As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos.
Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.
“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Na foto: Tainá Medeiros, Gerente de Programas | Créditos: Thalita Guimarães
O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre: “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural.
Foi observando essa panorama que Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.
A experiência acumulada também ajuda a entender o trabalho desenvolvido no presente. Em 2026, uma das frentes da área de Programas foi a conclusão da avaliação do Edital Educação e Tecnologia, realizado em parceria com o MOVER. Depois da avaliação, foram organizados encontros de devolutiva com as organizações apoiadas e os parceiros financiadores para compartilhar os resultados e ampliar a aprendizagem produzida pelo programa.
O Programa Marielle Franco de Apoio Individual também teve continuidade. As mulheres apoiadas estão recebendo mentorias individuais voltadas ao fortalecimento de seus planos de desenvolvimento e à ampliação de conexões com outras mulheres negras com trajetórias de liderança. No Programa Já É, o acompanhamento inclui jovens que se preparam para os vestibulares e aqueles que já ingressaram na universidade e começam sua trajetória acadêmica.
Outra iniciativa que avançou no primeiro semestre foi o Programa Black STEM, que concluiu o processo seletivo de sua terceira edição. Três novos bolsistas passaram a integrar o programa e participaram, em agosto, de atividades de boas-vindas, formação e fortalecimento de vínculos. Eles seguirão para universidades nos Emirados Árabes Unidos, na Espanha e nos Estados Unidos.
Na área de fortalecimento institucional, o Fundo Baobá renovou o apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, iniciado em 2023. Uma nova doação de R$ 300 mil dará continuidade, até 2027, ao plano de fortalecimento institucional da organização.
Enquanto acompanha essas iniciativas, a área de Programas já prepara os próximos passos. Para o segundo semestre, estão previstas novas oportunidades de fortalecimento institucional para organizações, grupos e coletivos, além da continuidade do monitoramento dos apoios em andamento e do início da avaliação de iniciativas já concluídas.
O aprendizado também acontece dentro do próprio Fundo. A área pretende dar continuidade ao aprimoramento de sua gestão e à participação em espaços de troca de experiências e conhecimentos, acompanhando demandas, tendências e inovações que possam contribuir para sua atuação nos próximos anos.
Parte da experiência acumulada nesses 15 anos aparece ainda na relação com organizações e lideranças que procuram os editais do Fundo Baobá. Para quem não tem familiaridade com a elaboração de projetos, Tainá procura retirar um pouco do peso que costuma acompanhar esse processo.
“A elaboração de projetos pode ser uma tarefa acessível”, afirma. O primeiro passo, segundo ela, é ler atentamente o edital, compreender seus objetivos e conferir as informações e os documentos solicitados.
“O melhor caminho é apresentar uma proposta simples, porém coerente com a capacidade da organização, alinhada à sua experiência, ao território em que atua e aos objetivos do edital”, orienta. A elaboração da proposta também pode servir para que a própria organização estruturesuas ideias sobre desafios, necessidades, objetivos e possibilidades de atuação.
Nem sempre, porém, uma boa proposta chega a ser avaliada. Entre os problemas encontrados nas inscrições estão informações incorretas ou incompletas, documentos ausentes ou ilegíveis, arquivos em formatos diferentes dos solicitados e perda de prazos. Falhas desse tipo podem levar à desclassificação antes da análise do mérito do projeto.
Por isso, Tainá recomenda que organizações e lideranças reservem tempo para conferir a inscrição antes do envio. Informações, documentos, formatos e prazos precisam ser revisados com antecedência, inclusive para que seja possível corrigir eventuais problemas. “Revisar a inscrição nunca é demais”, resume.