Uma das protagonistas do Comitê Impulsor Estadual da Marcha das Mulheres Negras no Tocantins, Maria Eunice da Conceição Silva, 59 anos, é ativista e participou da primeira Marcha das Mulheres Negras, em novembro de 2015, em Brasília. Nascida em São João dos Patos, no Maranhão, e filha de pais analfabetos, Eunice foi trabalhadora doméstica dos 15 aos 20 anos. A família saiu da cidade natal com destino a Araguaína, no Tocantins, buscando uma condição melhor de vida. Na época, Maria Eunice tinha apenas 14 anos. Mais crescida, conciliou o trabalho doméstico com os estudos e, em pouco tempo, tornou-se professora do ensino fundamental. Atualmente, é aposentada da rede municipal de Araguaína, mas ainda exerce atividades na rede estadual.
A Marcha das Mulheres Negras começou a fazer parte da vida dela quando atuava no Sindicato dos Profissionais da Educação em 2009. Como parceiro, o sindicato potencializou algumas atividades em Araguaína, fazendo com que Maria Eunice se encantasse com algumas das principais lutas que foi conhecendo. Quando soube da Marcha das Mulheres Negras, não hesitou. “Desde então eu quis ir! Eu precisava ir! Uma Marcha de Mulheres Pretas? Oxe! Como assim? Preciso ver! E fui! Que lindeza!”, afirma.
Ela também se recorda de uma senhora negra, cadeirante, e outra preta que empurrava a cadeira de rodas, e como elas choravam de felicidade por participar da Marcha. Essa imagem a marcou muito. “Chorei também por presenciar a força dela!” Eunice se sente uma nova pessoa a partir da Marcha de 2015. Afirma que se sentiu verdadeiramente preta e com a obrigação de lutar, de fazer com que outras mulheres entendessem a luta de uma mulher negra na sociedade.
Na ocasião, a ida até Brasília foi repleta de desafios, mas também de um sentimento de pertencimento. Junto com outras mulheres, viajou primeiro para Palmas e, de lá, seguiu até Brasília. Ficaram hospedadas no Estádio Mané Garrincha, que serviu como ponto de apoio para acesso ao básico – banho, higiene, etc. “Nunca imaginei um evento dessa magnitude e com tantas mulheres negras juntas. Eu senti pertencimento e me descobri negra! Era como se eu tomasse posse de um espaço que nunca havia sido meu. E agora, lá fosse meu lugar, meu povo, minha gente”, afirma.

Mobilizando o Tocantins
O Comitê Impulsor Estadual da Marcha das Mulheres Negras no Tocantins se estruturou em 2024 frente à necessidade de mobilização nacional para que as mulheres negras se organizassem e divulgassem suas ações e pautas. Atualmente composto por oito organizações, grupos e coletivos, o comitê reúne diversas mulheres e atua realizando ações políticas e de denúncia contra todas as formas de violência contra as mulheres negras.
O comitê se mobiliza com reuniões contínuas, duas por mês, que podem ser vivências de samba, saraus, feijoadas, rodas de conversa, mesas redondas e até encontros estaduais. A ideia é atrair mais mulheres para se engajarem em ações, como saúde integral, saúde mental, soberania alimentar, cuidado, justiça racial, espaços de poder, entre outras.
Para Janaina Costa Rodrigues, 42 anos, articuladora do comitê impulsor da MMN no Tocantins, e participante da Marcha de 2015, aquele ano deu o impulso para a criação de coletivos auto-organizados de mulheres negras.
“Mulheres negras são a vanguarda dos movimentos sociais”, afirma. Elas têm estratégias de ação participativa, pensam em qualidade de vida e políticas públicas para o conjunto da sociedade. Portanto, atender as reivindicações de mulheres negras é também pensar justiça para o Brasil. São essas mulheres que estão em diversas lutas sociais e com a presença delas garantimos uma nova sociedade mais inclusiva.”
Desde sua criação, em 2024, o comitê vem realizando atividades como encontros de formação, reuniões de articulação, mesas com temas como: “Bem viver na perspectiva das mulheres negras e quilombolas”, entre outras. Além de visitas institucionais para captação de parcerias, campanhas online e lançamentos das cartilhas sobre reparação e bem viver.
As ações previstas para os próximos meses são três rodas de conversa descentralizadas, com caráter formativo, pautando a temática central da Marcha: Reparação e Bem Viver. As atividades vão ocorrer em Araguaína, no quilombo Pé do Morro e no quilombo Ilha São Vicente. Além disso, ainda está prevista a realização da 2ª Feijoada das Pretas, que conta com o recurso financiado pelo Baobá – Fundo para Equidade Racial, o qual destinou 25 mil reais para o Comitê do Tocantins para que o mesmo viabilizasse e mobilizasse as atividades previstas. A 2º Feijoada será realizada em Palmas e em Araguaína, bem como a realização de visitas institucionais para captação de parcerias.
Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e do Comitê Impulsor do Tocantins e faça parte dessa mobilização!
Crédito: Acervo do Coletivo Ajunta Preta