Winsana  N’Tchala: Do Programa Já É para o curso de Medicina

Winsana N’Tchala: do Programa Já É para o curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná

Há histórias que são sobre conquistas e resistência. A de Winsana N’Tchala é sobre as duas coisas, mas também sobre amor, propósito e educação como ferramenta de transformação. Aos 21 anos, essa jovem curitibana realizou o sonho de infância: foi aprovada em Medicina na Universidade Federal do Paraná. E não foi por acaso.

A trajetória de Winsana ganhou reforço importante quando ela conheceu o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A indicação veio da cunhada, Byanka, que acompanhava as ações do Fundo Baobá e enviou o link de inscrição pelo WhatsApp.

O Já É, que está em sua segunda edição, foi criado para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior para pessoas negras de 20 a 25 anos, com ensino médio completo em escola pública. Nesta segunda edição, até 30 jovens receberam bolsa mensal de R$ 700 por 17 meses, além de mentorias coletivas e individuais, acompanhamento psicológico e atividades formativas. Um investimento na permanência e na potência da presença negra na academia, que amplia perspectivas e fortalece a produção de conhecimento.

Para Winsana, o impacto foi concreto.“O Já É agregou muito ao meu conhecimento de mundo, ao meu desenvolvimento pessoal e trouxe uma estabilidade financeira melhor do que eu tinha antes. A bolsa ajudou, e ainda ajuda, a custear gastos com os estudos.”

Mais do que apoio financeiro, o programa oferece algo essencial: pertencimento e orientação. Para muitos jovens negros, entrar e permanecer na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, e contar com uma rede de apoio faz diferença.

O sonho da menina da periferia que  nasceu e cresceu em Curitiba hoje se concretiza com o alicerce da família. A mãe, Claudia Maria Ferreira; o pai, Francisco N’Tchalá, natural de Guiné-Bissau; e os irmãos Watena, Yabna e Abayomi.

A infância simples, marcada por desafios financeiros, mas também por algo fundamental: incentivo. “Meus pais nunca deixaram faltar nada. Sempre me incentivaram a fazer uma graduação e ter orgulho da minha negritude”, conta.

Aos 6 anos, em uma conversa sobre profissões com o pai, nasceu a vontade de estudar Medicina. Quando ele morreu, vítima de insuficiência renal, ela tinha apenas 10 anos. A experiência de cuidar dele reforçou o desejo: queria ser médica. Queria cuidar de pessoas.

Sua formação se deu por completa em escolas públicas, como tantos jovens negros e negras no Brasil que enfrentam as defasagens estruturais da educação básica. Nas últimas décadas, houve avanços importantes no acesso ao ensino superior, mas pessoas negras ainda estão sub-representadas nas universidades. Em cursos altamente concorridos, como Medicina, a desigualdade é ainda mais visível.

“Foram quatro anos de dedicação total aos estudos. Parei de fazer coisas que eu gostava, sofri com matérias que tinha dificuldade. Não foi fácil. Mas valeu a pena”, afirma.

Nesse percurso, ela prestou vestibular para a PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), onde conquistou o segundo lugar. Mesmo assim, a escolha já  estava feita: seguir na UFPR. “Foi a realização de um sonho para mim e para minha família.” E a sensação da aprovação? “Foi como quando uma criança ganha um presente que queria muito”, afirma. 

Segundo o IBGE 2022, embora a presença de pessoas pretas e pardas com ensino superior tenha crescido, a proporção de jovens brancos de 18 a 24 anos com ensino superior completo ainda é mais que o dobro da registrada entre pretos e pardos. Além disso, milhões de jovens brasileiros não concluem sequer o ensino médio. E a maioria é negra.

Esses dados evidenciam que a desigualdade não está na capacidade, mas no acesso às oportunidades e nas condições de permanência.

Quando perguntada sobre o futuro, Winsana responde com simplicidade e firmeza:
“Quero ser uma médica humanizada, que escuta com atenção os pacientes, uma profissional de excelência.” Ela ainda não decidiu a especialidade. Mas já decidiu o principal: fará tudo com dedicação.

Para quem sonha em participar do Programa Já É, ela deixa um conselho direto: “Não vai ser fácil. Mas não desistam. A única forma que tenho certeza que nós, pessoas de baixa renda e negras, temos de ter ascensão social é por meio dos estudos.”

A aprovação de Winsana na UFPR é, sim, uma conquista individual. Mas também é a prova de que quando existe investimento, acompanhamento e confiança na juventude negra, os resultados aparecem. O Fundo Baobá acredita nisso. O Já É aposta nisso.
E Winsana N´Tchala é a prova viva de que já é tempo de ocupar todos os espaços,  inclusive aqueles que, historicamente, sempre foram negados ao povo preto.

Além de Winsana N´Tchala, o Fundo Baobá comemora também o sucesso de outros estudantes apoiados pela segunda edição do Programa Já É: Aryele Costa, Administração na Universidade Federal do Maranhão; Christian Leal, Arquivologia na Universidade Federal da Bahia; Denagnon Gogo, Engenharia na Universidade Federal do Espírito Santo; Gabriele Marques, Medicina na Universidade Federal de Pelotas; Joicilene Cabral, Medicina na Universidade Federal do Pará e Lara Dias, Jornalismo na Universidade Salvador (Unifacs).

15 anos do Fundo Baobá: do primeiro apoio ao próximo capítulo

15 anos do Fundo Baobá: do primeiro apoio ao próximo capítulo

Em 2014, a Cia Um Brasil de Teatro e Artes foi uma das organizações apoiadas na primeira chamada pública do Fundo Baobá. Anos depois, em 2019, lançou o emocionante curta-documentário Nossa Família. Agora, prepara um novo capítulo: o longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas da história.

Essa trajetória, que atravessa mais de uma década, mostra como investimento, confiança e memória caminham juntos. Ao completar 15 anos, o Fundo Baobá celebra justamente isso: não apenas os projetos apoiados no passado, mas as histórias que seguem vivas, se transformando e criando novos futuros.

Em 2014, quando o Fundo Baobá lançou sua primeira chamada para apoiar organizações negras, a Cia Um foi uma das selecionadas. Na direção do projeto estava Max Mu, ator, dramaturgo, diretor, cineasta e produtor cultural, que há mais de 20 anos pesquisa e transforma em arte histórias de um Brasil invisibilizado. Foram essas histórias que ganharam espaço no documentário Nossa Família.

O curta, lançado na Festa Literária Internacional de Paraty em 2019, segue disponível ao público, emocionando quem o assiste. A narrativa acompanha o cotidiano de duas catadoras de materiais recicláveis que adotaram, respectivamente, 25 e 45 filhos. Isso mesmo! Uma filosofia de vida baseada no cuidado, na partilha e no amor. Um retrato sensível de mulheres que transformaram a própria realidade e a de dezenas de crianças com coragem e afeto.

A produção atravessou mudanças e desafios ao longo do caminho. Em meio a esse processo, Max assumiu integralmente a condução da obra e levou o projeto até o fim. O apoio do Fundo Baobá foi decisivo. Mais do que financeiro, foi um gesto de confiança que ajudou a tirar o roteiro do papel e registrar uma memória viva da cultura brasileira.

É justamente esse movimento que o Fundo Baobá deseja mostrar ao celebrar seus 15 anos.

Hoje a história segue sendo contada. A Cia Um Brasil está produzindo um longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas do curta, agora com 85 anos. Para viabilizar o filme, a companhia lançou uma campanha de captação direta chamada “Ciclo Positivo”, uma proposta que busca mobilizar apoiadores individuais para tornar o filme possível e apoio que retorna em forma de gratidão.

Diante de um cenário em que mecanismos de financiamento seguem modelos baseados em referências externas à realidade brasileira, o Fundo Baobá escolhe apoiar a partir da memória, das práticas comunitárias e das estratégias históricas da população negra. 

Como afirma Max Mu, “é sobre reconhecer quem nos enxergou quando quase ninguém nos via. É sobre fortalecer a missão de fazer ‘Um Brasil’ cada vez mais visto.” 

Celebrar 15 anos é também olhar para trás e perguntar: onde estão hoje aqueles que apoiamos? A resposta está em histórias como esta — que continuam crescendo.

Conheça o projeto, assista a Nossa Família e acompanhe os próximos capítulos dessa trajetória. Registrar memórias é investir no futuro.