Incentivo amplia presença de estudantes negros brasileiros em áreas STEM no exterior

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM. Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026. Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior. Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM.

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior.

Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Quando eu era criança, me diziam que um negro precisa estudar duas vezes, três vezes mais que um branco para se destacar”, lembra. Hoje, a mensagem que ele procura transmitir aos seus alunos é outra: não é preciso ser um “super-homem” ou uma “super-mulher” para chegar a uma universidade de excelência fora do país. É preciso ter oportunidade e, principalmente, conseguir se enxergar naquele lugar. 

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Na foto: Fernando Caixeta, Professor do IFTM e mentor do Programa Black STEM | Créditos: Thalita Guimarães

Esse ponto é especialmente importante quando se fala em STEM, áreas que historicamente concentram oportunidades acadêmicas, científicas e profissionais de alto impacto. 

Dados disponíveis sobre mobilidade acadêmica ajudam a dimensionar o tamanho da desigualdade, embora ainda exista uma lacuna importante nas estatísticas brasileiras. Um estudo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, com dados de programas de mobilidade do CNPq e informações do Censo de 2022, analisou 38.238 participantes com informação de raça/cor. Entre eles, 1.055 se declararam pretos, o equivalente a 2,76% do total, enquanto 6.487 se declararam pardos, ou 16,96%. Somados, pretos e pardos representavam 19,72% dos participantes analisados. O dado chama atenção porque a população brasileira é majoritariamente negra. Ou seja, mesmo quando existe uma política de mobilidade internacional, a presença de estudantes negros não acompanha o peso demográfico da população brasileira.

E há outro problema: não existe, hoje, uma estatística pública nacional consolidada que permita dizer exatamente quantos estudantes negros brasileiros estão matriculados em universidades estrangeiras, especialmente em cursos STEM. Essa ausência de dados, por si só, revela uma defasagem. Sem saber exatamente quem está indo, para onde está indo e em quais áreas está estudando, fica mais difícil medir desigualdades e construir políticas capazes de enfrentá-las.

Pesquisas acadêmicas já apontaram, entretanto, que raça e origem socioeconômica interferem no acesso de estudantes brasileiros à mobilidade internacional.  Pesquisas sobre o programa Ciência sem Fronteirasmostram que a mobilidade acadêmica internacional ainda reproduz desigualdades raciais presentes no ensino superior brasileiro. Estudo realizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que estudantes pretos e pardos representavam, em média, 16,68% dos matriculados entre 2012 e 2016, mas correspondiam a apenas 9,38% dos bolsistas do programa no período. 

É justamente nesse espaço que iniciativas como o Black STEM entram.

Na primeira edição, o programa selecionou cinco estudantes negros para graduação no exterior, oferecendo bolsas de R$ 35 mil anuais para apoiar despesas como moradia, alimentação, transporte e material acadêmico. Na segunda edição, outros quatro estudantes foram selecionados. Agora, na terceira, serão três novos bolsistas.

São números que carregam uma dimensão simbólica importante. Cada estudante que chega a uma universidade estrangeira também pode se tornar referência para quem ainda está pensando se aquele lugar é acessível. 

Caixeta chama atenção para uma transformação geracional. Segundo ele, estudantes negros de hoje estão “metendo o pé na porta” e ocupando espaços internacionais com uma disposição diferente da geração anterior. China, Dubai, Estados Unidos ou qualquer outro destino deixam de parecer lugares impossíveis. A pergunta passa a ser menos “será que existe alguém como eu lá?” e mais “como faço para chegar?”.

Evento Black STEM 2026 | Créditos: Thalita Guimarães

Para o professor, a função da mentoria é ajudar a transformar o sonho em projeto. E isso significa também falar sobre aquilo que nem sempre aparece nas fotos de uma universidade estrangeira: dinheiro, alimentação, moradia, transporte, segurança e a possibilidade de voltar para casa se alguma emergência acontecer. “Eu preciso ter dinheiro, preciso beber, preciso comer, preciso viver e preciso estudar ao mesmo tempo”, resume.

A preocupação também se estende ao ambiente acadêmico. Caixeta defende que equipes científicas e tecnológicas mais diversas conseguem produzir soluções mais conectadas com a realidade de diferentes grupos sociais. Ele lembra de uma experiência em um laboratório no qual pesquisava tecidos usados nas toucas de cetim para proteção dos cabelos.

Em uma equipe mais racializada, ele percebeu que não precisava explicar aquilo que fazia parte da vida cotidiana de outras pessoas negras. Para ele, essa identificação muda a qualidade da conversa, da pesquisa e das soluções produzidas. 

Fernando Caixeta alerta para a necessidade de discutir uma tecnologia que não reproduza discriminações e que seja acessível a diferentes grupos sociais. A presença negra nas áreas de STEM, portanto, não diz respeito apenas a quem ocupará os laboratórios, empresas de tecnologia ou universidades no futuro. Diz respeito também a quem fará parte da criação de tecnologias que vão influenciar a vida de todos.

No Brasil, esse desafio ainda passa pelo enfrentamento do chamado “racismo à brasileira”, expressão usada por Caixeta para falar de situações em que a discriminação existe, mas muitas vezes não é reconhecida como tal. No exterior, por sua vez, o estudante negro precisa aprender a lidar com novos contextos culturais e com possibilidades de racismo que também podem surgir. É aí que a representatividade ganha outra dimensão.

Para Caixeta, não basta estar. É preciso se enxergar, viver aquele espaço e conseguir imaginar uma trajetória possível. Quando um professor negro aparece diante de um estudante e diz “eu fui, eu consegui, eu estou aqui”, a distância entre o sonho e a realidade diminui.

É esse movimento que o Black STEM procura apoiar, não apenas enviar estudantes negros para fora do Brasil, mas criar condições para que eles permaneçam, concluam seus cursos e ampliem as possibilidades para quem vem depois. A experiência internacional, nesse sentido, deixa de ser apenas uma conquista individual. Transforma-se em caminho aberto.

E, como lembra Caixeta, cada pessoa que chega primeiro ajuda a tornar a chegada das próximas um pouco menos difícil. No caso das áreas STEM, ocupar esse espaço significa também participar das decisões sobre ciência, tecnologia e inovação. Significa mostrar que pessoas negras não estão apenas consumindo tecnologia. Elas também podem criá-la, pesquisá-la, transformá-la, decidir para quem ela será feita e como será utilizada.

Área de Programas do Fundo Baobá transforma 15 anos de experiência em matéria-prima para planejar o futuro

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos. Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais. “A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma. O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre: “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural. Foi observando essa panorama que Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.

“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.
“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Na foto: Tainá Medeiros, Gerente de Programas | Créditos: Thalita Guimarães

O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre:  “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural.

Foi observando essa panorama que  Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

A experiência acumulada também ajuda a entender o trabalho desenvolvido no presente. Em 2026, uma das frentes da área de Programas foi a conclusão da avaliação do Edital Educação e Tecnologia, realizado em parceria com o MOVER. Depois da avaliação, foram organizados encontros de devolutiva com as organizações apoiadas e os parceiros financiadores para compartilhar os resultados e ampliar a aprendizagem produzida pelo programa.

O Programa Marielle Franco de Apoio Individual também teve continuidade. As mulheres apoiadas estão recebendo mentorias individuais voltadas ao fortalecimento de seus planos de desenvolvimento e à ampliação de conexões com outras mulheres negras com trajetórias de liderança. No Programa Já É, o acompanhamento inclui jovens que se preparam para os vestibulares e aqueles que já ingressaram na universidade e começam sua trajetória acadêmica.

Outra iniciativa que avançou no primeiro semestre foi o Programa Black STEM, que concluiu o processo seletivo de sua terceira edição. Três novos bolsistas passaram a integrar o programa e participaram, em agosto, de atividades de boas-vindas, formação e fortalecimento de vínculos. Eles seguirão para universidades nos Emirados Árabes Unidos, na Espanha e nos Estados Unidos.

Na área de fortalecimento institucional, o Fundo Baobá renovou o apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, iniciado em 2023. Uma nova doação de R$ 300 mil dará continuidade, até 2027, ao plano de fortalecimento institucional da organização.

Enquanto acompanha essas iniciativas, a área de Programas já prepara os próximos passos. Para o segundo semestre, estão previstas novas oportunidades de fortalecimento institucional para organizações, grupos e coletivos, além da continuidade do monitoramento dos apoios em andamento e do início da avaliação de iniciativas já concluídas.

O aprendizado também acontece dentro do próprio Fundo. A área pretende dar continuidade ao aprimoramento de sua gestão e à participação em espaços de troca de experiências e conhecimentos, acompanhando demandas, tendências e inovações que possam contribuir para sua atuação nos próximos anos.

Parte da experiência acumulada nesses 15 anos aparece ainda na relação com organizações e lideranças que procuram os editais do Fundo Baobá. Para quem não tem familiaridade com a elaboração de projetos, Tainá procura retirar um pouco do peso que costuma acompanhar esse processo.

“A elaboração de projetos pode ser uma tarefa acessível”, afirma. O primeiro passo, segundo ela, é ler atentamente o edital, compreender seus objetivos e conferir as informações e os documentos solicitados.

“O melhor caminho é apresentar uma proposta simples, porém coerente com a capacidade da organização, alinhada à sua experiência, ao território em que atua e aos objetivos do edital”, orienta. A elaboração da proposta também pode servir para que a própria organização estruturesuas ideias sobre desafios, necessidades, objetivos e possibilidades de atuação.

Nem sempre, porém, uma boa proposta chega a ser avaliada. Entre os problemas encontrados nas inscrições estão informações incorretas ou incompletas, documentos ausentes ou ilegíveis, arquivos em formatos diferentes dos solicitados e perda de prazos. Falhas desse tipo podem levar à desclassificação antes da análise do mérito do projeto.

Por isso, Tainá recomenda que organizações e lideranças reservem tempo para conferir a inscrição antes do envio. Informações, documentos, formatos e prazos precisam ser revisados com antecedência, inclusive para que seja possível corrigir eventuais problemas. “Revisar a inscrição nunca é demais”, resume.

Governança ativa, participação coletiva e visão estratégica marcam os 15 anos de Fundo Baobá

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes.

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes. É a partir dessa trajetória coletiva, marcada por aprendizados e melhorias ao longo do tempo, que o Fundo Baobá segue fortalecendo sua atuação e um modelo de governança que está na base dos nossos passos.

Atualmente, o Fundo Baobá conta com uma equipe de 20 profissionais e uma governança ativa, permitindo que o crescimento amplie o alcance de iniciativas voltadas à promoção da equidade racial. Entre elas estão programas de formação acadêmica internacional, acesso ao ensino superior, desenvolvimento de lideranças femininas negras e ações emergenciais, como o apoio durante a pandemia da Covid-19. São iniciativas que contribuem para que pessoas negras ocupem espaços historicamente negados à sua presença e ao seu conhecimento.

Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, os 15 anos da organização marcam também o início de um novo ciclo estratégico. Nesse momento, a construção de processos eficientes, a gestão participativa e a adoção de tecnologias alinhadas à segurança, transparência e impacto social, são pilares para garantir continuidade ao trabalho desenvolvido.

Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá

Crédito fotográfico: Thalita Novais

Mais do que administrar recursos, a área de Operações atua como suporte para todas as demais áreas organizacionais, apoiando estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e a sustentabilidade financeira.

“O Fundo Baobá é para sempre”, resume Hebe, ao falar sobre o compromisso de longo prazo da organização com a promoção da equidade racial no Brasil. Uma permanência construída coletivamente, com raízes firmadas no fortalecimento das iniciativas negras e na construção de futuros mais equitativos.

Em entrevista, Hebe fala mais sobre o ponto de vista da área de Operações sobre os 15 anos do Fundo Baobá.

Em janeiro, Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá, falou que os 15 anos do Fundo Baobá não eram apenas uma celebração, eram uma  preparação para um novo ciclo estratégico. Como a sua área, Gestão Operacional, define esse novo ciclo estratégico?
Uma etapa que apresenta novas demandas exige novos esforços. A área de Operações presta suporte às atividades das demais áreas. Somos uma das fontes para pensarmos estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e captação de recursos. Pensar nas novas tecnologias do mercado e como podemos adotá-las, sem prejuízo ou risco à equipe e ao nosso público, será a contribuição da área de Operações no desenho deste novo ciclo.

Na mesma matéria, você fala em uma gestão participativa para garantir a sustentabilidade do Fundo Baobá. No dia a dia do trabalho, como acontece essa gestão participativa? 

Todas as pessoas da equipe são responsáveis pela gestão dos recursos. O alinhamento dos nossos gestores é tarefa cotidiana entre as áreas. Quem desejamos alcançar? Qual a melhor forma de fazer isso? Qual a maneira mais eficiente de gerir o recurso disponível? Todas essas variáveis são analisadas em equipe, que comunga do princípio de oferecer excelência no atendimento, seja qual for a atividade. Isso agiliza os ajustes processuais e nos fortalece enquanto grupo.

Você fala também em “olhar para a perenidade do Fundo Baobá”. Como gestora financeira, é possível prever um Fundo Baobá atuante daqui a 20, 30 anos ou mais que isso? Quais as diretrizes econômicas para atingir essas marcas?  

O Fundo Baobá é para sempre. Para os que estão aqui agora e para os que virão depois. Em 20, 30 anos as demandas da população podem mudar, o que influenciará nas nossas estratégias de atuação, mas o sentido de nossa existência permanecerá. Sendo otimista, vislumbro um futuro com todas as organizações da sociedade civil brasileira comprometidas com a promoção da equidade racial, mesmo que em menores níveis de prioridade. As diretrizes já estabelecidas pelo nosso conselho deliberativo nos dão suporte para essa perenidade: transparência, planejamento e governança participativa.

Como o Fundo Baobá define os valores investidos em seus editais, programas e ações a partir da rentabilidade do Fundo Patrimonial? Como essa estratégia de uso dos rendimentos contribui para a sustentabilidade e o planejamento de longo prazo da organização? 

O valor é definido entre nosso Conselho e Equipe Executiva. A depender dos reflexos deste alinhamento, o valor pode ser maior que o previsto inicialmente. Isso aconteceu no edital Black Stem, quando decidimos ampliar o número de vagas ofertadas no edital. Isso impactou em todo orçamento do projeto, mas obtivemos sucesso na decisão.

Auxílio emergencial no período da pandemia da Covid-19, programas voltados para educação, para o desenvolvimento de lideranças e enfrentamento à violência racial. Para quem trabalha com gestão financeira, como você definiria seu sentimento ao ver o impacto dessas iniciativas nas vidas das pessoas apoiadas?

O sentimento é de que um objetivo ambicioso e desafiador está sendo cumprido. Ver nossos projetos impactando diferentes atuações na causa racial, promovendo mudanças econômicas em grupos populacionais sub-representados, qualificando um público que nunca acessou recursos da filantropia, tudo isso reverbera no nosso sentimento de importância na sociedade brasileira e no nosso dever de continuar trabalhando com excelência.

Quais resultados do Fundo Baobá chamam mais a atenção de quem não faz parte da organização? 

Autossuficiência, execução bem-sucedida do planejamento estratégico e meta de construção do Fundo Patrimonial alcançada com êxito. 

Quais foram as estruturas invisíveis mais importantes para que o fundo chegasse até aqui?

Equipe comprometida com a preservação dos ativos institucionais: nossa relação com donatários, gestão eficiente dos recursos e uma governança atuante. Também é muito importante possuir uma assessoria jurídica qualificada para lidar com as especificidades de uma organização do terceiro setor que possui um Fundo Patrimonial.

Existe alguma decisão operacional tomada anos atrás que hoje vocês entendem como fundamental para a longevidade do fundo? 

O acordo com a Kellogg Foundation previa que os aportes financeiros ao Fundo Patrimonial seriam realizados mediante apresentação de um relatório de auditoria externa, aprovado pelo nosso Conselho. Isso colaborou para o fortalecimento de nossa transparência. Aprimoramos nossas ferramentas de trabalho para alcançar, com a maior agilidade possível, informações sobre a nossa gestão. Isso colabora não apenas para o gerenciamento financeiro, mas também para atender tempestivamente qualquer due diligence (levantamento sobre um parceiro de negócio) que algum financiador nos faça. Estamos preparados para falar de nossa história através dos números registrados aqui.

 O que mudou na forma de operar da organização ao longo destes 15 anos? 

O aumento da equipe refletiu na possibilidade de ampliação de nossas atividades. Houve um período em que fomos apenas 3 pessoas. Hoje somos 20. Isso mudou nossa estrutura física, nos possibilitou melhoria das ferramentas e demanda um esforço conjunto para construir a ambientação de cada nova pessoa que integra a equipe, incluindo a governança. Um time de trabalho empenhado e que se sente livre e seguro para opinar, propor e fazer.

Fundo Baobá participa do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, na Suíça

Fundo Baobá participa do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, na Suíça

O Fundo Baobá marcou presença no Fórum Permanente sobre Afrodescendentes, em Genebra, representado pelo seu Diretor Executivo, Giovanni Harvey, e pela gerente de Articulação Social, Caroline Almeida. A participação no evento, realizado em abril, ocorre em um momento de intensa mobilização internacional. O encontro na Suíça dá sequência a uma série de movimentações estratégicas promovidas pela ONU, como a histórica resolução aprovada pela Assembleia Geral em março, que reconheceu o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade 

A reunião marcou ainda o 25º aniversário da Declaração e Programa de Ação de Durban. O documento, que permanece como o principal marco normativo das Nações Unidas no combate à discriminação, reconhece que a escravidão, o tráfico e o colonialismo produziram desigualdades estruturais profundas e duradouras. Ao relembrar essa data, o fórum reforça o chamado para que os Estados repudiem o racismo e adotem políticas ativas de igualdade e reparação.

O evento reuniu 80 países membros das Nações Unidas, além de diversos atores da sociedade civil envolvidos na promoção dos direitos humanos das pessoas de ascendência africana, assim como agências e órgãos especializados da ONU. Como principal destino da diáspora africana, os países da América Latina e Caribe tiveram forte atuação nos debates, com destaque para o Brasil e Colômbia. Gana, que junto com a União Africana apresentou a resolução que reconhece o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade, também participou ativamente.

Instituições nacionais de direitos humanos e organizações de igualdade racial, além do Fundo Baobá, também estiveram presentes, junto com outros representantes da sociedade civil. Para Caroline Almeida, gerente de Articulação do Fundo Baobá, um ponto de atenção é a necessidade de avançar nas discussões para a implementação de políticas de combate à discriminação, ao racismo e à promoção da equidade racial. 

“É bastante positivo e importante espaços como este, porém, ainda é evidente as lacunas que existem na implementação das ações”, assinala. O próprio balanço dos 25 anos de Durban comprova isso. Embora 180 dos 193 países que são membros plenos da ONU tenham aderido à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, apenas 42 adotaram ou reformaram políticas e medidas antidiscriminação, criando 35 organismos nacionais de igualdade racial.

Caroline também destaca o painel sobre juventudes, que reforçou a necessidade de inclusão dos jovens nos espaços de decisão. “Foi um momento de forte sintonia entre gerações. Os jovens cobraram mais escuta e participação e os mais velhos destacaram a importância de passar o bastão para as novas gerações”, comenta. As novas gerações também pediram mais atenção a temas como saúde mental e violência policial.

Professor Nelson Narciso reforça a Governança do Fundo Baobá: “Transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro”

Profissional com reconhecimento internacional no setor de energia, ele vai integrar o Conselho Deliberativo da organização

O Baobá – Fundo para Equidade Racial conta agora com um importante reforço em seu Conselho Deliberativo: Nelson Narciso, engenheiro mecânico com trajetória de destaque nacional e internacional nos setores de combustíveis e biocombustíveis. Com mais de 40 anos de experiência no segmento de energia, Narciso construiu uma carreira sólida atuando em empresas de renome como HRT África, Halliburton e ABB. No Brasil, foi diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Da ANP ao Baobá: legado e visão estratégica de Nelson Narciso

Durante seu período na ANP, coordenou importantes programas, como os voltados à redução de queima de gás e à melhoria da medição fiscal da produção. “Na ANP, tive o privilégio de contribuir com políticas públicas que ainda hoje impactam o setor. Foi nesse ambiente que compreendi, com mais clareza, que transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro. Esses aprendizados moldaram minha atuação: cada projeto é uma oportunidade de conectar conhecimento, propósito e impacto”, destaca Narciso.

Compromisso de longa data com a equidade e justiça racial

O desejo de colaborar com o Fundo Baobá já o acompanhava há algum tempo. Ao longo de sua trajetória, o professor tem se posicionado de forma firme contra práticas discriminatórias, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação e ao mercado de trabalho. Na juventude, nos anos 1970, foi atleta amador de futebol pelo Vasco da Gama, clube carioca, mas escolheu os estudos diante da incerteza de uma carreira no esporte.

Formação de excelência e destaque internacional na educação

Formado em Engenharia Mecânica e com pós-graduação em Administração Industrial e Engenharia Econômica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nelson Narciso é frequentemente convidado para dar palestras em renomadas instituições de ensino, como a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e as norte-americanas MIT, Columbia University e Brown University, onde também foi professor visitante.

A urgência da representatividade negra em cargos de liderança

Sua formação e trajetória contrastam com uma dura realidade do mercado de trabalho brasileiro: a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança. Um estudo do Instituto Ethos, de 2016, revelou que, entre as 500 maiores empresas do país, apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% das posições gerenciais eram ocupados por pessoas negras. “Sermos exceções é um sinal claro de que algo está estruturalmente errado”, afirmou à Americas Quarterly em 2020. Sua entrada no Conselho do Baobá é, portanto, mais um passo na direção da mudança.

Rumo aos 15 anos do Fundo Baobá: reflexões e futuro

“Ser membro do Fundo Baobá me motiva por unir propósito pessoal e impacto social. Trata-se de contribuir com minha experiência estratégica para uma causa urgente e estruturante: o enfrentamento ao racismo e a promoção da equidade racial no Brasil. O prestígio institucional do Fundo, sua representatividade negra e a oportunidade de aprendizado tornam essa participação uma escolha transformadora”, afirma.

Como integrante do Conselho Deliberativo, seu papel será o de orientar a organização para que suas decisões e operações estejam alinhadas com sua missão institucional. Narciso acredita que poderá contribuir significativamente nesse processo. “Quero apoiar de forma ativa a consolidação institucional do Fundo, com escuta atenta, pensamento estratégico e compromisso com a missão de promover a equidade racial no Brasil.”

Sua chegada coincide com a preparação do Fundo Baobá para a celebração de seus 15 anos de atuação em 2026. Sobre esse marco, ele reflete: “Quinze anos do Fundo Baobá representam a força de um sonho coletivo que se tornou referência na luta por equidade racial no Brasil. Celebro a coragem, a inteligência e a ancestralidade que sustentam essa trajetória.”