Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.
Mais do que uma data comemorativa, o 25 de julho representa uma agenda política construída pelas próprias mulheres negras. Instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, o dia nasceu da articulação de cerca de 400 lideranças de mais de 30 países, que se reuniram para denunciar os impactos do racismo, do sexismo, da violência e das desigualdades sobre suas vidas.
A data simboliza a luta coletiva contra as diferenças de toda ordem que ainda atravessam a vida de milhões de mulheres negras. No Brasil, a homenagem também reverencia Teresa de Benguela, referência de resistência, liderança e liberdade.
Já o Julho das Pretas transforma esse dia histórico em um mês de mobilização, incidência política e fortalecimento das lutas das mulheres negras, reafirmando seu papel fundamental na construção de sociedades mais justas e democráticas.
Embora as mulheres negras representem a maioria da população brasileira, elas continuam enfrentando barreiras no acesso a direitos, como a igualdade salarial e a participação política em espaços de decisão. Por isso, celebrar o 25 de julho é também reafirmar o compromisso com políticas e iniciativas que fortaleçam seu protagonismo.
É nesse contexto que o Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá, ganha ainda mais significado. Inspirado no legado de uma mulher negra que transformou sua atuação política em instrumento de luta por direitos, o programa investe na formação, no fortalecimento e no desenvolvimento de lideranças negras e organizações lideradas por mulheres negras, ampliando sua presença em espaços de poder e influência. A iniciativa apoia trajetórias individuais, organizações e coletivos liderados por mulheres negras, contribuindo para que suas vozes sejam cada vez mais ouvidas e suas agendas avancem.
Celebrar o 25 de julho é reconhecer que a luta das mulheres negras não se limita a uma data. É compreender que investir em suas lideranças é fortalecer a democracia, promover justiça social e construir um futuro em que direitos, oportunidades e representatividade sejam uma realidade para todas.
A agenda de incidência política do Julho das Pretas 2026 foi marcada por manifestações de norte a sul do Brasil. A seguir, destacamos cinco iniciativas realizadas ao longo do mês que levaram mulheres negras ativistas às ruas e aos mais diversos espaços de debate, reafirmando a força da mobilização coletiva em diferentes territórios:
Nordeste – Piauí A X Feira Preta, organizada pelo Instituto Mulher Negra do Piauí – Ayabás, acontecerá amanhã, dia 31 de julho, no Memorial Esperança Garcia. O evento promove o empreendedorismo negro por meio da comercialização de produtos e da oferta de serviços.
Norte – Tocantins O 6º Encontro Estadual de Mulheres Negras, organizado pelo Coletivo Feminista de Mulheres Negras do Tocantins (Ajunta Preta), aconteceu nos dias 25 e 26, na Universidade Federal do Tocantins. Com o tema O Feminismo Negro que Temos e o Feminismo Negro que Queremos, reuniu um número significativo de mulheres negras para debater os desafios e perspectivas do movimento.
Centro-Oeste – Goiás O Corredor Urbano das Pretas: Ocupação Política do Centro, promovido pelo Instituto Pretas, ocupou, no dia 25, algumas das principais vias de Goiânia (Av. Tocantins, Praça Cívica, Av. Goiás, Av. Anhanguera, Rua 10 e Praça Universitária). A ação buscou fortalecer a visibilidade das pautas das mulheres negras e reafirmar a ocupação dos espaços públicos como estratégia de memória, resistência e incidência política.
Sudeste – Rio de Janeiro O I Seminário Direito à Cidade e à Justiça Climática: As Raízes, as Vozes e a Força das Mulheres Negras Brasileiras, organizado pelo Ministério das Cidades no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, reuniu, no dia 23, mulheres negras para discutir direito à cidade e justiça climática, integrando atividades de literatura, gastronomia, arte, música e empreendedorismo.
Sul – Paraná O Pacto da Negritude, organizado pela Rede Mulheres Negras do Paraná no cursinho popular Ubuntu, na Universidade Federal do Paraná (Campus Rebouças), promoveu, em 25 de julho, um debate voltado à conscientização e ao fortalecimento de práticas antirracistas.
O Fundo Baobá nasceu, há 15 anos, a partir de um processo de diálogo com movimentos sociais, lideranças negras, organizações da sociedade civil, academia e parceiros institucionais. Essa escuta ativa, que sempre fez parte do DNA da organização, foi fortalecida recentemente, com a criação da área de Articulação Social. Ela surge a partir de aprendizados de uma década e meia, com o objetivo de dar manutenção às redes de relacionamento do Fundo Baobá e a sua capacidade de incidência no ecossistema de promoção da equidade racial no Brasil.
A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo. Ela é também uma resposta a diversas transformações no ecossistema filantrópico e nos movimentos sociais, pois ao longo da última década e meia ampliaram o debate sobre justiça racial, reparação histórica e fortalecimento de organizações lideradas por pessoas negras.
Para Caroline Almeida, gerente de articulação social do Fundo Baobá, o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.
Na foto: Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social |Créditos: Thalita Guimarães
“A transformação social não ocorre apenas por meio do apoio financeiro, mas também pela construção de relações estratégicas, fortalecimento de redes e incidência”, afirma Caroline. Para ela, trata-se de tornar mais intencional e sistematizada uma prática que sempre esteve presente na atuação do Fundo Baobá.
A área nasce com a missão de contribuir para que a atuação do Fundo Baobá seja cada vez mais conectada às transformações do contexto social e político, tendo como busca a potencialização de diversas vozes nos processos de reflexão, decisão e incidência que envolvem a organização e o campo da filantropia. Mais do que ampliar relacionamentos, a área apoia a consolidação de uma cultura institucional baseada na escuta qualificada, na construção de confiança e na promoção de alianças estratégicas comprometidas com a transformação social e a justiça racial.
“Nosso compromisso é fortalecer processos de escuta, diálogo e construção conjunta. Entendemos que movimentos, organizações e lideranças negras não são apenas beneficiários de recursos, mas sujeitos políticos fundamentais na formulação de soluções e estratégias para a promoção da justiça racial”, afirma Caroline.
O ano de 2026 marca os 15 anos de atuação do Fundo Baobá para Equidade Racial, que reafirma seu compromisso com o fortalecimento de lideranças, organizações e iniciativas negras em todas as regiões do país. Com presença em territórios diversos e realidades distintas, a organização tem contribuído para ampliar oportunidades, promover inclusão e fortalecer redes de transformação social.
O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.
Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.
Segundo Patrícia, o apoio recebido contribuiu para ampliar o alcance das atividades voltadas para jovens negros, moradores de bairros periféricos, criando conexões e experiências que ultrapassaram os limites dos territórios onde vivem. “O apoio do Fundo Baobá teve um impacto direto nas pessoas. Em 2016, trabalhamos com três bairros grandes e periféricos aqui de Porto Alegre: Restinga, Cruzeiro do Sul e Morro Santana. Até hoje, ou seja, dez anos depois, ainda carecem de um olhar voltado para atividades culturais. Então, ter acesso a esse recurso ampliou a oportunidade de formação para esses jovens na criação de intercâmbios para além das suas regionalidades”, explica Patrícia da Silva, coordenadora do coletivo.
A iniciativa também contribuiu para aproximar diferentes gerações de artistas negros que atuam nos territórios periféricos, fortalecendo redes locais de produção cultural e ampliando as perspectivas profissionais dos jovens participantes. “Esse suporte contribuiu para o desenvolvimento profissional desses jovens e também para o envolvimento desses artistas territoriais para fazer uma espécie de casamento entre essa geração que está surgindo agora e a que já está atuando nesses bairros”, acrescenta.
Créditos: Divulgação Black Brazil Art
Ao longo de seus 15 anos de atuação, o Fundo Baobá tem investido no fortalecimento de organizações negras em diferentes estados brasileiros e em diferentes áreas de atuação, reconhecendo o papel estratégico dessas iniciativas na promoção da equidade racial e no enfrentamento das desigualdades históricas. Além do aporte financeiro, os programas desenvolvidos pela instituição contribuem para ampliar a visibilidade de projetos, fortalecer redes de colaboração e criar novas oportunidades para organizações, profissionais e lideranças negras.
Para Patrícia, esse tipo de investimento continua sendo fundamental para ampliar o acesso da juventude negra a oportunidades de formação, desenvolvimento e protagonismo. A história da Black Brazil Art é um dos exemplos que ilustram o alcance nacional do Fundo Baobá, que amplia oportunidades e promove a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
“Ainda carecemos de mais oportunidades e de mais acessos, principalmente para a nossa juventude preta. Então, sou muito grata por ter sido uma das tantas contempladas a receber um recurso do Fundo Baobá. No meu caso, esse investimento foi fundamental porque ofereceu suporte concreto para que a minha organização, que é liderada por uma mulher negra, pudesse desenvolver esse projeto com tantas outras meninas e meninos negros”, finaliza Patrícia da Silva.
Na edição deste mês, compartilhamos os bastidores da criação e repercussão de um momento histórico: o desenvolvimento da nova marca do Fundo Baobá. Para contar como foi possível transformar impacto, ancestralidade e resistência em identidade visual e verbal, conversamos com a equipe criativa do projeto.
A empresa responsável, Motora Design, passou por um processo de imersão para traduzir a bagagem histórica e social do Fundo Baobá em formas, linguagens, cores e tipografias. Nessa etapa, foi necessário pensar e construir conexões e narrativas que reverenciavam a memória de quem se mobilizou para que o Fundo Baobá nascesse e crescesse. O resultado desse trabalho é o símbolo atual, cujos traços foram inspirados e remetem às tranças nagôs, uma referência que carrega história, identidade e movimento.
Historicamente, as tranças afro possuem um profundo significado cultural, social e de resistência. Na África Antiga, com origem no povo iorubá, elas indicavam a identidade de uma pessoa, revelando sua idade, estado civil, tribo e posição social. Durante o período da escravidão, o trançado tornou-se ferramenta de sobrevivência e liberdade: seus desenhos geométricos serviam como mapas secretos com rotas para os quilombos e, entre os fios, eram escondidas sementes para garantir o plantio nas comunidades livres. Além de preservar a dignidade e a vaidade daqueles que tinham suas cabeças raspadas pelos colonizadores, o ato de trançar carrega uma dimensão sagrada de afeto e socialização ligada ao culto ao Orí (a divindade da cabeça e do destino). Hoje, as tranças permanecem um poderoso símbolo de autoafirmação, empoderamento e reconexão com a herança afrodescendente.
Para entender como o processo de redesenho da marca começou, a equipe criativa fez um mergulho profundo nos materiais e documentos que registram a história do Fundo Baobá. Também houve a preocupação de olhar para a comunicação atual da organização e de outras, dentro e fora do Brasil, que atuam no mesmo ecossistema para buscar referências importantes.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos nos conta que esse projeto começou com uma inquietação sobre como traduzir o que é o Fundo Baobá para Equidade Racial hoje. Ela afirma que foi muito relevante o papel de Amalia Fischer, Vice-Presidente do Conselho Deliberativo, que apoiou com escuta, experiência e direcionamento juntamente com a equipe executiva, que se envolveu bastante e foi fundamental para esse resultado.
A “roupa nova” chega bem na hora da festa: 2026 é o ano em que o Fundo Baobá completa 15 anos de história apoiando iniciativas de enfrentamento ao racismo no Brasil e promovendo equidade racial.
“A marca baila pelo tempo: olha para trás em reverência ao passado, se adapta aos desafios do presente e aponta para um futuro cheio de possibilidades”, afirma Janaina.
Ao longo do processo foram realizados workshops, entrevistas e conversas com diferentes pessoas da organização. “Ouvimos histórias, percepções e expectativas”, conta Laís Fonseca, diretora de arte da Motora. A partir daí, o desafio foi traduzir conceitos que são essencialmente humanos em uma linguagem visual. “Buscamos construir uma identidade que não fosse apenas bonita ou contemporânea, mas que fosse capaz de carregar significado. Cada escolha, da paleta de cores aos grafismos, nasceu dessa tentativa de transformar histórias em símbolos e valores em linguagem visual”, afirma.
A nova identidade do Fundo Baobá nasce de uma ideia que parece simples, mas é muito poderosa: o futuro não se constrói sozinho. O Fundo Baobá é uma organização que olha adiante, mas que entende que o futuro só existe porque muitas pessoas vieram antes, abriram caminhos e sustentaram lutas coletivas. Por isso, os grafismos, as cores, a tipografia e até a forma como os elementos ocupam o espaço foram pensados para traduzir essa ideia de movimento contínuo. Portanto, o sentimento que fica desse processo de reposicionamento da marca é a base sólida que sustenta o Fundo Baobá e dá a certeza de sua continuidade nos próximos anos.
“Nosso trabalho estratégico continua sendo a ampliação do reconhecimento da marca, do propósito e das ações. Afinal, não é só sobre o visual, mas sim sobre garantir que nosso público realmente conheça o que o Fundo Baobá faz e como opera”, afirma Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. Para ela, o resultado final foi possível pelo envolvimento de toda a atual equipe executiva: “A escuta e pesquisa sobre o legado fez toda a diferença para chegar não somente em algo novo, mas também em um conceito que apresentasse a trajetória do Fundo Baobá”.
Para Luize Araujo, diretora criativa, o maior desafio foi equilibrar a narrativa que se tornou o grande fio condutor de todo o projeto: garantir que seria construída uma visão comum de futuro sem desrespeitar ou ignorar todo o legado do Fundo Baobá. “Legado esse, aliás, que não se limita só ao tempo de atuação da organização, já que suas raízes vêm de movimentos e articulações muito mais antigas e complexas do que a existência do próprio Fundo Baobá”, afirma.
Pouco depois do lançamento da marca, que ocorreu em 19 de março, como parte das comemorações pelos 15 anos, houve uma grata surpresa de vê-la no site Brand New, uma das maiores referências globais em design, especializado em analisar o redesign de marcas do mundo inteiro, e que faz uma curadoria para destacar o “antes e depois” de identidades visuais de grandes empresas e organizações.
O Fundo Baobá foi um dos convidados para participar de uma série de oficinas organizadas pela RIAFRO – Rede Interamericana de Altas Autoridades para a População Afrodescendente, realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia, em maio deste ano. O evento reuniu representantes estatais de diversos países como México, Guatemala, Peru, Uruguai, Panamá e Colômbia com o objetivo de capacitar os países a acessar recursos de cooperação internacional voltados para equidade racial e enfrentamento ao racismo.
A RIAFRO é um mecanismo especializado de diálogo, coordenação e colaboração contínua entre as autoridades nacionais das Américas para promover a implementação de políticas para as populações afrodescendentes, em conformidade com as obrigações internacionais e regionais, com objetivo de promover os direitos humanos da população negra em todo o mundo.
Criada em Lima, Peru, em 2018, é composta por 12 Estados-membros: Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, e apresenta, a cada dois anos, seus avanços em políticas públicas para a inclusão de populações afrodescendentes e combate ao racismo, além de todas as formas de discriminação e intolerância.
O Fundo Baobá fez parte do evento com a presença de Giovanni Harvey, Diretor Executivo, Hebe Silva, Gerente de Operações, e Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos. Giovanni Harvey foi mediador na oficina “Conceitos: Cooperação Internacional, Arrecadação e Gestão de Recursos para Instituições Nacionais de Políticas para Afrodescendentes”. E também painelista na mesa “Como funciona a cooperação para afrodescendentes em fundações internacionais?”, que contou com a participação de Melissa Hernández, da Fundação Ford; Renata Braga, da Open Society Foundations, e Jenny Petrow, da Fundação Kellogg.
Arquivo Fundo Baobá
Durante as oficinas, ficou evidente que o Brasil é visto como uma grande referência em políticas de justiça racial na América Latina e no Caribe. Conquistas históricas como a criminalização do racismo, as políticas afirmativas em universidades e concursos públicos, e a própria existência de um fundo independente gerido por pessoas negras, como o Fundo Baobá, serviram de referência para os países presentes.
Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, a participação deu a oportunidade de observar a dinâmica de uma reunião de estado, com pessoas engajadas e comprometidas na reparação histórica dos afrodescendentes na diáspora. “A questão racial tem menor escala de importância nos fundos internacionais e em alguns organismos governamentais. Isso faz com que essa área de atuação não apresente a robustez equivalente à importância da causa. No evento, tivemos oportunidade de falar sobre o Brasil e sobre nossa atuação, fundamentada nos aspectos amplos que a promoção da equidade racial demanda”, afirma.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo Baobá reitera que a presença em fóruns como este valida a capacidade de incidência e diálogo, além de posicionar o Brasil como um ator relevante nas discussões sobre justiça racial na América Latina e Caribe. Para ela, é um reconhecimento de que a metodologia do Fundo Baobá é um modelo inspirador para outros países e uma importante consolidação para mostrar que a filantropia negra brasileira tem muito a contribuir com o ecossistema global.
Estar presente na RIAFRO reafirma o compromisso do Fundo Baobá com a continuidade e o entrelaçamento de trajetórias. Ocupar esses espaços trazendo conhecimentos estratégicos para a nossa rede é a garantia de que o investimento social privado em equidade racial continue gerando frutos, de forma regional e global.
O combate ao crime de racismo ganhou um novo manifesto: uma camisa oficial do clube paulistano com a ilustração na gola “Racismo é Crime. Denuncie”. Após injúrias raciais sofridas pelo jogador Vini Jr., e pelo goleiro Hugo Souza, o Corinthians decidiu transformar a indignação em atitude e criou a camisa.
Arquivo Fundo Baobá
A peça, doada ao Fundo Baobá, é um lembrete de que o enfrentamento ao racismo exige ação e é um chamado à responsabilidade coletiva. Além da mensagem, ela conta com um QR code que direciona a uma página do clube com orientações práticas sobre o que fazer em caso de ser vítima ou presenciar injúria racial. Seu significado vai além dos gramados. O gesto de vestir a camisa, símbolo de pertencimento e compromisso, reforça que o combate ao racismo é responsabilidade de todos e deve ser contínuo.
O clube buscou o Fundo Baobá e outras organizações que atuam pela promoção da equidade racial para entregar oficialmente a camisa. A iniciativa reforça a força do símbolo como ferramenta de luta por respeito e justiça racial em todos os espaços da sociedade.
A entrega ocorreu em 23 de abril. A equipe do Fundo Baobá foi recebida por Rafael Garcia, Gestor de ESG e Marketing do Corinthians.
A ação reforça a urgência de promover iniciativas e debates que ampliem a conscientização e o combate ao racismo em todas as esferas da sociedade.
O Fundo Baobá reconhece este posicionamento, e reforça que promover equidade racial no país sempre envolve ação.
Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes. É a partir dessa trajetória coletiva, marcada por aprendizados e melhorias ao longo do tempo, que o Fundo Baobá segue fortalecendo sua atuação e um modelo de governança que está na base dos nossos passos.
Atualmente, o Fundo Baobá conta com uma equipe de 20 profissionais e uma governança ativa, permitindo que o crescimento amplie o alcance de iniciativas voltadas à promoção da equidade racial. Entre elas estão programas de formação acadêmica internacional, acesso ao ensino superior, desenvolvimento de lideranças femininas negras e ações emergenciais, como o apoio durante a pandemia da Covid-19. São iniciativas que contribuem para que pessoas negras ocupem espaços historicamente negados à sua presença e ao seu conhecimento.
Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, os 15 anos da organização marcam também o início de um novo ciclo estratégico. Nesse momento, a construção de processos eficientes, a gestão participativa e a adoção de tecnologias alinhadas à segurança, transparência e impacto social, são pilares para garantir continuidade ao trabalho desenvolvido.
Crédito fotográfico: Thalita Novais
Mais do que administrar recursos, a área de Operações atua como suporte para todas as demais áreas organizacionais, apoiando estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e a sustentabilidade financeira.
“O Fundo Baobá é para sempre”, resume Hebe, ao falar sobre o compromisso de longo prazo da organização com a promoção da equidade racial no Brasil. Uma permanência construída coletivamente, com raízes firmadas no fortalecimento das iniciativas negras e na construção de futuros mais equitativos.
Em entrevista, Hebe fala mais sobre o ponto de vista da área de Operações sobre os 15 anos do Fundo Baobá.
Em janeiro, Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá, falou que os 15 anos do Fundo Baobá não eram apenas uma celebração, eram uma preparação para um novo ciclo estratégico. Como a sua área, Gestão Operacional, define esse novo ciclo estratégico? Uma etapa que apresenta novas demandas exige novos esforços. A área de Operações presta suporte às atividades das demais áreas. Somos uma das fontes para pensarmos estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e captação de recursos. Pensar nas novas tecnologias do mercado e como podemos adotá-las, sem prejuízo ou risco à equipe e ao nosso público, será a contribuição da área de Operações no desenho deste novo ciclo.
Na mesma matéria, você fala em uma gestão participativa para garantir a sustentabilidade do Fundo Baobá. No dia a dia do trabalho, como acontece essa gestão participativa?
Todas as pessoas da equipe são responsáveis pela gestão dos recursos. O alinhamento dos nossos gestores é tarefa cotidiana entre as áreas.Quem desejamos alcançar? Qual a melhor forma de fazer isso? Qual a maneira mais eficiente de gerir o recurso disponível? Todas essas variáveis são analisadas em equipe, que comunga do princípio de oferecer excelência no atendimento, seja qual for a atividade. Isso agiliza os ajustes processuais e nos fortalece enquanto grupo.
Você fala também em “olhar para a perenidade do Fundo Baobá”. Como gestora financeira, é possível prever um Fundo Baobá atuante daqui a 20, 30 anos ou mais que isso? Quais as diretrizes econômicas para atingir essas marcas?
O Fundo Baobá é para sempre. Para os que estão aqui agora e para os que virão depois. Em 20, 30 anos as demandas da população podem mudar, o que influenciará nas nossas estratégias de atuação, mas o sentido de nossa existência permanecerá. Sendo otimista, vislumbro um futuro com todas as organizações da sociedade civil brasileira comprometidas com a promoção da equidade racial, mesmo que em menores níveis de prioridade. As diretrizes já estabelecidas pelo nosso conselho deliberativo nos dão suporte para essa perenidade: transparência, planejamento e governança participativa.
Como o Fundo Baobá define os valores investidos em seus editais, programas e ações a partir da rentabilidade do Fundo Patrimonial? Como essa estratégia de uso dos rendimentos contribui para a sustentabilidade e o planejamento de longo prazo da organização?
O valor é definido entre nosso Conselho e Equipe Executiva. A depender dos reflexos deste alinhamento, o valor pode ser maior que o previsto inicialmente. Isso aconteceu no edital Black Stem, quando decidimos ampliar o número de vagas ofertadas no edital. Isso impactou em todo orçamento do projeto, mas obtivemos sucesso na decisão.
Auxílio emergencial no período da pandemia da Covid-19, programas voltados para educação, para o desenvolvimento de lideranças e enfrentamento à violência racial. Para quem trabalha com gestão financeira, como você definiria seu sentimento ao ver o impacto dessas iniciativas nas vidas das pessoas apoiadas?
O sentimento é de que um objetivo ambicioso e desafiador está sendo cumprido. Ver nossos projetos impactando diferentes atuações na causa racial, promovendo mudanças econômicas em grupos populacionais sub-representados, qualificando um público que nunca acessou recursos da filantropia, tudo isso reverbera no nosso sentimento de importância na sociedade brasileira e no nosso dever de continuar trabalhando com excelência.
Quais resultados do Fundo Baobá chamam mais a atenção de quem não faz parte da organização?
Autossuficiência, execução bem-sucedida do planejamento estratégico e meta de construção do Fundo Patrimonial alcançada com êxito.
Quais foram as estruturas invisíveis mais importantes para que o fundo chegasse até aqui?
Equipe comprometida com a preservação dos ativos institucionais: nossa relação com donatários, gestão eficiente dos recursos e uma governança atuante. Também é muito importante possuir uma assessoria jurídica qualificada para lidar com as especificidades de uma organização do terceiro setor que possui um Fundo Patrimonial.
Existe alguma decisão operacional tomada anos atrás que hoje vocês entendem como fundamental para a longevidade do fundo?
O acordo com a Kellogg Foundation previa que os aportes financeiros ao Fundo Patrimonial seriam realizados mediante apresentação de um relatório de auditoria externa, aprovado pelo nosso Conselho. Isso colaborou para o fortalecimento de nossa transparência. Aprimoramos nossas ferramentas de trabalho para alcançar, com a maior agilidade possível, informações sobre a nossa gestão. Isso colabora não apenas para o gerenciamento financeiro, mas também para atender tempestivamente qualquer due diligence (levantamento sobre um parceiro de negócio) que algum financiador nos faça. Estamos preparados para falar de nossa história através dos números registrados aqui.
O que mudou na forma de operar da organização ao longo destes 15 anos?
O aumento da equipe refletiu na possibilidade de ampliação de nossas atividades. Houve um período em que fomos apenas 3 pessoas. Hoje somos 20. Isso mudou nossa estrutura física, nos possibilitou melhoria das ferramentas e demanda um esforço conjunto para construir a ambientação de cada nova pessoa que integra a equipe, incluindo a governança. Um time de trabalho empenhado e que se sente livre e seguro para opinar, propor e fazer.
O Fundo Baobá anunciou, no dia 26 de março, a terceira edição do Programa Black STEM, voltado ao apoio de estudantes negros brasileiros que desejam cursar a graduação no exterior. A iniciativa, com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, fortalece um ecossistema que acredita na educação como ferramenta real de transformação.
A proposta é simples e potente ao mesmo tempo: ampliar o acesso de pessoas negras às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as famosas STEM) em universidades de ponta ao redor do mundo. Mas o programa vai além do acesso, ele também garante a permanência dos estudantes na universidade.
Nesta nova edição, até três estudantes serão contemplados com bolsas anuais de R$ 42 mil, que apoiam os custos desde moradia até o material acadêmico Os selecionados também terão apoio com mentorias, acompanhamentos psicológicos, conexão com lideranças negras e uma rede que faz toda diferença na jornada internacional.
As inscrições, com início em 26 de março, vão até 7 de maio. O processo seletivo inclui análise de perfil, vídeo de apresentação e entrevista. É aquele tipo de oportunidade que exige preparo, mas que também pode mudar completamente o rumo da história de estudantes negros e negras do Brasil.
O Black STEM acumula diversas histórias inspiradoras pelo mundo. São estudantes de diferentes cantos do Brasil que hoje ocupam universidades reconhecidas, como Enio Barbosa (Ciência da Computação na Stanford University – EUA), Gabriel Menezes (Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – EUA), Gabriela Marques Ferreira (Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame EUA). Essas trajetórias mostram que estudar fora do país é ocupar espaços historicamente negados, mas hoje permitem também mostrar como a ciência é produzida no mundo.
As áreas STEM estão no centro das grandes mudanças do planeta: da tecnologia que usamos no dia a dia às soluções para saúde e meio ambiente. E mesmo com toda contribuição histórica da população negra, ainda existe sub-representação nessas áreas. O Black STEM chega justamente para transformar nesse cenário, incentivando, apoiando e confirmando, na prática, que pessoas negras não só pertencem a esses lugares como sempre fizeram parte da construção da ciência.
O programa Black STEM constrói pontes, fortalece trajetórias e amplia o futuro de pessoas negras, afinal quando uma pessoa negra acessa a universidade, no Brasil ou no exterior, ela não vai sozinha. Ela leva consigo sua história, sua comunidade e abre caminho para muita gente que ainda virá.
O investimento em mulheres negras, por meio de programas técnicos e de qualificação, é uma das estratégias adotadas pelo Fundo Baobá para enfrentar desigualdades e impulsionar transformações duradouras na sociedade brasileira.
Nestes 15 anos, o Fundo Baobá tem direcionado recursos para diferentes iniciativas, conectando lideranças, organizações e territórios. Nesse percurso, o apoio a mulheres negras se consolida como uma frente relevante, que mostra que o investimento feito é um mecanismo de impacto estrutural para o país.
Na prática, em um contexto de disparidades de gênero e raça, o Fundo Baobá investe no fortalecimento de lideranças e iniciativas que posicionam mulheres negras como executoras de estratégias sociais. A organização mapeia a liderança exercida por essas mulheres em diferentes contextos de desigualdade, utilizando editais para fortalecer sua atuação como agentes de mudança.
O Programa Marielle Franco, por exemplo, oferece suporte para a ampliação da incidência política e a ocupação de espaços de tomada de decisão. A iniciativa foca no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade de gênero e raça, apoiando trajetórias individuais e coletivas em diversas regiões do Brasil.
Entre as ações recentes, o Fundo destinou R$1,25 milhão à Marcha das Mulheres Negras 2025, viabilizando a mobilização nos 26 estados e no Distrito Federal. O aporte concentrou-se em logística e articulação estadual, com atenção especial à participação de mulheres quilombolas, fortalecendo sua presença no debate sobre reparação e bem viver.
O papel do Fundo Baobá consiste em conectar trajetórias e garantir que lideranças negras tenham acesso a oportunidades de continuidade, reduzindo os impactos da violência racial e de gênero. O investimento em mulheres negras faz parte de uma decisão estratégica de desenvolvimento do país. Quando mulheres negras têm condições de incidir em decisões, elas fortalecem redes, criam soluções e ampliam o acesso a direitos para todas as pessoas.
O diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, Giovanni Harvey, participou do painel “Investimento estratégico em iniciativas afrolatinas”, durante o Racial Equity Builders Dialogue (REBD), realizado em Porto Rico nos dias 25, 26 e 27 de fevereiro. A conversa foi mediada por Arelis Diaz, da W. K. Kellogg Foundation, organização que incentivou a formação do Fundo Baobá em 2011.
O encontro reuniu lideranças, organizações filantrópicas e especialistas para discutir formas de ampliar o investimento em comunidades afro-latinas nos Estados Unidos e nas Américas. Durante sua participação, Giovanni Harvey destacou a importância de fortalecer investimentos que promovam autonomia e preservem a integridade cultural das iniciativas apoiadas nos territórios. Ele também abordou caminhos de acesso ao financiamento para organizações negras, a participação nas discussões do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU e o impacto do apoio da Kellogg ao longo dos 15 anos do Fundo Baobá.
Com o lema “A Hora é Agora: Um Diálogo para Ação em Todas as Américas”, o encontro refletiu sobre a urgência do papel da filantropia no fortalecimento de democracias inclusivas, e na construção de respostas coletivas para enfrentar o racismo em escala global.
O REBD é um encontro internacional que reúne organizações, articuladores sociais, filantropos e especialistas em equidade racial para discutir estratégias, fortalecer redes e promover o intercâmbio de experiências sobre justiça racial e desenvolvimento comunitário. A edição deste ano teve como foco avançar da reflexão para a ação, buscando transformar propostas de equidade racial em ações coordenadas, baseadas em aprendizado compartilhado e na defesa coletiva de lideranças comunitárias, parceiros filantrópicos e especialistas internacionais.
Pela segunda vez, o Fundo Baobá participou do evento, sendo a única organização brasileira presente nesta edição. A participação ampliou a visibilidade do Brasil em um espaço estratégico de diálogo internacional sobre equidade racial. Durante o encontro, organizações presentes demonstraram interesse em conhecer a experiência brasileira na promoção da equidade racial.
Entre os temas discutidos estavam: funcionamento das instituições democráticas brasileiras em contextos recentes, o acompanhamento internacional de casos emblemáticos de violência racial no Brasil, como a condenação dos responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e de Anderson, além do papel da cultura brasileira como elemento de conexão e projeção internacional, e o reconhecimento do Brasil como ator relevante nas agendas globais de justiça racial.
No último dia 13/02, a Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem à força ancestral das mulheres negras e à missão do Geledés – Instituto da Mulher Negra, por sua missão institucional na luta contra o racismo, o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras.
A convite do Geledés, o Fundo Baobá esteve presente na avenida para celebrar esse momento simbólico. O samba-enredo exaltou a potência das mulheres negras em uma narrativa que uniu ancestralidade, luta e celebração. Com participação e curadoria do Geledés, a escola transformou o desfile em um verdadeiro manifesto cultural.
Integrantes da equipe do Fundo Baobá participaram da homenagem em reconhecimento a essa trajetória. Ao longo de 15 anos, o Fundo Baobá atua no fortalecimento de organizações e lideranças negras, com foco prioritário nas regiões Norte e Nordeste do país, investindo em educação, em vida com dignidade, em desenvolvimento econômico, em comunicação e memória.
Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relatou que ver o homenageado Geledés, todas as mulheres que o construíram e tantas outras que, de alguma forma, contribuíram e participaram da história da instituição, é reconhecer a importância da luta das mulheres negras no Brasil contra o racismo e o sexismo: “Que bom poder ver essa homenagem acontecendo a essa instituição, que é uma referência para todas nós, e que bom poder ver essas mulheres sendo reconhecidas e lembradas. É uma grande felicidade quando uma escola de samba, que é símbolo de um pilar tão importante da nossa cultura, como o carnaval, é uma ferramenta pedagógica importantíssima para nossa sociedade”, afirmou Tainá.
O desfile reforçou que a trajetória das mulheres negras deve ser contada por elas mesmas, e que o lugar delas é na história, na academia, no samba, na política, na cultura e onde mais decidirem ocupar.
Para além das alegorias, a agremiação apresentou uma narrativa de inteligência, organização coletiva e resistência histórica.
Maria Paula, assistente de diretoria do Fundo Baobá, confirmou que desfilar em uma escola que homenageou Gueledés foi mais do que atravessar a avenida: foi atravessar a história. Segundo ela, o samba exaltou mulheres negras que abriram caminhos e evidenciou a intelectualidade e a liderança das que hoje seguem construindo novas possibilidades. “Porque o futuro é ancestral”, resumiu.
A construção visual da Mocidade Unida da Mooca integrou ancestralidade e futuro. A comissão de frente destacava a origem da mulher negra como sustentação e transformação para as sociedades. Ao longo da avenida, vieram referências às irmandades, aos quilombos, às tecnologias ancestrais, à organização coletiva e às múltiplas formas de resistência construídas ao longo do tempo.
“Foi uma honra receber o convite para desfilar em uma escola de samba que homenageou o Geledés, esse instituto que eu conheci ainda criança, através de conversa na minha família e foi emocionante voltar a desfilar depois de 15 anos numa escola que ressalta a importância da mulher negra”, contou Juliana Vargem, assistente executiva do Fundo Baobá.
Maria Sylvia, advogada e diretora executiva do Geledés, ressaltou a importância de apresentar a trajetória da instituição à sociedade brasileira, ampliando o reconhecimento das mulheres negras como protagonistas na construção social do país. “Que essa homenagem inspire mais escutas, mais diálogos e mais respeito às nossas trajetórias. Obrigada à Mocidade Unida da Mooca por fazer da arte um instrumento de memória, reconhecimento e continuidade”, afirmou. O refrão: Quero ver… casa-grande vai tremer, No meu Quilombo é noite de Xirê! A MOOCA FAZ REVOLUÇÃO, É Guèledés: A LIBERTAÇÃO, ecoou nos ensaios e na avenida, transformando o desfile em celebração e afirmação coletiva. O desfile foi um gesto público de memória, reconhecimento e continuidade. Uma noite que reafirmou que o futuro é ancestral — e que a história das mulheres negras segue sendo escrita com coragem, inteligência e organização.
Há histórias que são sobre conquistas e resistência. A de Winsana N’Tchala é sobre as duas coisas, mas também sobre amor, propósito e educação como ferramenta de transformação. Aos 21 anos, essa jovem curitibana realizou o sonho de infância: foi aprovada em Medicina na Universidade Federal do Paraná. E não foi por acaso.
A trajetória de Winsana ganhou reforço importante quando ela conheceu o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A indicação veio da cunhada, Byanka, que acompanhava as ações do Fundo Baobá e enviou o link de inscrição pelo WhatsApp.
O Já É, que está em sua segunda edição, foi criado para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior para pessoas negras de 20 a 25 anos, com ensino médio completo em escola pública. Nesta segunda edição, até 30 jovens receberam bolsa mensal de R$ 700 por 17 meses, além de mentorias coletivas e individuais, acompanhamento psicológico e atividades formativas. Um investimento na permanência e na potência da presença negra na academia, que amplia perspectivas e fortalece a produção de conhecimento.
Para Winsana, o impacto foi concreto.“O Já É agregou muito ao meu conhecimento de mundo, ao meu desenvolvimento pessoal e trouxe uma estabilidade financeira melhor do que eu tinha antes. A bolsa ajudou, e ainda ajuda, a custear gastos com os estudos.”
Mais do que apoio financeiro, o programa oferece algo essencial: pertencimento e orientação. Para muitos jovens negros, entrar e permanecer na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, e contar com uma rede de apoio faz diferença.
O sonho da menina da periferia que nasceu e cresceu em Curitiba hoje se concretiza com o alicerce da família. A mãe, Claudia Maria Ferreira; o pai, Francisco N’Tchalá, natural de Guiné-Bissau; e os irmãos Watena, Yabna e Abayomi.
A infância simples, marcada por desafios financeiros, mas também por algo fundamental: incentivo. “Meus pais nunca deixaram faltar nada. Sempre me incentivaram a fazer uma graduação e ter orgulho da minha negritude”, conta.
Aos 6 anos, em uma conversa sobre profissões com o pai, nasceu a vontade de estudar Medicina. Quando ele morreu, vítima de insuficiência renal, ela tinha apenas 10 anos. A experiência de cuidar dele reforçou o desejo: queria ser médica. Queria cuidar de pessoas.
Sua formação se deu por completa em escolas públicas, como tantos jovens negros e negras no Brasil que enfrentam as defasagens estruturais da educação básica. Nas últimas décadas, houve avanços importantes no acesso ao ensino superior, mas pessoas negras ainda estão sub-representadas nas universidades. Em cursos altamente concorridos, como Medicina, a desigualdade é ainda mais visível.
“Foram quatro anos de dedicação total aos estudos. Parei de fazer coisas que eu gostava, sofri com matérias que tinha dificuldade. Não foi fácil. Mas valeu a pena”, afirma.
Nesse percurso, ela prestou vestibular para a PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), onde conquistou o segundo lugar. Mesmo assim, a escolha já estava feita: seguir na UFPR. “Foi a realização de um sonho para mim e para minha família.” E a sensação da aprovação? “Foi como quando uma criança ganha um presente que queria muito”, afirma.
Segundo o IBGE 2022, embora a presença de pessoas pretas e pardas com ensino superior tenha crescido, a proporção de jovens brancos de 18 a 24 anos com ensino superior completo ainda é mais que o dobro da registrada entre pretos e pardos. Além disso, milhões de jovens brasileiros não concluem sequer o ensino médio. E a maioria é negra.
Esses dados evidenciam que a desigualdade não está na capacidade, mas no acesso às oportunidades e nas condições de permanência.
Quando perguntada sobre o futuro, Winsana responde com simplicidade e firmeza: “Quero ser uma médica humanizada, que escuta com atenção os pacientes, uma profissional de excelência.” Ela ainda não decidiu a especialidade. Mas já decidiu o principal: fará tudo com dedicação.
Para quem sonha em participar do Programa Já É, ela deixa um conselho direto: “Não vai ser fácil. Mas não desistam. A única forma que tenho certeza que nós, pessoas de baixa renda e negras, temos de ter ascensão social é por meio dos estudos.”
A aprovação de Winsana na UFPR é, sim, uma conquista individual. Mas também é a prova de que quando existe investimento, acompanhamento e confiança na juventude negra, os resultados aparecem. O Fundo Baobá acredita nisso. O Já É aposta nisso. E Winsana N´Tchala é a prova viva de que já é tempo de ocupar todos os espaços, inclusive aqueles que, historicamente, sempre foram negados ao povo preto.
Além de Winsana N´Tchala, o Fundo Baobá comemora também o sucesso de outros estudantes apoiados pela segunda edição do Programa Já É: Aryele Costa, Administração na Universidade Federal do Maranhão; Christian Leal, Arquivologia na Universidade Federal da Bahia; Denagnon Gogo, Engenharia na Universidade Federal do Espírito Santo; Gabriele Marques, Medicina na Universidade Federal de Pelotas; Joicilene Cabral, Medicina na Universidade Federal do Pará e Lara Dias, Jornalismo na Universidade Salvador (Unifacs).
Em 2014, a Cia Um Brasil de Teatro e Artes foi uma das organizações apoiadas na primeira chamada pública do Fundo Baobá. Anos depois, em 2019, lançou o emocionante curta-documentário Nossa Família. Agora, prepara um novo capítulo: o longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas da história.
Essa trajetória, que atravessa mais de uma década, mostra como investimento, confiança e memória caminham juntos. Ao completar 15 anos, o Fundo Baobá celebra justamente isso: não apenas os projetos apoiados no passado, mas as histórias que seguem vivas, se transformando e criando novos futuros.
Em 2014, quando o Fundo Baobá lançou sua primeira chamada para apoiar organizações negras, a Cia Um foi uma das selecionadas. Na direção do projeto estava Max Mu, ator, dramaturgo, diretor, cineasta e produtor cultural, que há mais de 20 anos pesquisa e transforma em arte histórias de um Brasil invisibilizado. Foram essas histórias que ganharam espaço no documentário Nossa Família.
O curta, lançado na Festa Literária Internacional de Paraty em 2019, segue disponível ao público, emocionando quem o assiste. A narrativa acompanha o cotidiano de duas catadoras de materiais recicláveis que adotaram, respectivamente, 25 e 45 filhos. Isso mesmo! Uma filosofia de vida baseada no cuidado, na partilha e no amor. Um retrato sensível de mulheres que transformaram a própria realidade e a de dezenas de crianças com coragem e afeto.
A produção atravessou mudanças e desafios ao longo do caminho. Em meio a esse processo, Max assumiu integralmente a condução da obra e levou o projeto até o fim. O apoio do Fundo Baobá foi decisivo. Mais do que financeiro, foi um gesto de confiança que ajudou a tirar o roteiro do papel e registrar uma memória viva da cultura brasileira.
É justamente esse movimento que o Fundo Baobá deseja mostrar ao celebrar seus 15 anos.
Hoje a história segue sendo contada. A Cia Um Brasil está produzindo um longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas do curta, agora com 85 anos. Para viabilizar o filme, a companhia lançou uma campanha de captação direta chamada “Ciclo Positivo”, uma proposta que busca mobilizar apoiadores individuais para tornar o filme possível e apoio que retorna em forma de gratidão.
Diante de um cenário em que mecanismos de financiamento seguem modelos baseados em referências externas à realidade brasileira, o Fundo Baobá escolhe apoiar a partir da memória, das práticas comunitárias e das estratégias históricas da população negra.
Como afirma Max Mu, “é sobre reconhecer quem nos enxergou quando quase ninguém nos via. É sobre fortalecer a missão de fazer ‘Um Brasil’ cada vez mais visto.”
Celebrar 15 anos é também olhar para trás e perguntar: onde estão hoje aqueles que apoiamos? A resposta está em histórias como esta — que continuam crescendo.
Conheça o projeto, assista a Nossa Família e acompanhe os próximos capítulos dessa trajetória. Registrar memórias é investir no futuro.
As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) estão no centro das grandes transformações do mundo contemporâneo. É nesses campos que surgem soluções para a saúde, o meio ambiente, a mobilidade e até mesmo para os desafios sociais que vivemos diariamente. No entanto, quando pensamos em quem tem ocupado esses espaços, é impossível ignorar a baixa presença de pessoas negras. Embora a população negra sempre tenha contribuído para a ciência, essa participação histórica e atual frequentemente é invisibilizada nos círculos acadêmicos. Para universitários negros em STEM, o desafio é duplo: superar as barreiras de acesso ao ensino superior e, uma vez dentro, garantir que suas perspectivas sejam valorizadas.
A potência da formação internacional em STEM
Quando estudantes negros brasileiros chegam a universidades internacionais, eles não levam apenas suas mochilas, mas também suas histórias, seus territórios e suas referências culturais. Essa presença muda não só a trajetória individual, mas também a forma como a ciência é produzida globalmente, enquanto se redobram os desafios, sejam eles linguísticos, culturais ou financeiros. Para estudantes negros, ocupar esses espaços é também um ato de reafirmar que a produção científica negra existe, é potente e precisa ser valorizada.
A brasileira Luana Marques Ferreira, de 29 anos, atualmente estudante de doutorado em Ciência de Polímeros e Engenharia, na Universidade de Massachusetts Amherst, Cidade de Amherst, Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos da América (EUA), relatou que mesmo durante toda a graduação no Brasil, na área de STEM, precisou se desdobrar em várias atividades para custear a sua permanência na universidade, além de contribuir com as despesas de casa, e que:
Crédito: Acervo pessoal (2025). Legenda: Imagem de Luana Marques no campus da Universidade de Massachusetts Amherst
“Por isso, quando surgiu a oportunidade de vir para os Estados Unidos, mesmo com a bolsa da universidade, eu tinha receio dos novos desafios que enfrentaria, especialmente o elevado custo de vida do estado que moro e a incerteza financeira até o recebimento da primeira bolsa”, relatou a estudante.
É verdade que o caminho da formação internacional apresenta desafios únicos, desde a adaptação cultural até o enfrentamento de microagressões. Mas cada obstáculo superado fortalece a convicção de que você pertence a esse espaço e de que sua perspectiva no ensino superior é fundamental. O mais importante é saber que, para cada barreira, existe uma rede de apoio e uma solução possível.
Por onde começar sua jornada internacional no STEM
É hora de sair do sonho e entrar na estratégia! Sabemos que fazer uma graduação exige um planejamento minucioso. Por isso, preparamos um guia com os primeiros passos práticos e estratégicos para você começar a construir sua jornada internacional agora:
• Defina opções de cursos ou áreas: Engenharia, por exemplo, é um campo amplo, com formações que se conectam entre si, como Materiais, Química, Ambiental ou Biomédica. Ter mais de uma opção não reduz seu caminho, apenas aumenta as possibilidades de encontrar um programa que combine com seus interesses e objetivos acadêmicos. Importante lembrar que o mesmo acontece para a área de saúde ou humanidades, crie uma lista de cursos prioritários.
• ENEM: Identificar países que aceitam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como forma de ingresso direto em universidades estrangeiras pode ser um diferencial, porque o exame que já conhecemos no Brasil também abre portas no exterior. Portugal, por exemplo, possui acordos com diversas instituições que recebem a nota do ENEM no processo seletivo. Além disso, outros países na América Latina e até na Europa já vêm reconhecendo o exame como critério de admissão. Confira aqui a indicação dos países que aceitaram o ENEM em 2025.
• Busque Bolsas Específicas: Concentre-se em editais que valorizam a diversidade, como o Black STEM, mas também em fundações e programas das próprias universidades que focam na permanência estudantil.
• Invista no Idioma e na Rede: A proficiência em idiomas é essencial. Construa sua rede de apoio com professores, colegas, organizações negras e comunidades acadêmicas. Use o LinkedIn para encontrar egressos do seu curso ou universidade de interesse.
• Experiências Extracurriculares: Um ponto que pode ser a grande diferença da sua candidatura são as experiências fora da sala de aula. Participar de projetos voluntários, grêmios estudantis, associações culturais, esportes, música ou feiras acadêmicas demonstra disciplina, liderança e capacidade de impacto. Até mesmo o bom desempenho em esportes ou artes conta, mostrando comprometimento e trabalho em equipe. Essas experiências revelam quem você é além das notas, e fortalecem suas chances de ingresso e adaptação na universidade. E essa dica vale para a maioria dos cursos.
Rede de Apoio: A Força da Permanência
Em muitas das situações, o mais difícil não é ser aceito para uma graduação em um outro país, mas sim permanecer. Um dos diferenciais do Black STEM é oferecer não apenas o apoio financeiro, mas também suporte acadêmico, psicológico e uma rede de contatos que acompanha cada bolsista ao longo da jornada. Essa rede é fundamental para garantir que os estudantes consolidem sua trajetória nas universidades. Luana Marques também destaca que:
“Na área de STEM, os custos com workshops, viagens e eventos científicos muitas vezes tornam o ambiente inacessível para quem vem de contextos menos privilegiados. Programas como esse não apenas viabilizam a permanência de estudantes em ambientes internacionais, mas também ampliam a diversidade e o impacto das nossas vozes na ciência”, relatou a brasileira.
Estudar fora do país envolve desafios que vão além das aulas. Moradia, alimentação, materiais acadêmicos e transporte exigem organização financeira, ao mesmo tempo em que o estudante precisa lidar com a distância da família, o choque cultural e o idioma. Para quem está entrando no ensino superior agora, essa transição já é grande. Para jovens negros em países onde o racismo segue permeando algumas relações, tudo se torna ainda mais delicado. Por isso, o apoio à permanência é tão importante quanto o acesso: é o que garante que esses estudantes possam não só chegar, mas permanecer e crescer nesses novos espaços.
Conheça mais sobre o trabalho, as experiências e as conquistas de Luana Marques através dos seus perfis no Linkedln e no Instagram. Lembre-se de que o objetivo final vai além da obtenção de um diploma internacional. É sobre fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovação e o surgimento de uma nova geração de líderes em STEM.
Não espere chegar à universidade para dar o primeiro passo. Desde o Ensino Médio, suas escolhas já podem abrir portas para o exterior. Quem sabe se o próximo capítulo da ciência pode ser escrito por você?
Em 2026, o Fundo Baobá celebra 15 anos de uma trajetória construída a partir do diálogo, da escuta e da ação coletiva junto a movimentos sociais e lideranças negras em todo o Brasil. Desde o início, sua atuação incide sobre pilares estratégicos para a promoção da equidade racial no Brasil, somando 15 anos de trabalho contínuo para transformar vidas e histórias.
Celebrar esse aniversário não é só uma oportunidade de reconhecer conquistas, mas de valorizar uma trajetória em permanente construção e aprimoramento. A partir dos aprendizados acumulados, das relações e dos desafios vividos, o Fundo Baobá inicia um novo ciclo que aprofunda o modo de atuar, fortalecendo parcerias e inovando para ampliar o impacto de suas ações.
Neste início de 2026, o Baobá – Fundo para Equidade Racial convida você a conhecer o que vem por aí no decorrer do ano nas palavras das lideranças da organização, que antecipam algumas decisões da equipe executiva, prioridades programáticas, estratégias de articulação social, caminhos da mobilização de recursos, avanços em comunicação e aprimoramentos na área de operações.
Com a palavra, Giovanni Harvey, Diretor Executivo: “Os 15 anos não são apenas uma celebração, mas também um momento de preparação para um novo ciclo estratégico. O período recente representou um ponto de virada para o Fundo Baobá, impulsionado pela doação de US$ 5 milhões da Mackenzie Scott”, afirma. Esse aporte marcou a emancipação financeira do Fundo e garantiu autonomia para realização da primeira doação estratégica. Foi possível destinar inicialmente R$500 mil à Sociedade Protetora dos Desvalidos e, posteriormente, R$ 1.25 milhão, para a Marcha das Mulheres Negras 2025. Ele destaca ainda que a atuação da organização está fincada em um plano estratégico e que esse planejamento está no final de um ciclo de 10 anos, que marca a conclusão de propostas estruturantes previstas, e o início de uma nova fase.
Giovanni nos conta que ao longo do ano será lançada a nova marca da organização, que expressa esse novo momento institucional e que dialoga com maturidade, autonomia e o impacto construídos ao longo desses 15 anos. Serão realizadas diversas ações com parceiros estratégicos, fazendo dos 15 anos um espaço de diálogo. “A proposta é ampliar a conversa com diferentes segmentos da sociedade que são aliados da equidade racial e que, como o Baobá, atuam na defesa da democracia em um contexto marcado por intensas polarizações”, afirma o diretor.
Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relata que o Fundo Baobá espera retomar ações de apoio que já tiveram destaque em alguns dos editais, como o fortalecimento institucional de organizações, grupos e coletivos de mulheres negras, além de iniciativas de apoio à ampliação do potencial de empregabilidade de pessoas negras. Outra prioridade é continuar estruturando e fortalecendo o primeiro programa próprio e perene de bolsas complementares para estudantes de STEM que irão cursar a graduação completa em instituições internacionais.
“Não apenas a área programática mas a instituição Fundo Baobá desafia o campo filantrópico a ir além do tradicional e colocar a causa da equidade racial no centro de sua atuação. Esperamos que essa centralidade possa influenciar cada vez mais o setor, sensibilizando sobre a importância de destinar recursos diretos e contínuos a grupos, coletivos, organizações, movimentos e lideranças negras, e de assumir publicamente esse compromisso”, afirmou. Esse apoio é fundamental porque reconhece o conhecimento, a capacidade de ação e a liderança da população negra na construção de soluções para os problemas que a afetam diretamente.
Tainá ressalta ainda que uma das principais lições destes 15 anos é sobre a importância do acompanhamento contínuo, que constitui uma ação essencial do trabalho desenvolvido. É o acompanhamento e a escuta que proporcionam aprendizados e fortalecem uma relação de confiança com o campo. Da mesma forma, os investimentos indiretos (formações, mentorias e assessorias) têm mostrado que, além de complementar as doações financeiras, contribuem para o fortalecimento e a autonomia das organizações e pessoas apoiadas. Segundo ela, assegurar um processo sistemático de avaliação para cada iniciativa implementada é importante para garantir a análise e o aprimoramento, sempre com a incorporação de novas respostas baseadas nas lições aprendidas. “Investir nessas ações nos permite oferecer respostas cada vez mais coerentes e alinhadas, tanto aos objetivos institucionais quanto às necessidades apresentadas pelo campo”, afirma.
Para Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, o ano de 2026 permitirá avançar na qualificação do diálogo com atores fundamentais (movimentos sociais, filantropia, academia, esfera pública, entre outros), ampliando alianças e contribuindo para que o Fundo Baobá atue de forma cada vez mais conectada, coerente e intencional no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade racial.
“O principal desafio é aprimorar uma área que já está em processo de amadurecimento, adaptando processos, metodologias e formas de atuação para melhor dialogar com a complexidade dos contextos sociais e políticos nos quais o Fundo Baobá está inserido”, afirma Caroline. Para ela, o desafio é ampliar a escuta qualificada do campo nas diversas regiões do país para reunir informações que contribuam para a tomada de decisões cada vez mais consistentes e alinhadas ao propósito do Fundo Baobá, levando sempre em consideração o fortalecimento de redes e o reconhecimento do papel dos movimentos como sujeitos centrais na produção de conhecimento e transformação social.
Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos, explica que a comunicação terá um papel-chave nos 15 anos do Fundo Baobá. “Queremos contar um pouco da nossa história, do nosso legado, das mais de 1200 iniciativas negras apoiadas até o momento”. Com relação aos caminhos a seguir em 2026, a gerente de comunicação deseja que as relações já estabelecidas com veículos e jornalistas da mídia negra e independentes continuem sendo uma das prioridades da organização, tendo como objetivo uma comunicação direta com a comunidade negra sobre o posicionamento e propósito do Fundo Baobá.
Na gestão de Operações, Hebe da Silva, que atua na gerência da área, afirma que para garantir a sustentabilidade do Fundo em 2026 é preciso uma gestão participativa com todas as pessoas da equipe. Ela diz que a transparência é um valor institucional, registrado no Estatuto do Fundo Baobá. “Dialogar diariamente com a equipe sobre os nossos números e o alcance que temos na sociedade é uma ferramenta para alavancar as doações recebidas e gerir nossos recursos financeiros de maneira sustentável, olhando sempre para a nossa perenidade”, afirma.
O que se projeta para o futuro é a continuidade de uma atuação comprometida com impacto real, aliada à inovação e à responsabilidade histórica. Em permanente movimento desde a sua fundação, o Fundo Baobá é um mecanismo que constrói seu legado diariamente ao criar condições para que esse horizonte se realize, seguindo na construção concreta da equidade racial como base para um país justo e democrático.
Conexões em Movimento, a newsletter mensal do Movimento Bem Maior, inspira filantropos, promove a troca de ideias e fortalece conexões para a justiça social. Neste mês, nossa conversa é com Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, uma das mais importantes instituições de promoção da equidade racial no Brasil.
Na filantropia, Giovanni Harvey é uma exceção que busca questionar as regras sob as quais o campo funciona. Ocupa uma posição singular, à frente de uma organização única no contexto brasileiro, o Fundo Baobá para Equidade Racial . Suas bases construídas nos movimentos sociais e na vivência como homem negro sustentam o pensamento crítico que marca sua trajetória.
Com 61 anos, Giovanni é de uma geração que se constituiu politicamente no final dos anos 1970, em meio ao fim do regime militar e às mobilizações pela redemocratização do país. Aproximou-se do movimento negro aos 17 anos — não apenas para “se associar”, mas, como ele diz, para “se alistar”, assumindo um compromisso vitalício com a causa.
Hoje, lidera um endowment que garante a sustentabilidade da própria organização e permite que toda captação seja destinada exclusivamente a ampliar as doações, enquanto o patrimônio continua crescendo. Ao mesmo tempo, atua para incidir sobre o ecossistema da filantropia, ocupando espaços de governança e atraindo novos investidores para agendas historicamente negligenciadas.
Na entrevista a seguir, Giovanni fala sobre os desafios e contradições do campo filantrópico, o conceito de “filantropia recreativa” e o que considera essencial para o amadurecimento do debate racial no Brasil.
Você provoca reflexões diretas sobre o papel da filantropia e do investimento social privado. Queria começar com uma que você trouxe no Congresso do GIFE, sobre “filantropia recreativa”. Como você vê essa prática no campo hoje?
Quando eu fui chamado pela Sueli Carneiro e pelo Hélio Santos para o Baobá, eu sou obrigado a refletir sobre qual é o meu papel como ativista político, qual é o papel dessa instituição e quais são as contradições nas quais a instituição está inserida.
Uma instituição que tem hoje 170 milhões de reais aplicados no mercado financeiro, comparativamente com outras instituições filantrópicas financeiras, é um fundo pequeno, mas está em uma condição completamente diferente das organizações do movimento negro tradicionais. Isso me empurra a olhar o que está sendo feito a minha volta.
Percebo que existem várias filantropias e que algumas não têm alinhamento com causa alguma. Se constituem em verdadeiros jardins de diversão, onde as pessoas muitas vezes estão mais preocupadas em ilustrar suas biografias, suprir suas próprias carências e preencher um determinado tipo de vazio do que, servir a uma causa.
Foi isso que chamei de uma filantropia sem propósito, uma filantropia recreativa. É como qualquer outra atividade na vida. Se eu não tenho objetivo claro para estudar, trabalhar, praticar uma atividade física… aquilo vira apenas recreação.
Gosto de uma formulação do futurista norte-americano Joel Barker: uma visão de futuro é um sonho carregado de ação, e um sonho que não gere ação é só um passatempo. Para mim, filantropia com propósito é um sonho carregado de ação; sem propósito, ela não passa de passatempo.
O Fundo Baobá tem uma trajetória singular — e, infelizmente, ainda ocupa um espaço único em termos de capacidade de investimento e articulação de organizações negras. De que forma vocês têm posicionado o Baobá no ecossistema atual?
Somos um fundo patrimonial independente, cuja gestão é feita integralmente por nossa equipe — liderada por Hebe Da Silva , uma mulher negra, do Mato Grosso. Nosso fundo patrimonial é de R$ 170 milhões, oriundos principalmente da Fundação Kellogg, Fundação Lemann , B3 , Mackenzie Scott e outros parceiros estratégicos. Além disso, gerimos cerca de R$ 20 milhões de recursos de terceiros, como Fundação Ford, Instituto Ibirapitanga , Open Society Foundations e Instituto Unibanco .
Ao longo de 15 anos, já doamos mais de R$ 22,4 milhões, via 23 editais, apoiando mais de 1.200 iniciativas em todas as regiões do país, nas áreas de educação, desenvolvimento econômico, comunicação, memória e direitos humanos. Estamos baseados em São Paulo, com uma equipe de 20 pessoas, e em breve teremos sede própria.
A própria Fundação Kellogg afirma não ter outra experiência semelhante à do Baobá em seu histórico. Mesmo no campo da equidade racial, há pouquíssimas iniciativas com essa capacidade de investimento e nosso objetivo é ampliá-la.
Nossa visão de futuro é alcançar R$ 250 milhões de fundo patrimonial até 2026/2027 e nosso endowment cresce porque reinvestimos anualmente 95% do rendimento médio dos últimos três anos, retirando no máximo 5%. Hoje já somos autossustentáveis operacionalmente, de modo que toda captação adicional é destinada exclusivamente a doações.
O segundo foco é a incidência sobre o ecossistema da filantropia. Participamos ativamente de redes como o GIFE e a Rede Comuá , que, no nosso entendimento, têm atuação complementar: o GIFE, mais voltado para o investimento social privado; e a Comuá, voltada para fundos independentes ligados à base social ou territorial. O Baobá é a única instituição da filantropia brasileira com assento no Conselho da Rede Comuá e no Conselho Deliberativo do GIFE, além de fazer parte de instâncias colegiadas e de gestão de várias outras organizações, como o Motriz , Todos Pela Educação e a Plataforma Alas, da Fundação Tide Setubal .
Buscamos incidir sobre o ecossistema levando nossa visão de filantropia e, muitas vezes, atraindo investidores ao colocar nosso próprio recurso à frente para que outros se engajem. Partimos do pressuposto de que, quando investimos, estamos enviando uma mensagem clara de que aquela agenda é importante. É o caso do apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, a mais antiga instituição filantrópica em operação no Brasil, e à Marcha das Mulheres Negras. No entanto, mesmo assim, quase ninguém mais colocou recursos.
No apoio à Marcha das Mulheres Negras, destinamos R$ 1,25 milhão, tornando-nos seu maior doador até agora. Comparando nosso tamanho com outras instituições, fica evidente a falta de alinhamento do campo com uma agenda de extrema importância e que, em 2025, será a maior manifestação popular de luta por direitos no Brasil, em novembro, em Brasília.
Como você enxerga essa distância que ainda existe entre grandes investidores sociais e os movimentos de base?
Eu acho que, primeiro, tem uma “financeirização”, uma absorção de uma cultura de mercado por várias dimensões da vida social. A educação, por exemplo. A linguagem no ambiente educacional está cada vez mais mercadológica. É “entrega”. Então, o aluno é avaliado pelas entregas que faz. Eu tenho severas críticas a esse tipo de linguagem. Acho que isso deseduca, isso adoece as pessoas.
Há uma “mercadologização” que está impregnando a sociedade brasileira. A filantropia começa a falar em entrega, não fala mais em causa. E, em alguma medida, passa a ser vista apenas como um campo de trabalho para o qual as pessoas podem migrar sem ter nenhum tipo de compromisso com causa alguma. Essas pessoas vão constituir burocracias que lidam com o investimento filantrópico e com o investimento social privado como se estivessem fabricando salsicha ou peça automotiva — sem perceber que estão lidando com pessoas, com anseios, com traumas, com lutas políticas, com processos históricos que, na maior parte das vezes, sequer são compreendidos.
Essa burocratização, falta de compreensão e despolitização fazem parte do pano de fundo dessa “recreação”. Nós nos contrapomos a isso. Defendemos filantropia com propósito. Não necessariamente o mesmo que o nosso, porque existe mais de um tipo. Toda filantropia é legítima. O que eu cobro é que se diga: “Eu faço filantropia para isso.” “Eu faço filantropia para a caridade, eu acredito que o assistencialismo é importante…” E é. Eu li a entrevista que Fernanda Camargo concedeu aqui em que ela diz que até certa linha, precisamos do assistencialismo para poder olhar para impacto. O primeiro impacto é ter oferta de comida.
Voltando à nossa visão: defendemos que quem faz filantropia coloque na mesa o que faz e para quê faz. E que tenha certa sofisticação intelectual para não cometer o equívoco — e eu falei isso no congresso do GIFE anterior — de confundir atender pessoas negras com enfrentar o racismo. Ter clientela negra não significa que a iniciativa enfrente o racismo. Posso apoiar iniciativas que atendem pessoas negras e, ainda assim, reproduzem relações de dominação.
É preciso que se diga: “Eu atendo pessoas negras para isso. Minha estratégia é essa, meu propósito é esse.” Eu não critico os propósitos. Critico a falta de transparência e a tentativa de confundir, fazendo uma análise equivocada que confunde público com causa.
Em ambientes da filantropia e do ISP, vemos que algumas pautas — especialmente equidade racial — quando colocadas na mesa geram desconforto e são questionadas sobre de fato serem endereçadas. A que você atribui esse fenômeno?
A questão racial, para nós, ativistas do movimento negro, não é uma escolha. Somos colocados cotidianamente diante de situações nas quais precisamos nos posicionar – porque se não o fizermos, ninguém fará. E, quando um problema real não é enfrentado, a omissão só o agrava.
O debate racial no Brasil está na origem da nossa constituição como sociedade, no período pós-abolição, que coincide com o processo de construção da República. Isso funda as relações no país e desconhecer esse contexto é um equívoco histórico profundo. Ao tratar as desigualdades étnicas como se ninguém tivesse responsabilidade sobre elas, cria-se a ilusão de que, por “não termos mais escravidão”, o problema se resolveria por geração espontânea. Mas não foi algo que surgiu espontaneamente; foi construído e reforçado por decisões políticas, incluindo decretos presidenciais.
Essa distorção histórica alimenta um imaginário — presente na literatura, na sociologia e até na filantropia — de que o problema da população negra se resolve com escolarização. A ideia de que brancos e ricos “vão salvar” negros oferecendo oportunidades é um subproduto dessa concepção. Em ambientes onde está pacificado que “o problema do negro é falta de escolarização” e que “a culpa é da escravidão, mas o presente nada tem a ver com isso”, qualquer tentativa de cobrar ação efetiva dos atores políticos provoca desconforto.
Inclusive na filantropia, que muitas vezes se vê num “faz de conta” de doar para iniciativas que, na prática, reproduzem desigualdades, formam para profissões obsoletas e que nem sequer arranham a concentração de renda. Não há debate real sobre temas estruturantes como rentismo, taxas de juros e distribuição de riqueza. Assim, exceções são tratadas como regra, usadas para legitimar a ideia de que, quem não conseguiu furar esses bloqueios é mal sucedido e que a responsabilidade, por isso, são delas.
Muitas lideranças negras se veem obrigadas a modular o tom, a linguagem e até omitir posicionamentos para conseguir “caber” em determinados espaços institucionais, mesmo na filantropia. É possível encontrar equilíbrio entre se fazer ouvir e manter a integridade do discurso?
Eu acho que é um desafio. E falo de um lugar confortável porque as condições do Baobá me permitem verbalizar coisas que sinto obrigação de dizer. Lembro de uma fala recente do presidente da República, na posse do atual presidente do BNDES. Ele disse: “Espero que você possa criticar as taxas de juros, porque eu não posso. Me elegi, e quando critico, gera problema. Alguém aqui precisa poder falar.”
Fazendo um paralelo: alguém precisa dizer determinadas coisas. Uma das contradições de uma sociedade que busca manter privilégios é a tentativa de silenciar as pessoas com a ilusão de algum benefício — pessoal ou institucional — se elas “se comportarem” e não afrontarem o status quo. Isso também acontece na filantropia. Lideranças de várias causas e segmentos modulam seu discurso para se tornarem “palatáveis” e aptas a receber recursos.
Não considero errado. Jamais cobraria de uma instituição que se inviabilizasse no ecossistema por não fazer algum tipo de modulação. Mas faltam sinais, especialmente do investimento social privado. Quanto mais o interesse empresarial impacta essa agenda, mais difícil é aceitar a crítica. Vejo mais abertura na filantropia, com exemplos como o de Neca Setubal , que reconhece que parte da fortuna da família tem origem em relações de dominação no passado — algo corajoso e coerente. Essa postura permite conversar sem o “bode na sala” que limita tantas discussões.
Mesmo no Baobá, não saio falando tudo o que penso. É uma questão de responsabilidade no ecossistema e de preservar um mínimo de civilidade. Venho de uma geração que aprendeu, no movimento estudantil, a respeitar quem pensa diferente. Críticas precisam ser feitas de forma respeitosa, sem a pretensão de sermos donos da verdade ou apontar o dedo o tempo todo. Precisamos buscar consensos, elevar o nível do debate e encontrar soluções sustentáveis e honestas, capazes de mostrar à sociedade que, mesmo em um país que mantém historicamente segmentos em posição subalterna, ainda é possível construir caminhos de mobilidade e mudança.
Em uma entrevista à Rede GIFE, você disse que “a subsistência de práticas ilusórias de inclusão de pessoas negras reflete o estágio de compreensão e da maturidade da sociedade brasileira”. Qual seria o passo possível nesse processo de amadurecimento?
Eu posso dizer a você, com todas as críticas que ainda faço à realidade brasileira, que me orgulho do estágio que o país alcançou no debate racial. Não imaginava que estaria vivo para ver a sociedade brasileira discutindo essa questão da forma como temos feito.
Demos saltos enormes na compreensão do tema, porque não poderia continuar sendo um debate restrito a nós, negros e negras — ele pertence à sociedade brasileira. Quando vejo, por exemplo, o Movimento Bem Maior, a Fundação Lemann, a Imaginable Futures pautando a questão racial, sinto orgulho.
Como próximos passos, acho que nós, movimento negro, e as pessoas comprometidas com essa causa, precisamos garantir que não haja retrocesso: que os espaços conquistados e a ampliação de atores e atrizes políticas que discutem o tema não recuem, garantindo que alianças estratégicas não retrocedam.
O segundo ponto é construir consensos mínimos: uma agenda qualificada que eduque sobre o que é, de fato, enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial, reduzindo a quantidade de pessoas que ainda acreditam que atender pessoas negras é o mesmo que enfrentar o racismo. O debate racial no Brasil exige estudo, esse é um debate científico, no sentido de que é preciso estudar história, sociologia… não depende de títulos acadêmicos para chegar nessa compreensão.
O terceiro ponto depende de todos, inclusive de nós, pessoas negras: precisamos nos apresentar para a sociedade como sujeitos que pensam o país, e não apenas nossos próprios problemas. Eu, como dirigente de organização social e ex-gestor público, sempre pensei a sociedade brasileira a partir do meu compromisso com soluções para a questão racial, mas sem restringir minha atuação a isso. O problema racial é o que mais me afeta, mas não é o único que existe.
As pessoas negras precisam discutir projetos de país, e as pessoas brancas em posições de gestão, seja monocrática ou colegiada, precisam se abrir a ouvir o que temos a dizer para além da questão racial. Eu, por exemplo, me recuso a ser o “bedel” que só fala sobre isso nos conselhos de que participo. Se o tema surge, muitas vezes fico calado. Quando me perguntam: “Você não vai se manifestar?”, respondo: “Quero ouvir o que vocês têm a dizer.”
Resumindo, são três pontos: não recuar, qualificar o debate para educar e discutir, conjuntamente, projetos para o país.
Entrevista e edição: Emanuely Lima / Analista de Comunicação no Movimento Bem Maior. Publicado originalmente na newsletter Conexões em Movimento, do Movimento Bem Maior. Fotos: Thalita Guimarães
Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.
“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.
Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.
O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.
Nova edição do programa amplia oportunidades
A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:
“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.
A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.
Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:
“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.
A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.
Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.
“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.
A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver.
O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).
A Marcha como processo político e social de longo prazo
A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.
Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência.
Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.
Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.
“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.
Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.
Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.
O Fundo Baobá para Equidade Racial foi reconhecido pela Prefeitura de São Paulo com os Selos de Direitos Humanos e de Igualdade Racial, reafirmando sua atuação na promoção da equidade racial, na inclusão social e no fomento à educação para a população negra. O anúncio foi feito em dezembro de 2024, destacando a relevância do trabalho da organização.
A cerimônia de premiação ocorreu em São Paulo,nos dias 9 e 10 de dezembro, reunindo mais de 400 organizações inscritas. No total, 235 entidades foram premiadas pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, reconhecendo suas iniciativas em prol da diversidade, inclusão e justiça social.
Selo de Direitos Humanos e Diversidade
O Edital Educação em Tecnologia, promovido pelo Fundo Baobá, foi contemplado com o Selo de Direitos Humanos e Diversidade em sua 7ª edição, um reconhecimento concedido a organizações que realizam ações concretas para a inclusão e a promoção dos direitos humanos.
Lançado para fortalecer a inserção da população negra no mercado de tecnologia, o edital Educação em Tecnologia apoia organizações e empresas lideradas por pessoas negras que possam contribuir, por meio de processos formativos, tanto para a entrada de novos profissionais negros no setor quanto para a permanência daqueles que já atuam, desenvolvendo suas competências.
Ao todo, quatro organizações foram selecionadas para receber apoio financeiro, com bolsas que variam entre R$ 250 mil e R$ 500 mil, permitindo que essas iniciativas expandam seu impacto e capacitem mais profissionais negros para o setor tecnológico.
Selo Igualdade Racial
Além do reconhecimento pelo edital, o próprio Fundo Baobá recebeu o Selo Igualdade Racial, uma certificação concedida a organizações que demonstram compromisso com a diversidade racial e a inclusão no ambiente de trabalho.
Criado pela Lei Municipal 16.340/2015 e regulamentado pelo Decreto 57.987/2017, esse selo é destinado a organizações que possuem, no mínimo, 20% de profissionais negros em diferentes níveis hierárquicos, incluindo cargos de direção, gerência e coordenação.
No Fundo Baobá, a equipe executiva é composta majoritariamente por pessoas negras, reforçando seu compromisso com aequidade racial, o desenvolvimento de lideranças negras e a transformação social.
O impacto do reconhecimento
Os selos conquistados pelo Fundo Baobá não apenas reconhecem suas iniciativas de impacto social, mas também fortalecem o compromisso da organização com a construção de um futuro mais igualitário para a população negra no Brasil.
Com essas premiações, o Fundo Baobá reafirma seu papel na promoção da equidade racial e justiça social, contribuindo para um mercado de trabalho mais representativo.
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver espera reunir um milhão de mulheres negras em Brasília (DF), no dia 25 de novembro de 2025. Esse ato político-social receberá um investimento histórico de R$ 1,25 milhão do Baobá – Fundo para Equidade Racial, garantindo apoio à mobilização, logística, articulação e engajamento de mulheres negras em todo o Brasil, com foco especial nas comunidades quilombolas.
O anúncio foi feito no início de dezembro, durante o Encontro Regional de Mulheres Negras do Nordeste, realizado em Recife (PE). Na ocasião, Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Baobá, reafirmou o compromisso da organização com a luta das mulheres negras e a mobilização nacional, e destacou:
“Estamos articulando e contribuindo com as diversas frentes envolvidas nesse processo, apoiando tanto a mobilização local quanto a coordenação nacional, com um foco especial nas mulheres quilombolas, que têm um papel central nesta caminhada. Este é um esforço coletivo, com a confiança de que as mulheres negras terão voz ativa em cada etapa do processo até a grande Marcha.”
Apoio financeiro e divisão do investimento
O aporte de R$ 1,25 milhão será distribuído da seguinte forma:
✅ R$ 350 mil – Comitê Nacional para garantir a presença de mulheres na marcha ✅R$ 25 mil por estado – Destinados à mobilização em todas as 27 unidades federativas ✅R$ 225 mil – Exclusivamente para a articulação de mulheres quilombolas.
Segundo Fernanda Lopes, Diretora de Programas do Fundo Baobá, esse apoio está alinhado às prioridades da organização, que incluem fortalecer a memória e história da população negra, gerar renda e combater o racismo e o sexismo.
Por que a Marcha das Mulheres Negras é fundamental?
Embora representem 28% da população brasileira, mulheres negras enfrentam os piores índices sociais. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública:
👉🏾 63,9% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras 👉🏾 61,6% das vítimas de estupro têm até 13 anos e 52,2% são negras
Apesar dos desafios estruturais, são elas que estão na linha de frente da luta por justiça social e direitos humanos, enfrentando diretamente a violência do sistema carcerário, a criminalização das populações negras e periféricas e as violações de direitos promovidas pelo Estado.
Sua atuação é essencial em movimentos por moradia digna, saúde, educação e segurança alimentar, além da defesa dos direitos territoriais de comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais. Também desempenham um papel fundamental no fortalecimento da memória e da identidade da população negra, garantindo que suas histórias e contribuições para a sociedade brasileira sejam reconhecidas e valorizadas.
História da Marcha das Mulheres Negras
A Marcha das Mulheres Negras teve sua primeira edição em 2015, reunindo 100 mil mulheres em Brasília. O evento foi resultado de quatro anos de mobilização, iniciados em 2011, com ações em diversos estados e a formação de comitês estaduais e municipais. Esse processo fortaleceu a identidade política das mulheres negras, ampliou sua participação na esfera pública e impulsionou o crescimento de organizações femininas negras.
Um dos grandes marcos dessa mobilização foi a Carta das Mulheres Negras, documento entregue à Presidência da República e à sociedade brasileira. Nele, foram apresentados dados sobre desigualdade racial e de gênero, além de propostas para um novo pacto civilizatório baseado no conceito de Bem Viver. O documento abrange demandas por direitos urbanos, segurança pública, justiça ambiental, seguridade social, educação, cultura e outras pautas essenciais.
Desde então, as mulheres negras seguem “em marcha”, reforçando suas lutas por justiça e reparação histórica. Para a próxima edição, a expectativa é mobilizar 1 milhão de mulheres na capital federal, consolidando seu protagonismo na luta contra o racismo, o feminicídio, o genocídio da população negra e a negação dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver conta com 11 organizações em seu Comitê Nacional e se baseia em dois pilares fundamentais:
✊🏿 Bem Viver – Um modelo de sociedade que valoriza justiça social, equidade e cuidado coletivo, priorizando o bem comum em vez do individualismo. Defende a diversidade cultural, a autonomia das comunidades e uma gestão descentralizada.
✊🏿 Reparação Histórica – Uma luta por reconhecimento e justiça, exigindo reparação pelos danos da escravidão e do colonialismo. O foco está na restituição de direitos sobre o corpo, a cultura, a terra e a autonomia dos povos negros e indígenas.
A Marcha reafirma o compromisso das mulheres negras com a construção de um Brasil mais justo, igualitário e antirracista, fortalecendo redes locais, nacionais e internacionais de articulação feminista e política.
Fundo Baobá e o compromisso com a equidade racial
Sueli Carneiro, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, destaca a relevância desse apoio:
“O Fundo Baobá foi criado com a ambição de ser um vetor fundamental para o fortalecimento da agenda racial no Brasil. Este apoio à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reflete nosso compromisso em tornar essa causa uma realidade concreta, reafirmando a necessidade da presença efetiva das mulheres negras nas decisões políticas e sociais. Investir nesse movimento é, para nós, uma ação estratégica rumo à justiça social.”
Além do suporte financeiro, o Fundo Baobá mobiliza outros atores da sociedade civil, ampliando a força da Marcha e garantindo sua realização em 2025.
O apoio à Marcha das Mulheres Negras 2025 representa um avanço significativo na luta por equidade racial, direitos humanos e justiça social. Com esse investimento, a organização reafirma seu compromisso com o fortalecimento da democracia e a defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.
📢 Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!