Estado participativo. Só que não

Apesar do assunto política se manter em evidência durante o período eleitoral, a ciência política é vivenciada a todo momento. É notório que determinados territórios, considerados negros, empobrecidos, periféricos e quilombolas, carecem de atenção e atuação do poder público. Para discutir sobre participação política, resiliência comunitária e recuperação econômica, conversamos com Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora da ONG Criola, organização com mais de 25 anos de trajetória na defesa da sociedade civil e parceira do Fundo Baobá para Equidade Racial no Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.

 

Quando falamos em territórios, principalmente territórios negros, empobrecidos, periféricos, quilombolas, como fazer que as suas demandas e necessidades sejam ouvidas e atendidas pelo poder público?

Há uma ideia de incapacidade da população de arregimentar e correr atrás dos seus direitos parece que elas não fizeram as perguntas certas na hora certa para a população garantir os seus direitos. Na verdade, faz parte da dinâmica do racismo institucional garantir que o que você faz e o que pensa não faça sentido. Então, por mais que as pessoas tenham uma experiência na solução dos problemas, elas vão enfrentar um racismo institucionalizado que vai fazer com que essa entrega seja entendida como ainda não acabada, ainda impossível de ser executada. Daí uma necessidade de uma mobilização da sociedade, de que você consiga trazer para um contexto social essa demanda e fazer com que ela seja compreendida, quer seja no ponto de vista da solidariedade ou do compromisso político, como uma demanda legítima. Você pode não conseguir o efeito 100%, mas você pode ter uma resposta à altura desses acontecimentos. Um exemplo: morte materna –  a sociedade se corrói com essa questão da morte materna, mas ela não é capaz de se movimentar a ponto de pedir o fim da morte materna. Então fica-se sempre achando que você ainda não alcançou essa fala porque você ainda não soube traduzir esse conhecimento, essa necessidade, mas na verdade nos falta ainda uma possibilidade de sensibilizar, tanto o próprio setor da população negra quanto fora dele, sensibilizar a sociedade de modo geral, para que sejam dadas respostas à altura do que a gente necessita.

 

No que se diz respeito à Resiliência Comunitária: o quanto as comunidades, os  territórios negros, para sobreviver, precisam se organizar para ocupar o espaço que o Estado não ocupa?

É importante frisar que o Estado não deixa nada vago. Não tem espaço vago na política. Ele que faz você acreditar que falta algo em você para alcançar aquilo, para dar o retorno necessário para o desenvolvimento da sua atuação, porque, afinal de contas o Estado é um espaço da disputa entre grupos. Fica parecendo falta de competência dos grupos no acesso à representação política, que os grupos não foram capazes de construir representação suficiente. E você acredita nisso, você acredita que não tinha candidatos preparados, que não tinha candidatos adaptados para este processo. Então você fica imaginando que tem uma vaga que nunca vai ser preenchida, e aí você olha e acha que isso tem a ver com o racismo, mas na verdade tem a ver também com modo que se estruturam essas relações para fazer você imaginar que falta ainda capacidade para essa população acessar esse mecanismo. Então a ideia é que parece que tem uma vaga, mas na verdade há uma estrutura para você não participar. É como se eu te oferecesse um emprego para você varrer a minha rua, mas em seguida, quando você se coloca à disposição, eu digo que a qualificação para essa vaga é saber pular amarelinha; aí você se prepara para pular amarelinha, mas no mesmo momento eu falo que é uma amarelinha que não usa somente os pés, mas as mãos também. Ou seja, eu vou dando dificuldades que parecem parte do jogo, mas que no fundo têm a ver com as estratégias do racismo institucional.

Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora da ONG Criola

Como podemos classificar a participação dos habitantes de territórios negros, territórios empobrecidos, periféricos, quilombolas no espaço político? E se são candidatos, conseguem se eleger?

Eu imagino que a população tem um modo de operar os processos políticos, analisando os seus problemas e a capacidade de diferentes sujeitos a dar conta desses problemas. Por exemplo, se eu tenho problemas de transporte na região onde eu vivo, no meu território, essa questão se apresenta pra mim como uma questão importante, que precisa ser tratada. Então eu vou olhar na constelação de candidatos aqueles que também olham para os mesmos problemas que eu. Se você é igual a mim, esteve nas mesmas condições, qual é a sua chance de alcançar essa disputa e trabalhar esse direito? Então o que eu acho que tem acontecido é que a população faz uma boa análise e, inclusive, até vota nos candidatos do seu próprio território. Mas ela também aspira outras questões relacionadas ao seu direito, à força política para fazer mudanças naquele território e que se relacionam com o conjunto da cidade, com estado e com o país. É claro que tem fisiologismo, tem a compra dos votos que, nesse sentido, ultrapassa as dinâmicas da política. Muitos acham que a população vende o seu voto: claro que não! Às vezes ela está presa a armadilhas que estão nas mãos de políticos, como vaga em escola ou o acesso a serviços de saúde. Então, de certa maneira, fica parecendo que ela vendeu o voto, mas não: é o sistema que opera de maneira que ela não tenha oportunidade de apresentar novas candidaturas, novos representantes e novas possibilidades de mudanças. Eu acho que a população arrisca sempre nessa análise, escolhe candidaturas que vão dar conta dos problemas que ela está elegendo nesse processo: saúde, trabalho, educação, segurança… e a partir daí planeja essa candidatura, mesmo que às vezes pareça conservadora e violenta. Por que nos parlamentos tem tantos policiais e pessoas do mundo militar? Porque a sociedade está achando que esse grupo pode vir a enfrentar um problema que ela não consegue, que é a violência armada, o crime organizado, a violência policial. A população quer alguém que venha dar conta de dinâmicas que ela mesma não dá conta. A Marielle Franco foi uma liderança política que quando foi eleita, os dois grupos a estavam analisando corretamente, o grupo interno e o grupo externo. O grupo interno, no caso a Favela da Maré, que ela teve votos lá também, analisava que ela seria uma boa representante para remover essas barreiras e garantir direitos. E, o grupo externo a enxergava com mais força ainda, porque vinha daquele lugar e, para além do seu próprio discurso, ela seria capaz de  projetar a sua voz para a sociedade, à favor daquele grupo. Por isso eu entendo que quem votou na Marielle não foi a elite, eu entendo que quem votou na Marielle tinha o mesmo projeto, tanto os que moravam na favela,quanto aqueles que moravam fora. Votaram pensando nas mudanças e nas melhorias para aquele local, para aquela cidade, para aquele grupo. Votaram por estas razões, e você vê que até hoje que ela segue sendo  referência. A  partir dela se ampliaram mais representações políticas que vinham desse mesmo campo.

 

O Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, do Fundo Baobá, surgiu para fomentar lideranças femininas em espaços de poder. Para você, o que falta para que as mulheres, principalmente mulheres negras, vindas de territórios negros, ocupem esses espaços políticos?

Eu vou olhar isso de dois modos: ser uma liderança na sociedade, promovendo processos de fortalecimento das mulheres e da população negra, ampliando os horizontes da democracia brasileira, melhorando a qualidade de vida dessa população. Acho que já é uma possibilidade das mais importantes você ter gente em vários setores debatendo e discutindo a questão racial e, ao mesmo tempo, pontuando a partir daí direitos, liberdade, democracia. E o outro ponto tem a ver com as dinâmicas institucionais, aquelas que também vão estabelecer direitos que podem melhorar a democracia e ampliar liberdades. Quando eu vejo alguém se candidatando a algum cargo público em um parlamento, eu também penso que essa pessoa possa dirigir uma unidade de saúde e uma unidade escolar, pode gerenciar programaticamente secretarias, ministérios, direção de instituições, o que é claro, uma disputa complexa, mas necessária. Mas não é possível olhar  só um lado, é preciso ter vozes fortes na sociedade. Porque parte das mudanças produzidas na sociedade têm a ver com a capacidade dos setores envolvidos nessa discussão de sensibilizar e convencer outros setores. Pegando como exemplo a eleição da Marielle e o lugar de onde ela veio: ela convenceu outros setores a apoiar as suas causas, e essa experiência política de participação da sociedade é de muita importância. A Marielle, que estava se candidatando a um cargo público no parlamento, foi capaz de expressar na sociedade a necessidade de fazer valer essa ideia, esse propósito. Ela também moveu a estrutura da sociedade a pensar na população negra, para enfrentar a violência contra essa população, para pensar nos territórios que essa população vive. Então um projeto como o Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco deve ter a capacidade de construir lideranças na sociedade que estejam em outros setores além do público, para fazer valer o direito da população.

 

Hoje, como tem sido a atuação da ONG Criola dentro desse contexto de resiliência comunitária, recuperação econômica e participação política?

Nós temos uma experiência muito importante. Agora, durante a pandemia da covid-19, nós consultamos algumas lideranças sobre o que elas estavam fazendo diante desse processo. Era importante compreender como elas estavam enfrentando as violações de direitos, se elas estavam se solidarizando com o seu território e com a população deste território. E a gente descobriu que elas estavam buscando soluções de todos os níveis: soluções em torno da prevenção, dos impactos econômicos, da fome, da falta de renda. E nós perguntamos se elas queriam atuar nessa mesma direção,  promovendo direitos humanos, e elas aceitaram, até porque elas já estavam atuando nesse campo. Nós queríamos remover barreiras contra esses direitos, para que, só alguém vivendo nessa realidade poderia nos ajudar. Perguntamos se essa ação de ajuda humanitária não poderia ser conjugada também com uma ação de direitos, e elas toparam. Então, as lideranças que fecharam esta parceria com Criola promoveram distribuição de alimentos e também ajudaram no cadastramento para o auxílio emergencial, identificaram e foram ajudando as mulheres a removerem algumas das barreiras que as impediam de terem acesso ao auxílio. O auxílio era essencial pois se tratava de algo de mais longo prazo, em comparação à  ajuda solidária, que teria um fim em algum momento, tendo em vista que a pandemia atingiu todo mundo. Acabou ocorrendo que essas mulheres, com apoio das lideranças,  resolveram problemas da documentação, acionaram serviços públicos que estavam paralisados, reivindicaram direito à saúde, à assistência, trabalharam junto com órgãos de Justiça, como a Defensoria Pública, para poder alcançar esses direitos, promoveram a prevenção – não só a distribuição do material, mas também garantiram o acesso à informação correta. Também puderam reunir outras forças comunitárias para enfrentar o problema, atuaram junto com jovens, igrejas, terreiros, coletivos e grupos comunitários, todos trabalhando nas lógica e na dinâmica de direitos.

Para quem quiser mais informações sobre essa iniciativa, é só acessar o agoraehora.org

 

  

Pandemia impõe desafios de ações mais efetivas para proteção infantil

Pesquisa feita pela Unicef, intitulada Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, revelou que famílias com crianças e adolescentes até 18 anos foram as mais impactadas pela pandemia no Brasil. Realizado pelo Ibope, o estudo, que foi divulgado em agosto de 2020, mostra que esses grupos foram os que tiveram maior redução de rendimentos com, por exemplo, a perda de emprego e, consequentemente, maior exposição à fome e à violência. 

O que o levantamento expôs em números, a pedagoga Viviana Santiago, 40 anos, conhece na prática. Gerente de Gênero e Incidência Política da Plan International Brasil, ONG voltada à promoção dos direitos das crianças e igualdade para meninas, ela convive diretamente com as famílias e comunidades em contexto de vulnerabilidade agravada pela crise sanitária. 

Viviana Santiago é Gerente de Gênero e Incidência Política da Plan International Brasil

Segundo Viviana, que atua no terceiro setor há 14 anos, seis dos quais na organização internacional, a pandemia alimentou a violência, o estresse e a fome nessas famílias. “Com a desmobilização das redes de cuidado das crianças e da educação infantil, essas pessoas perderam muito. Centenas ficaram sem rendimento ou emprego. Outras precisaram continuar trabalhando para sustentar as famílias”, afirma.

Os responsáveis pela renda tiveram que trabalhar, deixaram muitas vezes os filhos menores sob a supervisão e cuidado dos mais velhos (e não tão mais velhos assim!). Os que ficaram sem renda foram ainda mais expostos, pois não tinham o que oferecer à família para garantir o básico. “Ou seja: a pandemia acrescentou mais estresse ou mais trabalho para esses núcleos”, completa Viviana.

Com a falta de espaços de alimentação e acolhimento para essas mulheres e seus filhos, aconteceu o aumento da violência intrafamiliar – física ou sexual -, com abuso e exploração, o que reverberou especialmente na vida das crianças pequenas. Foi nesse contexto que o Fundo Baobá lançou em julho o edital de doações emergenciais com foco em famílias com crianças de 0 a 6 anos. O objetivo era selecionar profissionais dos setores saúde, educação e assistência social capazes de formular e implementar iniciativas de apoio, no contexto da pandemia Covid-19, a famílias com mulheres e adolescentes grávidas, mulheres que deram à luz, homens responsáveis e corresponsáveis pelo cuidado de crianças nessa faixa etária em seus núcleos. A iniciativa, realizada em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a Porticus América Latina e a Imaginable Futures, atraiu mais de 200 pleiteantes de todas as regiões do Brasil. Foram selecionadas 56 propostas que estão recebendo apoio no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Por regiões, o número de projetos contemplados é o seguinte: 24 do Nordeste, 23 do Sudeste, 4 do Norte, 4 do Centro Oeste e 1 do Sul. A lista de selecionados foi divulgada no final de setembro e pode ser conferida aqui.

Parte da solução para interromper esse ciclo, segundo Viviana, é fortalecer as redes de proteção para que continuem sendo capazes de cuidar, não apenas das crianças e adolescentes, mas também dos provedores da família para recompor a renda e impactar o menos possível o desenvolvimento infantil. “Quando acontece a retomada do trabalho, sem o suporte para essas crianças e adolescentes, aumentam as chances do trabalho infantil e de que eles fiquem em risco”, explica. “Por isso, é tão importante criar ações coordenadas de proteção para essas famílias.”

Renata Santos, 43 anos, ou simplesmente “Meduza com Z” (seu nome artístico), concorda. Diz que a pandemia evidenciou as vulnerabilidades dos territórios, por exemplo, como Sapopemba, na zona leste de São Paulo, que lidera os rankings de pessoas infectadas e de vítimas fatais. “Muitos residem com suas  famílias em ocupações, favelas, vielas, casas pequenas,  não tendo como manter o isolamento social”, afirma, com a certeza de quem lida com essa realidade todos os dias.

Perda de empregos e escolas fechadas – que, embora oferecessem aulas on-line deixaram milhares de estudantes sem acesso porque ou não tinham equipamentos ou não dispunham de internet – pressionaram ainda mais as famílias, aumentando os casos de maus-tratos, a negligência, a violência doméstica e sexual.

Meduza com Z do projeto CapoELAndo

“Aqui, foi uma tragédia declarada”, completa. “A expectativa é de que, quando a pandemia acabar, os governantes percebam o quanto continuamos sendo prejudicados. Dessa forma, implantem políticas públicas com ofertas regulares de serviços que possam, de fato, suprir as necessidades básicas da população da periferia.”

Também uma das contempladas pelo Fundo Baobá para Equidade Racial no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Renata tem uma longa trajetória de atuação social. Recentemente, dedica-se ao projeto CapoELAndo, que reúne professoras e alunas, desenvolve iniciativas socioculturais para mulheres negras e periféricas de Sapopemba.  Afinal, Renata sabe que ali convivem, lado a lado, criminalidade, drogadição, violência doméstica e todo tipo de violação de direitos. Por isso, capitaneou uma campanha junto ao Enfrente/Benfeitoria com o CapoELAndo – Luta por Direitos Fundamentais. 

“Conseguimos arrecadar bom recurso financeiro que permitiu auxiliar as nossas atendidas, seus familiares e outras centenas de famílias necessitadas com doação de cestas básicas e produtos de higiene. Além disso, realizamos visitas para orientá-las sobre a importância de prevenção do coronavírus”. Os projetos não param por aí. Se depender do fôlego da Meduza com Z, tem ainda muita arte, esporte e lazer na mira dela para fortalecer sua comunidade.

Ir aonde a necessidade está

Danúbia Santos, 34 anos, líder negra apoiada pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco (relembre  o programa aqui), executiva social da Central Única das Favelas (CUFA-Bahia) e coordenadora do Coletivo Negritude Sussuarana, é incansável. Desde a adolescência, participa de atividades ligadas ao teatro e à dança, dedicando parte do seu tempo a projetos culturais. Nesse processo, não esquece da necessidade de conscientizar os jovens das comunidades para as questões de etnia, cidadania, educação, identidade, sexualidades, drogas e diversidade religiosa, realizando, por meio da arte, seu trabalho de desenvolvimento político e social. Confira sua experiência nas comunidades em tempos de Covid-19: 

Danúbia Santos é executiva social da Central Única das Favelas (CUFA-Bahia) e coordenadora do Coletivo Negritude Sussuarana

Boletim – Em que consiste o seu trabalho na CUFA/BA? Como começou a sua trajetória nessa área? 

Danúbia Santos – A CUFA (Central Única das Favelas) é uma rede com foco em empreendedorismo social que atua em 27 estados e mais 22 países. Na CUFA Bahia eu sou executiva social e coordenadora do núcleo Sussuarana. Comecei  no movimento social há uns 20 anos, em uma ONG, a CRIA (Centro de Referência Integral de Adolescentes). Aos 14 anos, já era uma jovem dinamizadora e movimentava diversas ações em minha favela (Sussuarana) e em Salvador por meio de atividades artísticas e culturais que liderava, do Movimento HIP HOP e ações voltadas para equidade racial. Não parei mais. Conheci a CUFA em 2010 e fiquei encantada, pois tive a oportunidade de conhecer meu ídolo MV Bill e o visionário Celso Athayde. Já lia muito sobre eles nas revistas de RAP e, apesar de não haver uma formação forte da CUFA na Bahia, fazíamos sempre parcerias para promover várias ações na minha comunidade.  

Boletim – Para você, que convive diariamente com a realidade dessas famílias, quais os principais desafios, no contexto da pandemia, do isolamento e do distanciamento social? 

Danúbia – Acho que o principal desafio neste momento são as pessoas que moram em favelas se manterem em casa. A favela não parou, pois muitos precisaram permanecer trabalhando para garantir o sustento de suas famílias. São padeiros, trabalhadores de supermercados, ambulantes, garis… Sem essas pessoas, a sociedade, de modo geral, não poderia inclusive garantir seu próprio sustento mesmo tendo recursos. O distanciamento é praticamente impossível, pois muitas vezes estamos falando de famílias numerosas, que moram em pequenos cômodos. Por isso,nas ações de apoio emergencial,  além da alimentação, focamos também na distribuição de álcool 70%, máscaras e produtos de higiene para, ao menos, reduzir os impactos da Covid na vida dessas pessoas. Além disso, a CUFA criou o programa “criança da favela”, por meio do qual recebemos doação de brinquedos para distribuir para crianças que neste momento ficam em casa ociosas e também têm direito de brincar. 

Boletim – Você que está em contato direto com a realidade dessas famílias e de seus filhos, o que destaca como essencial nesse momento?

Danúbia –  A situação é muito complexa. Vejo que muitas mães precisam retornar ao trabalho, mas as aulas não voltaram. Então, elas ficam sem opção. Também por isso os auxílios não podem parar ainda porque muitas famílias necessitam, já que perderam seus trabalhos ou não podem sair de casa por conviverem com moradores de grupos de risco ou crianças que não podem ficar sozinhas. Neste momento, é essencial também ter a sensibilidade de perceber as necessidades de cada público. Em Sussuarana, por exemplo, além de ações específicas com ambulantes e recicladores, fizemos a distribuição de cestas para o publico LGBTQIA+.

CUFA-BA em ação

Boletim – De que forma a pandemia realmente impactou essas famílias? Que perspectivas enxergam?

Danúbia – Muitas famílias de fato tiveram seus recursos reduzidos neste momento de pandemia  – seja por não poderem sair para trabalhar ou por terem perdido seus empregos. O que percebo hoje é que muitas pessoas estão meio que ‘jogando pra cima’. Aqui em Salvador já houve a abertura de diversos espaços. Querem limitar os locais de lazer, mas o transporte público permanece reduzido, obrigando as pessoas a pegarem ônibus lotados e ficarem muito próximas. É um problema estrutural, pois, por mais que as pessoas queiram se prevenir, são obrigadas a ficar coladas. 

Boletim – O que é mais gratificante no seu trabalho e o que é mais desafiador?

Danúbia – É muito gratificante poder contribuir com as pessoas de alguma forma, principalmente mulheres negras que ficaram sem perspectiva neste momento e viram uma pequena contribuição chegar em suas casas para, pelo menos, amenizar a situação. Temos consciência que as pessoas querem mesmo é trabalhar e ter seu poder aquisitivo. Desejam pegar seu dinheiro e comprar o que quiserem. É isso que traz dignidade. Porém, neste momento de pandemia, está sendo mais do que necessário fazer as doações para levar o alimento à mesa das famílias. Isso nos faz acreditar em um futuro mais humano. O maior desafio é fazer com que as pessoas compreendam a importância da prevenção. Na verdade, nossa morte é banalizada há muito tempo. Então, é difícil fazer as pessoas acreditarem que vale a pena proteger a sua vida e a dos outros. 

Boletim – Em que consiste o seu projeto de desenvolvimento individual apoiado pelo Programa Marielle Franco? E de que forma complementa sua atuação? 

Danúbia – Meu projeto visa ao meu desenvolvimento pessoal, social e profissional. Passar no edital foi e vem sendo de extrema importância, primeiro porque eu tenho a oportunidade de fazer investimentos em minha formação acadêmica e também por transmitir os conhecimentos adquiridos para outras pessoas. Desde que ingressei no Programa, me sinto muito fortalecida e capaz de realizar coisas antes inimagináveis. Consigo  desenvolver habilidades e sair da minha zona de conforto, trazendo bons resultados também na CUFA. Fico muito feliz e lisonjeada em ver minha favela ser pautada em âmbito nacional e internacional. 

Fundo Baobá encerra em 12 de outubro a Chamada para Artigos Sobre Ações de Filantropia para Equidade Racial Pós-Pandemia

O prazo está acabando: vão até 12 de outubro as inscrições no edital de artigos sobre ações de filantropia para equidade racial no contexto pós-pandemia.  Serão selecionados até 20 artigos e seus autores vão receber verba de apoio no valor de R$ 2,5 mil cada. Para 2021, ano em que o Fundo Baobá para Equidade Racial completa 10 anos de fundação, uma edição eletrônica bilíngue (português-inglês) de um livro com os artigos será publicada. 

O edital é aberto a toda a comunidade acadêmica. Para figurar como primeiro(a) autor(a) do artigo esperamos contar com especialistas, mestres ou doutores com produção acadêmica concernentes às áreas priorizadas pelo Fundo Baobá para os seus investimentos programáticos: educação para equidade racial, do ciclo básico à pós-graduação; população quilombola; juventude negra; racismo religioso; saúde da população negra e ciclo de vida; masculinidades negras; violência de gênero contra mulheres negras; violência de gênero contra lésbicas, gays, travestis, transsexuais, queers, intersex negrxs; violência racial: segurança cidadã; racismo ambiental;   população negra, ciência e tecnologia; população negra e desenvolvimento econômico; população negra, comunicação e arte; população negra e memória.

 

O objetivo do edital, que é parte do projeto Consolidando Capacidades e Ampliando Fronteiras e integra uma parceria com a Fundação Ford, é a produção de conhecimento que possa fortalecer a atuação do Fundo Baobá no apoio a organizações e lideranças negras. Por isso, a participação da comunidade acadêmica é muito importante. 

A primeira etapa da seleção será de 26 de outubro a 10 de dezembro de 2020 e contará com o apoio de um grupo de pesquisadores com experiência comprovada na área e com título de doutor há pelo menos cinco anos para realizar análise crítica dos artigos.  A lista final dos textos que irão compor a publicação será divulgada no site do Fundo Baobá até o dia 22 de fevereiro de 2021. 

Clique aqui e inscreva seu artigo. 

Selecionados para receber doações emergenciais de apoio à primeira infância no contexto da Covid-19

O Fundo Baobá Para a Equidade Racial divulgou no dia 25 de setembro, a lista de selecionados do edital de doações emergenciais de apoio à primeira infância no contexto da Covid-19.

A iniciativa do Fundo Baobá, em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a Porticus América Latina e a Imaginable Futures foi concebida para apoiar famílias com mulheres e adolescentes em estado de gravidez, mulheres em situação de parto recente, além de homens responsáveis ou corresponsáveis pelo cuidado de crianças de 0 a 6 anos no contexto da pandemia Covid-19.

Lançado no mês de julho, o edital teve mais de 200 pleiteantes entre os dias 6 de julho e 9 de agosto de 2020.  As inscrições vieram de vários estados do Brasil. Por regiões, o número de projetos contemplados é o seguinte: Nordeste – 24; Sudeste – 23; Norte – 4; Centro Oeste – 4; e Sul – 1.

Como o edital indicava, os critérios de seleção levaram em conta a coerência da proposta frente aos objetivos do edital, sua adequação e factibilidade frente às condições de vida e saúde e às singularidades dos sujeitos para os quais as ações seriam dirigidas  (por exemplo ações dirigidas a povos indígenas, quilombolas, migrantes ou refugiados, foram avaliadas em relação à sensibilidade cultural).

O processo de escolha também levou em consideração a adequação e factibilidade da proposta frente ao contexto de isolamento social imposto pela pandemia da COVID19 e buscou priorizar propostas voltadas para o apoio no campo da saúde, educação e assistência social à famílias que vivem em contextos de desigualdades sociais, violência urbana, violência intrafamiliar, desemprego, fome e outras adversidades agravadas no contexto da pandemia de COVID19.

O cruzamento desses critérios permitiu identificar 56 iniciativas que irão receber apoio no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais).  A divulgação dos vencedores, como previsto no edital, é feita 45 dias após o término do período de inscrições. Os valores serão depositados para os vencedores dentro de 10 dias úteis e a prestação de contas deve ocorrer em até 90 dias após recebimento da doação.

O Fundo Baobá convida todas as pessoas selecionadas para uma reunião virtual no dia 1º de outubro, via plataforma zoom. Mais detalhes serão enviados por e-mail.

Confira a lista completa:

Nome da Pessoa Proponente Área de Atuação Estado Cidade Bairro Comunidade ou Território
1 – Ágata Parentes Ferreira Educação DF Brasília Ceilândia Sol Nascente
2 – Alessandra Danielly Cruz Educação PE Orocó Zona Rural Território Quilombola Águas do Velho Chico
3 – Aline Brauna Dos Santos Saúde CE Paracuru Freixeiras
4 – Aline Cardoso Côrtes Saúde DF Brasília Ceilândia Sol Nascente
5 – Aline Pedro De Moura Assistência Social RN Macaíba Zona Rural Comunidade Quilombola de Capoeiras
6 – Amanda Cristina Queiroz De Moraes Educação PA Ananindeua Curuçambá
7 – Ana Elisa Barbosa De Andrade Melo Assistência Social PE Recife Ibura Comunidade do Candeeiro
8 – Anny Waleska Saldanha Torres Educação BA Feira de Santana Santo Antonio dos Prazeres Território X
9 – Aristanan Pinto Nery Da Silva Saúde BA Água Fria Distrito de Pataiba Pataiba
10 – Ayodele Floriano Silva Assistência Social SP Itirapina Nova Itirapina Nova Itirapina
11 – Beatriz Raquel Silva Souza Saúde RJ Armação dos Búzios Cem Braças e Capão Cem Braças e Capão
12 – Bruna Rafaelly Cavalcanti Da Cruz Educação MA Centro Novo do Maranhão Sede e Povoados
13 – Caena Rodrigues Conceição Saúde BA Salvador Bairros Periféricos Comunidades em situação de vulnerabilidade
14 – Camila Britto Da Silva Educação SP Arujá Parque Rodrigo Barreto, Jd Mirante
15 – Carla Hemanuela Bezerra Assistência Social CE Crato Pimenta Casa do Imigrante
16 – Caroline Dias Gomes Padilha Educação RJ Rio de Janeiro Penha Penha
17 – Christiane Teixeira Mendes Assistência Social MA São Luis Coroadinho Polo Coroadinho
18 – Claudia Arantes Da Silva Mathias Educação SP São Paulo Região Central Região Central de São Paulo
19 – Cora Carolina De Paula Souza Assistência Social SP São Paulo Parque de Taipas Quilombo da Parada
20 – Daiane Da Fonseca Pereira Assistência Social BA Feira de Santana Matinha Comunidade Quilombola Candeal II
21 – Deyse Andrade Oliveira Educação SP Santo André Borda do Campo e Grande Vila Luzita Borda do Campo e Grande Vila Luzita
22 – Domingos Lemos Silva Saúde BA Vitória da Conquista Zona Rural Comunidade Quilombola São Joaquim do Sertão
23 – Edaildes Aparecida Rocha Saúde SP São Paulo Rio Pequeno Comunidades do Rio Pequeno e de Embu das Artes.
24 – Elisene Lemes De Oliveira Santos Educação AM Manaus Jorge Teixeira Comunidade Santa Ines
25 – Ester Oliveira Bayerl Educação RJ Rio de Janeiro Jacarepaguá Cidade de Deus
26 – Fernanda De Sá Sampaio Educação SP São Paulo Jardim Sydney Comunidade do Cantagalo
27 – Fernanda Flávia Cockell Silva Assistência Social SP Santos Nova Cintra Território dos Morros
28 – Helena Maria Tenderini Ferreira Da Silva Saúde PE Tracunhaém Bairro Novo
29 – Heloisa  Ferreira Da Silva Assistência Social BA Salvador Engenho Velho de Brotas Brotas
30 – Itamara Luiza Da Silva Assistência Social RN Assu Conjunto São Cristóvão e Conjunto Irmã Lindalva Bairro Frutilândia e Comunidade Baviera
31 – Jacqueline Leite Serafim Assistência Social PE Olinda Rio Doce Comunidade Beira Mangue
32 – Jaqueline Barbosa Dos Santos Heldt Assistência Social SP Pompéia Bairros Periféricos
33 – Jonatas Aparecido Silva Educação SP Campinas Oziel, Campo Grande, Campo Belo e Ouro Verde. Regiões Sul e Sudoeste.
34 – Kelly De Souza Prado Saúde SP Francisco Morato
35 – Lara De Paula Eduardo Saúde SP Embu das Artes Itatuba Região de Itatuba
36 – Layla Daniele Pedreira De Carvalho Assistência Social BA São Francisco do Conde e Santo Amaro
37 – Leandro Vilas Verde Cunha Assistência Social BA Salvador e Lauro de Freitas Comunidade do Ilê Axé Odé Yeyê Ibomin
38 – Lela Queiroz Assistência Social BA Salvador
39 – Liliane Santos Pereira Silva Saúde AL Batalha Zona Rural Comunidade Quilombola do Cajá dos Negros
40 – Marcy Maria Ferreira Gomes Educação RJ Duque de Caxias Centenário Mangueirinha
41 – Maria Carolina Ortiz Whitaker Saúde BA Salvador Ilha de Maré Praia Grande
42 – Maria Das Dores Faustino Saúde MG Belo Horizonte e Betim
43 – Maria Lúcia Dos Santos Rodrigues Assistência Social PA Região Metropolitana de Belém Águas Lindas Comunidade Moara e Área Adjacente
44 – Marlise Silva Lemos Educação RS Porto Alegre Cavalhada Sul e Extremo/ Restinga/ Cavalhada
45 – Meire Pereira De Oliveira Assistência Social BA Salvador Federação Comunidade de São Lazaro
46 – Minéia Miranda Santos De Oliveira Assistência Social SP São Paulo Ermelino Matarazzo Vila Santa Inês e Vila Godoy
47 – Natália Sevilha Stofel Assistência Social SP São Carlos Cidade Aracy
48 – Patricia Maria Barros Thomas Saúde RJ Rio de Janeiro Rocinha
49 – Paulo Henrique Do Nascimento Saúde RN Assu João Paulo II Favela Parati 2000
50 – Priscila Costa Saúde SP São Paulo Jabaquara Favela Alba
51 – Roberta Fernandes De Souza – Beth Fernandes Saúde GO Goiânia Região Noroeste
52 – Samily Maria Moreira Silva E Silva Assistência Social PA Belém Icoaraci, Terra Firme e Cotijuba. IBAMCA e Africanos de Icoaraci
53 – Silvia Aparecida Do Carmo Rangel Educação SP Suzano Miguel Badra Urbana
54 – Thays Fernanda Da Silva Saúde PE Recife Prado/ Zumbi/Cordeiro e Madalena Sítio do Berardo, Rua da lama e Sítio do Cardoso
55 – Tobias Pereira Soares Filho Assistência Social DF Brasília Ceilândia Sol Nascente
56 – Viviane Zerlotini Da Silva Assistência Social MG Belo Horizonte Baronesa Ocupações urbanas da região de Izidora

 

Open Society Foundation: a força da filantropia na luta antirracista

Fundada na década de 1980, a fundação atua mundialmente com foco em combater desigualdades e o preconceito. Atualmente, os países que mais recebem investimentos são o Brasil e a Colômbia, fortalecendo as lideranças e organizações negras. Conheça parte dessa história que é contada por Lígia Batista, assessora especial do Programa para América Latina. 

Boletim –  Quando a Open Society Foundations trouxe para o centro a questão da equidade racial nos  Estados Unidos e no Brasil?

Lígia Batista – O trabalho da Open Society nos Estados Unidos começou na década de 1980, com foco em melhorar a qualidade dos cuidados paliativos e reformar a política de drogas, dotada de práticas severamente punitivas que recaíam especialmente sobre os negros. Na década de 1990, o trabalho foi ampliado para combater o preconceito nas escolas, no policiamento, nos processos eleitorais e no sistema judiciário, bem como foi intensificado o apoio àqueles que defendiam mais  níveis de prestação de contas pelos governos e a proteção dos direitos civis e políticos. Em 2020, a fundação investiu $220 milhões de dólares para fortalecer o poder de atuação e disputa política das comunidades negras norte-americanas, em resposta às ondas de protestos que ainda tomam as ruas do país em reação aos assassinatos de afro-americanos pela polícia. No Brasil, a fundação tem aumentado sua atuação no fortalecimento de lideranças e organizações negras. Apoiamos cada vez mais grupos que se posicionam na vanguarda das disputas políticas e no enfrentamento ao racismo, seja no campo da inovação democrática, da construção de contranarrativas ou do reposicionamento do debate sobre direitos humanos neste país, no qual raça e etnia devem ser entendidas como eixos centrais. Além disso, buscamos contribuir para alavancar o debate sobre o papel que a filantropia deve ter na luta antirracista.

Boletim –  E a atuação com o Fundo Baobá?

Lígia Batista – Um dos maiores apoios já realizados pela fundação no Brasil foi para a consolidação do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. A parceria com o Fundo Baobá, iniciada em 2018, visou a consolidação desse projeto que é fundamental. O assassinato de Marielle diz muito a respeito do medo que as elites brancas cisheteronormativas carregam diante do levante de mulheres negras que desafiam as estruturas de poder. E nada é mais vigoroso do que responder a essa tentativa de silenciamento com o fortalecimento de outras vozes negras femininas em todo o país que dedicam sua energia à luta por equidade racial no Brasil sem perder de vista as dimensões de gênero, classe, sexualidades e território, dentre outras. A existência desse Programa, feito por e para mulheres negras, só reforça o senso de que não avançamos sozinhas, mas de forma coletiva.

Boletim – Por que a Open Society Foundations considera relevante apoiar iniciativas, programas e projetos que promovam a equidade racial?

Lígia Batista – Mais da metade da população brasileira é autodeclarada negra. Essa é uma dinâmica única que nos torna o país com a maior população negra fora do continente africano. Apesar disso, ainda que sejamos maioria, há uma clara distorção nas relações de poder. Negros e negras ainda são minoria em direitos, representação e participação política, além de alvos preferenciais da violência armada, da desigualdade econômica, do encarceramento, da intolerância religiosa e da violência de gênero. Assim, em um país majoritariamente negro, no qual uma minoria branca sempre controlou os sistemas de poder, apoiar ações que promovam a equidade racial deve ser uma prioridade. Lutar contra o racismo é lutar por uma sociedade que busque reparar o legado de dor e violência deixado pelo colonialismo e pela escravidão, combatendo as expressões contemporâneas de exclusão que até hoje ainda derivam desses processos históricos.

Lígia Batista é assessora especial do Programa para América Latina da Open Society Foundations

Boletim – Qual é o papel das fundações na busca por um mundo mais justo e igualitário?

Lígia Batista – O papel da filantropia no Brasil pode ser decisivo para a consolidação de um projeto diferente de presente e de futuro. Ainda que sem dominar os poderes econômicos e políticos que sustentam essa sociedade desigual, os movimentos negros têm dado conta de tocar múltiplas estratégias de ação, já tendo alcançado vitórias históricas. Grandes lideranças do setor filantrópico devem tomar partido nessa discussão, se posicionar do lado certo da história e promover ações concretas, para dentro e para fora de suas instituições. O setor precisa compreender que a neutralidade não existe e que todas as escolhas estratégicas de ação adotadas pelo investimento social privado partem de alguma perspectiva – e elas nunca foram racialmente ‘neutras’. Dessa forma, destaco que o compromisso com a equidade racial no setor deve se refletir na missão, visão e valores das instituições. É preciso incorporar a equidade racial ‘portas para dentro’, a partir, por exemplo, da definição de critérios objetivos e políticas internas para fortalecer a diversidade e equidade nos processos de contratação das equipes, com a garantia de que as vozes negras tenham espaço real de escuta e participação ativa na tomada de decisão. Essa diversidade deve se aplicar também aos conselhos. E pensando em ‘portas para fora’, é urgente investir e fortalecer cada vez mais lideranças e organizações negras da sociedade civil, incorporando o enfrentamento ao racismo de forma clara nos planos de ação.

Boletim – Além do apoio que oferece ao Fundo Baobá, no Brasil, que outros países têm iniciativas apoiadas?

Lígia Batista – A Open Society tem atuação em mais de 120 países ao redor do mundo. A fundação apoia o fortalecimento de sociedades abertas e vibrantes em todos os continentes e tem presença já consolidada e crescente na América Latina. Considerando especificamente o trabalho para equidade racial e as relações raciais na região, os países que hoje concentram a maior parte dos investimentos são Brasil e Colômbia, visando o fortalecimento de grupos afro-latinos e indígenas.

Boletim – Gostaria de fazer algum comentário adicional ou deixar um recado para as pessoas?

Lígia Batista – O recado que eu gostaria de deixar é que é preciso agir agora. Que não tenhamos que esperar por mais casos como os de Ágatha Felix, João Pedro, Rafael Braga, Preta Ferreira, Valéria Santos e tantos outros que escancaram o racismo cotidiano para nos lembrarmos que essa causa é real e urgente. Além disso, destaco que a luta por equidade racial não deve ser travada apenas por pessoas negras: o enfrentamento ao racismo deve ser uma agenda de todos e todas. Cada um de nós tem um papel fundamental para tornar realidade  a utopia de justiça, dignidade e direitos para todos e todas.

Direção do Fundo Baobá e apoiadas do Programa Marielle Franco participam de live sobre diversidade e liderança

A diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, participou do evento Road Show 2020 – Conexão, Diálogos e Transformação, organizado pela Eight Diálogos Transformadores, uma rede colaborativa de coaches e facilitadores de diálogos, em 17 de setembro. Além da Selma Moreira, participaram também três apoiadas do Programa de Desenvolvimento e Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com a Fundação Kellogg, Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford e Open Society Foundations. Entre elas estavam a diretora-executiva do Instituto Migra, Monalyza Alves; a cineasta e coordenadora de licenciamento e filmes originais da Netflix, Aline Lourena; e a educadora social e estudante de filosofia Lídia Rodrigues.

Com o tema “Diversidade na Prática – Coaching como Acelerador de Lideranças”, o evento virtual foi mediado por Christine Napoli e Roberto Rotenberg, ambos da Eight. Em sua fala inicial, Selma apresentou o Fundo Baobá, a forma como a organização funciona e o seu trabalho de promoção da equidade racial no país, por meio do apoio financeiro e técnico que alcança organizações, grupos e coletivos negros via editais. A diretora-executiva também explicou a forma como o Baobá capta recursos, dialogando com empresas e instituições, e também com indivíduos, que podem doar para a instituição funcionar no dia a dia, para os programas e projetos ou para o fundo patrimonial. Sobre isso, Selma frisou a importância de dialogar com as pessoas e mostrar a necessidade de se empenhar na luta antirracista: “Captar é um grande desafio, mas tem um diálogo para ser dirigido aos indivíduos, que cada cidadão precisa também pensar qual é o seu lugar, nessa construção de uma sociedade mais justa, o que te toca o que você pode contribuir para isso, além de fazer um post bacana nas redes sociais”.

Selma Moreira e as apoiadas do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco no Road Show 2020 – Conexão, Diálogos e Transformação

Entre as lideranças apoiadas, Monalyza Alves fez questão de destacar a importância do seu projeto desenvolvido com apoio do Programa Marielle Franco: “Eu trabalhei por dez anos no governo do Estado do Rio de Janeiro, atuando com políticas de promoção da igualdade racial e também com direitos humanos. E havia uma dificudade por parte de gestores, principalmente negros, em entender como a estrutura do governo funciona. Então quando eu fiquei sabendo do Fundo Baobá, eu inscrevi esse projeto que é uma espécie de formação inicial para quem vai assumir cargos públicos. Porque eu entendo que se você conhece a máquina, você consegue transformá-la”.

Para a cineasta Aline Lourena, a raiz do seu trabalho é empoderar mulheres negras e torná-las protagonistas da sua própria história: “A minha missão é ampliar o número de mulheres negras em cargos de liderança. Eu sou cineasta, mas eu passei boa parte da minha vida empreendendo em uma agência de comunicação e publicidade, sendo pioneira no Brasil em ter todo um processo de admissão de um corpo de profissionais negros e LGBTQI+, sendo essa uma das únicas estratégias possíveis de atuar no mercado de trabalho, na área da comunicação e do entretenimento, em um espaço de protagonismo, onde eu pudesse trazer as nossas histórias para o grande público”.

Sendo uma grande militante em defesa das crianças e adolescentes vitimas de violência sexual, Lígia Rodrigues falou sobre o seu projeto que busca trabalhar autoproteção, principalmente com a perspectiva racial: “Desde os 15 anos eu sou ativista do enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes e, ao longo dos anos, eu fiz educação social de rua, educação em saúde e planejamento de políticas públicas. Em 2019 eu estava em Brasília, e eu estava muito angustiada porque eu não conseguia ver o link das ações que aconteciam no campo, de enfrentamento direto a violência sexual, e o que repercutia lá no planalto, considerando que eles queriam aumentar a pena para autores de crimes sexuais, mas lutavam pra acabar com a educação sexual, que é o principal mecanimo de enfrentamento a violência sexual. E foi à partir dessa indignação que formulei o meu projeto que é de educação e autoproteção para crianças e adolescentes.”, completa.

Christine Napoli, relembrou o papel da Eight no Programa Marielle Franco, considerando que ele é fomentado por dois blocos: “Um dedicado à formação das líderes individuais e o outro é o apoio aos coletivos liderados por mulheres negras. Nessa parte da formação individual, o Programa tem três pilares, um que irá subsidiar as líderes em sua atuação política e de lugar de fala, outro que cuida da parte psicológica, resiliência e de enfrentamento ao racismo, e a outra parte de coaching individual, que foi justamente onde nós da Eight entramos”. Para Selma, o trabalho da Eight com as apoiadas do Programa é essencial: “O racismo é algo tão perverso, tão absurdo, que muitas vezes faz com que a gente tenha dúvidas da nossa capacidade, tenha dúvidas da nossa luz, então a perspectiva é que nós tenhamos o coach como uma ferramenta que nos auxilia a entender todo o nosso potencial, brilho, capacidade e força. O que a gente está sonhando e como é que a gente faz acontecer, e esse é o papel da Eight, de apoio nessa transição do sonho para a realidade”, destacou.

Confira a live completa aqui

Selecionados para a segunda etapa do processo seletivo do Programa Já É: Educação para Equidade Racial

Resultado Já É - Fundo Baobá para Equidade Racial

Lançado no dia 10 de julho, o edital teve 245 pessoas inscritas, até o encerramento das inscrições no dia 9 de agosto de 2020. O Programa Já é inclui uma bolsa de estudos em um cursinho preparatório para o vestibular, atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e acadêmicas, incluindo programa de mentoria. Além dos itens citados, as despesas de transporte e alimentação também serão custeadas ao longo do Programa, que deve ter duração de 12 meses a partir de março de 2021.

O Programa Já É: Educação para Equidade Racial, é para jovens de ambos os sexos, mas priorizam jovens de sexo masculino, jovens transsexuais, jovens mães, jovens que tenham cumprido medidas socioeducativas, e jovens que residem em bairros, territórios ou comunidades periféricas.

Como descrito no edital, a segunda etapa de seleção será classificatória e acontecerá no período de 05 de outubro a 10 de novembro (entrevista individual, realizada em ambiente virtual, por profissionais especializados). Todas as pessoas serão contactadas por e-mail para o agendamento das entrevistas individuais. Fiquem de olho em seus e-mails.

Confira as 211 pessoas selecionadas para próxima etapa do processo seletivo do programa.

Nome Completo Cidade/Município
1 – Adrian Silva de Jesus  São Paulo
2 – Agatha Endy Mendes do Rosario Taboão da Serra
3 – Alan David Vieira Hildebrando  São Paulo
4 – Alice Silva Gomes São Paulo
5 – Alline Castro Caieiras
6 – Ana Aparecida Rodrigues da Silva Osasco
7 – Ana Beatriz da Cruz Santos Souza  Taboão da Serra 
8 – Ana Claudia Rocha de Souza São Paulo
9 – Ana Júlia Melo de Lucas  São Paulo
10 – Ana Maria Silva Oliveira São Paulo
11 – Anderson Costa da Silva São Paulo
12 – Andressa Ferreira da Silva São Paulo
13 – Andressa Furtado da Silva  São Paulo
14 – Ângela Ferreira da Silva São Paulo
15 – Anna Beatriz da Silva Garcia São Paulo
16 – Antônio Gustavo Ribeiro da Silva São Paulo
17 – Any Elisa Peixoto Cirino dos Santos São Paulo
18 – Aretha Victoria Ramos dos Santos  São Paulo
19 – Ariane Pereira da Silva Juquitiba 
20 – Barbara Oliveira Guimaraes dos Santos São Paulo
21 – Barbara Thayna de Castro Barboza Silva São Paulo
22 – Beatriz Moreira Passos da Silva São Paulo
23 – Beatriz Oliveira Mendes Taboão da Serra
24 – Beatriz Pereira de Souza São Paulo
25 – Beatriz Sampaio do Nascimento São Caetano do Sul
26 – Bianca Braz de Lima Taboão da Serra
27 – Bianca Paixao Silva  São Paulo
28 – Bianca Silva Alves  São Paulo
29 – Breno Oliveira Ribeiro São Paulo
30 – Bruna Afonso de Oliveira  São Bernardo do Campo
31 – Bruna Cypriano da Silva Pacheco São Paulo
32 – Bruno Aparecido Justino Conceição São Paulo
33 – Camila Carvalho Santos São Paulo
34 – Carlos Eduardo de Castro Cerqueira  São Paulo
35 – Caroline Cristina Santos Gino São Paulo
36 – Caroline Vitória Rocha dos Santos São Paulo
37 – Celine Alves dos Santos  Embu das Artes 
38 – César Augusto da Silva Rocha São Paulo
39 – Cherisch Dantas Invangelho São Paulo
40 – Clarissa Beatriz Da Costa Bulling São Paulo
41 – Daniel da Rosa Tandu  São Paulo
42 – Deáwilla Oliveira de Souza São Paulo
43 – Eduardo Silva de Souza São Paulo
44 – Elen Felix dos Santos  São Paulo
45 – Eloí Gabriela Carvalho Mello Firmiano  São Paulo
46 – Emily Tauany Souza Andrade Pereira São Paulo
47 – Érica Martins Marques São Paulo
48 – Erick dos Santos Rodrigues São Paulo
49 – Eva Mayra Vulcão Dantas de Feitosa  São Paulo
50 – Ewerton de Jesus Lima São Paulo
51 – Exaucee Cathy Kalambay São Paulo
52 – Felipe Marinho de Jesus Souza São Paulo
53 – Felipe Marino de Souza São Paulo
54 – Fernanda Ferreira dos Santos São Paulo
55 – Flávia Martins de Santana São Paulo
56 – Flávio Luiz Ferreira Pedroso  São Paulo
57 – Gabriel Lima Viana Silva São Paulo
58 – Gabriel Tavares de Melo da Cruz  São Paulo
59 – Gabriela da Silva Santana  São Paulo
60 – Gabriela de Sousa Monteiro  Santo André
61 – Gabriella Beltrão Martins Motta  São Paulo
62 – Gabriella Santos Sampaio Silva São Paulo
63 – Gabrielly Maria Silva São Paulo
64 – Geovana de Carvalho Teles de Anorim São Paulo
65 – Geovanna da Silva Melo Osasco
66 – Giovana clemente da Silva São Paulo
67 – Giovanna Caroline Alves Ferreira  Embu das Artes 
68 – Giovanna Oliveira Correia da Silva Franco da Rocha
69 – Giovanna Vitória Dos Santos Xavier São Paulo
70 – Gizele Lucas  São Paulo
71 – Guilherme Augusto da Silva São Paulo
72 – Guilherme Dias da Silva  São Paulo
73 – Guilherme Henrique de Andrade Leme Diadema
74 – Gustavo de Jesus Oliveira São Paulo
75 – Gustavo de Jesus Soares São Paulo
76 – Gustavo Ferreira da Costa  São Paulo
77 – Gustavo Moraes da Silva  Diadema
78 – Heloísa Cristina Rosendo Cardoso São Paulo
79 – Heloísa de Sena Muniz Campos São Paulo
80 – Henrique Araújo de Oliveira  São Paulo
81 – Ikaro ricardo sampaio Cruz Vieira  Francisco Morato 
82 – Ione Vitor Mendes São Paulo
83 – Isabela Queiroz da Silva  São Paulo
84 – Isabella Alacantara dos Santos São Paulo
85 – Isabella Amaro da Costa Oliveira São Paulo
86 – Isaque Rodrigues de Oliveira São Paulo
87 – Izabel dos Santos Neimeir Osasco
88 – Jaini Da Silva Macedo  São Paulo
89 – Jakeline Souza Lima Itapevi
90 – Janaina Santana Silva  São Paulo
91 – Jaqueline Aparecida Becca São Paulo
92 – Jefferson Gervaes Barbosa São Paulo
93 – Jefferson Luis Ramos do Nascimento Barueri
94 – Jeniffer Vitor Rodrigues da silva  São Paulo
95 – Jenyfer Aparecida Nunes Ferreira São Paulo
96 – Jessica Santos Paixao  São Paulo
97 – João Gabriel Ribeiro dos Santos  São Paulo
98 – João Pedro Araújo da Silva  São Paulo
99 – João Victor dos Santos Bezerra São Paulo
100 – Joselaine Romão Soares Carapicuíba
101 – Joyce Cristina Nogueira São Paulo
102 – Juan Estelino do Nascimento Francisco Morato
103 – Júlia Amorim Souto Osasco 
104 – Julia Camile da Silva Santos São Paulo
105 – Julia Firmino Gabriel  Barueri 
106 – Julia Gomes Mauá 
107 – Juliana Daniela Barbosa São Paulo
108 – Juliana Martins Barbosa  Cotia
109 – Kairo Ilace Gonçalves Taboão da Serra
110 – Karina Leal de Souza São Paulo
111 – Karine Lopes dos Santos São Paulo
112 – Katheryn Firme de Souza  São Paulo
113 – Kathleen Cristina Furtado do Amaral  São Paulo
114 – Kauan Michael Soares Amancio São Paulo
115 – Kenya Cristina Santana Pereira  São Paulo
116 – Kerollyn Silva Alves  São Paulo
117 – Ketlen Leandra Carvalho São Paulo
118 – Lais Alexandra Urbano Xavier São Paulo
119 – Laiza Catarine Ferreira Diniz São Paulo
120 – Larissa Araujo Aniceto  São Paulo
121 – Larissa Bento da Silva São Paulo
122 – Larissa de Lima Gonçalves São Paulo
123 – Larissa Lima Ferreira São Paulo
124 – Larissa Vitória de Moura Jacinto  São Paulo
125 – Laryssa Lorrany Gonçalves de Oliveira Ferraz de Vasconcelos
126 – Laura Tatiana Alves Mendonça Prates São Paulo
127 – Laysa Stefani de Almeida Brito Diadema
128 – Lázaro Pereira Almeida  Ferraz de Vasconcelos
129 – Leandro Gomes de Oliveira  São Paulo
130 – Leticia Raquel Leme de Jesus São Paulo
131 – Leticia Santana Costa Taboão da Serra
132 – Livia Ferreira Estanislau São Paulo
133 – Luana Santana Moreira São Paulo
134 – Luana Silva Santos São Paulo
135 – Lucas Dantas dos Santos São Paulo
136 – Lucca Catherine Ferreira dos Santos São Paulo
137 – Luiz Benedito Ferreira de Oliveira Mogi das Cruzes
138 – Luiz Felipe Motta da Silva São Paulo
139 – Luiz Fernando Muniz Oliveira  São Paulo
140 – Luiz Leonardo Barbosa Junior Ribeirão Pires
141 – Luiz Vinicius Reis Silva São Paulo
142 – Luíza Firmino Gabriel Barueri
143 – Malcolm da Silva Barreto São Paulo
144 – Marcos Agostinho da Silva Filho Jandira
145 – Maria Eduarda da Silva Souza São Paulo
146 – Maria Taís Borges   São Paulo
147 – Mariana Soares Santos de Souza São Paulo
148 – Mateus Gomes dos Santos São Paulo
149 – Matheus Monteiro de Almeida Rodrigues dos Santos São Paulo
150 – Maura Maria de Araujo Ramos São Paulo
151 – Max Juan Oliveira Santos São Paulo
152 – Mayara Maria Malta São Paulo
153 – Mayza Silva Dias Carapicuíba
154 – Melissa de Jesus Calixto Costa São Paulo
155 – Micheli Karoline da Silva Santos  São Paulo
156 – Michelle Vitoria Ramos de Jesus São Paulo
157 – Murilo Alves de Oliveira São Paulo
158 – Namybia Ayara Oliveira Goes São Paulo
159 – Naomi Brito  São Paulo
160 – Naomi Rosa de Moraes Joaquim São Paulo
161 – Natália de Oliveira Costa São Paulo
162 – Natalia dos Anjos Oliveira  São Paulo
163 – Natalini santos de Jesus  São Paulo
164 – Natan Conceição da Silva Santos  São Paulo
165 – Natanael Teodoro dos Santos  São Paulo
166 – Nayara Silva de Oliveira Osasco 
167 – Nicholas Welington Crisologo Gonçalves São Paulo
168 – Nicoly Tomé de Freitas São Paulo
169 – Paulo dos Santos Sousa  São Paulo
170 – Paulo Vico Tavares de Oliveira Taboão da Serra
171 – Pedro Coriolano São Paulo
172 – Pedro Henrique Santos de Oliveira  São Paulo
173 – Pedro Lucas Sabino Marcello Mauá
174 – Pedro Pires Soares São Paulo
175 – Pietra Aparecida Ferreira de Oliveira  São Paulo
176 – Pietra Isabelle dos Reis  São Paulo
177 – Rafaela dos Santos  São Paulo
178 – Rafaela Gonsalez Campos São Paulo
179 – Raphaela dos Santos Moura  São Paulo
180 – Raquel Pinheiro de Carvalho São Paulo
181 – Rayane Jesus Santos Embu das Artes
182 – Rayanne Caetano da Silva São Paulo
183 – Rebeca Borges de Lima Silva São Paulo
184 – Rhasna Neves Ferreira  São Paulo
185 – Rubianne Yasmini de Paula Araujo São Paulo
186 – Samirat Silva Balogun Diadema
187 – Susana Joyce de Souza  São Paulo
188 – Tallita Soares de Andrade Diadema
189 – Taluma Gabriely Sousa Ferreira São Paulo
190 – Taynara Silva Santos São Paulo
191 – Thaina Pereira Souza São Paulo
192 – Thaís Lopes de Souza Embu das Artes
193 – Thais Santina Paulino Magalhaes  Santo André 
194 – Thais Sousa Silva São Paulo
195 – Thaís Vieira Costa São Paulo
196 – Thatyany Mayse Nunes de Jesus São Paulo
197 – Thauany Christina Gabriel Aniceto de Souza São Paulo
198 – Thiago Nery da Silva São Paulo
199 – Valdeir Elias Theodoro São Paulo
200 – Vanessa da Silva Souza  São Paulo
201 – Victor dos Passos Moreira Taboão da Serra
202 – Vinicios Gabriel Salatiel São Paulo
203 – Vinicius  Marques Carneiro Perus 
204 – Vinicius Ribeiro da Silva São Paulo
205 – Vinicius Rodrigues Muniz  São Paulo
206 – Vitória de Jesus Damasceno. Taboão da Serra 
207 – Vitoria Nunes Martins São Paulo
208 – Wellington Marcelino Piropo Jandira 
209 – Wendel Coelho de Aquino São Paulo
210 – Yakini Liberto Alves de Souza  São Paulo
211 – Yasmim Fernandes Marciano São Paulo

 

Vozes que transformam

Fazer ecoar as falas das mulheres negras e dar representatividade para elas no ambiente político e em toda a sociedade. Esse é o foco  destas duas iniciativas empreendidas por organizações apoiadas pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, que é apoiado pelo Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford, Open Society Foundations e Fundação Kellogg.

Por meio do Programa, o Fundo Baobá oferecerá apoio financeiro, técnico e institucional a organizações da sociedade civil, grupos e coletivos liderados por mulheres negras. Acompanhe essas trajetórias cheias de emoção.

Romper as fronteiras impostas 

O coletivo Mulheres Negras Decidem nasceu há quase dois anos, a partir do engajamento de cinco mulheres (Juliana Marques, Ana Carolina Lourenço, Diana Mendes, Lorena Pereira e Gabrieli Roza). A ideia era organizar um espaço em que pudessem expor suas ideias e construir um ambiente político menos hostil para a mulher negra. O passo inicial foi a participação no Programa Minas de Dados, realizado em 2018. A partir dessa experiência, perceberam qual deveria ser o real propósito do coletivo dali em diante: dar voz e representatividade política à mulher negra. 

O assassinato da vereadora Marielle Franco, em março do mesmo ano, reforçou esse objetivo. “Nossa missão é qualificar e promover a agenda política liderada por mulheres negras na política institucional”, afirma Juliana Marques. Com o seu trabalho, elas querem não apenas dar visibilidade, mas impulsionar a atuação no meio político – em que homens brancos ainda são a maioria esmagadora.

Mulheres Negras Decidem – Foto: Wendy Andrade

Foi a partir do amadurecimento do grupo e do desejo de expandir, que o coletivo se inscreveu no Programa Marielle Franco com a iniciativa: “Um novo projeto de democracia”. Quando começou, as articuladoras estavam concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Agora, estão em mais 14 estados (AL, AM, BA, DF, ES, MA, MG, PB, PE, PI, PR, RO, SC e TO). 

Nestes 18 meses de existência, o coletivo já realizou ciclos de formação política, em 2018, nos quais foram discutidas regras do jogo eleitoral, e reconstruiu a participação de diversas mulheres negras na política, bem como os sistemas políticos que serviram de pano de fundo para as candidaturas. No ano passado, realizaram o Fórum Mulheres Negras Decidem para discutir a política brasileira sob um olhar antirracista e feminista.

“No contexto da pandemia, inspiradas pela intensa mobilização de mulheres negras para mitigar os impactos negativos em suas comunidades, realizamos também a pesquisa Para Onde Vamos?. Em parceria com o Instituto Marielle Franco, acessamos 245 mulheres negras de todo o território brasileiro e apresentamos um panorama do ativismo no Brasil”.  O apoio do Fundo Baobá permitiu ter condições materiais para fortalecer a capacidade de liderança com foco na governança e na sustentabilidade do coletivo. “Além disso, colaborou para nossa visibilidade dentro do movimento de mulheres negras e para a ampliação do alcance da nossa pauta.”

Espaços de troca, acolhimento e denúncia

O coletivo Marcha das Mulheres Negras de São Paulo foi criado a partir do processo de construção da Marcha Nacional das Mulheres Negras, que aconteceu em Brasília, em 18 de novembro de 2015. Desse processo, o núcleo que construiu a Marcha Nacional deu continuidade às ações e, em 2016, iniciou a Marcha em São Paulo. “Nosso objetivo é promover discussões sobre  a opressão e violência presentes nas estruturas políticas, sociais e econômicas do país  e, partir daí, traçar estratégias que, além de cobrar ações efetivas por parte do Estado, permitissem que a Marcha de Mulheres se consolidasse como canal de apoio a denúncias”, explica Andréia Alves.

A ideia é que, além de acolhidas, elas tenham formação política a partir de uma perspectiva negra, periférica e de mulheres. O coletivo faz questão de afirmar que o grupo é um espaço plural e diversificado, multirreligioso, não governamental e multipartidário, que articula, de forma descentralizada, e trabalha para o fortalecimento da democracia. “Buscamos, de forma permanente, estabelecer alianças e engajamento nas lutas sociais, fortalecendo a luta contra o racismo, o patriarcalismo, a lesbofobia, a bifobia, a transfobia, o classismo e todas as formas de preconceito e discriminação”, diz. O grupo é formado por mulheres negras  idosas, jovens, lésbicas, bissexuais, transexuais, com deficiência, das cidades e das periferias. “Mulheres múltiplas na existência e na resistência”, diz Andréia.

Marcha das Mulheres Negras de São Paulo

O coletivo viu no edital do Programa Marielle Franco a chance de capacitar essas militantes comunitárias, acadêmicas, independentes, estudantes e trabalhadoras de diversas áreas. “São mulheres brilhantes que, raramente, se enxergam como lideranças, embora sejam mais do que ninguém”, revela. A capacitação é o meio de romper com o racismo e o sexismo estruturais, que impedem a entrada e a permanência dessas mulheres em espaços de poder. “Quando detectamos a possibilidade de proporcionar formação política e técnica para mulheres negras, não perdemos tempo”, confirma.

O projeto inscrito –Aquilombar e Ampliar Universos – formação política para mulheres negras” – foi selecionado. Nestes seis meses iniciais de apoio, o grupo conseguiu não apenas a capacitar essas mulheres, mas estruturar a área de comunicação. Andréia destaca que o apoio do Fundo Baobá – da assessoria técnica qualificada ao suporte financeiro – permitiu colocar em prática ações planejadas, conhecer e criar redes com outros grupos, organizações e coletivos de mulheres negras em todo Brasil. Além disso, vai possibilitar colocar o site no ar e também criar conteúdos para  um canal no YouTube para divulgar, por exemplo, a primeira atividade de formação política.

Todos os anos, no dia 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Afro-latinoamericana e Caribenha e Dia Nacional de Teresa de Benguela – o grupo reúne milhares de pessoas nas ruas da capital paulista, em marcha contra o racismo, o machismo e a lesbotransfobia, entre outras formas de opressão. Este ano, por conta da pandemia, as atividades foram on-line, com ajuda das tecnologias digitais e da internet. “Nossa marcha on-line contou com uma programação ao vivo, além de transmissões de intervenções de rua, como faixas e videomap (projeção em edifícios). Os conteúdos gerados foram transmitidos em nossas redes sociais (youtube, facebook e instagram), em perfis de artistas e digital influencers que são parceiros”, relembra. Além de mais reportagens na mídia, aumentaram de 1700 para 4000 os seguidores no instagram.

Por ser on-line, a marcha teve a participação também de mulheres com deficiência. Segundo Andréia, elas contribuíram para melhorar a comunicação, incluindo as hashtags de acessibilidade  #paratodoslerem e #paracegoler e também a tradução em libras na maioria das lives. “Foi um processo ainda inicial, mas temos vontade e disposição para fazer e, mais do que isso, tomamos para nós a responsabilidade política de tornar a MNSP um espaço para todas as mulheres negras e suas especificidades”, afirma.

 

Vozes que transformam

Resgate da memória e o direito de ser quem você quiser: esse é o foco  destas duas iniciativas empreendidas por organizações apoiadas pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco,  que é apoiado pelo Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford, Open Society Foundations e Fundação Kellogg.

Por meio do Programa, o Fundo Baobá oferecerá apoio financeiro, técnico e institucional a organizações da sociedade civil, grupos e coletivos liderados por mulheres negras e lideranças femininas negras. 

Igualdade e respeito como princípios de vida

Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria (Paraíba) começou seu trabalho em novembro de 2002, com o objetivo de combater a violência e o preconceito contra essas mulheres. Ancoradas no movimento gay, sentiam que suas pautas eram silenciadas e, para agravar a situação, sofriam violência por conta do machismo e da lesbofobia praticados ali. “Precisávamos de iniciativas que nos representassem além do HIV/Aids, resgatassem nossa cidadania e promovessem a autoestima dessas mulheres”, explica Cryss Pereira. O resultado foi a formação do coletivo.

Em 2019, quando foi aberto o edital para o Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá,  o coletivo percebeu que era uma ótima oportunidade para se organizar e começar a expandir discussões e formações. O projeto inscrito –  “Equidade sim! Racismo não!” – foi um dos selecionados e permitiu dar mais visibilidade a elas, além de impulsionar e fortalecer as lideranças internas, especialmente nestes meses de pandemia, em que as atividades se concentraram no mundo virtual.

Antes da Covid-19, entre as ações que já desenvolveram, as que citam como mais relevantes são “Goleando contra LGBTfobia”, um torneio de futsal feminino no qual fortalecem as jovens para enfrentar a violência e o preconceito, e “Eu também sou cidadã”, projeto voltado para o empoderamento das mulheres privadas de liberdade.

Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria (Paraíba)

Olhar para a questão da violência contra a mulher, aliás, é um tema urgente e sempre presente para elas – sobretudo em tempos de pandemia, com o aumento dos casos. “Mas visualizamos também um avanço na disseminação de informações on-line, um maior envolvimento quanto às denúncias e quanto à propagação de postagens encorajadoras e empoderadoras para as mulheres”, confirma Cryss Pereira.

Segundo ela, o apoio do Fundo Baobá permitiu aprofundar o conhecimento quanto à própria história dessas mulheres, além de dar condições de ocupar as mídias sociais de forma qualificada, garantindo espaços de discussão. “Ter a oportunidade de fortalecer ativistas financeiramente trouxe para o grupo duas designers gráficas, que estão encarregadas da produção das peças virtuais. Além disso, elas também são ativistas. Portanto, é um sonho ter pessoas qualificadas na nossa comunicação”, afirma. Foi justamente no meio virtual, com a profissionalização da comunicação institucional, que conseguiram seguir com as atividades. 

Uma das mais recentes foi a live-show da cantora Bia Ferreira, em comemoração ao 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A artista possui forte atuação por meio da sua música contra o racismo e a favor dos direitos LGBT. O show,  uma construção coletiva, em parceria com a Secretaria da Mulher e Diversidade Humana e a Fundação Espaço Cultural (Funesc), ambas da Paraíba, foi ao ar no instagram do Maria Quitéria. 

Da moda para o jornalismo pela causa

O portal Blogueiras Negras se materializa a partir da Blogagem Coletiva Mulher Negra, em 2013. Na época, um grupo de mulheres negras organizadas em diferentes espaços on-line resolveu se reunir para escrever sobre a intersecção racismo e feminismo. “Compreendemos que era um território que esse grupo poderia explorar coletivamente”, relembra Larissa Santiago. A pergunta que deu início a esse processo foi: “onde estão as blogueiras negras de moda?”, publicada no blog Tempo Fashion. Provocadas, resolveram reunir demandas, temas e denúncias no endereço blogueirasnegras.wordpress.com e, mais tarde, no blogueirasnegras.org.  

O início foi difícil e elas quase desistiram, depois de ficar três meses fora do ar, em 2019. Mas foi aí que surgiu a possibilidade de fazer a inscrição no Programa Marielle Franco. “Foi um momento crucial. Resolvemos planejar como manter a memória. Assim, nos inscrevemos no edital na esperança de consolidar o sonho de gerir e manter a comunicação como o legado das mulheres negras”, revela Larissa Santiago.

O projeto inscrito – “Autonomia e Memória, consolidando o legado da comunicação no movimento de mulheres negras no Brasil” – foi selecionado e ajudou a fortalecer a capacidade interna de organização e sua gestão, consolidando o protagonismo do coletivo na comunicação do movimento de mulheres negras. Parte desse trabalho consiste na manutenção de uma plataforma com mais de 1300 textos, a maioria inédita e assinada por 400 autores. 

Da esquerda para a direita: Larissa Santiago, Charô Nunes (ao centro) e Viviane Gomes, na primeira vez em que se encontraram para dar início ao projeto Blogueiras Negras

Nesse processo e respondendo às demandas que surgiram, criaram um podcast para dar mais visibilidade aos efeitos da Covid-19 nas periferias. “Nossos posts sobre a infeliz morte de crianças negras aumentou significativamente nossa visibilidade.  Temos feito lives, inclusive internacionais, sobre cuidados digitais e outras áreas programáticas. Vale  acrescentar que reforçamos a comunicação com as profissionais de redes sociais com objetivo de  ampliar nossa presença e levar nossa experiência a um número maior de pessoas”, completa Charô Nunes, também do coletivo. 

Nestes anos de existência, o Blogueiras Negras desenvolveu várias trocas e aprendizados. Por conta disso, reconhecem que houve avanços para a mulher negra, mas ainda falta muito para equiparar condições de vida, empregos, saúde. “É notório perceber alguns avanços, apesar do contexto atual, mas esses números ainda são insuficientes. Precisamos de moradia, comida e estarmos nos espaços em que poderemos de fato tomar decisões para garantir, minimamente, o que está na constituição”, finaliza Viviane Gomes.

O apoio do Fundo Baobá permitiu dedicar tempo não apenas para pensar expansão, mas perceber potencialidades e desafios, além de incrementar áreas, como a comunicação nas redes sociais, o podcast e novas parcerias – especialmente em tempos de pandemia, em que, respeitando o distanciamento, elas tiveram que suspender as atividades presenciais. E, ainda assim, “propagar vozes das diferentes mulheres negras militantes”, como diz Charô Nunes.

Chamada para artigos, lançada pelo Fundo Baobá, tem como foco ações de filantropia pós-pandemia

O Fundo Baobá para Equidade Racial lançou, no início de agosto, uma chamada para artigos inéditos que contribuam para aprimorar a ação de filantropia para equidade racial no Brasil pós-pandemia da Covid-19. A iniciativa integra o projeto “Consolidando Capacidades e Ampliando Fronteiras”, em parceria com a Fundação Ford, e tem como objetivo orientar as doações que serão realizadas pelo Fundo Baobá para fortalecer a atuação de organizações e lideranças negras e, ao mesmo tempo, direcionar a captação de recursos.

As inscrições prosseguem até o dia 12 de outubro, às 23h59, aqui no site. O edital é aberto à comunidade acadêmica. O/a autor/a principal precisa ser especialista, ter título de mestrado ou doutorado com produção acadêmica concernentes às áreas priorizadas pela instituição. Serão selecionados até 20 artigos, que receberão apoio de R$ 2,5 mil cada, e farão parte de uma publicação bilíngue a ser lançada em 2021 ano em que o Fundo Baobá completa uma década de atuação.

Rebecca Reichmann Tavares, Presidente & CEO da Brazil Foundation e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, explica que iniciativas assim são importantes porque vão ajudar a entender os efeitos da pandemia e, assim, apoiar as comunidades nessa nova fase ou no novo normal, como está sendo designada a fase posterior à emergência sanitária da Covid-19.

Além das mortes, que não foram poucas, a pandemia imprimiu nova ordem econômica e social. “Temos visto famílias  devastadas, sofrendo com a perda de vidas, desemprego e fome”, disse.  “Empresas que suspenderam atividades,  crianças sem oportunidades educacionais, e a exclusão racial e a discriminação agravando os impactos nesses locais.”

Rebecca Reichmann Tavares é presidente & CEO da Brazil Foundation e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

Ela explica que, diante desse quadro, quem atua na filantropia deve basear decisões em evidências. “Temos que entender que, além da estratificação socioeconômica, os negros, mesmo em níveis semelhantes de renda e educação com suas contrapartidas de pele mais clara, sofrem os piores efeitos da pandemia. Em parte, é porque cuidam dos outros, usam transporte público e mantêm a cadeia de produção”, afirma.

Como se não bastasse, a população negra, com mais frequência vive em espaços que estão superlotados e sem saneamento básico, o que não apenas fere a dignidade humana, mas prejudica sua segurança física em tempos de pandemia. “As evidências trazidas pelos artigos, as diferentes leituras sobre realidades, necessidades e possíveis soluções, aliadas à escuta ativa que temos realizado junto aos grupos, coletivos e organizações negras que apoiamos, serão cruciais para aprimorar nossa atuação no campo da filantropia por justiça social e também para iluminar o ecossistema filantrópico em geral. Queremos engajar outros atores, trazer mais gente para  apoiar com recursos, a causa da equidade racial para a população negra”, explica Fernanda Lopes, diretora de programa do Fundo Baobá para Equidade Racial.

Agosto negro e o cuidado com a saúde mental

No mês passado, foi celebrado o “Agosto Negro”. Sua origem foi a luta do movimento negro nos Estados Unidos, na década de 1970, após a prisão e morte de George Lester Jackson, em 21 de agosto de 1971, na prisão de San Quentin, na Califórnia.  Ele foi preso e condenado à prisão perpétua depois de ter roubado 70 dólares em um posto de gasolina. 

Durante o tempo em que permaneceu preso, estudou economia política e, ao mesmo tempo, se destacou como líder da resistência negra – o que levou ao seu assassinato por um agente penitenciário. Sua morte fez com que milhares de pessoas fossem às ruas, clamando pelo fim do racismo e do extermínio da população negra. Quatro décadas depois, o povo negro continua nas ruas, mesmo diante de uma pandemia mundial,  afirmando que vidas negras importam, sim!

A luta antirracista requer resistência, é verdade, mas também demanda da sociedade uma análise aprofundada dos impactos do racismo em todas as fases da vida de suas vítimas,  que sofrem com o preconceito, a discriminação e desenvolvem uma série de traumas. Discutir o racismo e as suas consequências, além de frisar a importância dos cuidados com a saúde mental, é de extrema importância para a promoção da equidade racial. Iniciativas como a da Articulação de Psicólogos Negros, que dedica um mês à saúde mental e à luta antirracista, são fundamentais.

Apoiado pelo Fundo Baobá para Equidade Racial no edital de doações emergenciais no combate ao Coronavírus, o psicanalista, doutorando da PUC-SP e membro do Coletivo Margens Clínicas, Kwame Yonatan Poli dos Santos, organizou a cartilha “Saúde mental, relações raciais e Covid-19”, em parceria com a psicanalista Laura Lanari. A cartilha contém cinco textos que pretende dialogar com a população negra sobre os problemas relacionados à vivência do racismo. Confira sua entrevista: 

De qual forma o racismo impacta a saúde mental das pessoas negras?
Os efeitos das práticas do racismo na subjetividade devem sempre ser escutados na sua singularidade ou podemos incorrer no erro de universalizar que toda população negra se afeta, e responde da mesma maneira, com as práticas de racismo. Nossa aposta deve ser a construção de saídas singulares, coletivas ou individuais. No entanto,  se entendermos que o racismo é um dado estruturante das relações,  compreenderemos que é um sistema que estrutura o laço social, assim sendo,  temos que pensar como esse sistema atua em nós e como respondemos a ele. Isso significa que algumas pessoas e grupos construirão saídas mais ou menos a reexistir, ou seja,  afirmar a sua existência na sua diferença diante dessa ferida colonial que sangra. É importante mencionar que o racismo estrutura o campo das relações. E subjetiva tanto as pessoas negras quanto as brancas, pois não é possível silenciar, discriminar, humilhar, violentar, matar sem se tornar monstruoso, isto é,  desumanizar-se também nesse processo. Por fim,  possuímos indicadores no âmbito da saúde mental de que o racismo produz um sofrimento psíquico intenso em uma grande parcela da população negra, produzindo efeitos no horizonte do desejo. Cito o exemplo  dos dados de 2016 do Ministério da Saúde que mostram uma prevalência do aumento do suicídio em jovens negros, isso nos mostra uma face do genocídio .

Kwame Yonatan Poli dos Santos

O racismo sofrido durante a infância e adolescência interfere na vida adulta e nas relações pessoais do negro?
Como disse anteriormente,  o racismo é um dado estruturante das relações e pode deixar marcas no campo do desejo de modo a violentar, desde muito, a infância a população negra. Portanto, escuto muitas mulheres negras  e homens negros na clínica relatarem vivências violentíssimas na escola  e até mesmo na família, que deixaram sequelas profundas na forma de se posicionar diante do mundo até a vida adulta, chegando a internalizar como mecanismo de sobrevivência,  por exemplo:  adaptar-se o tempo todo para  ser aceito e/ou reconhecido por pessoas brancas. Como diz a psicanalista Neusa Santos Sousa, autora da obra Tornar-se Negro (1983), ser negro é estar submetido a uma dupla injunção: de odiar sua negritude (cabelo, história etc) e almejar os ideais da branquitude. Logo, é  preciso ressignificar constantemente a vivência da negritude de maneira a produzir linhas de singularização, da experiência de enegre-ser produzindo outros sentidos para além da captura binária resistência/sofrimento.

Como é falar da importância da saúde mental, sem demagogia, considerando as desigualdades sociais, o genocídio dos jovens negros, o encarceramento em massa da população negra, entre outros problemas?
É preciso compreender o genocídio de maneira ampla, isto é, para além daquele policial que atira ou do que enfia a faca. Existem os amoladores de faca (ideia do professor da UFRJ Luís Antônio Baptista) – ‘antes do punhal ser cravado nas costas do mestre Moa do Katende (capoeirista, compositor, percussionista, artesão e educador, assassinado em outubro de 2018)  existiram aqueles que amolaram o punhal, prepararam o terreno, autorizando a morte, enfraquecendo a vítima antes do golpe mortal. Nessa perspectiva, antes de o jovem negro ser preso, assassinado ou morrer de frio na rua, existe uma série de pessoas e instituições que amolaram o punhal. Logo, o genocídio é uma trama de poder que mata aos poucos. O genocídio também se refere aquilo que nos mata aos poucos  ao sequestrar o futuro daqueles que ainda nem viraram adultos. Quando apontamos os dados sobre prevalência do suicídio dos jovens negros,  essa é a ponta do iceberg, a parte imersa conta processos de subjetivação coloniais que sequestram a potência,  aniquilam as perspectivas de sonhar um futuro. Uma das piores formas de miséria humana é a de não poder sonhar mais. O cuidado em saúde mental deve produzir sonhos, isto é, por meio dele deve-se investir em estratégias de produção de energia vital,  revitalizando esse sujeito para que possa protagonizar sua vida.

Em junho de 2020, com o apoio do edital de doações emergenciais do Fundo Baobá para Equidade Racial, e em parceria com o coletivo Margens Clínicas, você, ao lado da Laura Lanari, organizou a cartilha “Saúde Mental, Relações Raciais e Covid-19”, fale sobre esse trabalho.
A cartilha é fruto de muitas mãos. Ela nasce em 2016 com um convite para realizar oficinas de relações raciais e saúde mental em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da zona sul de São Paulo. À medida que ia passando por outros Caps ia percebendo a dimensão racial como uma chave de análise da instituição. Então, por exemplo, lembro de uma equipe, majoritariamente branca, que não se sentia à vontade em fazer roda com os usuários e, consequentemente,  tinha várias dificuldades de se enxergar racializada. Com a pandemia temos a descaracterização dos serviços, mas também um ‘relançar dos dados’, a oportunidade dos Caps se reinventarem e fazerem a rede a partir da transversalização da temática racial. A cartilha traz a proposta do Aquilombamento da Rede Sul, em São Paulo (SP), que se reformulou com a pandemia para o formato on-line. Nessa perspectiva, o quilombo é um mundo sem os muros da colonialidade. Aquilombamento é a construção do comum que toca o plano singular, uma reorientação vital,  a partir da perspectiva  interseccional de uma analítica das relações de poder e seus efeitos no corpo. A cartilha tem cinco textos que versam sobre saúde mental, Covid-19, relações raciais,  psicanálise e saúde pública.

Cartilha Saúde Mental, Relações Raciais e Covid-19

Leia a cartilha “Saúde Mental, Relações Raciais e Covid-19” aqui

Fundo Baobá na imprensa em agosto

Durante o Agosto Negro, o Fundo Baobá para Equidade Racial divulgou dois editais na imprensa. O Já É: Educação para Equidade Racial foi destaque no Minuto Futura, do Canal Futura, em portais de mídia negra, como Mundo Negro, e também no site da Escola Aberta do Terceiro Setor.

O edital de chamada para artigos sobre promoção da equidade racial no Brasil no contexto pós-pandemia, lançado no dia 6 de agosto, foi citado na Revista Afirmativa, e nos sites de mídia negra Notícia Preta e Alma Preta.

A diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, concedeu entrevista ao jornal O Globo, para uma reportagem intitulada “Filantropia negra se volta para a inclusão social contra o racismo persistente e estrutural”. Na ocasião, Fernanda relembrou o edital de doações emergenciais no combate ao coronavírus que, em apenas 12 dias, recebeu mais de mil propostas. “A pandemia trouxe uma vivência exacerbada das desigualdades históricas e do racismo estrutural. Atuar captando fundos contra o racismo, num país que tem dificuldade em reconhecê-lo como operante na definição de todo o tecido social, é desafiador. Mas a população negra é uma potência e preservar suas vidas é preservar um ativo de transformação”, disse.

No dia 18 de agosto, o Jornal Nacional exibiu reportagem na qual citava as dificuldades dos empreendedores negros durante a quarentena. Segundo dados do Sebrae, 46% estão com dívidas em atraso, enquanto 61% dos que buscaram empréstimo não conseguiram. Na mesma abordagem foi apresentado o trabalho da Coalizão Editodos que, em parceria com o Fundo Baobá, vai apoiar até 500 empreendedores no âmbito do programa Emergências Econômicas. 

Veja aqui

Fundo Baobá participa de lives sobre filantropia colaborativa, igualdade racial e fortalecimento do empreendedor negro 

Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá, participou em 4 de agosto do segundo dia do “3º Fórum Negócios de Impacto da Periferia”, organizado pela Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia (ANIP). 

Na companhia de Adriana Barbosa (fundadora da Feira Preta) e Jéssica Rios (Vox Capital), com a mediação de Fabiana Ivo (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia/ ANIP), Selma falou sobre como fortalecer investimentos e prover apoio ao empreendedor negro no campo de negócios de impacto, na perspectiva da equidade.

A diretora-executiva também foi uma das convidadas do ConCEJ 2020 (Congresso Catarinense de Empresários Juniores 2020), que ocorreu em 22 de agosto. Ela participou do debate “Combatendo Desigualdades”, que teve como cerne a igualdade racial, de gênero e para a comunidade LGBT QI+. A mesa virtual também contou com Yuri Trigo, vice-presidente de negócios da Brasil Júnior, e Letícia Medeiros, cofundadora da ONG Elas no Poder.

Por fim, no dia 27, aconteceu o 11º Congresso GIFE/Fronteiras da Ação Coletiva, com o tema Filantropia Colaborativa, e quem representou a organização foi o presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey. Participaram também Denis Minze (Diretor Executivo da Fundação Lemann) e Peggy Saïller (Diretora Executiva da NEF – Network of European Foundation). O evento foi transmitido via Zoom e aprofundou os diferentes formatos de filantropia colaborativa, além de discutir e apontar caminhos e desafios em busca de formas mais articuladas e colaborativas para a mobilização, gestão e alocação de recursos privados para fins públicos.

Confira todas as reportagens de agosto sobre o Fundo Baobá:

Escola Aberta do Terceiro Setor – 04/08

NGOSource – 05/08

Notícia Preta – 15/08

Revista Afirmativa – 15/08

Alma Preta – 17/08

CEERT – 18/08

Jornal Nacional – 18/08

Mundo Negro – 18/08

Canal Futura – 25/08

O Globo – 26/08

Prosas – Edital Chamada para Artigos 

Prosas – Edital Já É 

Perguntas & Respostas – Chamada para Artigos sobre filantropia para promoção da equidade racial no Brasil no contexto pós-pandemia da Covid-19

1 – Como faço para me inscrever?

Basta preencher o formulário que se encontra aqui.

2 – Quem pode se inscrever?

A chamada é aberta a especialistas, mestres e doutores com produção acadêmica concernente às áreas priorizadas pelo Fundo Baobá para os seus investimentos programáticos: educação; população quilombola; juventude negra; racismo religioso; saúde da população negra; masculinidades negras; violência de gênero contra mulheres negras; violência de gênero contra lésbicas, gays, travestis, transsexuais, queers, intersex negrxs; racismo ambiental; violência racial;  população negra, ciência e tecnologia; população negra e desenvolvimento econômico; população negra, comunicação, arte  e memória.

3 – A inscrição precisa ser individual?

Sim, a inscrição é individual, ainda que o artigo seja assinado por mais de uma pessoa. Preferencialmente, a inscrição deve ser feita pelo(a) autor(a) principal. 

4 – Eu ainda não tenho mestrado, mas me especializei em um dos assuntos acima, que foi tema do meu TCC. Posso participar?

Sim, o edital é aberto a especialistas também.

5 – Eu ainda estou fazendo mestrado / doutorado.  Posso participar?

Se o tema de sua tese estiver alinhado a algum dos assuntos sobre os quais este chamado está aberto, sua participação é possível. Porém, é importante deixar claro essa especialização na ficha de inscrição.  

6 – Qual o tamanho do artigo?
Os artigos selecionados devem ter até 20 (vinte) páginas incluindo resumo, referências bibliográficas e anexos (gráficos, tabelas, figuras).  É importante que o artigo seja apresentado com a contagem descrita no formulário de inscrição, para cada uma das seções.

7 – Eu preciso enviar a versão em inglês do artigo também?

Não, a tradução será da responsabilidade do Fundo Baobá.

8 – Até quando posso me inscrever?
Até dia 12 de outubro de 2020, às 23h59.

8 – Quais os critérios de seleção dos artigos?

i)      Estrutura e conteúdo; 

ii)     Contextualização da situação‐problema, bem como a coerência entre os objetivos, a justificativa e a relevância social, além das hipóteses, se for o caso;

iii)    Metodologia do trabalho, verificando se está coerente e adequada com o que foi pretendido no edital e no estudo, e se está com o devido detalhamento para ser reproduzida;

iv)    Resultados adequadamente descritos e de acordo com o que foi coletado e informado na metodologia; 

v)     Uso de gráficos e tabelas facilita ver se há redundância de informações sobre os achados do estudo;

vi)   Discussão coerente e atual e em diálogo com os objetivos propostos e os resultados obtidos;

vii)  Conclusões ou recomendações relevantes para o campo da filantropia por equidade racial e justiça social.  

9 – Quem avaliará meu artigo?
Um grupo de especialistas ad hoc irá analisar todos os artigos e  preparar um parecer consubstanciado. Esse Grupo de Pareceristas será composto por pesquisadores com experiência comprovada na área e que tenham título de doutor por, no mínimo, cinco anos.

10 – No formulário de preenchimento, como eu faço pra saber se eu não ultrapassei o limite de caracteres solicitado?

Pedimos, por gentileza para, fazer um rascunho em word e efetuar todas as edições necessárias nele próprio, incluindo contagem de caracteres. Deixando pra colocar no formulário somente a versão final do texto. 

11 – Os avaliadores poderão pedir ajustes  no meu artigo?

Sim. Nesse caso, serão concedidos 30 dias para os ajustes solicitados.

12 – Como será o apoio do Fundo Baobá ao artigo? 

Os artigos selecionados receberão apoio financeiro de R$ 2,5 mil.

13 – Quando será a data da divulgação da seleção final?

A lista final dos artigos selecionados  será divulgada no site do Fundo Baobá até Baobá até o dia 22 de fevereiro de 2021.

14 – Após terminar o preenchimento eu não recebo um e-mail de confirmação. Como vou saber que meu projeto foi enviado? 

Quando todas as perguntas do formulário são respondidas, deve-se apertar o botão concluído. Neste momento aparece na tela uma mensagem de agradecimento pelo interesse. Ela então deve apertar concluído novamente para que o formulário entre no sistema.

15  – Como fico sabendo se fui selecionado?

A lista final dos artigos selecionados será divulgada no site do Fundo Baobá, que também entrará em contato por e-mail, porém ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE com as pessoas selecionadas. Por isso, é muito importante checar também a caixa de spam do e-mail.

16 – Mas se eu ainda tiver dúvidas, como faço? 

Envie e-mail para duvidaseditais@baoba.org.br

Fundo Baobá faz chamada para artigos que subsidiem a filantropia para promoção da equidade racial no Brasil no contexto pós-pandemia da Covid-19

O Fundo Baobá para Equidade Racial está lançando uma chamada para artigos inéditos que contribuam para aprimorar a ação de filantropia para equidade racial no Brasil pós-pandemia da Covid-19.  A iniciativa, que integra o projeto Consolidando Capacidades e Ampliando Fronteiras, realizado em parceria com a Fundação Ford, visa orientar as doações a serem realizadas pelo Fundo Baobá  com vistas a proporcionar impacto social fortalecendo a atuação de organizações e lideranças negras e, ao mesmo tempo, direcionar a captação. Serão selecionados até 20 artigos, que receberão um apoio de R$ 2,5 mil cada, e que serão reunidos em uma publicação bilíngue a ser lançada em 2021 – ano em que o Fundo Baobá completa uma década de atuação. 

Em 2018, o Fundo Baobá realizou um estudo para mapear, junto a organizações e lideranças do movimento negro brasileiro, temas urgentes e relevantes na atualidade. Em 2019, realizou novo estudo, este envolvendo apenas organizações, grupos e coletivos de mulheres negras, para mapear necessidades e expectativas relacionadas ao fortalecimento de capacidades. Os resultados obtidos foram utilizados para favorecer a tomada de decisões baseadas em evidências – uma das prioridades do Fundo Baobá para dirigir seus investimentos programáticos. Agora, esta chamada visa atualizar as informações em função dos impactos, ainda não totalmente conhecidos, da pandemia da Covid-19.

“Os números da Covid-19 não deixam dúvidas sobre quem são as principais vítimas: ao mesmo tempo em que a pandemia explicitou as consequências do racismo que permeia as estruturas sociais do Brasil, ela também acentuou as desigualdades que marcam nosso país”, destaca Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial. “Com esta chamada, queremos entender esse novo cenário, que acentuou os problemas conhecidos e, agora, traz novos desafios para a promoção da equidade racial e da justiça social”, completa.

A chamada é aberta a especialistas, mestres e doutores com produção acadêmica concernentes às áreas priorizadas pelo Fundo Baobá para os seus investimentos programáticos: educação do ciclo básico à pós-graduação; população quilombola; juventude negra; racismo religioso; saúde da população negra e ciclo de vida; masculinidades negras; violência de gênero contra mulheres negras; violência de gênero contra lésbicas, gays, travestis, transsexuais, queers, intersex negrxs; violência racial: segurança cidadã; racismo ambiental; população negra, ciência e tecnologia; população negra e desenvolvimento econômico; população negra, comunicação e arte; população negra e memória.

As inscrições poderão ser realizadas de 06 de agosto a 12 de outubro de 2020, às 23h59, através deste link. A primeira etapa da seleção, que contará com o apoio de um grupo de pesquisadores com experiência comprovada na área e com título de doutor há pelo menos cinco anos para realizar análise crítica dos artigos, acontecerá de 26 de outubro a 10 de dezembro de 2020.  A lista final dos artigos que irão compor a publicação será divulgada no site do Fundo Baobá até o dia 22 de fevereiro de 2021. A publicação bilíngue deverá  ser lançada no primeiro semestre de 2021 em atividade específica em alusão aos 10 anos de fundação do Fundo Baobá para Equidade Racial.

No caso de dúvidas e para maiores informações, acesse aqui as principais perguntas e respostas sobre este edital.


Este é o quarto edital do Fundo Baobá no contexto da Covid-19. No início de abril, o fundo lançou um edital para doações emergenciais de até R$ 2,5 mil para ações de prevenção em comunidades e populações vulneráveis. No final deste mês, em parceria com o Desabafo Social, abriu edital para apoiar ideias e projetos com foco em pessoas em situação de risco em São Paulo e no Rio de Janeiro – iniciativa que, posteriormente, foi ampliada para todo o país. No início de julho, o Baobá, em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a Porticus América Latina e a Imaginable Futures,  lançou um edital com o objetivo de selecionar iniciativas de apoio a famílias que, em seu núcleo, tenham mulheres e adolescentes grávidas, mulheres que deram à luz, homens responsáveis e corresponsáveis pelo cuidado de crianças de 0 a 6 anos.

Caminho para o pleno exercício da cidadania

Educação é o meio legítimo para ampliar o repertório de direitos e a construção da autoestima

Instituída em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) estabelece a educação como um direito básico e fundamental a que todo ser humano deve ter acesso ao nascer e durante toda a sua vida. O documento é composto por 30 artigos, sendo que o 26º formaliza a obrigatoriedade da alfabetização gratuita, independentemente da idade. Embora seja um direito reconhecido há 72 anos, há uma longa distância entre o que está na declaração e a realidade. 

Não por acaso, o enfrentamento ao racismo na educação é um dos eixos programáticos de investimento do Fundo Baobá para Equidade Racial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também alertou que a pandemia escancarou desigualdades, produziu corte de recursos em todas as áreas, sem poupar a educação, aumentou a pobreza e forçará 9,7 milhões de jovens a abandonar os estudos até o fim de 2020. Quando é feita uma análise mais atenta de quem será afastado da escola – seja pela questão da falta de acesso ou mesmo pela necessidade de ajudar a família a sobreviver  –, não é difícil imaginar o perfil dos mais impactados.

O cenário que se desenha à frente será desalentador, caso nada seja feito. Segundo Antônio Carlos Malachias, Billy Malachias, como é mais conhecido no meio acadêmico, o primeiro passo é conceber a educação efetivamente como um direito e não um meio. Mestre em Geografia e pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro (NEINB/USP), ele já participou de importantes projetos da área, como o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação, além de ser professor da Fundação Poli Saber.

“A educação precisa ser pensada como princípio fundamental que amplia a noção de direitos, se for concebida como um direito e uma educação para direitos”, afirma. Nesse sentido, não pode estar dissociada da questão da equidade. “Mentalidade preconceituosa se modifica com formação. Quando as pessoas são alertadas com relação a isso, passam a rever suas práticas.”

Billy Malachias, mestre em Geografia e pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro (NEINB/USP) – (Foto: Rosana Barbosa)

Malachias explica que a inexistência de um projeto de Estado para a educação, debatido por todos os envolvidos, prejudica a criação de uma política para o ensino de qualidade. “Além disso, é essencial também promover melhorias nas condições de trabalho, nas jornadas e na formação dos professores e educadores do ensino público e particular”, conclui.

Em um país tão desigual e de extensão continental como o Brasil, o professor defende que experiências positivas de ensino sejam amplamente divulgadas para estimular o surgimento de outros modelos bem-sucedidos. “É primordial identificar estudantes que precisam de atendimento diferenciado em relação ao grupo, ver as potencialidades e necessidades de cada um, para melhor conduzir o processo de ensino.”

Ou seja: esses estudantes devem ser estimulados a ter ambição e reconhecer a importância do ingresso na universidade como conquista pessoal, mas também como necessidade de formação qualificada para o país.  “Cada um de nós deve ter o compromisso de tornar este país mais democrático e igualitário”, afirma. O professor confirma que a Covid-19 também lançou luz sobre a falta de estrutura e de investimentos em educação, revelando condições desiguais dentro de uma mesma cidade, como no caso de São Paulo, por exemplo. O que falar então quando se avança Brasil adentro?

A doença revelou a falta de equipamentos, muitas pessoas vivendo em espaços mínimos e sem acesso à infraestrutura necessária para estudar ou dar aulas. “Além de todos os problemas de transmissão do vírus, temos espaços exíguos para instalar um computador e estudar, por exemplo”, afirma. Na verdade, a pandemia acentuou a distância entre ricos e pobres, pretos e brancos. Aliado a isso, o que se vê é a sobreposição do racismo surgindo como um componente que dificulta o reconhecimento da igualdade de direitos entre os diferentes grupos em uma mesma sala de aula. “Racismo se combate com ações afirmativas, e a pobreza com políticas de renda”, diz.

Como ele explica, muitas vezes o cenário é de professores que não possuem equipamentos, não conseguem acessar internet de qualidade e têm condição econômica muito semelhante às das pessoas para quem ministram aulas. “Então, há uma necessidade proeminente de pensar esse espaço como forma de superação das desigualdades e do racismo.”

O racismo, segundo Malachias, precisa ser denunciado e punido pela justiça de forma exemplar para inibir sua repetição. “É sistêmico e estrutural. Por isso, não há a menor chance de pensar em mudanças que promovam a equidade se não for combatendo-o”.  O professor defende que os brancos também comecem a ouvir as questões levantadas pelos grupos discriminados. “Temos mais de 300 anos em que o racismo não muda a realidade dessa sociedade. Portanto, é o momento de repensar essa estrutura que não nos deixa avançar.”

Para ele, a participação no movimento negro abriu portas e ajudou a ter contato com intelectuais – o que o estimulou a mirar o ensino superior. “Foram pessoas que me serviram de referência”, relembra. “O movimento me fez perceber a maneira como o racismo opera e de que forma dificulta a trajetória profissional e escolar”. O ativismo também contribuiu para construir uma trajetória profissional importante e, principalmente, criar em si mesmo a capacidade de prestar atenção e se desafiar com as oportunidades que surgiam. A estrutura familiar também foi o empuxo de que necessitava.

A força veio especialmente da mãe, que trabalhava como inspetora escolar, e da avó, servente em uma escola. “Meu pai era metalúrgico. Nenhum deles tinha nível superior, mas por parte especial das mulheres fui muito cobrado e estimulado a estudar”, relembra. Foi justamente estudar – e muito – o que o ajudou a consolidar uma extensa e importante carreira acadêmica.

É por isso que Billy Malachias defende que, para o estudante realmente se apropriar do seu ingresso na faculdade, é necessária a criação de políticas que o mantenham ali. “Que tipo de incentivo vamos oferecer para que esse estudante possa alcançar o máximo potencial nesse espaço? Por isso, precisamos de políticas de acesso e de permanência, que potencializem sua capacidade”. Sua defesa é para que sejam monitorados desde o ingresso no ambiente escolar como forma de estimular o melhor rendimento. “Se já é bom, precisa se transformar em ótimo, visando ainda a excelência intelectual do país”, diz. 

Necessário também é investir no chamado “capital cultural”: capacidade de ler livros, frequentar espaços culturais, museus, cinemas, teatros e ampliar a possibilidade de interpretar o mundo à sua volta. Para isso, estudantes precisam de apoio e de espaços que ofereçam a oportunidade de alargar fronteiras.  “Estudantes de todas as etapas e níveis escolares precisam ser estimulados a investigar, questionar, pensar e refletir. Isso é fundamental para transformar.”


Educação para Equidade Racial é tônica do edital Já É

Lançado no dia 10 de julho, o programa Já É: Educação para Equidade Racial, é uma iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Citibank para jovens entre 17 e 25 anos da cidade de São Paulo e região metropolitana.

A premissa deste edital é o fato de que o racismo no ambiente escolar é um dos mais severos gargalos à equidade racial do Brasil.  Por isso a educação é um dos quatro eixos nos quais a missão estratégica do Fundo Baobá está focada. 

Em dados apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que no ensino superior, apenas 25,2% dos jovens entre 18 e 24 anos cursam ou concluem a faculdade. Entretanto, quando os dados são desagregados por raça/cor, fica ainda mais evidente a desigualdade racial em nosso país, considerando que o percentual de jovens brancos que frequentam ou concluem o ensino superior (36,1%) é praticamente o dobro do percentual de jovens pretos ou pardos (18,3%) na faixa de 18 a 24 anos.

Para além dos dados citados anteriormente, existem muitas informações que reiteram a ausência de negros nas universidades. O mesmo IBGE apresentou uma pesquisa em 2018 que mostra que um terço dos brasileiros entre 19 e 24 anos não haviam conseguido concluir o ensino médio, naquele ano. Deste número, 44,2% dos homens negros não concluíram esta etapa. Muitos dos motivos que mostram a evasão escolar corresponde ao fato do jovem negro ingressar mais cedo no mercado de trabalho. 

Na mesma pesquisa, dados mostram que o percentual de jovens negros de 15 a 17 anos, que apenas trabalham, sem estudar é de 5,7%, enquanto o percentual de jovens brancos é 4,9%. Ainda tem o caso de jovens que estudam e trabalham, não sobrando espaço para uma preparação adequada ao vestibular: “Quando a gente fala de prestar um vestibular, todo mundo vai prestar a mesma prova, só que algumas pessoas tiveram a chance de se preparar para esse vestibular a vida toda. Enquanto, para outras pessoas, existe a realidade de conciliar a escola com o trabalho”, diz a diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira.

Portanto, o Já É vem para mudar essa realidade. O programa inclui uma bolsa de estudos em um cursinho preparatório para o vestibular, atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, incluindo programa de mentoria. Além dos itens citados, as despesas de transporte e alimentação também serão custeadas ao longo do programa, que deve ter duração de 12 meses a partir de março de 2021.

Para se inscrever, o jovem tem que estar na faixa etária de 17 e 25 anos, já ter concluído ou estar cursando, em 2021, o 3º ano do ensino médio em escolas públicas e morar na cidade de São Paulo ou nas cidades da região metropolitana (neste link consta quais são os municípios da região metropolitana).

Aberto a jovens de ambos os sexos, o Programa Já É prioriza jovens de sexo masculino, jovens transsexuais, jovens mães, jovens que tenham cumprido medidas socioeducativas, e jovens que residem em bairros, territórios ou comunidades periféricas.

“Nós queremos mais jovens negros nas universidades, portanto esse programa está aberto a todos os jovens negros, mas estamos convidando especialmente quem menos entra na faculdade hoje, que segundo dados estatísticos, são os meninos. Portanto, o Já É convida os meninos negros, e também as meninas que são mães, porque muitas vezes, em função da maternidade, não conseguem voltar pra escola, além de jovens trans. Então, a gente faz esse convite para jovens que fazem parte dos grupos que sofrem inúmeras discriminações e que venham construir conosco novas trilhas na educação”, afirma Selma.


As inscrições estão abertas até o dia 31 de agosto de 2020, para as pessoas interessadas, é só preencher o formulário que se encontra aqui.

Educação como passaporte para o resgate das origens

Givânia Maria da Silva, 54 anos, é doutoranda do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), graduada em Letras, mestre em Políticas Públicas e Gestão da Educação, também pela UnB, e autora do livro “Educação e Luta política no quilombo de Conceição das Crioulas” (Ed. Appris). Nascida nesse quilombo, no interior de Pernambuco – comunidade que surgiu no início do século XIX a partir da organização de um grupo de mulheres, – ela foi a primeira a se formar como professora. Longe de ser motivo de orgulho, esse é um fator de inquietação porque mostra as dificuldades de acesso a tudo, principalmente ao ensino, direito básico e fundamental de qualquer pessoa. Acompanhe sua entrevista.

Boletim Você nasceu no quilombo. Como foi ultrapassar tantas barreiras e se tornar professora?

Givânia – Fui a primeira na comunidade a me formar professora. Formei-me cedo, tendo o compromisso de olhar para o lado e ver que as da minha idade e as mais velhas não chegaram onde cheguei. Foi um processo complexo porque até aquela época, os homens completavam o Fundamental e tinham como destino ir para São Paulo. As terras já tinham sido invadidas e a agricultura se desvalorizava. Então, o destino era ir para São Paulo se tornar a força braçal dessa metrópole que, embora tenha sido construída com a mão de todos, reconhece poucos. Mulheres se tornavam empregadas domésticas ou permaneciam na agricultura com os problemas que já citei. Sou um pouco o desnível dessa curva de trajetória daquele momento. Saio do lugar onde ninguém estudou porque não teve oportunidade para ser professora desse lugar e, por meio da educação, alcançar outras possibilidades. Não conto com alegria o fato de ter sido a primeira a me graduar no território. Significa que o direito à educação nos foi negado.

Boletim Quando você olha a sua trajetória, o que foi mais impactante nessa caminhada e quais os principais desafios?

Givânia – Tornando-me professora e tomando  consciência dessa comunidade (foi um processo de reconstrução, pois não aprendemos sobre isso na escola, mas nas articulações com o movimento negro e na pastoral da juventude), faço desses aprendizados um lugar de inquietação. Em 89, passei a querer saber quem éramos, de onde tínhamos vindo. Então, fomos construir a história das Crioulas. Em 95, com a mudança de gestão do município, elegemos uma professora e pleiteamos a construção de uma escola na comunidade. Foi difícil, mas conseguimos e eu me tornei a primeira diretora. Implantamos a proposta de pensar a educação a partir do território. Aos poucos, esse projeto foi se consolidando e, este ano, completou 25 anos. Foi essa proposta que inspirou a construção das diretrizes curriculares para a educação escolar quilombola. Hoje, é possível completar até o ensino médio ali e isso tudo é fruto da luta e mobilização dessa comunidade.

Givânia Maria da Silva, doutoranda do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB)

Boletim – Qual o saldo desses esforços?

Givânia – Temos  na comunidade um projeto politico-pedagógico que orienta quatro escolas do território. Existe uma lei municipal determinando que essas escolas realizem concurso público para admitir professores quilombolas. Sim, existe o professor quilombola e isso é assegurado por lei. Todos os professores têm curso superior e alguns possuem mestrado. Tudo foi construído a partir de uma pessoa que se formou e entrou na universidade privada. Nada é mérito meu, mas da construção coletiva. Há pessoas com 70, 74 anos que voltaram a estudar. Minha tia, Maria Antônia, se formou aos 60 anos em magistério (que depois virou Normal médio). Para nós, a educação precisa ser compreendida como direito e instrumento de luta política. Continuo acreditando que a educação é um dos fenômenos importantes para a mudança na vida das pessoas, desde que esteja relacionada à vida delas. 

Boletim – O que ainda falta para construirmos uma sociedade mais igualitária?

Givânia – Acho que deixarmos de pensar em uma possibilidade única de conhecimento e de modelo de vida, transformando essa visão em conhecimento que se complemente e não que divirja. É curioso como o Brasil se apropria tanto da cultura negra e não reconhece os donos da cultura.  Toma de assalto a cultura africana, mas não reconhece. Eu ficaria apenas com a música e culinária para não me estender a outros temas. Fala um português que não é de Portugal, mas a mistura do indígena, do negro e português. Mas só reconhece o português como sua legítima língua. Por isso, não falo mais que índios usam dialetos. Se a língua portuguesa é uma língua, as outras também são. Outra questão é que uma sociedade que se pauta e foi construída a partir de invasão de terra e estupro e acredita que o embranquecimento é um valor importante para desenvolvimento é difícil de se reconstruir. A escola continua silenciando esses povos e a gente não gosta do que não conhece. Continuo acreditando que a educação é o elo de transformação social e de mudança de perspectiva de vida. 

Boletim – De que forma? 

Givânia – Quando falo de educação, não me refiro ao sentido formal. As universidades e os centros de formulação do pensamento perdem pela falta de humildade em reconhecer que a academia não é o único lugar de formulação de conhecimento. Perdem de aprender e de recontar a história do Brasil de forma mais justa, pois a história que conhecemos hoje é a que foi contada pelos colonizadores. Em Conceição, construirmos nossa história a partir do quilombo. Esse território negro, quilombola, misturado com indígena e descendente de africanos me dá responsabilidade e traz os elementos que preciso buscar para debater essa história pela educação. 

Boletim – Qual a mensagem que você gostaria de deixar para reflexão das pessoas?

Givânia – Nós negros precisamos disputar espaços na universidade. Estou na universidade pelo único objetivo de disputar pensamento lá dentro. Mas é o lugar de estar presente. Começo o ano perguntando aos meus alunos o que sabem de autores negros e negras. Sabem pouco porque não tiveram essa oportunidade. Então, a mensagem que deixo aqui é para olharmos para nós mesmos e não nos contentarmos em ser apenas sensíveis ao racismo. A sociedade falhou. Todos falhamos, família, escola… A mensagem então é para olharmos para dentro de si e ver o tamanho do opressor. Somos todos frutos de uma sociedade racista.  Precisamos olhar para dentro e não calarmos mais. É hora de brancos e negros se unirem para não só combater, mas exterminar o racismo.

Força coletiva, ancestral e sororidade

Foi também a partir do ativismo negro que um projeto começou com o propósito de unir forças e discutir, entre outros temas, questões relacionadas à mulher negra. A iniciativa pulou rapidamente do campo das ideias para o de realizações para virar uma potência com foco em estimular a educação no campo da justiça. Assim começou a história do grupo Abayomi Juristas Negras, de Pernambuco, há exatamente um ano.

“Inicialmente, nos conhecemos em um evento na OAB Pernambuco no dia da mulher negra em julho de 2019. A professora universitária e procuradora federal Chiara Ramos expôs a vontade de ter amigas negras, pois sempre foi a única nos espaços em que circulava”, relembra Patrícia Oliveira, uma das oito integrantes e diretora. No coletivo, cada uma delas tem uma função específica, como captação de recursos, administração etc.

Chiara montou um grupo em uma rede social e propôs uma reunião em sua casa. Na época, explicou a vontade de criar um quilombo para unir potencialidades. “Ela também falou da dificuldade de ver mulheres negras em espaços na justiça”, relembra Patrícia. Ainda durante a reunião viram como seria importante dar nome e forma ao grupo para debater racismo e outras questões essenciais. O nome Abayomi, o mesmo da boneca, foi sugerido pela também advogada Lígia Verner. À medida que falavam sobre a iniciativa de Chiara Ramos, despertaram o interesse de outras mulheres. “Muitas se identificaram com as pautas discutidas e o grupo cresceu. Em pouco tempo, éramos mais de 30 abayomis”, relembra Débora Gonçalves.

Abayomi Juristas Negras – Pernambuco

Poucos dias depois da criação do coletivo – que tem como propósito o afroempreendedorismo social para combater o racismo estrutural por meio da capacitação e inclusão da população negra em espaços de poder e saber, com foco na ocupação de cargos nos órgãos que compõem o Sistema de Justiça Brasileiro –, surgiu a chance de participar do edital do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford, Open Society Foundations e Fundação Kellogg.

Hoje, elas fazem questão de afirmar que o foco do grupo não é apenas a educação e a tarefa de preparar as mulheres para disputar e conquistar espaços no campo da Justiça, mas cuidar também dos aspectos físicos, emocionais, espirituais e psicológicos de cada uma durante esse percurso. “Nós as ajudamos a entender os desafios que vão enfrentar no campo da Justiça, por exemplo, pois ainda é um espaço muito embranquecido, falamos de feminismo negro e as ajudamos a entender que o nosso lugar, como mulheres negras, é onde quisermos estar”, afirma Sabrina Santos.

No momento, o Coletivo Abayomi atua em três frentes:  Metodologia Abayomi de aprovação em concursos públicos ou Mada (com mentoria, coaching, treinamento estratégico e estudo em grupo afrocentrado), a Metodologia Abayomi de Aprovação na Primeira fase da OAB e Coaching Individual para aprovação.

O método que elas chamam de Mada foi idealizado por Chiara Ramos – ela é conhecida por ter disputado e passado em vários concursos públicos difíceis quando concluía a universidade. Em função disso, criou uma  estratégia de estudo para ajudar outras a conquistarem o mesmo sonho.

Elas não cobram mensalidade por esses programas. Quem pode, contribui com valores entre 100 e 150 reais para viabilizar a participação de mulheres que não têm como custear as despesas de transporte, por exemplo, pois antes da pandemia as reuniões eram presenciais. Hoje, aproximadamente 60% das alunas são bolsistas.

Com a pandemia, a agenda de atividades se ampliou. Agora, via redes sociais  – o que ajudou a aumentar a base de seguidores de 900 para quase 7 mil. “Realizamos uma mentoria com encontros semanais e metas estabelecidas”, explica Débora. “Fazemos também simulados, promovemos debates com juízes e procuradores e publicamos artigos científicos”, confirma Sabrina.

Mas as atividades não param por aí. Além da mentoria de como estudar, as mulheres têm aulas de zumba, reiki, acompanhamento com psicóloga. “Falamos sobre afroempreendedorismo, damos dicas de direito para concursos, exibimos vídeos sobre cultura africana, feminismo negro, motivação”, fala Sabrina. Além de ajudar a mulher negra a fortalecer sua educação para realizar o sonho de ser aprovada em concursos da área jurídica, o objetivo do Coletivo Abayomi é empoderar essa mulher para conquistar seu espaço de direito na sociedade.

A grande dificuldade, agravada pela pandemia, é conseguir patrocinadores que abracem a causa.  “Como não temos fins lucrativos, procuramos quem deseja investir nesse projeto”, conta Débora. Por isso, elas já pensam em implementar em breve algumas mudanças, como oferecer em contrapartida ao dinheiro investido cursos específicos sobre cultura antirracista e direito administrativo, entre outras ideias que são assuntos de conhecimento do grupo de oito advogadas da Abayomi. Em breve, elas também terão aulas de coaching.

“Só o fato de ser um coletivo de mulheres negras já é desafiador porque o sistema de Justiça não está pautado pelas nossas causas nem preocupado com a nossa inclusão”, desabafa Patrícia. Então, são espaços que precisam ser demarcados todos os dias. “Hoje, nós nos desdobramos para estudar e passar em um concurso e, assim, ajudarmos outras a passarem também”, completa Débora.

Ao contrário de pará-las, as dificuldades parecem ser o motor que as impulsiona. Sabrina afirma que, no processo de conhecimento de sua ancestralidade, foi importante aderir à cultura de quilombo das abayomis.  “Quando encontrei essas mulheres, elas me trouxeram toda a potência e o poder que vem do conhecimento da nossa ancestralidade”, afirma.

Por isso, elas insistem que o objetivo é continuar estimulando mulheres que queiram, com sua presença e conquistas, romper com as barreiras impostas pelo racismo. “Ninguém tem o direito de impor crenças que limitem você nem de dizer o que você pode ou não fazer e os espaços que deve ocupar”, desabafa Patrícia. É justamente isso que elas fazem: ajudam as mulheres a descobrir o potencial que cada uma tem.

“Rompi fronteiras e preconceitos”

Conheça a história de Dandara Rudan, a advogada que está focada em obter a licença da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para fazer diferença no enfrentamento à transfobia e ao racismo estrutural

Estudo realizado em 2016 pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABGLT) revela que 73% de estudantes que não se denominam heteressexuais já sofreram agressões verbais nas escolas, especialmente com comentários negativos sobre a sexualidade. E isso é um dos principais fatores para abandonar os estudos.

O que a pesquisa mostrou em números, Dandara Rudsan, 30 anos, natural de Santarém, no Pará, sentiu na pele. Preta, transexual, antirracista e antiproibicionista, como se define, desde cedo esbarrou em preconceitos. O impulso para superá-los veio da educação. “Sem dúvida, o acesso à educação foi e é fundamental para a conquista de espaços e habilidades estratégicas para a luta. Mas é necessário destacar que, sem a determinação, a priori, não é possível exercer esse acesso”, explica.

Sua trajetória, como a de tantas mulheres transexuais, é marcada por processos de exclusão, agressão, violação de direitos e tentativas de aniquilação no enfrentamento ao machismo. “Nascemos em uma estrutura social que, definitivamente, não reconhece a existência de nossos corpos transexuais e esse ‘não existir’ se reflete nas leis, políticas públicas e, consequentemente, na educação”,  diz.

O que não a derrubou, fortaleceu.  “Além das dificuldades que a estrutura patriarcal e racista impõe à vida das mulheres transexuais negras, a luta contra a invisibilidade (em diversos espaços) tem sido uma das principais dificuldades para se chegar até aqui.”

Dandara Rudsan, do projeto “Atitude TRANSversal: Mulher Negra Transexual da Amazônia tecendo Redes e Ampliando Horizontes

Vencidos os preconceitos iniciais, foi a vez de encarar espaços educacionais onde, longe de se praticar e estimular o livre ser e pensar, a realidade era de mais exclusão e afastamento. “Quando sobrevivemos minimamente à marginalização de nossas vidas e conseguimos entrar em espaços educacionais tradicionais, como escola e universidades, nos deparamos com um sistema que não nos cabe, não respeita e não  reconhece como legítimas nossas realidades, vivências e experiências. E aí entra a determinação.”

Dandara fala que, se fosse comparar sua luta a um carro, o acesso à educação seria o motor e a determinação o combustível para avançar. “A partir do momento que nós, travestis e transexuais, colocamos nosso primeiro pé na educação formal, tudo é enfrentamento e aí só a determinação pode nos manter lutando ou suportando as violações, o racismo, a transfobia.”

Nesse processo, foi necessário criar estratégias para ultrapassar obstáculos. “Se algo não nos cabe, a gente pega e inventa uma maneira de caber”, diz. “Minha determinação, criatividade e inovação foram cruciais para as conquistas e para trazer mais pessoas para a luta, mas reconheço que sem o apoio de uma comunidade inteira de mulheres negras cis isso não seria possível.”

Selecionada no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford, Open Society Foundations e Fundação Kellogg, com o projeto “Atitude TRANSversal: Mulher Negra Transexual da Amazônia tecendo Redes e Ampliando Horizontes”, ela afirma que as dificuldades enfrentadas no Pará por ela não se distanciam das histórias de outras mulheres trans e pretas que lutam para conquistar seus direitos.

Viver naquela região impõe dificuldades específicas, como a obrigação de lutar pela terra, pelo território e pelo meio ambiente. “O problema é que o imaginário ‘cis heteronormativo’ e a invisibilidade desses corpos, dentro dos movimentos sociais, não permite que, em um primeiro momento, se perceba a luta das mulheres transexuais e travestis que estão nesse contexto”, afirma.

A advogada reconhece que muitas companheiras transexuais e travestis, assim como a comunidade LGBTQI+, estão encabeçando lutas importantíssimas no país, atuando nas agendas de enfrentamento ao HIV, à aids e à homotransfobia, em defesa do empreendedorismo de mulheres trans. “Existem mulheres, mulheres travestis e mulheres transexuais atuando fortemente na agricultura familiar, na pesca artesanal, no extrativismo e na coleta de sementes e, mesmo assim, quase não ouvimos falar delas”, desabafa.

Desafios não faltaram nesse caminho. O maior deles foi se estruturar e apoiar a família, quando começou a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que começou em 2011 e perdurou até 2019. Sua família, assim como a comunidade, foi removida e transferida para assentamentos urbanos coletivos. Todas essas dificuldades a fortaleceram e abriram caminho para outras que vieram depois.  

Mulheres transexuais e travestis, assim como cis, aliaram-se à luta anti LGBTfobia na região da Transamazônica, criando o Coletivo Amazônico LesBiTrans, o primeiro grupo de luta exclusivamente LGBTQI+ da Cidade de Altamira e, por meio de seu projeto no Programa Marielle Franco, estabeleceram a Rede de Cooperação  Negra e LGBTQI+ Pretas & Coloridas, além do Laboratório de Ciberativismo Zarabatana Info.

Além de simbólica, a aprovação na OAB representa o fechamento de um ciclo de estudos, lutas, dificuldades. Para Dandara, que atua em postos de coordenação no Centro de Formação do(a) Negro(a) da Transamazônica e Xingu (CFNTX) e no Coletivo Amazônico LesBiTrans, isso permitirá atuar em diversos espaços do Poder Judiciário, ampliando a capacidade de enfrentamento de questões raciais e de gênero. “Para mim e para todas as mulheres pretas e trans, será a mensagem de que podemos ser e chegar aonde quisermos”, conclui.