Ciência negra sem fronteiras: caminhos e dicas para uma carreira global em STEM

dicas para uma carreira global em STEM

As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) estão no centro das grandes transformações do mundo contemporâneo. É nesses campos que surgem soluções para a saúde, o meio ambiente, a mobilidade e até mesmo para os desafios sociais que vivemos diariamente. No entanto, quando pensamos em quem tem ocupado esses espaços, é impossível ignorar a baixa presença de pessoas negras. Embora a população negra sempre tenha contribuído para a ciência, essa participação histórica e atual frequentemente é invisibilizada nos círculos acadêmicos. Para universitários negros em STEM, o desafio é duplo: superar as barreiras de acesso ao ensino superior e, uma vez dentro, garantir que suas perspectivas sejam valorizadas.

A potência da formação internacional em STEM

Quando estudantes negros brasileiros chegam a universidades internacionais, eles não levam apenas suas mochilas, mas também suas histórias, seus territórios e suas referências culturais. Essa presença muda não só a trajetória individual, mas também a forma como a ciência é produzida globalmente, enquanto se redobram os desafios, sejam eles linguísticos, culturais ou financeiros. Para estudantes negros, ocupar esses espaços é também um ato de reafirmar que a produção científica negra existe, é potente e precisa ser valorizada.

A brasileira Luana Marques Ferreira, de 29 anos, atualmente estudante de doutorado em Ciência de Polímeros e Engenharia, na Universidade de Massachusetts Amherst, Cidade de Amherst, Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos da América (EUA), relatou que mesmo durante toda a graduação no Brasil, na área de STEM, precisou se desdobrar em várias atividades para custear a sua permanência na universidade, além de contribuir com as despesas de casa, e que:

Crédito: Acervo pessoal (2025). Legenda: Imagem de Luana Marques no campus da Universidade de Massachusetts Amherst 
 

“Por isso, quando surgiu a oportunidade de vir para os Estados Unidos, mesmo com a bolsa da universidade, eu tinha receio dos novos desafios que enfrentaria, especialmente o elevado custo de vida do estado que moro e a incerteza financeira até o recebimento da primeira bolsa”, relatou a estudante.

É verdade que o caminho da formação internacional apresenta desafios únicos, desde a adaptação cultural até o enfrentamento de microagressões. Mas cada obstáculo superado fortalece a convicção de que você pertence a esse espaço e de que sua perspectiva no ensino superior é fundamental. O mais importante é saber que, para cada barreira, existe uma rede de apoio e uma solução possível.

Por onde começar sua jornada internacional no STEM 

É hora de sair do sonho e entrar na estratégia! Sabemos que fazer uma graduação exige um planejamento minucioso. Por isso, preparamos um guia com os primeiros passos práticos e estratégicos para você começar a construir sua jornada internacional agora:

•   Defina opções de cursos ou áreas: Engenharia, por exemplo, é um campo amplo, com formações que se conectam entre si, como Materiais, Química, Ambiental ou Biomédica. Ter mais de uma opção não reduz seu caminho, apenas aumenta as possibilidades de encontrar um programa que combine com seus interesses e objetivos acadêmicos. Importante lembrar que o mesmo acontece para a área de saúde ou humanidades, crie uma lista de cursos prioritários.

•   ENEM: Identificar países que aceitam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como forma de ingresso direto em universidades estrangeiras pode ser um diferencial, porque o exame que já conhecemos no Brasil também abre portas no exterior. Portugal, por exemplo, possui acordos com diversas instituições que recebem a nota do ENEM no processo seletivo. Além disso, outros países na América Latina e até na Europa já vêm reconhecendo o exame como critério de admissão. Confira aqui a indicação dos países que aceitaram o ENEM em 2025.

•   Busque Bolsas Específicas: Concentre-se em editais que valorizam a diversidade, como o Black STEM, mas também em fundações e programas das próprias universidades que focam na permanência estudantil.

•   Invista no Idioma e na Rede: A proficiência em idiomas é essencial. Construa sua rede de apoio com professores, colegas, organizações negras e comunidades acadêmicas. Use o LinkedIn para encontrar egressos do seu curso ou universidade de interesse.

•   Experiências Extracurriculares: Um ponto que pode ser a grande diferença da sua candidatura são as experiências fora da sala de aula. Participar de projetos voluntários, grêmios estudantis, associações culturais, esportes, música ou feiras acadêmicas demonstra disciplina, liderança e capacidade de impacto. Até mesmo o bom desempenho em esportes ou artes conta, mostrando comprometimento e trabalho em equipe. Essas experiências revelam quem você é além das notas, e fortalecem suas chances de ingresso e adaptação na universidade. E essa dica vale para a maioria dos cursos.

Rede de Apoio: A Força da Permanência

Em muitas das situações, o mais difícil não é ser aceito para uma graduação em um outro país, mas sim permanecer. Um dos diferenciais do Black STEM é oferecer não apenas o apoio financeiro, mas também suporte acadêmico, psicológico e uma rede de contatos que acompanha cada bolsista ao longo da jornada. Essa rede é fundamental para garantir que os estudantes consolidem sua trajetória nas universidades. Luana Marques também destaca que: 

“Na área de STEM, os custos com workshops, viagens e eventos científicos muitas vezes tornam o ambiente inacessível para quem vem de contextos menos privilegiados. Programas como esse não apenas viabilizam a permanência de estudantes em ambientes internacionais, mas também ampliam a diversidade e o impacto das nossas vozes na ciência”, relatou a brasileira.

Estudar fora do país envolve desafios que vão além das aulas. Moradia, alimentação, materiais acadêmicos e transporte exigem organização financeira, ao mesmo tempo em que o estudante precisa lidar com a distância da família, o choque cultural e o idioma. Para quem está entrando no ensino superior agora, essa transição já é grande. Para jovens negros em países onde o racismo segue permeando algumas relações, tudo se torna ainda mais delicado. Por isso, o apoio à permanência é tão importante quanto o acesso: é o que garante que esses estudantes possam não só chegar, mas permanecer e crescer nesses novos espaços.

Conheça mais sobre o trabalho, as experiências e as conquistas de Luana Marques através dos seus perfis no Linkedln e no Instagram. Lembre-se de que o objetivo final vai além da obtenção de um diploma internacional. É sobre fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovação e o surgimento de uma nova geração de líderes em STEM. 

Não espere chegar à universidade para dar o primeiro passo. Desde o Ensino Médio, suas escolhas já podem abrir portas para o exterior. Quem sabe se o próximo capítulo da ciência pode ser escrito por você?