“Filantropia com propósito é um sonho carregado de ação. Sem propósito, ela não passa de passatempo”

Conexões em Movimento, a newsletter mensal do Movimento Bem Maior, inspira filantropos, promove a troca de ideias e fortalece conexões para a justiça social. Neste mês, nossa conversa é com Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, uma das mais importantes instituições de promoção da equidade racial no Brasil.

Na filantropia, Giovanni Harvey é uma exceção que busca questionar as regras sob as quais o campo funciona. Ocupa uma posição singular, à frente de uma organização única no contexto brasileiro, o Fundo Baobá para Equidade Racial . Suas bases construídas nos movimentos sociais e na vivência como homem negro sustentam o pensamento crítico que marca sua trajetória.

Com 61 anos, Giovanni é de uma geração que se constituiu politicamente no final dos anos 1970, em meio ao fim do regime militar e às mobilizações pela redemocratização do país. Aproximou-se do movimento negro aos 17 anos — não apenas para “se associar”, mas, como ele diz, para “se alistar”, assumindo um compromisso vitalício com a causa.

Hoje, lidera um endowment que garante a sustentabilidade da própria organização e permite que toda captação seja destinada exclusivamente a ampliar as doações, enquanto o patrimônio continua crescendo. Ao mesmo tempo, atua para incidir sobre o ecossistema da filantropia, ocupando espaços de governança e atraindo novos investidores para agendas historicamente negligenciadas.

Na entrevista a seguir, Giovanni fala sobre os desafios e contradições do campo filantrópico, o conceito de “filantropia recreativa” e o que considera essencial para o amadurecimento do debate racial no Brasil.

  • Você provoca reflexões diretas sobre o papel da filantropia e do investimento social privado. Queria começar com uma que você trouxe no Congresso do GIFE, sobre “filantropia recreativa”. Como você vê essa prática no campo hoje?

Quando eu fui chamado pela Sueli Carneiro e pelo Hélio Santos para o Baobá, eu sou obrigado a refletir sobre qual é o meu papel como ativista político, qual é o papel dessa instituição e quais são as contradições nas quais a instituição está inserida.

Uma instituição que tem hoje 170 milhões de reais aplicados no mercado financeiro, comparativamente com outras instituições filantrópicas financeiras, é um fundo pequeno, mas está em uma condição completamente diferente das organizações do movimento negro tradicionais. Isso me empurra a olhar o que está sendo feito a minha volta.

Percebo que existem várias filantropias e que algumas não têm alinhamento com causa alguma. Se constituem em verdadeiros jardins de diversão, onde as pessoas muitas vezes estão mais preocupadas em ilustrar suas biografias, suprir suas próprias carências e preencher um determinado tipo de vazio do que, servir a uma causa.

Foi isso que chamei de uma filantropia sem propósito, uma filantropia recreativa. É como qualquer outra atividade na vida. Se eu não tenho objetivo claro para estudar, trabalhar, praticar uma atividade física… aquilo vira apenas recreação.

Gosto de uma formulação do futurista norte-americano Joel Barker: uma visão de futuro é um sonho carregado de ação, e um sonho que não gere ação é só um passatempo. Para mim, filantropia com propósito é um sonho carregado de ação; sem propósito, ela não passa de passatempo.

  • O Fundo Baobá tem uma trajetória singular — e, infelizmente, ainda ocupa um espaço único em termos de capacidade de investimento e articulação de organizações negras. De que forma vocês têm posicionado o Baobá no ecossistema atual?

Somos um fundo patrimonial independente, cuja gestão é feita integralmente por nossa equipe — liderada por Hebe Da Silva , uma mulher negra, do Mato Grosso. Nosso fundo patrimonial é de R$ 170 milhões, oriundos principalmente da Fundação Kellogg, Fundação Lemann , B3 , Mackenzie Scott e outros parceiros estratégicos. Além disso, gerimos cerca de R$ 20 milhões de recursos de terceiros, como Fundação Ford, Instituto Ibirapitanga , Open Society Foundations e Instituto Unibanco .

Ao longo de 15 anos, já doamos mais de R$ 22,4 milhões, via 23 editais, apoiando mais de 1.200 iniciativas em todas as regiões do país, nas áreas de educação, desenvolvimento econômico, comunicação, memória e direitos humanos. Estamos baseados em São Paulo, com uma equipe de 20 pessoas, e em breve teremos sede própria.

A própria Fundação Kellogg afirma não ter outra experiência semelhante à do Baobá em seu histórico. Mesmo no campo da equidade racial, há pouquíssimas iniciativas com essa capacidade de investimento e nosso objetivo é ampliá-la.

Nossa visão de futuro é alcançar R$ 250 milhões de fundo patrimonial até 2026/2027 e nosso endowment cresce porque reinvestimos anualmente 95% do rendimento médio dos últimos três anos, retirando no máximo 5%. Hoje já somos autossustentáveis operacionalmente, de modo que toda captação adicional é destinada exclusivamente a doações.

O segundo foco é a incidência sobre o ecossistema da filantropia. Participamos ativamente de redes como o GIFE e a Rede Comuá , que, no nosso entendimento, têm atuação complementar: o GIFE, mais voltado para o investimento social privado; e a Comuá, voltada para fundos independentes ligados à base social ou territorial. O Baobá é a única instituição da filantropia brasileira com assento no Conselho da Rede Comuá e no Conselho Deliberativo do GIFE, além de fazer parte de instâncias colegiadas e de gestão de várias outras organizações, como o Motriz , Todos Pela Educação e a Plataforma Alas, da Fundação Tide Setubal .

Buscamos incidir sobre o ecossistema levando nossa visão de filantropia e, muitas vezes, atraindo investidores ao colocar nosso próprio recurso à frente para que outros se engajem. Partimos do pressuposto de que, quando investimos, estamos enviando uma mensagem clara de que aquela agenda é importante. É o caso do apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, a mais antiga instituição filantrópica em operação no Brasil, e à Marcha das Mulheres Negras. No entanto, mesmo assim, quase ninguém mais colocou recursos.

No apoio à Marcha das Mulheres Negras, destinamos R$ 1,25 milhão, tornando-nos seu maior doador até agora. Comparando nosso tamanho com outras instituições, fica evidente a falta de alinhamento do campo com uma agenda de extrema importância e que, em 2025, será a maior manifestação popular de luta por direitos no Brasil, em novembro, em Brasília.

  • Como você enxerga essa distância que ainda existe entre grandes investidores sociais e os movimentos de base?

Eu acho que, primeiro, tem uma “financeirização”, uma absorção de uma cultura de mercado por várias dimensões da vida social. A educação, por exemplo. A linguagem no ambiente educacional está cada vez mais mercadológica. É “entrega”. Então, o aluno é avaliado pelas entregas que faz. Eu tenho severas críticas a esse tipo de linguagem. Acho que isso deseduca, isso adoece as pessoas.

Há uma “mercadologização” que está impregnando a sociedade brasileira. A filantropia começa a falar em entrega, não fala mais em causa. E, em alguma medida, passa a ser vista apenas como um campo de trabalho para o qual as pessoas podem migrar sem ter nenhum tipo de compromisso com causa alguma. Essas pessoas vão constituir burocracias que lidam com o investimento filantrópico e com o investimento social privado como se estivessem fabricando salsicha ou peça automotiva — sem perceber que estão lidando com pessoas, com anseios, com traumas, com lutas políticas, com processos históricos que, na maior parte das vezes, sequer são compreendidos.

Essa burocratização, falta de compreensão e despolitização fazem parte do pano de fundo dessa “recreação”. Nós nos contrapomos a isso. Defendemos filantropia com propósito. Não necessariamente o mesmo que o nosso, porque existe mais de um tipo. Toda filantropia é legítima. O que eu cobro é que se diga: “Eu faço filantropia para isso.” “Eu faço filantropia para a caridade, eu acredito que o assistencialismo é importante…” E é. Eu li a entrevista que Fernanda Camargo concedeu aqui em que ela diz que até certa linha, precisamos do assistencialismo para poder olhar para impacto. O primeiro impacto é ter oferta de comida.

Voltando à nossa visão: defendemos que quem faz filantropia coloque na mesa o que faz e para quê faz. E que tenha certa sofisticação intelectual para não cometer o equívoco — e eu falei isso no congresso do GIFE anterior — de confundir atender pessoas negras com enfrentar o racismo. Ter clientela negra não significa que a iniciativa enfrente o racismo. Posso apoiar iniciativas que atendem pessoas negras e, ainda assim, reproduzem relações de dominação.

É preciso que se diga: “Eu atendo pessoas negras para isso. Minha estratégia é essa, meu propósito é esse.” Eu não critico os propósitos. Critico a falta de transparência e a tentativa de confundir, fazendo uma análise equivocada que confunde público com causa.

  • Em ambientes da filantropia e do ISP, vemos que algumas pautas — especialmente equidade racial — quando colocadas na mesa geram desconforto e são questionadas sobre de fato serem endereçadas. A que você atribui esse fenômeno?

A questão racial, para nós, ativistas do movimento negro, não é uma escolha. Somos colocados cotidianamente diante de situações nas quais precisamos nos posicionar – porque se não o fizermos, ninguém fará. E, quando um problema real não é enfrentado, a omissão só o agrava.

O debate racial no Brasil está na origem da nossa constituição como sociedade, no período pós-abolição, que coincide com o processo de construção da República. Isso funda as relações no país e desconhecer esse contexto é um equívoco histórico profundo. Ao tratar as desigualdades étnicas como se ninguém tivesse responsabilidade sobre elas, cria-se a ilusão de que, por “não termos mais escravidão”, o problema se resolveria por geração espontânea. Mas não foi algo que surgiu espontaneamente; foi construído e reforçado por decisões políticas, incluindo decretos presidenciais.

Essa distorção histórica alimenta um imaginário — presente na literatura, na sociologia e até na filantropia — de que o problema da população negra se resolve com escolarização. A ideia de que brancos e ricos “vão salvar” negros oferecendo oportunidades é um subproduto dessa concepção. Em ambientes onde está pacificado que “o problema do negro é falta de escolarização” e que “a culpa é da escravidão, mas o presente nada tem a ver com isso”, qualquer tentativa de cobrar ação efetiva dos atores políticos provoca desconforto.

Inclusive na filantropia, que muitas vezes se vê num “faz de conta” de doar para iniciativas que, na prática, reproduzem desigualdades, formam para profissões obsoletas e que nem sequer arranham a concentração de renda. Não há debate real sobre temas estruturantes como rentismo, taxas de juros e distribuição de riqueza. Assim, exceções são tratadas como regra, usadas para legitimar a ideia de que, quem não conseguiu furar esses bloqueios é mal sucedido e que a responsabilidade, por isso, são delas.

  • Muitas lideranças negras se veem obrigadas a modular o tom, a linguagem e até omitir posicionamentos para conseguir “caber” em determinados espaços institucionais, mesmo na filantropia. É possível encontrar equilíbrio entre se fazer ouvir e manter a integridade do discurso?

Eu acho que é um desafio. E falo de um lugar confortável porque as condições do Baobá me permitem verbalizar coisas que sinto obrigação de dizer. Lembro de uma fala recente do presidente da República, na posse do atual presidente do BNDES. Ele disse: “Espero que você possa criticar as taxas de juros, porque eu não posso. Me elegi, e quando critico, gera problema. Alguém aqui precisa poder falar.”

Fazendo um paralelo: alguém precisa dizer determinadas coisas. Uma das contradições de uma sociedade que busca manter privilégios é a tentativa de silenciar as pessoas com a ilusão de algum benefício — pessoal ou institucional — se elas “se comportarem” e não afrontarem o status quo. Isso também acontece na filantropia. Lideranças de várias causas e segmentos modulam seu discurso para se tornarem “palatáveis” e aptas a receber recursos.

Não considero errado. Jamais cobraria de uma instituição que se inviabilizasse no ecossistema por não fazer algum tipo de modulação. Mas faltam sinais, especialmente do investimento social privado. Quanto mais o interesse empresarial impacta essa agenda, mais difícil é aceitar a crítica. Vejo mais abertura na filantropia, com exemplos como o de Neca Setubal , que reconhece que parte da fortuna da família tem origem em relações de dominação no passado — algo corajoso e coerente. Essa postura permite conversar sem o “bode na sala” que limita tantas discussões.

Mesmo no Baobá, não saio falando tudo o que penso. É uma questão de responsabilidade no ecossistema e de preservar um mínimo de civilidade. Venho de uma geração que aprendeu, no movimento estudantil, a respeitar quem pensa diferente. Críticas precisam ser feitas de forma respeitosa, sem a pretensão de sermos donos da verdade ou apontar o dedo o tempo todo. Precisamos buscar consensos, elevar o nível do debate e encontrar soluções sustentáveis e honestas, capazes de mostrar à sociedade que, mesmo em um país que mantém historicamente segmentos em posição subalterna, ainda é possível construir caminhos de mobilidade e mudança.

  • Em uma entrevista à Rede GIFE, você disse que “a subsistência de práticas ilusórias de inclusão de pessoas negras reflete o estágio de compreensão e da maturidade da sociedade brasileira”. Qual seria o passo possível nesse processo de amadurecimento?

Eu posso dizer a você, com todas as críticas que ainda faço à realidade brasileira, que me orgulho do estágio que o país alcançou no debate racial. Não imaginava que estaria vivo para ver a sociedade brasileira discutindo essa questão da forma como temos feito.

Demos saltos enormes na compreensão do tema, porque não poderia continuar sendo um debate restrito a nós, negros e negras — ele pertence à sociedade brasileira. Quando vejo, por exemplo, o Movimento Bem Maior, a Fundação Lemann, a Imaginable Futures pautando a questão racial, sinto orgulho.

Como próximos passos, acho que nós, movimento negro, e as pessoas comprometidas com essa causa, precisamos garantir que não haja retrocesso: que os espaços conquistados e a ampliação de atores e atrizes políticas que discutem o tema não recuem, garantindo que alianças estratégicas não retrocedam.

O segundo ponto é construir consensos mínimos: uma agenda qualificada que eduque sobre o que é, de fato, enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial, reduzindo a quantidade de pessoas que ainda acreditam que atender pessoas negras é o mesmo que enfrentar o racismo. O debate racial no Brasil exige estudo, esse é um debate científico, no sentido de que é preciso estudar história, sociologia… não depende de títulos acadêmicos para chegar nessa compreensão.

O terceiro ponto depende de todos, inclusive de nós, pessoas negras: precisamos nos apresentar para a sociedade como sujeitos que pensam o país, e não apenas nossos próprios problemas. Eu, como dirigente de organização social e ex-gestor público, sempre pensei a sociedade brasileira a partir do meu compromisso com soluções para a questão racial, mas sem restringir minha atuação a isso. O problema racial é o que mais me afeta, mas não é o único que existe.

As pessoas negras precisam discutir projetos de país, e as pessoas brancas em posições de gestão, seja monocrática ou colegiada, precisam se abrir a ouvir o que temos a dizer para além da questão racial. Eu, por exemplo, me recuso a ser o “bedel” que só fala sobre isso nos conselhos de que participo. Se o tema surge, muitas vezes fico calado. Quando me perguntam: “Você não vai se manifestar?”, respondo: “Quero ouvir o que vocês têm a dizer.”

Resumindo, são três pontos: não recuar, qualificar o debate para educar e discutir, conjuntamente, projetos para o país.

Entrevista e edição: Emanuely Lima / Analista de Comunicação no Movimento Bem Maior. Publicado originalmente na newsletter Conexões em Movimento, do Movimento Bem Maior. Fotos: Thalita Guimarães

Fundo Baobá lança a 2ª edição do Programa Marielle Franco

O Fundo Baobá, referência nacional no fortalecimento de iniciativas negras, acaba de lançar a segunda edição do “Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco”, de apoio individual. Inspirado no legado da vereadora que se tornou símbolo de resistência, o programa vai apoiar 30 mulheres negras – cis, trans ou travestis – em seus planos individuais de formação e fortalecimento de lideranças. Cada selecionada receberá uma bolsa mensal de R$3.500 durante 18 meses, que poderá ser usada para formações técnicas, políticas e socioemocionais, além de mentorias, aquisição de equipamentos e participação em eventos estratégicos.

A segunda edição do Programa Marielle Franco, realizada em parceria com a Fundação Kellogg, Fundação Ford, Open Society Foundation e Instituto Ibirapitanga, tem como objetivo ampliar a presença de mulheres negras em posições estratégicas de liderança política, social e econômica. 

Criado em 2019, o Programa Marielle Franco já apoiou 59 mulheres negras de 19 estados e do Distrito Federal, com idades entre 22 e 69 anos. Diversas  lideranças,das artes, ciência, direitos humanos e educação, ampliaram sua atuação com apoio do Baobá. 

Segundo Fernanda Lopes, diretora de Programa do Baobá, esta edição é mais uma oportunidade de impulsionar lideranças femininas negras comprometidas com o enfrentamento ao racismo patriarcal e a construção de uma sociedade justa. É também mais uma oportunidade de reafirmar o compromisso do Fundo Baobá em criar redes de apoio, ampliar a presença de mulheres negras em posições estratégicas e fortalecer suas trajetórias em diferentes áreas.

Ao impulsionar lideranças femininas negras em diferentes áreas do conhecimento, como ciência de dados, arquitetura, psicologia e engenharia, entre outras, o Fundo Baobá fortalece narrativas positivas sobre o protagonismo dessas mulheres e reafirma seu papel central na transformação do Brasil em uma sociedade mais equitativa.

Midiã Noelle, mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia, é a outra donatária da primeira edição. Em 2022, compartilhou sua experiência em um vídeo. “Fui uma das aceleradas do Programa Marielle Franco e foi uma experiência muito importante porque pude fortalecer minha liderança. Eu tinha o entendimento, fiz a minha proposição para entrar no processo, mas eu não reconhecia as minhas potencialidades individuais e como eu poderia construir o meu projeto de vida a partir daquilo que eu amo e acredito. O processo com o Baobá foi importante para eu entender, de fato, qual é meu compromisso comigo mesma”, disse. 

As inscrições para o Programa Marielle Franco: Apoio Individual são gratuitas e estão abertas de 11 de setembro a 14 de outubro no site https://baoba.org.br/home/programa-marielle-franco-apoio-individual/. O resultado final será divulgado em 09 de janeiro de 2026. 

Mulheres Negras do Piauí realizam atividades em territórios quilombolas para mobilização da 2ª Marcha de Mulheres Negras

Para ampliar e diversificar a mobilização nacional, o Comitê da Marcha das Mulheres Negras do Piauí tem intensificado os encontros com lideranças locais. No fim de agosto foram realizadas várias atividades na Comunidade Quilombola Arthur Passos, em Jerumenha (PI). Com a participação de mais de 300 pessoas das comunidades quilombolas de Brejo, Potes e Tapuio, foram debatidos temas como: Desafios e perspectivas na implementação da educação escolar quilombola, direitos humanos e justiça ambiental, defesa do território e soberania quilombola e Mulheres quilombolas na construção dos saberes e do bem-viver.

O Comitê do Piauí é composto por 32 organizações – de sindicatos a várias entidades do Movimento Negro. A construção da Segunda Marcha das Mulheres Negras 2025, que vai ocorrer em novembro, em Brasília, tem sido marcada pela força coletiva de mulheres que, em diferentes territórios do Brasil, reafirmam a centralidade da luta contra o racismo, o sexismo e todas as formas de opressão às mulheres negras. A quilombola Maria Rosalina dos Santos, 62 anos, tem se destacado nos encontros regionais organizados no Piauí ao compartilhar seus conhecimentos, que incluem sabedoria ancestral.

Para ela, um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas é a invisibilidade. E está intimamente ligado ao fato de que o processo histórico dessas mulheres é de marginalização social, econômica, política e cultural. Ainda que ocupem papel central na preservação da memória, na resistência comunitária e na defesa dos territórios, elas são frequentemente apagadas das narrativas oficiais e pouco representadas. A participação de mulheres quilombolas nesses encontros no Piauí reafirma a defesa do território, da cultura e do modo de vida comunitário.

Mais do que um espaço de organização, esses encontros regionais com as mulheres negras do Piauí são momentos de escuta, partilha e construção política. Para Maria Rosalina, a Marcha representa continuidade e esperança. E a certeza de que o caminho foi aberto em 2015 e segue pulsando e que, em 2025, envolverá mais vozes e histórias. Portanto, participar dos encontros regionais do Piauí é também garantir que as demandas das mulheres quilombolas – como acesso a políticas públicas, proteção dos territórios e valorização das tradições – estejam no centro da agenda da Marcha.

Com sua atuação, Maria Rosalina inspira novas gerações de mulheres a se organizarem, mostrando que a luta pela vida digna, pela memória e pelo futuro é um legado que atravessa o tempo. Sua voz, somada a tantas outras, reafirma que a Segunda Marcha das Mulheres Negras 2025 é uma construção coletiva que nasce a partir dos quilombos, das periferias, das aldeias e de todos os cantos do Brasil.

Ceça Santos, vice presidente da Comunidade Artur Passos

Halda Regina, principal responsável pelas atividades nesses territórios quilombolas, e representante do Comitê do Piauí, afirma que é importante priorizar a organização e participar dos encontros para conhecer melhor a trajetória dessas mulheres e suas lutas.“Não estamos sentadas, acomodadas, esperando que algum governante faça algo por nós. Somos nós, as mulheres negras, que vamos exigir dignidade e bem viver deste país. Foi duro presenciar a morte e a violência contra nosso povo, mas não estamos caladas. Nunca silenciamos”, afirma.

As ações previstas para os próximos meses são encontros de rodas de conversa descentralizados, com caráter formativo, pautando o tema central da Marcha nos municípios de Parnaíba e de Cocal, além de atividade com mulheres que professam religiões de matriz africana.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e do Comitê Impulsor do Piauí e faça parte dessa mobilização!

Encontro em São Paulo marca início da 2ª edição do Programa Já É

O Baobá – Fundo para Equidade Racial reuniu em São Paulo, na sede do Instituto Unibanco, os 30 estudantes selecionados para a 2ª edição do Programa Já É. Os jovens negros e negras, com idade entre 20 e 25 anos, receberão bolsas de estudo mensais no valor de R$ 700, durante 17 meses, para apoiar sua preparação em cursinhos pré-vestibular e ampliar as chances de ingresso em universidades públicas ou privadas.

Além do apoio financeiro, os estudantes contarão com mentoria coletiva e individual, acompanhamento psicológico e atividades formativas. O objetivo é reduzir as barreiras ao acesso e à permanência na universidade, levando em conta as diferentes realidades e trajetórias de cada participante. A seleção levou em conta a diversidade de perfis, como residentes de áreas rurais, comunidades quilombolas, pessoas com filhos e pessoas com deficiência. O encontro teve como objetivo discutir a trajetória que irão percorrer rumo ao ensino superior.

Primeira turma do Programa Já É

Esta segunda edição do Já É ampliou o alcance do Programa, apoiando estudantes de 13 estados brasileiros, entre eles Amapá, Ceará, Espírito Santo, Maranhão e Rio Grande do Sul. A primeira turma do Já É, formada por jovens de São Paulo e região metropolitana, já havia mostrado a força desse apoio: 32 foram aprovados em vestibulares, sendo 10 em universidades públicas, entre elas USP (Universidade de São Paulo), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O professor Ricardo Henriques, Superintendente Executivo do Instituto Unibanco, abriu o encontro de boas-vindas. “Nosso país naturaliza a desigualdade racial de forma absurda. Acessar o ensino superior no Brasil, para jovens negros, tem sido difícil. Mas vocês estão aqui para ir contra isso. Temos que ter negros e negras no ensino superior e influenciando de forma positiva nossa sociedade”, afirmou.  

Professor Ricardo Henriques, Superintendente Executivo do Instituto Unibanco

Embora a presença de pretos e pardos com ensino superior tenha quintuplicado em 22 anos, passando de 2,1% para 11,7%, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o índice ainda é menos da metade do registrado entre brancos (25,8%). Na primeira edição do Já É, realizada em 2021 durante a pandemia da Covid19, 32 participantes foram aprovados em vestibulares. 

O Diretor Executivo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, enalteceu a importância da formação educacional para entender nossa sociedade. “A universidade não é um fim em si mesma. Temos tarefas cada vez mais complexas para enfrentar e precisamos de pessoas com massa crítica para entender coisas que nunca vimos acontecer no nosso país”, disse.

Giovanni Harvey, Martha Rosa e Fernanda Lopes

Os estudantes compartilharam suas expectativas, como ter acesso a recursos, apoio emocional, superar a defasagem do ensino médio, aprimorar habilidades e, principalmente, inspirar outros jovens. Muitos deles vivem e enfrentam desafios comuns – falta de recursos financeiros, baixa qualidade da educação básica e a necessidade de trabalhar para ajudar suas famílias, fatores que dificultam a continuidade dos estudos. 

A Diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, refletiu sobre os desafios que os estudantes enfrentarão e o papel do programa em apoiá-los:: “Nos meses que vocês estiverem conosco, cada vitória de vocês será também nossa. Sabemos que ingressar na faculdade e permanecer nela é difícil, mas estamos aqui justamente para modificar esse quadro”, afirmou. 

A professora Martha Rosa lembrou que o aumento da presença de pessoas negras nas universidades é fruto de uma longa trajetória de luta. “Cabe a nós, mais velhos, contar e recontar a nossa perspectiva. Porque não foi fácil. No início do século, éramos 2% do público universitário e havia um distanciamento muito grande entre a gente e o mundo universitário. Hoje, porém, somos 12%. Então, precisamos ter na educação uma perspectiva interetnica”, disse.

Ana Carolina Silva, 21 anos, estudante selecionada no estado do Amapá.

Ana Carolina Silva, 21 anos, estudante selecionada no estado do Amapá, está muito feliz com a oportunidade, pois pretende cursar Direito e se tornar juíza.. “Desde pequena, por ter conhecido uma senhora que era juíza, eu só penso nisso. Nunca pensei em algo diferente e quero entrar na Universidade Federal do Amapá (Unifap) ou no Mackenzie, aqui em São Paulo. 

Lara Maria de Sousa, 24 anos, veio de Salvador (BA)  para o encontro do Já É. Está extremamente motivada, pois quer ter uma formação superior para proporcionar uma boa realidade de vida para a filha, Radassa, de 1 ano e 5 meses. Lara é mãe solo. “Quero fazer Jornalismo. Sou curiosa, gosto de aprender sobre outras culturas e sobre várias coisas. Desde criança meu objetivo é o Jornalismo. Agora, tenho essa meta também por minha filha. Eu quero dar um futuro para ela, eu quero mostrar que nós, mulheres pretas, também conseguimos. Mesmo sendo uma mãe solo a gente pode conseguir. Nunca é tarde para ir atrás dos nossos sonhos”, afirmou.

Lara Maria de Sousa, 24 anos, de Salvador (BA)

A fala da estudante da primeira turma do Já É, Thauany Christina Aniceto, foi inspiradora para o mineiro Rhyan Santos, da nova turma. Thauany, também mãe solo, está cursando Enfermagem e compartilhou a rotina intensa, que enfrenta diariamente: ela vive em Interlagos, extremo sul de São Paulo, e trabalha na Casa Verde, na zona norte. Acorda às 3h30 para começar às 6h, e depois do expediente dedica-se aos estudos, decidindo ao final se se alimenta ou descansa. 

Rhyan Santos. bolsista de Minas Gerais

“Estar aqui com todo esse pessoal já é um prêmio. O depoimento da Thauany dá mais vontade na gente. Ela é mãe solo, lutou e conseguiu. Nós vamos conseguir também.”, afirmou Rhyan Santos. 

O encontro foi um momento de fortalecimento de uma luta coletiva por equidade, reconhecimento e valorização da juventude negra. Como afirmou Giovanni Harvey, “mais do que corrigir desigualdades, queremos criar condições para que novas histórias de sucesso sejam escritas.”

Seu futuro começa aqui!

Graduação no exterior: essa pode ser a sua chance!

Descubra como estudar no exterior pode abrir portas para o futuro e transformar a realidade de pessoas negras.

Se você está considerando fazer uma graduação no exterior, saiba que essa decisão vai muito além do desenvolvimento acadêmico. Esse intercâmbio pode ser a chave para romper barreiras históricas, construir um futuro profissional sólido e abrir caminhos antes considerados impossíveis. O mundo está esperando por você, e você merece ocupar esse espaço, não só como aprendiz, mas também como protagonista na produção de conhecimento.

Para pessoas negras, essa jornada tem ainda mais potência: ao acessar espaços historicamente excludentes, sua presença transforma e amplia as possibilidades do que se entende por excelência acadêmica. A academia global tem muito a ganhar com a diversidade de experiências, saberes e perspectivas que você carrega.


Em áreas como Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), essa vivência pode ser especialmente impactante. Universidades internacionais oferecem infraestrutura de ponta, acesso a pesquisas avançadas e contato com especialistas do mundo todo. Tudo isso enquanto você se desenvolve pessoal e profissionalmente em um ambiente multicultural, contribuindo ativamente para o avanço do conhecimento em escala global.

Você já se perguntou se morar e estudar fora é para você?

É verdade que o caminho pode apresentar desafios – como o idioma, as burocracias ou a sensação de estar longe de casa. Mas é justamente ao encarar esses obstáculos que se abre espaço para o amadurecimento e a superação. Para cada barreira, existe uma rede de apoio, uma estratégia, uma solução possível.

O mais importante é saber que não é preciso estar completamente pronto para começar, mas sim disposto a dar o primeiro passo. Porque, mesmo com as dificuldades, existem inúmeras possibilidades esperando para serem exploradas. E você é capaz de alcançá-las. 

Por onde começar sua jornada internacional: um passo a passo

Sabemos que dar o primeiro passo pode parecer desafiador, então aqui vão algumas dicas práticas para começar:

  1. Defina seus objetivos: Quer fazer uma graduação completa ou pós-graduação? Um intercâmbio de curta duração? Um curso de verão? Seu objetivo deve estar alinhado com sua realidade atual: se você ainda está na graduação, é recém-formado ou já tem uma pós. Entender seu momento profissional é essencial para escolher o melhor caminho.
  2. Pesquise universidades e programas: Use sites como QS World University Rankings e Study Portals como ponto de partida. Mas o mais importante é verificar diretamente nos sites das universidades, salvar os contatos e não hesitar em perguntar: a comunidade acadêmica costuma ser bastante solícita.
  3. Mapeie os custos e busque bolsas de estudo: Existem bolsas parciais e integrais, públicas e privadas. Algumas dessas bolsas são fruto de parcerias entre universidades brasileiras — que podem incluir até a sua própria — e instituições estrangeiras. Outras bolsas você pode encontrar diretamente nos portais das universidades internacionais do seu interesse.
  4. Dedique-se ao aprendizado de idiomas: A proficiência em inglês ou em outros idiomas é um requisito essencial para acessar oportunidades acadêmicas internacionais. Ferramentas como Duolingo e cursos gratuitos podem ser aliadas importantes. Vale lembrar que, embora o inglês seja amplamente exigido, línguas como o espanhol e o francês também abrem muitas portas no universo da educação global, especialmente em países da América Latina, Europa e África. 
  5. Conecte-se com quem já fez: Buscar histórias de estudantes negros pode te inspirar e ajudar a entender melhor o caminho. Busque por vivências de outros estudantes nas redes sociais como Youtube, LinkedIn ou mesmo TikTok. Utilize o algoritmo a seu favor.

Conte com iniciativas que querem te ver brilhar!

O Black STEM, edital criado pelo Fundo Baobá, é uma dessas iniciativas que ajudam a transformar o sonho de uma graduação no exterior em realidade. Ele oferece bolsas, suporte acadêmico, apoio psicológico e cria uma rede de apoio desde a inscrição até a conclusão do curso.

Diovanna Aguiar, estudante de Ciência da Computação na New York University (NYU) em Xangai

“Eu estou aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo”

Diovanna Aguiar, estudante de Ciência da Computação na New York University (NYU) em Xangai, foi uma das primeiras pessoas contempladas pelo edital Black STEM. Em sua fala, ela destaca o impacto coletivo dessa conquista: “A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe, chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente, eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste de São Paulo na periferia, e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus, mas deles também”.

Diovanna também compartilhou como o apoio da família foi fundamental: “Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira a aprender inglês. Quando eu dizia que queria ir para Nova York, ninguém da minha família achava que inglês era necessário. Mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, eles me apoiaram”.

Por isso, o objetivo vai além de garantir acesso: é também fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovações e a valorização de saberes diversos. Assim como Diovanna Aguiar está realizando o sonho de estudar no exterior, você também pode – e merece – tornar o seu sonho realidade.

Saiba mais sobre o Black STEM e dê o primeiro passo rumo à sua graduação no exterior.

Siga a Diovanna para acompanhar sua jornada na universidade. 

A hora é agora. O mundo te espera, e você tem tudo para chegar lá!

O sonho de estudar nas melhores universidades do mundo continua ganhando novos capítulos. A 2ª edição do Programa Black STEM, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial em parceria com a B3 Social, acaba de selecionar quatro jovens negros que, a partir de 2025, vão levar sua inteligência, talento e história para além das fronteiras do Brasil.

🌍 Eles são os protagonistas dessa nova jornada:

Enio Ferreira Barbosa (Salvador, BA) – Ciência da Computação, Stanford University (EUA)

Gabriel Hemetrio de Menezes (Belo Horizonte, MG) – Física e Ciência da Computação, Massachusetts Institute of Technology – MIT (EUA)

Gabriela Torreão Marques Ferreira (Fortaleza, CE) – Engenharia Química e Biomolecular, University of Notre Dame (EUA)

Maria Luiza Storck Ferreira (Rio de Janeiro, RJ) – Engenharia Química, Universidad de Jaén (Espanha)

Gabriela Torreão, Gabriel Hemetrio, Maria Luiza Storck e Enio Ferreira

Mais do que bolsas de estudo, o programa oferece apoio financeiro, mentoria e uma rede que acredita no poder da educação para transformar realidades. Cada passo que eles derem no exterior será também um passo para abrir portas a quem virá depois.O Black STEM não forma apenas estudantes. Forma referências.

🔗 Saiba mais sobre o Black STEM e dê o primeiro passo rumo à sua graduação no exterior.
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Sulamita Silva, donatária da primeira edição do Programa Marielle Franco, compartilha sua experiência de crescimento

Uma tomada de decisão. Algo simples, que pode mudar uma história de vida. Está sendo assim com a  volta redondense, Sulamita Silva. Em 2019, após uma conversa com as amigas, ela ficou sabendo que o Baobá – Fundo para Equidade Racial havia lançado o edital do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.  O objetivo do programa é ampliar a presença de mulheres negras em posições de poder e influência. Para isso, o Fundo Baobá investiu em seus planos de desenvolvimento individual, fortalecendo habilidades técnicas e políticas para que pudessem potencializar seu impacto em diferentes setores de atuação.

O desejo de Sulamita, graduada em Pedagogia, era ser professora universitária e fazer doutorado em Educação. Para alcançar esse objetivo, ela teria que desenvolver a liderança, habilidade que ainda não dominava. “Eu sabia que tinha um potencial adormecido. Comecei a despertar sobre esse potencial de liderança quando gravei o vídeo para o Baobá sobre o projeto e me vi no vídeo”,   afirma Sulamita, que foi uma das selecionadas no edital individual da primeira edição do Programa Marielle Franco. 

O edital do Programa Marielle Franco foi dividido em dois segmentos em 2019. O primeiro destinou-se ao apoio individual de mulheres negras, e o segundo ao fortalecimento de organizações, grupos e coletivos de mulheres negras. Um número de 63 mulheres foi selecionado. Dessas, 59, entre elas Sulamita, receberam o apoio financeiro que o Fundo Baobá destinou a cada uma no projeto. Cada participante contemplada no edital individual recebeu o investimento de R$ 40 mil. Além do recurso financeiro, as apoiadas participaram de um conjunto completo de formações, mentorias e espaços de fortalecimento político e emocional. Os números são grandiosos: foram cerca de 1.000 atividades de compartilhamento de conhecimento, mais de 300 sessões de coaching individual, 15 horas dedicadas ao enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e 42 horas de formação política.

Esse conjunto de informações deu a ela  confiança para arriscar e buscar suas metas. A primeira conquista foi ser aprovada no concurso público para professora na Universidade Federal do Acre (UFAC), fala, com contentamento. A segunda conquista veio com a mudança do Acre para São Paulo em 2022, quando ela já havia iniciado o doutorado no formato virtual. Naquele ano, mudou-se para cursar algumas disciplinas presencialmente na USP (Universidade de São Paulo). “Ainda estou cursando o doutorado. Ele começou no formato virtual, mas depois voltou ao presencial. Em 2023 fui convocada no concurso para professora na UFAC, retornei ao Acre, onde minha pesquisa está sendo desenvolvida”, fala.

As atividades envolvendo a conclusão do doutorado, previsto para acontecer em 2026, têm tomado a atenção de Sulamita “Eu pretendo, assim que finalizar a etapa da tese de doutorado, iniciar novos projetos, abrangendo mais mulheres”, afirma. 

Como donatária da primeira edição do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco e reforçando a ideia de compartilhar conhecimento, Sulamita deixa um recado para as interessadas em participar da segunda edição do programa, que tem previsão de lançamento em setembro: “Aproveitem para realizar os seus sonhos profissionais sem medo. Projetem o que vocês querem a curto, médio e longo prazo de modo realista e possível, de acordo com o orçamento disponibilizado, tendo como suporte o Fundo Baobá. Almejem uma preparação para algo mais consolidado e fixo, para depois darem continuidade aos sonhos que podem ser realizados com uma base já fortalecida.”

Programa Black STEM apresenta nova turma de bolsistas em São Paulo

Quatro novos bolsistas se uniram aos cinco pioneiros da 1ª edição do programa, que oferece bolsas de estudo para graduação no exterior.

Em evento realizado na B3, a bolsa do Brasil, localizada na região central de São Paulo, o Baobá – Fundo para Equidade Racial, e a B3 Social apresentaram quatro bolsistas selecionados na segunda edição do Programa Black STEM. Os estudantes foram aceitos por universidades nos Estados Unidos e na Europa e terão o apoio complementar do Black STEM para custear suas despesas no exterior. 

O programa Black STEM tem como objetivo apoiar a permanência de pessoas negras em cursos de graduação no exterior, especificamente nas áreas STEM, que englobam Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

 O histórico

Em 2025, o Programa mantém seu propósito: quatro novos bolsistas foram selecionados por especialistas em STEM,  Psicologia e Educação. Cada um receberá uma bolsa de R$35 mil anuais para custear moradia, transporte, alimentação, mensalidades e material acadêmico. As bolsas são renovadas anualmente até o estudante concluir o curso. Conheça as pessoas selecionadas: 

Enio Ferreira Barbosa (Salvador/BA): Ciência da Computação na Stanford University, EUA.

●    Gabriel Hemetrio de Menezes (Belo Horizonte/MG): Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – MIT, EUA

●    Gabriela Torreão Marques Ferreira (Fortaleza/CE): Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame, EUA

Maria Luiza Storck Ferreira (Rio de Janeiro/RJ): Engenharia Química na Universidad de Jaén, Espanha

Trajetórias negras na ciência

A história das ciências exatas no Brasil é marcada por contribuições fundamentais de profissionais negros. Alguns nomes se destacam: Sonia Guimarães, física e professora no Instituto Tecnológico da  Aeronáutica (ITA); Enedina Alves, primeira mulher negra a concluir o curso de Engenharia no Brasil em 1945; os irmãos engenheiros André e Antônio Rebouças, engenheiros que revolucionaram a infraestrutura urbana no século XIX, e Simone Evaristo, bióloga cujas pesquisas no Instituto Nacional do Câncer (INCA) avançaram no combate à doença.

Sonhar sem fronteiras

A trajetória desses jovens prova que estudar no exterior é possível e transformador. Além de ampliar os próprios horizontes, contribuirão para a produção de conhecimento na academia global e ainda se tornarão inspiração para outras pessoas que desejam seguir o mesmo caminho. O Black STEM não apenas abre portas, mas constrói pontes. Como parte de um movimento maior pela equidade na educação, o edital transforma o sonho de fazer graduação no exterior em realidade concreta para estudantes negros. Desde 2024, os primeiros bolsistas já vivem essa experiência – cada trajetória acadêmica internacional não só amplia seus horizontes individuais, mas se torna farol para quem vem depois.

Com muita emoção diante de seus pais e familiares, os estudantes selecionados pelo edital Black STEM puderam vislumbrar os caminhos profissionais que irão seguir depois de formados. Maria Luiza Storck Ferreira creditou a uma professora do Ensino Médio, Claudia, o incentivo que a apoiou em Química.“Com isso, eu talvez me fixe na área da cosmetologia. Estudar a pele negra e ver quais produtos podem ser desenvolvidos.” 

Gabriel Hemetrio de Menezes confessou ser curioso desde pequeno e isso o levou a desenvolver o interesse pela Física. “Eu queria saber de tudo: por que as estrelas brilhavam? Por que existia o arco-íris? Isso foi me levando a pesquisar e, a partir daí, consegui resultados expressivos em olimpíadas científicas. Quero me aprofundar em Física Quântica e Cosmologia”. Gabriela Torreão Marques Ferreira, por sua vez, aprendeu a explorar os jogos de lógica até descobrir a Química. “Na química descobri uma espécie de quebra-cabeça que eu seria capaz de resolver. Meu desejo é me especializar em nanotecnologia e criar remédios para ajudar as pessoas a tratarem suas doenças.” 

Enio Ferreira Barbosa teve em uma conterrânea baiana a sua inspiração. “Certa vez li sobre Georgia Gabriela, uma menina na Bahia que foi aprovada em nove universidades americanas e optou por Stanford. Optei por Stanford naquela oportunidade”. A fala dele reflete o pensamento dos alunos sobre a importância das bolsas Black STEM em suas trajetórias. “O edital me dá a tranquilidade de ter uma rede de apoio. Nossa missão, como estudantes, é técnica. Mas ela também tem um lado social. Nós vamos para um ambiente de elite, mas não vamos negligenciar nossa origem, nossa raça e nossos valores”, afirmou. 

Continuidade

Mais do que um programa, é o início de um ciclo: em 2026, o Fundo Baobá seguirá fomentando o acesso às universidades do mundo todo, fortalecendo a presença negra nas áreas STEM – onde a população negra brasileira sempre contribuiu, muitas vezes como pioneira. Aqui, permanência e excelência acadêmica andam juntas, com apoio financeiro e mentorias para a permanência no ambiente acadêmico.

Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Baobá – Fundo para Equidade Racial, comenta sobre a segunda turma do Programa Black STEM:  “Projeto nenhum produz resultado sozinho. É a somatória que vem produzir resultados. O Baobá assumiu com a B3 o compromisso de descentralizar oportunidades. O sentido do investimento que estamos fazendo está voltado para onde o conhecimento negro vai fazer a diferença.”

Fabiana Prianti, head da B3 Social, coinvestidora do Programa, destacou o impacto estratégico desse investimento: “a B3 Social acredita no poder transformador da educação como caminho para o desenvolvimento econômico sustentável e, como consequência, para a equidade racial. Apoiar o Black STEM representa a oportunidade de contribuir para a formação de uma nova geração de talentos diversos, impulsionando mudanças reais no acesso ao conhecimento e ao mercado. Projetos como esse ampliam horizontes, rompem barreiras históricas e mostram que diversidade e inovação caminham juntas.”

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, reforçou a importância do programa. “O Black STEM tem a ousadia de ampliar o universo dos direitos. 18% dos profissionais de STEM no país são negros. Esperamos que quando esses estudantes regressarem, voltem com o compromisso de alavancar essa presença e alavancar as tecnologias nacionais.”

Mulheres do Comitê impulsor do Tocantins compartilham experiências da Marcha 2025

Uma das protagonistas do Comitê Impulsor Estadual da Marcha das Mulheres Negras no Tocantins, Maria Eunice da Conceição Silva, 59 anos, é ativista e participou da primeira Marcha das Mulheres Negras, em novembro de 2015, em Brasília. Nascida em São João dos Patos, no Maranhão, e filha de pais analfabetos, Eunice foi trabalhadora doméstica dos 15 aos 20 anos. A família saiu da cidade natal com destino a Araguaína, no Tocantins, buscando uma condição melhor de vida. Na época, Maria Eunice tinha apenas 14 anos. Mais crescida, conciliou o trabalho doméstico com os estudos e, em pouco tempo, tornou-se professora do ensino fundamental. Atualmente, é aposentada da rede municipal de Araguaína, mas ainda exerce atividades na rede estadual.

A Marcha das Mulheres Negras começou a fazer parte da vida dela quando atuava no Sindicato dos Profissionais da Educação em 2009. Como parceiro, o sindicato potencializou algumas atividades em Araguaína, fazendo com que Maria Eunice se encantasse com algumas das principais lutas que foi conhecendo. Quando soube da Marcha das Mulheres Negras, não hesitou. “Desde então eu quis ir! Eu precisava ir! Uma Marcha de Mulheres Pretas? Oxe! Como assim? Preciso ver! E fui! Que lindeza!”, afirma.

Ela também se recorda de uma senhora negra, cadeirante, e outra preta que empurrava a cadeira de rodas, e como elas choravam de felicidade por participar da Marcha. Essa imagem a marcou muito. “Chorei também por presenciar a força dela!” Eunice se sente uma nova pessoa a partir da Marcha de 2015. Afirma que se sentiu verdadeiramente preta e  com a obrigação de lutar, de fazer com que outras mulheres entendessem a luta de uma mulher negra na sociedade.

Na ocasião, a ida até Brasília foi repleta de desafios, mas também de um sentimento de pertencimento. Junto com outras mulheres, viajou primeiro para Palmas e, de lá, seguiu até Brasília. Ficaram hospedadas no Estádio Mané Garrincha, que serviu como ponto de apoio para acesso ao básico – banho, higiene, etc. “Nunca imaginei um evento dessa magnitude e com tantas mulheres negras juntas. Eu senti pertencimento  e me descobri negra! Era como se eu tomasse posse de um espaço que nunca havia sido meu. E agora, lá fosse meu lugar, meu povo, minha gente”, afirma.

Mobilizando o Tocantins

O Comitê Impulsor Estadual da Marcha das Mulheres Negras no Tocantins se estruturou em 2024 frente à necessidade de mobilização nacional para que as mulheres negras se organizassem e divulgassem suas ações e pautas. Atualmente composto por oito organizações, grupos e coletivos, o comitê reúne diversas mulheres e atua realizando  ações políticas e de denúncia contra todas as formas de violência contra as mulheres negras.


O comitê se mobiliza com reuniões contínuas, duas por mês, que podem ser vivências de samba, saraus, feijoadas, rodas de conversa, mesas redondas e até encontros estaduais. A ideia é atrair mais mulheres para se engajarem em ações, como saúde integral, saúde mental, soberania alimentar, cuidado, justiça racial, espaços de poder, entre outras.

Para Janaina Costa Rodrigues, 42 anos, articuladora do comitê impulsor da MMN no Tocantins, e participante da Marcha de 2015, aquele ano deu o impulso para a criação de coletivos auto-organizados de mulheres negras. 

“Mulheres negras são a vanguarda dos movimentos sociais”, afirma. Elas têm estratégias de ação participativa, pensam em qualidade de vida e políticas públicas para o conjunto da sociedade. Portanto, atender as reivindicações de mulheres negras é também pensar justiça para o Brasil. São essas mulheres que estão em diversas lutas sociais e com a presença delas garantimos uma nova sociedade mais inclusiva.”

Desde sua criação, em 2024, o comitê vem realizando atividades como encontros de formação, reuniões de articulação, mesas com temas como: “Bem viver na perspectiva das mulheres negras e quilombolas”, entre outras. Além de visitas institucionais para captação de parcerias, campanhas online e lançamentos das cartilhas sobre reparação e bem viver. 

As ações previstas para os próximos meses são três rodas de conversa descentralizadas, com caráter formativo, pautando a temática central da Marcha: Reparação e Bem Viver. As atividades vão ocorrer em Araguaína, no quilombo Pé do Morro e no quilombo Ilha São Vicente. Além disso, ainda está prevista a realização da 2ª Feijoada das Pretas, que conta com o recurso financiado pelo Baobá – Fundo para Equidade Racial, o qual destinou 25 mil reais para o Comitê do Tocantins para que o mesmo viabilizasse e mobilizasse as atividades previstas. A 2º Feijoada será realizada em Palmas e em Araguaína, bem como a realização de visitas institucionais para captação de parcerias. 

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e do Comitê Impulsor do Tocantins e faça parte dessa mobilização!

Crédito: Acervo do Coletivo Ajunta Preta

A pernambucana Daniela Marreira comemora conquista profissional alcançada por meio do  edital Carreiras em Movimento

“Quero seguir focando na área de Operations for Tech (Operações para Tecnologia). Hoje, sou reconhecida como referência técnica no meu time, exatamente o que almejei ao definir minha meta no edital”. 

Essa afirmação tão segura é da pernambucana Daniela Marreira, 31 anos. Os termos em inglês, que hoje fazem parte do seu dia a dia, eram desconhecidos há cinco anos, quando deu início ao projeto de transição de carreira.

Graduada em Comunicação, com habilitação em Rádio, TV e Internet, Daniela atuava como Gestora de Projetos na área cultural. Filha de uma comerciante, Luciana, e de um professor, Abraão, ela tem dois irmãos mais novos: Débora, de 23 anos, e Abraão, de 21. Atualmente, vive com sua companheira, Ana, e a gata de estimação, Pavê.

Quando criança, era parte de uma família diferente da maioria. Seu pai cuidava dela e dos irmãos, já que a mãe trabalhava no comércio. Estudou o ensino fundamental em um grande colégio de Recife e fez o fundamental 2  no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE). Saiu de lá em 2013, após prestar o vestibular e entrar na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

A interrupção da trajetória de Daniela foi brusca. A pandemia da COVID praticamente paralisou o setor cultural e de eventos, onde ela atuava. A palavra de ordem passou a ser reinventar-se. Daniela, então, foi buscar outra profissão. 

“Com  a chegada da pandemia e o congelamento total da área de eventos e cultura, acabei descobrindo a área de design, pela qual me apaixonei e iniciei o processo de migração de carreira no início de 2021. Com o dinheiro que havia recebido após ser dispensada do trabalho por conta da pandemia, comprei meu primeiro notebook e um curso livre de design. Tive a oportunidade de ter como mentora uma designer negra maravilhosa chamada Evelyn Silva. Ela me ajudou a conseguir minha primeira oportunidade na área”, relembra.

Quando a empresa onde trabalhava passou por um layoff, Daniela viu ali não um fim, mas um caminho: iria especializar-se ainda mais em design. O entrave era o nível de inglês que era bom para leitura, mas não fluente o bastante para conduzir uma reunião de trabalho, por exemplo. 

“Este gap na minha formação me incomodava, principalmente pensando na evolução de minha carreira. Foi quando vi uma publicação sobre o edital Carreiras em Movimento no Linkedin”, diz a pernambucana. 

Lançado em 2023 pelo Baobá – Fundo para Equidade Racial, o edital Carreiras em Movimento ofereceu apoio financeiro (de R$5 mil a R$10 mil) para pessoas negras em todo o Brasil desenvolverem competências técnicas, habilidades socioemocionais e comportamentais. O objetivo do edital é reduzir desigualdades e ampliar as oportunidades de empregabilidade para pessoas negras no mercado privado. 

Daniela Marreira empregou o dinheiro que recebeu (R$10 mil) em seu aperfeiçoamento pessoal. “Utilizei 60% do recurso em aulas de conversação em inglês e os outros 40% na aquisição de equipamentos, para não depender exclusivamente de equipamentos da empresa,  e em cursos livres complementares”, revela. Após esse investimento, ela comemora sua vitória, pois conseguiu emprego em uma empresa global de design:  “Eu me inscrevi para a vaga, fui selecionada, consegui o nível C2 no teste de proficiência em inglês. Hoje, sou Senior Product Operations (Operadora Sênior de Produtos) e não teria conseguido a vaga se não fosse o incentivo recebido pelo edital Carreiras em Movimento, que me permitiu focar meu inglês”, comemora.

Assim como a pernambucana Daniela Marreira, um número significativo de pessoas e organizações negras já foram ajudadas pelo Baobá – Fundo para Equidade Racial. Foram 23 editais lançados, com mais de 1.203 iniciativas apoiadas nas áreas da Educação, Desenvolvimento Econômico, Comunicação & Memória e  Viver com Dignidade. Mais de R$22,4 milhões foram doados. Para doar, acesse o site do Fundo Baobá: www.baoba.org.br .

Crédito: Arquivo Pessoal

Melissa Simplício: a estudante brasileira apaixonada por educação

Conheça a trajetória da estudante brasileira selecionada pelo  edital BlackSTEM que cursa Ciência da Computação na New York University

Carioca da gema, cria da Zona Norte e com apenas 21 anos, Melissa Simplício estuda Ciência da Computação na New York University e segue construindo pontes e abrindo caminhos mundo afora. Ela é uma das cinco selecionadas da primeira edição do edital Black STEM, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial, com parceria da B3, que concede bolsas complementares a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior nas áreas STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). 

Desde criança, Melissa alimentava o desejo de aprender e explorar o mundo. Ela cresceu com a mãe oferecendo estímulos, como jogos educacionais – de memória em inglês, quebra-cabeça, programas como “De Onde Vem” e até Dora, a Aventureira. Até as comidas que faziam parte do seu cardápio na infância não eram originalmente brasileiras, o que a fascinava. Ela adorava pesquisar palavras do português com origem no tupi-guarani e até estrangeirismos que desafiavam seu inglês, aprendido no YouTube. Para ela e graças à criação que teve, fazia sentido ampliar seu círculo e seus conhecimentos. 

Desenvolveu então a curiosidade pelo que existia além do Brasil. Portanto, a escolha pelo curso de Ciência da Computação, para uma típica garota da geração Z, que cresceu cercada de tecnologia, abrindo o computador de casa e explorando suas peças, foi natural.

No nono ano, ainda no ensino médio, ela deu um passo significativo e começou a explorar a pesquisa com ciência de dados, trabalhando com a linguagem R, uma linguagem de programação em um ambiente de software. Ali teve a certeza: no mínimo, queria seguir na área de análise de dados. Antes da pandemia, ela já tinha três viagens internacionais marcadas com apoio de programas globais, como Girl Up, Women Deliver e LALA. Também durante a pandemia surgiu a oportunidade de participar de um programa online no qual aprendeu a programar um site do zero, aprofundando seus conhecimentos em ciência da computação. 


“Fiquei encantada com a flexibilidade da área – a possibilidade de ser analista de dados, desenvolvedora web, especialista em inteligência artificial e até gerente de projetos. Sem falar nas oportunidades de trabalho remoto, caminhos para o empreendedorismo e a alta remuneração”, afirma Melissa. Desde então, o mundo se tornou sua sala de aula. Ela já trabalhou com governos locais na Argentina, viajou para Ruanda e Etiópia, conheceu a Suíça, a Inglaterra e a Espanha, entre outros países.

Com relação à rotina puxada de estudos, ela concilia o tempo entre projetos de programação e deveres de casa. O que realmente a ajudou a manter o ritmo foi criar pequenos rituais para não cair na monotonia: toda semana muda de ambiente para estudar. Uma semana elege a biblioteca, na outra vai para o Kimmel ou explora cafeterias perto de casa. Melissa afirma que essa mudança de cenário renova a energia e a ajuda a manter o foco.

Em 2024, Melissa se tornou uma das bolsistas selecionadas na primeira edição do Programa Black STEM. A bolsa tem sido fundamental, pois ajuda a cobrir custos universitários que vão além da anuidade – como passagens aéreas de ida e volta para o Brasil, transporte e outras despesas do dia a dia. Esse apoio proporciona tempo e flexibilidade que não seria possível sem o apoio da bolsa, pois ela consegue liderar clubes universitários, participar de conferências e competições acadêmicas.

Melissa deixa para outros estudantes brasileiros um recado importante. Pede que se movimentem. “Busquem entender o processo, se preparem com atividades extracurriculares, estudos e tudo o que puder fortalecer sua candidatura. Não esperem que alguém entregue o ‘manual completo’ de A a Z – a chave é pesquisar por conta própria, se informar ao máximo e fazer perguntas específicas e bem pensadas para quem já está estudando fora.”

Reforça que não existem fórmulas mágicas. “Cada trajetória é única e as escolhas que funcionaram para uma pessoa podem não ser as ideais para a  outra. Apenas não tenham medo de dar o primeiro passo”, afirma.
Para mais informações sobre o edital Black STEM, acesse o link: https://baoba.org.br/blackstem-2edicao/.

Crédito: Arquivo Pessoal

Mulheres negras, latino-americanas e caribenhas convocam à mobilização política e à participação na Marcha de novembro

O 25 de  julho atravessa fronteiras, une lutas e ecoa histórias silenciadas

Em 25 de julho foi celebrado o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, data instituída em 1992 durante um encontro de mulheres afro-Latinas-Americanas e afro-caribenhas na República Dominicana. No Brasil, a data também é comemorada e marca o Dia Nacional da Mulher Negra, em homenagem à Teresa de Benguela – líder quilombola que foi símbolo da resistência negra no século XVIII.

A 13ª edição do Julho das Pretas é um momento de reflexão profunda, reconhecimento, memória e ancestralidade feminina, que são fundamentais para dar visibilidade às pautas históricas e atuais dessas mulheres. É neste contexto que ganha destaque a II Marcha das Mulheres Negras — Por Reparação e Bem Viver, em fase de organização e mobilização em todo o país. Prevista para ocorrer em Brasília, no próximo dia 25 de novembro, a Marcha tem expectativa de reunir um milhão de mulheres negras e estrangeiras, reforçando seu protagonismo na luta por justiça racial, social, climática e de gênero.

Na organização dessas ações estão os Comitês Impulsores Estaduais, Regionais e Municipais, organizados por Unidade Federativa e Coordenados por articulações como AMNB (Articulação de Organizações de Mulheres Negras), Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Rede Fulanas (Amazônia), Fórum Nacional de Mulheres Negras, CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), entre outros.

Diante da convocação nacional para a II Marcha, diversas mulheres negras, quilombolas, LGBTs, religiosas de matriz africana, entre outras, marcharam no dia 25 de julho em várias cidades do país: Belém (PA), Eusébio (CE), Feira de Santana (BA), Garanhus (PE), João Pessoa (PB), Maceió (AL), Manaus (AM), Pelotas (RS), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São José do Rio Preto (SP), São Luís (MA), São Paulo (SP) e Teresina (PI). E Além disso, os comitês organizaram atividades diversas. 

O comitê estadual do Amazonas, por exemplo, garantiu presença na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com atividades como Oficina de Carimbó, Oficina de Tranças, Oficina de Colorismo e um convite especial para um evento da Associação dos Docentes da Universidade. Nesse dia, a professora e diretora da Faculdade de Psicologia – FAPSI, Iolete Ribeiro, que também é membro do Comitê Amazonense da Marcha das Mulheres Negras, aproveitou para destacar a necessidade de mobilização e organização da Marcha em novembro.

Já O Antonietas Em Marcha Santa Catarina realizou, no decorrer de julho, rodas de conversa, palestras e encontros regionais no Vale do Itajaí. As mulheres presentes reafirmaram que suas caminhadas pessoais são um ato político diário, pois resistem cotidianamente a um estado branco e conservador. Ainda na Região Sul, o Comitê de Mulheres Negras do Rio Grande do Sul participou do programa “Vozes dos Quilombos” – na rádio Negritudes, além de uma roda de conversa com o tema: Tecendo caminhos para a Marcha das Mulheres Negras na Faculdade de Educação da  UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). 

No Comitê Impulsor Estadual de São Paulo, diversas cidades também realizaram encontros regionais, como Campinas e o ABC, que promoveram atividades como Oficina de Políticas de Cuidado e Autocuidado na Perspectiva do Bem Viver, com a Mestra Reisa Cristiane de Paula Venancio, formada em Ciências da Motricidade pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) e uma live com o tema Justiça ambiental e bem viver: jovens e mulheres negras em marcha por um novo pacto civilizatório. No encontro virtual, foi possível criar um espaço de reflexão coletiva sobre justiça climática, interseccionalidade de gênero, raça, território e o protagonismo de jovens e mulheres negras na construção de futuros sustentáveis.

Em Feira de Santana, na Bahia, dez anos após a primeira caravana, as portas do sertão se abriram novamente para o fortalecimento das mulheres negras de toda Bahia. O Comitê Impulsor do Território Portal do Sertão convocou todas as mulheres para se reunirem e pensarem juntas o planejamento e a mobilização da Marcha que irá ocorrer em novembro. 

No Centro-Oeste, em Mato Grosso, também ocorreram encontros regionais em Cuiabá e no município de Sinop, além de rodas de conversa com a Comunidade de Matriz Africana do Candomblé e Umbanda, no Centro Histórico de Cuiabá. Houve também incidências nas ruas da Cidade de Cáceres, com distribuição de panfletos de esclarecimento sobre a Marcha.

A Marcha Nacional das Mulheres Negras está sendo construída de norte a sul do Brasil e já conta com núcleos de mobilização internacional em 35 países, sendo uma importante ferramenta de mobilização política e de denúncia. Por conta da mobilização que gera, o evento também abre espaço para a discussão de ações concretas para o enfrentamento das múltiplas formas de opressão que atravessam a vida das mulheres negras no Brasil. E o Baobá – Fundo para Equidade Racial apoia essa luta reafirmando seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Crédito: Arquivo Pessoal

Bolsas complementares no exterior: apoio a estudantes negros e indígenas

Edital para bolsas complementares de mestrado e doutorado no exterior contou com apoio do Fundo Baobá

A parceria estabelecida entre o Baobá – Fundo para Equidade Racial e a Fundação Lemann em Educação vai possibilitar a estudantes negros e negras brasileiros a oportunidade de obter uma bolsa complementar, um apoio financeiro importante para aqueles que estão cursando mestrado e doutorado em universidades fora do país.

Um estudo de 2023 da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) gerou o relatório Dados de Diversificação: Insights para Instituições de Ensino Superior, que observou, naquela oportunidade, que havia cerca de 90 mil brasileiros (88,7 mil) cursando graduação, pós-graduação, mestrado ou doutorado em instituições estrangeiras. Esse número ultrapassou os 100 mil em 2025.

A Bolsa Complementar Alcance destina US$ 7 mil para um período de 12 meses a contar de 2025. Além da bolsa, os estudantes selecionados terão acesso a acompanhamento psicológico, encontros de rede e também ao Brasil on Campus, um evento de conexão entre brasileiros que estão estudando em universidades nos Estados Unidos e na Europa.

“Com esta parceria queremos ampliar a participação de pessoas negras em iniciativas internacionais de ensino, pesquisa e extensão, para que, ao regressarem ao Brasil, elas ocupem lugares estratégicos de poder e influência”, afirma a diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes.

A Europa, aliás — que tem algumas das mais prestigiadas e tradicionais universidades do mundo — tem recebido atenção de estudantes internacionais diante das recentes mudanças na política migratória dos Estados Unidos, que impactaram instituições como Harvard, Columbia, Princeton, Cornell e Brown.

Segundo dados do Study Group, organização internacional que oferece programas preparatórios de adaptação aos estudos no Reino Unido e na China, cerca de 110 mil brasileiros cursam instituições de ensino fora do país. Desses, 16.877, conforme dados do Departamento de Estado dos EUA, estão em universidades norte-americanas.

A diversidade de países e instituições de excelência reforça a possibilidade de vivências acadêmicas conectadas a contextos culturais plurais e inclusivos.

As inscrições para a Bolsa Complementar Alcance estão abertas até 22 de junho de 2025 e devem ser feitas por meio de formulário online. Podem se candidatar estudantes brasileiros que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, matriculados ou com carta de aceite em cursos de mestrado ou doutorado presenciais em áreas como Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática (STEM), educação, políticas públicas, governo, direito e administração em universidades internacionais de excelência.

A bolsa é no valor de US$ 7 mil para o período de 12 meses, com possibilidade de renovação em editais futuros. Além do apoio financeiro, os selecionados terão acesso a acompanhamento psicológico, atividades de conexão entre estudantes e à comunidade Brasil on Campus.

O formulário para inscrições se encontra aqui.

A participação do Fundo Baobá como coinvestidor nesta iniciativa foi possível por meio de um acordo firmado com a Fundação Lemann, que, em 2019, aportou R$ 1,9 milhão no nosso Fundo Patrimonial. A doação se desdobrou em um aporte de R$ 6,17 milhões da Fundação W.K. Kellogg no endowment do Fundo Baobá.

Como contrapartida pactuada, os rendimentos gerados por esses aportes entre 2021 e 2026 (R$ 2.583.225,33) serão integralmente destinados a bolsas de pós-graduação no exterior para estudantes negros, no âmbito do Programa Alcance.

Fonte da imagem: https://fundacaolemann.org.br/noticias/fundacao-lemann-e-fundo-baoba-abrem-inscricoes-de-bolsa-complementar-alcance-para-estudantes-negros-e-indigenas-no-exterior/

Marcha das Mulheres Negras: um relato de quem esteve lá há 10 anos atrás

Conheça a história de Juliana Gonçalves e sua trajetória no movimento de mulheres negras

Juliana Gonçalves é mãe, jornalista e militante do movimento negro — uma mulher em movimento, articuladora política, pesquisadora, feminista negra, periférica, afrolatina e, acima de tudo, um corpo livre. Atualmente, gerencia um projeto de inovação na área da Comunicação na Embaixada Preta, o Bioma Comunicação Ancestral.

Mestra em Filosofia pela Universidade de São Paulo, onde pesquisou o Bem Viver em narrativas de mulheres negras, ela também integra a Marcha das Mulheres Negras de SP, onde, desde 2018, coordena o curso de formação política para mulheres negras chamado Narrativas de Liberdade.

Seu primeiro contato com a Marcha aconteceu de forma orgânica, como parte de um percurso político e afetivo. Em 2013, como parte do grupo Comunicadoras Negras — iniciativa articulada por várias entidades em parceria com a ONU Mulheres —, ela participou da cobertura da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

“Lá foi anunciada pela primeira vez a Marcha das Mulheres Negras, tomando um auditório cheio de mulheres negras e sacerdotisas entoando cantos iorubá. O momento, profundamente espiritual, ancestral e simbólico, trouxe à Juliana um chamado, uma convocação do tempo que exigia dela e das demais mulheres uma coragem coletiva.”

Sendo uma das 15 mulheres selecionadas para participar de um programa voltado a jovens lideranças, ela conheceu mulheres de múltiplas identidades, como indígenas, quilombolas, ciganas e tantas outras, que atuavam a partir de seus territórios. Foram intensas trocas entre elas, que permitiram reflexões críticas sobre o papel e os limites das instituições internacionais e sobre a atuação nos contextos locais.

Foi depois desse programa que ela se aproximou da construção da Marcha das Mulheres Negras em 2015.

Ao se deparar com as particularidades do movimento negro de São Paulo — que é múltiplo, potente e também atravessado por desigualdades territoriais —, ela enfatiza que, mesmo com realidades distintas, o movimento busca sempre articular cultura, educação, comunicação, moradia, política institucional e saberes tradicionais. Pois, como em muitos outros estados, desde 2015, elas permanecem em marcha, em constante movimento.

“O movimento é feito por nós, com nossos corpos, nossas histórias, nossos gestos cotidianos. Não é preciso estar em um palanque para ser movimento. Você é quando cuida, quando pergunta, quando sonha”, afirma Juliana.

Sobre as demandas das mulheres na década passada e as demandas atuais, ela traz uma reflexão sobre uma ênfase em denunciar o racismo estrutural, o genocídio da juventude negra, a violência doméstica e o silenciamento nas instituições. Hoje, em 2025, essas pautas permanecem urgentes, mas ganham contornos mais amplos: há uma demanda crescente por pensar a sociedade a partir de outro paradigma.

“Hoje falamos de saúde integral, mental, soberania alimentar, economia do cuidado, justiça racial e comunicação como espaço de poder. As mulheres negras também exigem estar no centro das decisões, das tecnologias, da política institucional”, afirma.

Para ela, não vivemos quaisquer 10 anos. Foram anos de uma conjuntura cruel, que incidiu com ainda mais violência e requintes de crueldade sobre a população negra, com muitos retrocessos nas conquistas quilombolas, indígenas e na luta das mulheres em si.

A mensagem que Juliana gostaria de deixar para as mulheres negras que ainda não se sentem parte do movimento é que é, sim, louvável estarmos vivas — e, mais ainda, estarmos organizadas para enfrentar não só a luta da sobrevivência diária, mas também para a construção de outra sociedade.

“A força da Marcha de 2015 foi, justamente, termos olhado para o que une, sem silenciar as diferenças”, afirma Juliana.

Então, estão todas convidadas: as cis, as LBTs, as candomblecistas, as evangélicas, as trabalhadoras, as estudantes, as imigrantes, as mais novas e as mais velhas, as mulheres com deficiência, as militantes, as independentes etc.

Para esse ato político-social, o Baobá, Fundo para Equidade Racial,  fez um investimento histórico de R$ 1,25 milhão, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD) caminha para 193 anos de história como símbolo da resistência negra no Brasil

Organização de quase dois séculos surgiu na Bahia para comprar a liberdade dos escravizados e hoje conta com o apoio do Fundo Baobá.

O dia 16 de setembro de 2025 marcará o aniversário de uma longeva e importante organização negra brasileira, a SPD (Sociedade Protetora dos Desvalidos). Criada em 1832 e prestes a completar 193 anos, nasceu sobre os alicerces do enfrentamento ao racismo, promoção da liberdade religiosa e justiça social. Um dos marcos da luta contra a escravidão no Brasil, a SPD sobreviveu graças ao espírito de cooperativismo que moveu o povo negro na busca pela liberdade.

Na prática, pessoas negras libertas criaram uma forma coletiva de garantir a liberdade de outras ainda escravizadas. A solução para isso foi a cotização: cada pessoa contribuía com o que podia para comprar alforrias.

Desde sua fundação, a SPD atua sem ter dependido de verba pública para sua manutenção. Neilto Barreto, presidente da Assembleia Geral da SPD, destacou esse legado:

“Em todo esse período, nunca dependemos de apoio governamental, seja municipal, estadual ou federal, desde 1832”, declarou Barreto, que estará à frente da organização até 2027.”

Esse quadro mudou em 2023, depois de uma ação do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A Sociedade Protetora dos Desvalidos recebeu a doação de R$ 500 mil como forma de contribuição estratégica para o seu desenvolvimento institucional.

A doação do Fundo Baobá veio para fortalecer uma organização negra de quase dois séculos de história, reconhecendo sua trajetória no enfrentamento às desigualdades. O apoio teve como objetivo ampliar sua capacidade de atuação e sustentabilidade, valorizando iniciativas como a manutenção do espaço terapêutico para mulheres, a Casa de Angola — que acolhe estudantes africanos — e outras ações sociais desenvolvidas ao longo do tempo.

Após receber essa doação de R$ 500 mil, a SPD passou por importantes transformações que fortaleceram sua atuação e ampliaram seu impacto social.

“As mudanças observadas pela própria organização demonstram de maneira muito nítida o comprometimento com o resgate e manutenção da memória institucional. Isso é facilmente identificado quando observamos as movimentações feitas pela gestão, não só em executar as ações planejadas para atingir seus objetivos, mas também de ajustar e adequar suas rotas, olhando sempre para caminhos que levem ao fortalecimento institucional”, afirma Camila Carvalho, Assistente de Projetos no Fundo Baobá.

O momento atual da Sociedade Protetora dos Desvalidos é marcado pelo fortalecimento de sua equipe, com foco na ampliação de saberes e capacidades.

“A instituição investiu na capacitação de sua equipe e na implementação de novas estratégias de inclusão racial, promovendo uma abordagem mais abrangente e efetiva na luta contra a desigualdade. Essa parceria também possibilitou a realização de campanhas de conscientização e ações educativas, contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária”, diz Camila.

Planejamento estratégico e renovação geracional

O apoio do Fundo Baobá tem sido fundamental para impulsionar a SPD rumo a uma atuação mais sólida e transformadora, reafirmando seu compromisso com a defesa dos direitos e a promoção da equidade racial. 

Olhando pelo lado prático, a adoção do planejamento estratégico e a reorganização dos processos administrativos, que impactaram positivamente as receitas, melhoraram os fluxos de trabalho e o clima organizacional. Agora, a meta é ampliar a diversidade geracional na organização.

“Nosso maior desafio é a renovação. A juventude precisa se conscientizar da importância de se juntar a nós”, afirmou Ligia Margarida Gomes, da direção da SPD.

Por fim, a preservação da memória foi algo também proporcionado pela ajuda oferecida à Sociedade Protetora dos Desvalidos pelo Fundo Baobá. Em sua sede, no Pelourinho, em Salvador, o mobiliário é remanescente do século XIX. Esse mobiliário foi restaurado como uma forma de conservar a história que carrega.

Selecionado na primeira edição do Programa Já É, João Pedro carrega até hoje as lembranças das trocas adquiridas com outros participantes

João Pedro Araújo, 27 anos, foi um dos jovens selecionados na primeira edição do Programa Já É – uma iniciativa do Fundo Baobá que apoia jovens negros no acesso ao ensino superior no Brasil. Atualmente, ele cursa Ciências e Tecnologias na Universidade Federal do ABC (UFABC), com previsão de formatura em 2027.

Morador do bairro do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, João Pedro enfrentou uma realidade de poucas oportunidades. Para ele, o Programa Já É foi essencial para transformar a trajetória marcada pela simplicidade e pelos desafios da vida periférica. Egresso da rede pública de ensino durante a maior parte de sua vida escolar, precisou conciliar trabalho e estudos, como tantas outras pessoas jovens negras periféricas do país.

Mesmo com tantas dificuldades, teve na mãe a maior fonte de inspiração — uma mulher batalhadora que, com um salário mínimo, sustentou a casa e alimentou os sonhos do filho. “Ela me ensinou que é possível sonhar alto e mudar a realidade, mesmo quando tudo parece difícil”, afirma.

Como funciona o Programa Já É: educação e equidade racial?

O Programa Já É: Educação e Equidade Racial oferece apoio financeiro, educacional e psicossocial a jovens negros, com o objetivo de promover o acesso ao ensino superior e ampliar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Em sua primeira edição, realizada em 2021, o programa selecionou 85 estudantes. Destes, 32 foram aprovados em vestibulares — 12 em universidades públicas e 20 em instituições privadas como bolsistas do ProUni (Programa Universidade para Todos).

Políticas afirmativas como caminho para a transformação social

Naquele mesmo ano, João se inscreveu em todos os projetos possíveis, em busca de alternativas, já que a pandemia dificultou o acesso a oportunidades de emprego. Foi então que, por indicação de uma amiga, conheceu o Já É. A motivação veio do desejo de ser o primeiro da família a cursar uma universidade pública — e, mais do que isso, de abrir caminhos para seus amigos e sua comunidade, mostrando que o acesso à educação de qualidade também é possível para quem não teve privilégios.

“Quando conheci o Já É, já achei a proposta interessante. Mas, ao participar, percebi que aquilo era só a ponta do iceberg. As trocas e aprendizados com os outros participantes foram transformadores e carrego comigo até hoje”, relembra João.

No início, ele confessa que duvidava de si mesmo. “É difícil acreditar que alguém está investindo em você quando se vem da periferia. Eu me perguntava se era realmente capaz. Mas, logo na primeira reunião com os outros selecionados, senti como se já nos conhecêssemos. Foi um acolhimento imediato.”

João destaca a importância de políticas afirmativas e programas como o Já É para ampliar o acesso de jovens negros ao ensino superior. “Mesmo com iniciativas como essa, ainda somos minoria nas universidades, e essa presença diminui ainda mais nas instituições públicas. Precisamos ocupar esses espaços para inspirar outros a acreditarem que também é possível.”

Para ele, estar na universidade vai muito além de uma conquista individual — representa um sonho coletivo. Em um país ainda marcado por desigualdades estruturais, a presença de pessoas jovens negras no ensino superior é símbolo de resistência, transformação e esperança.

Segunda edição do Programa Já É tem inscrições abertas

As inscrições para a segunda edição do Programa Já É estão abertas até o dia 06 de junho. Para mais informações, acesse: Programa Já É.

Professor Nelson Narciso reforça a Governança do Fundo Baobá: “Transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro”

Profissional com reconhecimento internacional no setor de energia, ele vai integrar o Conselho Deliberativo da organização

O Baobá – Fundo para Equidade Racial conta agora com um importante reforço em seu Conselho Deliberativo: Nelson Narciso, engenheiro mecânico com trajetória de destaque nacional e internacional nos setores de combustíveis e biocombustíveis. Com mais de 40 anos de experiência no segmento de energia, Narciso construiu uma carreira sólida atuando em empresas de renome como HRT África, Halliburton e ABB. No Brasil, foi diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Da ANP ao Baobá: legado e visão estratégica de Nelson Narciso

Durante seu período na ANP, coordenou importantes programas, como os voltados à redução de queima de gás e à melhoria da medição fiscal da produção. “Na ANP, tive o privilégio de contribuir com políticas públicas que ainda hoje impactam o setor. Foi nesse ambiente que compreendi, com mais clareza, que transformar realidades exige escuta, coragem e visão de futuro. Esses aprendizados moldaram minha atuação: cada projeto é uma oportunidade de conectar conhecimento, propósito e impacto”, destaca Narciso.

Compromisso de longa data com a equidade e justiça racial

O desejo de colaborar com o Fundo Baobá já o acompanhava há algum tempo. Ao longo de sua trajetória, o professor tem se posicionado de forma firme contra práticas discriminatórias, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação e ao mercado de trabalho. Na juventude, nos anos 1970, foi atleta amador de futebol pelo Vasco da Gama, clube carioca, mas escolheu os estudos diante da incerteza de uma carreira no esporte.

Formação de excelência e destaque internacional na educação

Formado em Engenharia Mecânica e com pós-graduação em Administração Industrial e Engenharia Econômica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nelson Narciso é frequentemente convidado para dar palestras em renomadas instituições de ensino, como a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e as norte-americanas MIT, Columbia University e Brown University, onde também foi professor visitante.

A urgência da representatividade negra em cargos de liderança

Sua formação e trajetória contrastam com uma dura realidade do mercado de trabalho brasileiro: a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de liderança. Um estudo do Instituto Ethos, de 2016, revelou que, entre as 500 maiores empresas do país, apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% das posições gerenciais eram ocupados por pessoas negras. “Sermos exceções é um sinal claro de que algo está estruturalmente errado”, afirmou à Americas Quarterly em 2020. Sua entrada no Conselho do Baobá é, portanto, mais um passo na direção da mudança.

Rumo aos 15 anos do Fundo Baobá: reflexões e futuro

“Ser membro do Fundo Baobá me motiva por unir propósito pessoal e impacto social. Trata-se de contribuir com minha experiência estratégica para uma causa urgente e estruturante: o enfrentamento ao racismo e a promoção da equidade racial no Brasil. O prestígio institucional do Fundo, sua representatividade negra e a oportunidade de aprendizado tornam essa participação uma escolha transformadora”, afirma.

Como integrante do Conselho Deliberativo, seu papel será o de orientar a organização para que suas decisões e operações estejam alinhadas com sua missão institucional. Narciso acredita que poderá contribuir significativamente nesse processo. “Quero apoiar de forma ativa a consolidação institucional do Fundo, com escuta atenta, pensamento estratégico e compromisso com a missão de promover a equidade racial no Brasil.”

Sua chegada coincide com a preparação do Fundo Baobá para a celebração de seus 15 anos de atuação em 2026. Sobre esse marco, ele reflete: “Quinze anos do Fundo Baobá representam a força de um sonho coletivo que se tornou referência na luta por equidade racial no Brasil. Celebro a coragem, a inteligência e a ancestralidade que sustentam essa trajetória.”

Baobá – Fundo para Equidade Racial destaca a urgência da escuta ativa, descentralização e justiça racial no 13º Congresso do GIFE 

A participação do Baobá – Fundo para Equidade Racial no 13º Congresso GIFE (Grupo de Indústrias, Fundações e Empresas) foi marcada por contribuições potentes, alinhadas ao tema central do evento: “Desconcentrar poder, conhecimento e riquezas”. Em três dias de atividades e painéis, celebramos encontros e reencontros. O Baobá celebrou reencontros importantes e reafirmamos nosso compromisso com a filantropia centrada nas vozes dos territórios e na promoção da equidade racial como caminho para a transformação concreta da sociedade brasileira. O congresso foi realizado de 7 a 9 de maio, em Fortaleza, no Ceará, a primeira vez fora da cidade de São Paulo.

Descentralização como estratégia de impacto na filantropia brasileira

Na plenária de encerramento, o diretor-executivo do Fundo Baobá e conselheiro do GIFE, Giovanni Harvey, fez um chamado incisivo à mudança estrutural no setor: “A filantropia ainda é muito mais pautada nas necessidades de quem doa do que nas necessidades de quem recebe”, afirmou. Sua fala provocou uma reflexão coletiva sobre o legado que o Investimento Social Privado (ISP) pretende deixar para os próximos 30 anos, destacando a importância de metas reais e a construção de pontes sólidas entre a filantropia, o ISP e a sociedade civil.

O papel das organizações negras no fortalecimento do Investimento Social Privado

Tainá Medeiros, coordenadora de Projetos do Baobá, destacou dois temas estratégicos do congresso que reforçam as palavras de Giovanni: “A necessidade de ampliar o apoio da filantropia e do ISP no fortalecimento institucional das organizações da sociedade civil, tema para o qual o Fundo Baobá já vem dedicando especial atenção nas suas estratégias programáticas há alguns anos, e os persistentes desafios de acesso a recursos enfrentados por organizações negras. Essa convergência confirma o que nossa atuação já demonstra: a equidade racial deve ser central na agenda do presente e do futuro da filantropia e do ISP no Brasil”, disse.

Para Janaina Barbosa, gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo, o congresso foi uma reafirmação do potencial da filantropia construída de forma colaborativa: “Esse encontro reforçou o poder da filantropia quando construída coletivamente. Ver diferentes atores – organizações, lideranças, especialistas e investidores – em diálogo é um lembrete de que a transformação exige mais do que recursos: precisa de escuta, confiança e compromisso com justiça social. O legado que fica para mim é a força da ação conjunta”, disse.

A regionalização do congresso também foi celebrada pela gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, Caroline Almeida, que destacou o impacto da escolha de Fortaleza como sede do evento: “O congresso abordou um tema relevante e desafiador, especialmente para reflexão no ecossistema de associados do GIFE. A realização no Nordeste foi uma decisão acertada e um passo importante rumo à descentralização. A escolha de Fortaleza ampliou a diversidade de vozes e experiências, promovendo a articulação de um público mais plural. Espero que o Investimento Social Privado seja positivamente influenciado pelas demandas reais que emergiram das mesas do congresso”, afirmou Caroline.

Protagonismo e reconhecimento de lideranças apoiadas pelo Baobá

Também da equipe do Baobá, a assistente executiva Juliana Vargem compartilhou a emoção de ver donatários do Baobá ocupando espaços de protagonismo no evento: “Participar do 13º Congresso GIFE, realizado na região Nordeste, foi uma experiência especial. Além de ampliar conexões com diversas organizações e fortalecer nossa rede de atuação, fiquei particularmente feliz e emocionada ao ver nossos donatários em posições de destaque ao longo do evento. Foi um reconhecimento importante do trabalho que realizamos juntos e um momento de grande orgulho para nossa instituição”, enfatizou.

Juliana Vargem se referiu a nomes como Dandara Rudsan, que fez parte do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco (2019/2023); Nina Dahora, da iniciativa UX para Minas Pretas; Luiz Claudio e Veronica Lopes, do IOB, apoiados pelo edital Educação em Tecnologia (2023); e Aline Braúna, uma das selecionadas no edital Primeira Infância (2020). As iniciativas são exemplo, na prática, do impacto da filantropia negra em fomentar lideranças e soluções inovadoras em seus territórios. Esses momentos reforçaram a importância da escuta ativa, do reconhecimento das potências locais e da centralidade do enfrentamento ao racismo nas agendas do Investimento Social Privado.

Marcha das Mulheres Negras: mobilização como ferramenta de justiça racial

Em comunhão com ações que estão no calendário do Fundo Baobá, o congresso discutiu também a Marcha das Mulheres Negras, que acontecerá no mês de novembro, em Brasília (DF). Naiara Leite, da Odara, Instituto da Mulher Negra, faz parte do Comitê Nacional da Marcha e fez um chamamento para que a sociedade civil e o Investimento Social Privado encarem a Marcha como uma ferramenta do processo de combate às injustiças. “Não tem democracia, não tem vida e não tem território nesse país a ser pensado se o debate do enfrentamento ao racismo não for central”, disse.

Reforma Tributária e captação de recursos para OSCs: o que vem pela frente

A gerente de Operações do Baobá, Hebe Silva, enxergou o congresso como um momento de enriquecimento profissional, por conta da forma como os temas foram abordados. “O evento abordou temas que nos fazem aprimorar profissionalmente e contribuem com a gestão e processos decisórios da filantropia, provocando reflexões e elevando a importância de atender demandas efetivas aos beneficiários dos recursos aportados. Destaco a roda de conversa com Nailton Cazumbá, sobre os impactos da Reforma Tributária nas OSCs e ISP, onde ele chamou atenção para a necessidade de rever as estratégias de captação de recursos com as mudanças que estão por vir.”

O 13º Congresso GIFE foi, portanto, um espaço essencial para reafirmar que a transformação social só será possível com a desconcentração real de recursos e com a inclusão das vozes historicamente silenciadas nos processos de tomada de decisão. O Baobá – Fundo para Equidade Racial segue comprometido com esse caminho.

Fundo Baobá participa de planejamento estratégico de comunicação para a 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras

Nos dias 19 e 20 de maio, o Comitê Nacional da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver realizou em Brasília um planejamento estratégico de comunicação, com participação do Fundo Baobá e outras organizações parceiras. O evento reuniu representantes de 35 organizações do movimento negro e parceiras para estruturar as ações de comunicação visando a grande mobilização marcada para 25 de novembro de 2025.

Construção coletiva de estratégias

Durante os dois dias de encontro, foram desenvolvidas diretrizes para:

  • Fortalecer a coesão das mensagens da Marcha
  • Visibilizar territórios e saberes das mulheres negras
  • Engajar diferentes públicos na mobilização

“Poder pensar juntas na comunicação de uma mobilização deste porte foi muito especial”, destacou Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. “Ao reunir diversas mulheres negras, podemos ampliar o olhar para as inúmeras subjetividades de mulheres que devemos e queremos mobilizar para o dia 25 de novembro.”

O trabalho coletivo contou com metodologias participativas que permitiram a construção conjunta de estratégias, com facilitação do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI).

Compromisso e apoio institucional

Todas as organizações presentes assumiram compromissos concretos para amplificar as narrativas da Marcha em suas redes e territórios. Como parceiro estratégico, o Fundo Baobá não apenas apoia financeiramente esta iniciativa, mas também fortalece essa construção coletiva que amplifica o poder de organização das mulheres negras e seu papel transformador na sociedade brasileira.

A Marcha de 2025 marca os 10 anos da primeira edição histórica e representa um marco na luta por direitos e visibilidade das mulheres negras brasileiras. Com esse apoio, o Fundo Baobá reafirma seu papel fundamental no fortalecimento das organizações do movimento negro e na promoção da justiça social.

Organizações participantes

Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB); Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong); Ação Educativa; Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela; Associação Gênero e Número; Casa N’Dengo; Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ); Criola; Escola Longa; Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS); Geledés – Instituto da Mulher Negra; Imaginable Futures; Instituto Afrolatinas; Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI); Instituto Ibirapitanga; Comitê Estadual Goiás da Marcha das Mulheres Negras; Marcha das Mulheres Negras de São Paulo; Movimento Mulheres Negras Decidem; Agência Narra; Observatório da Branquitude; Odara – Instituto da Mulher Negra; Oxfam Brasil; Pretas Candangas; Quid; Rede de Mulheres Negras do Nordeste; e Revista Afirmativa.

Saiba mais sobre nosso apoio à Marcha das Mulheres Negras 2025.

Eric Ribeiro: da curiosidade infantil aos sonhos aeroespaciais

Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.

Na fotografia, Eric Ribeiro que atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM, é
um homem negro jovem aparece sorrindo enquanto fala ao microfone. Ele usa óculos de armação redonda, camisa branca e calça em tom verde oliva. Sobre os ombros, está com um suéter bege, criando um visual elegante e descontraído. Ele está sentado em uma cadeira branca, participando de um painel ou mesa de conversa em ambiente institucional, com fundo azul e telão ao fundo. Sua expressão transmite entusiasmo e segurança, em um momento de partilha e escuta ativa.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.

“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.

Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.

O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.

Nova edição do programa amplia oportunidades

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:

“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.

A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.

Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:

“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.

Para mais informações sobre a segunda edição do Black STEM, acesse:
https://bit.ly/BS-2edicao 

A força coletiva que mobiliza a Marcha das Mulheres Negras desde 2015

A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.

Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.

Na fotografia, vemos Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras. uma mulher negra em pé, sorridente, com os cabelos trançados e presos com um detalhe vermelho. Ela veste uma regata estampada com a imagem de uma figura feminina negra em trajes tradicionais e com uma espada em punho, além de um short branco com bordados. Ao fundo, há um mural artístico em tons de preto e branco, com traços que remetem a elementos culturais e figuras humanas. A expressão da mulher transmite confiança e serenidade, em um ambiente que valoriza a identidade afro-brasileira.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. 

O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).

A Marcha como processo político e social de longo prazo

A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.

Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência. 

Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.

Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.

“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.

Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.

Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.

Para mais informações sobre a Marcha, acesse: https://marchadasmulheresnegras.com.br