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Conheça a trajetória da estudante brasileira selecionada pelo edital BlackSTEM que cursa Ciência da Computação na New York University
Carioca da gema, cria da Zona Norte e com apenas 21 anos, Melissa Simplício estuda Ciência da Computação na New York University e segue construindo pontes e abrindo caminhos mundo afora. Ela é uma das cinco selecionadas da primeira edição do edital Black STEM, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial, com parceria da B3, que concede bolsas complementares a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior nas áreas STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Desde criança, Melissa alimentava o desejo de aprender e explorar o mundo. Ela cresceu com a mãe oferecendo estímulos, como jogos educacionais – de memória em inglês, quebra-cabeça, programas como “De Onde Vem” e até Dora, a Aventureira. Até as comidas que faziam parte do seu cardápio na infância não eram originalmente brasileiras, o que a fascinava. Ela adorava pesquisar palavras do português com origem no tupi-guarani e até estrangeirismos que desafiavam seu inglês, aprendido no YouTube. Para ela e graças à criação que teve, fazia sentido ampliar seu círculo e seus conhecimentos.
Desenvolveu então a curiosidade pelo que existia além do Brasil. Portanto, a escolha pelo curso de Ciência da Computação, para uma típica garota da geração Z, que cresceu cercada de tecnologia, abrindo o computador de casa e explorando suas peças, foi natural.
No nono ano, ainda no ensino médio, ela deu um passo significativo e começou a explorar a pesquisa com ciência de dados, trabalhando com a linguagem R, uma linguagem de programação em um ambiente de software. Ali teve a certeza: no mínimo, queria seguir na área de análise de dados. Antes da pandemia, ela já tinha três viagens internacionais marcadas com apoio de programas globais, como Girl Up, Women Deliver e LALA. Também durante a pandemia surgiu a oportunidade de participar de um programa online no qual aprendeu a programar um site do zero, aprofundando seus conhecimentos em ciência da computação.
“Fiquei encantada com a flexibilidade da área – a possibilidade de ser analista de dados, desenvolvedora web, especialista em inteligência artificial e até gerente de projetos. Sem falar nas oportunidades de trabalho remoto, caminhos para o empreendedorismo e a alta remuneração”, afirma Melissa. Desde então, o mundo se tornou sua sala de aula. Ela já trabalhou com governos locais na Argentina, viajou para Ruanda e Etiópia, conheceu a Suíça, a Inglaterra e a Espanha, entre outros países.
Com relação à rotina puxada de estudos, ela concilia o tempo entre projetos de programação e deveres de casa. O que realmente a ajudou a manter o ritmo foi criar pequenos rituais para não cair na monotonia: toda semana muda de ambiente para estudar. Uma semana elege a biblioteca, na outra vai para o Kimmel ou explora cafeterias perto de casa. Melissa afirma que essa mudança de cenário renova a energia e a ajuda a manter o foco.
Em 2024, Melissa se tornou uma das bolsistas selecionadas na primeira edição do Programa Black STEM. A bolsa tem sido fundamental, pois ajuda a cobrir custos universitários que vão além da anuidade – como passagens aéreas de ida e volta para o Brasil, transporte e outras despesas do dia a dia. Esse apoio proporciona tempo e flexibilidade que não seria possível sem o apoio da bolsa, pois ela consegue liderar clubes universitários, participar de conferências e competições acadêmicas.
Melissa deixa para outros estudantes brasileiros um recado importante. Pede que se movimentem. “Busquem entender o processo, se preparem com atividades extracurriculares, estudos e tudo o que puder fortalecer sua candidatura. Não esperem que alguém entregue o ‘manual completo’ de A a Z – a chave é pesquisar por conta própria, se informar ao máximo e fazer perguntas específicas e bem pensadas para quem já está estudando fora.”
Reforça que não existem fórmulas mágicas. “Cada trajetória é única e as escolhas que funcionaram para uma pessoa podem não ser as ideais para a outra. Apenas não tenham medo de dar o primeiro passo”, afirma. Para mais informações sobre o edital Black STEM, acesse o link: https://baoba.org.br/blackstem-2edicao/.
O 25 de julho atravessa fronteiras, une lutas e ecoa histórias silenciadas
Em 25 de julho foi celebrado o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, data instituída em 1992 durante um encontro de mulheres afro-Latinas-Americanas e afro-caribenhas na República Dominicana. No Brasil, a data também é comemorada e marca o Dia Nacional da Mulher Negra, em homenagem à Teresa de Benguela – líder quilombola que foi símbolo da resistência negra no século XVIII.
A 13ª edição do Julho das Pretas é um momento de reflexão profunda, reconhecimento, memória e ancestralidade feminina, que são fundamentais para dar visibilidade às pautas históricas e atuais dessas mulheres. É neste contexto que ganha destaque a II Marcha das Mulheres Negras — Por Reparação e Bem Viver, em fase de organização e mobilização em todo o país. Prevista para ocorrer em Brasília, no próximo dia 25 de novembro, a Marcha tem expectativa de reunir um milhão de mulheres negras e estrangeiras, reforçando seu protagonismo na luta por justiça racial, social, climática e de gênero.
Na organização dessas ações estão os Comitês Impulsores Estaduais, Regionais e Municipais, organizados por Unidade Federativa e Coordenados por articulações como AMNB (Articulação de Organizações de Mulheres Negras), Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Rede Fulanas (Amazônia), Fórum Nacional de Mulheres Negras, CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), entre outros.
Diante da convocação nacional para a II Marcha, diversas mulheres negras, quilombolas, LGBTs, religiosas de matriz africana, entre outras, marcharam no dia 25 de julho em várias cidades do país: Belém (PA), Eusébio (CE), Feira de Santana (BA), Garanhus (PE), João Pessoa (PB), Maceió (AL), Manaus (AM), Pelotas (RS), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São José do Rio Preto (SP), São Luís (MA), São Paulo (SP) e Teresina (PI). E Além disso, os comitês organizaram atividades diversas.
O comitê estadual do Amazonas, por exemplo, garantiu presença na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com atividades como Oficina de Carimbó, Oficina de Tranças, Oficina de Colorismo e um convite especial para um evento da Associação dos Docentes da Universidade. Nesse dia, a professora e diretora da Faculdade de Psicologia – FAPSI, Iolete Ribeiro, que também é membro do Comitê Amazonense da Marcha das Mulheres Negras, aproveitou para destacar a necessidade de mobilização e organização da Marcha em novembro.
Já O Antonietas Em Marcha Santa Catarina realizou, no decorrer de julho, rodas de conversa, palestras e encontros regionais no Vale do Itajaí. As mulheres presentes reafirmaram que suas caminhadas pessoais são um ato político diário, pois resistem cotidianamente a um estado branco e conservador. Ainda na Região Sul, o Comitê de Mulheres Negras do Rio Grande do Sul participou do programa “Vozes dos Quilombos” – na rádio Negritudes, além de uma roda de conversa com o tema: Tecendo caminhos para a Marcha das Mulheres Negras na Faculdade de Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
No Comitê Impulsor Estadual de São Paulo, diversas cidades também realizaram encontros regionais, como Campinas e o ABC, que promoveram atividades como Oficina de Políticas de Cuidado e Autocuidado na Perspectiva do Bem Viver, com a Mestra Reisa Cristiane de Paula Venancio, formada em Ciências da Motricidade pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) e uma live com o tema Justiça ambiental e bem viver: jovens e mulheres negras em marcha por um novo pacto civilizatório. No encontro virtual, foi possível criar um espaço de reflexão coletiva sobre justiça climática, interseccionalidade de gênero, raça, território e o protagonismo de jovens e mulheres negras na construção de futuros sustentáveis.
Em Feira de Santana, na Bahia, dez anos após a primeira caravana, as portas do sertão se abriram novamente para o fortalecimento das mulheres negras de toda Bahia. O Comitê Impulsor do Território Portal do Sertão convocou todas as mulheres para se reunirem e pensarem juntas o planejamento e a mobilização da Marcha que irá ocorrer em novembro.
No Centro-Oeste, em Mato Grosso, também ocorreram encontros regionais em Cuiabá e no município de Sinop, além de rodas de conversa com a Comunidade de Matriz Africana do Candomblé e Umbanda, no Centro Histórico de Cuiabá. Houve também incidências nas ruas da Cidade de Cáceres, com distribuição de panfletos de esclarecimento sobre a Marcha.
A Marcha Nacional das Mulheres Negras está sendo construída de norte a sul do Brasil e já conta com núcleos de mobilização internacional em 35 países, sendo uma importante ferramenta de mobilização política e de denúncia. Por conta da mobilização que gera, o evento também abre espaço para a discussão de ações concretas para o enfrentamento das múltiplas formas de opressão que atravessam a vida das mulheres negras no Brasil. E o Baobá – Fundo para Equidade Racial apoia essa luta reafirmando seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.
Edital para bolsas complementares de mestrado e doutorado no exterior contou com apoio do Fundo Baobá
A parceria estabelecida entre o Baobá – Fundo para Equidade Racial e a Fundação Lemann em Educação vai possibilitar a estudantes negros e negras brasileiros a oportunidade de obter uma bolsa complementar, um apoio financeiro importante para aqueles que estão cursando mestrado e doutorado em universidades fora do país.
Um estudo de 2023 da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) gerou o relatório Dados de Diversificação: Insights para Instituições de Ensino Superior, que observou, naquela oportunidade, que havia cerca de 90 mil brasileiros (88,7 mil) cursando graduação, pós-graduação, mestrado ou doutorado em instituições estrangeiras. Esse número ultrapassou os 100 mil em 2025.
Detalhes da Bolsa Complementar Alcance
A Bolsa Complementar Alcance destina US$ 7 mil para um período de 12 meses a contar de 2025. Além da bolsa, os estudantes selecionados terão acesso a acompanhamento psicológico, encontros de rede e também ao Brasil on Campus, um evento de conexão entre brasileiros que estão estudando em universidades nos Estados Unidos e na Europa.
“Com esta parceria queremos ampliar a participação de pessoas negras em iniciativas internacionais de ensino, pesquisa e extensão, para que, ao regressarem ao Brasil, elas ocupem lugares estratégicos de poder e influência”, afirma a diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes.
A Europa, aliás — que tem algumas das mais prestigiadas e tradicionais universidades do mundo — tem recebido atenção de estudantes internacionais diante das recentes mudanças na política migratória dos Estados Unidos, que impactaram instituições como Harvard, Columbia, Princeton, Cornell e Brown.
Segundo dados do Study Group, organização internacional que oferece programas preparatórios de adaptação aos estudos no Reino Unido e na China, cerca de 110 mil brasileiros cursam instituições de ensino fora do país. Desses, 16.877, conforme dados do Departamento de Estado dos EUA, estão em universidades norte-americanas.
Critérios e processo de inscrição da Bolsa Complementar Alcance
A diversidade de países e instituições de excelência reforça a possibilidade de vivências acadêmicas conectadas a contextos culturais plurais e inclusivos.
As inscrições para a Bolsa Complementar Alcance estão abertas até 22 de junho de 2025 e devem ser feitas por meio de formulário online. Podem se candidatar estudantes brasileiros que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, matriculados ou com carta de aceite em cursos de mestrado ou doutorado presenciais em áreas como Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática (STEM), educação, políticas públicas, governo, direito e administração em universidades internacionais de excelência.
A bolsa é no valor de US$ 7 mil para o período de 12 meses, com possibilidade de renovação em editais futuros. Além do apoio financeiro, os selecionados terão acesso a acompanhamento psicológico, atividades de conexão entre estudantes e à comunidade Brasil on Campus.
A participação do Fundo Baobá como coinvestidor nesta iniciativa foi possível por meio de um acordo firmado com a Fundação Lemann, que, em 2019, aportou R$ 1,9 milhão no nosso Fundo Patrimonial. A doação se desdobrou em um aporte de R$ 6,17 milhões da Fundação W.K. Kellogg no endowment do Fundo Baobá.
Como contrapartida pactuada, os rendimentos gerados por esses aportes entre 2021 e 2026 (R$ 2.583.225,33) serão integralmente destinados a bolsas de pós-graduação no exterior para estudantes negros, no âmbito do Programa Alcance.
Fonte da imagem: https://fundacaolemann.org.br/noticias/fundacao-lemann-e-fundo-baoba-abrem-inscricoes-de-bolsa-complementar-alcance-para-estudantes-negros-e-indigenas-no-exterior/
Conheça a história de Juliana Gonçalves e sua trajetória no movimento de mulheres negras
Juliana Gonçalves é mãe, jornalista e militante do movimento negro — uma mulher em movimento, articuladora política, pesquisadora, feminista negra, periférica, afrolatina e, acima de tudo, um corpo livre. Atualmente, gerencia um projeto de inovação na área da Comunicação na Embaixada Preta, o Bioma Comunicação Ancestral.
Mestra em Filosofia pela Universidade de São Paulo, onde pesquisou o Bem Viver em narrativas de mulheres negras, ela também integra a Marcha das Mulheres Negras de SP, onde, desde 2018, coordena o curso de formação política para mulheres negras chamado Narrativas de Liberdade.
Seu primeiro contato com a Marcha aconteceu de forma orgânica, como parte de um percurso político e afetivo. Em 2013, como parte do grupo Comunicadoras Negras — iniciativa articulada por várias entidades em parceria com a ONU Mulheres —, ela participou da cobertura da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
“Lá foi anunciada pela primeira vez a Marcha das Mulheres Negras, tomando um auditório cheio de mulheres negras e sacerdotisas entoando cantos iorubá. O momento, profundamente espiritual, ancestral e simbólico, trouxe à Juliana um chamado, uma convocação do tempo que exigia dela e das demais mulheres uma coragem coletiva.”
Sendo uma das 15 mulheres selecionadas para participar de um programa voltado a jovens lideranças, ela conheceu mulheres de múltiplas identidades, como indígenas, quilombolas, ciganas e tantas outras, que atuavam a partir de seus territórios. Foram intensas trocas entre elas, que permitiram reflexões críticas sobre o papel e os limites das instituições internacionais e sobre a atuação nos contextos locais.
Foi depois desse programa que ela se aproximou da construção da Marcha das Mulheres Negras em 2015.
Ao se deparar com as particularidades do movimento negro de São Paulo — que é múltiplo, potente e também atravessado por desigualdades territoriais —, ela enfatiza que, mesmo com realidades distintas, o movimento busca sempre articular cultura, educação, comunicação, moradia, política institucional e saberes tradicionais. Pois, como em muitos outros estados, desde 2015, elas permanecem em marcha, em constante movimento.
“O movimento é feito por nós, com nossos corpos, nossas histórias, nossos gestos cotidianos. Não é preciso estar em um palanque para ser movimento. Você é quando cuida, quando pergunta, quando sonha”, afirma Juliana.
Sobre as demandas das mulheres na década passada e as demandas atuais, ela traz uma reflexão sobre uma ênfase em denunciar o racismo estrutural, o genocídio da juventude negra, a violência doméstica e o silenciamento nas instituições. Hoje, em 2025, essas pautas permanecem urgentes, mas ganham contornos mais amplos: há uma demanda crescente por pensar a sociedade a partir de outro paradigma.
“Hoje falamos de saúde integral, mental, soberania alimentar, economia do cuidado, justiça racial e comunicação como espaço de poder. As mulheres negras também exigem estar no centro das decisões, das tecnologias, da política institucional”, afirma.
Para ela, não vivemos quaisquer 10 anos. Foram anos de uma conjuntura cruel, que incidiu com ainda mais violência e requintes de crueldade sobre a população negra, com muitos retrocessos nas conquistas quilombolas, indígenas e na luta das mulheres em si.
Convite aberto à diversidade de vozes negras
A mensagem que Juliana gostaria de deixar para as mulheres negras que ainda não se sentem parte do movimento é que é, sim, louvável estarmos vivas — e, mais ainda, estarmos organizadas para enfrentar não só a luta da sobrevivência diária, mas também para a construção de outra sociedade.
“A força da Marcha de 2015 foi, justamente, termos olhado para o que une, sem silenciar as diferenças”, afirma Juliana.
Então, estão todas convidadas: as cis, as LBTs, as candomblecistas, as evangélicas, as trabalhadoras, as estudantes, as imigrantes, as mais novas e as mais velhas, as mulheres com deficiência, as militantes, as independentes etc.
Apoio estratégico do Fundo Baobá à Marcha 2025
Para esse ato político-social, o Baobá, Fundo para Equidade Racial, fez um investimento histórico de R$ 1,25 milhão, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.
Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!
Organização de quase dois séculos surgiu na Bahia para comprar a liberdade dos escravizados e hoje conta com o apoio do Fundo Baobá.
O dia 16 de setembro de 2025 marcará o aniversário de uma longeva e importante organização negra brasileira, a SPD (Sociedade Protetora dos Desvalidos). Criada em 1832 e prestes a completar 193 anos, nasceu sobre os alicerces do enfrentamento ao racismo, promoção da liberdade religiosa e justiça social. Um dos marcos da luta contra a escravidão no Brasil, a SPD sobreviveu graças ao espírito de cooperativismo que moveu o povo negro na busca pela liberdade.
Na prática, pessoas negras libertas criaram uma forma coletiva de garantir a liberdade de outras ainda escravizadas. A solução para isso foi a cotização: cada pessoa contribuía com o que podia para comprar alforrias.
Independência histórica da SPD e reconhecimento atual
Desde sua fundação, a SPD atua sem ter dependido de verba pública para sua manutenção. Neilto Barreto, presidente da Assembleia Geral da SPD, destacou esse legado:
“Em todo esse período, nunca dependemos de apoio governamental, seja municipal, estadual ou federal, desde 1832”, declarou Barreto, que estará à frente da organização até 2027.”
Esse quadro mudou em 2023, depois de uma ação do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A Sociedade Protetora dos Desvalidos recebeu a doação de R$ 500 mil como forma de contribuição estratégica para o seu desenvolvimento institucional.
Investimento fortalece atuação e sustentabilidade
A doação do Fundo Baobá veio para fortalecer uma organização negra de quase dois séculos de história, reconhecendo sua trajetória no enfrentamento às desigualdades. O apoio teve como objetivo ampliar sua capacidade de atuação e sustentabilidade, valorizando iniciativas como a manutenção do espaço terapêutico para mulheres, a Casa de Angola — que acolhe estudantes africanos — e outras ações sociais desenvolvidas ao longo do tempo.
Após receber essa doação de R$ 500 mil, a SPD passou por importantes transformações que fortaleceram sua atuação e ampliaram seu impacto social.
“As mudanças observadas pela própria organização demonstram de maneira muito nítida o comprometimento com o resgate e manutenção da memória institucional. Isso é facilmente identificado quando observamos as movimentações feitas pela gestão, não só em executar as ações planejadas para atingir seus objetivos, mas também de ajustar e adequar suas rotas, olhando sempre para caminhos que levem ao fortalecimento institucional”, afirma Camila Carvalho, Assistente de Projetos no Fundo Baobá.
O momento atual da Sociedade Protetora dos Desvalidos é marcado pelo fortalecimento de sua equipe, com foco na ampliação de saberes e capacidades.
“A instituição investiu na capacitação de sua equipe e na implementação de novas estratégias de inclusão racial, promovendo uma abordagem mais abrangente e efetiva na luta contra a desigualdade. Essa parceria também possibilitou a realização de campanhas de conscientização e ações educativas, contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária”, diz Camila.
Planejamento estratégico e renovação geracional
O apoio do Fundo Baobá tem sido fundamental para impulsionar a SPD rumo a uma atuação mais sólida e transformadora, reafirmando seu compromisso com a defesa dos direitos e a promoção da equidade racial.
Olhando pelo lado prático, a adoção do planejamento estratégico e a reorganização dos processos administrativos, que impactaram positivamente as receitas, melhoraram os fluxos de trabalho e o clima organizacional. Agora, a meta é ampliar a diversidade geracional na organização.
“Nosso maior desafio é a renovação. A juventude precisa se conscientizar da importância de se juntar a nós”, afirmou Ligia Margarida Gomes, da direção da SPD.
Por fim, a preservação da memória foi algo também proporcionado pela ajuda oferecida à Sociedade Protetora dos Desvalidos pelo Fundo Baobá. Em sua sede, no Pelourinho, em Salvador, o mobiliário é remanescente do século XIX. Esse mobiliário foi restaurado como uma forma de conservar a história que carrega.
João Pedro Araújo, 27 anos, foi um dos jovens selecionados na primeira edição do Programa Já É – uma iniciativa do Fundo Baobá que apoia jovens negros no acesso ao ensino superior no Brasil. Atualmente, ele cursa Ciências e Tecnologias na Universidade Federal do ABC (UFABC), com previsão de formatura em 2027.
Morador do bairro do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, João Pedro enfrentou uma realidade de poucas oportunidades. Para ele, o Programa Já É foi essencial para transformar a trajetória marcada pela simplicidade e pelos desafios da vida periférica. Egresso da rede pública de ensino durante a maior parte de sua vida escolar, precisou conciliar trabalho e estudos, como tantas outras pessoas jovens negras periféricas do país.
Mesmo com tantas dificuldades, teve na mãe a maior fonte de inspiração — uma mulher batalhadora que, com um salário mínimo, sustentou a casa e alimentou os sonhos do filho. “Ela me ensinou que é possível sonhar alto e mudar a realidade, mesmo quando tudo parece difícil”, afirma.
Como funciona o Programa Já É: educação e equidade racial?
O Programa Já É: Educação e Equidade Racial oferece apoio financeiro, educacional e psicossocial a jovens negros, com o objetivo de promover o acesso ao ensino superior e ampliar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Em sua primeira edição, realizada em 2021, o programa selecionou 85 estudantes. Destes, 32 foram aprovados em vestibulares — 12 em universidades públicas e 20 em instituições privadas como bolsistas do ProUni (Programa Universidade para Todos).
Políticas afirmativas como caminho para a transformação social
Naquele mesmo ano, João se inscreveu em todos os projetos possíveis, em busca de alternativas, já que a pandemia dificultou o acesso a oportunidades de emprego. Foi então que, por indicação de uma amiga, conheceu o Já É. A motivação veio do desejo de ser o primeiro da família a cursar uma universidade pública — e, mais do que isso, de abrir caminhos para seus amigos e sua comunidade, mostrando que o acesso à educação de qualidade também é possível para quem não teve privilégios.
“Quando conheci o Já É, já achei a proposta interessante. Mas, ao participar, percebi que aquilo era só a ponta do iceberg. As trocas e aprendizados com os outros participantes foram transformadores e carrego comigo até hoje”, relembra João.
No início, ele confessa que duvidava de si mesmo. “É difícil acreditar que alguém está investindo em você quando se vem da periferia. Eu me perguntava se era realmente capaz. Mas, logo na primeira reunião com os outros selecionados, senti como se já nos conhecêssemos. Foi um acolhimento imediato.”
João destaca a importância de políticas afirmativas e programas como o Já É para ampliar o acesso de jovens negros ao ensino superior. “Mesmo com iniciativas como essa, ainda somos minoria nas universidades, e essa presença diminui ainda mais nas instituições públicas. Precisamos ocupar esses espaços para inspirar outros a acreditarem que também é possível.”
Para ele, estar na universidade vai muito além de uma conquista individual — representa um sonho coletivo. Em um país ainda marcado por desigualdades estruturais, a presença de pessoas jovens negras no ensino superior é símbolo de resistência, transformação e esperança.
Segunda edição do Programa Já É tem inscrições abertas
As inscrições para a segunda edição do Programa Já É estão abertas até o dia 06 de junho. Para mais informações, acesse: Programa Já É.
Profissional com reconhecimento internacional no setor de energia, ele vai integrar o Conselho Deliberativo da organização
O Baobá – Fundo para Equidade Racial conta agora com um importante reforço em seu Conselho Deliberativo: Nelson Narciso, engenheiro mecânico com trajetória de destaque nacional e internacional nos setores de combustíveis e biocombustíveis. Com mais de 40 anos de experiência no segmento de energia, Narciso construiu uma carreira sólida atuando em empresas de renome como HRT África, Halliburton e ABB. No Brasil, foi diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Da ANP ao Baobá: legado e visão estratégica de Nelson Narciso
Durante seu período na ANP, coordenou importantes programas, como os voltados à redução de queima de gás e à melhoria da medição fiscal da produção. “Na ANP, tive o privilégio de contribuir com políticas públicas que ainda hoje impactam o setor. Foi nesse ambiente que compreendi, com mais clareza, que transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro. Esses aprendizados moldaram minha atuação: cada projeto é uma oportunidade de conectar conhecimento, propósito e impacto”, destaca Narciso.
Compromisso de longa data com a equidade e justiça racial
O desejo de colaborar com o Fundo Baobá já o acompanhava há algum tempo. Ao longo de sua trajetória, o professor tem se posicionado de forma firme contra práticas discriminatórias, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação e ao mercado de trabalho. Na juventude, nos anos 1970, foi atleta amador de futebol pelo Vasco da Gama, clube carioca, mas escolheu os estudos diante da incerteza de uma carreira no esporte.
Formação de excelência e destaque internacional na educação
Formado em Engenharia Mecânica e com pós-graduação em Administração Industrial e Engenharia Econômica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nelson Narciso é frequentemente convidado para dar palestras em renomadas instituições de ensino, como a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e as norte-americanas MIT, Columbia University e Brown University, onde também foi professor visitante.
A urgência da representatividade negra em cargos de liderança
Sua formação e trajetória contrastam com uma dura realidade do mercado de trabalho brasileiro: a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança. Um estudo do Instituto Ethos, de 2016, revelou que, entre as 500 maiores empresas do país, apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% das posições gerenciais eram ocupados por pessoas negras. “Sermos exceções é um sinal claro de que algo está estruturalmente errado”, afirmou à Americas Quarterly em 2020. Sua entrada no Conselho do Baobá é, portanto, mais um passo na direção da mudança.
Rumo aos 15 anos do Fundo Baobá: reflexões e futuro
“Ser membro do Fundo Baobá me motiva por unir propósito pessoal e impacto social. Trata-se de contribuir com minha experiência estratégica para uma causa urgente e estruturante: o enfrentamento ao racismo e a promoção da equidade racial no Brasil. O prestígio institucional do Fundo, sua representatividade negra e a oportunidade de aprendizado tornam essa participação uma escolha transformadora”, afirma.
Como integrante do Conselho Deliberativo, seu papel será o de orientar a organização para que suas decisões e operações estejam alinhadas com sua missão institucional. Narciso acredita que poderá contribuir significativamente nesse processo. “Quero apoiar de forma ativa a consolidação institucional do Fundo, com escuta atenta, pensamento estratégico e compromisso com a missão de promover a equidade racial no Brasil.”
Sua chegada coincide com a preparação do Fundo Baobá para a celebração de seus 15 anos de atuação em 2026. Sobre esse marco, ele reflete: “Quinze anos do Fundo Baobá representam a força de um sonho coletivo que se tornou referência na luta por equidade racial no Brasil. Celebro a coragem, a inteligência e a ancestralidade que sustentam essa trajetória.”
A participação do Baobá – Fundo para Equidade Racial no 13º Congresso GIFE (Grupo de Indústrias, Fundações e Empresas) foi marcada por contribuições potentes, alinhadas ao tema central do evento: “Desconcentrar poder, conhecimento e riquezas”. Em três dias de atividades e painéis, celebramos encontros e reencontros. O Baobá celebrou reencontros importantes e reafirmamos nosso compromisso com a filantropia centrada nas vozes dos territórios e na promoção da equidade racial como caminho para a transformação concreta da sociedade brasileira. O congresso foi realizado de 7 a 9 de maio, em Fortaleza, no Ceará, a primeira vez fora da cidade de São Paulo.
Descentralização como estratégia de impacto na filantropia brasileira
Na plenária de encerramento, o diretor-executivo do Fundo Baobá e conselheiro do GIFE, Giovanni Harvey, fez um chamado incisivo à mudança estrutural no setor: “A filantropia ainda é muito mais pautada nas necessidades de quem doa do que nas necessidades de quem recebe”, afirmou. Sua fala provocou uma reflexão coletiva sobre o legado que o Investimento Social Privado (ISP) pretende deixar para os próximos 30 anos, destacando a importância de metas reais e a construção de pontes sólidas entre a filantropia, o ISP e a sociedade civil.
O papel das organizações negras no fortalecimento do Investimento Social Privado
Tainá Medeiros, coordenadora de Projetos do Baobá, destacou dois temas estratégicos do congresso que reforçam as palavras de Giovanni: “A necessidade de ampliar o apoio da filantropia e do ISP no fortalecimento institucional das organizações da sociedade civil, tema para o qual o Fundo Baobá já vem dedicando especial atenção nas suas estratégias programáticas há alguns anos, e os persistentes desafios de acesso a recursos enfrentados por organizações negras. Essa convergência confirma o que nossa atuação já demonstra: a equidade racial deve ser central na agenda do presente e do futuro da filantropia e do ISP no Brasil”, disse.
Para Janaina Barbosa, gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo, o congresso foi uma reafirmação do potencial da filantropia construída de forma colaborativa: “Esse encontro reforçou o poder da filantropia quando construída coletivamente. Ver diferentes atores – organizações, lideranças, especialistas e investidores – em diálogo é um lembrete de que a transformação exige mais do que recursos: precisa de escuta, confiança e compromisso com justiça social. O legado que fica para mim é a força da ação conjunta”, disse.
A regionalização do congresso também foi celebrada pela gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, Caroline Almeida, que destacou o impacto da escolha de Fortaleza como sede do evento: “O congresso abordou um tema relevante e desafiador, especialmente para reflexão no ecossistema de associados do GIFE. A realização no Nordeste foi uma decisão acertada e um passo importante rumo à descentralização. A escolha de Fortaleza ampliou a diversidade de vozes e experiências, promovendo a articulação de um público mais plural. Espero que o Investimento Social Privado seja positivamente influenciado pelas demandas reais que emergiram das mesas do congresso”, afirmou Caroline.
Protagonismo e reconhecimento de lideranças apoiadas pelo Baobá
Também da equipe do Baobá, a assistente executiva Juliana Vargem compartilhou a emoção de ver donatários do Baobá ocupando espaços de protagonismo no evento: “Participar do 13º Congresso GIFE, realizado na região Nordeste, foi uma experiência especial. Além de ampliar conexões com diversas organizações e fortalecer nossa rede de atuação, fiquei particularmente feliz e emocionada ao ver nossos donatários em posições de destaque ao longo do evento. Foi um reconhecimento importante do trabalho que realizamos juntos e um momento de grande orgulho para nossa instituição”, enfatizou.
Juliana Vargem se referiu a nomes como Dandara Rudsan, que fez parte do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco (2019/2023); Nina Dahora, da iniciativa UX para Minas Pretas; Luiz Claudio e Veronica Lopes, do IOB, apoiados pelo edital Educação em Tecnologia (2023); e Aline Braúna, uma das selecionadas no edital Primeira Infância (2020). As iniciativas são exemplo, na prática, do impacto da filantropia negra em fomentar lideranças e soluções inovadoras em seus territórios. Esses momentos reforçaram a importância da escuta ativa, do reconhecimento das potências locais e da centralidade do enfrentamento ao racismo nas agendas do Investimento Social Privado.
Marcha das Mulheres Negras: mobilização como ferramenta de justiça racial
Em comunhão com ações que estão no calendário do Fundo Baobá, o congresso discutiu também a Marcha das Mulheres Negras, que acontecerá no mês de novembro, em Brasília (DF). Naiara Leite, da Odara, Instituto da Mulher Negra, faz parte do Comitê Nacional da Marcha e fez um chamamento para que a sociedade civil e o Investimento Social Privado encarem a Marcha como uma ferramenta do processo de combate às injustiças. “Não tem democracia, não tem vida e não tem território nesse país a ser pensado se o debate do enfrentamento ao racismo não for central”, disse.
Reforma Tributária e captação de recursos para OSCs: o que vem pela frente
A gerente de Operações do Baobá, Hebe Silva, enxergou o congresso como um momento de enriquecimento profissional, por conta da forma como os temas foram abordados. “O evento abordou temas que nos fazem aprimorar profissionalmente e contribuem com a gestão e processos decisórios da filantropia, provocando reflexões e elevando a importância de atender demandas efetivas aos beneficiários dos recursos aportados. Destaco a roda de conversa com Nailton Cazumbá, sobre os impactos da Reforma Tributária nas OSCs e ISP, onde ele chamou atenção para a necessidade de rever as estratégias de captação de recursos com as mudanças que estão por vir.”
O 13º Congresso GIFE foi, portanto, um espaço essencial para reafirmar que a transformação social só será possível com a desconcentração real de recursos e com a inclusão das vozes historicamente silenciadas nos processos de tomada de decisão. O Baobá – Fundo para Equidade Racial segue comprometido com esse caminho.
Nos dias 19 e 20 de maio, o Comitê Nacional da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver realizou em Brasília um planejamento estratégico de comunicação, com participação do Fundo Baobá e outras organizações parceiras. O evento reuniu representantes de 35 organizações do movimento negro e parceiras para estruturar as ações de comunicação visando a grande mobilização marcada para 25 de novembro de 2025.
Construção coletiva de estratégias
Durante os dois dias de encontro, foram desenvolvidas diretrizes para:
Fortalecer a coesão das mensagens da Marcha
Visibilizar territórios e saberes das mulheres negras
Engajar diferentes públicos na mobilização
“Poder pensar juntas na comunicação de uma mobilização deste porte foi muito especial”, destacou Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. “Ao reunir diversas mulheres negras, podemos ampliar o olhar para as inúmeras subjetividades de mulheres que devemos e queremos mobilizar para o dia 25 de novembro.”
O trabalho coletivo contou com metodologias participativas que permitiram a construção conjunta de estratégias, com facilitação do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI).
Compromisso e apoio institucional
Todas as organizações presentes assumiram compromissos concretos para amplificar as narrativas da Marcha em suas redes e territórios. Como parceiro estratégico, o Fundo Baobá não apenas apoia financeiramente esta iniciativa, mas também fortalece essa construção coletiva que amplifica o poder de organização das mulheres negras e seu papel transformador na sociedade brasileira.
A Marcha de 2025 marca os 10 anos da primeira edição histórica e representa um marco na luta por direitos e visibilidade das mulheres negras brasileiras. Com esse apoio, o Fundo Baobá reafirma seu papel fundamental no fortalecimento das organizações do movimento negro e na promoção da justiça social.
Organizações participantes
Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB); Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong); Ação Educativa; Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela; Associação Gênero e Número; Casa N’Dengo; Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ); Criola; Escola Longa; Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS); Geledés – Instituto da Mulher Negra; Imaginable Futures; Instituto Afrolatinas; Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI); Instituto Ibirapitanga; Comitê Estadual Goiás da Marcha das Mulheres Negras; Marcha das Mulheres Negras de São Paulo; Movimento Mulheres Negras Decidem; Agência Narra; Observatório da Branquitude; Odara – Instituto da Mulher Negra; Oxfam Brasil; Pretas Candangas; Quid; Rede de Mulheres Negras do Nordeste; e Revista Afirmativa.
Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.
“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.
Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.
O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.
Nova edição do programa amplia oportunidades
A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:
“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.
A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.
Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:
“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.
A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.
Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.
“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.
A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver.
O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).
A Marcha como processo político e social de longo prazo
A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.
Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência.
Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.
Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.
“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.
Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.
Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.
O edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial foi encerrado com um saldo bastante positivo. Após dois anos de vigência, ele resultou em um impacto de transformação para as 12 organizações que receberam, cada uma, R$ 175 mil para implementar seus projetos.
As transformações foram possíveis tanto pelo apoio financeiro quanto pelo suporte técnico oferecido nas oficinas organizadas pelo Fundo Baobá. As organizações tiveram acesso a recursos para aquisição de equipamentos e capacitação em gestão, o que gerou aumento da visibilidade de cada uma delas, além do fortalecimento institucional.
Ações antirracistas e fortalecimento institucional
Uma característica comum entre as organizações participantes do processo seletivo foi o desenvolvimento de estratégias para enfrentar o racismo em instituições educacionais — formais e não formais — e promover maior representação de pessoas negras nos espaços de decisão na educação.
Das 12 organizações apoiadas, 9 nunca haviam recebido qualquer tipo de financiamento para seus projetos. Isso reflete a missão do Fundo Baobá, que realiza uma busca ativa por organizações que atuam em territórios desassistidos.
O papel do Fundo Baobá na descentralização de recursos
A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, analisa esse cenário:
“Algumas das organizações apoiadas atuam na luta antirracista há uma ou duas décadas e, ainda assim, não haviam acessado recursos da filantropia. Alcançá-las com bons critérios de seleção é um indicador de sucesso. Aos poucos, estamos chegando a organizações de diferentes regiões do país, saindo das capitais dos estados. Descentralizar o acesso aos recursos financeiros e ampliar o acesso às assessorias técnicas que contribuam com o fortalecimento das lideranças, organizações, grupos e coletivos negros é parte da nossa missão”, afirma.
Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá. Crédito: Thalita Novais
Um dos critérios para seleção das organizações era a atuação na promoção efetiva do que determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Essas legislações tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas, modificando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apesar da determinação legal, muitas instituições de ensino — tanto públicas quanto privadas — ainda a ignoram, uma realidade que precisa ser transformada.
“As organizações apoiadas no edital contribuíram para reduzir o desconhecimento, subsidiar e cobrar a implementação. Promoveram diálogos que, na maioria das vezes, são incomuns, envolvendo movimento social e unidades formais de educação básica ou universitária. Ver os resultados e saber que mais de 15 mil pessoas tiveram acesso a conteúdos anteriormente vetados em função do racismo é um bom indicador de que estamos no caminho certo de investimento”, completa Fernanda Lopes.
Afoxé Omô Nilê Ogunjá: cultura, autonomia e educação
O edital apoiou organizações, coletivos e grupos negros de nove estados brasileiros. Uma delas foi o Afoxé Omô Nilê Ogunjá, uma associação cultural de tradição afro-brasileira da cidade de Recife, em Pernambuco. Assim como as demais, o Afoxé enfrentou desafios relacionados à gestão de projetos e à prestação de contas. Mas as dificuldades apenas reforçaram o desenvolvimento das habilidades nessas áreas, contribuindo para a autonomia operacional da associação.
Com essa autonomia consolidada, o Afoxé Omô Nilê Ogunjá estabeleceu parcerias para difundir, entre estudantes e educadores da Educação Básica ao Ensino Superior, conhecimentos importantes sobre a cultura afro-brasileira e a história do Brasil, por meio da dança, da música e dos saberes ancestrais.
“Firmamos parcerias com instituições de ensino acadêmico, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com instituições de educação básica, que são o nosso público-alvo, o nosso grande público. Firmamos também parcerias com quatro escolas do bairro do Ibura, escolas públicas e uma escola de capital misto. Trabalhamos, através da Lei 10.639, aspectos da cultura e identidade afro-brasileira, passando pela questão da educação etnicorracial. Tivemos formações para professores, atividades com estudantes e levantamentos diagnósticos”, relata Manoel Neto, representante da organização pernambucana.
Manoel Neto, representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá.
Ele também destaca o salto de qualidade obtido com o apoio técnico do Fundo Baobá: “Foi um ganho muito grande para a nossa instituição. Nós tivemos muitas mudanças corroboradas por esse processo de participação no edital. Passamos a ter um planejamento mais institucional. A elaboração desse planejamento, realizada durante a parceria com o Fundo Baobá, foi muito importante para definir os horizontes que agora estamos trilhando — e que são os que gostaríamos de trilhar. Foi importante para definir onde vamos chegar e aonde queremos chegar. Foi importante, inclusive, para conseguirmos uma parceria com uma nova instituição. Conseguimos um financiamento para 2025 de R$ 300 mil para dar continuidade às ações e garantir a permanência das atividades”, conclui.
Parceria com Imaginable Futures e Fundação Lemann
OFundo Baobá para Equidade Racialcontou com apoio financeiro das instituições Imaginable Futures e Fundação Lemann para a realização do edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial, que teve um aporte de aproximadamente R$ 2,5 milhões e resultou no apoio a 12 organizações.
A Imaginable Futures participou, pela primeira vez, de uma iniciativa dedicada exclusivamente a organizações negras e reconhece a importância dessa participação:
“Historicamente, organizações negras têm acumulado experiências valorosas que as colocam em um lugar central para propor práticas e políticas públicas para promover a equidade no ensino e melhorar a qualidade da educação. No entanto, elas enfrentam desafios para acessar recursos e recebem apenas uma pequena parcela do capital filantrópico no Brasil. Em razão dessa assimetria, temos nos juntado a iniciativas que destinam recursos para essas organizações. A iniciativa com o Baobá foi uma experiência inaugural e transformadora para a Imaginable Futures — não apenas pela legitimidade que o Baobá já tem no campo, mas porque nos permitiu aprender e evoluir enquanto organização. Foi uma parceria de muita aprendizagem, que fortaleceu a nossa estratégia e nos ajudou a melhorar a forma como atuamos em prol da equidade racial na educação”, diz Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.
Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.
Xangai, na China, uma das cidades mais populosas do mundo. Com quase 27 milhões de pessoas, é um poderoso centro financeiro, econômico, tecnológico e educacional. Por ser considerada uma esquina do mundo, assim como Nova York, Paris e Tóquio, foi lá que a New York University (NYU) decidiu, em 2011, ter um polo de educação fora dos Estados Unidos. Em 2019 iniciou a construção do seu moderno campus e o concluiu em 2022, objetivando receber 4 mil alunos vindos de todas as partes do mundo.
Diovanna Negeski nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do edital Black Stem. Crédito: Thalita Novais
Um desses 4 mil alunos é Diovanna Negeski, uma brasileira negra que cresceu, como ela própria diz, no fundão da zona leste, no bairro de Itaquera, hoje conhecido em todo o Brasil por abrigar o estádio do Corinthians, também chamado de Itaquerão.
Bairro de classe média baixa, composto por famílias de trabalhadores, ele é o palco da infância de Diovanna, que foi sendo cuidada por sua avó, já que seus pais tinham que trabalhar para dar uma vida mais confortável à filha. A avó também se virava como podia, fazendo serviços domésticos nas casas da região.
Querendo que Diovanna tivesse um futuro diferente dos demais da casa, a avó um dia disse a ela que a condição social da menina a estava fazendo perder a luta para a vida. Motivo: as pessoas mais abastadas tinham acesso a um estudo melhor e a cada dia ganhavam mais distância dela em termos escolares.
Aquilo despertou na itaquerense o desejo de brigar por espaço nos melhores bancos escolares. Esse desejo levou Diovanna a avançar nos estudos e, posteriormente, se inscrever no edital Black Stem, do Fundo Baobá, realizado em parceria com a B3 Social e a BRASA. Em 2024, ela foi selecionada na primeira edição do edital e atualmente está morando e estudando em Xangai. Fomos conferir como está sendo o dia a dia de transformações em sua vida.
Como você soube do edital Black Stem? Que benefícios essa bolsa tem trazido para você?
A bolsa do Black STEM foi para mim o alívio, o escape que eu precisava e foi o motivo de hoje eu estar estudando na NYU Xangai, estar inspirando outras pessoas e o motivo de trazer a minha voz para esse lugar. Minha perspectiva, minha voz, minhas ideias, porque sem essa bolsa, sem o benefício do Baobá eu não conseguiria viver aqui. Xangai é uma cidade muito cara. A bolsa que eu recebi da universidade não cobria tudo, então eu tive que ir atrás do que pudesse me ajudar. Foi quando o Baobá apareceu (fui parar nas inscrições por intermédio de um amigo na África do Sul que viu). Eu conhecia o Baobá, mas por algum motivo eu não tinha visto as inscrições. Eu não tinha essa informação de que tinha inscrição para pessoas negras que queriam estudar no exterior. Ele, esse amigo querido, o Luís, de Recife, viu que eu tinha todo o perfil e disse que eu tinha que me aplicar para aquilo. Eu já conhecia o Fundo, toda a transparência e toda a cultura das coisas que eles estão fazendo para a comunidade negra. Eu me apliquei e passei e com muito orgulho estou trazendo a força da comunidade negra aqui para a Universidade de Nova York, na China.
Quando, como e por que você decidiu pela NYU China? Por que um país tão distante e com cultura tão diferente da brasileira?
É, para contar essa história eu acho que tenho que voltar um pouquinho no tempo. Sempre fui uma menina que nasceu na zona leste de São Paulo, região de Itaquera, onde fui criada. Estudei toda minha infância em escola pública do bairro. Mas já nessa época eu era muito inquieta, alguém que buscava muitos desafios e coisas novas. Comecei a me envolver com projetos sociais durante esse momento do ensino fundamental. Eu gostava muito de entender como a educação poderia ser uma chave de transformação na vida das pessoas. Com isso eu fui estudar no Instituto Federal de São Paulo. No Instituto Federal de São Paulo comecei a estudar tecnologia e me envolvi com diversas iniciativas interessantes. Mas essa inquietação, esse desejo pelo novo, esse desejo por desafios e por algo que me tirasse dessa zona de conforto foi o fator decisivo quando estava pensando para onde eu iria estudar. Porque o maior sonho da minha vida era viajar para Nova York e meu sonho era estudar na Universidade de Nova York. Consegui realizar esse sonho de conhecer Nova York antes de vir para a China. Porém, apesar de ser o meu maior sonho, eu ainda sentia que não era exatamente esse lugar que queria morar. Apesar de não ser uma pessoa de fala nativa. uma estadunidense, eu domino o inglês. Então, eu achava que Nova York não seria tão desafiador. Aí, quando eu vi a China, Xangai, eu falei: esse é o lugar perfeito para mim. É o lugar que vai me desafiar. O lugar que vai me tirar da zona de conforto todos os dias. Que vai me colocar para estar sempre atenta e sempre buscando novos desafios. Estando no Brasil, você imagina que a China tem uma cultura que é muito distante da nossa. Mas, estando aqui hoje, eu posso falar pela perspectiva de alguém que está morando aqui há mais de 6 meses. Eu falo que a gente (Brasil e China) tem muita similaridade. Queria sair da zona de conforto. Todo dia aqui é um desafio novo. Eu estou aprendendo chinês, que é uma das línguas mais difíceis do mundo, mas eu acho que é nesses momentos que a gente consegue ser moldado como ser humano e é por isso que escolhi aqui.
O estudo é puxado? Como é sua rotina de estudos? Qual a matéria que tem sido mais difícil?
É bastante puxado. Meu dia começa bem cedo, às 6 horas da manhã. Aí eu vou pra faculdade e tenho aula das 8h às 14h. Todas as semanas temos provas, provas e mais provas. E há outras atividades. Então, a agenda tem que ser muito organizada. Isso demanda ter que ser muito certinho. Como eu gosto, preciso e necessito estudar, mantenho tudo em ordem. Mas também gosto de cuidar do meu corpo, de fazer esportes. Então, vou para a academia. Mas tudo é agendado. A matéria mais difícil para mim foi chinês. É uma língua muito difícil, tem caracteres. Fiz o milagre de aprender de uma forma muito rápida, porque aqui a gente aprende de uma forma extremamente rápida. Em quatro meses eu aprendi o que uma pessoa aprende em um ano. Está muito rápido o processo.
Diovanna na China com a turma de alunos da New York University (NYU)
Você chegou em Xangai e logo já foi fazendo um “Perdida na China”, série de vídeos sobre seu dia a dia aí. A ideia nasceu aqui no Brasil ou quando pisou em Xangai?
A questão do Perdida é muito interessante, porque está tendo um alcance muito bacana. Então, muitas pessoas estão conhecendo. Nos últimos vídeos que eu postei, tive mais de 380 mil visualizações. Então, muita gente está conhecendo um pouco mais sobre a China. O intuito do Perdida na China é fazer um quadro semanal de vídeos onde eu mostro a minha realidade. Quero informar as pessoas, porque vejo quanto a desinformação pode ser um fator perigoso. Como ela pode colocar as pessoas em lugares de ignorância. Então, pensei em como eu vou conectar as pessoas que estão lá no Brasil para que elas vejam que a China não é de outro mundo. A China é um país como qualquer outro, com suas peculiaridades. É um país com diferenças e similaridades. Então o Perdida é um espaço de afirmação para espalhar informação de qualidade, informação de alguém que está vivendo aqui, informação verdadeira sobre o que é a China.
Por que o apelido de “Blogueira de Centavos”?
É interessante porque eu coloco em todos os vídeos a legenda: Perdida na China, episódio “X”, que vai mostrar a saga dessa blogueira de centavos tentando conquistar seu diploma na NYU Xangai. Blogueira de Centavos é uma brincadeira, porque com certeza eu não sou uma blogueira. Não considero também que eu seja criadora de conteúdo. Mas é uma brincadeira que tem na internet, pois quando você posta você está explorando esse mundo das mídias sociais, onde tudo é muito rápido. Então, Blogueira de Centavos sou eu tentando me adaptar a esse modelo mais instagramável, em que as pessoas gostam de coisas mais instantâneas, rápidas, mais miojo.
Quando começou a crescer na cabeça daquela menina da Zona Leste o desejo de ir para outros países? Houve algum motivo ou alguém inspirador?
Essa pergunta é bem profunda. Eu gosto muito de falar de um lugar, que é o meu coração. Gosto de falar das coisas que vêm do coração. Eu adoro falar de mim menina. Aquela criança que nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo, no fundão de Itaquera. Sempre fui uma criança inquieta, sonhadora, obstinada e dedicada. Fui criada pela minha avó, porque os meus pais trabalhavam. Eu os via com mais frequência nos finais de semana. Meu avô é um imigrante russo, que veio para o Brasil para trabalhar nas fazendas. Já a minha bisavó por parte de mãe era uma pessoa que vivia em situação de escravidão. Já a minha avó fazia esses trabalhos informais para as pessoas como empregada doméstica. Meus pais tinham que trabalhar muito para que eu tivesse uma vida razoável. Lembro certa vez que minha avó estava arrumando meu cabelo e ela disse uma das frases que muitos jovens negros ouvem: “Você sabe que está perdendo a corrida da vida, não sabe?” Eu era uma menina de uns 8 anos de idade e falei: “Como assim?” Ela disse: “ É porque as pessoas que estão recebendo uma educação de melhor qualidade, os ricos, estão à frente de você. Estão a passos largos, muito mais na frente!” Quando ela disse isso, eu passei a ver minha vida com uma corrida mesmo, em que as pessoas que estavam melhor instruídas, que tinham melhor educação, recebiam acesso a lugares que possivelmente poderiam potencializá-las mais. Elas poderiam acessar coisas diferentes. Então, eu comecei a correr muito mais, a fazer muito mais. Ela, minha avó, além da minha mãe, foi esse motivo tão inspirador para me fazer estar aqui. Minha família sempre me apoiou muito em tudo, apesar das dificuldades financeiras. Eu tenho uma família que acreditou mesmo quando os sonhos eram muito grandes. Quando eu dizia: eu quero ir para Nova York, nunca ninguém da minha família tinha tido um passaporte. Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira da minha família a aprender inglês e viajar para fora. Minha família nem achava que inglês era necessário. Então, mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, ela me apoiou.
Descreva sua chegada na NYU China e, se possível, o impacto que isso te causou.
A minha chegada na NYU Xangai foi surpreendente, mas muito tranquila. Antes de eu vir para a China, estava morando na África do Sul, por conta de um programa de voluntariado que eu estava fazendo lá. Então eu passei um mês apenas pelo Brasil e vim para a China. Quando vim para cá, eu já estava acostumada com essa questão de não ter uma casa fixa, já estava acostumada a dividir um apartamento, dividir o quarto e essas coisas. Então, foi uma chegada muito tranquila. Tem sido muito desafiador aprender chinês, apesar de eu gostar muito de aprender línguas. Mas a cidade é incrível, maravilhosa. A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe, chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste, na periferia e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus, mas deles também.
Diovanna com a turma de alunos na China
As aulas são em inglês, certo? Onde, como ou com quem você aprendeu a língua?
Sim, as aulas são em inglês. Mas eu tenho que aprender também o chinês, pois tenho aulas separadas que são só em chinês. Mas as referentes ao meu curso são todas em inglês. É muito interessante como eu aprendi inglês, mas eu preciso dar também um contexto. Eu vim de uma família que nunca entendeu qual era o propósito de falar inglês, não entendia qual é o propósito de aprender uma língua. Eu tive que implorar, que pedir para minha mãe muitas vezes para que ela me colocasse num curso de inglês. Mas ela não conseguia entender qual era o propósito daquilo. Eu sei que em outras famílias, em outros contextos sociais no Brasil, você não precisa implorar para que um pai, uma mãe pague um curso de inglês. Mas é que minha mãe e meu pai não entendiam por que isso era necessário. Para que isso era bom? Com muito custo eu consegui convencer minha mãe a pagar. Eu fiz um curso de inglês particular, que ela pagou durante anos e também não gostava de pagar.
Você cursa Ciência da Computação. O curso é de quantos anos? A divisão é por semestres, como aqui no Brasil?
Sim, eu curso Ciência da Computação, que é um curso de 4 anos e a divisão é por semestres, como no Brasil. A cada semestre eu pego algumas matérias. Nesse primeiro ano geralmente a gente faz matérias que a faculdade chama de core (matérias que são fundamentais para a formação acadêmica do estudante), pois precisamos ter o nível x de matemática e o nível y de escrita. Então, eu tenho que pegar algumas matérias específicas para cumprir primeiro esses requerimentos e aí depois eu consigo pegar as matérias de outro curso. Mas as matérias de ciência da computação são mais voltadas para software, programação e dados.
Você sempre aparece nos vídeos com amigos brasileiros e uma garota negra norte-americana. Quem são eles e como nasceu essa integração entre vocês aí na China? Qual a importância deles na sua vida hoje?
Existe claramente aqui uma diferenciação de culturas, mas além da diferenciação existe a diversidade cultural, que dá a oportunidade de ver pessoas do mundo inteiro falando línguas das mais diversas, mais especiais e diferentes. A gente sabe que a questão racial no Brasil é estruturada de uma forma e estruturada por outra nos Estados Unidos. Mas as questões raciais sempre estiveram atreladas, histórica e antropologicamente, às questões de ordem financeira, ao capital. Estudar em uma das universidades mais caras dos Estados Unidos e a mais cara da China faz a gente não ter muitas referências negras aqui. As pessoas negras que tem aqui são pessoas negras que talvez não se sintam pertencentes, porque são negros, mas cresceram como pessoas brancas ricas nos Estados Unidos. Aí eu encontro essa minha amiga, a Fortune, uma garota negra, e a primeira vez que eu a vi eu sabia que queria ser muito amiga dela. A gente cresceu em culturas diferentes, em países completamente diferentes, mas as nossas realidades são muito parecidas. Ela também tem um nível de conquistas muito grande, também tem bolsas e, como eu, está lutando aqui para se afirmar nesse espaço. Ela é muito importante nesse processo de aquilombamento, onde nos juntamos para falar de nossas dúvidas, dores, dificuldades, mas também falar das nossas alegrias de estar aqui. De termos chegado. Então, tenho essa amiga, a Fortune, outros brasileiros, muitos internacionais, mas há uma brasileira, a Clara, que foi crucial para mim. Ela tornou a minha chegada aqui na China tranquila. A gente se considera uma família, mas uma família longe da minha família, por exemplo.
Que mensagem você deixa para outros estudantes brasileiros que têm também o sonho de estudar no exterior?
Eu penso sempre na palavra acreditar. E acreditar é um movimento de acreditar em si. De ser o seu primeiro apoiador. De ser o seu primeiro fã. Eu tive apoio de familiares, de amigos, mas a pessoa que mais acreditou em mim fui eu. Apostei muito em mim, acreditei no meu potencial, acreditei que iria mudar o jogo de um modo que inspirasse outras pessoas, que trouxesse transformação social, que trouxesse diferenças. Então é muito importante que os estudantes acreditem que podem, que é possível!
Você tem até o dia 30 de abril para se inscrever na segunda edição do edital Black Stem. Para ter mais informações, acesse este link: https://bit.ly/BS-2edicao.
E quem se interessou por seguir os episódios do Perdida na China, que a Diovanna posta toda semana, siga ela no Instagram.
No próximo dia 25 de novembro, milhares de mulheres negras vão se reunir para marcharem por Reparação Histórica e Bem Viver, em Brasília – DF. Marcham por uma exigência de políticas e medidas concretas que enfrentem as desigualdades raciais e sociais, que assegurem oportunidades reais para a população negra, que garantam o direito de sonhar e realizar, de envelhecer com dignidade, de acessar uma educação de qualidade, de se alimentar bem, e de ter acesso à saúde integral.
E pelo Bem Viver que representa uma proposta de organização política e social que rompe com o modelo individualista, explorador e desenvolvimentista centrado no capital, ou seja que proponha uma organização coletiva para a ascensão das mulheres negras na sociedade em todas as regiões do Brasil.
Mulheres negras reunidas para o planejamento do Março de Lutas em Recife (PE)
Com o objetivo principal de denunciar as diversas formas de opressão que atingem de maneira potencializada as mulheres negras, o movimento coletivo do Março de Lutas foi criado em 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e é construído pela Articulação de Organizações Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede de Mulheres negras do Nordeste.
A 7ª edição reforça uma agenda coletiva dos movimentos de mulheres negras, promovendo reflexões sobre o combate ao racismo e ao patriarcado, além de propor um novo olhar sobre o 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Mulher.
8 de Março em Goiás
Durante o mês de março foram realizadas 167 atividades, de 83 organizações, grupos e coletivos, em 19 estados, nas 5 regiões do Brasil. Foram rodas de conversa, oficinas, festivais, seminários e outras ações que são o fio condutor desta mobilização. Todas essas atividades têm por meta alcançar o número histórico de 1 milhão de mulheres negras nas ruas da capital federal. Costurando experiências, saberes e resistências por todo o país, este ano, o chamado ganha ainda mais potência, direcionando os passos rumo à marcha.
Mulheres dos centros e dos quilombos; das universidades e das escolas primárias; atletas; artistas; profissionais da educação e da comunicação; engenheiras; cientistas; motoristas de aplicativos; agricultoras; donas de casa; empreendedoras; trabalhadoras do campo e da cidade; cristãs e candomblecistas; religiosas ou não; entre outras.
Reunião de mulheres negras no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO)
Para Maria Conceição Costa, a Ceça, uma das integrantes da Coordenação Nacional do Comitê impulsor da Marcha das Mulheres Negras, a marcha cumpriu o seu papel em 2015 como um impulsionador para a organização dessas mulheres. Após a marcha houve um fortalecimento significativo das mulheres do Nordeste, ainda que tenham relatos de ocorrências de opressão durante a marcha.
Mulheres negras presentes no carnaval de São Luís (MA)
“É importante fortalecer não só as capitais para 2025, mas um número maior de cidades e os interiores Brasil afora, pois a realidade das mulheres negras ainda é muito crítica. São elas as que mais morrem pela ausência de saúde, são as que mais choram pelos seus filhos assassinados pela violência do estado, são as mais perseguidas por conta da sua fé, das suas guias, e as que mais sofrem violência obstétrica”, afirma Ceça.
Novembro de 2025 pode entrar para a história como o mês do protagonismo das mulheres negras no Brasil. São esperadas um milhão delas, lotando as ruas de Brasília na segunda edição daMarcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
A primeira edição aconteceu em novembro de 2015, também na capital do país. Uma década mais tarde, o evento busca representatividade internacional, com a presença de países da América Latina, África e Caribe.
A Marcha das Mulheres Negras será uma grande reivindicação por direitos inegociáveis, que já deveriam ter sido garantidos há séculos às mulheres negras. São questões fundamentais da dignidade humana, como a garantia de direitos econômicos e sociais, o combate à violência, a promoção da igualdade racial, a valorização dos saberes da cultura afro-brasileira e o acesso pleno à saúde e à educação, entre outros.
Maria das Dores Almeida, a Durica, faz parte doInstituto de Mulheres Negras do Amapá (Imena) e integra a Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB). Ela participou da primeira Marcha em 2015 e define a importância do que a segunda edição pretende alcançar:
“Participar da Marcha significa fazer parte de um dos momentos mais importantes da história do Brasil, principalmente porque nós estamos lutando por um novo projeto político de nação”, diz.
“Quando a gente fala de reparação e bem viver, a gente tá querendo um novo modelo de sociedade que nos reconheça e nos coloque no lugar devido – e não em um lugar de marginalização, de subalternização, de negação da nossa resistência e do nosso direito”, afirma.
Um movimento plural por respeito e justiça
A Marcha das Mulheres Negras é um movimento fundamental de luta, com uma capacidade ímpar de articulação. Os 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, estão representados em sua organização.
Outro aspecto essencial é a diversidade de interseccionalidades que unem essas mulheres. Elas são da cidade, do campo, quilombolas, ribeirinhas, acadêmicas, trabalhadoras de todas as faixas etárias – todas com o mesmo objetivo: respeito e justiça.
Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o estado do Pará possui a quarta maior população quilombola do Brasil, com cerca de 135 mil pessoas. Uma de suas lideranças é Valéria Carneiro, integrante da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos – Malungu.
Valéria tem desempenhado um papel fundamental na articulação da Marcha das Mulheres Negras e afirma:
“A Marcha significa afirmar a luta contra o racismo, o feminicídio e toda forma de preconceito e negação de direitos que esse país nos deve. Além disso, a nossa história será contada por nós. Sabemos que temos um 2025 desafiador, principalmente por ser o ano da COP30 no Brasil. Financiamento climático é um dos temas debatidos por mulheres negras, assim como estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Falar sobre justiça ambiental é garantir o direito à terra e ao território”.
A Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba tem uma conexão direta com o Fundo Baobá em dois momentos. O primeiro é sua participação no Programa Marielle Franco, instituído pelo Baobá em 2019, quando foi selecionada pelo trabalho que desenvolve na defesa dos direitos das mulheres e no combate à violência de gênero.
A segunda ligação está na própria Marcha das Mulheres Negras, já que o Fundo Baobá é o maior doador financeiro do evento, destinando R$ 1,25 milhão para sua realização.
Embora a Marcha seja protagonizada por mulheres, os homens também podem contribuir com a mobilização.
“Os homens podem contribuir financeiramente com a Marcha, divulgá-la, incentivar mulheres negras da sua família, da sua vizinhança e colegas de trabalho a também participarem da manifestação”, destaca Maria das Dores Almeida, a Durica, do Imena.
Saiba como participar da Marcha das Mulheres Negras neste link.
Especialista e familiares dos bolsistas do Black STEM falam sobre desafios e conquistas no exterior
O senso comum diz que, para estudar no exterior, é necessário ser alguém especial – o famoso ponto fora da curva. Quem dissipa esse mito é o professor Fernando Caixeta, titular do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), Campus Uberlândia, que atua com mentoria em programas de internacionalização e foi convidado a ser um dos mentores dos estudantes do programa Black STEM.
Essa iniciativa, promovida pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, apoia a presença e permanência de pessoas negras em universidades fora do Brasil. No início de julho de 2024, cinco estudantes negros foram selecionados – quatro mulheres e um homem. Desde então, esses pioneiros vêm sendo acompanhados e apoiados por professores e suas famílias.
“Não tem que ser gênio e não tem que ter nota acima da média. Isso é uma grande ilusão. Eu acredito muito que são fatores que contam, mas não são o principal. O principal é o fator atitude”, sintetiza Caixeta, ao comentar o que levou esses jovens a serem selecionados por instituições de ensino no exterior.
“Muitas universidades estrangeiras consideram o ponto de onde você partiu até o ponto em que você chegou. Se você teve acesso a estudo de línguas, fez várias viagens, você tem uma bagagem cultural e de experiência muito maior que aqueles que não tiveram essa chance.”
“Então, é muito mais o que você fez com aquilo que você tinha do que as notas que você alcançou. Tem que ter vontade e estar habilitado a receber não. A vida de quem se candidata a uma oportunidade no exterior é de muitos nãos até que se obtenha um sim. É importante entender que isso faz parte do processo”, diz.
O impacto do Black STEM na vida dos estudantes negros
O Black STEM tem foco em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Também conhecidas como ciências exatas, essas áreas têm uma ligação histórica com a população negra, responsável por importantes desenvolvimentos científicos e tecnológicos.
O programa foi criado pelo Fundo Baobá, com apoio da B3 – Social e parceria do BRASA (Brazilian Student Association).
Camila Ribeiro, bolsista Black STEM. Crédito: Thalita Novais.
Camila Ribeiro está em Portugal. Ela optou por cursar Pilotagem na Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique. A Marinha Mercante surge como uma grande alternativa profissional quando estiver formada.
Eric Ribeiro está nos Estados Unidos cursando Engenharia Aeroespacial na Universidade Notre Dame. Os desafios que ambos têm que enfrentar são duros e não estão apenas dentro das instituições em que estudam.
“Tenho conversado com os estudantes do BlackSTEM com alguma frequência. O que eles relatam de maneira geral é que o início é complicado, no sentido de se entender em uma sociedade que não é a deles. E o que a gente entende como prioridade é que se encontre quem pode nos ajudar nesse processo. Grupos de pessoas pretas nos ajudam bastante. Aquilombar, nessa hora, pode ser um fator essencial”, diz o professor Caixeta.
O impacto familiar e os desafios da distância
Camila é capixaba de Vitória (ES). Sua mãe, Andressa Ribeiro, fala sobre como é estar longe da filha, que não voltou para o Brasil no período de Natal e Réveillon:
“Nos preparamos para esse momento, é um sonho se realizando, então há um misto de sentimentos. Muita saudade, mas também orgulho pelo protagonismo dela. Há o receio com relação ao clima, ao racismo, que buscamos mitigar com informação, muita fé e sorte. A tecnologia tem sido aliada nesse processo. Nos falamos com frequência”, afirma Andressa.
A rotina de Camila em Portugal é puxada. “Ela tem aulas diariamente, pela manhã e à tarde; tem excelentes professores, que focam o ensinamento mais na parte prática da matéria. Ou seja, no que ela realmente vai aplicar no dia a dia da profissão.”
“Está integrada com os colegas, formaram grupos de estudos e recebeu orientação da instituição para obter alguns documentos que precisava. Ela mora no alojamento e faz as refeições na própria faculdade. Quando possível, aproveita para conhecer um pouco mais a cidade”, revela Andressa Ribeiro.
Eric Ribeiro, bolsista Black STEM. Crédito: Thalita Novais.
Joelma Ribeiro, mãe de Eric, de 18 anos, e moradora de Caieiras, na Grande São Paulo, relata que a vida de seu filho não tem sido muito diferente da vida de Camila. E seu coração vive tão apertado quanto o da mãe da colega.
“Tenho um misto de sentimentos: saudade, orgulho e felicidade. Às vezes, ver o Eric alcançando seus objetivos tão jovem é uma realização, mas também é desafiador conciliar os sentimentos, justamente por causa da distância e da sensação de ‘deixar ir’. Mas é lindo ver como ele está crescendo cada vez mais e desbravando o mundo”, diz.
Eric está na Universidade de Notre Dame, de olho em seu maior sonho: entrar na NASA (Agência Espacial Norte-Americana). Ele quer chegar lá e se tornar astronauta.
“Ele está se adaptando e lidando com as novas experiências de forma responsável, e isso é uma grande conquista! Suas preocupações, como não ficar doente e cuidar de si mesmo, são sinais de que está amadurecendo e aprendendo a ser independente, o que é um passo muito importante nessa fase da vida. Ele parece estar em um ótimo caminho”, diz Joelma.
Andressa e Joelma enaltecem a iniciativa do Fundo Baobá em criar um programa que possibilita a estudantes negros brasileiros ingressarem em universidades no exterior.
“A aprovação da Camila no edital foi de grande relevância. A bolsa tem sido essencial para viabilizar sua permanência em Portugal e a conclusão do curso.”
Joelma completa: “Foi um alívio ver o Eric conquistando essa oportunidade, ainda mais em um momento de tantas mudanças. Saber que ele conseguiu se organizar financeiramente e que está se virando sozinho em tantas questões, desde as mais práticas até as acadêmicas, é uma grande conquista para ele e também um grande alívio para mim.”
O Fundo Baobá para Equidade Racial foi reconhecido pela Prefeitura de São Paulo com os Selos de Direitos Humanos e de Igualdade Racial, reafirmando sua atuação na promoção da equidade racial, na inclusão social e no fomento à educação para a população negra. O anúncio foi feito em dezembro de 2024, destacando a relevância do trabalho da organização.
A cerimônia de premiação ocorreu em São Paulo,nos dias 9 e 10 de dezembro, reunindo mais de 400 organizações inscritas. No total, 235 entidades foram premiadas pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, reconhecendo suas iniciativas em prol da diversidade, inclusão e justiça social.
Selo de Direitos Humanos e Diversidade
O Edital Educação em Tecnologia, promovido pelo Fundo Baobá, foi contemplado com o Selo de Direitos Humanos e Diversidade em sua 7ª edição, um reconhecimento concedido a organizações que realizam ações concretas para a inclusão e a promoção dos direitos humanos.
Lançado para fortalecer a inserção da população negra no mercado de tecnologia, o edital Educação em Tecnologia apoia organizações e empresas lideradas por pessoas negras que possam contribuir, por meio de processos formativos, tanto para a entrada de novos profissionais negros no setor quanto para a permanência daqueles que já atuam, desenvolvendo suas competências.
Ao todo, quatro organizações foram selecionadas para receber apoio financeiro, com bolsas que variam entre R$ 250 mil e R$ 500 mil, permitindo que essas iniciativas expandam seu impacto e capacitem mais profissionais negros para o setor tecnológico.
Selo Igualdade Racial
Além do reconhecimento pelo edital, o próprio Fundo Baobá recebeu o Selo Igualdade Racial, uma certificação concedida a organizações que demonstram compromisso com a diversidade racial e a inclusão no ambiente de trabalho.
Criado pela Lei Municipal 16.340/2015 e regulamentado pelo Decreto 57.987/2017, esse selo é destinado a organizações que possuem, no mínimo, 20% de profissionais negros em diferentes níveis hierárquicos, incluindo cargos de direção, gerência e coordenação.
No Fundo Baobá, a equipe executiva é composta majoritariamente por pessoas negras, reforçando seu compromisso com aequidade racial, o desenvolvimento de lideranças negras e a transformação social.
O impacto do reconhecimento
Os selos conquistados pelo Fundo Baobá não apenas reconhecem suas iniciativas de impacto social, mas também fortalecem o compromisso da organização com a construção de um futuro mais igualitário para a população negra no Brasil.
Com essas premiações, o Fundo Baobá reafirma seu papel na promoção da equidade racial e justiça social, contribuindo para um mercado de trabalho mais representativo.
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver espera reunir um milhão de mulheres negras em Brasília (DF), no dia 25 de novembro de 2025. Esse ato político-social receberá um investimento histórico de R$ 1,25 milhão do Baobá – Fundo para Equidade Racial, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.
O anúncio foi feito no início de dezembro, durante o Encontro Regional de Mulheres Negras do Nordeste, realizado em Recife (PE). Na ocasião, Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Baobá, reafirmou o compromisso da organização com a luta das mulheres negras e a mobilização nacional, e destacou:
“Estamos articulando e contribuindo com as diversas frentes envolvidas nesse processo, apoiando tanto a mobilização local quanto a coordenação nacional, com um foco especial nas mulheres quilombolas, que têm um papel central nesta caminhada. Este é um esforço coletivo, com a confiança de que as mulheres negras terão voz ativa em cada etapa do processo até a grande Marcha.”
Apoio financeiro e divisão do investimento
O aporte de R$ 1,25 milhão será distribuído da seguinte forma:
✅ R$ 350 mil – Comitê Nacional para garantir a presença de mulheres na marcha ✅R$ 25 mil por estado – Destinados à mobilização em todas as 27 unidades federativas ✅R$ 225 mil – Exclusivamente para a articulação de mulheres quilombolas.
Segundo Fernanda Lopes, Diretora de Programas do Fundo Baobá, esse apoio está alinhado às prioridades da organização, que incluem fortalecer a memória e história da população negra, gerar renda e combater o racismo e o sexismo.
Por que a Marcha das Mulheres Negras é fundamental?
Embora representem 28% da população brasileira, mulheres negras enfrentam os piores índices sociais. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública:
👉🏾 63,9% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras 👉🏾 61,6% das vítimas de estupro têm até 13 anos e 52,2% são negras
Apesar dos desafios estruturais, são elas que estão na linha de frente da luta por justiça social e direitos humanos, enfrentando diretamente a violência do sistema carcerário, a criminalização das populações negras e periféricas e as violações de direitos promovidas pelo Estado.
Sua atuação é essencial em movimentos por moradia digna, saúde, educação e segurança alimentar, além da defesa dos direitos territoriais de comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais. Também desempenham um papel fundamental no fortalecimento da memória e da identidade da população negra, garantindo que suas histórias e contribuições para a sociedade brasileira sejam reconhecidas e valorizadas.
História da Marcha das Mulheres Negras
A Marcha das Mulheres Negras teve sua primeira edição em 2015, reunindo 100 mil mulheres em Brasília. O evento foi resultado de quatro anos de mobilização, iniciados em 2011, com ações em diversos estados e a formação de comitês estaduais e municipais. Esse processo fortaleceu a identidade política das mulheres negras, ampliou sua participação na esfera pública e impulsionou o crescimento de organizações femininas negras.
Um dos grandes marcos dessa mobilização foi a Carta das Mulheres Negras, documento entregue à Presidência da República e à sociedade brasileira. Nele, foram apresentados dados sobre desigualdade racial e de gênero, além de propostas para um novo pacto civilizatório baseado no conceito de Bem Viver. O documento abrange demandas por direitos urbanos, segurança pública, justiça ambiental, seguridade social, educação, cultura e outras pautas essenciais.
Desde então, as mulheres negras seguem “em marcha”, reforçando suas lutas por justiça e reparação histórica. Para a próxima edição, a expectativa é mobilizar 1 milhão de mulheres na capital federal, consolidando seu protagonismo na luta contra o racismo, o feminicídio, o genocídio da população negra e a negação dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver conta com 11 organizações em seu Comitê Nacional e se baseia em dois pilares fundamentais:
✊🏿 Bem Viver – Um modelo de sociedade que valoriza justiça social, equidade e cuidado coletivo, priorizando o bem comum em vez do individualismo. Defende a diversidade cultural, a autonomia das comunidades e uma gestão descentralizada.
✊🏿 Reparação Histórica – Uma luta por reconhecimento e justiça, exigindo reparação pelos danos da escravidão e do colonialismo. O foco está na restituição de direitos sobre o corpo, a cultura, a terra e a autonomia dos povos negros e indígenas.
A Marcha reafirma o compromisso das mulheres negras com a construção de um Brasil mais justo, igualitário e antirracista, fortalecendo redes locais, nacionais e internacionais de articulação feminista e política.
Fundo Baobá e o compromisso com a equidade racial
Sueli Carneiro, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, destaca a relevância desse apoio:
“O Fundo Baobá foi criado com a ambição de ser um vetor fundamental para o fortalecimento da agenda racial no Brasil. Este apoio à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reflete nosso compromisso em tornar essa causa uma realidade concreta, reafirmando a necessidade da presença efetiva das mulheres negras nas decisões políticas e sociais. Investir nesse movimento é, para nós, uma ação estratégica rumo à justiça social.”
Além do suporte financeiro, o Fundo Baobá mobiliza outros atores da sociedade civil, ampliando a força da Marcha e garantindo sua realização em 2025.
O apoio à Marcha das Mulheres Negras 2025 representa um avanço significativo na luta por equidade racial, direitos humanos e justiça social. Com esse investimento, a organização reafirma seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.
📢 Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!
A economia global enfrenta desafios complexos, como inflação e crises que afetam tanto economias maduras quanto aquelas em expansão. No Brasil, os entraves para o crescimento sustentável estão profundamente ligados às desigualdades sociais, impactando diretamente a população negra, que representa cerca de56,5% dos brasileiros. A história do país, marcada pelo regime escravocrata, ainda reverbera em desigualdades estruturais persistentes.
A importância do investimento em iniciativas locais
A população negra no Brasil não é homogênea. As condições socioeconômicas e territoriais variam amplamente, exigindo soluções adaptadas a cada realidade. Nesse cenário, é essencial investir em quem está na linha de frente, lidando diretamente com os desafios locais. O Fundo Baobá, criado com essa missão, possui uma capilaridade que o coloca como um agente estratégico no fortalecimento de pessoas e organizações negras, promovendo transformações sociais efetivas.
Apoiar iniciativas locais e o desenvolvimento de pessoas negras é fundamental para a mudança, mas não pode ser uma ação isolada. O investimento social privado e a filantropia negra desempenham um papel fundamental na promoção da equidade racial e na reparação histórica. Empresas que adotam estratégias de impacto social ampliam significativamente suas contribuições para um Brasil mais justo e sustentável.
Equidade, democracia e desenvolvimento sustentável
Para avançar como nação, o Brasil precisa enfrentar desafios interligados: consolidar a democracia, promover a equidade racial e combater as mudanças climáticas. No campo da equidade, é urgente combater práticas discriminatórias e garantir a implementação de políticas eficazes que promovam a inclusão da população negra em diversos setores.
Embora as contribuições históricas da população negra estejam ganhando visibilidade, ainda existem barreiras significativas para seu progresso. A falta de acesso a oportunidadesno mercado de trabalho, as desigualdades educacionais e de saúde, e a ausência de políticas públicas voltadas à preservação da cultura afro-brasileira são desafios persistentes.
A Atuação do Fundo Baobá
Desde sua criação em 2011, o Baobá – Fundo para Equidade Racial tem sido um protagonista na promoção da equidade racial no Brasil. Por meio de editais e programas, investe em desenvolvimento econômico, educação, dignidade, comunicação e memória, fortalecendo pessoas e organizações negras em todo o país.
Programas de Impacto do Baobá
O Fundo Baobá impulsiona iniciativas transformadoras por meio de programas como:
Já É – capacita jovens negros para ingresso no ensino superior;
Carreiras em Movimento – desenvolve competências técnicas e socioemocionais para profissionais negros em início de carreira;
BlackSTEM – apoia a permanência de estudantes negros em universidades internacionais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharias e matemática.
Esses programas são essenciais para romper barreiras e ampliar a presença negra em setores estratégicos, promovendo inclusão e igualdade de oportunidades.
Entre as iniciativas futuras, o Fundo Baobá planeja a reedição do Programa Marielle Franco, voltado ao fortalecimento de lideranças femininas negras em diferentes esferas, como política, movimentos sociais e educação. Essa nova edição promete ser um marco na luta por equidade racial e de gênero, formando uma rede de mulheres capacitadas para liderar transformações sociais profundas
Compromisso com a equidade racial
O Baobá – Fundo para Equidade Racial conecta histórias e ações concretas para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro melhor. Com estratégias bem estruturadas, atua para fomentar a participação de pessoas negras nas decisões que impactam o país. Apoiar essa causa é investir em equidade e justiça social.
2024 foi repleto de conquistas e reafirmação do compromisso do Fundo Baobá em promover a equidade racial e apoiar iniciativas transformadoras, a exemplo dos editais BlackSTEM e Carreiras em Movimento.
Este ano, o Fundo Baobá deu passos importantes no fortalecimento de instituições históricas, na ampliação de oportunidades para a juventude negra e no diálogo com movimentos globais de equidade racial. Foi um ano de conquistas significativas, refletindo nosso compromisso com a transformação social. Confira os destaques:
Doação para a Marcha das Mulheres Negras
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, ato político-social que pretende reunir um milhão de mulheres negras em Brasília (DF), em 25 de novembro de 2025, vai contar com o maior apoio financeiro da história do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A organização doou R$1.250.000 (um milhão e duzentos e cinquenta mil reais) para a mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todas as regiões do país, com atenção especial às mulheres quilombolas.
O anúncio foi feito no dia 8 de dezembro durante o Encontro Regional de Mulheres Negras do Nordeste rumo à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que aconteceu em Recife (PE).
Representando o Fundo Baobá, Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social, enfatizou o compromisso da organização com a mobilização nacional: “Este apoio é resultado do nosso compromisso com a luta das mulheres negras e com a construção de um futuro mais justo e digno para todas. Este é um esforço coletivo, com a confiança de que as mulheres negras terão voz ativa em cada etapa do processo até a grande Marcha em 2025.”
BlackSTEM: Formação Acadêmica Global e Liderança Negra
Em agosto, conhecemos os cinco primeiros estudantes selecionados pelo programa BlackSTEM, em parceria com a B3 Social. O edital oferece bolsas anuais de R$ 35 mil para a permanência de jovens negros e negras em áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.
Alunos do Programa Black STEM 2024. Crédito: Thalita Guimarães
Camila Ribeiro Martins, que segue carreira em Pilotagem em Portugal, Diovana Stelman Negeski de Aguiar cursa Ciência da Computação na New York University (Campus China); Melissa Simplicio Silva também faz Ciência da Computação, mas na New York University em Nova York; Rilary Oliveira Torres é estudante de Medicina na Universidad Nacional de Rosario, na Argentina; e Eric Souza Costa Ribeiro, primeiro negro brasileiro a representar o país na Olimpíada Internacional de Ciência, entrou na Notre Dame University para cursar Engenharia Aeroespacial, exemplificam o potencial transformador do programa.
De acordo com Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, “o BlackSTEM é mais que um programa educacional, é uma ponte para a ocupação de espaços de liderança pela juventude negra.”
Conferência da Diáspora Africana nas Américas
Salvador, na Bahia, foi palco da Conferência da Diáspora Africana, um marco para o movimento pan-africano. O evento reuniu lideranças globais para discutir temas como reparação histórica e o papel da África no cenário mundial.
Giovanni Harvey representou o Fundo Baobá na elaboração da Carta de Recomendação à União Africana, defendendo que as reparações sejam o próximo passo no combate às desigualdades estruturais. A conferência na Bahia serviu como ponte para o 9º Congresso Pan-Africano, que ocorreu em Lomé, no Togo.
Impactos do Programa “Carreiras em Movimento”
O programa Carreiras em Movimento trouxe resultados transformadores para os 317 apoiados entre os 688 que se inscreveram para concorrer ao edital — uma oportunidade de desenvolvimento de competências e habilidades entre pessoas negras em início de suas carreiras ou que estivessem buscando mobilidade dentro do setor privado.
✅ 61% das pessoas sem emprego conseguiram trabalho ✅ 54% dos trabalhadores informais migraram para empregos formais ✅ 48% dos participantes relataram aumento de renda, atribuindo os resultados ao programa
Além disso, houve avanços em autoconhecimento, gestão de tempo, planejamento e liderança, fortalecendo trajetórias profissionais e pessoais.
Celebrando a Resistência: 192 anos da Sociedade Protetora dos Desvalidos
Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD). Crédito: Hugo Martins
A Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), a mais antiga associação negra em atividade do Brasil, comemorou 192 anos de luta e resiliência em setembro, em Salvador (BA). Fundada por homens negros libertos, a entidade continua sendo um pilar na busca por justiça social e igualdade.
Com o apoio histórico de R$ 500 mil do Fundo Baobá, viabilizado em 2023, a SPD reafirmou seu papel como símbolo de resistência. Giovanni Harvey destacou a importância de apoiar instituições centenárias, garantindo que suas ações e valores permaneçam vivos para as próximas gerações.
Reconhecimento: Selo de Direitos Humanos e Diversidade e Selo Igualdade Racial
O edital Educação em Tecnologia, inscrito pelo Fundo Baobá, foi reconhecido com o Selo de Direitos Humanos e Diversidade, outorgado pela Prefeitura de São Paulo em sua 7ª edição. Este reconhecimento destaca o compromisso do Fundo Baobá em estimular a produção de conhecimento, fortalecer o ambiente educacional e preparar a juventude negra para o futuro por meio da tecnologia.
A outra outorga foi dada ao próprio Fundo Baobá, que ganhou o Selo Igualdade Racial. Instituído em 2015 pela Lei Municipal 16.340 e Decreto 57.987, de 2017. Este selo é concedido a organizações que têm, pelo menos, 20% de profissionais negros distribuídos em diferentes níveis hierárquicos e funções, incluindo prestadores terceirizados. No Baobá, a equipe executiva é composta majoritariamente por pessoas negras em cargos de direção, gerência, coordenação e assistência.”.
Participação no G20 Social
O Fundo Baobá foi convidado a integrar debates importantes no G20 Social, com destaque para a mesa “Rotas Negras e o Projeto Cais do Valongo”. O G20 Social foi um evento que correu em paralelo ao fórum de cooperação econômica que reuniu no Rio de Janeiro nações desenvolvidas e outras emergentes, além da União Europeia e da União Africana. Giovanni Harvey enfatizou como memória, justiça racial e economia caminham juntas, reforçando o protagonismo negro nas pautas globais.
Giovanni Harvey com Adriana Barbosa, do Preta HUB, na mesa “O papel das políticas públicas para o empoderamento econômico dos afrodescendentes na América Latina” do G20 Social
Visita da Kellogg Foundation
O Fundo Baobá tem uma forte e histórica ligação com a Kellogg Foundation, organização que contribuiu para a formação do Baobá construindo os primeiros diálogos com o movimento negro brasileiro e designando os primeiros aportes financeiros para que o Fundo fosse constituído. Isso teve início em 2006. Em 2024, o Baobá recebeu a visita de integrantes da Kellogg que estiveram no Brasil em 2018. Seis anos depois, eles receberam informações sobre as realizações do fundo nos seus 13 anos oficiais de existência.
Visita da Kellogg Foundation
As informações foram centradas no trabalho de Articulação Social, Investimento Programático e Mobilização de Recursos. Além disso, foi enaltecido o aprendizado que o Baobá recebeu da Kellogg sobre gestão financeira e pensamento de longo prazo. Essas características levaram o Baobá a alcançar a autonomia financeira que hoje possibilita a criação de editais como o BlackSTEM e o Quilombolas em Defesa; ações como a Saúde Mental Quilombola e o investimento de contribuição para a realização da Marcha das Mulheres Negras, que acontecerá em novembro de 2025.