Política fiscal é uma das ferramentas de reparação para a população negra

Política fiscal é uma das ferramentas para reparação histórica da população negra. Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco - Individual, propõe caminhos para a reparação

Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco – Individual, propõe caminhos para a reparação

Tem uma pergunta que insiste em voltar quando se olha para a história de uma família negra no Brasil: por que algumas pessoas acumulam oportunidades ao longo das gerações e outras precisam recomeçar do zero a cada vez? Eliane Barbosa não escapou dessa pergunta. Foi atravessada por ela e decidiu transformá-la em pesquisa. Hoje, investiga na universidade o que muitos tratam como destino: a política fiscal, o imposto, o patrimônio e a forma como o Estado escolheu quem podia ter futuro.

Ela sabe do que fala. Começou a trabalhar aos oito anos. O pai não sabia ler. A mãe estudou até a quarta série. Ela foi a primeira da família a concluir o ensino superior. Nada disso aparece aqui como superação individual, aparece como dado de uma engrenagem que ela decidiu investigar de dentro.

Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Eliane pesquisa economia política da desigualdade, justiça fiscal, tributação, orçamento público, desigualdades raciais e reparação histórica. Coordena o Observatório Social da Política Fiscal da UNILAB e o projeto Tributação Justa, Reparação Histórica. Também é diretora de Justiça Econômica, Desigualdades e Reparação da Plataforma JUSTA e donatária do Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá.

Sua trajetória ajuda a ilustrar um fato para além dos números: a desigualdade racial também é uma desigualdade de patrimônio e de possibilidades.

Esse é um dos pontos de contato entre o trabalho de Eliane e a reflexão apresentada por Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, em entrevista ao programa C-Level, da Folha de S.Paulo. Ao falar sobre reforma tributária, Harvey chamou atenção para mecanismos como o  cashback e para a necessidade de pensar a justiça tributária também a partir do impacto racial das políticas econômicas. O cashback tributário, que está previsto para o Brasil a partir de 2027, prevê a devolução de impostos pagos sobre o consumo para famílias de baixa renda com o objetivo de promover a justiça socioeconômica. A questão, para ele,  é ampliar o debate: não basta reconhecer que o racismo produz desigualdades; é preciso discutir como o Estado pode enfrentá-las por meio de políticas públicas estruturais. E, quando o assunto é reparação histórica, uma dessas estruturas é a política fiscal.

A escravidão acabou. A desigualdade, não

A abolição da escravidão não veio acompanhada de uma política de distribuição de terras, indenização, acesso amplo à educação ou mecanismos de formação de patrimônio para a população negra. Ao contrário: milhões de pessoas foram enganadas e colocadas em condições profundamente desiguais. Para Eliane, esse passado não ficou preso aos livros de História. Ele ajuda a explicar quem possui patrimônio hoje, quem recebe herança, quem consegue comprar uma casa, quem tem acesso a crédito, quem pode poupar e quem precisa utilizar toda a renda para sobreviver.

“Patrimônio produz patrimônio. Quem recebeu terras, imóveis, capital, educação, redes de relações e condições para poupar e investir transmitiu aos seus descendentes não apenas bens, mas oportunidades”, fala a pesquisadora. 

Do outro lado, quem saiu da escravidão sem patrimônio e com acesso restrito à educação e ao mercado de trabalho começou a vida livre em desvantagem. Essa diferença também atravessa gerações. É o que ela chama de desigualdade durável: vantagens e privações que se acumulam ao longo do tempo e ajudam a definir as possibilidades das gerações seguintes. “As privações de uma geração reduzem as possibilidades da geração seguinte; acumulam-se e acabam se cristalizando”, afirma a professora. Por isso, para ela, falar em reparação histórica exige olhar além da renda.

Quem paga a conta?

A pergunta aparece quase inevitavelmente quando se fala em reparação: quem deve pagar? Eliane faz uma distinção importante entre quem possui responsabilidade histórica e quem deve financiar uma política de reparação. Em sua visão, o Estado brasileiro tem responsabilidade central porque sustentou juridicamente a escravidão e, após a abolição, não implementou políticas capazes de assegurar condições equivalentes de acesso à terra, educação, trabalho protegido e formação de patrimônio. A sustentação jurídica da escravidão deu-se a partir da instituição do Decreto 528/1890. Esse decreto, também conhecido como Lei Glicério, em referência ao então ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Francisco Glicério, determinava regras sobre a questão imigratória ao Brasil. O primeiro artigo do decreto dizia que pessoas aptas ao trabalho teriam a entrada liberada, porém essa entrada estava vetada a indígenas da Ásia ou da África. 

Mas o Estado não é o único ator envolvido. Empresas, instituições e grupos econômicos também participaram da economia escravista, dela se beneficiaram ou acumularam patrimônio em uma estrutura econômica construída durante aquele período. A reparação, portanto, não deve ser entendida apenas como uma indenização paga por indivíduos ou famílias identificados como descendentes da escravização. “Quando perguntamos ‘quem deve pagar a conta?’, eu distinguiria duas questões: quem tem responsabilidade histórica pela reparação e quem deve financiá-la?”, afirma a pesquisadora. 

Créditos: Arquivo pessoal

Para Eliane, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais uma sociedade democrática distribui coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado. “Eu não penso que a solução seja simplesmente localizar hoje os descendentes dos escravizadores e apresentar-lhes uma conta. Em uma sociedade democrática, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais distribuímos coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado”, afirma. É aí que entra um princípio conhecido da justiça fiscal: quem possui maior capacidade econômica deve contribuir mais. Renda, patrimônio, herança e grandes fortunas passam, então, a fazer parte da conversa.

Não é só quanto você ganha

Imagine duas pessoas com a mesma renda mensal. Uma mora em um imóvel próprio, recebeu patrimônio da família e conta com uma rede familiar que pode ajudá-la em um momento de dificuldade. A outra paga aluguel, não recebeu herança e ainda sustenta pais, filhos ou outros parentes. As duas ganham a mesma coisa. Mas vivem situações econômicas bastante diferentes. É justamente essa diferença que Eliane quer colocar no centro da discussão tributária. “Duas pessoas podem receber exatamente a mesma renda e possuir capacidades econômicas muito diferentes”, conclui. 

Para ela, olhar somente para a renda corrente pode fazer com que o Estado trate como equivalentes pessoas que não possuem a mesma capacidade econômica. “Meu argumento é que olhar apenas para a renda corrente pode fazer com que o sistema trate como economicamente equivalentes pessoas que, concretamente, não estão na mesma situação.” E a questão racial aparece nesse ponto porque o acesso à terra, à educação, ao trabalho protegido e à formação de patrimônio foi historicamente desigual no Brasil.

A população negra está representada entre os grupos de menor renda e patrimônio e sub-representada no topo da distribuição. Por isso, um sistema tributário que pesa fortemente sobre o consumo pode produzir um efeito racial mesmo quando sua regra não menciona raça. Quem ganha menos tende a comprometer uma parcela maior da renda com bens e serviços essenciais. E, como os negros estão mais concentrados nas faixas de menor renda e riqueza, a regressividade econômica também tem consequências raciais.

Mas há uma segunda pergunta, tão importante quanto ‘quem paga?’ que é: quem recebe? 

Para Eliane, tributação e gasto público precisam ser analisados juntos. Não basta saber de onde vem o dinheiro. É preciso acompanhar para onde ele vai e quem consegue transformar os recursos públicos em melhores condições de vida. É aqui que a proposta dela se aproxima e, ao mesmo tempo, amplia o debate sobre justiça fiscal. Uma primeira frente seria tornar o sistema tributário mais progressivo: a ideia é aliviar os impostos para quem ganha menos e aumentar a cobrança sobre quem tem rendimentos, patrimônios e heranças maiores.  

A segunda frente é pensar em uma tributação afirmativa, focada em reduzir desigualdades raciais. Essa é uma agenda ainda em construção. Eliane trabalha com a ideia de um “encontro de contas”: se existe uma dívida histórica e material do Estado brasileiro com a população negra, é preciso discutir como essa dívida pode ser considerada na formulação de políticas públicas. “Reparação tributária não pode significar apenas fazer a população negra pagar um pouco menos. Precisa contribuir para alterar sua posição na distribuição da riqueza”, conclui. 

Um passo importante, segundo ela, é saber enxergar a desigualdade dentro do próprio sistema tributário. A inclusão do quesito raça/cor na declaração do Imposto de Renda é um exemplo. Com dados, torna-se possível observar como o imposto incide sobre diferentes grupos e construir políticas mais precisas. A partir daí, entram outras possibilidades: incentivos para aquisição da primeira moradia, formação de poupança, educação, empreendedorismo negro e outras formas de criação de patrimônio. A lógica muda de lugar.

Não se trata apenas de fazer a população negra pagar menos. E, sim, criar condições para que ela acumule mais, tenha mais segurança econômica e possa transmitir patrimônio às próximas gerações.

Da renda para o patrimônio

Durante muito tempo, políticas de redução da pobreza e da desigualdade concentraram-se na renda. É compreensível: renda determina o acesso imediato a bens e serviços. Mas patrimônio é outra coisa. Uma família pode melhorar sua renda e continuar vulnerável porque não possui casa própria, terra, poupança ou ativos financeiros. Uma emergência pode consumir rapidamente aquilo que levou anos para ser construído. “Patrimônio significa também segurança, capacidade de planejamento e possibilidade de transmitir melhores condições para os filhos”, afirma a docente.  

Por isso, Eliane defende que uma política reparatória precisa olhar para a formação de ativos pela população negra. A ideia tem precedentes históricos. Nos Estados Unidos, logo após o fim da Guerra Civil, a chamada Ordem de Campo nº 15 reservou terras para pessoas recém-libertas, experiência que ficou conhecida como “40 acres e uma mula”. A política acabou revertida e as terras foram devolvidas aos antigos proprietários. O episódio ajuda a ilustrar uma questão que Eliane considera fundamental: reparação também é sobre criar condições materiais para construir autonomia econômica.

O debate não termina no Estado. Algumas empresas e instituições também fizeram parte da economia construída durante o período escravista e, no presente, algumas continuam reproduzindo desigualdades raciais em contratação, remuneração, promoção e acesso a oportunidades. “Uma agenda de reparação empresarial deveria, portanto, combinar memória, responsabilização e transformação das práticas atuais.”

Ela vê possibilidades de incentivos tributários vinculados a resultados concretos de equidade racial, mas faz uma ressalva: benefício fiscal sem contrapartida pode se transformar simplesmente em renúncia de receita. “Qualquer benefício fiscal deveria ter contrapartida mensurável, transparência e avaliação periódica”, sugere Eliane. Por isso, defende mecanismos com metas verificáveis, transparência, avaliação periódica e resultados concretos, como formação profissional e progressão de trabalhadores negros. A pergunta, novamente, não é apenas quanto dinheiro está sendo investido. É qual transformação esse investimento produz? 

Segundo Eliane, não existe uma única medida capaz de resolver uma desigualdade construída durante séculos. Se o Brasil decidisse assumir a reparação histórica da população negra como política de Estado, ela defenderia a construção de um programa nacional voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania. “Se eu tivesse que escolher uma primeira medida, hoje eu pensaria em algo mais amplo do que um instrumento tributário isolado. Defenderia a construção de um programa nacional de reparação voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania da população negra”, fala. 

Moradia, terra, educação, saúde, alimentação, segurança, cultura, lazer e cuidado, de acordo com ela, fariam parte dessa agenda. E há um elemento que chama atenção: o tempo. Tempo para estudar. Para cuidar. Para participar da vida pública. Para criar. Para conviver. Para desenvolver projetos que não estejam permanentemente subordinados à necessidade de produzir renda para sobreviver. É uma ampliação importante do conceito de reparação. Não se trata somente de redistribuir dinheiro ou patrimônio, mas de redistribuir possibilidades de vida.

Essa perspectiva também ajuda a entender a própria história de Eliane. Quando decidiu, aos 25 anos, que não teria filhos, uma das questões que pesaram foi justamente a consciência de que amor, sozinho, não garante uma vida digna. É preciso haver condições materiais para que uma pessoa desenvolva suas potencialidades. “Os seres humanos precisam de muito amor, mas também de condições materiais para desenvolver suas potencialidades”, define. A reflexão que começou no campo pessoal acabou encontrando, anos depois, sua expressão na pesquisa acadêmica e na incidência sobre políticas públicas.

Uma nova pergunta para o debate racial

A entrevista de Giovanni Harvey e a pesquisa de Eliane partem de caminhos diferentes, mas chegam a uma questão comum: como transformar o reconhecimento da desigualdade racial em mecanismos concretos de reparação? A resposta não está somente em novas leis ou programas específicos. Também passa pela estrutura econômica que define quem paga impostos, quem recebe recursos públicos, quem acumula patrimônio e quem participa das decisões sobre essas prioridades. 

De acordo com Eliane, as três dimensões precisam caminhar juntas: arrecadar de forma mais justa, distribuir os recursos de maneira mais equitativa e democratizar o poder que define essas escolhas. “Reparação exige mudar simultaneamente a forma de arrecadar, a forma de gastar e a distribuição do poder que determina ambas”, explica. É uma discussão que desloca o debate sobre reparação. Em vez de perguntar apenas quanto o Brasil deve à população negra, passa-se a perguntar também como essa dívida pode ser enfrentada por meio das estruturas do Estado e da economia.

Depois de quase quatro séculos de escravidão e de gerações marcadas por desigualdades no acesso à riqueza, reparar não seria apenas devolver o que foi perdido. Seria criar condições para que a população negra possa escolher outros caminhos, construir patrimônio, exercer plenamente seus direitos e transmitir às próximas gerações algo que a história brasileira tantas vezes negou: possibilidades.

Sociedade Protetora dos Desvalidos recebe novo apoio estratégico do Fundo Baobá

Sociedade Protetora dos Desvalidos recebe novo apoio estratégico do Fundo Baobá Nova doação dá continuidade ao fortalecimento institucional e à preservação da memória de uma organização histórica do Brasil

Nova doação dá continuidade ao fortalecimento institucional e à preservação da memória de uma organização histórica do Brasil.

O Fundo Baobá renovou o apoio estratégico à Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), dando continuidade à parceria iniciada em 2023. A nova doação, no valor de R$ 300 mil e com vigência até 2027, reafirma o compromisso do Fundo Baobá com o fortalecimento e a sustentabilidade de organizações negras que têm papel fundamental no enfrentamento ao racismo no país.

Fundada em 1832, na Bahia, a SPD é reconhecida como a mais antiga associação negra regulamentada em funcionamento no Brasil. Criada em um contexto de escravização, a instituição nasceu da organização de homens negros livres, libertos e escravizados que construíram uma rede de solidariedade e resistência. Ao longo de sua trajetória, a SPD se tornou um importante espaço de autonomia, proteção e emancipação da população negra.

O novo investimento na organização acontece a partir dos avanços alcançados no primeiro ciclo da parceria. Desde 2023, a SPD vem implementando um plano de fortalecimento institucional voltado à gestão, governança, clima organizacional e comunicação. Entre os resultados estão o aprimoramento dos processos contábeis e administrativos, o desenvolvimento de conhecimentos em gestão de projetos, captação de recursos, comunicação e a preservação da memória.

“O apoio inicial em 2023 produziu um fortalecimento significativo da organização e reforça a seriedade e o comprometimento institucional da SPD na gestão desse processo. Esses movimentos também evidenciam a importância da garantia de recursos flexíveis e de apoio de longo prazo para consolidar processos de fortalecimento institucional nas organizações”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.

Para Lígia Margarida, Diretora Administrativa da Sociedade Protetora dos Desvalidos, uma das mudanças mais importantes ocorreu na organização dos processos internos. “As principais mudanças ocorreram na forma de organização administrativa, com maior controle da rotina e documentação, sempre buscando regularizar as pendências judiciais e impostos”, explica.

A preservação da memória também está entre os desafios e prioridades da instituição. Com quase dois séculos de história, a SPD inaugurou em setembro de 2026 um espaço de memória e se prepara para as etapas de higienização, catalogação e organização dos documentos, que ainda estão em andamento. O que poderá resultar, no futuro, em uma exposição sobre a trajetória da organização.

Ao renovar a parceria, o Fundo Baobá reafirma seu comprometimento não apenas com o financiamento de iniciativas, mas também com a criação de condições para que organizações negras fortaleçam a autonomia e a capacidade de seguir construindo suas próprias histórias. Apoiar organizações negras é investir na preservação de memórias, na autonomia e na continuidade de trajetórias que fazem parte das estratégias de enfrentamento ao racismo  no Brasil.

Incentivo amplia presença de estudantes negros brasileiros em áreas STEM no exterior

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM. Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026. Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior. Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM.

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior.

Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Quando eu era criança, me diziam que um negro precisa estudar duas vezes, três vezes mais que um branco para se destacar”, lembra. Hoje, a mensagem que ele procura transmitir aos seus alunos é outra: não é preciso ser um “super-homem” ou uma “super-mulher” para chegar a uma universidade de excelência fora do país. É preciso ter oportunidade e, principalmente, conseguir se enxergar naquele lugar. 

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Na foto: Fernando Caixeta, Professor do IFTM e mentor do Programa Black STEM | Créditos: Thalita Guimarães

Esse ponto é especialmente importante quando se fala em STEM, áreas que historicamente concentram oportunidades acadêmicas, científicas e profissionais de alto impacto. 

Dados disponíveis sobre mobilidade acadêmica ajudam a dimensionar o tamanho da desigualdade, embora ainda exista uma lacuna importante nas estatísticas brasileiras. Um estudo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, com dados de programas de mobilidade do CNPq e informações do Censo de 2022, analisou 38.238 participantes com informação de raça/cor. Entre eles, 1.055 se declararam pretos, o equivalente a 2,76% do total, enquanto 6.487 se declararam pardos, ou 16,96%. Somados, pretos e pardos representavam 19,72% dos participantes analisados. O dado chama atenção porque a população brasileira é majoritariamente negra. Ou seja, mesmo quando existe uma política de mobilidade internacional, a presença de estudantes negros não acompanha o peso demográfico da população brasileira.

E há outro problema: não existe, hoje, uma estatística pública nacional consolidada que permita dizer exatamente quantos estudantes negros brasileiros estão matriculados em universidades estrangeiras, especialmente em cursos STEM. Essa ausência de dados, por si só, revela uma defasagem. Sem saber exatamente quem está indo, para onde está indo e em quais áreas está estudando, fica mais difícil medir desigualdades e construir políticas capazes de enfrentá-las.

Pesquisas acadêmicas já apontaram, entretanto, que raça e origem socioeconômica interferem no acesso de estudantes brasileiros à mobilidade internacional.  Pesquisas sobre o programa Ciência sem Fronteirasmostram que a mobilidade acadêmica internacional ainda reproduz desigualdades raciais presentes no ensino superior brasileiro. Estudo realizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que estudantes pretos e pardos representavam, em média, 16,68% dos matriculados entre 2012 e 2016, mas correspondiam a apenas 9,38% dos bolsistas do programa no período. 

É justamente nesse espaço que iniciativas como o Black STEM entram.

Na primeira edição, o programa selecionou cinco estudantes negros para graduação no exterior, oferecendo bolsas de R$ 35 mil anuais para apoiar despesas como moradia, alimentação, transporte e material acadêmico. Na segunda edição, outros quatro estudantes foram selecionados. Agora, na terceira, serão três novos bolsistas.

São números que carregam uma dimensão simbólica importante. Cada estudante que chega a uma universidade estrangeira também pode se tornar referência para quem ainda está pensando se aquele lugar é acessível. 

Caixeta chama atenção para uma transformação geracional. Segundo ele, estudantes negros de hoje estão “metendo o pé na porta” e ocupando espaços internacionais com uma disposição diferente da geração anterior. China, Dubai, Estados Unidos ou qualquer outro destino deixam de parecer lugares impossíveis. A pergunta passa a ser menos “será que existe alguém como eu lá?” e mais “como faço para chegar?”.

Evento Black STEM 2026 | Créditos: Thalita Guimarães

Para o professor, a função da mentoria é ajudar a transformar o sonho em projeto. E isso significa também falar sobre aquilo que nem sempre aparece nas fotos de uma universidade estrangeira: dinheiro, alimentação, moradia, transporte, segurança e a possibilidade de voltar para casa se alguma emergência acontecer. “Eu preciso ter dinheiro, preciso beber, preciso comer, preciso viver e preciso estudar ao mesmo tempo”, resume.

A preocupação também se estende ao ambiente acadêmico. Caixeta defende que equipes científicas e tecnológicas mais diversas conseguem produzir soluções mais conectadas com a realidade de diferentes grupos sociais. Ele lembra de uma experiência em um laboratório no qual pesquisava tecidos usados nas toucas de cetim para proteção dos cabelos.

Em uma equipe mais racializada, ele percebeu que não precisava explicar aquilo que fazia parte da vida cotidiana de outras pessoas negras. Para ele, essa identificação muda a qualidade da conversa, da pesquisa e das soluções produzidas. 

Fernando Caixeta alerta para a necessidade de discutir uma tecnologia que não reproduza discriminações e que seja acessível a diferentes grupos sociais. A presença negra nas áreas de STEM, portanto, não diz respeito apenas a quem ocupará os laboratórios, empresas de tecnologia ou universidades no futuro. Diz respeito também a quem fará parte da criação de tecnologias que vão influenciar a vida de todos.

No Brasil, esse desafio ainda passa pelo enfrentamento do chamado “racismo à brasileira”, expressão usada por Caixeta para falar de situações em que a discriminação existe, mas muitas vezes não é reconhecida como tal. No exterior, por sua vez, o estudante negro precisa aprender a lidar com novos contextos culturais e com possibilidades de racismo que também podem surgir. É aí que a representatividade ganha outra dimensão.

Para Caixeta, não basta estar. É preciso se enxergar, viver aquele espaço e conseguir imaginar uma trajetória possível. Quando um professor negro aparece diante de um estudante e diz “eu fui, eu consegui, eu estou aqui”, a distância entre o sonho e a realidade diminui.

É esse movimento que o Black STEM procura apoiar, não apenas enviar estudantes negros para fora do Brasil, mas criar condições para que eles permaneçam, concluam seus cursos e ampliem as possibilidades para quem vem depois. A experiência internacional, nesse sentido, deixa de ser apenas uma conquista individual. Transforma-se em caminho aberto.

E, como lembra Caixeta, cada pessoa que chega primeiro ajuda a tornar a chegada das próximas um pouco menos difícil. No caso das áreas STEM, ocupar esse espaço significa também participar das decisões sobre ciência, tecnologia e inovação. Significa mostrar que pessoas negras não estão apenas consumindo tecnologia. Elas também podem criá-la, pesquisá-la, transformá-la, decidir para quem ela será feita e como será utilizada.

Área de Programas do Fundo Baobá transforma 15 anos de experiência em matéria-prima para planejar o futuro

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos. Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais. “A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma. O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre: “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural. Foi observando essa panorama que Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.

“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.
“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Na foto: Tainá Medeiros, Gerente de Programas | Créditos: Thalita Guimarães

O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre:  “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural.

Foi observando essa panorama que  Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

A experiência acumulada também ajuda a entender o trabalho desenvolvido no presente. Em 2026, uma das frentes da área de Programas foi a conclusão da avaliação do Edital Educação e Tecnologia, realizado em parceria com o MOVER. Depois da avaliação, foram organizados encontros de devolutiva com as organizações apoiadas e os parceiros financiadores para compartilhar os resultados e ampliar a aprendizagem produzida pelo programa.

O Programa Marielle Franco de Apoio Individual também teve continuidade. As mulheres apoiadas estão recebendo mentorias individuais voltadas ao fortalecimento de seus planos de desenvolvimento e à ampliação de conexões com outras mulheres negras com trajetórias de liderança. No Programa Já É, o acompanhamento inclui jovens que se preparam para os vestibulares e aqueles que já ingressaram na universidade e começam sua trajetória acadêmica.

Outra iniciativa que avançou no primeiro semestre foi o Programa Black STEM, que concluiu o processo seletivo de sua terceira edição. Três novos bolsistas passaram a integrar o programa e participaram, em agosto, de atividades de boas-vindas, formação e fortalecimento de vínculos. Eles seguirão para universidades nos Emirados Árabes Unidos, na Espanha e nos Estados Unidos.

Na área de fortalecimento institucional, o Fundo Baobá renovou o apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, iniciado em 2023. Uma nova doação de R$ 300 mil dará continuidade, até 2027, ao plano de fortalecimento institucional da organização.

Enquanto acompanha essas iniciativas, a área de Programas já prepara os próximos passos. Para o segundo semestre, estão previstas novas oportunidades de fortalecimento institucional para organizações, grupos e coletivos, além da continuidade do monitoramento dos apoios em andamento e do início da avaliação de iniciativas já concluídas.

O aprendizado também acontece dentro do próprio Fundo. A área pretende dar continuidade ao aprimoramento de sua gestão e à participação em espaços de troca de experiências e conhecimentos, acompanhando demandas, tendências e inovações que possam contribuir para sua atuação nos próximos anos.

Parte da experiência acumulada nesses 15 anos aparece ainda na relação com organizações e lideranças que procuram os editais do Fundo Baobá. Para quem não tem familiaridade com a elaboração de projetos, Tainá procura retirar um pouco do peso que costuma acompanhar esse processo.

“A elaboração de projetos pode ser uma tarefa acessível”, afirma. O primeiro passo, segundo ela, é ler atentamente o edital, compreender seus objetivos e conferir as informações e os documentos solicitados.

“O melhor caminho é apresentar uma proposta simples, porém coerente com a capacidade da organização, alinhada à sua experiência, ao território em que atua e aos objetivos do edital”, orienta. A elaboração da proposta também pode servir para que a própria organização estruturesuas ideias sobre desafios, necessidades, objetivos e possibilidades de atuação.

Nem sempre, porém, uma boa proposta chega a ser avaliada. Entre os problemas encontrados nas inscrições estão informações incorretas ou incompletas, documentos ausentes ou ilegíveis, arquivos em formatos diferentes dos solicitados e perda de prazos. Falhas desse tipo podem levar à desclassificação antes da análise do mérito do projeto.

Por isso, Tainá recomenda que organizações e lideranças reservem tempo para conferir a inscrição antes do envio. Informações, documentos, formatos e prazos precisam ser revisados com antecedência, inclusive para que seja possível corrigir eventuais problemas. “Revisar a inscrição nunca é demais”, resume.

Julho: mês de reverenciar as mulheres negras

Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

Mais do que uma data comemorativa, o 25 de julho representa uma agenda política construída pelas próprias mulheres negras. Instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, o dia nasceu da articulação de cerca de 400 lideranças de mais de 30 países, que se reuniram para denunciar os impactos do racismo, do sexismo, da violência e das desigualdades sobre suas vidas. 

A data simboliza a luta coletiva contra as diferenças de toda ordem que ainda atravessam a vida de milhões de mulheres negras. No Brasil, a homenagem também reverencia Teresa de Benguela, referência de resistência, liderança e liberdade.

Já o Julho das Pretas transforma esse dia histórico em um mês de mobilização, incidência política e fortalecimento das lutas das mulheres negras, reafirmando seu papel fundamental na construção de sociedades mais justas e democráticas.

Embora as mulheres negras representem a maioria da população brasileira, elas continuam enfrentando barreiras no acesso a direitos, como a igualdade salarial e a participação política em espaços de decisão. Por isso, celebrar o 25 de julho é também reafirmar o compromisso com políticas e iniciativas que fortaleçam seu protagonismo.

É nesse contexto que o Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá, ganha ainda mais significado. Inspirado no legado de uma mulher negra que transformou sua atuação política em instrumento de luta por direitos, o programa investe na formação, no fortalecimento e no desenvolvimento de lideranças negras e organizações lideradas por mulheres negras, ampliando sua presença em espaços de poder e influência. A iniciativa apoia trajetórias individuais, organizações e coletivos liderados por mulheres negras, contribuindo para que suas vozes sejam cada vez mais ouvidas e suas agendas avancem.

Celebrar o 25 de julho é reconhecer que a luta das mulheres negras não se limita a uma data. É compreender que investir em suas lideranças é fortalecer a democracia, promover justiça social e construir um futuro em que direitos, oportunidades e representatividade sejam uma realidade para todas.

A agenda de incidência política do Julho das Pretas 2026 foi marcada por manifestações de norte a sul do Brasil. A seguir, destacamos cinco iniciativas realizadas ao longo do mês que levaram mulheres negras ativistas às ruas e aos mais diversos espaços de debate, reafirmando a força da mobilização coletiva em diferentes territórios:

Nordeste – Piauí
A X Feira Preta, organizada pelo Instituto Mulher Negra do Piauí – Ayabás, acontecerá amanhã, dia 31 de julho, no Memorial Esperança Garcia. O evento promove o empreendedorismo negro por meio da comercialização de produtos e da oferta de serviços.

Norte – Tocantins
O 6º Encontro Estadual de Mulheres Negras, organizado pelo Coletivo Feminista de Mulheres Negras do Tocantins (Ajunta Preta), aconteceu nos dias 25 e 26, na Universidade Federal do Tocantins. Com o tema O Feminismo Negro que Temos e o Feminismo Negro que Queremos, reuniu um número significativo de mulheres negras para debater os desafios e perspectivas do movimento.

Centro-Oeste – Goiás
O Corredor Urbano das Pretas: Ocupação Política do Centro, promovido pelo Instituto Pretas, ocupou, no dia 25, algumas das principais vias de Goiânia (Av. Tocantins, Praça Cívica, Av. Goiás, Av. Anhanguera, Rua 10 e Praça Universitária). A ação buscou fortalecer a visibilidade das pautas das mulheres negras e reafirmar a ocupação dos espaços públicos como estratégia de memória, resistência e incidência política.

Sudeste – Rio de Janeiro
O I Seminário Direito à Cidade e à Justiça Climática: As Raízes, as Vozes e a Força das Mulheres Negras Brasileiras, organizado pelo Ministério das Cidades no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, reuniu, no dia 23, mulheres negras para discutir direito à cidade e justiça climática, integrando atividades de literatura, gastronomia, arte, música e empreendedorismo.

Sul – Paraná
O Pacto da Negritude, organizado pela Rede Mulheres Negras do Paraná no cursinho popular Ubuntu, na Universidade Federal do Paraná (Campus Rebouças), promoveu, em 25 de julho, um debate voltado à conscientização e ao fortalecimento de práticas antirracistas.

Articulação Social fortalece as conexões do Fundo Baobá com territórios e organizações

A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo.

O Fundo Baobá nasceu, há 15 anos, a partir de um processo de diálogo com movimentos sociais, lideranças negras, organizações da sociedade civil, academia e parceiros institucionais. Essa escuta ativa, que sempre fez parte do DNA da organização, foi fortalecida recentemente, com a criação da área de Articulação Social. Ela surge a partir de aprendizados de uma década e meia, com o objetivo de dar manutenção às redes de relacionamento do Fundo Baobá e a sua capacidade de incidência no ecossistema de promoção da equidade racial no Brasil.

A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo. Ela é também uma resposta a diversas transformações no ecossistema filantrópico e nos movimentos sociais, pois ao longo da última década e meia ampliaram o debate sobre justiça racial, reparação histórica e fortalecimento de organizações lideradas por pessoas negras. 

Para Caroline Almeida, gerente de articulação social do Fundo Baobá, o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.

Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, comenta sobre o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.

Na foto: Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social | Créditos: Thalita Guimarães

“A transformação social não ocorre apenas por meio do apoio financeiro, mas também pela construção de relações estratégicas, fortalecimento de redes e incidência”, afirma Caroline. Para ela, trata-se de tornar mais intencional e sistematizada uma prática que sempre esteve presente na atuação do Fundo Baobá.

A área nasce com a missão de contribuir para que a atuação do Fundo Baobá seja cada vez mais conectada às transformações do contexto social e político, tendo como busca a potencialização de diversas vozes nos processos de reflexão, decisão e incidência que envolvem a organização e o campo da filantropia. Mais do que ampliar relacionamentos, a área apoia a consolidação de uma cultura institucional baseada na escuta qualificada, na construção de confiança e na promoção de alianças estratégicas comprometidas com a transformação social e a justiça racial.

“Nosso compromisso é fortalecer processos de escuta, diálogo e construção conjunta. Entendemos que movimentos, organizações e lideranças negras não são apenas beneficiários de recursos, mas sujeitos políticos fundamentais na  formulação de soluções e estratégias para a promoção da justiça racial”, afirma Caroline.

No Sul, organização liderada por uma mulher negra promove acesso à arte e à cultura com apoio do Fundo Baobá

Black Brazil Art, Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

O ano de 2026 marca os 15 anos de atuação do Fundo Baobá para Equidade Racial, que reafirma seu compromisso com o fortalecimento de lideranças, organizações e iniciativas negras em todas as regiões do país. Com presença em territórios diversos e realidades distintas, a organização tem contribuído para ampliar oportunidades, promover inclusão e fortalecer redes de transformação social. 

O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.

Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

Segundo Patrícia, o apoio recebido contribuiu para  ampliar o alcance das atividades voltadas para jovens negros, moradores de bairros periféricos, criando conexões e experiências que ultrapassaram os limites dos territórios onde vivem. “O apoio do Fundo Baobá teve um impacto direto nas pessoas. Em 2016, trabalhamos com três bairros grandes e periféricos aqui de Porto Alegre: Restinga, Cruzeiro do Sul e Morro Santana. Até hoje, ou seja, dez anos depois, ainda carecem de um olhar voltado para atividades culturais. Então, ter acesso a esse recurso ampliou a oportunidade de formação para esses jovens na criação de intercâmbios para além das suas regionalidades”, explica Patrícia da Silva, coordenadora do coletivo.

A iniciativa também contribuiu para aproximar diferentes gerações de artistas negros que atuam nos territórios periféricos, fortalecendo redes locais de produção cultural e ampliando as perspectivas profissionais dos jovens participantes. “Esse suporte contribuiu para o desenvolvimento profissional desses jovens e também para o envolvimento desses artistas territoriais para fazer uma espécie de casamento entre essa geração que está surgindo agora e a que já está atuando nesses bairros”, acrescenta.

O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.
Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

Créditos: Divulgação Black Brazil Art

Ao longo de seus 15 anos de atuação, o Fundo Baobá tem investido no fortalecimento de organizações negras em diferentes estados brasileiros e em diferentes áreas de atuação, reconhecendo o papel estratégico dessas iniciativas na promoção da equidade racial e no enfrentamento das desigualdades históricas. Além do aporte financeiro, os programas desenvolvidos pela instituição contribuem para ampliar a visibilidade de projetos, fortalecer redes de colaboração e criar novas oportunidades para organizações, profissionais e lideranças negras.

Para Patrícia, esse tipo de investimento continua sendo fundamental para ampliar o acesso da juventude negra a oportunidades de formação, desenvolvimento e protagonismo. A história da Black Brazil Art é um dos exemplos que ilustram o alcance nacional do Fundo Baobá, que amplia oportunidades e promove a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

“Ainda carecemos de mais oportunidades e de mais acessos, principalmente para a nossa juventude preta. Então, sou muito grata por ter sido uma das tantas contempladas a receber um recurso do Fundo Baobá. No meu caso, esse investimento foi fundamental porque ofereceu suporte concreto para que a minha organização, que é liderada por uma mulher negra, pudesse desenvolver esse projeto com tantas outras meninas e meninos negros”, finaliza Patrícia da Silva.

Governança ativa, participação coletiva e visão estratégica marcam os 15 anos de Fundo Baobá

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes.

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes. É a partir dessa trajetória coletiva, marcada por aprendizados e melhorias ao longo do tempo, que o Fundo Baobá segue fortalecendo sua atuação e um modelo de governança que está na base dos nossos passos.

Atualmente, o Fundo Baobá conta com uma equipe de 20 profissionais e uma governança ativa, permitindo que o crescimento amplie o alcance de iniciativas voltadas à promoção da equidade racial. Entre elas estão programas de formação acadêmica internacional, acesso ao ensino superior, desenvolvimento de lideranças femininas negras e ações emergenciais, como o apoio durante a pandemia da Covid-19. São iniciativas que contribuem para que pessoas negras ocupem espaços historicamente negados à sua presença e ao seu conhecimento.

Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, os 15 anos da organização marcam também o início de um novo ciclo estratégico. Nesse momento, a construção de processos eficientes, a gestão participativa e a adoção de tecnologias alinhadas à segurança, transparência e impacto social, são pilares para garantir continuidade ao trabalho desenvolvido.

Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá

Crédito fotográfico: Thalita Novais

Mais do que administrar recursos, a área de Operações atua como suporte para todas as demais áreas organizacionais, apoiando estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e a sustentabilidade financeira.

“O Fundo Baobá é para sempre”, resume Hebe, ao falar sobre o compromisso de longo prazo da organização com a promoção da equidade racial no Brasil. Uma permanência construída coletivamente, com raízes firmadas no fortalecimento das iniciativas negras e na construção de futuros mais equitativos.

Em entrevista, Hebe fala mais sobre o ponto de vista da área de Operações sobre os 15 anos do Fundo Baobá.

Em janeiro, Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá, falou que os 15 anos do Fundo Baobá não eram apenas uma celebração, eram uma  preparação para um novo ciclo estratégico. Como a sua área, Gestão Operacional, define esse novo ciclo estratégico?
Uma etapa que apresenta novas demandas exige novos esforços. A área de Operações presta suporte às atividades das demais áreas. Somos uma das fontes para pensarmos estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e captação de recursos. Pensar nas novas tecnologias do mercado e como podemos adotá-las, sem prejuízo ou risco à equipe e ao nosso público, será a contribuição da área de Operações no desenho deste novo ciclo.

Na mesma matéria, você fala em uma gestão participativa para garantir a sustentabilidade do Fundo Baobá. No dia a dia do trabalho, como acontece essa gestão participativa? 

Todas as pessoas da equipe são responsáveis pela gestão dos recursos. O alinhamento dos nossos gestores é tarefa cotidiana entre as áreas. Quem desejamos alcançar? Qual a melhor forma de fazer isso? Qual a maneira mais eficiente de gerir o recurso disponível? Todas essas variáveis são analisadas em equipe, que comunga do princípio de oferecer excelência no atendimento, seja qual for a atividade. Isso agiliza os ajustes processuais e nos fortalece enquanto grupo.

Você fala também em “olhar para a perenidade do Fundo Baobá”. Como gestora financeira, é possível prever um Fundo Baobá atuante daqui a 20, 30 anos ou mais que isso? Quais as diretrizes econômicas para atingir essas marcas?  

O Fundo Baobá é para sempre. Para os que estão aqui agora e para os que virão depois. Em 20, 30 anos as demandas da população podem mudar, o que influenciará nas nossas estratégias de atuação, mas o sentido de nossa existência permanecerá. Sendo otimista, vislumbro um futuro com todas as organizações da sociedade civil brasileira comprometidas com a promoção da equidade racial, mesmo que em menores níveis de prioridade. As diretrizes já estabelecidas pelo nosso conselho deliberativo nos dão suporte para essa perenidade: transparência, planejamento e governança participativa.

Como o Fundo Baobá define os valores investidos em seus editais, programas e ações a partir da rentabilidade do Fundo Patrimonial? Como essa estratégia de uso dos rendimentos contribui para a sustentabilidade e o planejamento de longo prazo da organização? 

O valor é definido entre nosso Conselho e Equipe Executiva. A depender dos reflexos deste alinhamento, o valor pode ser maior que o previsto inicialmente. Isso aconteceu no edital Black Stem, quando decidimos ampliar o número de vagas ofertadas no edital. Isso impactou em todo orçamento do projeto, mas obtivemos sucesso na decisão.

Auxílio emergencial no período da pandemia da Covid-19, programas voltados para educação, para o desenvolvimento de lideranças e enfrentamento à violência racial. Para quem trabalha com gestão financeira, como você definiria seu sentimento ao ver o impacto dessas iniciativas nas vidas das pessoas apoiadas?

O sentimento é de que um objetivo ambicioso e desafiador está sendo cumprido. Ver nossos projetos impactando diferentes atuações na causa racial, promovendo mudanças econômicas em grupos populacionais sub-representados, qualificando um público que nunca acessou recursos da filantropia, tudo isso reverbera no nosso sentimento de importância na sociedade brasileira e no nosso dever de continuar trabalhando com excelência.

Quais resultados do Fundo Baobá chamam mais a atenção de quem não faz parte da organização? 

Autossuficiência, execução bem-sucedida do planejamento estratégico e meta de construção do Fundo Patrimonial alcançada com êxito. 

Quais foram as estruturas invisíveis mais importantes para que o fundo chegasse até aqui?

Equipe comprometida com a preservação dos ativos institucionais: nossa relação com donatários, gestão eficiente dos recursos e uma governança atuante. Também é muito importante possuir uma assessoria jurídica qualificada para lidar com as especificidades de uma organização do terceiro setor que possui um Fundo Patrimonial.

Existe alguma decisão operacional tomada anos atrás que hoje vocês entendem como fundamental para a longevidade do fundo? 

O acordo com a Kellogg Foundation previa que os aportes financeiros ao Fundo Patrimonial seriam realizados mediante apresentação de um relatório de auditoria externa, aprovado pelo nosso Conselho. Isso colaborou para o fortalecimento de nossa transparência. Aprimoramos nossas ferramentas de trabalho para alcançar, com a maior agilidade possível, informações sobre a nossa gestão. Isso colabora não apenas para o gerenciamento financeiro, mas também para atender tempestivamente qualquer due diligence (levantamento sobre um parceiro de negócio) que algum financiador nos faça. Estamos preparados para falar de nossa história através dos números registrados aqui.

 O que mudou na forma de operar da organização ao longo destes 15 anos? 

O aumento da equipe refletiu na possibilidade de ampliação de nossas atividades. Houve um período em que fomos apenas 3 pessoas. Hoje somos 20. Isso mudou nossa estrutura física, nos possibilitou melhoria das ferramentas e demanda um esforço conjunto para construir a ambientação de cada nova pessoa que integra a equipe, incluindo a governança. Um time de trabalho empenhado e que se sente livre e seguro para opinar, propor e fazer.

Fundo Baobá chega aos 15 anos promovendo equidade racial no mundo do trabalho

Fundo Baobá chega aos 15 anos promovendo equidade racial no mundo do trabalho

Embora as ações afirmativas tenham ampliado o acesso de pessoas negras ao ensino superior, esse avanço não se reflete na mesma proporção no mercado de trabalho. Segundo pesquisa do Pacto de Promoção da Equidade Racial e da Fundação Itaú, divulgada no fim de 2025, jovens negros  qualificados seguem enfrentando barreiras estruturais que limitam sua inserção em espaços de decisão e crescimento profissional   mesmo em contextos onde a diversidade e inclusão no ambiente de trabalho são cada vez mais discutidas.

Dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), baseados na PNAD Contínua do IBGE do segundo semestre de 2025, revelam que a população negra forma um contingente de 120 milhões de pessoas no Brasil. Deste total, a taxa de ocupação formal é de 56,7%, enquanto 59,4% estão fora do mercado formal de trabalho, em funções sem carteira assinada e mecanismos de proteção social ou sem qualquer ocupação. A desigualdade é maior no recorte de gênero: mulheres negras estão mais expostas a baixos salários e ao emprego doméstico. O cenário de desigualdade se acentua em cargos de gerência e direção, onde negros ocupam apenas 33% das posições (14% de mulheres e 19% de homens), conforme o DIEESE. 

Para transformar esse cenário, o Fundo Baobá atua, há 15 anos, na mobilização de recursos para construir pontes entre o conhecimento da população negra e oportunidades concretas. Nossa atuação é criar condições para que cada pessoa apoiada defina sua trajetória, para que possa aprimorar suas habilidades, seu trabalho e suas redes, transformando a autonomia em inovação e liderança. Um exemplo é o Programa Carreiras em Movimento, que vai além da orientação profissional. É um espaço de desenvolvimento de habilidades para que cada pessoa ocupe seu lugar com autonomia e propósito.

A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem. Após ter a trajetória interrompida pela pandemia, ela foi selecionada pelo edital em 2023 e recebeu R$10 mil para aprimorar habilidades. “Utilizei 60% do recurso em aulas de conversação de inglês e os outros 40% na aquisição de equipamentos e cursos livres complementares”, revela.

Após o investimento, Daniela conquistou uma vaga em uma empresa global de design. “Fui selecionada e atingi o nível C2 de proficiência em inglês. Hoje sou Senior Product Operations e não teria conseguido a vaga sem o incentivo do edital, que me permitiu focar no idioma”, afirma.

A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem.
Daniela Marreira | Crédito: Arquivo pessoal.

No setor de ciências exatas, onde a presença de pessoas negras é minoritária ainda, o Fundo Baobá criou o edital Educação em Tecnologia. Nele, empresas negras e organizações que contribuem para a ampliação da capacidade de pessoas negras se inserirem no mercado de trabalho no segmento da tecnologia são apoiadas. Já o programa Black STEM tem como foco estudantes brasileiros negros e negras que buscam formação acadêmica no exterior nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Eles recebem suporte financeiro e mentoria qualificada visando  continuidade em seus cursos, o que poderá garantir posições de destaque dentro desse segmento. 

”A discussão sobre empregabilidade negra é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Não existe país próspero sem a inclusão da maioria de sua população”, afirma Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá. “Precisamos urgentemente avançar nas políticas de cotas raciais e vagas inclusivas para ações que incidam diretamente nos gargalos que impedem a juventude negra de acessar uma educação superior de qualidade. Esse é um pré-requisito básico para elevar a presença negra nas posições de tomada de decisão e liderança que poderão movimentar um ciclo virtuoso de inclusão social”, completa.

Em 15 anos, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1.209 iniciativas, muitas com o foco de ampliar oportunidades para pessoas negras no mundo do trabalho. Esse investimento já alcançou 1,35 milhão de beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. Provando que, quando a população negra tem acesso a recursos, participação em redes e desenvolvimento de suas habilidades, transforma os espaços onde atua. 

Fundo Baobá investe em mulheres negras como parte de uma estratégia ampla para equidade racial

Fundo Baobá investe no fortalecimento de mulheres negras no país

O investimento em mulheres negras, por meio de programas técnicos e de qualificação, é uma das estratégias adotadas pelo Fundo Baobá para enfrentar desigualdades e impulsionar transformações duradouras na sociedade brasileira.

Nestes 15 anos, o Fundo Baobá tem direcionado recursos para diferentes iniciativas, conectando lideranças, organizações e territórios. Nesse percurso, o apoio a mulheres negras se consolida como uma frente relevante, que mostra que o investimento feito é um mecanismo de impacto estrutural para o país.

Na prática, em um contexto de disparidades de gênero e raça, o Fundo Baobá investe no fortalecimento de lideranças e iniciativas que posicionam mulheres negras como executoras de estratégias sociais. A organização mapeia a liderança exercida por essas mulheres em diferentes contextos de desigualdade, utilizando editais para fortalecer sua atuação como agentes de mudança. 

O Programa Marielle Franco, por exemplo, oferece suporte para a ampliação da incidência política e a ocupação de espaços de tomada de decisão. A iniciativa foca no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade de gênero e raça, apoiando trajetórias individuais e coletivas em diversas regiões do Brasil.

Entre as ações recentes, o Fundo destinou R$1,25 milhão à Marcha das Mulheres Negras 2025, viabilizando a mobilização nos 26 estados e no Distrito Federal. O aporte concentrou-se em logística e articulação estadual, com atenção especial à participação de mulheres quilombolas, fortalecendo sua presença no debate sobre reparação e bem viver. 

O papel do Fundo Baobá consiste em conectar trajetórias e garantir que lideranças negras tenham acesso a oportunidades de continuidade, reduzindo os impactos da violência racial e de gênero. O investimento em mulheres negras faz parte de uma decisão estratégica de desenvolvimento do país. Quando mulheres negras têm condições de incidir em decisões, elas fortalecem redes, criam soluções e ampliam o acesso a direitos para todas as pessoas.

Fundo Baobá participa de articulação internacional por justiça racial em cúpula das Américas

O Fundo Baobá participou do encontro em Porto Rico que reuniu organizações e lideranças para fortalecer estratégias de equidade racial em escala regional.

O diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, Giovanni Harvey, participou do painel “Investimento estratégico em iniciativas afrolatinas”, durante o Racial Equity Builders Dialogue (REBD), realizado em Porto Rico nos dias 25, 26 e 27 de fevereiro. A conversa foi mediada por Arelis Diaz, da W. K. Kellogg Foundation, organização que incentivou a formação do Fundo Baobá em 2011.

O encontro reuniu lideranças, organizações filantrópicas e especialistas para discutir formas de ampliar o investimento em comunidades afro-latinas nos Estados Unidos e nas Américas. Durante sua participação, Giovanni Harvey destacou a importância de fortalecer investimentos que promovam autonomia e preservem a integridade cultural das iniciativas apoiadas nos territórios. Ele também abordou caminhos de acesso ao financiamento para organizações negras, a participação nas discussões do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU e o impacto do apoio da Kellogg ao longo dos 15 anos do Fundo Baobá.

Com o lema “A Hora é Agora: Um Diálogo para Ação em Todas as Américas”, o encontro refletiu sobre a urgência do papel da filantropia no fortalecimento de democracias inclusivas, e na construção de respostas coletivas para enfrentar o racismo em escala global.

O REBD é um encontro internacional que reúne organizações, articuladores sociais, filantropos e especialistas em equidade racial para discutir estratégias, fortalecer redes e promover o intercâmbio de experiências sobre justiça racial e desenvolvimento comunitário. A edição deste ano teve como foco avançar da reflexão para a ação, buscando transformar propostas de equidade racial em ações coordenadas, baseadas em aprendizado compartilhado e na defesa coletiva de lideranças comunitárias, parceiros filantrópicos e especialistas internacionais.

Pela segunda vez, o Fundo Baobá participou do evento, sendo a única organização brasileira presente nesta edição. A participação ampliou a visibilidade do Brasil em um espaço estratégico de diálogo internacional sobre equidade racial. Durante o encontro, organizações presentes demonstraram interesse em conhecer a experiência brasileira na promoção da equidade racial. 

Entre os temas discutidos estavam: funcionamento das instituições democráticas brasileiras em contextos recentes, o acompanhamento internacional de casos emblemáticos de violência racial no Brasil, como a condenação dos responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e de Anderson, além do papel da cultura brasileira como elemento de conexão e projeção internacional, e o reconhecimento do Brasil como ator relevante nas agendas globais de justiça racial.

Eric Ribeiro: da curiosidade infantil aos sonhos aeroespaciais

Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.

Na fotografia, Eric Ribeiro que atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM, é
um homem negro jovem aparece sorrindo enquanto fala ao microfone. Ele usa óculos de armação redonda, camisa branca e calça em tom verde oliva. Sobre os ombros, está com um suéter bege, criando um visual elegante e descontraído. Ele está sentado em uma cadeira branca, participando de um painel ou mesa de conversa em ambiente institucional, com fundo azul e telão ao fundo. Sua expressão transmite entusiasmo e segurança, em um momento de partilha e escuta ativa.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.

“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.

Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.

O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.

Nova edição do programa amplia oportunidades

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:

“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.

A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.

Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:

“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.

Para mais informações sobre a segunda edição do Black STEM, acesse:
https://bit.ly/BS-2edicao 

A força coletiva que mobiliza a Marcha das Mulheres Negras desde 2015

A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.

Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.

Na fotografia, vemos Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras. uma mulher negra em pé, sorridente, com os cabelos trançados e presos com um detalhe vermelho. Ela veste uma regata estampada com a imagem de uma figura feminina negra em trajes tradicionais e com uma espada em punho, além de um short branco com bordados. Ao fundo, há um mural artístico em tons de preto e branco, com traços que remetem a elementos culturais e figuras humanas. A expressão da mulher transmite confiança e serenidade, em um ambiente que valoriza a identidade afro-brasileira.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. 

O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).

A Marcha como processo político e social de longo prazo

A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.

Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência. 

Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.

Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.

“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.

Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.

Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.

Para mais informações sobre a Marcha, acesse: https://marchadasmulheresnegras.com.br 

Edital Educação e Identidades Negras provoca transformações significativas nas organizações apoiadas

O edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial foi encerrado com um saldo bastante positivo. Após dois anos de vigência, ele resultou em um impacto de transformação para as 12 organizações que receberam, cada uma, R$ 175 mil para implementar seus projetos. 

As transformações foram possíveis tanto pelo apoio financeiro quanto pelo suporte técnico oferecido nas oficinas organizadas pelo Fundo Baobá. As organizações tiveram acesso a recursos para aquisição de equipamentos e capacitação em gestão, o que gerou aumento da visibilidade de cada uma delas, além do fortalecimento institucional.

Ações antirracistas e fortalecimento institucional

Uma característica comum entre as organizações participantes do processo seletivo foi o desenvolvimento de estratégias para enfrentar o racismo em instituições educacionais — formais e não formais — e promover maior representação de pessoas negras nos espaços de decisão na educação. 

Das 12 organizações apoiadas, 9 nunca haviam recebido qualquer tipo de financiamento para seus projetos. Isso reflete a missão do Fundo Baobá, que realiza uma busca ativa por organizações que atuam em territórios desassistidos.

O papel do Fundo Baobá na descentralização de recursos

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, analisa esse cenário:

“Algumas das organizações apoiadas atuam na luta antirracista há uma ou duas décadas e, ainda assim, não haviam acessado recursos da filantropia. Alcançá-las com bons critérios de seleção é um indicador de sucesso. Aos poucos, estamos chegando a organizações de diferentes regiões do país, saindo das capitais dos estados. Descentralizar o acesso aos recursos financeiros e ampliar o acesso às assessorias técnicas que contribuam com o fortalecimento das lideranças, organizações, grupos e coletivos negros é parte da nossa missão”, afirma.

Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá, que é uma mulher negra, com cabelos longos em dreadlocks e óculos de armação clara, sorri enquanto participa de uma conversa em ambiente interno iluminado. Ela veste uma blusa preta sem mangas e calça com estampa colorida. Está sentada em uma cadeira de escritório bege, com postura aberta e expressiva, demonstrando atenção e receptividade. Ao fundo, vê-se uma parede clara e uma planta em vaso, o que reforça o clima acolhedor do espaço. Simulando a fala sobre  edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial
Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá. Crédito: Thalita Novais 

Um dos critérios para seleção das organizações era a atuação na promoção efetiva do que determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Essas legislações tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas, modificando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apesar da determinação legal, muitas instituições de ensino — tanto públicas quanto privadas — ainda a ignoram, uma realidade que precisa ser transformada.

“As organizações apoiadas no edital contribuíram para reduzir o desconhecimento, subsidiar e cobrar a implementação. Promoveram diálogos que, na maioria das vezes, são incomuns, envolvendo movimento social e unidades formais de educação básica ou universitária. Ver os resultados e saber que mais de 15 mil pessoas tiveram acesso a conteúdos anteriormente vetados em função do racismo é um bom indicador de que estamos no caminho certo de investimento”, completa Fernanda Lopes.

Afoxé Omô Nilê Ogunjá: cultura, autonomia e educação

O edital apoiou organizações, coletivos e grupos negros de nove estados brasileiros. Uma delas foi o Afoxé Omô Nilê Ogunjá, uma associação cultural de tradição afro-brasileira da cidade de Recife, em Pernambuco. Assim como as demais, o Afoxé enfrentou desafios relacionados à gestão de projetos e à prestação de contas. Mas as dificuldades apenas reforçaram o desenvolvimento das habilidades nessas áreas, contribuindo para a autonomia operacional da associação.

Com essa autonomia consolidada, o Afoxé Omô Nilê Ogunjá estabeleceu parcerias para difundir, entre estudantes e educadores da Educação Básica ao Ensino Superior, conhecimentos importantes sobre a cultura afro-brasileira e a história do Brasil, por meio da dança, da música e dos saberes ancestrais.

“Firmamos parcerias com instituições de ensino acadêmico, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com instituições de educação básica, que são o nosso público-alvo, o nosso grande público. Firmamos também parcerias com quatro escolas do bairro do Ibura, escolas públicas e uma escola de capital misto. Trabalhamos, através da Lei 10.639, aspectos da cultura e identidade afro-brasileira, passando pela questão da educação etnicorracial. Tivemos formações para professores, atividades com estudantes e levantamentos diagnósticos”, relata Manoel Neto, representante da organização pernambucana.

Manoel Neto é um homem negro, com barba cheia e cabelo raspado, veste uma camisa clara de linho com o primeiro botão aberto. Ele usa óculos de armação redonda e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, vê-se um mural colorido com figuras humanas e elementos da cultura afro-brasileira, trazendo um ar vibrante e artístico à composição. A iluminação suave valoriza a expressão serena e confiante do retratado. Ele é representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá
Manoel Neto, representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá.

Ele também destaca o salto de qualidade obtido com o apoio técnico do Fundo Baobá: “Foi um ganho muito grande para a nossa instituição. Nós tivemos muitas mudanças corroboradas por esse processo de participação no edital. Passamos a ter um planejamento mais institucional. A elaboração desse planejamento, realizada durante a parceria com o Fundo Baobá, foi muito importante para definir os horizontes que agora estamos trilhando — e que são os que gostaríamos de trilhar. Foi importante para definir onde vamos chegar e aonde queremos chegar. Foi importante, inclusive, para conseguirmos uma parceria com uma nova instituição. Conseguimos um financiamento para 2025 de R$ 300 mil para dar continuidade às ações e garantir a permanência das atividades”, conclui.

Parceria com Imaginable Futures e Fundação Lemann

O Fundo Baobá para Equidade Racial contou com apoio financeiro das instituições Imaginable Futures e Fundação Lemann para a realização do edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial, que teve um aporte de aproximadamente R$ 2,5 milhões e resultou no apoio a 12 organizações.

A Imaginable Futures participou, pela primeira vez, de uma iniciativa dedicada exclusivamente a organizações negras e reconhece a importância dessa participação:

“Historicamente, organizações negras têm acumulado experiências valorosas que as colocam em um lugar central para propor práticas e políticas públicas para promover a equidade no ensino e melhorar a qualidade da educação. No entanto, elas enfrentam desafios para acessar recursos e recebem apenas uma pequena parcela do capital filantrópico no Brasil. Em razão dessa assimetria, temos nos juntado a iniciativas que destinam recursos para essas organizações. A iniciativa com o Baobá foi uma experiência inaugural e transformadora para a Imaginable Futures — não apenas pela legitimidade que o Baobá já tem no campo, mas porque nos permitiu aprender e evoluir enquanto organização. Foi uma parceria de muita aprendizagem, que fortaleceu a nossa estratégia e nos ajudou a melhorar a forma como atuamos em prol da equidade racial na educação”, diz Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures, pessoa negra, com cabelo volumoso em estilo afro e barba bem cuidada, sorri enquanto olha para o lado, transmitindo leveza e naturalidade. Usa óculos de armação arredondada e brinco geométrico pendente, além de uma camiseta sem mangas em tom terroso. O fundo neutro e levemente desfocado valoriza sua presença e expressão, em uma composição simples e elegante.
Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Como apoiar o Fundo Baobá

Para contribuir com ações transformadoras como essa, acesse o site do Fundo Baobá e faça sua doação.

Para saber mais sobre o edital Educação e Identidades Negras, clique aqui.

Diovanna Negeski, selecionada da 1º edição do Black STEM, compartilha sua jornada direto de Xangai

Diovanna Negeski, selecionada na primeira edição do Black Stem, fala de sua vida como estudante na China

Xangai, na China, uma das cidades mais populosas do mundo. Com quase 27 milhões de pessoas, é um poderoso centro financeiro, econômico, tecnológico e educacional. Por ser considerada uma esquina do mundo, assim como Nova York, Paris e Tóquio, foi lá que a New York University (NYU) decidiu, em 2011, ter um polo de educação fora dos Estados Unidos. Em 2019 iniciou a construção do seu moderno campus e o concluiu em 2022, objetivando receber 4 mil alunos vindos de todas as partes do mundo. 

Diovanna Negeski, jovem de pele clara e cabelos cacheados escuros, aparece sorrindo levemente, vestindo um look branco sem mangas e usando um crachá com a identidade visual do edital Black STEM. Ela está em pé, com o braço apoiado em uma superfície, em um ambiente interno iluminado. A foto foi registrada nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do programa Black STEM, momento que marca o início de sua jornada internacional acadêmica.
Diovanna Negeski nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do edital Black Stem. Crédito: Thalita Novais 

Um desses 4 mil alunos é Diovanna Negeski, uma brasileira negra que cresceu, como ela própria diz, no fundão da zona leste, no bairro de Itaquera, hoje conhecido em todo o Brasil por abrigar o estádio do Corinthians, também chamado de  Itaquerão.

Bairro de classe média baixa, composto por famílias de trabalhadores, ele é o palco da infância de Diovanna, que foi sendo cuidada por sua avó, já que seus pais tinham que trabalhar para dar uma vida mais confortável à filha. A avó também se virava como podia, fazendo serviços domésticos nas casas da região. 

Querendo que Diovanna  tivesse um futuro diferente dos demais da casa, a avó um dia disse a ela que a condição social da menina a estava fazendo perder a luta para a vida. Motivo: as pessoas mais abastadas tinham acesso a um estudo melhor e a cada dia ganhavam mais distância dela em termos escolares.

Aquilo despertou na itaquerense o desejo de brigar por espaço nos melhores bancos escolares. Esse desejo levou Diovanna a avançar nos estudos e, posteriormente, se inscrever no edital Black Stem, do Fundo Baobá, realizado em parceria com a B3 Social e a BRASA. Em 2024, ela foi selecionada na primeira edição do edital e  atualmente está morando e estudando em Xangai.  Fomos conferir como está sendo o dia a dia de transformações em sua vida. 

Como você soube  do edital Black Stem?  Que benefícios essa bolsa tem trazido para você? 

A bolsa do Black STEM foi para mim o alívio, o escape que eu precisava e foi o motivo de hoje eu estar estudando na NYU Xangai, estar inspirando outras pessoas e o motivo de  trazer a minha voz para esse lugar. Minha perspectiva, minha voz, minhas ideias,  porque sem essa bolsa, sem o benefício do Baobá eu não conseguiria viver aqui.  Xangai é uma cidade muito cara. A bolsa que eu recebi da universidade não cobria tudo, então eu tive que  ir atrás do que pudesse me ajudar. Foi quando o Baobá apareceu (fui parar nas inscrições por intermédio de um  amigo na África do Sul que viu). Eu conhecia o Baobá, mas por algum motivo eu não tinha visto as inscrições. Eu não tinha essa informação de que tinha inscrição para pessoas negras que queriam estudar no exterior. Ele, esse amigo querido, o Luís, de Recife, viu que eu tinha todo o perfil e disse que eu tinha que me aplicar para aquilo. Eu já conhecia o Fundo, toda a transparência e toda a cultura das coisas que eles estão fazendo para a comunidade negra. Eu me apliquei e passei e com muito orgulho estou trazendo a força da comunidade negra aqui para a Universidade de Nova York, na China. 

Quando, como e por que você decidiu pela NYU China? Por que um país tão distante e com cultura tão diferente da brasileira? 

É, para contar essa história eu acho que tenho que voltar um pouquinho no tempo. Sempre fui uma menina que nasceu na zona leste de São Paulo,  região de Itaquera,  onde fui criada. Estudei toda minha infância em escola pública do bairro. Mas já nessa época eu era muito inquieta, alguém que buscava muitos desafios e coisas novas. Comecei a me envolver com projetos sociais durante esse momento do ensino fundamental. Eu gostava muito de entender como a educação poderia ser uma chave de transformação na vida das pessoas. Com isso eu fui estudar no Instituto Federal de São Paulo. No Instituto Federal de São Paulo comecei a estudar tecnologia e me envolvi com diversas iniciativas interessantes. Mas essa inquietação,  esse desejo pelo novo, esse desejo por desafios e por algo que me tirasse dessa zona de conforto foi o fator decisivo quando estava pensando para onde eu iria estudar. Porque o maior sonho da minha vida era viajar para Nova York e  meu sonho era estudar na Universidade de Nova York. Consegui realizar esse sonho de conhecer Nova York antes de vir para a China. Porém, apesar de ser o meu maior sonho,  eu ainda sentia que não era exatamente esse lugar que queria morar. Apesar de não ser uma pessoa de fala nativa. uma estadunidense,  eu domino o inglês. Então,  eu achava que Nova York não seria tão desafiador. Aí,  quando eu vi a China, Xangai,  eu falei: esse é o lugar perfeito para mim.  É o lugar que vai me desafiar. O lugar que vai me tirar da zona de conforto todos os dias. Que vai me colocar para estar sempre atenta e sempre buscando novos desafios.  Estando no Brasil, você imagina que a  China tem uma cultura que é muito distante da nossa. Mas,  estando aqui hoje, eu posso falar pela perspectiva de alguém que está morando aqui há mais de 6 meses. Eu falo que a gente (Brasil e China) tem muita similaridade. Queria sair da zona de conforto. Todo dia aqui é um desafio novo. Eu  estou  aprendendo chinês, que é uma das línguas mais difíceis do mundo, mas eu acho que é nesses momentos que a gente consegue ser moldado como ser humano e é por isso que escolhi aqui. 

O estudo é puxado? Como é sua rotina de estudos? Qual a matéria que tem sido mais difícil?

É bastante puxado. Meu dia começa bem cedo, às 6 horas da manhã. Aí eu vou pra faculdade e tenho aula das 8h às 14h. Todas as semanas temos provas, provas e mais provas. E há outras atividades. Então, a agenda tem que ser muito organizada. Isso demanda ter que ser muito certinho. Como eu gosto, preciso e necessito estudar, mantenho tudo em ordem. Mas também gosto de cuidar do meu corpo, de fazer esportes. Então, vou  para a academia. Mas tudo é agendado. A matéria mais difícil para mim foi chinês. É uma língua muito difícil, tem caracteres. Fiz o milagre de aprender de uma forma muito rápida,  porque aqui a gente aprende de uma forma extremamente rápida. Em quatro meses eu aprendi o que uma pessoa aprende em  um ano. Está muito rápido o processo. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece entre colegas internacionais da New York University (NYU) Shanghai durante a celebração do Ano Novo Chinês. O grupo está sorridente, vestindo moletons roxos com o nome da universidade, e segura enfeites e cartazes vermelhos com mensagens de boas-vindas e prosperidade. A imagem foi registrada em um ambiente interno colorido e moderno, refletindo a diversidade e o espírito coletivo da turma de alunos na China.
Diovanna na China com a turma de alunos da New York University (NYU)

Você chegou em Xangai e logo já foi fazendo um “Perdida na China”, série de vídeos sobre seu dia a dia aí.  A ideia nasceu aqui no Brasil ou quando pisou em Xangai?

A questão do Perdida é muito interessante, porque está tendo um alcance muito bacana.  Então,  muitas pessoas estão conhecendo. Nos últimos vídeos que eu postei, tive mais de  380 mil visualizações. Então,  muita gente está conhecendo um pouco mais sobre a China. O intuito do Perdida na China é fazer um  quadro semanal de vídeos onde eu mostro a minha realidade. Quero informar as pessoas, porque vejo quanto a desinformação pode ser um fator perigoso. Como ela pode colocar as pessoas em lugares de ignorância. Então, pensei em como eu vou conectar as pessoas que estão lá no Brasil para que elas vejam que a China não é de outro mundo. A China é um país como qualquer outro,  com suas peculiaridades. É um país com diferenças e similaridades.  Então o Perdida é um espaço de afirmação para espalhar informação de qualidade,  informação de alguém que está vivendo aqui,  informação verdadeira sobre o que é a China. 

Por que o apelido de “Blogueira de Centavos”? 

É interessante porque eu coloco em todos os vídeos a legenda: Perdida na China, episódio “X”, que vai mostrar a saga dessa blogueira de centavos tentando conquistar seu diploma na NYU Xangai. Blogueira de Centavos  é uma brincadeira,  porque com certeza eu não sou uma blogueira. Não considero também que eu seja criadora de conteúdo. Mas é uma brincadeira que tem  na internet, pois quando você posta você está explorando esse mundo das mídias sociais, onde tudo é muito rápido. Então, Blogueira de Centavos sou eu tentando me adaptar a esse modelo mais instagramável, em que as pessoas gostam de coisas mais instantâneas, rápidas, mais miojo. 

Quando começou a crescer na cabeça daquela menina da Zona Leste o desejo de ir para outros países? Houve algum motivo ou alguém inspirador?

Essa pergunta é bem profunda. Eu gosto muito de falar de um lugar, que é o meu coração.  Gosto de falar das coisas que vêm do coração. Eu adoro falar de mim menina. Aquela criança que nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo, no fundão de Itaquera. Sempre fui uma criança inquieta, sonhadora, obstinada e dedicada. Fui criada pela minha avó, porque os meus pais trabalhavam. Eu os via com mais frequência nos finais de semana. Meu avô é um imigrante russo, que veio para o Brasil para trabalhar nas fazendas. Já a minha bisavó por parte de mãe era uma pessoa que vivia em situação de escravidão. Já a minha avó fazia esses trabalhos informais para as pessoas como empregada doméstica.  Meus pais tinham que trabalhar muito para que eu tivesse uma vida razoável. Lembro certa vez que  minha avó estava arrumando meu cabelo e ela disse uma das frases que muitos jovens negros ouvem: “Você sabe que está perdendo a corrida da vida, não sabe?” Eu era uma menina de uns 8 anos de idade e falei:  “Como assim?” Ela disse: “ É porque as pessoas que estão recebendo uma educação de melhor qualidade, os ricos, estão à frente de você. Estão a passos largos, muito mais na frente!”  Quando ela disse isso, eu passei a ver minha vida com uma corrida mesmo,  em que as pessoas que estavam melhor instruídas,  que tinham melhor educação, recebiam acesso a lugares que possivelmente poderiam potencializá-las mais. Elas poderiam acessar coisas diferentes. Então, eu  comecei a correr muito mais, a fazer muito mais. Ela, minha avó, além da minha mãe, foi esse motivo tão inspirador para me fazer estar aqui. Minha família sempre me apoiou muito em tudo, apesar das dificuldades financeiras. Eu tenho uma família que acreditou mesmo quando os sonhos eram muito grandes. Quando eu dizia: eu quero ir para Nova York,  nunca ninguém da minha família tinha tido um passaporte. Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira da minha família a aprender inglês e viajar para fora.   Minha família nem achava que inglês era necessário. Então, mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, ela me apoiou. 

Descreva sua chegada na NYU China e, se possível, o impacto que isso te causou. 

A minha chegada na NYU Xangai foi surpreendente, mas muito tranquila. Antes de eu vir para a China, estava morando na África do Sul, por conta de um programa de voluntariado que eu estava fazendo lá. Então eu passei um mês apenas pelo Brasil e vim para a China. Quando vim para cá, eu já estava acostumada com essa questão de não ter uma casa  fixa,  já estava acostumada a dividir um apartamento, dividir o quarto e essas coisas. Então, foi uma chegada muito tranquila. Tem sido muito desafiador aprender chinês, apesar de eu gostar muito de aprender línguas. Mas a cidade é incrível,  maravilhosa. A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe,  chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste,  na periferia e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus,  mas deles também. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece sorrindo em destaque na frente de um grupo de colegas estudantes da New York University (NYU) Shanghai. Usando moletons roxos com a identidade da universidade, a turma posa de forma descontraída em um corredor interno, com sinais de paz e alegria. A diversidade cultural do grupo e o ambiente universitário reforçam a experiência internacional de Diovanna na China.
Diovanna com a turma de alunos na China

As aulas são em inglês, certo? Onde, como ou com quem você aprendeu a língua?

Sim, as aulas são em inglês. Mas eu tenho que aprender também o chinês, pois tenho aulas separadas que são só em chinês. Mas as referentes ao meu curso são todas em inglês. É  muito interessante como eu aprendi inglês, mas eu preciso dar também um contexto. Eu vim de uma família que nunca entendeu qual era o propósito de falar inglês, não entendia qual é o propósito de aprender uma língua. Eu tive que implorar,  que pedir para minha mãe muitas vezes para que ela me colocasse num curso de inglês. Mas ela não conseguia entender qual era o propósito daquilo.  Eu sei que em outras famílias,  em outros contextos sociais no Brasil, você não precisa implorar para que um pai,  uma mãe pague um curso de inglês. Mas é que minha mãe e meu pai  não entendiam por que isso era necessário. Para que isso era bom? Com muito custo eu consegui convencer minha mãe a pagar. Eu fiz um curso de inglês particular, que ela pagou durante anos e também não gostava de pagar. 

Você cursa Ciência da Computação. O curso é de quantos anos? A divisão é por semestres, como aqui no Brasil?

Sim, eu curso Ciência da Computação, que é um curso de 4 anos e a divisão é por semestres, como no Brasil. A cada semestre eu pego algumas matérias. Nesse primeiro ano geralmente a gente faz matérias que a faculdade chama de core  (matérias que são fundamentais para a formação acadêmica do estudante), pois precisamos ter  o nível x de matemática e o nível y de escrita. Então,  eu tenho que pegar algumas matérias específicas para cumprir primeiro esses requerimentos e aí depois eu consigo pegar as matérias de outro curso. Mas as matérias de ciência da computação são mais voltadas para software,  programação  e dados. 

Você sempre aparece nos vídeos com amigos brasileiros e uma garota negra norte-americana. Quem são eles e como nasceu essa integração entre vocês aí na China? Qual a importância deles na sua vida hoje?

Existe claramente aqui uma diferenciação de culturas, mas  além da diferenciação existe a diversidade cultural, que dá a oportunidade de  ver pessoas do mundo inteiro falando línguas das mais diversas,  mais especiais e diferentes. A gente sabe que a questão racial  no Brasil é estruturada de uma forma e estruturada por outra nos Estados Unidos.  Mas as questões raciais sempre estiveram atreladas, histórica e antropologicamente, às questões de ordem  financeira, ao capital. Estudar em uma das universidades mais caras dos Estados Unidos e a mais cara da China faz a gente não ter muitas referências negras aqui. As pessoas negras que tem aqui são pessoas negras que talvez não se sintam pertencentes, porque são negros, mas cresceram como pessoas brancas ricas nos Estados Unidos. Aí eu encontro essa minha amiga, a Fortune, uma garota negra, e a  primeira vez que eu a vi eu sabia que queria ser muito amiga dela. A gente cresceu em culturas diferentes,  em países completamente diferentes, mas as nossas realidades são muito parecidas. Ela também tem um nível de conquistas muito grande, também tem bolsas e, como eu, está lutando aqui para se afirmar nesse espaço. Ela é muito importante nesse processo de aquilombamento, onde nos juntamos para falar de nossas dúvidas, dores, dificuldades, mas também falar das nossas alegrias de estar aqui. De termos chegado. Então, tenho essa amiga, a Fortune, outros brasileiros, muitos internacionais, mas há uma brasileira, a Clara, que foi crucial para mim. Ela tornou a minha chegada aqui na China tranquila.  A gente se considera uma família,  mas uma família longe da minha família, por  exemplo. 

Que mensagem você deixa para outros estudantes brasileiros que têm também o sonho de estudar no exterior? 

Eu penso sempre na palavra acreditar. E acreditar é um movimento de acreditar em si. De  ser o seu primeiro apoiador. De ser o seu primeiro fã. Eu tive apoio de familiares, de  amigos, mas a pessoa que mais acreditou em mim fui eu. Apostei muito em mim,  acreditei no meu potencial,  acreditei que iria mudar o jogo de um modo que inspirasse outras pessoas,  que trouxesse transformação social, que trouxesse diferenças. Então é muito importante que os estudantes acreditem que podem, que é possível!  

Você tem até o dia 30 de abril para se inscrever na segunda edição do edital Black Stem. Para ter mais informações, acesse este link: https://bit.ly/BS-2edicao. 

E quem se interessou por seguir os episódios do Perdida na China, que a Diovanna posta toda semana, siga ela no Instagram.

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

No próximo dia 25 de novembro, milhares de mulheres negras vão se reunir para marcharem por Reparação Histórica e Bem Viver, em Brasília – DF. Marcham por uma exigência de políticas e medidas concretas que enfrentem as desigualdades raciais e sociais, que assegurem oportunidades reais para a população negra, que garantam o direito de sonhar e realizar, de envelhecer com dignidade, de acessar uma educação de qualidade, de se alimentar bem, e de ter acesso à saúde integral.

E pelo Bem Viver que representa uma proposta de organização política e social que rompe com o modelo individualista, explorador e desenvolvimentista centrado no capital, ou seja que proponha uma organização coletiva para a ascensão das mulheres negras na sociedade em todas as regiões do Brasil.

Mulheres negras sorrindo em círculo, vistas de baixo para cima, reunidas em Recife para o planejamento do Março de Lutas em preparação para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Mulheres negras reunidas para o planejamento do Março de Lutas em Recife (PE)

Com o objetivo principal de denunciar as diversas formas de opressão que atingem de maneira potencializada as mulheres negras, o movimento coletivo do Março de Lutas foi criado em 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e é construído pela Articulação de Organizações Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede de Mulheres negras do Nordeste.

A 7ª edição reforça uma agenda coletiva dos movimentos de mulheres negras, promovendo reflexões sobre o combate ao racismo e ao patriarcado, além de propor um novo olhar sobre o 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Mulher.

Grupo de mulheres negras sorrindo e vestindo roupas coloridas e estampadas com a campanha "Prevenção é Afeto", durante mobilização do 8M em Goiás, fortalecendo a construção da Marcha das Mulheres Negras 2025
8 de Março em Goiás

Durante o mês de março foram realizadas 167 atividades, de 83 organizações, grupos e coletivos, em 19 estados, nas 5 regiões do Brasil. Foram rodas de conversa, oficinas, festivais, seminários e outras ações que são o fio condutor desta mobilização. Todas essas atividades têm por meta  alcançar o número histórico de 1 milhão de mulheres negras nas ruas da capital federal. Costurando experiências, saberes e resistências por todo o país, este ano, o chamado ganha ainda mais potência, direcionando os passos rumo à marcha.

Mulheres dos centros e dos quilombos; das universidades e das escolas primárias; atletas; artistas; profissionais da educação e da comunicação; engenheiras; cientistas; motoristas de aplicativos; agricultoras; donas de casa; empreendedoras; trabalhadoras do campo e da cidade; cristãs e candomblecistas; religiosas ou não; entre outras. 

Mulheres negras reunidas em círculo sob árvores, em uma roda de conversa no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO), como parte das articulações para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Reunião de mulheres negras no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO)

Para Maria Conceição Costa, a Ceça, uma das integrantes da Coordenação Nacional do Comitê impulsor da Marcha das Mulheres Negras, a marcha cumpriu o seu papel em 2015 como um impulsionador para a organização dessas mulheres. Após a marcha houve um fortalecimento significativo das mulheres do Nordeste, ainda que tenham relatos de ocorrências de opressão durante a marcha.

Mulheres negras seguram faixa da Marcha das Mulheres Negras 2025 durante o carnaval de São Luís (MA), reafirmando a luta por reparação histórica e bem viver em meio à celebração popular.
 Mulheres negras presentes no carnaval de São Luís (MA)

“É importante fortalecer não só as capitais para 2025, mas um número maior de cidades e os interiores Brasil afora, pois a realidade das mulheres negras ainda é muito crítica. São elas as que mais morrem pela ausência de saúde, são as que mais choram pelos seus filhos assassinados pela violência do estado, são as mais perseguidas por conta da sua fé, das suas guias, e as que mais sofrem violência obstétrica”, afirma Ceça.

Para mais informações sobre a Marcha das Mulheres Negras 2025, acesse o Instagram da Marcha das Mulheres Negras.

Participantes da primeira Marcha das Mulheres Negras esperam edição histórica em 2025 

Para 2025, são esperadas um milhão delas, lotando as ruas de Brasília na segunda edição da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

Novembro de 2025 pode entrar para a história como o mês do protagonismo das mulheres negras no Brasil. São esperadas um milhão delas, lotando as ruas de Brasília na segunda edição da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

A primeira edição aconteceu em novembro de 2015, também na capital do país. Uma década mais tarde, o evento busca representatividade internacional, com a presença de países da América Latina, África e Caribe.

A Marcha das Mulheres Negras será uma grande reivindicação por direitos inegociáveis, que já deveriam ter sido garantidos há séculos às mulheres negras. São questões fundamentais da dignidade humana, como a garantia de direitos econômicos e sociais, o combate à violência, a promoção da igualdade racial, a valorização dos saberes da cultura afro-brasileira e o acesso pleno à saúde e à educação, entre outros.

Maria das Dores Almeida, a Durica, faz parte do Instituto de Mulheres Negras do Amapá (Imena) e integra a Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB). Ela participou da primeira Marcha em 2015 e define a importância do que a segunda edição pretende alcançar:

“Participar da Marcha significa fazer parte de um dos momentos mais importantes da história do Brasil, principalmente porque nós estamos lutando por um novo projeto político de nação”, diz.

O que Durica enaltece é reafirmado por Durvalina Rodrigues, integrante da Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba:

“Quando a gente fala de reparação e bem viver, a gente tá querendo um novo modelo de sociedade que nos reconheça e nos coloque no lugar devido – e não em um lugar de marginalização, de subalternização, de negação da nossa resistência e do nosso direito”, afirma.

Um movimento plural por respeito e justiça

A Marcha das Mulheres Negras é um movimento fundamental de luta, com uma capacidade ímpar de articulação. Os 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, estão representados em sua organização.

Outro aspecto essencial é a diversidade de interseccionalidades que unem essas mulheres. Elas são da cidade, do campo, quilombolas, ribeirinhas, acadêmicas, trabalhadoras de todas as faixas etárias – todas com o mesmo objetivo: respeito e justiça.

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o estado do Pará possui a quarta maior população quilombola do Brasil, com cerca de 135 mil pessoas. Uma de suas lideranças é Valéria Carneiro, integrante da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos – Malungu.

Valéria tem desempenhado um papel fundamental na articulação da Marcha das Mulheres Negras e afirma:

“A Marcha significa afirmar a luta contra o racismo, o feminicídio e toda forma de preconceito e negação de direitos que esse país nos deve. Além disso, a nossa história será contada por nós. Sabemos que temos um 2025 desafiador, principalmente por ser o ano da COP30 no Brasil. Financiamento climático é um dos temas debatidos por mulheres negras, assim como estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Falar sobre justiça ambiental é garantir o direito à terra e ao território”.

A Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba tem uma conexão direta com o Fundo Baobá em dois momentos. O primeiro é sua participação no Programa Marielle Franco, instituído pelo Baobá em 2019, quando foi selecionada pelo trabalho que desenvolve na defesa dos direitos das mulheres e no combate à violência de gênero. 

A segunda ligação está na própria Marcha das Mulheres Negras, já que o Fundo Baobá é o maior doador financeiro do evento, destinando R$ 1,25 milhão para sua realização.

Embora a Marcha seja protagonizada por mulheres, os homens também podem contribuir com a mobilização.

“Os homens podem contribuir financeiramente com a Marcha, divulgá-la, incentivar mulheres negras da sua família, da sua vizinhança e colegas de trabalho a também participarem da manifestação”, destaca Maria das Dores Almeida, a Durica, do Imena.

Saiba como participar da Marcha das Mulheres Negras neste link. 

Fundo Baobá doa R$ 1,25 milhão para a Marcha das Mulheres Negras 2025

Marcha das Mulheres Negras 2025

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver espera reunir um milhão de mulheres negras em Brasília (DF), no dia 25 de novembro de 2025. Esse ato político-social receberá um investimento histórico de R$ 1,25 milhão do Baobá – Fundo para Equidade Racial, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.

O anúncio foi feito no início de dezembro, durante o Encontro Regional de Mulheres Negras do Nordeste, realizado em Recife (PE). Na ocasião, Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Baobá, reafirmou o compromisso da organização com a luta das mulheres negras e a mobilização nacional, e destacou:

“Estamos articulando e contribuindo com as diversas frentes envolvidas nesse processo, apoiando tanto a mobilização local quanto a coordenação nacional, com um foco especial nas mulheres quilombolas, que têm um papel central nesta caminhada. Este é um esforço coletivo, com a confiança de que as mulheres negras terão voz ativa em cada etapa do processo até a grande Marcha.”

Apoio financeiro e divisão do investimento

O aporte de R$ 1,25 milhão será distribuído da seguinte forma:

✅ R$ 350 mil – Comitê Nacional para garantir a presença de mulheres na marcha
✅ R$ 25 mil por estado – Destinados à mobilização em todas as 27 unidades federativas
✅ R$ 225 mil – Exclusivamente para a articulação de mulheres quilombolas.

Segundo Fernanda Lopes, Diretora de Programas do Fundo Baobá, esse apoio está alinhado às prioridades da organização, que incluem fortalecer a memória e história da população negra, gerar renda e combater o racismo e o sexismo.

Por que a Marcha das Mulheres Negras é fundamental?

Embora representem 28% da população brasileira, mulheres negras enfrentam os piores índices sociais. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública:

👉🏾 63,9% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras
👉🏾 61,6% das vítimas de estupro têm até 13 anos e 52,2% são negras

Apesar dos desafios estruturais, são elas que estão na linha de frente da luta por justiça social e direitos humanos, enfrentando diretamente a violência do sistema carcerário, a criminalização das populações negras e periféricas e as violações de direitos promovidas pelo Estado.

Sua atuação é essencial em movimentos por moradia digna, saúde, educação e segurança alimentar, além da defesa dos direitos territoriais de comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais. Também desempenham um papel fundamental no fortalecimento da memória e da identidade da população negra, garantindo que suas histórias e contribuições para a sociedade brasileira sejam reconhecidas e valorizadas.

História da Marcha das Mulheres Negras

A Marcha das Mulheres Negras teve sua primeira edição em 2015, reunindo 100 mil mulheres em Brasília. O evento foi resultado de quatro anos de mobilização, iniciados em 2011, com ações em diversos estados e a formação de comitês estaduais e municipais. Esse processo fortaleceu a identidade política das mulheres negras, ampliou sua participação na esfera pública e impulsionou o crescimento de organizações femininas negras.

Um dos grandes marcos dessa mobilização foi a Carta das Mulheres Negras, documento entregue à Presidência da República e à sociedade brasileira. Nele, foram apresentados dados sobre desigualdade racial e de gênero, além de propostas para um novo pacto civilizatório baseado no conceito de Bem Viver. O documento abrange demandas por direitos urbanos, segurança pública, justiça ambiental, seguridade social, educação, cultura e outras pautas essenciais.

Desde então, as mulheres negras seguem “em marcha”, reforçando suas lutas por justiça e reparação histórica. Para a próxima edição, a expectativa é mobilizar 1 milhão de mulheres na capital federal, consolidando seu protagonismo na luta contra o racismo, o feminicídio, o genocídio da população negra e a negação dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver conta com 11 organizações em seu Comitê Nacional e se baseia em dois pilares fundamentais:

✊🏿 Bem Viver – Um modelo de sociedade que valoriza justiça social, equidade e cuidado coletivo, priorizando o bem comum em vez do individualismo. Defende a diversidade cultural, a autonomia das comunidades e uma gestão descentralizada.

✊🏿 Reparação Histórica – Uma luta por reconhecimento e justiça, exigindo reparação pelos danos da escravidão e do colonialismo. O foco está na restituição de direitos sobre o corpo, a cultura, a terra e a autonomia dos povos negros e indígenas.

A Marcha reafirma o compromisso das mulheres negras com a construção de um Brasil mais justo, igualitário e antirracista, fortalecendo redes locais, nacionais e internacionais de articulação feminista e política.

Fundo Baobá e o compromisso com a equidade racial

Sueli Carneiro, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, destaca a relevância desse apoio:

“O Fundo Baobá foi criado com a ambição de ser um vetor fundamental para o fortalecimento da agenda racial no Brasil. Este apoio à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reflete nosso compromisso em tornar essa causa uma realidade concreta, reafirmando a necessidade da presença efetiva das mulheres negras nas decisões políticas e sociais. Investir nesse movimento é, para nós, uma ação estratégica rumo à justiça social.”

Além do suporte financeiro, o Fundo Baobá mobiliza outros atores da sociedade civil, ampliando a força da Marcha e garantindo sua realização em 2025.

O apoio à Marcha das Mulheres Negras 2025 representa um avanço significativo na luta por equidade racial, direitos humanos e justiça social. Com esse investimento, a organização reafirma seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.

📢 Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Como o Fundo Baobá impulsiona a equidade racial no Brasil?

Como o Fundo Baobá impulsiona a Equidade Racial e Social no Brasil?

A economia global enfrenta desafios complexos, como inflação e crises que afetam tanto economias maduras quanto aquelas em expansão. No Brasil, os entraves para o crescimento sustentável estão profundamente ligados às desigualdades sociais, impactando diretamente a população negra, que representa cerca de 56,5% dos brasileiros. A história do país, marcada pelo regime escravocrata, ainda reverbera em desigualdades estruturais persistentes.

A importância do investimento em iniciativas locais

A população negra no Brasil não é homogênea. As condições socioeconômicas e territoriais variam amplamente, exigindo soluções adaptadas a cada realidade. Nesse cenário, é essencial investir em quem está na linha de frente, lidando diretamente com os desafios locais. O Fundo Baobá, criado com essa missão, possui uma capilaridade que o coloca como um agente estratégico no fortalecimento de pessoas e organizações negras, promovendo transformações sociais efetivas.

Apoiar iniciativas locais e o desenvolvimento de pessoas negras é fundamental para a mudança, mas não pode ser uma ação isolada. O investimento social privado e a filantropia negra desempenham um papel fundamental na promoção da equidade racial e na reparação histórica. Empresas que adotam estratégias de impacto social ampliam significativamente suas contribuições para um Brasil mais justo e sustentável.

Equidade, democracia e desenvolvimento sustentável

Para avançar como nação, o Brasil precisa enfrentar desafios interligados: consolidar a democracia, promover a equidade racial e combater as mudanças climáticas. No campo da equidade, é urgente combater práticas discriminatórias e garantir a implementação de políticas eficazes que promovam a inclusão da população negra em diversos setores.

Embora as contribuições históricas da população negra estejam ganhando visibilidade, ainda existem barreiras significativas para seu progresso. A falta de acesso a oportunidades no mercado de trabalho, as desigualdades educacionais e de saúde, e a ausência de políticas públicas voltadas à preservação da cultura afro-brasileira são desafios persistentes.

A Atuação do Fundo Baobá

Desde sua criação em 2011, o Baobá – Fundo para Equidade Racial tem sido um protagonista na promoção da equidade racial no Brasil. Por meio de editais e programas, investe em desenvolvimento econômico, educação, dignidade, comunicação e memória, fortalecendo pessoas e organizações negras em todo o país.

Programas de Impacto do Baobá

O Fundo Baobá impulsiona iniciativas transformadoras por meio de programas como:

  • Já É – capacita jovens negros para ingresso no ensino superior; 
  • Carreiras em Movimento – desenvolve competências técnicas e socioemocionais para profissionais negros em início de carreira;
  • BlackSTEM – apoia a permanência de estudantes negros em universidades internacionais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharias e matemática.

Esses programas são essenciais para romper barreiras e ampliar a presença negra em setores estratégicos, promovendo inclusão e igualdade de oportunidades.

Entre as iniciativas futuras, o Fundo Baobá planeja a reedição do Programa Marielle Franco, voltado ao fortalecimento de lideranças femininas negras em diferentes esferas, como política, movimentos sociais e educação. Essa nova edição promete ser um marco na luta por equidade racial e de gênero, formando uma rede de mulheres capacitadas para liderar transformações sociais profundas

Compromisso com a equidade racial

O Baobá – Fundo para Equidade Racial conecta histórias e ações concretas para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro melhor. Com estratégias bem estruturadas, atua para fomentar a participação de pessoas negras nas decisões que impactam o país. Apoiar essa causa é investir em equidade e justiça social.