Programa Black STEM apresenta nova turma de bolsistas em São Paulo

Quatro novos bolsistas se uniram aos cinco pioneiros da 1ª edição do programa, que oferece bolsas de estudo para graduação no exterior.

Em evento realizado na B3, a bolsa do Brasil, localizada na região central de São Paulo, o Baobá – Fundo para Equidade Racial, e a B3 Social apresentaram quatro bolsistas selecionados na segunda edição do Programa Black STEM. Os estudantes foram aceitos por universidades nos Estados Unidos e na Europa e terão o apoio complementar do Black STEM para custear suas despesas no exterior. 

O programa Black STEM tem como objetivo apoiar a permanência de pessoas negras em cursos de graduação no exterior, especificamente nas áreas STEM, que englobam Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

 O histórico

Em 2025, o Programa mantém seu propósito: quatro novos bolsistas foram selecionados por especialistas em STEM,  Psicologia e Educação. Cada um receberá uma bolsa de R$35 mil anuais para custear moradia, transporte, alimentação, mensalidades e material acadêmico. As bolsas são renovadas anualmente até o estudante concluir o curso. Conheça as pessoas selecionadas: 

Enio Ferreira Barbosa (Salvador/BA): Ciência da Computação na Stanford University, EUA.

●    Gabriel Hemetrio de Menezes (Belo Horizonte/MG): Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – MIT, EUA

●    Gabriela Torreão Marques Ferreira (Fortaleza/CE): Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame, EUA

Maria Luiza Storck Ferreira (Rio de Janeiro/RJ): Engenharia Química na Universidad de Jaén, Espanha

Trajetórias negras na ciência

A história das ciências exatas no Brasil é marcada por contribuições fundamentais de profissionais negros. Alguns nomes se destacam: Sonia Guimarães, física e professora no Instituto Tecnológico da  Aeronáutica (ITA); Enedina Alves, primeira mulher negra a concluir o curso de Engenharia no Brasil em 1945; os irmãos engenheiros André e Antônio Rebouças, engenheiros que revolucionaram a infraestrutura urbana no século XIX, e Simone Evaristo, bióloga cujas pesquisas no Instituto Nacional do Câncer (INCA) avançaram no combate à doença.

Sonhar sem fronteiras

A trajetória desses jovens prova que estudar no exterior é possível e transformador. Além de ampliar os próprios horizontes, contribuirão para a produção de conhecimento na academia global e ainda se tornarão inspiração para outras pessoas que desejam seguir o mesmo caminho. O Black STEM não apenas abre portas, mas constrói pontes. Como parte de um movimento maior pela equidade na educação, o edital transforma o sonho de fazer graduação no exterior em realidade concreta para estudantes negros. Desde 2024, os primeiros bolsistas já vivem essa experiência – cada trajetória acadêmica internacional não só amplia seus horizontes individuais, mas se torna farol para quem vem depois.

Com muita emoção diante de seus pais e familiares, os estudantes selecionados pelo edital Black STEM puderam vislumbrar os caminhos profissionais que irão seguir depois de formados. Maria Luiza Storck Ferreira creditou a uma professora do Ensino Médio, Claudia, o incentivo que a apoiou em Química.“Com isso, eu talvez me fixe na área da cosmetologia. Estudar a pele negra e ver quais produtos podem ser desenvolvidos.” 

Gabriel Hemetrio de Menezes confessou ser curioso desde pequeno e isso o levou a desenvolver o interesse pela Física. “Eu queria saber de tudo: por que as estrelas brilhavam? Por que existia o arco-íris? Isso foi me levando a pesquisar e, a partir daí, consegui resultados expressivos em olimpíadas científicas. Quero me aprofundar em Física Quântica e Cosmologia”. Gabriela Torreão Marques Ferreira, por sua vez, aprendeu a explorar os jogos de lógica até descobrir a Química. “Na química descobri uma espécie de quebra-cabeça que eu seria capaz de resolver. Meu desejo é me especializar em nanotecnologia e criar remédios para ajudar as pessoas a tratarem suas doenças.” 

Enio Ferreira Barbosa teve em uma conterrânea baiana a sua inspiração. “Certa vez li sobre Georgia Gabriela, uma menina na Bahia que foi aprovada em nove universidades americanas e optou por Stanford. Optei por Stanford naquela oportunidade”. A fala dele reflete o pensamento dos alunos sobre a importância das bolsas Black STEM em suas trajetórias. “O edital me dá a tranquilidade de ter uma rede de apoio. Nossa missão, como estudantes, é técnica. Mas ela também tem um lado social. Nós vamos para um ambiente de elite, mas não vamos negligenciar nossa origem, nossa raça e nossos valores”, afirmou. 

Continuidade

Mais do que um programa, é o início de um ciclo: em 2026, o Fundo Baobá seguirá fomentando o acesso às universidades do mundo todo, fortalecendo a presença negra nas áreas STEM – onde a população negra brasileira sempre contribuiu, muitas vezes como pioneira. Aqui, permanência e excelência acadêmica andam juntas, com apoio financeiro e mentorias para a permanência no ambiente acadêmico.

Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Baobá – Fundo para Equidade Racial, comenta sobre a segunda turma do Programa Black STEM:  “Projeto nenhum produz resultado sozinho. É a somatória que vem produzir resultados. O Baobá assumiu com a B3 o compromisso de descentralizar oportunidades. O sentido do investimento que estamos fazendo está voltado para onde o conhecimento negro vai fazer a diferença.”

Fabiana Prianti, head da B3 Social, coinvestidora do Programa, destacou o impacto estratégico desse investimento: “a B3 Social acredita no poder transformador da educação como caminho para o desenvolvimento econômico sustentável e, como consequência, para a equidade racial. Apoiar o Black STEM representa a oportunidade de contribuir para a formação de uma nova geração de talentos diversos, impulsionando mudanças reais no acesso ao conhecimento e ao mercado. Projetos como esse ampliam horizontes, rompem barreiras históricas e mostram que diversidade e inovação caminham juntas.”

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, reforçou a importância do programa. “O Black STEM tem a ousadia de ampliar o universo dos direitos. 18% dos profissionais de STEM no país são negros. Esperamos que quando esses estudantes regressarem, voltem com o compromisso de alavancar essa presença e alavancar as tecnologias nacionais.”

Edital Educação e Identidades Negras provoca transformações significativas nas organizações apoiadas

O edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial foi encerrado com um saldo bastante positivo. Após dois anos de vigência, ele resultou em um impacto de transformação para as 12 organizações que receberam, cada uma, R$ 175 mil para implementar seus projetos. 

As transformações foram possíveis tanto pelo apoio financeiro quanto pelo suporte técnico oferecido nas oficinas organizadas pelo Fundo Baobá. As organizações tiveram acesso a recursos para aquisição de equipamentos e capacitação em gestão, o que gerou aumento da visibilidade de cada uma delas, além do fortalecimento institucional.

Ações antirracistas e fortalecimento institucional

Uma característica comum entre as organizações participantes do processo seletivo foi o desenvolvimento de estratégias para enfrentar o racismo em instituições educacionais — formais e não formais — e promover maior representação de pessoas negras nos espaços de decisão na educação. 

Das 12 organizações apoiadas, 9 nunca haviam recebido qualquer tipo de financiamento para seus projetos. Isso reflete a missão do Fundo Baobá, que realiza uma busca ativa por organizações que atuam em territórios desassistidos.

O papel do Fundo Baobá na descentralização de recursos

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, analisa esse cenário:

“Algumas das organizações apoiadas atuam na luta antirracista há uma ou duas décadas e, ainda assim, não haviam acessado recursos da filantropia. Alcançá-las com bons critérios de seleção é um indicador de sucesso. Aos poucos, estamos chegando a organizações de diferentes regiões do país, saindo das capitais dos estados. Descentralizar o acesso aos recursos financeiros e ampliar o acesso às assessorias técnicas que contribuam com o fortalecimento das lideranças, organizações, grupos e coletivos negros é parte da nossa missão”, afirma.

Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá, que é uma mulher negra, com cabelos longos em dreadlocks e óculos de armação clara, sorri enquanto participa de uma conversa em ambiente interno iluminado. Ela veste uma blusa preta sem mangas e calça com estampa colorida. Está sentada em uma cadeira de escritório bege, com postura aberta e expressiva, demonstrando atenção e receptividade. Ao fundo, vê-se uma parede clara e uma planta em vaso, o que reforça o clima acolhedor do espaço. Simulando a fala sobre  edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial
Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá. Crédito: Thalita Novais 

Um dos critérios para seleção das organizações era a atuação na promoção efetiva do que determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Essas legislações tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas, modificando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apesar da determinação legal, muitas instituições de ensino — tanto públicas quanto privadas — ainda a ignoram, uma realidade que precisa ser transformada.

“As organizações apoiadas no edital contribuíram para reduzir o desconhecimento, subsidiar e cobrar a implementação. Promoveram diálogos que, na maioria das vezes, são incomuns, envolvendo movimento social e unidades formais de educação básica ou universitária. Ver os resultados e saber que mais de 15 mil pessoas tiveram acesso a conteúdos anteriormente vetados em função do racismo é um bom indicador de que estamos no caminho certo de investimento”, completa Fernanda Lopes.

Afoxé Omô Nilê Ogunjá: cultura, autonomia e educação

O edital apoiou organizações, coletivos e grupos negros de nove estados brasileiros. Uma delas foi o Afoxé Omô Nilê Ogunjá, uma associação cultural de tradição afro-brasileira da cidade de Recife, em Pernambuco. Assim como as demais, o Afoxé enfrentou desafios relacionados à gestão de projetos e à prestação de contas. Mas as dificuldades apenas reforçaram o desenvolvimento das habilidades nessas áreas, contribuindo para a autonomia operacional da associação.

Com essa autonomia consolidada, o Afoxé Omô Nilê Ogunjá estabeleceu parcerias para difundir, entre estudantes e educadores da Educação Básica ao Ensino Superior, conhecimentos importantes sobre a cultura afro-brasileira e a história do Brasil, por meio da dança, da música e dos saberes ancestrais.

“Firmamos parcerias com instituições de ensino acadêmico, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com instituições de educação básica, que são o nosso público-alvo, o nosso grande público. Firmamos também parcerias com quatro escolas do bairro do Ibura, escolas públicas e uma escola de capital misto. Trabalhamos, através da Lei 10.639, aspectos da cultura e identidade afro-brasileira, passando pela questão da educação etnicorracial. Tivemos formações para professores, atividades com estudantes e levantamentos diagnósticos”, relata Manoel Neto, representante da organização pernambucana.

Manoel Neto é um homem negro, com barba cheia e cabelo raspado, veste uma camisa clara de linho com o primeiro botão aberto. Ele usa óculos de armação redonda e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, vê-se um mural colorido com figuras humanas e elementos da cultura afro-brasileira, trazendo um ar vibrante e artístico à composição. A iluminação suave valoriza a expressão serena e confiante do retratado. Ele é representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá
Manoel Neto, representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá.

Ele também destaca o salto de qualidade obtido com o apoio técnico do Fundo Baobá: “Foi um ganho muito grande para a nossa instituição. Nós tivemos muitas mudanças corroboradas por esse processo de participação no edital. Passamos a ter um planejamento mais institucional. A elaboração desse planejamento, realizada durante a parceria com o Fundo Baobá, foi muito importante para definir os horizontes que agora estamos trilhando — e que são os que gostaríamos de trilhar. Foi importante para definir onde vamos chegar e aonde queremos chegar. Foi importante, inclusive, para conseguirmos uma parceria com uma nova instituição. Conseguimos um financiamento para 2025 de R$ 300 mil para dar continuidade às ações e garantir a permanência das atividades”, conclui.

Parceria com Imaginable Futures e Fundação Lemann

O Fundo Baobá para Equidade Racial contou com apoio financeiro das instituições Imaginable Futures e Fundação Lemann para a realização do edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial, que teve um aporte de aproximadamente R$ 2,5 milhões e resultou no apoio a 12 organizações.

A Imaginable Futures participou, pela primeira vez, de uma iniciativa dedicada exclusivamente a organizações negras e reconhece a importância dessa participação:

“Historicamente, organizações negras têm acumulado experiências valorosas que as colocam em um lugar central para propor práticas e políticas públicas para promover a equidade no ensino e melhorar a qualidade da educação. No entanto, elas enfrentam desafios para acessar recursos e recebem apenas uma pequena parcela do capital filantrópico no Brasil. Em razão dessa assimetria, temos nos juntado a iniciativas que destinam recursos para essas organizações. A iniciativa com o Baobá foi uma experiência inaugural e transformadora para a Imaginable Futures — não apenas pela legitimidade que o Baobá já tem no campo, mas porque nos permitiu aprender e evoluir enquanto organização. Foi uma parceria de muita aprendizagem, que fortaleceu a nossa estratégia e nos ajudou a melhorar a forma como atuamos em prol da equidade racial na educação”, diz Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures, pessoa negra, com cabelo volumoso em estilo afro e barba bem cuidada, sorri enquanto olha para o lado, transmitindo leveza e naturalidade. Usa óculos de armação arredondada e brinco geométrico pendente, além de uma camiseta sem mangas em tom terroso. O fundo neutro e levemente desfocado valoriza sua presença e expressão, em uma composição simples e elegante.
Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Como apoiar o Fundo Baobá

Para contribuir com ações transformadoras como essa, acesse o site do Fundo Baobá e faça sua doação.

Para saber mais sobre o edital Educação e Identidades Negras, clique aqui.