“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM. Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026. Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior. Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

Incentivo amplia presença de estudantes negros brasileiros em áreas STEM no exterior

Fundo Baobá para Equidade Racial

26 de agosto de 2026

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM.

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior.

Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Quando eu era criança, me diziam que um negro precisa estudar duas vezes, três vezes mais que um branco para se destacar”, lembra. Hoje, a mensagem que ele procura transmitir aos seus alunos é outra: não é preciso ser um “super-homem” ou uma “super-mulher” para chegar a uma universidade de excelência fora do país. É preciso ter oportunidade e, principalmente, conseguir se enxergar naquele lugar. 

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Na foto: Fernando Caixeta, Professor do IFTM e mentor do Programa Black STEM | Créditos: Thalita Guimarães

Esse ponto é especialmente importante quando se fala em STEM, áreas que historicamente concentram oportunidades acadêmicas, científicas e profissionais de alto impacto. 

Dados disponíveis sobre mobilidade acadêmica ajudam a dimensionar o tamanho da desigualdade, embora ainda exista uma lacuna importante nas estatísticas brasileiras. Um estudo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, com dados de programas de mobilidade do CNPq e informações do Censo de 2022, analisou 38.238 participantes com informação de raça/cor. Entre eles, 1.055 se declararam pretos, o equivalente a 2,76% do total, enquanto 6.487 se declararam pardos, ou 16,96%. Somados, pretos e pardos representavam 19,72% dos participantes analisados. O dado chama atenção porque a população brasileira é majoritariamente negra. Ou seja, mesmo quando existe uma política de mobilidade internacional, a presença de estudantes negros não acompanha o peso demográfico da população brasileira.

E há outro problema: não existe, hoje, uma estatística pública nacional consolidada que permita dizer exatamente quantos estudantes negros brasileiros estão matriculados em universidades estrangeiras, especialmente em cursos STEM. Essa ausência de dados, por si só, revela uma defasagem. Sem saber exatamente quem está indo, para onde está indo e em quais áreas está estudando, fica mais difícil medir desigualdades e construir políticas capazes de enfrentá-las.

Pesquisas acadêmicas já apontaram, entretanto, que raça e origem socioeconômica interferem no acesso de estudantes brasileiros à mobilidade internacional.  Pesquisas sobre o programa Ciência sem Fronteirasmostram que a mobilidade acadêmica internacional ainda reproduz desigualdades raciais presentes no ensino superior brasileiro. Estudo realizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que estudantes pretos e pardos representavam, em média, 16,68% dos matriculados entre 2012 e 2016, mas correspondiam a apenas 9,38% dos bolsistas do programa no período. 

É justamente nesse espaço que iniciativas como o Black STEM entram.

Na primeira edição, o programa selecionou cinco estudantes negros para graduação no exterior, oferecendo bolsas de R$ 35 mil anuais para apoiar despesas como moradia, alimentação, transporte e material acadêmico. Na segunda edição, outros quatro estudantes foram selecionados. Agora, na terceira, serão três novos bolsistas.

São números que carregam uma dimensão simbólica importante. Cada estudante que chega a uma universidade estrangeira também pode se tornar referência para quem ainda está pensando se aquele lugar é acessível. 

Caixeta chama atenção para uma transformação geracional. Segundo ele, estudantes negros de hoje estão “metendo o pé na porta” e ocupando espaços internacionais com uma disposição diferente da geração anterior. China, Dubai, Estados Unidos ou qualquer outro destino deixam de parecer lugares impossíveis. A pergunta passa a ser menos “será que existe alguém como eu lá?” e mais “como faço para chegar?”.

Evento Black STEM 2026 | Créditos: Thalita Guimarães

Para o professor, a função da mentoria é ajudar a transformar o sonho em projeto. E isso significa também falar sobre aquilo que nem sempre aparece nas fotos de uma universidade estrangeira: dinheiro, alimentação, moradia, transporte, segurança e a possibilidade de voltar para casa se alguma emergência acontecer. “Eu preciso ter dinheiro, preciso beber, preciso comer, preciso viver e preciso estudar ao mesmo tempo”, resume.

A preocupação também se estende ao ambiente acadêmico. Caixeta defende que equipes científicas e tecnológicas mais diversas conseguem produzir soluções mais conectadas com a realidade de diferentes grupos sociais. Ele lembra de uma experiência em um laboratório no qual pesquisava tecidos usados nas toucas de cetim para proteção dos cabelos.

Em uma equipe mais racializada, ele percebeu que não precisava explicar aquilo que fazia parte da vida cotidiana de outras pessoas negras. Para ele, essa identificação muda a qualidade da conversa, da pesquisa e das soluções produzidas. 

Fernando Caixeta alerta para a necessidade de discutir uma tecnologia que não reproduza discriminações e que seja acessível a diferentes grupos sociais. A presença negra nas áreas de STEM, portanto, não diz respeito apenas a quem ocupará os laboratórios, empresas de tecnologia ou universidades no futuro. Diz respeito também a quem fará parte da criação de tecnologias que vão influenciar a vida de todos.

No Brasil, esse desafio ainda passa pelo enfrentamento do chamado “racismo à brasileira”, expressão usada por Caixeta para falar de situações em que a discriminação existe, mas muitas vezes não é reconhecida como tal. No exterior, por sua vez, o estudante negro precisa aprender a lidar com novos contextos culturais e com possibilidades de racismo que também podem surgir. É aí que a representatividade ganha outra dimensão.

Para Caixeta, não basta estar. É preciso se enxergar, viver aquele espaço e conseguir imaginar uma trajetória possível. Quando um professor negro aparece diante de um estudante e diz “eu fui, eu consegui, eu estou aqui”, a distância entre o sonho e a realidade diminui.

É esse movimento que o Black STEM procura apoiar, não apenas enviar estudantes negros para fora do Brasil, mas criar condições para que eles permaneçam, concluam seus cursos e ampliem as possibilidades para quem vem depois. A experiência internacional, nesse sentido, deixa de ser apenas uma conquista individual. Transforma-se em caminho aberto.

E, como lembra Caixeta, cada pessoa que chega primeiro ajuda a tornar a chegada das próximas um pouco menos difícil. No caso das áreas STEM, ocupar esse espaço significa também participar das decisões sobre ciência, tecnologia e inovação. Significa mostrar que pessoas negras não estão apenas consumindo tecnologia. Elas também podem criá-la, pesquisá-la, transformá-la, decidir para quem ela será feita e como será utilizada.

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