O Baobá – Fundo para Equidade Racial reuniu em São Paulo, na sede do Instituto Unibanco, os 30 estudantes selecionados para a 2ª edição do Programa Já É. Os jovens negros e negras, com idade entre 20 e 25 anos, receberão bolsas de estudo mensais no valor de R$ 700, durante 17 meses, para apoiar sua preparação em cursinhos pré-vestibular e ampliar as chances de ingresso em universidades públicas ou privadas.
Além do apoio financeiro, os estudantes contarão com mentoria coletiva e individual, acompanhamento psicológico e atividades formativas. O objetivo é reduzir as barreiras ao acesso e à permanência na universidade, levando em conta as diferentes realidades e trajetórias de cada participante. A seleção levou em conta a diversidade de perfis, como residentes de áreas rurais, comunidades quilombolas, pessoas com filhos e pessoas com deficiência. O encontro teve como objetivo discutir a trajetória que irão percorrer rumo ao ensino superior.

Esta segunda edição do Já É ampliou o alcance do Programa, apoiando estudantes de 13 estados brasileiros, entre eles Amapá, Ceará, Espírito Santo, Maranhão e Rio Grande do Sul. A primeira turma do Já É, formada por jovens de São Paulo e região metropolitana, já havia mostrado a força desse apoio: 32 foram aprovados em vestibulares, sendo 10 em universidades públicas, entre elas USP (Universidade de São Paulo), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
O professor Ricardo Henriques, Superintendente Executivo do Instituto Unibanco, abriu o encontro de boas-vindas. “Nosso país naturaliza a desigualdade racial de forma absurda. Acessar o ensino superior no Brasil, para jovens negros, tem sido difícil. Mas vocês estão aqui para ir contra isso. Temos que ter negros e negras no ensino superior e influenciando de forma positiva nossa sociedade”, afirmou.

Embora a presença de pretos e pardos com ensino superior tenha quintuplicado em 22 anos, passando de 2,1% para 11,7%, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o índice ainda é menos da metade do registrado entre brancos (25,8%). Na primeira edição do Já É, realizada em 2021 durante a pandemia da Covid19, 32 participantes foram aprovados em vestibulares.
O Diretor Executivo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, enalteceu a importância da formação educacional para entender nossa sociedade. “A universidade não é um fim em si mesma. Temos tarefas cada vez mais complexas para enfrentar e precisamos de pessoas com massa crítica para entender coisas que nunca vimos acontecer no nosso país”, disse.

Os estudantes compartilharam suas expectativas, como ter acesso a recursos, apoio emocional, superar a defasagem do ensino médio, aprimorar habilidades e, principalmente, inspirar outros jovens. Muitos deles vivem e enfrentam desafios comuns – falta de recursos financeiros, baixa qualidade da educação básica e a necessidade de trabalhar para ajudar suas famílias, fatores que dificultam a continuidade dos estudos.
A Diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, refletiu sobre os desafios que os estudantes enfrentarão e o papel do programa em apoiá-los:: “Nos meses que vocês estiverem conosco, cada vitória de vocês será também nossa. Sabemos que ingressar na faculdade e permanecer nela é difícil, mas estamos aqui justamente para modificar esse quadro”, afirmou.
A professora Martha Rosa lembrou que o aumento da presença de pessoas negras nas universidades é fruto de uma longa trajetória de luta. “Cabe a nós, mais velhos, contar e recontar a nossa perspectiva. Porque não foi fácil. No início do século, éramos 2% do público universitário e havia um distanciamento muito grande entre a gente e o mundo universitário. Hoje, porém, somos 12%. Então, precisamos ter na educação uma perspectiva interetnica”, disse.

Ana Carolina Silva, 21 anos, estudante selecionada no estado do Amapá, está muito feliz com a oportunidade, pois pretende cursar Direito e se tornar juíza.. “Desde pequena, por ter conhecido uma senhora que era juíza, eu só penso nisso. Nunca pensei em algo diferente e quero entrar na Universidade Federal do Amapá (Unifap) ou no Mackenzie, aqui em São Paulo.
Lara Maria de Sousa, 24 anos, veio de Salvador (BA) para o encontro do Já É. Está extremamente motivada, pois quer ter uma formação superior para proporcionar uma boa realidade de vida para a filha, Radassa, de 1 ano e 5 meses. Lara é mãe solo. “Quero fazer Jornalismo. Sou curiosa, gosto de aprender sobre outras culturas e sobre várias coisas. Desde criança meu objetivo é o Jornalismo. Agora, tenho essa meta também por minha filha. Eu quero dar um futuro para ela, eu quero mostrar que nós, mulheres pretas, também conseguimos. Mesmo sendo uma mãe solo a gente pode conseguir. Nunca é tarde para ir atrás dos nossos sonhos”, afirmou.

A fala da estudante da primeira turma do Já É, Thauany Christina Aniceto, foi inspiradora para o mineiro Rhyan Santos, da nova turma. Thauany, também mãe solo, está cursando Enfermagem e compartilhou a rotina intensa, que enfrenta diariamente: ela vive em Interlagos, extremo sul de São Paulo, e trabalha na Casa Verde, na zona norte. Acorda às 3h30 para começar às 6h, e depois do expediente dedica-se aos estudos, decidindo ao final se se alimenta ou descansa.

“Estar aqui com todo esse pessoal já é um prêmio. O depoimento da Thauany dá mais vontade na gente. Ela é mãe solo, lutou e conseguiu. Nós vamos conseguir também.”, afirmou Rhyan Santos.
O encontro foi um momento de fortalecimento de uma luta coletiva por equidade, reconhecimento e valorização da juventude negra. Como afirmou Giovanni Harvey, “mais do que corrigir desigualdades, queremos criar condições para que novas histórias de sucesso sejam escritas.”
