parceiro TIDES?

SC: Ficamos sabendo do Fundo Baobá através de outras entidades do movimento negro, mais especificamente quando foi criado. Foi uma noticia muito importante para todas as organizações negras! Já o parceiro TIDES, a ACMUN teve conhecimento pelo Fundo Baobá, a partir deste apoio.

FB: De onde surgiu a necessidade de apresentar um projeto como o da ACMUN para o Fundo Baobá?

SC: A não implementação da Política de Saúde da População Negra sempre foi uma questão que os movimentos sociais negros lutam desde a criação da Política. No entanto, uma vez que os governos realizam ações que entendem e implementam a Política, mas, de fato, não atingem a população negra usuária do SUS, foco desta política. Os dados não modificam (não baixam), o que significa que a Política, ao entendimento da ACMUN, apesar de ter sido criada há exatamente 10 anos atrás, não tem sido implementada efetivamente, pois ainda há uma grande parte da população que desconhece o benefício. Por isso, nossa proposta foi comprovar esse desconhecimento e mostrar para a gestão da saúde que são necessárias estratégias de implementação que atuem diretamente com xs usuárixs.

FB: Por que é importante levar a informação da Política de Saúde da População Negra para usuários do SUS?

SC: Porque entendemos que a população, por ser beneficiária direta desta Política, tem o direito de saber de sua existência para que possa exigir seus direitos. Nossa estratégia com essa proposta é só o inicio para levar o conhecimento desta Política à população. Precisamos que a gestão crie estratégias para que de fato a política faça diferença positiva na vida e na saúde da população negra.

FB: O que dificulta o acesso à essas informações?

SC: Acreditamos que seja o fato da própria existência do racismo em nossa sociedade. Ainda é muito difícil o reconhecimento da população de que exista racismo no SUS, fato que determinou a criação da Política. É complicado porque uma parte da população nega a existência do racismo, mas o pratica e isso não é diferente no âmbito da saúde. A mesma prática é utilizada pelos trabalhadores de saúde (médicxs, enfermeirxs, técnicxs e todos os demais trabalhadorxs envolvidos no atendimento).

FB: Qual era o cenário da comunidade antes da doação e da implementação do projeto e qual é o cenário atual?

SC: Este projeto realizou intervenções e abordagens com a população negra, residente de Porto Alegre e de todas as regiões de saúde da capital. Pelo fato de ter sido executado com 400 pessoas, em média, não temos como medir ainda o impacto que ele teve. Mas temos um dado que para nós é importante sobre o alcance da informação que levamos sobre a existência da Política: ao verificarmos no Facebook o vídeo que postamos a respeito da Política – no qual são entrevistadas pessoas nas ruas dizendo se a conhecem ou não –, verificamos que já tivemos um alcance de mais de 7 mil pessoas alcançadas.

FB: Como você vê o futuro das pessoas envolvidas nesse projeto a médio/longo prazo?

SC: Apesar de entendermos que esta tenha sido uma ação com resultados a longo prazo e que necessita de várias outras ações, um prognóstico positivo de que as pessoas, população negra, usuária do SUS, passarão a questionar mais a execução da política na sua prática diária, sobretudo a partir da qualidade do atendimento.

FB: Qual a sua expectativa para esse projeto?

SC: O projeto já foi finalizado e esperamos que ele alcance cada vez mais a população negra de forma direta, na qualidade do atendimento da saúde pública.

FB: Quais são os próximos passos?

SC: Recebemos apoio adicional para execução de mais seis meses do projeto, na qual criaremos pequenos vídeos de 5 a 7 minutos explicado sobre doenças que afetam de maneira diferente a população negra. Os vídeos serão temáticos sobre Diabetes e Hipertensão; Tuberculose; HIV/AIDS; e Doença Falciforme.

FB: Existem novos projetos já em planejamento ou até mesmo em andamento?

SC: Os vídeos citados acima estão sendo elaborados e serão divulgados até o final de 2016, mais especificamente no mês de outubro, uma vez que o dia 27 é marcado pela Mobilização Nacional da Saúde da População Negra, e no mês de novembro, pois dia 20 é comemorado o da Consciência Negra.

FB: Qual a importância de um Fundo como o Baobá para a equidade racial para a sociedade?

SC: A criação do Fundo Baobá é importante para toda a sociedade brasileira uma vez que, por termos um fundo que apoia especificamente organizações negras, existe o reconhecimento por parte de financiadores e apoiadores tanto do racismo como da necessidade de garantir o apoio para instituições negras se consolidarem institucionalmente e, consequentemente, o fortalecimento da população como um todo.

Coluna Ubuntu: é uma palavra de origem africana e exprime a ideia de que o ser humano está ligado à sua humanidade, e, portanto, deve buscar uma sociedade igualitária. Para isso, deve colocar os ideais de respeito, cortesia, compartilhamento, comunidade, generosidade, confiança e desprendimento. O Fundo Baobá, por meio de apoio a projetos, busca praticar o Ubuntu para alcançar uma sociedade mais justa com iguais oportunidades a todas e todos.

Livro sobre o Fundo Baobá será lançado em Salvador

Obra relata o esforço de representantes da Fundação Kellogg e de lideranças do movimento negro brasileiro para criar mecanismo pioneiro no País

 

Depois do sucesso em São Paulo, o Fundo Baobá, lança no dia 12 de julho, o livro “Memórias do Baobá – Raízes e Sementes na Luta por Equidade Racial no Brasil” (Kitabu Editora, 144 páginas), em Salvador. O evento contará com a participação do Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Hélio Santos, da Diretora Executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, de um dos organizadores do livro, Amilcar Pereira, do vereador de Salvador, Silvio Humberto, e dos participantes do livro, Rosana Fernandes e Elias Sampaio.

O livro conta a história do Fundo Baobá, criado em 2011 a partir da iniciativa da Fundação Kellogg, uma fundação privada e filantrópica norte-americana, que resolveu apoiar com recursos a criação de um mecanismo inédito para promoção da equidade racial no Brasil e deixar um legado para o País.

Na época, para colocar isso em prática, um comitê programático foi formado com diferentes atores sociais envolvidos com a causa e líderes do movimento negro. Como um documentário escrito, a obra materializa a trajetória da organização por meio de 18 depoimentos de ativistas da área, integrantes do processo de construção do Fundo Baobá, seja como líderes ou participantes de grande relevância, além de consultores da Fundação Kellogg.

As entrevistas buscam mostrar como, por diferentes caminhos, cada entrevistado chegou ao processo de constituição do Baobá, considerando uma pluralidade de percepções, perspectivas e experiências.

Os organizadores do livro Amilcar Araújo Pereira, Julio Cesar Correia de Oliveira e Thayara Cristine Silva de Lima, optaram por dividi-lo em três capítulos: Articulações; Construções; e, por fim, Avaliações e Expectativas. Dessa forma, o leitor consegue enxergar a gama de articulações, debates e reflexões necessários para tornar o Fundo Baobá uma realidade. Outro recurso também permite ao leitor ter uma visão geral dos princípais marcos da luta pela equidade social: uma Linha do Tempo, desde 1888 até os dias atuais.

Os entrevistados do livro são: Ana Toni; Andrés Thompson; Antônio Nascimento; Cristina Lopes; Elias Sampaio; Hélio Santos; Joe Stewart; Luiz Alberto de Oliveira Gonçalves; Luiza Bairros; Maria do Socorro Guterres; Maria Nazaré Mota de Lima; Rosana Fernandes; Roseni Sena; Rui Mesquita Cordeiro; Selma Moreira; Silvio Humberto; Sueli Carneiro e Tarry Cristina Santos Pereira.

Se você estará em Salvador nesse dia compareça ao evento. Mas lembre-se: chegue no horário, pois as vagas são limitadas.

Dados do evento:

12/7/16 das 19h às 21h30.

Centro Cultural na Câmara dos Vereadores de Salvador

Praça Thomé de Souza, s/n, Centro, Salvador.

Nota de esclarecimento sobre o edital “Cultura Negra em Foco”

O Baobá – Fundo para Equidade Racial, em parceria com a Coca-Cola Brasil, lançou o edital “Cultura Negra em Foco” em janeiro de 2016 com o objetivo de selecionar organizações com ou sem fins lucrativos que desenvolvam projetos inovadores na divulgação da cultura e da identidade negras no Brasil. Esse edital, financiado pela Coca-Cola Brasil, foi estipulado que seriam destinados até R$ 400 mil que seriam divididos entre 10 instituições que receberiam até, no máximo, R$ 40 mil cada.

Para a escolha dos projetos, foi composta a Comissão de Seleção, formada por representantes indicados pela Coca-Cola Brasil e pelo Fundo Baobá. Além disso, a apuração contou com assessoria de uma consultoria especializada e verificação documental dos pré-aprovados antes da divulgação final.

Os critérios técnicos que foram utilizados para a seleção dos projetos foram: capacidade de promover a cultura e a identidade negra; a presença de afrodescendentes na coordenação e no desenvolvimento dos projetos; o alcance do impacto dos recursos; inovação; e sustentabilidade.

O edital foi divulgado em todas as mídias possíveis, como Facebook e saiu em mais de 30 sites como GIFE, Instituto Ethos e Prulare. O Fundo Baobá preza pela transparência e sua equipe notou apenas agora que o montante total não foi colocado dentro do edital e nem deixou claro quantas organizações seriam contempladas com o prêmio de, no máximo, R$ 40 mil no próprio edital. Deste modo foi aberto espaço para que as organizações participantes pensassem que poderiam haver mais de 10 projetos contemplados.

O Fundo Baobá esclarece a todos e todas a dubiedade gerada em relação a esse ponto no edital e se compromete a ser mais específico n a criação dos próximos editais. O Fundo Baobá preza pela transparência e acredita que ela é fundamental para a construção de uma sociedade mais equânime e justa. Além disso, a alta participação da população que superou as expectativas, motiva o Fundo Baobá a continuar com seu trabalho e buscar novas parcerias para que editais possam beneficiar mais pessoas.

Para eventuais dúvidas, por gentileza, contatar a equipe Baobá pelo e-mail baoba@baoba.org.br, pelo site ou pelo Facebook.

Veja o resultado Edital “Cultura Negra em Foco”, parceria do Fundo Baobá com a Coca-Cola Brasil!

Edital “Cultura Negra em Foco” recebeu 900 propostas entre os mais variados temas.

 

Lançado em janeiro deste ano, o Edital “Cultura Negra em Foco” teve como objetivo selecionar organizações com ou sem fins lucrativos que desenvolvam projetos inovadores na divulgação da cultura e da identidade negras no Brasil.

Ao todo serão destinados R$ 400 mil a dez iniciativas escolhidas pela Comissão de Seleção, formada por representantes indicados pela Coca-Cola Brasil e pelo Fundo Baobá, com base em critérios como: capacidade de promover a cultura e a identidade negra, a presença de afrodescendentes na coordenação e no desenvolvimento dos projetos, o alcance do impacto dos recursos, inovação e sustentabilidade.

O tema que mais recebeu proposta foi Audiovisual. Já os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia foram os que tiveram o maior número de propostas inscritas.

As organizações selecionadas no Edital “Cultura Negra em Foco” foram:

 

Associação Artística Nóis de Teatro – CE

Associação Burlantins – MG

Associação Comunitária Assentamento Gurugi II – PB

Associação Move Cultura – MG

Casa Preta – PA

Crespinhos S.A.– RJ

Bantu Cultural – SP

Black Brazil Art – RS

Fazendo Milagres Cineclube – PE

Kbra Produções Artísticas – RJ

 

Parabéns! O Fundo Baobá entrará em contato com as organizações.

Ao longo do mês de julho falaremos sobre cada projeto para que todos e todas possam conhecer um pouco mais cada iniciativa.

E fiquem de olho nas notícias de nosso site e em nossas redes sociais.

Adiamento do resultado do edital

O Fundo Baobá e a Coca-Cola Brasil agradecem a todos e a todas que demonstraram interesse e enviaram propostas ao edital “Cultura Negra em Foco”.

A chamada foi um enorme sucesso que resultou no recebimento de mais de 900 propostas. Como prezamos por um processo seletivo rigoroso, precisaremos dedicar um tempo maior do que o previsto para a análise do conjunto de propostas recebidas.

Diante disso, o resultado do processo seletivo será adiado para o dia 30 de junho de 2016. As organizações selecionadas serão contatadas por e-mail ou telefone e seus nomes serão divulgados nas mídias sociais do Fundo Baobá.