Na edição deste mês, compartilhamos os bastidores da criação e repercussão de um momento histórico: o desenvolvimento da nova marca do Fundo Baobá. Para contar como foi possível transformar impacto, ancestralidade e resistência em identidade visual e verbal, conversamos com a equipe criativa do projeto.
A empresa responsável, Motora Design, passou por um processo de imersão para traduzir a bagagem histórica e social do Fundo Baobá em formas, linguagens, cores e tipografias. Nessa etapa, foi necessário pensar e construir conexões e narrativas que reverenciavam a memória de quem se mobilizou para que o Fundo Baobá nascesse e crescesse. O resultado desse trabalho é o símbolo atual, cujos traços foram inspirados e remetem às tranças nagôs, uma referência que carrega história, identidade e movimento.
Historicamente, as tranças afro possuem um profundo significado cultural, social e de resistência. Na África Antiga, com origem no povo iorubá, elas indicavam a identidade de uma pessoa, revelando sua idade, estado civil, tribo e posição social. Durante o período da escravidão, o trançado tornou-se ferramenta de sobrevivência e liberdade: seus desenhos geométricos serviam como mapas secretos com rotas para os quilombos e, entre os fios, eram escondidas sementes para garantir o plantio nas comunidades livres. Além de preservar a dignidade e a vaidade daqueles que tinham suas cabeças raspadas pelos colonizadores, o ato de trançar carrega uma dimensão sagrada de afeto e socialização ligada ao culto ao Orí (a divindade da cabeça e do destino). Hoje, as tranças permanecem um poderoso símbolo de autoafirmação, empoderamento e reconexão com a herança afrodescendente.
Para entender como o processo de redesenho da marca começou, a equipe criativa fez um mergulho profundo nos materiais e documentos que registram a história do Fundo Baobá. Também houve a preocupação de olhar para a comunicação atual da organização e de outras, dentro e fora do Brasil, que atuam no mesmo ecossistema para buscar referências importantes.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos nos conta que esse projeto começou com uma inquietação sobre como traduzir o que é o Fundo Baobá para Equidade Racial hoje. Ela afirma que foi muito relevante o papel de Amalia Fischer, Vice-Presidente do Conselho Deliberativo, que apoiou com escuta, experiência e direcionamento juntamente com a equipe executiva, que se envolveu bastante e foi fundamental para esse resultado.
A “roupa nova” chega bem na hora da festa: 2026 é o ano em que o Fundo Baobá completa 15 anos de história apoiando iniciativas de enfrentamento ao racismo no Brasil e promovendo equidade racial.
“A marca baila pelo tempo: olha para trás em reverência ao passado, se adapta aos desafios do presente e aponta para um futuro cheio de possibilidades”, afirma Janaina.
Ao longo do processo foram realizados workshops, entrevistas e conversas com diferentes pessoas da organização. “Ouvimos histórias, percepções e expectativas”, conta Laís Fonseca, diretora de arte da Motora. A partir daí, o desafio foi traduzir conceitos que são essencialmente humanos em uma linguagem visual. “Buscamos construir uma identidade que não fosse apenas bonita ou contemporânea, mas que fosse capaz de carregar significado. Cada escolha, da paleta de cores aos grafismos, nasceu dessa tentativa de transformar histórias em símbolos e valores em linguagem visual”, afirma.
A nova identidade do Fundo Baobá nasce de uma ideia que parece simples, mas é muito poderosa: o futuro não se constrói sozinho. O Fundo Baobá é uma organização que olha adiante, mas que entende que o futuro só existe porque muitas pessoas vieram antes, abriram caminhos e sustentaram lutas coletivas. Por isso, os grafismos, as cores, a tipografia e até a forma como os elementos ocupam o espaço foram pensados para traduzir essa ideia de movimento contínuo. Portanto, o sentimento que fica desse processo de reposicionamento da marca é a base sólida que sustenta o Fundo Baobá e dá a certeza de sua continuidade nos próximos anos.
“Nosso trabalho estratégico continua sendo a ampliação do reconhecimento da marca, do propósito e das ações. Afinal, não é só sobre o visual, mas sim sobre garantir que nosso público realmente conheça o que o Fundo Baobá faz e como opera”, afirma Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. Para ela, o resultado final foi possível pelo envolvimento de toda a atual equipe executiva: “A escuta e pesquisa sobre o legado fez toda a diferença para chegar não somente em algo novo, mas também em um conceito que apresentasse a trajetória do Fundo Baobá”.
Para Luize Araujo, diretora criativa, o maior desafio foi equilibrar a narrativa que se tornou o grande fio condutor de todo o projeto: garantir que seria construída uma visão comum de futuro sem desrespeitar ou ignorar todo o legado do Fundo Baobá. “Legado esse, aliás, que não se limita só ao tempo de atuação da organização, já que suas raízes vêm de movimentos e articulações muito mais antigas e complexas do que a existência do próprio Fundo Baobá”, afirma.
Pouco depois do lançamento da marca, que ocorreu em 19 de março, como parte das comemorações pelos 15 anos, houve uma grata surpresa de vê-la no site Brand New, uma das maiores referências globais em design, especializado em analisar o redesign de marcas do mundo inteiro, e que faz uma curadoria para destacar o “antes e depois” de identidades visuais de grandes empresas e organizações.