Fundação Kellogg: conheça os propósitos que norteiam uma das organizações filantrópicas mais antigas e atuantes do mundo

Fundada em 1930 pelo empresário de cereais Will Keith Kellogg para ser uma organização privada e independente, a W.K.Kellogg Foundation completou seu 90o aniversário em junho. Considerada uma das maiores entidades filantrópicas do mundo, é guiada pela crença de que todas as crianças devem ter a mesma oportunidade. Por conta disso, seu foco tem sido atuar nas comunidades criando condições para que elas alcancem o pleno potencial na escola, no trabalho, na vida.

Embora ao longo destas décadas tenha atuado em diferentes frentes, a infância e as comunidades sempre estiveram no centro de seu planejamento. Tanto que, para este ano, estabeleceu como objetivos: aprender com o passado para liderar no futuro; honrar o seu legado, adaptando-o ao presente; alavancar parcerias e redes de aliados; continuar centrando ações nas crianças, suas famílias e comunidades. 

Nesta entrevista, Sebastian Frias, oficial responsável pelas iniciativas de promoção de equidade racial na Fundação Kellogg, fala sobre essas metas, que fazem parte do DNA da organização. Acompanhe:

1. Quando a Fundação Kellogg enfrentou a questão da equidade racial nos Estados Unidos e no Brasil? 

SF –  A Fundação Kellogg tem uma atuação muito ampla no campo da equidade racial. Começou em 1968, no centro dos protestos do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, quando financiamos universidades negras e a diversificação de oportunidades de educação para a população afro-americana. Ao longo das décadas seguintes, esses investimentos se diversificaram para incluir também a representação da população invisibilizada em profissões-chave. Em 1986, a fundação iniciou seus investimentos na África do Sul, em um contexto ainda regido pelo apartheid e com um forte compromisso com o desenvolvimento de estratégias de educação e liderança. Na década de 1990, expandimos nossos investimentos nos Estados Unidos e, finalmente, nos anos 2000 estabelecemos as bases para o que hoje é uma das prioridades para a fundação: a equidade racial. 

2. E a atuação com o Fundo Baobá?

SF – A fundação trabalha em estreita colaboração com o Fundo Baobá para Equidade Racial desde sua criação, em 2011. A relação é baseada em um legado de trabalho e investimentos da WKKF no Brasil, que se estende por décadas e é consistente com nosso compromisso com o avanço da equidade racial. O principal mote da relação foi a criação e construção de um fundo patrimonial de recursos dedicados a promover a completa inclusão das populações afrodescendentes na sociedade brasileira. Mais recentemente, publicamos diretrizes e estabelecemos um Conselho de Solidariedade para a Equidade Racial que está comprometido com uma visão global para continuar essa agenda. 

Sebastian Frias, oficial responsável pelas iniciativas de promoção de equidade racial na Fundação Kellogg

3.  Por que a Fundação Kellogg considera relevante apoiar iniciativas, programas e projetos dessa natureza? 

SF – Hoje, mais do que nunca, podemos ver que os sistemas globais de opressão tiveram um efeito histórico na perpetuação da ideia de que algumas pessoas têm maior valor em relação às outras, especificamente por serem racializadas. A maior vulnerabilidade às mudanças econômicas, políticas e ambientais está concentrada nessas comunidades racializadas, principalmente indígenas e afrodescendentes. Sabemos que, hoje, a visão de nosso fundador de garantir que as crianças possam enfrentar o futuro com confiança, depende da transformação desses sistemas desiguais para que as comunidades possam ser colocadas no centro. Por meio do planejamento cooperativo, do estudo inteligente (pesquisa, dados e evidências) e da ação em grupo (entre diferentes setores, faixas etárias e qualquer fronteira que fique no caminho) poderemos garantir uma mudança na vida dessas crianças. Como resultado de tudo o que vem acontecendo em diferentes geografias, do Brasil aos Estados Unidos, particularmente em torno da brutalidade policial, é que nossa presidente emitiu a seguinte declaração:  “As comunidades onde trabalhamos intensamente e nossos beneficiários e parceiros, reconhecem a causa raiz neste momento. Pessoas racializadas, imigrantes, a população indígena, as pessoas nas prisões, os pobres – aqueles que sofrem e morrem em maior número – são os mais afetados pela desigualdade racial em todos os sistemas. Seu trabalho, nosso trabalho compartilhado em nome da Fundação W.K. Kellogg, é abordar o racismo estrutural por trás das iniquidades: expô-lo, desfazê-lo e ajudar as comunidades a se curarem de suas feridas”, La June Montgomery Tabron, CEO – Fundação W.K. Kellogg – veja a versão original aqui.

4.  Qual é o papel das entidades como a Fundação Kellogg na busca por um mundo mais justo e igualitário? 

SF –  Do meu ponto de vista, parece-me que hoje é um momento importante para as organizações, instituições e qualquer tipo de entidade coletiva refletirem como chegamos onde estamos, como sociedade global, e no ambiente muito complexo em que vivemos. É preciso avaliar as causas básicas, as profundas desigualdades e as pessoas que deixamos de fora ou em situações de extrema vulnerabilidade. Para isso, penso que é importante pensar nas práticas, políticas e estruturas que vêm antes, como barreiras para mudanças profundas. E nesse sentido é a nossa vez de refletir sobre nossas próprias ações: somos realmente antirracistas? O que fazemos como organizações? Que padrões usamos dentro e fora de nossas organizações para garantir que não estamos reproduzindo as mesmas hierarquias de poder? Quem deve liderar a mudança? Qual é o nosso papel nisso tudo? Parece-me que é a partir de uma profunda reflexão sobre nossa ação, objetivos, identidade e ações futuras que poderemos realmente buscar, coletivamente, justiça e equidade. Essa profunda compreensão da interdependência nos permite entender que todas as organizações têm um papel a desempenhar e um espaço de ação e liderança, mas acima de tudo têm uma dívida histórica com essas comunidades vulneráveis, suas vozes e liderança. 

5.  Além do apoio que oferece ao Fundo Baobá, no Brasil, que outros países  têm iniciativas apoiadas? 

SF –  A Fundação Kellogg atua em alguns locais geográficos prioritários. Nos Estados Unidos, são: Novo México, Mississippi, Nova Orleans e Michigan (onde nossa sede está localizada). Em nosso programa internacional estamos focados no sudeste do México (Chiapas e na Península de Yucatán) e no Centro e Sudeste do Haiti. Finalmente, temos alguns investimentos legados no Brasil (Fundo Baobá para Equidade Racial) e na África do Sul. Nosso trabalho tem como prioridade três eixos temáticos cruzados pelo nosso DNA: crianças prósperas (apoiamos um início saudável e experiências de aprendizagem de qualidade para todas as crianças); famílias trabalhadoras (investimos em esforços para ajudar as famílias a obter empregos estáveis e de alta qualidade) e comunidades equitativas (queremos que todas as comunidades sejam vibrantes, comprometidas e equitativas).