Programa Já É leva a 100 jovens negros pobres da periferia o direito de ser protagonistas de suas próprias histórias através do acesso à universidade

O direito de poder sonhar com uma vida digna. Nem toda a população brasileira tem isso. A falta dele se manifesta das mais diferentes formas. Aqui, vamos tratar do direito de ter acesso ao ensino superior. No Brasil, país de mais de 220 milhões de pessoas, nem todos têm acesso ao estudo. Os exagerados índices de pobreza, a falta de infraestrutura que gere trabalho decente e rendas compatíveis determinam que muita gente, principalmente a gente negra,  não terá acesso aos bancos escolares na tenra idade, na adolescência e na idade adulta. Essas pessoas,  de  diferentes identidades de gênero, poderão não ter gabaritação estudantil.  

O Fundo Baobá para Equidade Racial está, nesses seus quase 10 anos de existência, apontando formas de contribuir para que o Brasil alcance níveis de sociedade justa. Uma das bases de trabalho do Baobá é a Educação. Permitir o amplo acesso a ela é a meta, buscando os seguintes aspectos:    

  • Enfrentamento ao racismo institucional no ambiente escolar, tanto na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio;  
  • Projetos de vida e ampliação de capacidades socioemocionais entre adolescentes e jovens 
  • Entrada e permanência no ensino superior (investimentos em alunos e alunas do ensino médio e de cursos preparatórios)
  • Formação de lideranças políticas
  • Formação de novos quadros 

Com base nisso e com apoio da Citi Foundation,  Demarest Advogados e Amadi  e Amadi Technology, o Fundo Baobá para Equidade Racial criou o programa Já É, que vai proporcionar a 100 jovens negros e negras da periferia de São Paulo e da Grande São Paulo fazer um curso preparatório para o vestibular durante um ano (março de 2021 a março de 2022). Esses jovens, de idade entre 17 e 25 anos, que já tenham terminado o ensino médio ou  estejam cursando o último ano  em escola  pública,  terão um computador com acesso à Internet para que possam ter aulas não presenciais durante o período da pandemia; auxílio transporte e auxílio alimentação em caso de as aulas voltarem a ser presenciais. O custo das despesas com as aulas também será bancado pelo Baobá. 

Esse acesso vai proporcionar a esses 100 jovens negros e negras a possibilidade de poderem ser os artífices de suas próprias vidas ao se formar. Embora pesquisas como a realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2020 indiquem que o número de negros em cursos superiores tenha aumentado, isso em muito se deve à adoção das açõesafirmativas, como a política de cotas, que reserva aos negros uma porcentagem de vagas em cursos superiores em faculdades e universidades. Mas o caminho de chegada às faculdades tem trajeto difícil e um gargalo entre a saída do Ensino Médio para o Superior. Sem a preparação adequada, cruzar essa barreira é algo bem difícil, principalmente para quem tem histórico de carências de vida nas mais diversas ordens. O programa Já É tem foco sobre jovens de sexo masculino, jovens transsexuais, jovens mães, jovens que residem em bairros, territórios ou comunidades periféricas.

O fato de terem essa importante oportunidade de acesso ao curso superior é comemorado por importantes educadores que foram convidados pelo Fundo Baobá para Equidade Racial para fazer a seleção dos estudantes. Houve três etapas eliminatórias cumpridas pelos pretendentes: 1) Análise de Formulário de Inscrição; 2) Entrevista Individual e 3) Análise pelo Comitê de Seleção.

Um dos avaliadores convidados foi o geógrafo e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) Billy Malachias.  “A perspectiva mais direta para esses jovens é a de poder sonhar com o acesso  à universidade. Isso que é feito pelo Baobá, que é o investimento naquilo que antecede a chegada à faculdade, o acesso, é de suma importância.Já a política de cotas  é da própria instituição pública e garantida por lei. Essas duas ações (cotas e investimento) são convergentes entre si e colaboram para uma mudança do acesso de jovens negras e negros para o ensino superior”, disse. 

Billy Malachias, geógrafo e mestre em Geografia Humana – Foto: Rosana Barbosa

A pedagoga e doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense Mônica Sacramento comemora a iniciativa do Baobá. Mônica é coordenadora de projetos do Criola,  organização da sociedade civil que promove a defesa e direitos das mulheres negras. “Acho de extrema importância iniciativas que possibilitem suporte para a construção de trajetórias de jovens para mitigação dos efeitos das instituições e mecanismos de socialização e a forma como os indivíduos e grupos racializados se posicionam e são posicionados em relação a eles”, afirmou.

Mônica Sacramento, pedagoga, doutora em Educação e coordenadora de projetos do Criola

Bacharel pela USP em Matemática Aplicada a Negócios e pedagoga com especialização em Matemática, Francielle Santos é coordenadora pedagógica do Instituto Canoa, organização criada com a missão de viabilizar a formação de professores de excelência no Brasil. Como uma das avaliadoras, ela elogiou a iniciativa do Fundo Baobá. “Essa iniciativa é fundamental pela oportunidade que oferece aos jovens de aumentar as chances de acesso ao ensino superior e, portanto, de assumir posições de lideranças posteriormente. Além disso, a forma como essa proposta foi desenhada pode trazer mais informação sobre o quanto é importante contemplar de uma forma mais integral as necessidades desses jovens, por exemplo,  no que diz respeito ao acompanhamento e permanência ao longo dessa preparação”, disse. 

Francielle Santos, bacharel em Matemática Aplicada a Negócios, pedagoga com especialização em Matemática e coordenadora pedagógica do Instituto Canoa

Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, em recente live realizada pelo Women in Science and Engineering (Wise), falou sobre a importância do Já É para esses 100 jovens negros e negras. “Todos esses cuidados que tomamos no edital ajudam a entender os desafios da educação para a equidade racial, que são proporcionais à sua importância. Sem acesso à educação, um povo é condenado a repetir os mesmos padrões. Mas quando pensamos em educação para a promoção da equidade racial, precisamos levar em conta inúmeros níveis de desigualdade: Diferença de acesso; Diferença de qualidade; Diferença no conteúdo educacional; Diferença no tratamento.” 

O programa Já É, com certeza, é uma grande contribuição para que esses jovens se tornem protagonistas de seus futuros. Além do que, também é transformador na vida dos avaliadores do processo de seleção. “Eu me sinto bastante feliz em ter participado. Sempre me vejo como um agente que precisa apoiar iniciativas como essa do Fundo Baobá. Eu me vejo como alguém que colabora para transformações de vida por meio da qualidade de minha formação docente. Que é algo que contribui para que pessoas se inspirem a trilhar um caminho universitário,  acadêmico, ativista. Não é possível ser um educador sem que  a gente pense em possibilidades melhores de vida, indiscriminadamente, para todos os espaços”, afirmou o geógrafo Billy Malachias. “O convite para compor o comitê de seleção do edital, além de uma satisfação pessoal por integrar um grupo qualificado e de trajetórias profissionais tão expressivas, transforma, em alguma medida, minha trajetória individual e profissional”, afirma  Monica Sacramento, cujo pensamento é seguido por Francielle Santos: “Toda e qualquer oportunidade de conhecer os anseios, desafios, necessidades e potencialidades de jovens negros é uma experiência transformadora para mim. Essa experiência me fez renovar e ampliar as minhas razões para esperançar”, afirmou. 

Além de Billy Malachias, Mônica Sacramento e Francielle Santos, também fizeram parte da comissão de seleção do Já É, a pedagoga com habilitação em Orientação Educacional pela Universidade Federal do Maranhão, Socorro Guterres, membro da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial e Milton Alves dos Santos, pedagogo formado pela USP, com atuação nas temáticas da juventude e da infância.

Milton Alves dos Santos (pedagogo e membro da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial) e Socorro Guterres (pedagoga)

Demarest Advogados é apoiador do programa Já É e vai acompanhar desempenho de jovens estudantes negros que poderão ser contratados no futuro

Um dos grandes escritórios de advocacia do Brasil, o Demarest, sediado em São Paulo, é apoiador do Fundo Baobá para Equidade Racial na realização do programa Já É, que vai incentivar 100 jovens negros entre 17 e 25 anos no acesso à faculdade. Esses jovens de regiões periféricas da cidade de São Paulo e da Grande São Paulo vão receber bolsa de estudos para frequentar aulas virtuais (enquanto durar o processo de pandemia) em um cursinho. A duração da bolsa é de um ano, válida no período de março de 2021 a março de 2022.

O Demarest Advogados possui um forte programa de inclusão e combate ao racismo em seu DNA. A aproximação com o Fundo Baobá reforça ainda mais isso. Em 2016, a empresa implantou um exercício de discussão entre seus funcionários sobre equidade racial. Esse exercício culminou na criação, em 2018, do D Raízes, programa para aguçar a percepção e criar ações para promover a luta antirracista. “Tinhamos que garantir que esse posicionamento fosse refletido na nossa forma de fazer negócios”, destaca Paulo Coelho da Rocha, sócio do Demarest nas áreas de Fusões e Aquisições, Capital Privado e Capital de Risco. 

Paulo Coelho da Rocha, sócio do Demarest nas áreas de Fusões e Aquisições, Capital Privado e Capital de Risco

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e com especialização em Direito Corporativo pela New York University (NYU), Paulo conta como se deu a aproximação com o Fundo Baobá e o apoio ao programa Já É: “Por meio dos congressos e  atuação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), conhecemos o Fundo Baobá. A partir daí, acompanhamos o desenrolar dos projetos desenvolvidos pelo Fundo e assim que tivemos a oportunidade de realizar um investimento em um projeto social de impacto entramos em contato para estabelecer a parceria”, afirmou.

Um levantamento informal entre os escritórios associados ao Centro de Estudos das Sociedades dos Advogados (CESA), realizado em 2017, identificou que menos de  1% dos advogados se autodeclararam negros. É urgente atuar na agenda de inclusão dos profissionais negros em nosso segmento”, declara Paulo. No caso do Demarest, uma das bancas de direito mais conceituadas do país, com cerca de 650 funcionários, 17%  (110) se declararam negros em um levantamento interno. Entre os que se declararam negros, 58% (64) são mulheres e 42% (46), homens.  Nesse contexto, apoiar um projeto educativo e transformador na vida desses 100 jovens negros tem um significado plural para o escritório. 

Os 100 jovens negros integrantes do programa Já É serão acompanhados pelo Demarest quando alcançarem a faculdade. Alguns poderão até fazer parte do corpo de advogados no futuro. “Queremos estar próximos e monitorar sim. Mostrar a carreira jurídica para ajudá-los nessa fase de definição profissional, apresentar o escritório e colaboradores que poderão inspirá-los em suas trajetórias”, afirmou Coelho da Rocha, para quem há um grande propósito no apoio a um programa como o Já É: “Alinhar o nosso propósito às boas práticas de investimento social privado e reforçar o nosso compromisso com a causa. Acreditamos que somos protagonistas das transformações sociais que estão em curso e apoiar esses jovens é, sem dúvida, uma forma de materializar essa crença”, concluiu Paulo.

Jornalista narra as histórias de apoiados do edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19

Diante da maior crise de saúde pública mundial, a pandemia do novo coronavírus, o Fundo Baobá para Equidade Racial lançou, no dia 6 de julho de 2020, o edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19. Em parceria com Imaginable Futures, Porticus América Latina e Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, ele tinha o objetivo de selecionar iniciativas de apoio a famílias que, em seu núcleo, tivessem: crianças de 0 a 6 anos, mulheres e adolescentes grávidas, mulheres que deram à luz, homens responsáveis e corresponsáveis pelo cuidado de crianças de 0 a 6 anos.

O edital recebeu 200 inscrições e divulgou, no dia 25 de setembro, a lista com as 54 iniciativas selecionadas, idealizadas por profissionais da área da saúde, educação e serviço social.

Para mostrar o impacto positivo que o programa trouxe para as famílias apoiadas, o Fundo Baobá iniciou no ano de 2021 o projeto “Edital Para Primeira Infância no Contexto da Covid-19: As Histórias”. Postado diariamente no site do Fundo Baobá e replicado nas redes sociais da organização, o projeto engloba  18 matérias produzidas com as 54 pessoas apoiadas, narrando as transformações realizadas pelo o apoio do edital.

Quem esteve à frente do projeto e produziu as 18 matérias foi a jornalista Eliane de Santos. Com passagens pelos principais jornais do Rio de Janeiro, como O Dia, O Povo e Jornal do Brasil e, posteriormente, migrando para o telejornalismo, trabalhando na TV Brasil, Canal Futura e TV Escola, Eliane tem experiência quando o assunto é trazer vida e sensibilidade para o texto.  

Eliane, que conhecia o trabalho do Fundo Baobá, acompanhando notícias e posts ligados ao movimento negro, teve a oportunidade de se aprofundar na trajetória da organização e, principalmente, ver as transformações que os editais realizam na vida da população em condições de vulnerabilidade. Cada matéria contou com o depoimento de três membros de três iniciativas apoiadas, sendo eles de diferentes regiões do país. O critério de seleção utilizado por Eliane de Santos, para montar os textos foi bem objetivo: “Busquei afinidades entre eles, como por exemplo a mesma profissão, a mesma localização, as mesmas ações selecionadas e as mesmas causas”.

Eliane de Santos, jornalista

Entre as muitas histórias ouvidas e registradas, Eliane cita três casos, em especial, que lhe sensibilizaram: “A assistente social Amanda Cristina, de Ananindeua, no Pará, venceu barreiras como o preconceito e a pobreza para informar e apoiar meninas, várias delas gestantes, vítimas de violência”. Voluntária do Centro Social Estrela Dalva, umas das muitas associações que buscam apoiar os moradores de ocupações de Curuçambá e populações ribeirinhas próximas, Amanda Cristina ficou sabendo do edital pelo Instagram do Fundo Baobá: “Decidi participar, porque queria levar informação de forma lúdica e com uma linguagem acessível para essas meninas”. Ao lado da também assistente social Regeane Holanda do Carmo, as duas ofereceram também muito carinho e atenção, por meio de rodas de conversa e visitas individualizadas nas casas das adolescentes. Através desse trabalho chegaram até 20 garotas e 10 adultos: “Não foi fácil falar sobre sexualidade, uso de contraceptivos e relacionamento amoroso, por exemplo. Primeiro porque havia a necessidade de um responsável por perto, o que as deixava constrangidas, e porque muitas vezes esses temas não eram bem-vindos pelos pais. Mas nós conseguimos levar informações do ECA (Estatuto da Criança do Adolescente) por meio de cartilhas – informações que elas terão para sempre”.

Projeto de Amanda Cristina, Ananindeua (PA)

Eliane cita a trajetória de mais duas entrevistadas: “Heloisa Ferreira da Silva, de Salvador, que espalhou cartazes pelos postes de Engenho Velho de Brotas, para convocar interessados e divulgar as atividades para aqueles que não tinham celular com internet, ou ainda a força de vontade de Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, de São Paulo, que sem trabalhar na pandemia se reinventou para acolher outras mães que como ela estavam desempregadas, respeitando o isolamento social e à beira de um ataque de nervos”.

A pedagoga baiana Heloisa Ferreira da Silva, perdeu o emprego no momento em que a pandemia do novo coronavírus se disseminou pelo país: “Eu havia sido aprovada em uma seleção pública e em uma instituição privada, para trabalhar como professora e coordenadora escolar. Mas veio a pandemia e não fui convocada por nenhuma das duas”. Quando soube do edital Primeira Infância, rapidamente se inscreveu para contribuir de alguma forma com o bem-estar de moradores do bairro do Engenho Velho de Brotas, porém, no meio do caminho ela encontrou inúmeras dificuldades: “Fui ao Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), expliquei as minhas intenções de prestar orientações pedagógicas para crianças de 0 a 6 anos e apoiar as mães que, como eu, estavam sem trabalhar, preocupadas com a educação dos filhos em casa. Fui orientada a não fazer o projeto”.  

A única saída para Heloisa seria percorrer a comunidade apresentando as propostas, colando cartazes e cadastrando os interessados: “Mudei a estratégia de divulgação. Busquei parceiros no bairro e adjacências, como o Mídia informativa Nosso Engenho, o bloco afro Os Negões, a Associação Santa Luzia, o Terreiro Ilê Axé Aji Ati Oya e o portal A gente educa”. Dessa forma, Heloísa teve o contato de 50 famílias, atendendo um total de 150 crianças, e como a grande maioria não tinha acesso às redes sociais a divulgação da chegada dos kits pedagógicos com caixa de lápis de cor, borracha, massinha de modelar e jogos de coordenação motora, entre outros itens que variavam de acordo com a faixa etária, foi feita no popular boca a boca: “Eu sempre senti a necessidade de apresentar para a sociedade uma educação que respeita as diversidades e atende com equidade. O Fundo Baobá abriu caminhos para eu iniciar a prática deste apoio comunitário e não vou parar!”.

Projeto de Heloisa Ferreira da Silva, Engenho Velho de Brotas (BA)

Também desempregada, a professora de dança, Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, São Paulo (SP), encontrou no edital a motivação que precisava, além de um caminho para estimular outros brasileiros a manterem seus corpos e mentes saudáveis: “Notei que as crianças, os responsáveis, as mulheres grávidas e puérperas sofriam muito com o distanciamento social. Percebi também que o poder público não desenvolveu ações para auxiliá-los nesse período. A instabilidade estava aumentando a ansiedade entre os pequenos e expondo os adultos à depressão, síndrome do pânico e outras doenças emocionais/psicológicas”. O seu projeto consiste em oficinas virtuais de ballet infantil (02 a 06 anos), alongamento para gestantes e puérperas, ballet e jazz para adultos. Ao todo, 30 pessoas se beneficiaram com a iniciativa e indicaram para pessoas em outras cidades, que desejam saber se Jaqueline formará mais turmas remotas. Mesmo depois da pandemia: “Algumas mães comentaram que as filhas ficaram menos ansiosas com as aulas de ballet infantil, e que perceberam melhora também na coordenação motora e na postura das meninas. Já algumas gestantes enviaram mensagens, reportando que as aulas de alongamento as ajudaram a dormir melhor”.

Projeto de Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, São Paulo (SP)

Para Eliane de Santos, contar a história de Jaqueline, Heloísa, Amanda e de outros 51 apoiados pelo Primeira Infância, foi revigorante: “Todos os participantes do edital me ensinaram alguma lição e merecem o meu respeito”. A jornalista também fez questão de ressaltar importância de uma iniciativa como esse edital: “Classifico o edital Primeira Infância do Fundo Baobá como uma ferramenta de transformação social, como mais uma prova de que, pessoas comprometidas com a sua missão profissional, têm muita força para impactar vidas positivamente”.

Os primeiros relatos já foram publicados no site oficial do Fundo Baobá, e você pode acompanhar por aqui, enquanto os outros textos serão postados diariamente.

De marca de roupas à criação de políticas públicas, conheça o Jovens Periféricos

No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus e a partir do dia 14 de março, as principais capitais do país aplicaram medidas de isolamento social para conter o avanço da doença e evitar o colapso no sistema único de saúde. À partir daquele momento, o mundo assistia uma das maiores crises de saúde pública já existentes, e claro que tudo isso iria reverberar nas pessoas em condições de vulnerabilidade. 

Nesse contexto, o Fundo Baobá para Equidade Racial lançou no ano de 2020, cinco editais voltados para apoiar os segmentos mais afetados pela pandemia no Brasil. O primeiro foi o “Edital Apoio Emergencial para Ações de Prevenção ao Coronavírus”, lançado no dia 5 de abril, e que contou com a parceria da Fundação Ford.  Em apenas 12 dias, o edital recebeu 1.037 inscritos de todas as regiões do país. Nesse total, 387 eram iniciativas de organizações sociais e 650, de indivíduos. Após uma análise minuciosa da organização, o Fundo Baobá divulgou em três listas um total de 350 projetos selecionados, sendo 215 de indivíduos e 135 de organizações. Cada iniciativa recebeu até R$ 2,5 mil para ações de prevenção em comunidades periféricas de difícil acesso e populações vulneráveis. O total investido no edital foi de R$ 870 mil.

À partir dessa edição do boletim, nós iremos retratar alguns dos projetos apoiados pelo edital Doações Emergenciais, mostrando como esse programa impactou a vida das pessoas nas comunidades beneficiadas e como a filantropia é um dos caminhos para promoção da equidade racial em nosso país. 

Um deles é o projeto Jovens Periféricos, que surgiu em 2016 em Salvador (BA), a partir da cabeça do seu idealizador, o jovem Jadison Palma, 26 anos. A princípio, ele criou uma marca de roupas com a sigla JP, as iniciais do seu nome e sobrenome. O primeiro evento da JP foi uma exposição de camisas criadas por ele. O desfile de moda realizado em seu bairro atraiu a presença de mais de duas mil pessoas e com isso, foram surgindo outros convites para participar de eventos artísticos-culturais, o que levou Jadison a mudar a vertente da marca e o direcionamento do projeto JP para Jovens Periféricos.

Jadison Palma, coordenador do projeto Jovens Periféricos

O projeto Jovens Periféricos nasceu no Fazenda Coutos III. Ao mesmo tempo que se trata do bairro mais negro de Salvador, com a população negra local representando 90,57% do contingente 24 mil habitantes, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE), por outro lado, o mesmo IBGE, junto com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), lista o Fazenda Coutos um dos mais perigosos de Salvador. No mapa da violência, apresentado pelo estudo, que traz a referência da ONU da taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes por ano, o Fazenda Coutos ocupa o segundo nível mais negativo. Assim compreende-se a dimensão, potência e relevância do trabalho do Jovens Periféricos, que hoje também atua nas regiões de Plataforma e no Pelourinho, sempre aumentando o número de participantes: “Hoje o projeto atende cerca de 380 alunos cadastrados, mas na fila de espera tem quase 200”, explica o diretor e fundador Jaison Palma. “Como a gente ainda não tem um espaço físico amplo para poder incluir toda essa galera, então a gente trabalha com turmas divididas em dias alternados”.

O trabalho realizado pelo projeto Jovens Periféricos consiste em oficinas e aulas de diversas linguagens artísticas: “O projeto hoje envolve teatro, moda, música, dança, fotografia, aulas de inglês e qualificações profissionais”, além de contribuir com os primeiros passos para a carreira acadêmica e profissional, através de parcerias com instituições de ensino superior: “Temos parcerias com faculdades, onde a gente viabiliza os jovens que já estão terminando o ensino médio, ou que já terminou, para entrar na vida acadêmica. Temos também parcerias com algumas faculdades e instituições que às vezes nos cedem algumas vagas de emprego, onde a gente pode encaminhar esses jovens”. 

Turma de alunos do Jovens Periféricos em um ensaio fotográfico

E foi justamente com essas ações transformadoras que os caminhos dos Jovens Periféricos e do Fundo Baobá para Equidade Racial se encontraram no edital Doações Emergenciais: “O Fundo Baobá nos proporcionou muitas coisas boas, principalmente para a nossa comunidade. Hoje os Jovens Periféricos é conhecido de uma forma grandiosa, por causa de ações que a gente faz, então o fundo emergencial, que a gente ganhou do edital, deu pra poder ajudar muitas famílias”. Ao inscrever a iniciativa no edital, Jadison afirmou que projeto ajudaria 40 famílias em condições de vulnerabilidade: “Os nossos critérios de avaliação para contemplar cada família incluiam uma análise de situação das pessoas: se elas estavam sem trabalhar, se havia uma necessidade maior de ter alimento dentro de casa e de ter higiene básica. Então fizemos esse mapeamento e chegamos a essas 40 famílias, buscando esses pré-requisitos”. Contemplados, o grupo partiu para ação: “A gente fez diversas doações de alimentos, de cestas básicas e produtos de higiene, e assim conseguimos alcançar esse pessoal em situação de vulnerabilidade social, em tempos de pandemia, que ainda estamos vivendo”. A vontade era de ajudar ainda mais, mas Jadison acredita que fez o que foi possível diante da situação: “A gente sabe que existem muitas comunidades ainda que precisam ser alcançadas, mas agradecemos também pela oportunidade de ter atingido diretamente quem precisava e de ter gerado um impacto positivo nessas famílias que a gente alcançou através do Fundo Baobá”.

Ação do Jovens Periféricos com o apoio do edital Doações Emergenciais

Jadison Palma frisou a importância de um edital como o Doações Emergenciais na promoção da justiça social: “Todo o processo de doação causou uma determinada emoção. Hoje a gente vive em um país que tem uma desigualdade muito grande, um índice de desemprego muito grande, além da questão do racismo também. Com a chegada da pandemia, mudou toda a logística da nossa sociedade, então tem pessoas que realmente estão passando fome, estão com dificuldades financeiras, então toda contribuição que a gente puder receber e, com isso, poder alcançar essas pessoas, já traz uma emoção de ambas as partes, tanto pra gente que tem o prazer em ajudar, e tanto daquelas pessoas também, que tem o prazer em receber e ver que elas não estão esquecidas, que tem pessoas ali que estão esperando somente a oportunidade  de ajudar. A gente agradece muito o Fundo Baobá pela oportunidade de conhecer vocês, de trabalhar e receber essa gratificação para que a gente pudesse levar o bem para o nosso povo”.

Ação do Jovens Periféricos com o apoio do edital Doações Emergenciais

De uma marca de roupas até o compromisso de ações sociais para famílias em condições de vulnerabilidade, diante de uma pandemia global, essa é trajetória do projeto Jovens Periféricos, que há cinco anos trabalha no que acredita: “A ideia do Jovens Periféricos é ser um projeto de inclusão, gerando oportunidades para essa juventude preta e periférica”, reforça o seu diretor Jadison Palma.  

Kits de cestas básicas que foram entregues pelo Jovens Periféricos para as famílias do Fazenda Couto III (BA)

Para conhecer melhor o trabalho realizado pelos Jovens Periféricos acesse o site oficial e o Instagram.

Trajetória do Fundo Baobá é destaque no programa Trace Trends

No dia 19 de janeiro, o Fundo Baobá para Equidade Racial teve a sua trajetória apresentada no programa Trace Trends, na Rede TV.

Apresentado por Alberto Pereira Jr. em parceria com a Xan Ravelli, o programa exalta a cultura negra brasileira, através da música, entre outras linguagens, além de entrevistar personagens que contribuem com essa proliferação negra no país. Sendo assim, a diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, foi entrevistada no quadro Afronegócios, voltado para o empreendedorismo negro.

Logo no VT inicial, temos uma imagem, retirada do nosso vídeo institucional, contando com a fala inspiradora da nossa fundadora, e membro do conselho deliberativo, Sueli Carneiro:  “O Baobá vem para apoiar o ativismo, a militância e as organizações que estão comprometidas com a promoção da equidade racial”.

Em sua fala, Selma Moreira fez questão de apresentar a organização: “O Fundo Baobá é uma iniciativa baseada na necessidade da nossa sociedade brasileira de promover ações específicas para a população negra, em função da desigualdade e do racismo existente”.

Ao ser questionada sobre o que é equidade racial e qual o papel do Fundo Baobá diante disso, Selma enfatizou: “Equidade racial é fundamental para gente pensar no nosso processo de desenvolvimento em toda sociedade. Não se pode pensar em um país que se desenvolva, que tenha possibilidade de progresso, à partir da não-inclusão. Portanto, quando a gente fala da equidade, a gente fala de promover condições de desenvolvimento e acesso a todas possibilidades de uma maneira justa”. Na ocasião, a diretora-executiva falou dos quatro eixos programáticos que são os pilares da organização: Viver com dignidade, desenvolvimento econômico, educação e comunicação e memória. “Quando a gente fala desses eixos, falamos das temáticas que estão conectadas com a nossa missão institucional e com a necessidade apresentada pelo campo social no Brasil. Então quando a gente olha para o processo de desenvolvimento à partir de investimentos locais em lideranças e organizações sociais negras, para que eles possam desenvolver ações e trabalhos dentro dos quatro eixos programáticos prioritários, a gente está executando a nossa missão e dialogando com o que a gente acredita e que possa contribuir para a transformação sistêmica do nosso país”.

Selma também foi perguntada sobre o trabalho do Fundo Baobá, em 2020, diante da pandemia do novo coronavírus: “Nós desenvolvemos editais emergenciais de apoio a comunidades em situação de vulnerabilidade”, relembrando dos editais Doações Emergenciais e o edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19.   

A matéria encerra com um mais um VT do nosso vídeo com a fala do ex-presidente do conselho deliberativo, Hélio Santos “Portanto eu vejo a longo prazo o Baobá como um instrumento importante, tendo o compromisso com a consolidação da democracia no Brasil”.

A entrevista completa, você confere aqui

A participação da Selma Moreira no no programa Trace Trends, foi destaque no Portal Segs.

 

Apoiados do Fundo Baobá são destaques na mídia

Karen Franquini e Luciane Reis, ambas apoiadas pelo Fundo Baobá no edital Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, foram destaques na imprensa em janeiro.

A engenheira da produção carioca, Karen Franquini, foi entrevistada pelo portal de empreendedorismo Projeto Draft, falando da sua trajetória como bolsista universitária na PUC-Rio e as dificuldades de ingressar no exigente mercado de trabalho: “Sou uma mulher negra e de origem periférica, então essa oportunidade (no ensino superior) foi muito importante. Mas eu não tinha inglês fluente, intercâmbio, nenhuma experiência relevante na área e nenhuma especialização”. À partir do momento que ela começou a analisar a sua trajetória e a de outros jovens com o mesmo perfil, Karen entendeu que não bastava apenas se capacitar, que era preciso que as empresas adotassem processos de seleção mais inclusivos. E foi justamente a partir dessa ideia que ela fundou a Ganbatte, um negócio social que conecta micro e pequenas empresas a jovens diversos. Sendo apoiada do Programa Marielle Franco, Karen destacou a importância do apoio na consolidação da Ganbatte: “Com esse apoio, comecei a me desenvolver, fiz várias formações de mentoring e coach, e abri, em setembro deste ano, meu segundo negócio, minha marca pessoal, focada em mentoria de carreiras”.

Karen Franquini, engenheira de produção e fundadora da Ganbatte

Para ler a matéria completa e saber mais sobre a trajetória da Karen e o trabalho realizado pela Ganbatte, veja aqui.

A publicitária formada pela Universidade Católica do Salvador, especialista em Produção de Mídias para Educação Online – SEAD/UFBA, mestranda em Desenvolvimento e Gestão Social – CIAGS/UFBA e presidente do Merc’afro (uma plataforma voltada ao empreendedor negro na diáspora), Luciane Reis, foi destaque no Portal Soteropreta, com o “Projeto Owodúdù Empreendedorismo Negro”, que tem o intuito de contribuir para o fortalecimento, crescimento e visibilidade dos empreendedores negros e negras da região metropolitana de Salvador durante e pós pandemia provocada pelo Covid-19. Na ocasião, o projeto promoveu um curso gratuito e completamente virtual, com carga horária de 32 horas, contando com especialistas da temática afroempreendedora do Brasil, que articulam a Escola Nacional – PROMOAFRO. Além do curso, os inscritos contarão com acompanhamento técnico de desenvolvimento, durante três meses, com a finalidade de acelerar os seus negócios.

Luciane Reis, publicitária e idealizadora do Projeto Owodúdù Empreendedorismo Negro

Além de Luciane Reis, faz parte da organização o especialista em marketing digital, Marlon Rodrigo Malachias.

Para saber mais sobre a iniciativa, basta ler a matéria completa aqui.


Fundo Baobá na imprensa em janeiro:

19/01/2021 – Divulgação do Trace Trends, que teve a participação da Selma Moreira:
https://www.segs.com.br/eventos/271793-grupo-menos-e-mais-e-o-convidado-desta-terca-feira-19-01-do-trace-trends 

19/01/2021 – Fundo Baobá no Trace Trends:
https://www.facebook.com/fundobaoba/videos/2808488252744665

 

Matérias sobre apoiados do Fundo Baobá

11/01/2021 – Karen Franquini – Apoiada do Programa Marielle Franco: https://www.projetodraft.com/diversidade-nao-e-so-discurso-a-ganbatte-quer-ajudar-a-sua-empresa-a-contratar-jovens-perifericos/ 

27/01/2021 – Projeto Owodúdù Empreendedorismo Negro realiza curso virtual!:
http://portalsoteropreta.com.br/projeto-owodudu-empreendedorismo-negro-realiza-curso-virtual/

Edital Primeira Infância valorizou a experiência de profissionais que atuam em áreas estratégicas

A bacharel em psicologia Alessandra Danielly Cruz tem 25 anos, mas já adquiriu bastante experiência de vida atuando como técnica social de um Centro de Referência da Assistência Social, na região de Orobó, em Pernambuco; vendo de perto a precariedade dos serviços voltados para as famílias e para a primeira infância nos territórios quilombolas. No exercício da profissão uma coisa sempre a incomodou bastante: os casos de violência doméstica, que aliás aumentaram em muitos lares durante a pandemia e as medidas de confinamento, quando as mulheres passaram a ficar mais tempo em contato com potenciais agressores. 

Projeto da Alessandra Danielly Cruz das comunidades Quilombolas Águas do Velho Chico (PE)

 “Essa violência ainda é vista de forma naturalizada, como algo que ‘a mulher procurou”, pois não existem ações governamentais efetivas voltadas para o tema dentro do território. Entendo a importância do ambiente saudável para a formação de uma criança saudável, então quis levar até as famílias cadastradas algum conhecimento acerca das violências existentes no seio familiar e suas consequências para o desenvolvimento infantil”.

O Fundo Baobá, através do Edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19, incentivou Alessandra na missão. O período para o cadastramento coincidiu com as últimas eleições municipais, o que atrapalhou um pouco o contato com as famílias que vivem nas comunidades Quilombolas Águas do Velho Chico. Mesmo assim chegou até 25 mães e 25 crianças de 0 a 6 anos.

Projeto da Alessandra Danielly Cruz das comunidades Quilombolas Águas do Velho Chico (PE)

 

“Houve a oferta de escutas psicológicas, com o intuito de trabalhar a saúde mental das mães. Elas apresentaram seus medos diante da pandemia, os desgastes físicos e mentais, a mudança na rotina, entre outras questões”, conta.

As escutas aconteceram por meio de videochamadas. E à distância também foram propostas atividades infantis, relacionadas ao desenvolvimento físico-motor, cognitivo e emocional. Alessandra gravou vários vídeos explicando o que é primeira infância, a importância na estimulação e as características de cada faixa etária. Na sequência encaminhava algumas práticas para os pais aplicarem com os filho, fortalecendo assim os vínculos familiares. Alessandra diz que receptividade foi muito boa:

“Eu recebi muitos agradecimentos pela iniciativa. As mães relataram anseios no que se refere à formação dos filhos, o medo de não estarem atuando de forma satisfatória para o desenvolvimento deles. O projeto me fez perceber o quanto a minha comunidade é carente de informação e de serviços, e enxergar como, enquanto profissional e pertencente ao local, eu posso fazer mais pelo meu povo”.

Alguns dos trabalhos de apoio à primeira infância, feito pela Alessandra Danielly Cruz das comunidades Quilombolas Águas do Velho Chico (PE)

Desde o início das medidas de isolamento social, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) tem percebido mês a mês redução de uma série de crimes contra as mulheres em diversos estados. Sinal, segundo o próprio FBSP, de que as vítimas estão encontrando mais dificuldades em denunciar as violências sofridas. 

No município de Centro Novo do Maranhão, a assistente social Bruna Rafaelly Cavalcanti da Cruz, 36, percebeu essa tendência no dia a dia profissional. 

“Passamos a receber mais relatos de violência doméstica, porém através de terceiros. Não por quem sofreu a agressão”, comenta Bruna, lembrando ainda que a cidade tem muitas famílias em situação de vulnerabilidade social, o que favorece o cenário da violência doméstica.

Projeto da Bruna Rafaelly Cavalcanti da Cruz – Centro Novo do Maranhão (MA)

Era preciso agir e a doação emergencial do Baobá chegou na hora certa para aproximadamente 150 pessoas de 20 famílias, que receberam visitas domiciliares cercadas de cuidados:

“Contei com uma psicóloga e uma nutricionista na equipe. Dividimos a execução do projeto em duas etapas na primeira realizamos um trabalho socioeducativo voltado para a prevenção e combate da COVID 19, e assuntos relacionados aos impactos da epidemia da doença. A segunda etapa constou da realização de oficinas de teatro de fantoches, de casa em casa, com as famílias e entrega de lanches. Nessa fase conseguimos nos mobilizar e adquirimos parcerias para a aquisição de cestas básicas. As atividades presencial nos permitiram entender o real contexto em que as famílias estão vivendo, favoreceu a escuta e os diálogos.”

Projeto da Bruna Rafaelly Cavalcanti da Cruz – Centro Novo do Maranhão (MA) 

Ao lançar o edital, em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Porticus América Latina e Imaginable Futures, o Fundo Baobá definiu que os candidatos deveriam ter formação e prática nas áreas de saúde, educação ou assistência social. Havia a certeza de que a experiência profissional seria um fator agregador de resultados. Assim como Alessandra e Bruna, o histórico da psicóloga Marcy Maria Ferreira Gomes, 53, confirma isso.

“Trabalho desde 2008 na favela da Mangueirinha, na área da Primeira Infância. Depois de tantos anos atendendo famílias com casos de violência intrafamiliar, não há outra conclusão senão a de que a referida violência está intimamente ligada à violência e ao racismo estrutural que essa população sofre desde o início de sua vida”, desabafa, certa de que a negligência do Estado e da sociedade leva à violação de direitos fundamentais, como educação, saúde, trabalho e lazer, e afeta a qualidade das relações intrafamiliares e suscitando violências intrafamiliares. 

 

“O desenvolvimento pleno de uma criança depende uma família fortalecida, a qual só é possível com uma comunidade igualmente forte. A incidência da pandemia aprofundou as vulnerabilidades sofridas por essas famílias, o que significa que a proteção à criança ficaria ainda mais fragilizada. Vi no edital um meio de somar esforços na proteção das crianças de 0 a 6 nos da Mangueirinha, através de oficinas virtuais para mães e filhos, promovendo o fortalecimento desse vínculo como forma de prevenção à violência intrafamiliar.”

Com o apoio da Associação Brasileira Terra dos Homens, ela iniciou as atividades promovendo uma roda de conversa presencial para a formação de cinco agentes de proteção comunitários, todos moradores da favela e capazes de apoiar as famílias no tema da primeira infância. 

“Essa atividade seguiu todos os protocolos de segurança, sendo desempenhada em lugar aberto, com uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento de dois metros.

Projeto da Marcy Maria Ferreira Gomes – Favela da Mangueirinha (RJ)

Na ocasião, os agentes entraram em contato com suas vivências em sua própria infância. Depois desenvolvemos juntos o planejamento e o cronograma de oficinas virtuais para as famílias”, esclarece.

“A oficineira responsável, que compõe o grupo de agentes comunitários, gravou os vídeos com o passo a passo das oficinas e enviou para o grupo de Whatsapp das famílias, para que desenvolvessem as propostas com os filhos. Importante salientar que a escolha de uma liderança local para a execução das oficinas foi proposital, a fim de aumentar identificação por parte dos participantes e o engajamento nas atividades. As famílias receberam material complementar e após as oficinas, postavam no grupo o resultado alcançado”.

Nesse ritmo ocorreram oficinas do brincar, de montagem de álbuns de família e de construção de brinquedos. Momentos de criatividade, concentração e diálogo.

Projeto da Marcy Maria Ferreira Gomes – Favela da Mangueirinha (RJ)

 “As oficinas tiveram como escopo a aproximação e o fortalecimento dos vínculos da família, mãe e filhos, como também o estímulo de suas competências individuais, a valorização da importância do brincar para as crianças e a redução do estresse ocasionado pelo momento da pandemia, prevenindo, portanto, violências intrafamiliares.”

O projeto promoveu ainda suporte terapêutico e rodas de conversas virtuais com temas relacionados à prevenção e cuidados com a Covid-19, gestação, cuidados na primeira infância e nas relações intrafamiliares, beneficiando ao todo 40 famílias e 70 crianças.

Projeto da Marcy Maria Ferreira Gomes – Favela da Mangueirinha (RJ)

Será que a dedicação da equipe valeu a pena? Marcy Maria responde com o relato de uma mãe atendida pelo projeto – responsável por seis filhos: 

“A montagem da árvore de Natal com eles foi um momento que aproximou muito. Deu um sentido em viver em família. Eu nunca montei uma árvore com eles. Sempre trabalho fazendo faxina nessa época e não dá tempo para organizar o Natal na minha casa. Mas devido à pandemia eu fiquei em casa esse ano e foi muito bom. As oficinas com os filhos diminuíram a agitação e as brigas entre os irmãos.”  (J.S, 32 anos).

https://www.youtube.com/watch?v=QCLbgBIFrqE&feature=youtu.be