Política fiscal é uma das ferramentas de reparação para a população negra

Política fiscal é uma das ferramentas para reparação histórica da população negra. Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco - Individual, propõe caminhos para a reparação

Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco – Individual, propõe caminhos para a reparação

Tem uma pergunta que insiste em voltar quando se olha para a história de uma família negra no Brasil: por que algumas pessoas acumulam oportunidades ao longo das gerações e outras precisam recomeçar do zero a cada vez? Eliane Barbosa não escapou dessa pergunta. Foi atravessada por ela e decidiu transformá-la em pesquisa. Hoje, investiga na universidade o que muitos tratam como destino: a política fiscal, o imposto, o patrimônio e a forma como o Estado escolheu quem podia ter futuro.

Ela sabe do que fala. Começou a trabalhar aos oito anos. O pai não sabia ler. A mãe estudou até a quarta série. Ela foi a primeira da família a concluir o ensino superior. Nada disso aparece aqui como superação individual, aparece como dado de uma engrenagem que ela decidiu investigar de dentro.

Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Eliane pesquisa economia política da desigualdade, justiça fiscal, tributação, orçamento público, desigualdades raciais e reparação histórica. Coordena o Observatório Social da Política Fiscal da UNILAB e o projeto Tributação Justa, Reparação Histórica. Também é diretora de Justiça Econômica, Desigualdades e Reparação da Plataforma JUSTA e donatária do Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá.

Sua trajetória ajuda a ilustrar um fato para além dos números: a desigualdade racial também é uma desigualdade de patrimônio e de possibilidades.

Esse é um dos pontos de contato entre o trabalho de Eliane e a reflexão apresentada por Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, em entrevista ao programa C-Level, da Folha de S.Paulo. Ao falar sobre reforma tributária, Harvey chamou atenção para mecanismos como o  cashback e para a necessidade de pensar a justiça tributária também a partir do impacto racial das políticas econômicas. O cashback tributário, que está previsto para o Brasil a partir de 2027, prevê a devolução de impostos pagos sobre o consumo para famílias de baixa renda com o objetivo de promover a justiça socioeconômica. A questão, para ele,  é ampliar o debate: não basta reconhecer que o racismo produz desigualdades; é preciso discutir como o Estado pode enfrentá-las por meio de políticas públicas estruturais. E, quando o assunto é reparação histórica, uma dessas estruturas é a política fiscal.

A escravidão acabou. A desigualdade, não

A abolição da escravidão não veio acompanhada de uma política de distribuição de terras, indenização, acesso amplo à educação ou mecanismos de formação de patrimônio para a população negra. Ao contrário: milhões de pessoas foram enganadas e colocadas em condições profundamente desiguais. Para Eliane, esse passado não ficou preso aos livros de História. Ele ajuda a explicar quem possui patrimônio hoje, quem recebe herança, quem consegue comprar uma casa, quem tem acesso a crédito, quem pode poupar e quem precisa utilizar toda a renda para sobreviver.

“Patrimônio produz patrimônio. Quem recebeu terras, imóveis, capital, educação, redes de relações e condições para poupar e investir transmitiu aos seus descendentes não apenas bens, mas oportunidades”, fala a pesquisadora. 

Do outro lado, quem saiu da escravidão sem patrimônio e com acesso restrito à educação e ao mercado de trabalho começou a vida livre em desvantagem. Essa diferença também atravessa gerações. É o que ela chama de desigualdade durável: vantagens e privações que se acumulam ao longo do tempo e ajudam a definir as possibilidades das gerações seguintes. “As privações de uma geração reduzem as possibilidades da geração seguinte; acumulam-se e acabam se cristalizando”, afirma a professora. Por isso, para ela, falar em reparação histórica exige olhar além da renda.

Quem paga a conta?

A pergunta aparece quase inevitavelmente quando se fala em reparação: quem deve pagar? Eliane faz uma distinção importante entre quem possui responsabilidade histórica e quem deve financiar uma política de reparação. Em sua visão, o Estado brasileiro tem responsabilidade central porque sustentou juridicamente a escravidão e, após a abolição, não implementou políticas capazes de assegurar condições equivalentes de acesso à terra, educação, trabalho protegido e formação de patrimônio. A sustentação jurídica da escravidão deu-se a partir da instituição do Decreto 528/1890. Esse decreto, também conhecido como Lei Glicério, em referência ao então ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Francisco Glicério, determinava regras sobre a questão imigratória ao Brasil. O primeiro artigo do decreto dizia que pessoas aptas ao trabalho teriam a entrada liberada, porém essa entrada estava vetada a indígenas da Ásia ou da África. 

Mas o Estado não é o único ator envolvido. Empresas, instituições e grupos econômicos também participaram da economia escravista, dela se beneficiaram ou acumularam patrimônio em uma estrutura econômica construída durante aquele período. A reparação, portanto, não deve ser entendida apenas como uma indenização paga por indivíduos ou famílias identificados como descendentes da escravização. “Quando perguntamos ‘quem deve pagar a conta?’, eu distinguiria duas questões: quem tem responsabilidade histórica pela reparação e quem deve financiá-la?”, afirma a pesquisadora. 

Créditos: Arquivo pessoal

Para Eliane, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais uma sociedade democrática distribui coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado. “Eu não penso que a solução seja simplesmente localizar hoje os descendentes dos escravizadores e apresentar-lhes uma conta. Em uma sociedade democrática, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais distribuímos coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado”, afirma. É aí que entra um princípio conhecido da justiça fiscal: quem possui maior capacidade econômica deve contribuir mais. Renda, patrimônio, herança e grandes fortunas passam, então, a fazer parte da conversa.

Não é só quanto você ganha

Imagine duas pessoas com a mesma renda mensal. Uma mora em um imóvel próprio, recebeu patrimônio da família e conta com uma rede familiar que pode ajudá-la em um momento de dificuldade. A outra paga aluguel, não recebeu herança e ainda sustenta pais, filhos ou outros parentes. As duas ganham a mesma coisa. Mas vivem situações econômicas bastante diferentes. É justamente essa diferença que Eliane quer colocar no centro da discussão tributária. “Duas pessoas podem receber exatamente a mesma renda e possuir capacidades econômicas muito diferentes”, conclui. 

Para ela, olhar somente para a renda corrente pode fazer com que o Estado trate como equivalentes pessoas que não possuem a mesma capacidade econômica. “Meu argumento é que olhar apenas para a renda corrente pode fazer com que o sistema trate como economicamente equivalentes pessoas que, concretamente, não estão na mesma situação.” E a questão racial aparece nesse ponto porque o acesso à terra, à educação, ao trabalho protegido e à formação de patrimônio foi historicamente desigual no Brasil.

A população negra está representada entre os grupos de menor renda e patrimônio e sub-representada no topo da distribuição. Por isso, um sistema tributário que pesa fortemente sobre o consumo pode produzir um efeito racial mesmo quando sua regra não menciona raça. Quem ganha menos tende a comprometer uma parcela maior da renda com bens e serviços essenciais. E, como os negros estão mais concentrados nas faixas de menor renda e riqueza, a regressividade econômica também tem consequências raciais.

Mas há uma segunda pergunta, tão importante quanto ‘quem paga?’ que é: quem recebe? 

Para Eliane, tributação e gasto público precisam ser analisados juntos. Não basta saber de onde vem o dinheiro. É preciso acompanhar para onde ele vai e quem consegue transformar os recursos públicos em melhores condições de vida. É aqui que a proposta dela se aproxima e, ao mesmo tempo, amplia o debate sobre justiça fiscal. Uma primeira frente seria tornar o sistema tributário mais progressivo: a ideia é aliviar os impostos para quem ganha menos e aumentar a cobrança sobre quem tem rendimentos, patrimônios e heranças maiores.  

A segunda frente é pensar em uma tributação afirmativa, focada em reduzir desigualdades raciais. Essa é uma agenda ainda em construção. Eliane trabalha com a ideia de um “encontro de contas”: se existe uma dívida histórica e material do Estado brasileiro com a população negra, é preciso discutir como essa dívida pode ser considerada na formulação de políticas públicas. “Reparação tributária não pode significar apenas fazer a população negra pagar um pouco menos. Precisa contribuir para alterar sua posição na distribuição da riqueza”, conclui. 

Um passo importante, segundo ela, é saber enxergar a desigualdade dentro do próprio sistema tributário. A inclusão do quesito raça/cor na declaração do Imposto de Renda é um exemplo. Com dados, torna-se possível observar como o imposto incide sobre diferentes grupos e construir políticas mais precisas. A partir daí, entram outras possibilidades: incentivos para aquisição da primeira moradia, formação de poupança, educação, empreendedorismo negro e outras formas de criação de patrimônio. A lógica muda de lugar.

Não se trata apenas de fazer a população negra pagar menos. E, sim, criar condições para que ela acumule mais, tenha mais segurança econômica e possa transmitir patrimônio às próximas gerações.

Da renda para o patrimônio

Durante muito tempo, políticas de redução da pobreza e da desigualdade concentraram-se na renda. É compreensível: renda determina o acesso imediato a bens e serviços. Mas patrimônio é outra coisa. Uma família pode melhorar sua renda e continuar vulnerável porque não possui casa própria, terra, poupança ou ativos financeiros. Uma emergência pode consumir rapidamente aquilo que levou anos para ser construído. “Patrimônio significa também segurança, capacidade de planejamento e possibilidade de transmitir melhores condições para os filhos”, afirma a docente.  

Por isso, Eliane defende que uma política reparatória precisa olhar para a formação de ativos pela população negra. A ideia tem precedentes históricos. Nos Estados Unidos, logo após o fim da Guerra Civil, a chamada Ordem de Campo nº 15 reservou terras para pessoas recém-libertas, experiência que ficou conhecida como “40 acres e uma mula”. A política acabou revertida e as terras foram devolvidas aos antigos proprietários. O episódio ajuda a ilustrar uma questão que Eliane considera fundamental: reparação também é sobre criar condições materiais para construir autonomia econômica.

O debate não termina no Estado. Algumas empresas e instituições também fizeram parte da economia construída durante o período escravista e, no presente, algumas continuam reproduzindo desigualdades raciais em contratação, remuneração, promoção e acesso a oportunidades. “Uma agenda de reparação empresarial deveria, portanto, combinar memória, responsabilização e transformação das práticas atuais.”

Ela vê possibilidades de incentivos tributários vinculados a resultados concretos de equidade racial, mas faz uma ressalva: benefício fiscal sem contrapartida pode se transformar simplesmente em renúncia de receita. “Qualquer benefício fiscal deveria ter contrapartida mensurável, transparência e avaliação periódica”, sugere Eliane. Por isso, defende mecanismos com metas verificáveis, transparência, avaliação periódica e resultados concretos, como formação profissional e progressão de trabalhadores negros. A pergunta, novamente, não é apenas quanto dinheiro está sendo investido. É qual transformação esse investimento produz? 

Segundo Eliane, não existe uma única medida capaz de resolver uma desigualdade construída durante séculos. Se o Brasil decidisse assumir a reparação histórica da população negra como política de Estado, ela defenderia a construção de um programa nacional voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania. “Se eu tivesse que escolher uma primeira medida, hoje eu pensaria em algo mais amplo do que um instrumento tributário isolado. Defenderia a construção de um programa nacional de reparação voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania da população negra”, fala. 

Moradia, terra, educação, saúde, alimentação, segurança, cultura, lazer e cuidado, de acordo com ela, fariam parte dessa agenda. E há um elemento que chama atenção: o tempo. Tempo para estudar. Para cuidar. Para participar da vida pública. Para criar. Para conviver. Para desenvolver projetos que não estejam permanentemente subordinados à necessidade de produzir renda para sobreviver. É uma ampliação importante do conceito de reparação. Não se trata somente de redistribuir dinheiro ou patrimônio, mas de redistribuir possibilidades de vida.

Essa perspectiva também ajuda a entender a própria história de Eliane. Quando decidiu, aos 25 anos, que não teria filhos, uma das questões que pesaram foi justamente a consciência de que amor, sozinho, não garante uma vida digna. É preciso haver condições materiais para que uma pessoa desenvolva suas potencialidades. “Os seres humanos precisam de muito amor, mas também de condições materiais para desenvolver suas potencialidades”, define. A reflexão que começou no campo pessoal acabou encontrando, anos depois, sua expressão na pesquisa acadêmica e na incidência sobre políticas públicas.

Uma nova pergunta para o debate racial

A entrevista de Giovanni Harvey e a pesquisa de Eliane partem de caminhos diferentes, mas chegam a uma questão comum: como transformar o reconhecimento da desigualdade racial em mecanismos concretos de reparação? A resposta não está somente em novas leis ou programas específicos. Também passa pela estrutura econômica que define quem paga impostos, quem recebe recursos públicos, quem acumula patrimônio e quem participa das decisões sobre essas prioridades. 

De acordo com Eliane, as três dimensões precisam caminhar juntas: arrecadar de forma mais justa, distribuir os recursos de maneira mais equitativa e democratizar o poder que define essas escolhas. “Reparação exige mudar simultaneamente a forma de arrecadar, a forma de gastar e a distribuição do poder que determina ambas”, explica. É uma discussão que desloca o debate sobre reparação. Em vez de perguntar apenas quanto o Brasil deve à população negra, passa-se a perguntar também como essa dívida pode ser enfrentada por meio das estruturas do Estado e da economia.

Depois de quase quatro séculos de escravidão e de gerações marcadas por desigualdades no acesso à riqueza, reparar não seria apenas devolver o que foi perdido. Seria criar condições para que a população negra possa escolher outros caminhos, construir patrimônio, exercer plenamente seus direitos e transmitir às próximas gerações algo que a história brasileira tantas vezes negou: possibilidades.

A força coletiva que mobiliza a Marcha das Mulheres Negras desde 2015

A mobilização para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 é construída por mulheres que estiveram presentes desde sua primeira edição, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Articuladoras, militantes e lideranças de diferentes gerações e territórios do Brasil marcham na luta por reparação diante das injustiças históricas, contra o racismo e pelo Bem Viver.

Entre elas está Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

“Foi uma militância e uma formação baseada em debate, leitura, informação. Tive a sorte e a oportunidade de fazer parte do Afoxé Alafin Oyó — grupo cultural e religioso de Pernambuco —, que foi meu espaço de ‘aquilombamento’. Era o nosso gueto, onde eu podia ser uma menina preta livre, sem precisar alisar o cabelo. Isso nos dava uma sensação de liberdade”, afirma.

Na fotografia, vemos Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras. uma mulher negra em pé, sorridente, com os cabelos trançados e presos com um detalhe vermelho. Ela veste uma regata estampada com a imagem de uma figura feminina negra em trajes tradicionais e com uma espada em punho, além de um short branco com bordados. Ao fundo, há um mural artístico em tons de preto e branco, com traços que remetem a elementos culturais e figuras humanas. A expressão da mulher transmite confiança e serenidade, em um ambiente que valoriza a identidade afro-brasileira.
Piedade Marques, filósofa, articuladora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e atual coordenadora do projeto social Eu voto em negras.

A faísca da Marcha das Mulheres Negras nasceu em 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a formação do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. 

O comitê foi composto por organizações como a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) e o Movimento Negro Unificado (MNU).

A Marcha como processo político e social de longo prazo

A construção da Marcha demanda meses — e, muitas vezes, anos — de preparação: encontros regionais, reuniões, estudos, debates e mobilizações nas comunidades. Trata-se de uma expressão coletiva do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão. Mais do que um ato político, a Marcha afirma um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.

Valdecir Nascimento, atualmente com 65 anos, também foi uma das protagonistas na concepção e organização da Marcha de 2015. Fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, sua trajetória se entrelaça com a luta cotidiana das mulheres negras e com a busca coletiva por estratégias de resistência e sobrevivência. 

Na década de 1980, Valdecir encontrou o movimento negro e, paralelamente, começou a questionar narrativas enquanto atuava como catequista (pessoa que leva a fé cristã a crianças, jovens e adultos) — entre elas, a releitura do poema O Deus Negro, de Neimar de Barros.

Desde cedo, passou a refletir e sonhar com um novo caminho para o Bem Viver das mulheres negras e de suas famílias. Filha de um ogã de terreiro (pessoa responsável por tocar e cantar), Valdecir carrega saberes ancestrais ligados à cura física e espiritual proporcionada pelas religiões de matriz africana.

“Em 2012, em Brasília, quando Nilma Bentes propôs um encontro de mulheres negras para discutir articulações que nos fortalecessem, senti que era uma proposta potente, que precisava ser acolhida por todas. Era a chance de nos afirmarmos como sujeitas políticas diante da sociedade brasileira — e assim foi feito, com a realização da Marcha em 2015”, relembra Valdecir.

Para ela, o maior legado daquela Marcha está na metodologia adotada e na capacidade de romper com a subalternidade histórica imposta às mulheres negras. É nelas, acredita, que reside a força transformadora capaz de mudar o país.

Tanto Piedade quanto Valdecir desejam que a Marcha de 2025 seja marcada pela esperança. Elas acreditam na força coletiva e afetiva das mulheres negras para construir um novo mundo — um mundo onde possam ser livres e moldar a realidade de acordo com seus próprios valores, e não segundo as imposições políticas e ideológicas dos opressores.

Para mais informações sobre a Marcha, acesse: https://marchadasmulheresnegras.com.br 

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

Rumo à Marcha das Mulheres Negras 2025: mobilização por Reparação e Bem Viver

No próximo dia 25 de novembro, milhares de mulheres negras vão se reunir para marcharem por Reparação Histórica e Bem Viver, em Brasília – DF. Marcham por uma exigência de políticas e medidas concretas que enfrentem as desigualdades raciais e sociais, que assegurem oportunidades reais para a população negra, que garantam o direito de sonhar e realizar, de envelhecer com dignidade, de acessar uma educação de qualidade, de se alimentar bem, e de ter acesso à saúde integral.

E pelo Bem Viver que representa uma proposta de organização política e social que rompe com o modelo individualista, explorador e desenvolvimentista centrado no capital, ou seja que proponha uma organização coletiva para a ascensão das mulheres negras na sociedade em todas as regiões do Brasil.

Mulheres negras sorrindo em círculo, vistas de baixo para cima, reunidas em Recife para o planejamento do Março de Lutas em preparação para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Mulheres negras reunidas para o planejamento do Março de Lutas em Recife (PE)

Com o objetivo principal de denunciar as diversas formas de opressão que atingem de maneira potencializada as mulheres negras, o movimento coletivo do Março de Lutas foi criado em 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e é construído pela Articulação de Organizações Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede de Mulheres negras do Nordeste.

A 7ª edição reforça uma agenda coletiva dos movimentos de mulheres negras, promovendo reflexões sobre o combate ao racismo e ao patriarcado, além de propor um novo olhar sobre o 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Mulher.

Grupo de mulheres negras sorrindo e vestindo roupas coloridas e estampadas com a campanha "Prevenção é Afeto", durante mobilização do 8M em Goiás, fortalecendo a construção da Marcha das Mulheres Negras 2025
8 de Março em Goiás

Durante o mês de março foram realizadas 167 atividades, de 83 organizações, grupos e coletivos, em 19 estados, nas 5 regiões do Brasil. Foram rodas de conversa, oficinas, festivais, seminários e outras ações que são o fio condutor desta mobilização. Todas essas atividades têm por meta  alcançar o número histórico de 1 milhão de mulheres negras nas ruas da capital federal. Costurando experiências, saberes e resistências por todo o país, este ano, o chamado ganha ainda mais potência, direcionando os passos rumo à marcha.

Mulheres dos centros e dos quilombos; das universidades e das escolas primárias; atletas; artistas; profissionais da educação e da comunicação; engenheiras; cientistas; motoristas de aplicativos; agricultoras; donas de casa; empreendedoras; trabalhadoras do campo e da cidade; cristãs e candomblecistas; religiosas ou não; entre outras. 

Mulheres negras reunidas em círculo sob árvores, em uma roda de conversa no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO), como parte das articulações para a Marcha das Mulheres Negras 2025.
Reunião de mulheres negras no Quilombo do Cedro, em Mineiros (GO)

Para Maria Conceição Costa, a Ceça, uma das integrantes da Coordenação Nacional do Comitê impulsor da Marcha das Mulheres Negras, a marcha cumpriu o seu papel em 2015 como um impulsionador para a organização dessas mulheres. Após a marcha houve um fortalecimento significativo das mulheres do Nordeste, ainda que tenham relatos de ocorrências de opressão durante a marcha.

Mulheres negras seguram faixa da Marcha das Mulheres Negras 2025 durante o carnaval de São Luís (MA), reafirmando a luta por reparação histórica e bem viver em meio à celebração popular.
 Mulheres negras presentes no carnaval de São Luís (MA)

“É importante fortalecer não só as capitais para 2025, mas um número maior de cidades e os interiores Brasil afora, pois a realidade das mulheres negras ainda é muito crítica. São elas as que mais morrem pela ausência de saúde, são as que mais choram pelos seus filhos assassinados pela violência do estado, são as mais perseguidas por conta da sua fé, das suas guias, e as que mais sofrem violência obstétrica”, afirma Ceça.

Para mais informações sobre a Marcha das Mulheres Negras 2025, acesse o Instagram da Marcha das Mulheres Negras.