Eric Ribeiro: da curiosidade infantil aos sonhos aeroespaciais

Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.

Na fotografia, Eric Ribeiro que atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM, é
um homem negro jovem aparece sorrindo enquanto fala ao microfone. Ele usa óculos de armação redonda, camisa branca e calça em tom verde oliva. Sobre os ombros, está com um suéter bege, criando um visual elegante e descontraído. Ele está sentado em uma cadeira branca, participando de um painel ou mesa de conversa em ambiente institucional, com fundo azul e telão ao fundo. Sua expressão transmite entusiasmo e segurança, em um momento de partilha e escuta ativa.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.

“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.

Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.

O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.

Nova edição do programa amplia oportunidades

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:

“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.

A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.

Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:

“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.

Para mais informações sobre a segunda edição do Black STEM, acesse:
https://bit.ly/BS-2edicao 

A força coletiva que mobiliza a Marcha das Mulheres Negras desde 2015

A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.

Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.

Na fotografia, vemos Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras. uma mulher negra em pé, sorridente, com os cabelos trançados e presos com um detalhe vermelho. Ela veste uma regata estampada com a imagem de uma figura feminina negra em trajes tradicionais e com uma espada em punho, além de um short branco com bordados. Ao fundo, há um mural artístico em tons de preto e branco, com traços que remetem a elementos culturais e figuras humanas. A expressão da mulher transmite confiança e serenidade, em um ambiente que valoriza a identidade afro-brasileira.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. 

O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).

A Marcha como processo político e social de longo prazo

A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.

Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência. 

Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.

Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.

“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.

Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.

Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.

Para mais informações sobre a Marcha, acesse: https://marchadasmulheresnegras.com.br 

Edital Educação e Identidades Negras provoca transformações significativas nas organizações apoiadas

O edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial foi encerrado com um saldo bastante positivo. Após dois anos de vigência, ele resultou em um impacto de transformação para as 12 organizações que receberam, cada uma, R$ 175 mil para implementar seus projetos. 

As transformações foram possíveis tanto pelo apoio financeiro quanto pelo suporte técnico oferecido nas oficinas organizadas pelo Fundo Baobá. As organizações tiveram acesso a recursos para aquisição de equipamentos e capacitação em gestão, o que gerou aumento da visibilidade de cada uma delas, além do fortalecimento institucional.

Ações antirracistas e fortalecimento institucional

Uma característica comum entre as organizações participantes do processo seletivo foi o desenvolvimento de estratégias para enfrentar o racismo em instituições educacionais — formais e não formais — e promover maior representação de pessoas negras nos espaços de decisão na educação. 

Das 12 organizações apoiadas, 9 nunca haviam recebido qualquer tipo de financiamento para seus projetos. Isso reflete a missão do Fundo Baobá, que realiza uma busca ativa por organizações que atuam em territórios desassistidos.

O papel do Fundo Baobá na descentralização de recursos

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, analisa esse cenário:

“Algumas das organizações apoiadas atuam na luta antirracista há uma ou duas décadas e, ainda assim, não haviam acessado recursos da filantropia. Alcançá-las com bons critérios de seleção é um indicador de sucesso. Aos poucos, estamos chegando a organizações de diferentes regiões do país, saindo das capitais dos estados. Descentralizar o acesso aos recursos financeiros e ampliar o acesso às assessorias técnicas que contribuam com o fortalecimento das lideranças, organizações, grupos e coletivos negros é parte da nossa missão”, afirma.

Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá, que é uma mulher negra, com cabelos longos em dreadlocks e óculos de armação clara, sorri enquanto participa de uma conversa em ambiente interno iluminado. Ela veste uma blusa preta sem mangas e calça com estampa colorida. Está sentada em uma cadeira de escritório bege, com postura aberta e expressiva, demonstrando atenção e receptividade. Ao fundo, vê-se uma parede clara e uma planta em vaso, o que reforça o clima acolhedor do espaço. Simulando a fala sobre  edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial
Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá. Crédito: Thalita Novais 

Um dos critérios para seleção das organizações era a atuação na promoção efetiva do que determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Essas legislações tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas, modificando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apesar da determinação legal, muitas instituições de ensino — tanto públicas quanto privadas — ainda a ignoram, uma realidade que precisa ser transformada.

“As organizações apoiadas no edital contribuíram para reduzir o desconhecimento, subsidiar e cobrar a implementação. Promoveram diálogos que, na maioria das vezes, são incomuns, envolvendo movimento social e unidades formais de educação básica ou universitária. Ver os resultados e saber que mais de 15 mil pessoas tiveram acesso a conteúdos anteriormente vetados em função do racismo é um bom indicador de que estamos no caminho certo de investimento”, completa Fernanda Lopes.

Afoxé Omô Nilê Ogunjá: cultura, autonomia e educação

O edital apoiou organizações, coletivos e grupos negros de nove estados brasileiros. Uma delas foi o Afoxé Omô Nilê Ogunjá, uma associação cultural de tradição afro-brasileira da cidade de Recife, em Pernambuco. Assim como as demais, o Afoxé enfrentou desafios relacionados à gestão de projetos e à prestação de contas. Mas as dificuldades apenas reforçaram o desenvolvimento das habilidades nessas áreas, contribuindo para a autonomia operacional da associação.

Com essa autonomia consolidada, o Afoxé Omô Nilê Ogunjá estabeleceu parcerias para difundir, entre estudantes e educadores da Educação Básica ao Ensino Superior, conhecimentos importantes sobre a cultura afro-brasileira e a história do Brasil, por meio da dança, da música e dos saberes ancestrais.

“Firmamos parcerias com instituições de ensino acadêmico, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com instituições de educação básica, que são o nosso público-alvo, o nosso grande público. Firmamos também parcerias com quatro escolas do bairro do Ibura, escolas públicas e uma escola de capital misto. Trabalhamos, através da Lei 10.639, aspectos da cultura e identidade afro-brasileira, passando pela questão da educação etnicorracial. Tivemos formações para professores, atividades com estudantes e levantamentos diagnósticos”, relata Manoel Neto, representante da organização pernambucana.

Manoel Neto é um homem negro, com barba cheia e cabelo raspado, veste uma camisa clara de linho com o primeiro botão aberto. Ele usa óculos de armação redonda e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, vê-se um mural colorido com figuras humanas e elementos da cultura afro-brasileira, trazendo um ar vibrante e artístico à composição. A iluminação suave valoriza a expressão serena e confiante do retratado. Ele é representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá
Manoel Neto, representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá.

Ele também destaca o salto de qualidade obtido com o apoio técnico do Fundo Baobá: “Foi um ganho muito grande para a nossa instituição. Nós tivemos muitas mudanças corroboradas por esse processo de participação no edital. Passamos a ter um planejamento mais institucional. A elaboração desse planejamento, realizada durante a parceria com o Fundo Baobá, foi muito importante para definir os horizontes que agora estamos trilhando — e que são os que gostaríamos de trilhar. Foi importante para definir onde vamos chegar e aonde queremos chegar. Foi importante, inclusive, para conseguirmos uma parceria com uma nova instituição. Conseguimos um financiamento para 2025 de R$ 300 mil para dar continuidade às ações e garantir a permanência das atividades”, conclui.

Parceria com Imaginable Futures e Fundação Lemann

O Fundo Baobá para Equidade Racial contou com apoio financeiro das instituições Imaginable Futures e Fundação Lemann para a realização do edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial, que teve um aporte de aproximadamente R$ 2,5 milhões e resultou no apoio a 12 organizações.

A Imaginable Futures participou, pela primeira vez, de uma iniciativa dedicada exclusivamente a organizações negras e reconhece a importância dessa participação:

“Historicamente, organizações negras têm acumulado experiências valorosas que as colocam em um lugar central para propor práticas e políticas públicas para promover a equidade no ensino e melhorar a qualidade da educação. No entanto, elas enfrentam desafios para acessar recursos e recebem apenas uma pequena parcela do capital filantrópico no Brasil. Em razão dessa assimetria, temos nos juntado a iniciativas que destinam recursos para essas organizações. A iniciativa com o Baobá foi uma experiência inaugural e transformadora para a Imaginable Futures — não apenas pela legitimidade que o Baobá já tem no campo, mas porque nos permitiu aprender e evoluir enquanto organização. Foi uma parceria de muita aprendizagem, que fortaleceu a nossa estratégia e nos ajudou a melhorar a forma como atuamos em prol da equidade racial na educação”, diz Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures, pessoa negra, com cabelo volumoso em estilo afro e barba bem cuidada, sorri enquanto olha para o lado, transmitindo leveza e naturalidade. Usa óculos de armação arredondada e brinco geométrico pendente, além de uma camiseta sem mangas em tom terroso. O fundo neutro e levemente desfocado valoriza sua presença e expressão, em uma composição simples e elegante.
Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Como apoiar o Fundo Baobá

Para contribuir com ações transformadoras como essa, acesse o site do Fundo Baobá e faça sua doação.

Para saber mais sobre o edital Educação e Identidades Negras, clique aqui.

Diovanna Negeski, selecionada da 1º edição do Black STEM, compartilha sua jornada direto de Xangai

Diovanna Negeski, selecionada na primeira edição do Black Stem, fala de sua vida como estudante na China

Xangai, na China, uma das cidades mais populosas do mundo. Com quase 27 milhões de pessoas, é um poderoso centro financeiro, econômico, tecnológico e educacional. Por ser considerada uma esquina do mundo, assim como Nova York, Paris e Tóquio, foi lá que a New York University (NYU) decidiu, em 2011, ter um polo de educação fora dos Estados Unidos. Em 2019 iniciou a construção do seu moderno campus e o concluiu em 2022, objetivando receber 4 mil alunos vindos de todas as partes do mundo. 

Diovanna Negeski, jovem de pele clara e cabelos cacheados escuros, aparece sorrindo levemente, vestindo um look branco sem mangas e usando um crachá com a identidade visual do edital Black STEM. Ela está em pé, com o braço apoiado em uma superfície, em um ambiente interno iluminado. A foto foi registrada nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do programa Black STEM, momento que marca o início de sua jornada internacional acadêmica.
Diovanna Negeski nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do edital Black Stem. Crédito: Thalita Novais 

Um desses 4 mil alunos é Diovanna Negeski, uma brasileira negra que cresceu, como ela própria diz, no fundão da zona leste, no bairro de Itaquera, hoje conhecido em todo o Brasil por abrigar o estádio do Corinthians, também chamado de  Itaquerão.

Bairro de classe média baixa, composto por famílias de trabalhadores, ele é o palco da infância de Diovanna, que foi sendo cuidada por sua avó, já que seus pais tinham que trabalhar para dar uma vida mais confortável à filha. A avó também se virava como podia, fazendo serviços domésticos nas casas da região. 

Querendo que Diovanna  tivesse um futuro diferente dos demais da casa, a avó um dia disse a ela que a condição social da menina a estava fazendo perder a luta para a vida. Motivo: as pessoas mais abastadas tinham acesso a um estudo melhor e a cada dia ganhavam mais distância dela em termos escolares.

Aquilo despertou na itaquerense o desejo de brigar por espaço nos melhores bancos escolares. Esse desejo levou Diovanna a avançar nos estudos e, posteriormente, se inscrever no edital Black Stem, do Fundo Baobá, realizado em parceria com a B3 Social e a BRASA. Em 2024, ela foi selecionada na primeira edição do edital e  atualmente está morando e estudando em Xangai.  Fomos conferir como está sendo o dia a dia de transformações em sua vida. 

Como você soube  do edital Black Stem?  Que benefícios essa bolsa tem trazido para você? 

A bolsa do Black STEM foi para mim o alívio, o escape que eu precisava e foi o motivo de hoje eu estar estudando na NYU Xangai, estar inspirando outras pessoas e o motivo de  trazer a minha voz para esse lugar. Minha perspectiva, minha voz, minhas ideias,  porque sem essa bolsa, sem o benefício do Baobá eu não conseguiria viver aqui.  Xangai é uma cidade muito cara. A bolsa que eu recebi da universidade não cobria tudo, então eu tive que  ir atrás do que pudesse me ajudar. Foi quando o Baobá apareceu (fui parar nas inscrições por intermédio de um  amigo na África do Sul que viu). Eu conhecia o Baobá, mas por algum motivo eu não tinha visto as inscrições. Eu não tinha essa informação de que tinha inscrição para pessoas negras que queriam estudar no exterior. Ele, esse amigo querido, o Luís, de Recife, viu que eu tinha todo o perfil e disse que eu tinha que me aplicar para aquilo. Eu já conhecia o Fundo, toda a transparência e toda a cultura das coisas que eles estão fazendo para a comunidade negra. Eu me apliquei e passei e com muito orgulho estou trazendo a força da comunidade negra aqui para a Universidade de Nova York, na China. 

Quando, como e por que você decidiu pela NYU China? Por que um país tão distante e com cultura tão diferente da brasileira? 

É, para contar essa história eu acho que tenho que voltar um pouquinho no tempo. Sempre fui uma menina que nasceu na zona leste de São Paulo,  região de Itaquera,  onde fui criada. Estudei toda minha infância em escola pública do bairro. Mas já nessa época eu era muito inquieta, alguém que buscava muitos desafios e coisas novas. Comecei a me envolver com projetos sociais durante esse momento do ensino fundamental. Eu gostava muito de entender como a educação poderia ser uma chave de transformação na vida das pessoas. Com isso eu fui estudar no Instituto Federal de São Paulo. No Instituto Federal de São Paulo comecei a estudar tecnologia e me envolvi com diversas iniciativas interessantes. Mas essa inquietação,  esse desejo pelo novo, esse desejo por desafios e por algo que me tirasse dessa zona de conforto foi o fator decisivo quando estava pensando para onde eu iria estudar. Porque o maior sonho da minha vida era viajar para Nova York e  meu sonho era estudar na Universidade de Nova York. Consegui realizar esse sonho de conhecer Nova York antes de vir para a China. Porém, apesar de ser o meu maior sonho,  eu ainda sentia que não era exatamente esse lugar que queria morar. Apesar de não ser uma pessoa de fala nativa. uma estadunidense,  eu domino o inglês. Então,  eu achava que Nova York não seria tão desafiador. Aí,  quando eu vi a China, Xangai,  eu falei: esse é o lugar perfeito para mim.  É o lugar que vai me desafiar. O lugar que vai me tirar da zona de conforto todos os dias. Que vai me colocar para estar sempre atenta e sempre buscando novos desafios.  Estando no Brasil, você imagina que a  China tem uma cultura que é muito distante da nossa. Mas,  estando aqui hoje, eu posso falar pela perspectiva de alguém que está morando aqui há mais de 6 meses. Eu falo que a gente (Brasil e China) tem muita similaridade. Queria sair da zona de conforto. Todo dia aqui é um desafio novo. Eu  estou  aprendendo chinês, que é uma das línguas mais difíceis do mundo, mas eu acho que é nesses momentos que a gente consegue ser moldado como ser humano e é por isso que escolhi aqui. 

O estudo é puxado? Como é sua rotina de estudos? Qual a matéria que tem sido mais difícil?

É bastante puxado. Meu dia começa bem cedo, às 6 horas da manhã. Aí eu vou pra faculdade e tenho aula das 8h às 14h. Todas as semanas temos provas, provas e mais provas. E há outras atividades. Então, a agenda tem que ser muito organizada. Isso demanda ter que ser muito certinho. Como eu gosto, preciso e necessito estudar, mantenho tudo em ordem. Mas também gosto de cuidar do meu corpo, de fazer esportes. Então, vou  para a academia. Mas tudo é agendado. A matéria mais difícil para mim foi chinês. É uma língua muito difícil, tem caracteres. Fiz o milagre de aprender de uma forma muito rápida,  porque aqui a gente aprende de uma forma extremamente rápida. Em quatro meses eu aprendi o que uma pessoa aprende em  um ano. Está muito rápido o processo. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece entre colegas internacionais da New York University (NYU) Shanghai durante a celebração do Ano Novo Chinês. O grupo está sorridente, vestindo moletons roxos com o nome da universidade, e segura enfeites e cartazes vermelhos com mensagens de boas-vindas e prosperidade. A imagem foi registrada em um ambiente interno colorido e moderno, refletindo a diversidade e o espírito coletivo da turma de alunos na China.
Diovanna na China com a turma de alunos da New York University (NYU)

Você chegou em Xangai e logo já foi fazendo um “Perdida na China”, série de vídeos sobre seu dia a dia aí.  A ideia nasceu aqui no Brasil ou quando pisou em Xangai?

A questão do Perdida é muito interessante, porque está tendo um alcance muito bacana.  Então,  muitas pessoas estão conhecendo. Nos últimos vídeos que eu postei, tive mais de  380 mil visualizações. Então,  muita gente está conhecendo um pouco mais sobre a China. O intuito do Perdida na China é fazer um  quadro semanal de vídeos onde eu mostro a minha realidade. Quero informar as pessoas, porque vejo quanto a desinformação pode ser um fator perigoso. Como ela pode colocar as pessoas em lugares de ignorância. Então, pensei em como eu vou conectar as pessoas que estão lá no Brasil para que elas vejam que a China não é de outro mundo. A China é um país como qualquer outro,  com suas peculiaridades. É um país com diferenças e similaridades.  Então o Perdida é um espaço de afirmação para espalhar informação de qualidade,  informação de alguém que está vivendo aqui,  informação verdadeira sobre o que é a China. 

Por que o apelido de “Blogueira de Centavos”? 

É interessante porque eu coloco em todos os vídeos a legenda: Perdida na China, episódio “X”, que vai mostrar a saga dessa blogueira de centavos tentando conquistar seu diploma na NYU Xangai. Blogueira de Centavos  é uma brincadeira,  porque com certeza eu não sou uma blogueira. Não considero também que eu seja criadora de conteúdo. Mas é uma brincadeira que tem  na internet, pois quando você posta você está explorando esse mundo das mídias sociais, onde tudo é muito rápido. Então, Blogueira de Centavos sou eu tentando me adaptar a esse modelo mais instagramável, em que as pessoas gostam de coisas mais instantâneas, rápidas, mais miojo. 

Quando começou a crescer na cabeça daquela menina da Zona Leste o desejo de ir para outros países? Houve algum motivo ou alguém inspirador?

Essa pergunta é bem profunda. Eu gosto muito de falar de um lugar, que é o meu coração.  Gosto de falar das coisas que vêm do coração. Eu adoro falar de mim menina. Aquela criança que nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo, no fundão de Itaquera. Sempre fui uma criança inquieta, sonhadora, obstinada e dedicada. Fui criada pela minha avó, porque os meus pais trabalhavam. Eu os via com mais frequência nos finais de semana. Meu avô é um imigrante russo, que veio para o Brasil para trabalhar nas fazendas. Já a minha bisavó por parte de mãe era uma pessoa que vivia em situação de escravidão. Já a minha avó fazia esses trabalhos informais para as pessoas como empregada doméstica.  Meus pais tinham que trabalhar muito para que eu tivesse uma vida razoável. Lembro certa vez que  minha avó estava arrumando meu cabelo e ela disse uma das frases que muitos jovens negros ouvem: “Você sabe que está perdendo a corrida da vida, não sabe?” Eu era uma menina de uns 8 anos de idade e falei:  “Como assim?” Ela disse: “ É porque as pessoas que estão recebendo uma educação de melhor qualidade, os ricos, estão à frente de você. Estão a passos largos, muito mais na frente!”  Quando ela disse isso, eu passei a ver minha vida com uma corrida mesmo,  em que as pessoas que estavam melhor instruídas,  que tinham melhor educação, recebiam acesso a lugares que possivelmente poderiam potencializá-las mais. Elas poderiam acessar coisas diferentes. Então, eu  comecei a correr muito mais, a fazer muito mais. Ela, minha avó, além da minha mãe, foi esse motivo tão inspirador para me fazer estar aqui. Minha família sempre me apoiou muito em tudo, apesar das dificuldades financeiras. Eu tenho uma família que acreditou mesmo quando os sonhos eram muito grandes. Quando eu dizia: eu quero ir para Nova York,  nunca ninguém da minha família tinha tido um passaporte. Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira da minha família a aprender inglês e viajar para fora.   Minha família nem achava que inglês era necessário. Então, mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, ela me apoiou. 

Descreva sua chegada na NYU China e, se possível, o impacto que isso te causou. 

A minha chegada na NYU Xangai foi surpreendente, mas muito tranquila. Antes de eu vir para a China, estava morando na África do Sul, por conta de um programa de voluntariado que eu estava fazendo lá. Então eu passei um mês apenas pelo Brasil e vim para a China. Quando vim para cá, eu já estava acostumada com essa questão de não ter uma casa  fixa,  já estava acostumada a dividir um apartamento, dividir o quarto e essas coisas. Então, foi uma chegada muito tranquila. Tem sido muito desafiador aprender chinês, apesar de eu gostar muito de aprender línguas. Mas a cidade é incrível,  maravilhosa. A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe,  chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste,  na periferia e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus,  mas deles também. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece sorrindo em destaque na frente de um grupo de colegas estudantes da New York University (NYU) Shanghai. Usando moletons roxos com a identidade da universidade, a turma posa de forma descontraída em um corredor interno, com sinais de paz e alegria. A diversidade cultural do grupo e o ambiente universitário reforçam a experiência internacional de Diovanna na China.
Diovanna com a turma de alunos na China

As aulas são em inglês, certo? Onde, como ou com quem você aprendeu a língua?

Sim, as aulas são em inglês. Mas eu tenho que aprender também o chinês, pois tenho aulas separadas que são só em chinês. Mas as referentes ao meu curso são todas em inglês. É  muito interessante como eu aprendi inglês, mas eu preciso dar também um contexto. Eu vim de uma família que nunca entendeu qual era o propósito de falar inglês, não entendia qual é o propósito de aprender uma língua. Eu tive que implorar,  que pedir para minha mãe muitas vezes para que ela me colocasse num curso de inglês. Mas ela não conseguia entender qual era o propósito daquilo.  Eu sei que em outras famílias,  em outros contextos sociais no Brasil, você não precisa implorar para que um pai,  uma mãe pague um curso de inglês. Mas é que minha mãe e meu pai  não entendiam por que isso era necessário. Para que isso era bom? Com muito custo eu consegui convencer minha mãe a pagar. Eu fiz um curso de inglês particular, que ela pagou durante anos e também não gostava de pagar. 

Você cursa Ciência da Computação. O curso é de quantos anos? A divisão é por semestres, como aqui no Brasil?

Sim, eu curso Ciência da Computação, que é um curso de 4 anos e a divisão é por semestres, como no Brasil. A cada semestre eu pego algumas matérias. Nesse primeiro ano geralmente a gente faz matérias que a faculdade chama de core  (matérias que são fundamentais para a formação acadêmica do estudante), pois precisamos ter  o nível x de matemática e o nível y de escrita. Então,  eu tenho que pegar algumas matérias específicas para cumprir primeiro esses requerimentos e aí depois eu consigo pegar as matérias de outro curso. Mas as matérias de ciência da computação são mais voltadas para software,  programação  e dados. 

Você sempre aparece nos vídeos com amigos brasileiros e uma garota negra norte-americana. Quem são eles e como nasceu essa integração entre vocês aí na China? Qual a importância deles na sua vida hoje?

Existe claramente aqui uma diferenciação de culturas, mas  além da diferenciação existe a diversidade cultural, que dá a oportunidade de  ver pessoas do mundo inteiro falando línguas das mais diversas,  mais especiais e diferentes. A gente sabe que a questão racial  no Brasil é estruturada de uma forma e estruturada por outra nos Estados Unidos.  Mas as questões raciais sempre estiveram atreladas, histórica e antropologicamente, às questões de ordem  financeira, ao capital. Estudar em uma das universidades mais caras dos Estados Unidos e a mais cara da China faz a gente não ter muitas referências negras aqui. As pessoas negras que tem aqui são pessoas negras que talvez não se sintam pertencentes, porque são negros, mas cresceram como pessoas brancas ricas nos Estados Unidos. Aí eu encontro essa minha amiga, a Fortune, uma garota negra, e a  primeira vez que eu a vi eu sabia que queria ser muito amiga dela. A gente cresceu em culturas diferentes,  em países completamente diferentes, mas as nossas realidades são muito parecidas. Ela também tem um nível de conquistas muito grande, também tem bolsas e, como eu, está lutando aqui para se afirmar nesse espaço. Ela é muito importante nesse processo de aquilombamento, onde nos juntamos para falar de nossas dúvidas, dores, dificuldades, mas também falar das nossas alegrias de estar aqui. De termos chegado. Então, tenho essa amiga, a Fortune, outros brasileiros, muitos internacionais, mas há uma brasileira, a Clara, que foi crucial para mim. Ela tornou a minha chegada aqui na China tranquila.  A gente se considera uma família,  mas uma família longe da minha família, por  exemplo. 

Que mensagem você deixa para outros estudantes brasileiros que têm também o sonho de estudar no exterior? 

Eu penso sempre na palavra acreditar. E acreditar é um movimento de acreditar em si. De  ser o seu primeiro apoiador. De ser o seu primeiro fã. Eu tive apoio de familiares, de  amigos, mas a pessoa que mais acreditou em mim fui eu. Apostei muito em mim,  acreditei no meu potencial,  acreditei que iria mudar o jogo de um modo que inspirasse outras pessoas,  que trouxesse transformação social, que trouxesse diferenças. Então é muito importante que os estudantes acreditem que podem, que é possível!  

Você tem até o dia 30 de abril para se inscrever na segunda edição do edital Black Stem. Para ter mais informações, acesse este link: https://bit.ly/BS-2edicao. 

E quem se interessou por seguir os episódios do Perdida na China, que a Diovanna posta toda semana, siga ela no Instagram.

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

No próximo dia 25 de novembro, milhares de mulheres negras vão se reunir para marcharem por Reparação Histórica e Bem Viver, em Brasília – DF. Marcham por uma exigência de políticas e medidas concretas que enfrentem as desigualdades raciais e sociais, que assegurem oportunidades reais para a população negra, que garantam o direito de sonhar e realizar, de envelhecer com dignidade, de acessar uma educação de qualidade, de se alimentar bem, e de ter acesso à saúde integral.

E pelo Bem Viver que representa uma proposta de organização política e social que rompe com o modelo individualista, explorador e desenvolvimentista centrado no capital, ou seja que proponha uma organização coletiva para a ascensão das mulheres negras na sociedade em todas as regiões do Brasil.

Mulheres negras sorrindo em círculo, vistas de baixo para cima, reunidas em Recife para o planejamento do Março de Lutas em preparação para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Mulheres negras reunidas para o planejamento do Março de Lutas em Recife (PE)

Com o objetivo principal de denunciar as diversas formas de opressão que atingem de maneira potencializada as mulheres negras, o movimento coletivo do Março de Lutas foi criado em 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e é construído pela Articulação de Organizações Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede de Mulheres negras do Nordeste.

A 7ª edição reforça uma agenda coletiva dos movimentos de mulheres negras, promovendo reflexões sobre o combate ao racismo e ao patriarcado, além de propor um novo olhar sobre o 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Mulher.

Grupo de mulheres negras sorrindo e vestindo roupas coloridas e estampadas com a campanha "Prevenção é Afeto", durante mobilização do 8M em Goiás, fortalecendo a construção da Marcha das Mulheres Negras 2025
8 de Março em Goiás

Durante o mês de março foram realizadas 167 atividades, de 83 organizações, grupos e coletivos, em 19 estados, nas 5 regiões do Brasil. Foram rodas de conversa, oficinas, festivais, seminários e outras ações que são o fio condutor desta mobilização. Todas essas atividades têm por meta  alcançar o número histórico de 1 milhão de mulheres negras nas ruas da capital federal. Costurando experiências, saberes e resistências por todo o país, este ano, o chamado ganha ainda mais potência, direcionando os passos rumo à marcha.

Mulheres dos centros e dos quilombos; das universidades e das escolas primárias; atletas; artistas; profissionais da educação e da comunicação; engenheiras; cientistas; motoristas de aplicativos; agricultoras; donas de casa; empreendedoras; trabalhadoras do campo e da cidade; cristãs e candomblecistas; religiosas ou não; entre outras. 

Mulheres negras reunidas em círculo sob árvores, em uma roda de conversa no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO), como parte das articulações para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Reunião de mulheres negras no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO)

Para Maria Conceição Costa, a Ceça, uma das integrantes da Coordenação Nacional do Comitê impulsor da Marcha das Mulheres Negras, a marcha cumpriu o seu papel em 2015 como um impulsionador para a organização dessas mulheres. Após a marcha houve um fortalecimento significativo das mulheres do Nordeste, ainda que tenham relatos de ocorrências de opressão durante a marcha.

Mulheres negras seguram faixa da Marcha das Mulheres Negras 2025 durante o carnaval de São Luís (MA), reafirmando a luta por reparação histórica e bem viver em meio à celebração popular.
 Mulheres negras presentes no carnaval de São Luís (MA)

“É importante fortalecer não só as capitais para 2025, mas um número maior de cidades e os interiores Brasil afora, pois a realidade das mulheres negras ainda é muito crítica. São elas as que mais morrem pela ausência de saúde, são as que mais choram pelos seus filhos assassinados pela violência do estado, são as mais perseguidas por conta da sua fé, das suas guias, e as que mais sofrem violência obstétrica”, afirma Ceça.

Para mais informações sobre a Marcha das Mulheres Negras 2025, acesse o Instagram da Marcha das Mulheres Negras.

Participantes da primeira Marcha das Mulheres Negras esperam edição histórica em 2025 

Para 2025, são esperadas um milhão delas, lotando as ruas de Brasília na segunda edição da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

Novembro de 2025 pode entrar para a história como o mês do protagonismo das mulheres negras no Brasil. São esperadas um milhão delas, lotando as ruas de Brasília na segunda edição da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

A primeira edição aconteceu em novembro de 2015, também na capital do país. Uma década mais tarde, o evento busca representatividade internacional, com a presença de países da América Latina, África e Caribe.

A Marcha das Mulheres Negras será uma grande reivindicação por direitos inegociáveis, que já deveriam ter sido garantidos há séculos às mulheres negras. São questões fundamentais da dignidade humana, como a garantia de direitos econômicos e sociais, o combate à violência, a promoção da igualdade racial, a valorização dos saberes da cultura afro-brasileira e o acesso pleno à saúde e à educação, entre outros.

Maria das Dores Almeida, a Durica, faz parte do Instituto de Mulheres Negras do Amapá (Imena) e integra a Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB). Ela participou da primeira Marcha em 2015 e define a importância do que a segunda edição pretende alcançar:

“Participar da Marcha significa fazer parte de um dos momentos mais importantes da história do Brasil, principalmente porque nós estamos lutando por um novo projeto político de nação”, diz.

O que Durica enaltece é reafirmado por Durvalina Rodrigues, integrante da Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba:

“Quando a gente fala de reparação e bem viver, a gente tá querendo um novo modelo de sociedade que nos reconheça e nos coloque no lugar devido – e não em um lugar de marginalização, de subalternização, de negação da nossa resistência e do nosso direito”, afirma.

Um movimento plural por respeito e justiça

A Marcha das Mulheres Negras é um movimento fundamental de luta, com uma capacidade ímpar de articulação. Os 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, estão representados em sua organização.

Outro aspecto essencial é a diversidade de interseccionalidades que unem essas mulheres. Elas são da cidade, do campo, quilombolas, ribeirinhas, acadêmicas, trabalhadoras de todas as faixas etárias – todas com o mesmo objetivo: respeito e justiça.

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o estado do Pará possui a quarta maior população quilombola do Brasil, com cerca de 135 mil pessoas. Uma de suas lideranças é Valéria Carneiro, integrante da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos – Malungu.

Valéria tem desempenhado um papel fundamental na articulação da Marcha das Mulheres Negras e afirma:

“A Marcha significa afirmar a luta contra o racismo, o feminicídio e toda forma de preconceito e negação de direitos que esse país nos deve. Além disso, a nossa história será contada por nós. Sabemos que temos um 2025 desafiador, principalmente por ser o ano da COP30 no Brasil. Financiamento climático é um dos temas debatidos por mulheres negras, assim como estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Falar sobre justiça ambiental é garantir o direito à terra e ao território”.

A Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba tem uma conexão direta com o Fundo Baobá em dois momentos. O primeiro é sua participação no Programa Marielle Franco, instituído pelo Baobá em 2019, quando foi selecionada pelo trabalho que desenvolve na defesa dos direitos das mulheres e no combate à violência de gênero. 

A segunda ligação está na própria Marcha das Mulheres Negras, já que o Fundo Baobá é o maior doador financeiro do evento, destinando R$ 1,25 milhão para sua realização.

Embora a Marcha seja protagonizada por mulheres, os homens também podem contribuir com a mobilização.

“Os homens podem contribuir financeiramente com a Marcha, divulgá-la, incentivar mulheres negras da sua família, da sua vizinhança e colegas de trabalho a também participarem da manifestação”, destaca Maria das Dores Almeida, a Durica, do Imena.

Saiba como participar da Marcha das Mulheres Negras neste link

Fundo Baobá doa R$ 1,25 milhão para a Marcha das Mulheres Negras 2025

Marcha das Mulheres Negras 2025

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver espera reunir um milhão de mulheres negras em Brasília (DF), no dia 25 de novembro de 2025. Esse ato político-social receberá um investimento histórico de R$ 1,25 milhão do Baobá – Fundo para Equidade Racial, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.

O anúncio foi feito no início de dezembro, durante o Encontro Regional de Mulheres Negras do Nordeste, realizado em Recife (PE). Na ocasião, Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Baobá, reafirmou o compromisso da organização com a luta das mulheres negras e a mobilização nacional, e destacou:

“Estamos articulando e contribuindo com as diversas frentes envolvidas nesse processo, apoiando tanto a mobilização local quanto a coordenação nacional, com um foco especial nas mulheres quilombolas, que têm um papel central nesta caminhada. Este é um esforço coletivo, com a confiança de que as mulheres negras terão voz ativa em cada etapa do processo até a grande Marcha.”

Apoio financeiro e divisão do investimento

O aporte de R$ 1,25 milhão será distribuído da seguinte forma:

R$ 350 mil – Comitê Nacional para garantir a presença de mulheres na marcha
R$ 25 mil por estado – Destinados à mobilização em todas as 27 unidades federativas
R$ 225 mil – Exclusivamente para a articulação de mulheres quilombolas.

Segundo Fernanda Lopes, Diretora de Programas do Fundo Baobá, esse apoio está alinhado às prioridades da organização, que incluem fortalecer a memória e história da população negra, gerar renda e combater o racismo e o sexismo.

Por que a Marcha das Mulheres Negras é fundamental?

Embora representem 28% da população brasileira, mulheres negras enfrentam os piores índices sociais. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública:

👉🏾 63,9% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras
👉🏾 61,6% das vítimas de estupro têm até 13 anos e 52,2% são negras

Apesar dos desafios estruturais, são elas que estão na linha de frente da luta por justiça social e direitos humanos, enfrentando diretamente a violência do sistema carcerário, a criminalização das populações negras e periféricas e as violações de direitos promovidas pelo Estado.

Sua atuação é essencial em movimentos por moradia digna, saúde, educação e segurança alimentar, além da defesa dos direitos territoriais de comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais. Também desempenham um papel fundamental no fortalecimento da memória e da identidade da população negra, garantindo que suas histórias e contribuições para a sociedade brasileira sejam reconhecidas e valorizadas.

História da Marcha das Mulheres Negras

A Marcha das Mulheres Negras teve sua primeira edição em 2015, reunindo 100 mil mulheres em Brasília. O evento foi resultado de quatro anos de mobilização, iniciados em 2011, com ações em diversos estados e a formação de comitês estaduais e municipais. Esse processo fortaleceu a identidade política das mulheres negras, ampliou sua participação na esfera pública e impulsionou o crescimento de organizações femininas negras.

Um dos grandes marcos dessa mobilização foi a Carta das Mulheres Negras, documento entregue à Presidência da República e à sociedade brasileira. Nele, foram apresentados dados sobre desigualdade racial e de gênero, além de propostas para um novo pacto civilizatório baseado no conceito de Bem Viver. O documento abrange demandas por direitos urbanos, segurança pública, justiça ambiental, seguridade social, educação, cultura e outras pautas essenciais.

Desde então, as mulheres negras seguem “em marcha”, reforçando suas lutas por justiça e reparação histórica. Para a próxima edição, a expectativa é mobilizar 1 milhão de mulheres na capital federal, consolidando seu protagonismo na luta contra o racismo, o feminicídio, o genocídio da população negra e a negação dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver conta com 11 organizações em seu Comitê Nacional e se baseia em dois pilares fundamentais:

✊🏿 Bem Viver – Um modelo de sociedade que valoriza justiça social, equidade e cuidado coletivo, priorizando o bem comum em vez do individualismo. Defende a diversidade cultural, a autonomia das comunidades e uma gestão descentralizada.

✊🏿 Reparação Histórica – Uma luta por reconhecimento e justiça, exigindo reparação pelos danos da escravidão e do colonialismo. O foco está na restituição de direitos sobre o corpo, a cultura, a terra e a autonomia dos povos negros e indígenas.

A Marcha reafirma o compromisso das mulheres negras com a construção de um Brasil mais justo, igualitário e antirracista, fortalecendo redes locais, nacionais e internacionais de articulação feminista e política.

Fundo Baobá e o compromisso com a equidade racial

Sueli Carneiro, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, destaca a relevância desse apoio:

“O Fundo Baobá foi criado com a ambição de ser um vetor fundamental para o fortalecimento da agenda racial no Brasil. Este apoio à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reflete nosso compromisso em tornar essa causa uma realidade concreta, reafirmando a necessidade da presença efetiva das mulheres negras nas decisões políticas e sociais. Investir nesse movimento é, para nós, uma ação estratégica rumo à justiça social.”

Além do suporte financeiro, o Fundo Baobá mobiliza outros atores da sociedade civil, ampliando a força da Marcha e garantindo sua realização em 2025.

O apoio à Marcha das Mulheres Negras 2025 representa um avanço significativo na luta por equidade racial, direitos humanos e justiça social. Com esse investimento, a organização reafirma seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.

📢 Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Como o Fundo Baobá impulsiona a equidade racial no Brasil?

Como o Fundo Baobá impulsiona a Equidade Racial e Social no Brasil?

A economia global enfrenta desafios complexos, como inflação e crises que afetam tanto economias maduras quanto aquelas em expansão. No Brasil, os entraves para o crescimento sustentável estão profundamente ligados às desigualdades sociais, impactando diretamente a população negra, que representa cerca de 56,5% dos brasileiros. A história do país, marcada pelo regime escravocrata, ainda reverbera em desigualdades estruturais persistentes.

A importância do investimento em iniciativas locais

A população negra no Brasil não é homogênea. As condições socioeconômicas e territoriais variam amplamente, exigindo soluções adaptadas a cada realidade. Nesse cenário, é essencial investir em quem está na linha de frente, lidando diretamente com os desafios locais. O Fundo Baobá, criado com essa missão, possui uma capilaridade que o coloca como um agente estratégico no fortalecimento de pessoas e organizações negras, promovendo transformações sociais efetivas.

Apoiar iniciativas locais e o desenvolvimento de pessoas negras é fundamental para a mudança, mas não pode ser uma ação isolada. O investimento social privado e a filantropia negra desempenham um papel fundamental na promoção da equidade racial e na reparação histórica. Empresas que adotam estratégias de impacto social ampliam significativamente suas contribuições para um Brasil mais justo e sustentável.

Equidade, democracia e desenvolvimento sustentável

Para avançar como nação, o Brasil precisa enfrentar desafios interligados: consolidar a democracia, promover a equidade racial e combater as mudanças climáticas. No campo da equidade, é urgente combater práticas discriminatórias e garantir a implementação de políticas eficazes que promovam a inclusão da população negra em diversos setores.

Embora as contribuições históricas da população negra estejam ganhando visibilidade, ainda existem barreiras significativas para seu progresso. A falta de acesso a oportunidades no mercado de trabalho, as desigualdades educacionais e de saúde, e a ausência de políticas públicas voltadas à preservação da cultura afro-brasileira são desafios persistentes.

A Atuação do Fundo Baobá

Desde sua criação em 2011, o Baobá – Fundo para Equidade Racial tem sido um protagonista na promoção da equidade racial no Brasil. Por meio de editais e programas, investe em desenvolvimento econômico, educação, dignidade, comunicação e memória, fortalecendo pessoas e organizações negras em todo o país.

Programas de Impacto do Baobá

O Fundo Baobá impulsiona iniciativas transformadoras por meio de programas como:

  • É – capacita jovens negros para ingresso no ensino superior; 
  • Carreiras em Movimento – desenvolve competências técnicas e socioemocionais para profissionais negros em início de carreira;
  • BlackSTEM – apoia a permanência de estudantes negros em universidades internacionais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharias e matemática.

Esses programas são essenciais para romper barreiras e ampliar a presença negra em setores estratégicos, promovendo inclusão e igualdade de oportunidades.

Entre as iniciativas futuras, o Fundo Baobá planeja a reedição do Programa Marielle Franco, voltado ao fortalecimento de lideranças femininas negras em diferentes esferas, como política, movimentos sociais e educação. Essa nova edição promete ser um marco na luta por equidade racial e de gênero, formando uma rede de mulheres capacitadas para liderar transformações sociais profundas

Compromisso com a equidade racial

O Baobá – Fundo para Equidade Racial conecta histórias e ações concretas para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro melhor. Com estratégias bem estruturadas, atua para fomentar a participação de pessoas negras nas decisões que impactam o país. Apoiar essa causa é investir em equidade e justiça social.