Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.
Mais do que uma data comemorativa, o 25 de julho representa uma agenda política construída pelas próprias mulheres negras. Instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, o dia nasceu da articulação de cerca de 400 lideranças de mais de 30 países, que se reuniram para denunciar os impactos do racismo, do sexismo, da violência e das desigualdades sobre suas vidas.
A data simboliza a luta coletiva contra as diferenças de toda ordem que ainda atravessam a vida de milhões de mulheres negras. No Brasil, a homenagem também reverencia Teresa de Benguela, referência de resistência, liderança e liberdade.
Já o Julho das Pretas transforma esse dia histórico em um mês de mobilização, incidência política e fortalecimento das lutas das mulheres negras, reafirmando seu papel fundamental na construção de sociedades mais justas e democráticas.
Embora as mulheres negras representem a maioria da população brasileira, elas continuam enfrentando barreiras no acesso a direitos, como a igualdade salarial e a participação política em espaços de decisão. Por isso, celebrar o 25 de julho é também reafirmar o compromisso com políticas e iniciativas que fortaleçam seu protagonismo.
É nesse contexto que o Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá, ganha ainda mais significado. Inspirado no legado de uma mulher negra que transformou sua atuação política em instrumento de luta por direitos, o programa investe na formação, no fortalecimento e no desenvolvimento de lideranças negras e organizações lideradas por mulheres negras, ampliando sua presença em espaços de poder e influência. A iniciativa apoia trajetórias individuais, organizações e coletivos liderados por mulheres negras, contribuindo para que suas vozes sejam cada vez mais ouvidas e suas agendas avancem.
Celebrar o 25 de julho é reconhecer que a luta das mulheres negras não se limita a uma data. É compreender que investir em suas lideranças é fortalecer a democracia, promover justiça social e construir um futuro em que direitos, oportunidades e representatividade sejam uma realidade para todas.
A agenda de incidência política do Julho das Pretas 2026 foi marcada por manifestações de norte a sul do Brasil. A seguir, destacamos cinco iniciativas realizadas ao longo do mês que levaram mulheres negras ativistas às ruas e aos mais diversos espaços de debate, reafirmando a força da mobilização coletiva em diferentes territórios:
Nordeste – Piauí A X Feira Preta, organizada pelo Instituto Mulher Negra do Piauí – Ayabás, acontecerá amanhã, dia 31 de julho, no Memorial Esperança Garcia. O evento promove o empreendedorismo negro por meio da comercialização de produtos e da oferta de serviços.
Norte – Tocantins O 6º Encontro Estadual de Mulheres Negras, organizado pelo Coletivo Feminista de Mulheres Negras do Tocantins (Ajunta Preta), aconteceu nos dias 25 e 26, na Universidade Federal do Tocantins. Com o tema O Feminismo Negro que Temos e o Feminismo Negro que Queremos, reuniu um número significativo de mulheres negras para debater os desafios e perspectivas do movimento.
Centro-Oeste – Goiás O Corredor Urbano das Pretas: Ocupação Política do Centro, promovido pelo Instituto Pretas, ocupou, no dia 25, algumas das principais vias de Goiânia (Av. Tocantins, Praça Cívica, Av. Goiás, Av. Anhanguera, Rua 10 e Praça Universitária). A ação buscou fortalecer a visibilidade das pautas das mulheres negras e reafirmar a ocupação dos espaços públicos como estratégia de memória, resistência e incidência política.
Sudeste – Rio de Janeiro O I Seminário Direito à Cidade e à Justiça Climática: As Raízes, as Vozes e a Força das Mulheres Negras Brasileiras, organizado pelo Ministério das Cidades no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, reuniu, no dia 23, mulheres negras para discutir direito à cidade e justiça climática, integrando atividades de literatura, gastronomia, arte, música e empreendedorismo.
Sul – Paraná O Pacto da Negritude, organizado pela Rede Mulheres Negras do Paraná no cursinho popular Ubuntu, na Universidade Federal do Paraná (Campus Rebouças), promoveu, em 25 de julho, um debate voltado à conscientização e ao fortalecimento de práticas antirracistas.
O Fundo Baobá nasceu, há 15 anos, a partir de um processo de diálogo com movimentos sociais, lideranças negras, organizações da sociedade civil, academia e parceiros institucionais. Essa escuta ativa, que sempre fez parte do DNA da organização, foi fortalecida recentemente, com a criação da área de Articulação Social. Ela surge a partir de aprendizados de uma década e meia, com o objetivo de dar manutenção às redes de relacionamento do Fundo Baobá e a sua capacidade de incidência no ecossistema de promoção da equidade racial no Brasil.
A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo. Ela é também uma resposta a diversas transformações no ecossistema filantrópico e nos movimentos sociais, pois ao longo da última década e meia ampliaram o debate sobre justiça racial, reparação histórica e fortalecimento de organizações lideradas por pessoas negras.
Para Caroline Almeida, gerente de articulação social do Fundo Baobá, o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.
Na foto: Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social |Créditos: Thalita Guimarães
“A transformação social não ocorre apenas por meio do apoio financeiro, mas também pela construção de relações estratégicas, fortalecimento de redes e incidência”, afirma Caroline. Para ela, trata-se de tornar mais intencional e sistematizada uma prática que sempre esteve presente na atuação do Fundo Baobá.
A área nasce com a missão de contribuir para que a atuação do Fundo Baobá seja cada vez mais conectada às transformações do contexto social e político, tendo como busca a potencialização de diversas vozes nos processos de reflexão, decisão e incidência que envolvem a organização e o campo da filantropia. Mais do que ampliar relacionamentos, a área apoia a consolidação de uma cultura institucional baseada na escuta qualificada, na construção de confiança e na promoção de alianças estratégicas comprometidas com a transformação social e a justiça racial.
“Nosso compromisso é fortalecer processos de escuta, diálogo e construção conjunta. Entendemos que movimentos, organizações e lideranças negras não são apenas beneficiários de recursos, mas sujeitos políticos fundamentais na formulação de soluções e estratégias para a promoção da justiça racial”, afirma Caroline.
O ano de 2026 marca os 15 anos de atuação do Fundo Baobá para Equidade Racial, que reafirma seu compromisso com o fortalecimento de lideranças, organizações e iniciativas negras em todas as regiões do país. Com presença em territórios diversos e realidades distintas, a organização tem contribuído para ampliar oportunidades, promover inclusão e fortalecer redes de transformação social.
O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.
Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.
Segundo Patrícia, o apoio recebido contribuiu para ampliar o alcance das atividades voltadas para jovens negros, moradores de bairros periféricos, criando conexões e experiências que ultrapassaram os limites dos territórios onde vivem. “O apoio do Fundo Baobá teve um impacto direto nas pessoas. Em 2016, trabalhamos com três bairros grandes e periféricos aqui de Porto Alegre: Restinga, Cruzeiro do Sul e Morro Santana. Até hoje, ou seja, dez anos depois, ainda carecem de um olhar voltado para atividades culturais. Então, ter acesso a esse recurso ampliou a oportunidade de formação para esses jovens na criação de intercâmbios para além das suas regionalidades”, explica Patrícia da Silva, coordenadora do coletivo.
A iniciativa também contribuiu para aproximar diferentes gerações de artistas negros que atuam nos territórios periféricos, fortalecendo redes locais de produção cultural e ampliando as perspectivas profissionais dos jovens participantes. “Esse suporte contribuiu para o desenvolvimento profissional desses jovens e também para o envolvimento desses artistas territoriais para fazer uma espécie de casamento entre essa geração que está surgindo agora e a que já está atuando nesses bairros”, acrescenta.
Créditos: Divulgação Black Brazil Art
Ao longo de seus 15 anos de atuação, o Fundo Baobá tem investido no fortalecimento de organizações negras em diferentes estados brasileiros e em diferentes áreas de atuação, reconhecendo o papel estratégico dessas iniciativas na promoção da equidade racial e no enfrentamento das desigualdades históricas. Além do aporte financeiro, os programas desenvolvidos pela instituição contribuem para ampliar a visibilidade de projetos, fortalecer redes de colaboração e criar novas oportunidades para organizações, profissionais e lideranças negras.
Para Patrícia, esse tipo de investimento continua sendo fundamental para ampliar o acesso da juventude negra a oportunidades de formação, desenvolvimento e protagonismo. A história da Black Brazil Art é um dos exemplos que ilustram o alcance nacional do Fundo Baobá, que amplia oportunidades e promove a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
“Ainda carecemos de mais oportunidades e de mais acessos, principalmente para a nossa juventude preta. Então, sou muito grata por ter sido uma das tantas contempladas a receber um recurso do Fundo Baobá. No meu caso, esse investimento foi fundamental porque ofereceu suporte concreto para que a minha organização, que é liderada por uma mulher negra, pudesse desenvolver esse projeto com tantas outras meninas e meninos negros”, finaliza Patrícia da Silva.
Na edição deste mês, compartilhamos os bastidores da criação e repercussão de um momento histórico: o desenvolvimento da nova marca do Fundo Baobá. Para contar como foi possível transformar impacto, ancestralidade e resistência em identidade visual e verbal, conversamos com a equipe criativa do projeto.
A empresa responsável, Motora Design, passou por um processo de imersão para traduzir a bagagem histórica e social do Fundo Baobá em formas, linguagens, cores e tipografias. Nessa etapa, foi necessário pensar e construir conexões e narrativas que reverenciavam a memória de quem se mobilizou para que o Fundo Baobá nascesse e crescesse. O resultado desse trabalho é o símbolo atual, cujos traços foram inspirados e remetem às tranças nagôs, uma referência que carrega história, identidade e movimento.
Historicamente, as tranças afro possuem um profundo significado cultural, social e de resistência. Na África Antiga, com origem no povo iorubá, elas indicavam a identidade de uma pessoa, revelando sua idade, estado civil, tribo e posição social. Durante o período da escravidão, o trançado tornou-se ferramenta de sobrevivência e liberdade: seus desenhos geométricos serviam como mapas secretos com rotas para os quilombos e, entre os fios, eram escondidas sementes para garantir o plantio nas comunidades livres. Além de preservar a dignidade e a vaidade daqueles que tinham suas cabeças raspadas pelos colonizadores, o ato de trançar carrega uma dimensão sagrada de afeto e socialização ligada ao culto ao Orí (a divindade da cabeça e do destino). Hoje, as tranças permanecem um poderoso símbolo de autoafirmação, empoderamento e reconexão com a herança afrodescendente.
Para entender como o processo de redesenho da marca começou, a equipe criativa fez um mergulho profundo nos materiais e documentos que registram a história do Fundo Baobá. Também houve a preocupação de olhar para a comunicação atual da organização e de outras, dentro e fora do Brasil, que atuam no mesmo ecossistema para buscar referências importantes.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos nos conta que esse projeto começou com uma inquietação sobre como traduzir o que é o Fundo Baobá para Equidade Racial hoje. Ela afirma que foi muito relevante o papel de Amalia Fischer, Vice-Presidente do Conselho Deliberativo, que apoiou com escuta, experiência e direcionamento juntamente com a equipe executiva, que se envolveu bastante e foi fundamental para esse resultado.
A “roupa nova” chega bem na hora da festa: 2026 é o ano em que o Fundo Baobá completa 15 anos de história apoiando iniciativas de enfrentamento ao racismo no Brasil e promovendo equidade racial.
“A marca baila pelo tempo: olha para trás em reverência ao passado, se adapta aos desafios do presente e aponta para um futuro cheio de possibilidades”, afirma Janaina.
Ao longo do processo foram realizados workshops, entrevistas e conversas com diferentes pessoas da organização. “Ouvimos histórias, percepções e expectativas”, conta Laís Fonseca, diretora de arte da Motora. A partir daí, o desafio foi traduzir conceitos que são essencialmente humanos em uma linguagem visual. “Buscamos construir uma identidade que não fosse apenas bonita ou contemporânea, mas que fosse capaz de carregar significado. Cada escolha, da paleta de cores aos grafismos, nasceu dessa tentativa de transformar histórias em símbolos e valores em linguagem visual”, afirma.
A nova identidade do Fundo Baobá nasce de uma ideia que parece simples, mas é muito poderosa: o futuro não se constrói sozinho. O Fundo Baobá é uma organização que olha adiante, mas que entende que o futuro só existe porque muitas pessoas vieram antes, abriram caminhos e sustentaram lutas coletivas. Por isso, os grafismos, as cores, a tipografia e até a forma como os elementos ocupam o espaço foram pensados para traduzir essa ideia de movimento contínuo. Portanto, o sentimento que fica desse processo de reposicionamento da marca é a base sólida que sustenta o Fundo Baobá e dá a certeza de sua continuidade nos próximos anos.
“Nosso trabalho estratégico continua sendo a ampliação do reconhecimento da marca, do propósito e das ações. Afinal, não é só sobre o visual, mas sim sobre garantir que nosso público realmente conheça o que o Fundo Baobá faz e como opera”, afirma Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. Para ela, o resultado final foi possível pelo envolvimento de toda a atual equipe executiva: “A escuta e pesquisa sobre o legado fez toda a diferença para chegar não somente em algo novo, mas também em um conceito que apresentasse a trajetória do Fundo Baobá”.
Para Luize Araujo, diretora criativa, o maior desafio foi equilibrar a narrativa que se tornou o grande fio condutor de todo o projeto: garantir que seria construída uma visão comum de futuro sem desrespeitar ou ignorar todo o legado do Fundo Baobá. “Legado esse, aliás, que não se limita só ao tempo de atuação da organização, já que suas raízes vêm de movimentos e articulações muito mais antigas e complexas do que a existência do próprio Fundo Baobá”, afirma.
Pouco depois do lançamento da marca, que ocorreu em 19 de março, como parte das comemorações pelos 15 anos, houve uma grata surpresa de vê-la no site Brand New, uma das maiores referências globais em design, especializado em analisar o redesign de marcas do mundo inteiro, e que faz uma curadoria para destacar o “antes e depois” de identidades visuais de grandes empresas e organizações.
O Fundo Baobá foi um dos convidados para participar de uma série de oficinas organizadas pela RIAFRO – Rede Interamericana de Altas Autoridades para a População Afrodescendente, realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia, em maio deste ano. O evento reuniu representantes estatais de diversos países como México, Guatemala, Peru, Uruguai, Panamá e Colômbia com o objetivo de capacitar os países a acessar recursos de cooperação internacional voltados para equidade racial e enfrentamento ao racismo.
A RIAFRO é um mecanismo especializado de diálogo, coordenação e colaboração contínua entre as autoridades nacionais das Américas para promover a implementação de políticas para as populações afrodescendentes, em conformidade com as obrigações internacionais e regionais, com objetivo de promover os direitos humanos da população negra em todo o mundo.
Criada em Lima, Peru, em 2018, é composta por 12 Estados-membros: Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, e apresenta, a cada dois anos, seus avanços em políticas públicas para a inclusão de populações afrodescendentes e combate ao racismo, além de todas as formas de discriminação e intolerância.
O Fundo Baobá fez parte do evento com a presença de Giovanni Harvey, Diretor Executivo, Hebe Silva, Gerente de Operações, e Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos. Giovanni Harvey foi mediador na oficina “Conceitos: Cooperação Internacional, Arrecadação e Gestão de Recursos para Instituições Nacionais de Políticas para Afrodescendentes”. E também painelista na mesa “Como funciona a cooperação para afrodescendentes em fundações internacionais?”, que contou com a participação de Melissa Hernández, da Fundação Ford; Renata Braga, da Open Society Foundations, e Jenny Petrow, da Fundação Kellogg.
Arquivo Fundo Baobá
Durante as oficinas, ficou evidente que o Brasil é visto como uma grande referência em políticas de justiça racial na América Latina e no Caribe. Conquistas históricas como a criminalização do racismo, as políticas afirmativas em universidades e concursos públicos, e a própria existência de um fundo independente gerido por pessoas negras, como o Fundo Baobá, serviram de referência para os países presentes.
Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, a participação deu a oportunidade de observar a dinâmica de uma reunião de estado, com pessoas engajadas e comprometidas na reparação histórica dos afrodescendentes na diáspora. “A questão racial tem menor escala de importância nos fundos internacionais e em alguns organismos governamentais. Isso faz com que essa área de atuação não apresente a robustez equivalente à importância da causa. No evento, tivemos oportunidade de falar sobre o Brasil e sobre nossa atuação, fundamentada nos aspectos amplos que a promoção da equidade racial demanda”, afirma.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo Baobá reitera que a presença em fóruns como este valida a capacidade de incidência e diálogo, além de posicionar o Brasil como um ator relevante nas discussões sobre justiça racial na América Latina e Caribe. Para ela, é um reconhecimento de que a metodologia do Fundo Baobá é um modelo inspirador para outros países e uma importante consolidação para mostrar que a filantropia negra brasileira tem muito a contribuir com o ecossistema global.
Estar presente na RIAFRO reafirma o compromisso do Fundo Baobá com a continuidade e o entrelaçamento de trajetórias. Ocupar esses espaços trazendo conhecimentos estratégicos para a nossa rede é a garantia de que o investimento social privado em equidade racial continue gerando frutos, de forma regional e global.
O combate ao crime de racismo ganhou um novo manifesto: uma camisa oficial do clube paulistano com a ilustração na gola “Racismo é Crime. Denuncie”. Após injúrias raciais sofridas pelo jogador Vini Jr., e pelo goleiro Hugo Souza, o Corinthians decidiu transformar a indignação em atitude e criou a camisa.
Arquivo Fundo Baobá
A peça, doada ao Fundo Baobá, é um lembrete de que o enfrentamento ao racismo exige ação e é um chamado à responsabilidade coletiva. Além da mensagem, ela conta com um QR code que direciona a uma página do clube com orientações práticas sobre o que fazer em caso de ser vítima ou presenciar injúria racial. Seu significado vai além dos gramados. O gesto de vestir a camisa, símbolo de pertencimento e compromisso, reforça que o combate ao racismo é responsabilidade de todos e deve ser contínuo.
O clube buscou o Fundo Baobá e outras organizações que atuam pela promoção da equidade racial para entregar oficialmente a camisa. A iniciativa reforça a força do símbolo como ferramenta de luta por respeito e justiça racial em todos os espaços da sociedade.
A entrega ocorreu em 23 de abril. A equipe do Fundo Baobá foi recebida por Rafael Garcia, Gestor de ESG e Marketing do Corinthians.
A ação reforça a urgência de promover iniciativas e debates que ampliem a conscientização e o combate ao racismo em todas as esferas da sociedade.
O Fundo Baobá reconhece este posicionamento, e reforça que promover equidade racial no país sempre envolve ação.
Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes. É a partir dessa trajetória coletiva, marcada por aprendizados e melhorias ao longo do tempo, que o Fundo Baobá segue fortalecendo sua atuação e um modelo de governança que está na base dos nossos passos.
Atualmente, o Fundo Baobá conta com uma equipe de 20 profissionais e uma governança ativa, permitindo que o crescimento amplie o alcance de iniciativas voltadas à promoção da equidade racial. Entre elas estão programas de formação acadêmica internacional, acesso ao ensino superior, desenvolvimento de lideranças femininas negras e ações emergenciais, como o apoio durante a pandemia da Covid-19. São iniciativas que contribuem para que pessoas negras ocupem espaços historicamente negados à sua presença e ao seu conhecimento.
Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, os 15 anos da organização marcam também o início de um novo ciclo estratégico. Nesse momento, a construção de processos eficientes, a gestão participativa e a adoção de tecnologias alinhadas à segurança, transparência e impacto social, são pilares para garantir continuidade ao trabalho desenvolvido.
Crédito fotográfico: Thalita Novais
Mais do que administrar recursos, a área de Operações atua como suporte para todas as demais áreas organizacionais, apoiando estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e a sustentabilidade financeira.
“O Fundo Baobá é para sempre”, resume Hebe, ao falar sobre o compromisso de longo prazo da organização com a promoção da equidade racial no Brasil. Uma permanência construída coletivamente, com raízes firmadas no fortalecimento das iniciativas negras e na construção de futuros mais equitativos.
Em entrevista, Hebe fala mais sobre o ponto de vista da área de Operações sobre os 15 anos do Fundo Baobá.
Em janeiro, Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá, falou que os 15 anos do Fundo Baobá não eram apenas uma celebração, eram uma preparação para um novo ciclo estratégico. Como a sua área, Gestão Operacional, define esse novo ciclo estratégico? Uma etapa que apresenta novas demandas exige novos esforços. A área de Operações presta suporte às atividades das demais áreas. Somos uma das fontes para pensarmos estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e captação de recursos. Pensar nas novas tecnologias do mercado e como podemos adotá-las, sem prejuízo ou risco à equipe e ao nosso público, será a contribuição da área de Operações no desenho deste novo ciclo.
Na mesma matéria, você fala em uma gestão participativa para garantir a sustentabilidade do Fundo Baobá. No dia a dia do trabalho, como acontece essa gestão participativa?
Todas as pessoas da equipe são responsáveis pela gestão dos recursos. O alinhamento dos nossos gestores é tarefa cotidiana entre as áreas.Quem desejamos alcançar? Qual a melhor forma de fazer isso? Qual a maneira mais eficiente de gerir o recurso disponível? Todas essas variáveis são analisadas em equipe, que comunga do princípio de oferecer excelência no atendimento, seja qual for a atividade. Isso agiliza os ajustes processuais e nos fortalece enquanto grupo.
Você fala também em “olhar para a perenidade do Fundo Baobá”. Como gestora financeira, é possível prever um Fundo Baobá atuante daqui a 20, 30 anos ou mais que isso? Quais as diretrizes econômicas para atingir essas marcas?
O Fundo Baobá é para sempre. Para os que estão aqui agora e para os que virão depois. Em 20, 30 anos as demandas da população podem mudar, o que influenciará nas nossas estratégias de atuação, mas o sentido de nossa existência permanecerá. Sendo otimista, vislumbro um futuro com todas as organizações da sociedade civil brasileira comprometidas com a promoção da equidade racial, mesmo que em menores níveis de prioridade. As diretrizes já estabelecidas pelo nosso conselho deliberativo nos dão suporte para essa perenidade: transparência, planejamento e governança participativa.
Como o Fundo Baobá define os valores investidos em seus editais, programas e ações a partir da rentabilidade do Fundo Patrimonial? Como essa estratégia de uso dos rendimentos contribui para a sustentabilidade e o planejamento de longo prazo da organização?
O valor é definido entre nosso Conselho e Equipe Executiva. A depender dos reflexos deste alinhamento, o valor pode ser maior que o previsto inicialmente. Isso aconteceu no edital Black Stem, quando decidimos ampliar o número de vagas ofertadas no edital. Isso impactou em todo orçamento do projeto, mas obtivemos sucesso na decisão.
Auxílio emergencial no período da pandemia da Covid-19, programas voltados para educação, para o desenvolvimento de lideranças e enfrentamento à violência racial. Para quem trabalha com gestão financeira, como você definiria seu sentimento ao ver o impacto dessas iniciativas nas vidas das pessoas apoiadas?
O sentimento é de que um objetivo ambicioso e desafiador está sendo cumprido. Ver nossos projetos impactando diferentes atuações na causa racial, promovendo mudanças econômicas em grupos populacionais sub-representados, qualificando um público que nunca acessou recursos da filantropia, tudo isso reverbera no nosso sentimento de importância na sociedade brasileira e no nosso dever de continuar trabalhando com excelência.
Quais resultados do Fundo Baobá chamam mais a atenção de quem não faz parte da organização?
Autossuficiência, execução bem-sucedida do planejamento estratégico e meta de construção do Fundo Patrimonial alcançada com êxito.
Quais foram as estruturas invisíveis mais importantes para que o fundo chegasse até aqui?
Equipe comprometida com a preservação dos ativos institucionais: nossa relação com donatários, gestão eficiente dos recursos e uma governança atuante. Também é muito importante possuir uma assessoria jurídica qualificada para lidar com as especificidades de uma organização do terceiro setor que possui um Fundo Patrimonial.
Existe alguma decisão operacional tomada anos atrás que hoje vocês entendem como fundamental para a longevidade do fundo?
O acordo com a Kellogg Foundation previa que os aportes financeiros ao Fundo Patrimonial seriam realizados mediante apresentação de um relatório de auditoria externa, aprovado pelo nosso Conselho. Isso colaborou para o fortalecimento de nossa transparência. Aprimoramos nossas ferramentas de trabalho para alcançar, com a maior agilidade possível, informações sobre a nossa gestão. Isso colabora não apenas para o gerenciamento financeiro, mas também para atender tempestivamente qualquer due diligence (levantamento sobre um parceiro de negócio) que algum financiador nos faça. Estamos preparados para falar de nossa história através dos números registrados aqui.
O que mudou na forma de operar da organização ao longo destes 15 anos?
O aumento da equipe refletiu na possibilidade de ampliação de nossas atividades. Houve um período em que fomos apenas 3 pessoas. Hoje somos 20. Isso mudou nossa estrutura física, nos possibilitou melhoria das ferramentas e demanda um esforço conjunto para construir a ambientação de cada nova pessoa que integra a equipe, incluindo a governança. Um time de trabalho empenhado e que se sente livre e seguro para opinar, propor e fazer.
O Fundo Baobá marcou presença no Fórum Permanente sobre Afrodescendentes, em Genebra, representado pelo seu Diretor Executivo, Giovanni Harvey, e pela gerente de Articulação Social, Caroline Almeida. A participação no evento, realizado em abril, ocorre em um momento de intensa mobilização internacional. O encontro na Suíça dá sequência a uma série de movimentações estratégicas promovidas pela ONU, como a histórica resolução aprovada pela Assembleia Geral em março, que reconheceu o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade
A reunião marcou ainda o 25º aniversário da Declaração e Programa de Ação de Durban. O documento, que permanece como o principal marco normativo das Nações Unidas no combate à discriminação, reconhece que a escravidão, o tráfico e o colonialismo produziram desigualdades estruturais profundas e duradouras. Ao relembrar essa data, o fórum reforça o chamado para que os Estados repudiem o racismo e adotem políticas ativas de igualdade e reparação.
O evento reuniu 80 países membros das Nações Unidas, além de diversos atores da sociedade civil envolvidos na promoção dos direitos humanos das pessoas de ascendência africana, assim como agências e órgãos especializados da ONU. Como principal destino da diáspora africana, os países da América Latina e Caribe tiveram forte atuação nos debates, com destaque para o Brasil e Colômbia. Gana, que junto com a União Africana apresentou a resolução que reconhece o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade, também participou ativamente.
Instituições nacionais de direitos humanos e organizações de igualdade racial, além do Fundo Baobá, também estiveram presentes, junto com outros representantes da sociedade civil. Para Caroline Almeida, gerente de Articulação do Fundo Baobá, um ponto de atenção é a necessidade de avançar nas discussões para a implementação de políticas de combate à discriminação, ao racismo e à promoção da equidade racial.
“É bastante positivo e importante espaços como este, porém, ainda é evidente as lacunas que existem na implementação das ações”, assinala. O próprio balanço dos 25 anos de Durban comprova isso. Embora 180 dos 193 países que são membros plenos da ONU tenham aderido à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, apenas 42 adotaram ou reformaram políticas e medidas antidiscriminação, criando 35 organismos nacionais de igualdade racial.
Caroline também destaca o painel sobre juventudes, que reforçou a necessidade de inclusão dos jovens nos espaços de decisão. “Foi um momento de forte sintonia entre gerações. Os jovens cobraram mais escuta e participação e os mais velhos destacaram a importância de passar o bastão para as novas gerações”, comenta. As novas gerações também pediram mais atenção a temas como saúde mental e violência policial.
Embora as ações afirmativas tenham ampliado o acesso de pessoas negras ao ensino superior, esse avanço não se reflete na mesma proporção no mercado de trabalho. Segundo pesquisa do Pacto de Promoção da Equidade Racial e da Fundação Itaú, divulgada no fim de 2025, jovens negros qualificados seguem enfrentando barreiras estruturais que limitam sua inserção em espaços de decisão e crescimento profissional mesmo em contextos onde a diversidade e inclusão no ambiente de trabalho são cada vez mais discutidas.
Dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), baseados na PNAD Contínua do IBGE do segundo semestre de 2025, revelam que a população negra forma um contingente de 120 milhões de pessoas no Brasil. Deste total, a taxa de ocupação formal é de 56,7%, enquanto 59,4% estão fora do mercado formal de trabalho, em funções sem carteira assinada e mecanismos de proteção social ou sem qualquer ocupação. A desigualdade é maior no recorte de gênero: mulheres negras estão mais expostas a baixos salários e ao emprego doméstico. O cenário de desigualdade se acentua em cargos de gerência e direção, onde negros ocupam apenas 33% das posições (14% de mulheres e 19% de homens), conforme o DIEESE.
Para transformar esse cenário, o Fundo Baobá atua, há 15 anos, na mobilização de recursos para construir pontes entre o conhecimento da população negra e oportunidades concretas. Nossa atuação é criar condições para que cada pessoa apoiada defina sua trajetória, para que possa aprimorar suas habilidades, seu trabalho e suas redes, transformando a autonomia em inovação e liderança. Um exemplo é o Programa Carreiras em Movimento, que vai além da orientação profissional. É um espaço de desenvolvimento de habilidades para que cada pessoa ocupe seu lugar com autonomia e propósito.
A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem. Após ter a trajetória interrompida pela pandemia, ela foi selecionada pelo edital em 2023 e recebeu R$10 mil para aprimorar habilidades. “Utilizei 60% do recurso em aulas de conversação de inglês e os outros 40% na aquisição de equipamentos e cursos livres complementares”, revela.
Após o investimento, Daniela conquistou uma vaga em uma empresa global de design. “Fui selecionada e atingi o nível C2 de proficiência em inglês. Hoje sou Senior Product Operations e não teria conseguido a vaga sem o incentivo do edital, que me permitiu focar no idioma”, afirma.
Daniela Marreira | Crédito: Arquivo pessoal.
No setor de ciências exatas, onde a presença de pessoas negras é minoritária ainda, o Fundo Baobá criou o edital Educação em Tecnologia. Nele, empresas negras e organizações que contribuem para a ampliação da capacidade de pessoas negras se inserirem no mercado de trabalho no segmento da tecnologia são apoiadas. Já o programa Black STEM tem como foco estudantes brasileiros negros e negras que buscam formação acadêmica no exterior nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Eles recebem suporte financeiro e mentoria qualificada visando continuidade em seus cursos, o que poderá garantir posições de destaque dentro desse segmento.
”A discussão sobre empregabilidade negra é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Não existe país próspero sem a inclusão da maioria de sua população”, afirma Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá. “Precisamos urgentemente avançar nas políticas de cotas raciais e vagas inclusivas para ações que incidam diretamente nos gargalos que impedem a juventude negra de acessar uma educação superior de qualidade. Esse é um pré-requisito básico para elevar a presença negra nas posições de tomada de decisão e liderança que poderão movimentar um ciclo virtuoso de inclusão social”, completa.
Em 15 anos, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1.209 iniciativas, muitas com o foco de ampliar oportunidades para pessoas negras no mundo do trabalho. Esse investimento já alcançou 1,35 milhão de beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. Provando que, quando a população negra tem acesso a recursos, participação em redes e desenvolvimento de suas habilidades, transforma os espaços onde atua.
Estão abertas as inscrições para a Bolsa Complementar Alcance, uma iniciativa da Fundação Lemann com apoio do Fundo Baobá. A oportunidade é voltada para estudantes brasileiros negros, pardos e indígenas que já estão matriculados em programas de mestrado e doutorado no exterior.
A bolsa tem o objetivo de apoiar a permanência desses estudantes, contribuindo com despesas essenciais do cotidiano acadêmico, como alimentação, transporte, moradia, materiais e outros custos que compõem a vida de quem estuda fora do país. É um suporte concreto para que a jornada não seja interrompida no meio do caminho.
Além do valor de USD 7 mil ao longo de 12 meses, com possibilidade de renovação, a iniciativa também oferece acompanhamento psicológico e acesso a redes de conexão entre estudantes brasileiros no exterior. As pessoas selecionadas também passam a integrar comunidades e iniciativas de conexão vinculadas ao programa.
O Fundo Baobá participa da iniciativa com apoio técnico e financeiro, no âmbito da parceria vigente.As inscrições para a Bolsa Complementar Alcance vão até 11 de maio. Se essa oportunidade tem relação com a sua caminhada ou com a de alguém próximo, confira o edital e saiba mais.
O Fundo Baobá anunciou, no dia 26 de março, a terceira edição do Programa Black STEM, voltado ao apoio de estudantes negros brasileiros que desejam cursar a graduação no exterior. A iniciativa, com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, fortalece um ecossistema que acredita na educação como ferramenta real de transformação.
A proposta é simples e potente ao mesmo tempo: ampliar o acesso de pessoas negras às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as famosas STEM) em universidades de ponta ao redor do mundo. Mas o programa vai além do acesso, ele também garante a permanência dos estudantes na universidade.
Nesta nova edição, até três estudantes serão contemplados com bolsas anuais de R$ 42 mil, que apoiam os custos desde moradia até o material acadêmico Os selecionados também terão apoio com mentorias, acompanhamentos psicológicos, conexão com lideranças negras e uma rede que faz toda diferença na jornada internacional.
As inscrições, com início em 26 de março, vão até 7 de maio. O processo seletivo inclui análise de perfil, vídeo de apresentação e entrevista. É aquele tipo de oportunidade que exige preparo, mas que também pode mudar completamente o rumo da história de estudantes negros e negras do Brasil.
O Black STEM acumula diversas histórias inspiradoras pelo mundo. São estudantes de diferentes cantos do Brasil que hoje ocupam universidades reconhecidas, como Enio Barbosa (Ciência da Computação na Stanford University – EUA), Gabriel Menezes (Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – EUA), Gabriela Marques Ferreira (Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame EUA). Essas trajetórias mostram que estudar fora do país é ocupar espaços historicamente negados, mas hoje permitem também mostrar como a ciência é produzida no mundo.
As áreas STEM estão no centro das grandes mudanças do planeta: da tecnologia que usamos no dia a dia às soluções para saúde e meio ambiente. E mesmo com toda contribuição histórica da população negra, ainda existe sub-representação nessas áreas. O Black STEM chega justamente para transformar nesse cenário, incentivando, apoiando e confirmando, na prática, que pessoas negras não só pertencem a esses lugares como sempre fizeram parte da construção da ciência.
O programa Black STEM constrói pontes, fortalece trajetórias e amplia o futuro de pessoas negras, afinal quando uma pessoa negra acessa a universidade, no Brasil ou no exterior, ela não vai sozinha. Ela leva consigo sua história, sua comunidade e abre caminho para muita gente que ainda virá.
O investimento em mulheres negras, por meio de programas técnicos e de qualificação, é uma das estratégias adotadas pelo Fundo Baobá para enfrentar desigualdades e impulsionar transformações duradouras na sociedade brasileira.
Nestes 15 anos, o Fundo Baobá tem direcionado recursos para diferentes iniciativas, conectando lideranças, organizações e territórios. Nesse percurso, o apoio a mulheres negras se consolida como uma frente relevante, que mostra que o investimento feito é um mecanismo de impacto estrutural para o país.
Na prática, em um contexto de disparidades de gênero e raça, o Fundo Baobá investe no fortalecimento de lideranças e iniciativas que posicionam mulheres negras como executoras de estratégias sociais. A organização mapeia a liderança exercida por essas mulheres em diferentes contextos de desigualdade, utilizando editais para fortalecer sua atuação como agentes de mudança.
O Programa Marielle Franco, por exemplo, oferece suporte para a ampliação da incidência política e a ocupação de espaços de tomada de decisão. A iniciativa foca no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade de gênero e raça, apoiando trajetórias individuais e coletivas em diversas regiões do Brasil.
Entre as ações recentes, o Fundo destinou R$1,25 milhão à Marcha das Mulheres Negras 2025, viabilizando a mobilização nos 26 estados e no Distrito Federal. O aporte concentrou-se em logística e articulação estadual, com atenção especial à participação de mulheres quilombolas, fortalecendo sua presença no debate sobre reparação e bem viver.
O papel do Fundo Baobá consiste em conectar trajetórias e garantir que lideranças negras tenham acesso a oportunidades de continuidade, reduzindo os impactos da violência racial e de gênero. O investimento em mulheres negras faz parte de uma decisão estratégica de desenvolvimento do país. Quando mulheres negras têm condições de incidir em decisões, elas fortalecem redes, criam soluções e ampliam o acesso a direitos para todas as pessoas.
O diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, Giovanni Harvey, participou do painel “Investimento estratégico em iniciativas afrolatinas”, durante o Racial Equity Builders Dialogue (REBD), realizado em Porto Rico nos dias 25, 26 e 27 de fevereiro. A conversa foi mediada por Arelis Diaz, da W. K. Kellogg Foundation, organização que incentivou a formação do Fundo Baobá em 2011.
O encontro reuniu lideranças, organizações filantrópicas e especialistas para discutir formas de ampliar o investimento em comunidades afro-latinas nos Estados Unidos e nas Américas. Durante sua participação, Giovanni Harvey destacou a importância de fortalecer investimentos que promovam autonomia e preservem a integridade cultural das iniciativas apoiadas nos territórios. Ele também abordou caminhos de acesso ao financiamento para organizações negras, a participação nas discussões do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU e o impacto do apoio da Kellogg ao longo dos 15 anos do Fundo Baobá.
Com o lema “A Hora é Agora: Um Diálogo para Ação em Todas as Américas”, o encontro refletiu sobre a urgência do papel da filantropia no fortalecimento de democracias inclusivas, e na construção de respostas coletivas para enfrentar o racismo em escala global.
O REBD é um encontro internacional que reúne organizações, articuladores sociais, filantropos e especialistas em equidade racial para discutir estratégias, fortalecer redes e promover o intercâmbio de experiências sobre justiça racial e desenvolvimento comunitário. A edição deste ano teve como foco avançar da reflexão para a ação, buscando transformar propostas de equidade racial em ações coordenadas, baseadas em aprendizado compartilhado e na defesa coletiva de lideranças comunitárias, parceiros filantrópicos e especialistas internacionais.
Pela segunda vez, o Fundo Baobá participou do evento, sendo a única organização brasileira presente nesta edição. A participação ampliou a visibilidade do Brasil em um espaço estratégico de diálogo internacional sobre equidade racial. Durante o encontro, organizações presentes demonstraram interesse em conhecer a experiência brasileira na promoção da equidade racial.
Entre os temas discutidos estavam: funcionamento das instituições democráticas brasileiras em contextos recentes, o acompanhamento internacional de casos emblemáticos de violência racial no Brasil, como a condenação dos responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e de Anderson, além do papel da cultura brasileira como elemento de conexão e projeção internacional, e o reconhecimento do Brasil como ator relevante nas agendas globais de justiça racial.
No último dia 13/02, a Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem à força ancestral das mulheres negras e à missão do Geledés – Instituto da Mulher Negra, por sua missão institucional na luta contra o racismo, o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras.
A convite do Geledés, o Fundo Baobá esteve presente na avenida para celebrar esse momento simbólico. O samba-enredo exaltou a potência das mulheres negras em uma narrativa que uniu ancestralidade, luta e celebração. Com participação e curadoria do Geledés, a escola transformou o desfile em um verdadeiro manifesto cultural.
Integrantes da equipe do Fundo Baobá participaram da homenagem em reconhecimento a essa trajetória. Ao longo de 15 anos, o Fundo Baobá atua no fortalecimento de organizações e lideranças negras, com foco prioritário nas regiões Norte e Nordeste do país, investindo em educação, em vida com dignidade, em desenvolvimento econômico, em comunicação e memória.
Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relatou que ver o homenageado Geledés, todas as mulheres que o construíram e tantas outras que, de alguma forma, contribuíram e participaram da história da instituição, é reconhecer a importância da luta das mulheres negras no Brasil contra o racismo e o sexismo: “Que bom poder ver essa homenagem acontecendo a essa instituição, que é uma referência para todas nós, e que bom poder ver essas mulheres sendo reconhecidas e lembradas. É uma grande felicidade quando uma escola de samba, que é símbolo de um pilar tão importante da nossa cultura, como o carnaval, é uma ferramenta pedagógica importantíssima para nossa sociedade”, afirmou Tainá.
O desfile reforçou que a trajetória das mulheres negras deve ser contada por elas mesmas, e que o lugar delas é na história, na academia, no samba, na política, na cultura e onde mais decidirem ocupar.
Para além das alegorias, a agremiação apresentou uma narrativa de inteligência, organização coletiva e resistência histórica.
Maria Paula, assistente de diretoria do Fundo Baobá, confirmou que desfilar em uma escola que homenageou Gueledés foi mais do que atravessar a avenida: foi atravessar a história. Segundo ela, o samba exaltou mulheres negras que abriram caminhos e evidenciou a intelectualidade e a liderança das que hoje seguem construindo novas possibilidades. “Porque o futuro é ancestral”, resumiu.
A construção visual da Mocidade Unida da Mooca integrou ancestralidade e futuro. A comissão de frente destacava a origem da mulher negra como sustentação e transformação para as sociedades. Ao longo da avenida, vieram referências às irmandades, aos quilombos, às tecnologias ancestrais, à organização coletiva e às múltiplas formas de resistência construídas ao longo do tempo.
“Foi uma honra receber o convite para desfilar em uma escola de samba que homenageou o Geledés, esse instituto que eu conheci ainda criança, através de conversa na minha família e foi emocionante voltar a desfilar depois de 15 anos numa escola que ressalta a importância da mulher negra”, contou Juliana Vargem, assistente executiva do Fundo Baobá.
Maria Sylvia, advogada e diretora executiva do Geledés, ressaltou a importância de apresentar a trajetória da instituição à sociedade brasileira, ampliando o reconhecimento das mulheres negras como protagonistas na construção social do país. “Que essa homenagem inspire mais escutas, mais diálogos e mais respeito às nossas trajetórias. Obrigada à Mocidade Unida da Mooca por fazer da arte um instrumento de memória, reconhecimento e continuidade”, afirmou. O refrão: Quero ver… casa-grande vai tremer, No meu Quilombo é noite de Xirê! A MOOCA FAZ REVOLUÇÃO, É Guèledés: A LIBERTAÇÃO, ecoou nos ensaios e na avenida, transformando o desfile em celebração e afirmação coletiva. O desfile foi um gesto público de memória, reconhecimento e continuidade. Uma noite que reafirmou que o futuro é ancestral — e que a história das mulheres negras segue sendo escrita com coragem, inteligência e organização.
Em 2026, o Fundo Baobá celebra 15 anos de uma trajetória construída a partir do diálogo, da escuta e da ação coletiva junto a movimentos sociais e lideranças negras em todo o Brasil. Desde o início, sua atuação incide sobre pilares estratégicos para a promoção da equidade racial no Brasil, somando 15 anos de trabalho contínuo para transformar vidas e histórias.
Celebrar esse aniversário não é só uma oportunidade de reconhecer conquistas, mas de valorizar uma trajetória em permanente construção e aprimoramento. A partir dos aprendizados acumulados, das relações e dos desafios vividos, o Fundo Baobá inicia um novo ciclo que aprofunda o modo de atuar, fortalecendo parcerias e inovando para ampliar o impacto de suas ações.
Neste início de 2026, o Baobá – Fundo para Equidade Racial convida você a conhecer o que vem por aí no decorrer do ano nas palavras das lideranças da organização, que antecipam algumas decisões da equipe executiva, prioridades programáticas, estratégias de articulação social, caminhos da mobilização de recursos, avanços em comunicação e aprimoramentos na área de operações.
Com a palavra, Giovanni Harvey, Diretor Executivo: “Os 15 anos não são apenas uma celebração, mas também um momento de preparação para um novo ciclo estratégico. O período recente representou um ponto de virada para o Fundo Baobá, impulsionado pela doação de US$ 5 milhões da Mackenzie Scott”, afirma. Esse aporte marcou a emancipação financeira do Fundo e garantiu autonomia para realização da primeira doação estratégica. Foi possível destinar inicialmente R$500 mil à Sociedade Protetora dos Desvalidos e, posteriormente, R$ 1.25 milhão, para a Marcha das Mulheres Negras 2025. Ele destaca ainda que a atuação da organização está fincada em um plano estratégico e que esse planejamento está no final de um ciclo de 10 anos, que marca a conclusão de propostas estruturantes previstas, e o início de uma nova fase.
Giovanni nos conta que ao longo do ano será lançada a nova marca da organização, que expressa esse novo momento institucional e que dialoga com maturidade, autonomia e o impacto construídos ao longo desses 15 anos. Serão realizadas diversas ações com parceiros estratégicos, fazendo dos 15 anos um espaço de diálogo. “A proposta é ampliar a conversa com diferentes segmentos da sociedade que são aliados da equidade racial e que, como o Baobá, atuam na defesa da democracia em um contexto marcado por intensas polarizações”, afirma o diretor.
Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relata que o Fundo Baobá espera retomar ações de apoio que já tiveram destaque em alguns dos editais, como o fortalecimento institucional de organizações, grupos e coletivos de mulheres negras, além de iniciativas de apoio à ampliação do potencial de empregabilidade de pessoas negras. Outra prioridade é continuar estruturando e fortalecendo o primeiro programa próprio e perene de bolsas complementares para estudantes de STEM que irão cursar a graduação completa em instituições internacionais.
“Não apenas a área programática mas a instituição Fundo Baobá desafia o campo filantrópico a ir além do tradicional e colocar a causa da equidade racial no centro de sua atuação. Esperamos que essa centralidade possa influenciar cada vez mais o setor, sensibilizando sobre a importância de destinar recursos diretos e contínuos a grupos, coletivos, organizações, movimentos e lideranças negras, e de assumir publicamente esse compromisso”, afirmou. Esse apoio é fundamental porque reconhece o conhecimento, a capacidade de ação e a liderança da população negra na construção de soluções para os problemas que a afetam diretamente.
Tainá ressalta ainda que uma das principais lições destes 15 anos é sobre a importância do acompanhamento contínuo, que constitui uma ação essencial do trabalho desenvolvido. É o acompanhamento e a escuta que proporcionam aprendizados e fortalecem uma relação de confiança com o campo. Da mesma forma, os investimentos indiretos (formações, mentorias e assessorias) têm mostrado que, além de complementar as doações financeiras, contribuem para o fortalecimento e a autonomia das organizações e pessoas apoiadas. Segundo ela, assegurar um processo sistemático de avaliação para cada iniciativa implementada é importante para garantir a análise e o aprimoramento, sempre com a incorporação de novas respostas baseadas nas lições aprendidas. “Investir nessas ações nos permite oferecer respostas cada vez mais coerentes e alinhadas, tanto aos objetivos institucionais quanto às necessidades apresentadas pelo campo”, afirma.
Para Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, o ano de 2026 permitirá avançar na qualificação do diálogo com atores fundamentais (movimentos sociais, filantropia, academia, esfera pública, entre outros), ampliando alianças e contribuindo para que o Fundo Baobá atue de forma cada vez mais conectada, coerente e intencional no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade racial.
“O principal desafio é aprimorar uma área que já está em processo de amadurecimento, adaptando processos, metodologias e formas de atuação para melhor dialogar com a complexidade dos contextos sociais e políticos nos quais o Fundo Baobá está inserido”, afirma Caroline. Para ela, o desafio é ampliar a escuta qualificada do campo nas diversas regiões do país para reunir informações que contribuam para a tomada de decisões cada vez mais consistentes e alinhadas ao propósito do Fundo Baobá, levando sempre em consideração o fortalecimento de redes e o reconhecimento do papel dos movimentos como sujeitos centrais na produção de conhecimento e transformação social.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos, explica que a comunicação terá um papel-chave nos 15 anos do Fundo Baobá. “Queremos contar um pouco da nossa história, do nosso legado, das mais de 1200 iniciativas negras apoiadas até o momento”. Com relação aos caminhos a seguir em 2026, a gerente de comunicação deseja que as relações já estabelecidas com veículos e jornalistas da mídia negra e independentes continuem sendo uma das prioridades da organização, tendo como objetivo uma comunicação direta com a comunidade negra sobre o posicionamento e propósito do Fundo Baobá.
Na gestão de Operações, Hebe da Silva, que atua na gerência da área, afirma que para garantir a sustentabilidade do Fundo em 2026 é preciso uma gestão participativa com todas as pessoas da equipe. Ela diz que a transparência é um valor institucional, registrado no Estatuto do Fundo Baobá. “Dialogar diariamente com a equipe sobre os nossos números e o alcance que temos na sociedade é uma ferramenta para alavancar as doações recebidas e gerir nossos recursos financeiros de maneira sustentável, olhando sempre para a nossa perenidade”, afirma.
O que se projeta para o futuro é a continuidade de uma atuação comprometida com impacto real, aliada à inovação e à responsabilidade histórica. Em permanente movimento desde a sua fundação, o Fundo Baobá é um mecanismo que constrói seu legado diariamente ao criar condições para que esse horizonte se realize, seguindo na construção concreta da equidade racial como base para um país justo e democrático.
Conexões em Movimento, a newsletter mensal do Movimento Bem Maior, inspira filantropos, promove a troca de ideias e fortalece conexões para a justiça social. Neste mês, nossa conversa é com Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, uma das mais importantes instituições de promoção da equidade racial no Brasil.
Na filantropia, Giovanni Harvey é uma exceção que busca questionar as regras sob as quais o campo funciona. Ocupa uma posição singular, à frente de uma organização única no contexto brasileiro, o Fundo Baobá para Equidade Racial . Suas bases construídas nos movimentos sociais e na vivência como homem negro sustentam o pensamento crítico que marca sua trajetória.
Com 61 anos, Giovanni é de uma geração que se constituiu politicamente no final dos anos 1970, em meio ao fim do regime militar e às mobilizações pela redemocratização do país. Aproximou-se do movimento negro aos 17 anos — não apenas para “se associar”, mas, como ele diz, para “se alistar”, assumindo um compromisso vitalício com a causa.
Hoje, lidera um endowment que garante a sustentabilidade da própria organização e permite que toda captação seja destinada exclusivamente a ampliar as doações, enquanto o patrimônio continua crescendo. Ao mesmo tempo, atua para incidir sobre o ecossistema da filantropia, ocupando espaços de governança e atraindo novos investidores para agendas historicamente negligenciadas.
Na entrevista a seguir, Giovanni fala sobre os desafios e contradições do campo filantrópico, o conceito de “filantropia recreativa” e o que considera essencial para o amadurecimento do debate racial no Brasil.
Você provoca reflexões diretas sobre o papel da filantropia e do investimento social privado. Queria começar com uma que você trouxe no Congresso do GIFE, sobre “filantropia recreativa”. Como você vê essa prática no campo hoje?
Quando eu fui chamado pela Sueli Carneiro e pelo Hélio Santos para o Baobá, eu sou obrigado a refletir sobre qual é o meu papel como ativista político, qual é o papel dessa instituição e quais são as contradições nas quais a instituição está inserida.
Uma instituição que tem hoje 170 milhões de reais aplicados no mercado financeiro, comparativamente com outras instituições filantrópicas financeiras, é um fundo pequeno, mas está em uma condição completamente diferente das organizações do movimento negro tradicionais. Isso me empurra a olhar o que está sendo feito a minha volta.
Percebo que existem várias filantropias e que algumas não têm alinhamento com causa alguma. Se constituem em verdadeiros jardins de diversão, onde as pessoas muitas vezes estão mais preocupadas em ilustrar suas biografias, suprir suas próprias carências e preencher um determinado tipo de vazio do que, servir a uma causa.
Foi isso que chamei de uma filantropia sem propósito, uma filantropia recreativa. É como qualquer outra atividade na vida. Se eu não tenho objetivo claro para estudar, trabalhar, praticar uma atividade física… aquilo vira apenas recreação.
Gosto de uma formulação do futurista norte-americano Joel Barker: uma visão de futuro é um sonho carregado de ação, e um sonho que não gere ação é só um passatempo. Para mim, filantropia com propósito é um sonho carregado de ação; sem propósito, ela não passa de passatempo.
O Fundo Baobá tem uma trajetória singular — e, infelizmente, ainda ocupa um espaço único em termos de capacidade de investimento e articulação de organizações negras. De que forma vocês têm posicionado o Baobá no ecossistema atual?
Somos um fundo patrimonial independente, cuja gestão é feita integralmente por nossa equipe — liderada por Hebe Da Silva , uma mulher negra, do Mato Grosso. Nosso fundo patrimonial é de R$ 170 milhões, oriundos principalmente da Fundação Kellogg, Fundação Lemann , B3 , Mackenzie Scott e outros parceiros estratégicos. Além disso, gerimos cerca de R$ 20 milhões de recursos de terceiros, como Fundação Ford, Instituto Ibirapitanga , Open Society Foundations e Instituto Unibanco .
Ao longo de 15 anos, já doamos mais de R$ 22,4 milhões, via 23 editais, apoiando mais de 1.200 iniciativas em todas as regiões do país, nas áreas de educação, desenvolvimento econômico, comunicação, memória e direitos humanos. Estamos baseados em São Paulo, com uma equipe de 20 pessoas, e em breve teremos sede própria.
A própria Fundação Kellogg afirma não ter outra experiência semelhante à do Baobá em seu histórico. Mesmo no campo da equidade racial, há pouquíssimas iniciativas com essa capacidade de investimento e nosso objetivo é ampliá-la.
Nossa visão de futuro é alcançar R$ 250 milhões de fundo patrimonial até 2026/2027 e nosso endowment cresce porque reinvestimos anualmente 95% do rendimento médio dos últimos três anos, retirando no máximo 5%. Hoje já somos autossustentáveis operacionalmente, de modo que toda captação adicional é destinada exclusivamente a doações.
O segundo foco é a incidência sobre o ecossistema da filantropia. Participamos ativamente de redes como o GIFE e a Rede Comuá , que, no nosso entendimento, têm atuação complementar: o GIFE, mais voltado para o investimento social privado; e a Comuá, voltada para fundos independentes ligados à base social ou territorial. O Baobá é a única instituição da filantropia brasileira com assento no Conselho da Rede Comuá e no Conselho Deliberativo do GIFE, além de fazer parte de instâncias colegiadas e de gestão de várias outras organizações, como o Motriz , Todos Pela Educação e a Plataforma Alas, da Fundação Tide Setubal .
Buscamos incidir sobre o ecossistema levando nossa visão de filantropia e, muitas vezes, atraindo investidores ao colocar nosso próprio recurso à frente para que outros se engajem. Partimos do pressuposto de que, quando investimos, estamos enviando uma mensagem clara de que aquela agenda é importante. É o caso do apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, a mais antiga instituição filantrópica em operação no Brasil, e à Marcha das Mulheres Negras. No entanto, mesmo assim, quase ninguém mais colocou recursos.
No apoio à Marcha das Mulheres Negras, destinamos R$ 1,25 milhão, tornando-nos seu maior doador até agora. Comparando nosso tamanho com outras instituições, fica evidente a falta de alinhamento do campo com uma agenda de extrema importância e que, em 2025, será a maior manifestação popular de luta por direitos no Brasil, em novembro, em Brasília.
Como você enxerga essa distância que ainda existe entre grandes investidores sociais e os movimentos de base?
Eu acho que, primeiro, tem uma “financeirização”, uma absorção de uma cultura de mercado por várias dimensões da vida social. A educação, por exemplo. A linguagem no ambiente educacional está cada vez mais mercadológica. É “entrega”. Então, o aluno é avaliado pelas entregas que faz. Eu tenho severas críticas a esse tipo de linguagem. Acho que isso deseduca, isso adoece as pessoas.
Há uma “mercadologização” que está impregnando a sociedade brasileira. A filantropia começa a falar em entrega, não fala mais em causa. E, em alguma medida, passa a ser vista apenas como um campo de trabalho para o qual as pessoas podem migrar sem ter nenhum tipo de compromisso com causa alguma. Essas pessoas vão constituir burocracias que lidam com o investimento filantrópico e com o investimento social privado como se estivessem fabricando salsicha ou peça automotiva — sem perceber que estão lidando com pessoas, com anseios, com traumas, com lutas políticas, com processos históricos que, na maior parte das vezes, sequer são compreendidos.
Essa burocratização, falta de compreensão e despolitização fazem parte do pano de fundo dessa “recreação”. Nós nos contrapomos a isso. Defendemos filantropia com propósito. Não necessariamente o mesmo que o nosso, porque existe mais de um tipo. Toda filantropia é legítima. O que eu cobro é que se diga: “Eu faço filantropia para isso.” “Eu faço filantropia para a caridade, eu acredito que o assistencialismo é importante…” E é. Eu li a entrevista que Fernanda Camargo concedeu aqui em que ela diz que até certa linha, precisamos do assistencialismo para poder olhar para impacto. O primeiro impacto é ter oferta de comida.
Voltando à nossa visão: defendemos que quem faz filantropia coloque na mesa o que faz e para quê faz. E que tenha certa sofisticação intelectual para não cometer o equívoco — e eu falei isso no congresso do GIFE anterior — de confundir atender pessoas negras com enfrentar o racismo. Ter clientela negra não significa que a iniciativa enfrente o racismo. Posso apoiar iniciativas que atendem pessoas negras e, ainda assim, reproduzem relações de dominação.
É preciso que se diga: “Eu atendo pessoas negras para isso. Minha estratégia é essa, meu propósito é esse.” Eu não critico os propósitos. Critico a falta de transparência e a tentativa de confundir, fazendo uma análise equivocada que confunde público com causa.
Em ambientes da filantropia e do ISP, vemos que algumas pautas — especialmente equidade racial — quando colocadas na mesa geram desconforto e são questionadas sobre de fato serem endereçadas. A que você atribui esse fenômeno?
A questão racial, para nós, ativistas do movimento negro, não é uma escolha. Somos colocados cotidianamente diante de situações nas quais precisamos nos posicionar – porque se não o fizermos, ninguém fará. E, quando um problema real não é enfrentado, a omissão só o agrava.
O debate racial no Brasil está na origem da nossa constituição como sociedade, no período pós-abolição, que coincide com o processo de construção da República. Isso funda as relações no país e desconhecer esse contexto é um equívoco histórico profundo. Ao tratar as desigualdades étnicas como se ninguém tivesse responsabilidade sobre elas, cria-se a ilusão de que, por “não termos mais escravidão”, o problema se resolveria por geração espontânea. Mas não foi algo que surgiu espontaneamente; foi construído e reforçado por decisões políticas, incluindo decretos presidenciais.
Essa distorção histórica alimenta um imaginário — presente na literatura, na sociologia e até na filantropia — de que o problema da população negra se resolve com escolarização. A ideia de que brancos e ricos “vão salvar” negros oferecendo oportunidades é um subproduto dessa concepção. Em ambientes onde está pacificado que “o problema do negro é falta de escolarização” e que “a culpa é da escravidão, mas o presente nada tem a ver com isso”, qualquer tentativa de cobrar ação efetiva dos atores políticos provoca desconforto.
Inclusive na filantropia, que muitas vezes se vê num “faz de conta” de doar para iniciativas que, na prática, reproduzem desigualdades, formam para profissões obsoletas e que nem sequer arranham a concentração de renda. Não há debate real sobre temas estruturantes como rentismo, taxas de juros e distribuição de riqueza. Assim, exceções são tratadas como regra, usadas para legitimar a ideia de que, quem não conseguiu furar esses bloqueios é mal sucedido e que a responsabilidade, por isso, são delas.
Muitas lideranças negras se veem obrigadas a modular o tom, a linguagem e até omitir posicionamentos para conseguir “caber” em determinados espaços institucionais, mesmo na filantropia. É possível encontrar equilíbrio entre se fazer ouvir e manter a integridade do discurso?
Eu acho que é um desafio. E falo de um lugar confortável porque as condições do Baobá me permitem verbalizar coisas que sinto obrigação de dizer. Lembro de uma fala recente do presidente da República, na posse do atual presidente do BNDES. Ele disse: “Espero que você possa criticar as taxas de juros, porque eu não posso. Me elegi, e quando critico, gera problema. Alguém aqui precisa poder falar.”
Fazendo um paralelo: alguém precisa dizer determinadas coisas. Uma das contradições de uma sociedade que busca manter privilégios é a tentativa de silenciar as pessoas com a ilusão de algum benefício — pessoal ou institucional — se elas “se comportarem” e não afrontarem o status quo. Isso também acontece na filantropia. Lideranças de várias causas e segmentos modulam seu discurso para se tornarem “palatáveis” e aptas a receber recursos.
Não considero errado. Jamais cobraria de uma instituição que se inviabilizasse no ecossistema por não fazer algum tipo de modulação. Mas faltam sinais, especialmente do investimento social privado. Quanto mais o interesse empresarial impacta essa agenda, mais difícil é aceitar a crítica. Vejo mais abertura na filantropia, com exemplos como o de Neca Setubal , que reconhece que parte da fortuna da família tem origem em relações de dominação no passado — algo corajoso e coerente. Essa postura permite conversar sem o “bode na sala” que limita tantas discussões.
Mesmo no Baobá, não saio falando tudo o que penso. É uma questão de responsabilidade no ecossistema e de preservar um mínimo de civilidade. Venho de uma geração que aprendeu, no movimento estudantil, a respeitar quem pensa diferente. Críticas precisam ser feitas de forma respeitosa, sem a pretensão de sermos donos da verdade ou apontar o dedo o tempo todo. Precisamos buscar consensos, elevar o nível do debate e encontrar soluções sustentáveis e honestas, capazes de mostrar à sociedade que, mesmo em um país que mantém historicamente segmentos em posição subalterna, ainda é possível construir caminhos de mobilidade e mudança.
Em uma entrevista à Rede GIFE, você disse que “a subsistência de práticas ilusórias de inclusão de pessoas negras reflete o estágio de compreensão e da maturidade da sociedade brasileira”. Qual seria o passo possível nesse processo de amadurecimento?
Eu posso dizer a você, com todas as críticas que ainda faço à realidade brasileira, que me orgulho do estágio que o país alcançou no debate racial. Não imaginava que estaria vivo para ver a sociedade brasileira discutindo essa questão da forma como temos feito.
Demos saltos enormes na compreensão do tema, porque não poderia continuar sendo um debate restrito a nós, negros e negras — ele pertence à sociedade brasileira. Quando vejo, por exemplo, o Movimento Bem Maior, a Fundação Lemann, a Imaginable Futures pautando a questão racial, sinto orgulho.
Como próximos passos, acho que nós, movimento negro, e as pessoas comprometidas com essa causa, precisamos garantir que não haja retrocesso: que os espaços conquistados e a ampliação de atores e atrizes políticas que discutem o tema não recuem, garantindo que alianças estratégicas não retrocedam.
O segundo ponto é construir consensos mínimos: uma agenda qualificada que eduque sobre o que é, de fato, enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial, reduzindo a quantidade de pessoas que ainda acreditam que atender pessoas negras é o mesmo que enfrentar o racismo. O debate racial no Brasil exige estudo, esse é um debate científico, no sentido de que é preciso estudar história, sociologia… não depende de títulos acadêmicos para chegar nessa compreensão.
O terceiro ponto depende de todos, inclusive de nós, pessoas negras: precisamos nos apresentar para a sociedade como sujeitos que pensam o país, e não apenas nossos próprios problemas. Eu, como dirigente de organização social e ex-gestor público, sempre pensei a sociedade brasileira a partir do meu compromisso com soluções para a questão racial, mas sem restringir minha atuação a isso. O problema racial é o que mais me afeta, mas não é o único que existe.
As pessoas negras precisam discutir projetos de país, e as pessoas brancas em posições de gestão, seja monocrática ou colegiada, precisam se abrir a ouvir o que temos a dizer para além da questão racial. Eu, por exemplo, me recuso a ser o “bedel” que só fala sobre isso nos conselhos de que participo. Se o tema surge, muitas vezes fico calado. Quando me perguntam: “Você não vai se manifestar?”, respondo: “Quero ouvir o que vocês têm a dizer.”
Resumindo, são três pontos: não recuar, qualificar o debate para educar e discutir, conjuntamente, projetos para o país.
Entrevista e edição: Emanuely Lima / Analista de Comunicação no Movimento Bem Maior. Publicado originalmente na newsletter Conexões em Movimento, do Movimento Bem Maior. Fotos: Thalita Guimarães
Graduação no exterior: essa pode ser a sua chance!
Descubra como estudar no exterior pode abrir portas para o futuro e transformar a realidade de pessoas negras.
Se você está considerando fazer uma graduação no exterior, saiba que essa decisão vai muito além do desenvolvimento acadêmico. Esse intercâmbio pode ser a chave para romper barreiras históricas, construir um futuro profissional sólido e abrir caminhos antes considerados impossíveis. O mundo está esperando por você, e você merece ocupar esse espaço, não só como aprendiz, mas também como protagonista na produção de conhecimento.
Para pessoas negras, essa jornada tem ainda mais potência: ao acessar espaços historicamente excludentes, sua presença transforma e amplia as possibilidades do que se entende por excelência acadêmica. A academia global tem muito a ganhar com a diversidade de experiências, saberes e perspectivas que você carrega.
Em áreas como Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), essa vivência pode ser especialmente impactante. Universidades internacionais oferecem infraestrutura de ponta, acesso a pesquisas avançadas e contato com especialistas do mundo todo. Tudo isso enquanto você se desenvolve pessoal e profissionalmente em um ambiente multicultural, contribuindo ativamente para o avanço do conhecimento em escala global.
Você já se perguntou se morar e estudar fora é para você?
É verdade que o caminho pode apresentar desafios – como o idioma, as burocracias ou a sensação de estar longe de casa. Mas é justamente ao encarar esses obstáculos que se abre espaço para o amadurecimento e a superação. Para cada barreira, existe uma rede de apoio, uma estratégia, uma solução possível.
O mais importante é saber que não é preciso estar completamente pronto para começar, mas sim disposto a dar o primeiro passo. Porque, mesmo com as dificuldades, existem inúmeras possibilidades esperando para serem exploradas. E você é capaz de alcançá-las.
Por onde começar sua jornada internacional: um passo a passo
Sabemos que dar o primeiro passo pode parecer desafiador, então aqui vão algumas dicas práticas para começar:
Defina seus objetivos: Quer fazer uma graduação completa ou pós-graduação? Um intercâmbio de curta duração? Um curso de verão? Seu objetivo deve estar alinhado com sua realidade atual: se você ainda está na graduação, é recém-formado ou já tem uma pós. Entender seu momento profissional é essencial para escolher o melhor caminho.
Pesquise universidades e programas: Use sites como QS World University Rankings e Study Portals como ponto de partida. Mas o mais importante é verificar diretamente nos sites das universidades, salvar os contatos e não hesitar em perguntar: a comunidade acadêmica costuma ser bastante solícita.
Mapeie os custos e busque bolsas de estudo: Existem bolsas parciais e integrais, públicas e privadas. Algumas dessas bolsas são fruto de parcerias entre universidades brasileiras — que podem incluir até a sua própria — e instituições estrangeiras. Outras bolsas você pode encontrar diretamente nos portais das universidades internacionais do seu interesse.
Dedique-se ao aprendizado de idiomas: A proficiência em inglês ou em outros idiomas é um requisito essencial para acessar oportunidades acadêmicas internacionais. Ferramentas como Duolingo e cursos gratuitos podem ser aliadas importantes. Vale lembrar que, embora o inglês seja amplamente exigido, línguas como o espanhol e o francês também abrem muitas portas no universo da educação global, especialmente em países da América Latina, Europa e África.
Conecte-se com quem já fez: Buscar histórias de estudantes negros pode te inspirar e ajudar a entender melhor o caminho. Busque por vivências de outros estudantes nas redes sociais como Youtube, LinkedIn ou mesmo TikTok. Utilize o algoritmo a seu favor.
Conte com iniciativas que querem te ver brilhar!
O Black STEM, edital criado pelo Fundo Baobá, é uma dessas iniciativas que ajudam a transformar o sonho de uma graduação no exterior em realidade. Ele oferece bolsas, suporte acadêmico, apoio psicológico e cria uma rede de apoio desde a inscrição até a conclusão do curso.
Diovanna Aguiar, estudante de Ciência da Computação na New York University (NYU) em Xangai
“Eu estou aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo”
Diovanna Aguiar, estudante de Ciência da Computação na New York University (NYU) em Xangai, foi uma das primeiras pessoas contempladas pelo edital Black STEM. Em sua fala, ela destaca o impacto coletivo dessa conquista: “A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe, chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente, eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste de São Paulo na periferia, e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus, mas deles também”.
Diovanna também compartilhou como o apoio da família foi fundamental: “Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira a aprender inglês. Quando eu dizia que queria ir para Nova York, ninguém da minha família achava que inglês era necessário. Mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, eles me apoiaram”.
Por isso, o objetivo vai além de garantir acesso: é também fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovações e a valorização de saberes diversos. Assim como Diovanna Aguiar está realizando o sonho de estudar no exterior, você também pode – e merece – tornar o seu sonho realidade.
Siga a Diovanna para acompanhar sua jornada na universidade.
A hora é agora. O mundo te espera, e você tem tudo para chegar lá!
O sonho de estudar nas melhores universidades do mundo continua ganhando novos capítulos. A 2ª edição do Programa Black STEM,iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial em parceria com a B3 Social, acaba de selecionar quatro jovens negros que, a partir de 2025, vão levar sua inteligência, talento e história para além das fronteiras do Brasil.
🌍 Eles são os protagonistas dessa nova jornada:
Enio Ferreira Barbosa(Salvador, BA) – Ciência da Computação, Stanford University (EUA)
Gabriel Hemetrio de Menezes (Belo Horizonte, MG) – Física e Ciência da Computação, Massachusetts Institute of Technology – MIT (EUA)
Gabriela Torreão Marques Ferreira(Fortaleza, CE) – Engenharia Química e Biomolecular, University of Notre Dame (EUA)
Maria Luiza Storck Ferreira(Rio de Janeiro, RJ) – Engenharia Química, Universidad de Jaén (Espanha)
Gabriela Torreão, Gabriel Hemetrio, Maria Luiza Storck e Enio Ferreira
Mais do que bolsas de estudo, o programa oferece apoio financeiro, mentoria e uma rede que acredita no poder da educação para transformar realidades. Cada passo que eles derem no exterior será também um passo para abrir portas a quem virá depois.O Black STEM não forma apenas estudantes. Forma referências.
João Pedro Araújo, 27 anos, foi um dos jovens selecionados na primeira edição do Programa Já É – uma iniciativa do Fundo Baobá que apoia jovens negros no acesso ao ensino superior no Brasil. Atualmente, ele cursa Ciências e Tecnologias na Universidade Federal do ABC (UFABC), com previsão de formatura em 2027.
Morador do bairro do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, João Pedro enfrentou uma realidade de poucas oportunidades. Para ele, o Programa Já É foi essencial para transformar a trajetória marcada pela simplicidade e pelos desafios da vida periférica. Egresso da rede pública de ensino durante a maior parte de sua vida escolar, precisou conciliar trabalho e estudos, como tantas outras pessoas jovens negras periféricas do país.
Mesmo com tantas dificuldades, teve na mãe a maior fonte de inspiração — uma mulher batalhadora que, com um salário mínimo, sustentou a casa e alimentou os sonhos do filho. “Ela me ensinou que é possível sonhar alto e mudar a realidade, mesmo quando tudo parece difícil”, afirma.
Como funciona o Programa Já É: educação e equidade racial?
O Programa Já É: Educação e Equidade Racial oferece apoio financeiro, educacional e psicossocial a jovens negros, com o objetivo de promover o acesso ao ensino superior e ampliar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Em sua primeira edição, realizada em 2021, o programa selecionou 85 estudantes. Destes, 32 foram aprovados em vestibulares — 12 em universidades públicas e 20 em instituições privadas como bolsistas do ProUni (Programa Universidade para Todos).
Políticas afirmativas como caminho para a transformação social
Naquele mesmo ano, João se inscreveu em todos os projetos possíveis, em busca de alternativas, já que a pandemia dificultou o acesso a oportunidades de emprego. Foi então que, por indicação de uma amiga, conheceu o Já É. A motivação veio do desejo de ser o primeiro da família a cursar uma universidade pública — e, mais do que isso, de abrir caminhos para seus amigos e sua comunidade, mostrando que o acesso à educação de qualidade também é possível para quem não teve privilégios.
“Quando conheci o Já É, já achei a proposta interessante. Mas, ao participar, percebi que aquilo era só a ponta do iceberg. As trocas e aprendizados com os outros participantes foram transformadores e carrego comigo até hoje”, relembra João.
No início, ele confessa que duvidava de si mesmo. “É difícil acreditar que alguém está investindo em você quando se vem da periferia. Eu me perguntava se era realmente capaz. Mas, logo na primeira reunião com os outros selecionados, senti como se já nos conhecêssemos. Foi um acolhimento imediato.”
João destaca a importância de políticas afirmativas e programas como o Já É para ampliar o acesso de jovens negros ao ensino superior. “Mesmo com iniciativas como essa, ainda somos minoria nas universidades, e essa presença diminui ainda mais nas instituições públicas. Precisamos ocupar esses espaços para inspirar outros a acreditarem que também é possível.”
Para ele, estar na universidade vai muito além de uma conquista individual — representa um sonho coletivo. Em um país ainda marcado por desigualdades estruturais, a presença de pessoas jovens negras no ensino superior é símbolo de resistência, transformação e esperança.
Segunda edição do Programa Já É tem inscrições abertas
As inscrições para a segunda edição do Programa Já É estão abertas até o dia 06 de junho. Para mais informações, acesse: Programa Já É.
Profissional com reconhecimento internacional no setor de energia, ele vai integrar o Conselho Deliberativo da organização
O Baobá – Fundo para Equidade Racial conta agora com um importante reforço em seu Conselho Deliberativo: Nelson Narciso, engenheiro mecânico com trajetória de destaque nacional e internacional nos setores de combustíveis e biocombustíveis. Com mais de 40 anos de experiência no segmento de energia, Narciso construiu uma carreira sólida atuando em empresas de renome como HRT África, Halliburton e ABB. No Brasil, foi diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Da ANP ao Baobá: legado e visão estratégica de Nelson Narciso
Durante seu período na ANP, coordenou importantes programas, como os voltados à redução de queima de gás e à melhoria da medição fiscal da produção. “Na ANP, tive o privilégio de contribuir com políticas públicas que ainda hoje impactam o setor. Foi nesse ambiente que compreendi, com mais clareza, que transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro. Esses aprendizados moldaram minha atuação: cada projeto é uma oportunidade de conectar conhecimento, propósito e impacto”, destaca Narciso.
Compromisso de longa data com a equidade e justiça racial
O desejo de colaborar com o Fundo Baobá já o acompanhava há algum tempo. Ao longo de sua trajetória, o professor tem se posicionado de forma firme contra práticas discriminatórias, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação e ao mercado de trabalho. Na juventude, nos anos 1970, foi atleta amador de futebol pelo Vasco da Gama, clube carioca, mas escolheu os estudos diante da incerteza de uma carreira no esporte.
Formação de excelência e destaque internacional na educação
Formado em Engenharia Mecânica e com pós-graduação em Administração Industrial e Engenharia Econômica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nelson Narciso é frequentemente convidado para dar palestras em renomadas instituições de ensino, como a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e as norte-americanas MIT, Columbia University e Brown University, onde também foi professor visitante.
A urgência da representatividade negra em cargos de liderança
Sua formação e trajetória contrastam com uma dura realidade do mercado de trabalho brasileiro: a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança. Um estudo do Instituto Ethos, de 2016, revelou que, entre as 500 maiores empresas do país, apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% das posições gerenciais eram ocupados por pessoas negras. “Sermos exceções é um sinal claro de que algo está estruturalmente errado”, afirmou à Americas Quarterly em 2020. Sua entrada no Conselho do Baobá é, portanto, mais um passo na direção da mudança.
Rumo aos 15 anos do Fundo Baobá: reflexões e futuro
“Ser membro do Fundo Baobá me motiva por unir propósito pessoal e impacto social. Trata-se de contribuir com minha experiência estratégica para uma causa urgente e estruturante: o enfrentamento ao racismo e a promoção da equidade racial no Brasil. O prestígio institucional do Fundo, sua representatividade negra e a oportunidade de aprendizado tornam essa participação uma escolha transformadora”, afirma.
Como integrante do Conselho Deliberativo, seu papel será o de orientar a organização para que suas decisões e operações estejam alinhadas com sua missão institucional. Narciso acredita que poderá contribuir significativamente nesse processo. “Quero apoiar de forma ativa a consolidação institucional do Fundo, com escuta atenta, pensamento estratégico e compromisso com a missão de promover a equidade racial no Brasil.”
Sua chegada coincide com a preparação do Fundo Baobá para a celebração de seus 15 anos de atuação em 2026. Sobre esse marco, ele reflete: “Quinze anos do Fundo Baobá representam a força de um sonho coletivo que se tornou referência na luta por equidade racial no Brasil. Celebro a coragem, a inteligência e a ancestralidade que sustentam essa trajetória.”
A participação do Baobá – Fundo para Equidade Racial no 13º Congresso GIFE (Grupo de Indústrias, Fundações e Empresas) foi marcada por contribuições potentes, alinhadas ao tema central do evento: “Desconcentrar poder, conhecimento e riquezas”. Em três dias de atividades e painéis, celebramos encontros e reencontros. O Baobá celebrou reencontros importantes e reafirmamos nosso compromisso com a filantropia centrada nas vozes dos territórios e na promoção da equidade racial como caminho para a transformação concreta da sociedade brasileira. O congresso foi realizado de 7 a 9 de maio, em Fortaleza, no Ceará, a primeira vez fora da cidade de São Paulo.
Descentralização como estratégia de impacto na filantropia brasileira
Na plenária de encerramento, o diretor-executivo do Fundo Baobá e conselheiro do GIFE, Giovanni Harvey, fez um chamado incisivo à mudança estrutural no setor: “A filantropia ainda é muito mais pautada nas necessidades de quem doa do que nas necessidades de quem recebe”, afirmou. Sua fala provocou uma reflexão coletiva sobre o legado que o Investimento Social Privado (ISP) pretende deixar para os próximos 30 anos, destacando a importância de metas reais e a construção de pontes sólidas entre a filantropia, o ISP e a sociedade civil.
O papel das organizações negras no fortalecimento do Investimento Social Privado
Tainá Medeiros, coordenadora de Projetos do Baobá, destacou dois temas estratégicos do congresso que reforçam as palavras de Giovanni: “A necessidade de ampliar o apoio da filantropia e do ISP no fortalecimento institucional das organizações da sociedade civil, tema para o qual o Fundo Baobá já vem dedicando especial atenção nas suas estratégias programáticas há alguns anos, e os persistentes desafios de acesso a recursos enfrentados por organizações negras. Essa convergência confirma o que nossa atuação já demonstra: a equidade racial deve ser central na agenda do presente e do futuro da filantropia e do ISP no Brasil”, disse.
Para Janaina Barbosa, gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo, o congresso foi uma reafirmação do potencial da filantropia construída de forma colaborativa: “Esse encontro reforçou o poder da filantropia quando construída coletivamente. Ver diferentes atores – organizações, lideranças, especialistas e investidores – em diálogo é um lembrete de que a transformação exige mais do que recursos: precisa de escuta, confiança e compromisso com justiça social. O legado que fica para mim é a força da ação conjunta”, disse.
A regionalização do congresso também foi celebrada pela gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, Caroline Almeida, que destacou o impacto da escolha de Fortaleza como sede do evento: “O congresso abordou um tema relevante e desafiador, especialmente para reflexão no ecossistema de associados do GIFE. A realização no Nordeste foi uma decisão acertada e um passo importante rumo à descentralização. A escolha de Fortaleza ampliou a diversidade de vozes e experiências, promovendo a articulação de um público mais plural. Espero que o Investimento Social Privado seja positivamente influenciado pelas demandas reais que emergiram das mesas do congresso”, afirmou Caroline.
Protagonismo e reconhecimento de lideranças apoiadas pelo Baobá
Também da equipe do Baobá, a assistente executiva Juliana Vargem compartilhou a emoção de ver donatários do Baobá ocupando espaços de protagonismo no evento: “Participar do 13º Congresso GIFE, realizado na região Nordeste, foi uma experiência especial. Além de ampliar conexões com diversas organizações e fortalecer nossa rede de atuação, fiquei particularmente feliz e emocionada ao ver nossos donatários em posições de destaque ao longo do evento. Foi um reconhecimento importante do trabalho que realizamos juntos e um momento de grande orgulho para nossa instituição”, enfatizou.
Juliana Vargem se referiu a nomes como Dandara Rudsan, que fez parte do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco (2019/2023); Nina Dahora, da iniciativa UX para Minas Pretas; Luiz Claudio e Veronica Lopes, do IOB, apoiados pelo edital Educação em Tecnologia (2023); e Aline Braúna, uma das selecionadas no edital Primeira Infância (2020). As iniciativas são exemplo, na prática, do impacto da filantropia negra em fomentar lideranças e soluções inovadoras em seus territórios. Esses momentos reforçaram a importância da escuta ativa, do reconhecimento das potências locais e da centralidade do enfrentamento ao racismo nas agendas do Investimento Social Privado.
Marcha das Mulheres Negras: mobilização como ferramenta de justiça racial
Em comunhão com ações que estão no calendário do Fundo Baobá, o congresso discutiu também a Marcha das Mulheres Negras, que acontecerá no mês de novembro, em Brasília (DF). Naiara Leite, da Odara, Instituto da Mulher Negra, faz parte do Comitê Nacional da Marcha e fez um chamamento para que a sociedade civil e o Investimento Social Privado encarem a Marcha como uma ferramenta do processo de combate às injustiças. “Não tem democracia, não tem vida e não tem território nesse país a ser pensado se o debate do enfrentamento ao racismo não for central”, disse.
Reforma Tributária e captação de recursos para OSCs: o que vem pela frente
A gerente de Operações do Baobá, Hebe Silva, enxergou o congresso como um momento de enriquecimento profissional, por conta da forma como os temas foram abordados. “O evento abordou temas que nos fazem aprimorar profissionalmente e contribuem com a gestão e processos decisórios da filantropia, provocando reflexões e elevando a importância de atender demandas efetivas aos beneficiários dos recursos aportados. Destaco a roda de conversa com Nailton Cazumbá, sobre os impactos da Reforma Tributária nas OSCs e ISP, onde ele chamou atenção para a necessidade de rever as estratégias de captação de recursos com as mudanças que estão por vir.”
O 13º Congresso GIFE foi, portanto, um espaço essencial para reafirmar que a transformação social só será possível com a desconcentração real de recursos e com a inclusão das vozes historicamente silenciadas nos processos de tomada de decisão. O Baobá – Fundo para Equidade Racial segue comprometido com esse caminho.