Embora as ações afirmativas tenham ampliado o acesso de pessoas negras ao ensino superior, esse avanço não se reflete na mesma proporção no mercado de trabalho. Segundo pesquisa do Pacto de Promoção da Equidade Racial e da Fundação Itaú, divulgada no fim de 2025, jovens negros qualificados seguem enfrentando barreiras estruturais que limitam sua inserção em espaços de decisão e crescimento profissional mesmo em contextos onde a diversidade e inclusão no ambiente de trabalho são cada vez mais discutidas.
Dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), baseados na PNAD Contínua do IBGE do segundo semestre de 2025, revelam que a população negra forma um contingente de 120 milhões de pessoas no Brasil. Deste total, a taxa de ocupação formal é de 56,7%, enquanto 59,4% estão fora do mercado formal de trabalho, em funções sem carteira assinada e mecanismos de proteção social ou sem qualquer ocupação. A desigualdade é maior no recorte de gênero: mulheres negras estão mais expostas a baixos salários e ao emprego doméstico. O cenário de desigualdade se acentua em cargos de gerência e direção, onde negros ocupam apenas 33% das posições (14% de mulheres e 19% de homens), conforme o DIEESE.
Para transformar esse cenário, o Fundo Baobá atua, há 15 anos, na mobilização de recursos para construir pontes entre o conhecimento da população negra e oportunidades concretas. Nossa atuação é criar condições para que cada pessoa apoiada defina sua trajetória, para que possa aprimorar suas habilidades, seu trabalho e suas redes, transformando a autonomia em inovação e liderança. Um exemplo é o Programa Carreiras em Movimento, que vai além da orientação profissional. É um espaço de desenvolvimento de habilidades para que cada pessoa ocupe seu lugar com autonomia e propósito.
A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem. Após ter a trajetória interrompida pela pandemia, ela foi selecionada pelo edital em 2023 e recebeu R$10 mil para aprimorar habilidades. “Utilizei 60% do recurso em aulas de conversação de inglês e os outros 40% na aquisição de equipamentos e cursos livres complementares”, revela.
Após o investimento, Daniela conquistou uma vaga em uma empresa global de design. “Fui selecionada e atingi o nível C2 de proficiência em inglês. Hoje sou Senior Product Operations e não teria conseguido a vaga sem o incentivo do edital, que me permitiu focar no idioma”, afirma.

Daniela Marreira | Crédito: Arquivo pessoal.
No setor de ciências exatas, onde a presença de pessoas negras é minoritária ainda, o Fundo Baobá criou o edital Educação em Tecnologia. Nele, empresas negras e organizações que contribuem para a ampliação da capacidade de pessoas negras se inserirem no mercado de trabalho no segmento da tecnologia são apoiadas. Já o programa Black STEM tem como foco estudantes brasileiros negros e negras que buscam formação acadêmica no exterior nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Eles recebem suporte financeiro e mentoria qualificada visando continuidade em seus cursos, o que poderá garantir posições de destaque dentro desse segmento.
”A discussão sobre empregabilidade negra é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Não existe país próspero sem a inclusão da maioria de sua população”, afirma Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá. “Precisamos urgentemente avançar nas políticas de cotas raciais e vagas inclusivas para ações que incidam diretamente nos gargalos que impedem a juventude negra de acessar uma educação superior de qualidade. Esse é um pré-requisito básico para elevar a presença negra nas posições de tomada de decisão e liderança que poderão movimentar um ciclo virtuoso de inclusão social”, completa.
Em 15 anos, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1.209 iniciativas, muitas com o foco de ampliar oportunidades para pessoas negras no mundo do trabalho. Esse investimento já alcançou 1,35 milhão de beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. Provando que, quando a população negra tem acesso a recursos, participação em redes e desenvolvimento de suas habilidades, transforma os espaços onde atua.