Fundo Baobá divulga lista de aprovados para a segunda fase de seleção para o edital de Recuperação Econômica para empreendedores/as negros e negras

O Fundo Baobá, primeiro e único fundo dedicado exclusivamente para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil, encerra o ano de 2020 com um importante anúncio: a lista de selecionados para a segunda etapa do processo seletivo do seu edital de Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores/as Negros e Negras. O edital foi lançado no dia 11 de novembro e as inscrições foram encerradas em 20 de dezembro. Houve 700 (setecentas) inscrições que passaram por criteriosa primeira avaliação para que 595 fossem consideradas válidas. Dessas, 273 passam à segunda fase. 

O edital de Recuperação Econômica leva em conta o suporte necessário para iniciativas lideradas por empreendedores negros e negras, que foram afetadas financeiramente dentro do contexto da pandemia. Os apoiadores da iniciativa do Fundo Baobá são a  Coca-Cola Foundation, o Instituto Coca-Cola Brasil, o BV e o Instituto Votorantim. O segmento do empreendedorismo estima que 14 milhões de afro-brasileiros desenvolvem atividades como autônomos. Destes, 29% são empregadores. Já o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) indica em pesquisa de 2018 que 40,2% dos micro e pequenos empreendimentos brasileiros são comandados por negros e negras. 

Quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil, as medidas de isolamento adotadas impactou vários setores. Os pequenos e micros que trabalham na formalidade e na informalidade também foram severamente impactados, pois tiveram que parar, a lucratividade cessou e o desespero da falta de recursos foi se instaurando.   Daí a ação do Fundo Baobá para  Equidade Racial em pensar o edital de Recuperação Econômica e buscar essas importantes empresas parceiras que, somadas, destinaram R$ 1,8 milhão para o socorro aos empreendedores negros e negras. 

A lista divulgada agora considerou como aptas a participar da segunda etapa do processo de seleção as iniciativas que cumpriram com as seguintes características: Ser compostos por 3 empreendedores(as) negros(as) que atuem no mesmo território; que tenham 18 anos ou mais; disponibilidade real para participar das ações propostas pelo edital; que não tenham sido eleitos para cargos no legislativo ou executivo; que não tenham projetos com objetivos políticos/partidários; que não sejam funcionários, cônjuges ou parentes até segundo grau de colaboradores das empresas que patrocinam essa iniciativa (Sistema Coca-Cola e Grupo Votorantim) ou mesmo de membros dos órgãos de governança do Fundo Baobá para Equidade Racial; pessoas que não tenham sido apoiadas pelo Fundo Baobá em 2020 por edital próprio (Doações Emergenciais) ou da Coalizão Editodos. Cada um deles receberá R$ 10 mil, perfazendo R$ 30 mil para cada iniciativa.

Os selecionados desta fase serão convocados para a segunda etapa, a entrevista virtual, a partir do dia 5 de janeiro de 2021. As entrevistas estarão sob responsabilidade da organização FA.vela, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Os organizadores esperam que cada um dos três sócios inscritos por iniciativa participem da entrevista, que será agendada com antecedência e realizada pelo sistema de videochamada. Caso os empreendedores/as não possuam acesso à internet, a mesma ocorrerá por chamada telefônica. A entrevista agendada não poderá ser remarcada. 

O resultado final da seleção será divulgado em  fevereiro de 2021

Aqui, o link que leva à lista de selecionados.  

 

Viver com dignidade está muito além de um conceito. É prática em que priorizamos a nós mesmos sem esquecer a prioridade do outro

Dois homens negros que habitam a maior cidade do país, São Paulo. Ambos professores universitários. Um deles é fisioterapeuta e gerontólogo (alguém que estuda e trabalha com processos do envelhecimento) e o outro é um sociólogo  (alguém que estuda a organização e o funcionamento das sociedades humanas e as relações sociais). 

Procuramos saber deles, a partir do conceito do viver com dignidade, quais são suas opiniões sobre alguns temas que permeiam o nosso cotidiano. Os tópicos vão de relacionamento familiar, passando por ativismo político, saúde, racismo e masculinidade. 

Os entrevistados foram o gerontólogo Alexandre da Silva, professor do departamento de saúde coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), e o sociólogo Deivison Nkosi, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Campus Baixada Santista, em Santos (SP). Eles não se esconderam de nenhum tema e suas ideias são de grande contribuição para quem deseja pensar uma sociedade progressista, em que o respeito ao outro e a equidade sejam praticados por todes. 

 

PARTICIPAÇÃO POLÍTICA 

Alexandre da Silva Falar de política é não ser partidário. É entender o contexto atual. Quando há discordância política, isso não quer dizer que os discordantes sejam de partidos diferentes. Não quer dizer que sejam opositores. Eu exerço meu direito político todos os dias, pensando em mim e nas outras pessoas. Tento entender quais são as manifestações políticas delas. O exercício político é o exercício da minha cidadania, baseado no fato de que todos nós temos os mesmos direitos. 

Deivison Nkosi –   Minha atuação política se dá por diversos meios. Entendi que a produção intelectual é uma forma de intervenção política importante. É uma forma de ativismo. Então me considero um intelectual orgânico do movimento megro. Mas entendo que a atuação política não pode se limitar à produção intelectual. Então,  procuro  me envolver com os movimentos sociais de combate ao racismo, especialmente aqueles que estão situados no espectro mais à esquerda do universo político. Atuo em contribuição a uma série de organizações de trabalho de base, que fazem tanto trabalhos pedagógicos quanto comunitários. Também tento intervir no debate político sobre temas conjunturais da nossa sociedade, que vão desde as questões sanitárias epidemiológicas (se a gente pensar na Covid-19) até as questões políticas mais gerais, tendo como eixo o movimento negro.

  

RELAÇÃO FAMILIAR

Alexandre da Silva –  Eu estimulo sempre o diálogo. Ele sempre é válido, principalmente quando associado à escuta. Em muitos casos de conflito, com essa receita, a do diálogo e a da importância da escuta,  a gente consegue resolver. E as estratégias de solução nunca passam por qualquer tipo de violência, como falar alto ou coisas assim. 

Alexandre da Silva, gerontólogo, professor do departamento de saúde coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP)

  

Deivison Nkosi – Entendo sim que a presença familiar é um acontecimento político. Entendo que a minha participação junto à minha família é uma intervenção política. Então, tendo isso em consideração, eu tento conciliar os tempos e os espaços. Isso nem sempre é possível, mas quando a gente percebe a importância política do fortalecimento familiar, a importância das famílias negras para a resistência negra, para a reprodução da nossa existência, mas sobretudo para a criação da possibilidade de existências afetivas e até financeiras, entendemos que esse espaço tem que ser priorizado. Eu venho tentando fazer isso. Sou casado, tenho dois filhos, mas faço parte de uma família ampliada, onde entendo que  influenciar na vida das pessoas da família é contribuir para um mundo melhor e sobretudo contribuir para que mais pretos e mais pretas estejam vivos e estejam bem, além de atentos ao que está acontecendo.

 

ARTICULAÇÕES SOCIAIS

Alexandre da Silva –  Sou apaixonado por gente. Falo com todo mundo: pobres, ricos, velhos, novos, bonitos ou considerados feios. Eu não posso e não se pode agir com preconceito. Trabalho com saúde pública. Trabalho com gente. Eu estudo o envelhecimento, e esse é um fato que acontece na vida das pessoas. O grande problema é que algumas pessoas buscam e legitimam discurso que traduz o que elas pensam e esse movimento de ultradireita do mundo expressa um retrocesso. Já procurei fazer uma análise que não envolvesse o racismo, mas o racismo sempre está presente nesse discurso direitista. 

Deivison Nkosi – As minhas articulações sociais são, sim, permeadas pelo meu engajamento político, mas também pela minha produção intelectual. Eu sou uma pessoa que vem da geração do hip hop; geração que buscava ser,  na prática,  a revolução que procurava ver no mundo. E isso significa trazer para a vida cotidiana determinadas preocupações de gênero, de raça e de classe. Trazer para a experiência cotidiana a preocupação de não reproduzir uma relação coisificada, uma relação reificada com as pessoas. Não tratar as pessoas como propriedade, não tratá-las como coisas que  podem ser descartadas. E estar vigilante com a possibilidade de reproduzir o racismo. Mesmo sendo vítimas do racismo a gente não está isento de reproduzir o racismo. Uma geração  vigilante com a possibilidade de reproduzir as dores e os sofrimentos do racismo e transferir isso para as pessoas com quem a gente convive. Entendo que essas coisas não podem estar separadas e isso significa trazer para o cotidiano aquilo que a gente discute, que a gente teoriza. Trazer para o cotidiano significa  pensar as demandas políticas de gênero, de raça, de classe, de orientação sexual,  tanto no campo pessoal quanto no campo profissional e político como um todo. Senão, podemos defender algo que não vale para nós. Que não vale ser defendido. Então, acredito que seja necessário não perder de vista a necessidade de viver na prática aquilo que a gente defende para o mundo.

Deivison Nkosi, sociólogo, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Campus Baixada Santista, em Santos (SP)

RELAÇÃO COM OS TERRITÓRIOS DE VIVÊNCIA

Alexandre da Silva –  Tenho amizades duradouras desde aquele tempo. Até hoje procuro me relacionar com vários territórios, pois defendo o direito das populações negras de envelhecer. E as pessoas envelhecem em todos os espaços. Defendo o envelhecimento com dignidade. Em qualquer território. Procuro conscientizar e fazer a pessoa perceber que ter acesso ao que é digno  faz parte do cotidiano dela. É um direito. 

Deivison Nkosi –  A minha relação com os territórios que passo é bastante ambígua. Eu venho da favela,  cresci na favela, brincava no lixão, e vi o processo acelerado de urbanização das favelas. Tive acesso à universidade e depois a um tipo de possibilidade de visitar e conhecer outros territórios além da favela. Inclusive a universidade é um desses espaços. A favela é o meu lugar de origem, mas também eu pude circular e conhecer o mundo e ver que o mundo é muito maior que a favela. A favela tem construções de resistência, mas também tem carências e dificuldades de acesso a algumas coisas fantásticas,   que são comuns  a algumas pessoas. Então, minha relação é de ambiguidade com esse lugar de origem.

 

RELAÇÃO COM A COMUNIDADE

Alexandre da Silva –  Tenho procurado levar às pessoas meus conceitos sobre saúde, doença e cuidados. Procuro conscientizar. Fazer com que as pessoas percebam o que faz parte do cotidiano delas. Procuro expandir os conhecimentos sobre a população negra dentro da minha área, que é a saúde. Tento incutir nelas o valor do lazer, o exercício da intelectualidade e procuro aflorar nelas tudo o que nos desperta como cidadãos. 

Deivison Nkosi Contribuo de diversas formas. Se minha comunidade não é esse lugar onde eu durmo, minha comunidade é muito maior. Minha comunidade é a comunidade negra brasileira, afrodiaspórica do mundo. Minha  comunidade é a classe trabalhadora. Minha contribuição política vai na direção de defesa desses grupos.

Num âmbito mais estreito,  tento participar das atividades do movimento negro na minha cidade, das atividades de bairro da minha cidade, das atividades do meu bairro de origem.  As pessoas como eu, que são intelectuais e que vivem para atuar na pesquisa e difusão  de conhecimento, têm uma responsabilidade para com a sociedade. Aí eu procuro devolver o que acumulo,  participando de atividades que  possam fomentar um trabalho de base, uma conscientização, fomentar o avanço de alguns debates e algumas pautas.

 

SAÚDE E BEM ESTAR

Alexandre da Silva –  Valorizo muito minha prática física e a leitura. Mas isso não é fácil. Se deixarmos, o trabalho acaba nos engolindo. O fato de eu estudar o envelhecimento faz com que eu analise o meu próprio. A maioria da população negra não teve lazer porque trabalhou muito, sempre trabalhou. A população negra morre trabalhando, sem contemplar. O trabalho é importante, mas saber dosar, parar e desfrutar é importante também. 

Deivison Nkosi –  Saúde e bem estar: Isso é uma questão bem importante, porque saúde não é a ausência de doença. Saúde é bem estar psíquico, físico, emocional, mas é também a possibilidade de intervir nas políticas públicas. É a possibilidade de se ver representado nos espaços de poder. É a possibilidade de concretizar projetos de vida. E vivemos em uma sociedade que impede isso a todo tempo. Seja pela classe, pela raça ou pelo gênero. E isso coloca um desafio logo de cara. A saúde da população negra é completamente atravessada pelo racismo no Brasil. O racismo representa uma barreira enorme para uma vivência plena para a qualidade de vida e para o acesso à saúde. Vários dados mostram que a população negra tem menor acesso à saúde e,  ao mesmo tempo,  é mais acometida por uma série de doenças. Então, o racismo representa uma barreira para a saúde da população negra.

 

COMBATE AO RACISMO

Alexandre da Silva –  Tenho feito um trabalho trazendo a discussão do envelhecimento para dentro da perspectiva racial. A questão é sobre como o racismo tem impedido o envelhecimento da população negra. Por exemplo, quando se joga para a frente o tempo exigido para aposentadoria, essa é uma forma de dizer “o negro não”. O Brasil falhou no compromisso com o envelhecimento dessa parcela da população. 

Deivison Nkosi –  Sou um militante do movimento negro,  intelectual orgânico do movimento negro.  90% da minha produção teórica é voltada para o combate ao racismo. Mas também, quase 100% da minha atuação política é voltada ao combate ao racismo.  Estou engajado aos movimentos sociais como um todo. Sou uma das pessoas que dedicam a vida ao combate ao racismo. Isso é pesado em alguns momentos, porque a vida não é só combater. A gente precisa amar, desejar, sonhar, brincar, descansar e muitas vezes a atuação no movimento não dá descanso.

 

IDENTIDADE E MASCULINIDADE NEGRA

Alexandre da Silva – Eu acho que o desafio maior seja a desconstrução do macho, do forte,  que acaba sendo algo que gera muito sofrimento para o homem negro.  Porque as violências acontecem de diversas formas.  Isso limita também as outras expressões de masculinidades. Então, é importante pensarmos que masculinidade negra fala também de diversos gêneros, de diversas possibilidades, trocas de afeto, novas construções. Passa por pensarmos uma paternidade mais presente,  que muitas vezes é confrontada com o imaginário da população de que o homem se relaciona com várias mulheres e não consegue ter uma. Não estou pregando para que voltemos a um modelo judaico cristão. Não. Cada um pode escolher a forma que lhe convém para viver. Mas que a gente possa expandir essa identidade e masculinidades negras. E hoje a gente percebe um movimento grande, forte,  responsável e afetivo de diversos sujeitos, pessoas negras que estão trazendo essas identidades e discutindo essas masculinidades. E isso tem sido um abraço coletivo. Uma forma de todos  nós nos sentirmos pertencentes a esse mundo que sempre foi nosso. 

Deivison Nkosi –  Sobre Identidade e masculinidade é bom separar, porque são duas questões diferentes e que se relacionam. Antes de existir uma Identidade negra havia uma Identidade branca.  O que obriga o negro a afirmar a sua negritude é o fato de ele sofrer racismo. E o racismo se baseia em um identitarismo branco, identitarismo que vê o branco como única expressão de humanidade, beleza, bondade e verdade. O negro, quando aparece, aparece como animal, selvagem, violento, agressivo. Então, é o próprio racismo que cria a necessidade da afirmação da identidade negra. Também  é verdade que uma pessoa negra não é só negra. Ela é um monte de outras coisas. É o racismo que reduz o negro ao negro. Mas o negro é homem, é mulher, é hétero,  é gay,  é bi, é trans, é cis, é trabalhador. Existem várias identidades que perpassam a nossa existência. E mesmo assim a gente não se reduz a elas. Há momentos em que somos pai, somos filhos, somos profissionais de tal profissão, tem momentos que somos moradores de tal bairro.  As identidades não são fixas. Elas estão em diálogo a depender do contexto. O desafio é pensar estas dinâmicas complexas da identidade. Pensar inclusive que um negro não é só um negro. Acima de tudo ele é um ser humano. E nem tudo que um negro vive está ligado à negritude. O negro sofre, o negro ama, o negro tem sonhos, desejos, dores que estão na dimensão humana e ele partilha com outros humanos a expressão dessa experiência. E ainda que haja o racismo e que ele atravesse a vida do negro, o negro não se reduz ao negro. Cada pessoa tem seu próprio jeito de viver a vida. 

Quando pensamos as masculinidades negras, temos que pensar que o machismo privilegia os homens em detrimento das mulheres. Também o racismo  privilegia o branco em detrimento do negro. E isso coloca uma questão para homens e mulheres negras.  A Grada Kilomba (escritora portuguesa)  fala que a mulher negra é o outro do outro. Porque embora ela seja mulher, no feminismo ela deixa de ter a sua experiência considerada. Ela vira um outro em relação à mulher branca. Mas também nos espaços do movimento negro muitas vezes as mulheres negras têm suas pautas invisibilizadas. Então, se a mulher negra é o outro do outro, o que dizer do homem negro?

Promover a equidade racial através da potencialização da educação do jovem negro

No dia 10 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Fundo Baobá para Equidade Racial divulgou em seu site oficial a lista das 100 pessoas selecionadas para o Programa Já É – Educação para a Equidade Racial

O programa foi lançado exatos cinco meses antes, em 10 de julho de 2020, com o objetivo de apoiar 100 jovens negros residentes em bairros periféricos de São Paulo e outros municípios da região metropolitana a acessarem o ensino de nível superior. A iniciativa do Fundo Baobá, em parceria com a Citi Foundation, inclui não só os custos dos estudos em cursinho preparatório para o vestibular e as despesas com transporte e alimentação ao longo do programa. Ele prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais. Ainda prevê mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas, experiências profissionais e de vida.

Educação é um dos quatro eixos nos quais a missão estratégica do Fundo Baobá para Equidade Racial está focada. E não podia ser diferente: o ambiente escolar é um dos mais severos gargalos à equidade racial do Brasil. Dados mostram que o ensino fundamental tem quase o mesmo percentual entre crianças brancas e negras de 6 a 10 anos (96,5% e 95,8%, respectivamente). Mas, na faculdade, a matemática é outra: na média, só 25,2% dos jovens entre 18 e 24 anos cursam ou concluem o ensino superior, segundo o IBGE. Só que o percentual de jovens brancos que frequentam ou concluem o ensino superior (36,1%) é praticamente o dobro do percentual de jovens pretos ou pardos (18,3%) na faixa de 18 a 24 anos.

Não podemos negar que nos últimos anos houve um aumento significativo de pessoas negras nas universidades. Uma pesquisa do IBGE,  de 2018, mostrava que 50,3% dos estudantes do ensino superior da rede pública eram negros, sendo a primeira vez na história que o número de matrículas negras ultrapasava o de pessoas brancas. O Censo da Educação Superior, também em 2018, apresentou uma pesquisa na qual o número de negros no ensino superior saltou 78% entre 2014 e 2018. 

Para a gerente sênior de riscos e continuidade de negócios, Viviane Elias Moreira, o aumento de pessoas negras no ensino superior está atrelado à aplicação de políticas afirmativas e de reparação histórica e social, como as cotas raciais e o Programa Universidade Para Todos (ProUni), instituído pelo o governo federal no ano de 2005: “As medidas afirmativas são a base para que a população negra tenha acesso ao ensino de qualidade e a uma correção histórica educacional voltada à evolução da população negra, e que tenha também acesso a todo suporte pressuposto para que você tenha ensino de qualidade de primeira linha”. 

Viviane Elias Moreira, administradora com ênfase em comércio exterior e gerente sênior de riscos e continuidade de negócios

Para o economista, membro da assembleia geral e um dos fundadores do Fundo Baobá, também fundador do Instituto Cultural Steve Biko e vereador reeleito em Salvador, Silvio Humberto, é evidente que o aumento de negros nas universidades veio de políticas afirmativas, mas que isso não é apenas mérito do governo: “Essas políticas não chegam porque governo decidiu fazer. Você tem um movimento antes e tem sempre que se fazer referência ao movimento negro, ao trabalho pioneiro”. Silvio, inclusive,  menciona o trabalho do Instituto Cultural Steve Biko, que no dia 31 de julho deste ano completou 28 anos de atividades, e foi um dos pioneiros no cursinho pré-vestibular para pessoas negras na Bahia: “Nós falamos que são 28 anos promovendo ações afirmativas, então o que eu diria é que isso, tanto as as cotas raciais, quanto o ProUni, de garantir em escala o acesso de pessoas negras às universidades, tem um nome, tem um movimento anterior, que vem sendo puxado desde os anos 1990, com os movimentos dos cursinhos pré-vestibulares negros, populares e comunitários”.

Viviane Elias, que se formou na universidade antes do surgimento das políticas de inclusão, também é fruto do cursinho pré-vestibular social: “Eu sempre falo que o meu divisor de águas na vida foi o meu curso pré-vestibular, que eu fiz no Núcleo da Consciência Negra na USP, no ano de 1997. Porque lá eu tive acesso a uma possibilidade de ensino pré-vestibular com qualidade, com apostilas de qualidade, que eram elaboradas por um cursinho pré-vestibular muito caro e famoso, na época. Mas principalmente com relação à representatividade, foi ali que eu vi biólogos negros, químicos negros, historiadores negros,  professor de inglês negro e tínhamos também professores brancos que contribuíam e eram aliados ali naquela causa”.

O ingresso do negro na universidade também fica atrelado a uma educação básica de qualidade. Mas uma pesquisa do IBGE, de 2018,  mostra que um terço dos brasileiros entre 19 e 24 anos não havia conseguido concluir o ensino médio naquele ano. Entre os que não conluíram esta etapa, 44,2% são homens jovens negros. Muitos dos motivos que mostram a evasão escolar corresponde ao fato de o jovem negro ingressar mais cedo no mercado de trabalho. Para Silvio Humberto, isso é parte do círculo vicioso da pobreza e ele necessita ser rompido: “A evasão é consequência da vulnerabilidade social em que se encontra a maioria dessa juventude. Então, se você tem uma escola que não oferece os meios e as condições, começam as distorções de idade-série. Jovens  e adolescentes na faixa dos 13 anos começam a migrar para a noite, obrigados a entrar muito mais cedo no mercado de trabalho”. O que também revela outra problemática que afasta  jovens da escola: a gravidez na adolescência: “Muitas meninas, por engravidarem,  têm que ficar em casa pra cuidar não só da sua cria, mas também da família, dos seus irmãos, e tudo isso vai interferindo na sua educação, nas condições para garantir uma educação de qualidade,  de eles terem acesso”.

Silvio Humberto, economista, membro da assembleia geral e um dos fundadores do Fundo Baobá, também fundador do Instituto Cultural Steve Biko e vereador reeleito em Salvador (BA)

Viviane Elias também atribui o ingresso do negro na universidade a uma boa educação de base,  de qualidade, mas também reconhece as problemáticas no ensino básico. Portanto,  ela acredita que o trabalho que precisa ser feito é o empoderador: “Precisamos empoderar jovens negros, mostrando que eles podem ser o que eles quiserem e que existe um mundo de possibilidades para eles”. Muito da fala de Viviane é baseada em sua experiência em trabalho com  jovens de comunidades vulneráveis: “Muitos deles acham que a faculdade ainda é um sonho distante, porque é uma coisa elitista, ou não é para eles. Então,  empoderar esses jovens negros que, sim,  podem entrar em uma universidade e a partir do momento que eles entrarem, o esforço de alguma maneira vai ser considerado dentro do processo dele. Precisam levar em consideração o fato de um jovem negro de periferia levar quatro horas dentro de um ônibus, se ele trabalha o dia inteiro. Para poder entregar um trabalho do dia pra noite, os professores precisam, ao menos, ter sensibilidade de entender que essa pessoa tem algumas restrições para executar o trabalho”.

Silvio também reforça a importância do acompanhamento para esses jovens: “É preciso ter uma visão sistêmica, não vai se combater a evasão escolar somente com esse acompanhamento. Daí a importância do serviço social na educação para poder ir nas causas. Mas precisa também, fundamentalmente, não se perder de vista que é necessário combater a vulnerabilidade social das famílias das quais  esses jovens são oriundos”.

As trajetórias de Silvio Humberto e Viviane Elias incluem instituições particulares de básico. “Eu sou a prova cabal de que a exceção só serve para confirmar a regra”, brinca o economista. O fato de Silvio ter estudado em uma escola particular veio de uma recomendação que a sua mãe recebeu: “Deixe de dar uma boa roupa para o seu filho e dê educação”, sendo assim, os seus pais se esforçaram bastante para que Silvio e os irmãos pudessem ingressar numa boa escola: “Fiz o ensino médio em uma escola de classe média aqui de Salvador, onde a minha realidade era uma e a dos meus colegas era outra, completamente diferente, porque onde eu morava tinha problemas de saneamento, de falta de água, às vezes de energia elétrica, a rua não era asfaltada, era uma área pobre e tinha pessoas também extremamente pobres, embora fosse um bairro extremamente musical, cultural que é a Fazenda Garcia”. Conhecido hoje como reduto musical, o bairro Garcia é um dos mais antigos e tradicionais da cidade de Salvador. Durante muito tempo, recebeu o nome de Fazenda Garcia, por abrigar no espaço a fazenda do Conde Garcia D’Avila. Silvio afirma que ser um aluno negro em uma escola particular, majoritariamente branca, construiu a sua consciência de classe e raça, e que a boa contribuição disso veio de seu pai que, na época, trabalhava como mecanógrafo, consertando máquinas de escrever e de calcular: “Eu era um dos poucos negros dentro dessa escola, mas um conselho que recebi de meu pai quando eu tinha 14 anos foi:  ‘Não se esqueça, você é filho de operário, você não é igual a esses burgueses que estudam nessa escola’. E isso eu nunca esqueci, isso foi a forma dele me falar, do jeito dele, o que era consciência negra e de classe, da minha origem social, para demarcar bem quem eu era e o que eu estava fazendo ali”.

Viviane estudou boa parte do ensino fundamental também em uma escola particular, mas em São Paulo: “Eu fui bolsista no colégio particular até a oitava série e depois, por questões financeiras de não conseguir nem pagar a bolsa, eu tive que ir para um colégio público”. Na época, havia sorteios e uma grande concorrência para ingressar, inclusive, nas escolas públicas: “Eu dormi na fila de um colégio na Vila Formosa, e consegui ser sorteada para estudar no período da tarde, que era o menos disputado, para conseguir ter acesso ao ensino médio de qualidade. E aí foi meu primeiro grande choque com a defasagem de um ensino que eu tive até a oitava série como bolsista em uma escola particular até a  chegada no terceiro colegial,  que era uma escola pública e, mesmo de ponta, era normal por exemplo, na metade do primeiro colegial,  eles estavam ensinando pela primeira vez uma coisa que eu aprendi na sexta série. Então,  eu sempre fui vista como se fosse uma nerd do colégio, mas eu não era. A questão é que eu já tinha tido um ensino diferente dentro do colégio particular”. 

O primeiro vestibular prestado por Silvio foi aos 16 anos: “Entrei na universidade com 17 anos. Dentro da trajetória escolar eu não perdi ano nenhum, entrei na universidade muito cedo, mas era uma exceção, um ponto fora da curva, você se formar, como eu me formei em economia, com 20 anos de idade”. Após prestar um concurso público e não ser chamado, Silvio prestou concurso para auditor fiscal da Secretaria Municipal da Fazenda: “O meu primeiro concurso foi feito no ano de 1984 e eles chamaram em 1985, e de lá são 35 anos como auditor fiscal da Secretaria da Fazenda e depois, em 1993, eu me tornei professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, no curso de Economia”.

Viviane prestou vestibular em duas oportunidades. Na primeira tentativa, foi para o jornalismo: “Não passei para segunda fase por dois pontos, mas passei em uma faculdade particular  e não tive dinheiro para pagar. Então, voltei a cursar meio ano de cursinho em 1998”. Na segunda oportunidade, ela passou em três faculdades: Estudando de manhã e trabalhando como operadora de telemarketing à tarde, o primeiro estágio veio apenas no último ano de curso e foi uma experiência frustrante: “Consegui um estágio no Banco Alfa. Fui contratada para ser estagiária da mesa de câmbio, mas me colocaram como operadora de telemarketing para o processo de concessão de leasing e, quando eu fui ver, eu estava limpando as mesas dos operadores da época. Foi uma das minhas maiores frustrações”, relembra.

Mentoria e carreira

Além de custear o cursinho pré-vestibular para jovens negros e as despesas com ônibus e transporte, o Programa Já É- Educação para Equidade Racial terá programa de mentoria e acompanhamento acadêmico, para que o jovem tenha a possibilidade de se descobrir profissionalmente e escolher a sua carreira, uma coisa que a juventude negra de antigamente nem ao menos sonhava, como relembra Viviane: “Hoje a gente fala de carreira para um menino de 18 anos. Na minha época, as pessoas negras nem sabiam o que era carreira. Ela sabia que era o trabalho. Eu precisava trabalhar para pagar minhas contas, para pagar o aluguel da minha casa, então nem pensava em fazer carreira, eu pensava em ter um emprego e evoluir no emprego para ter mais dinheiro,  para ter uma ascensão social e conseguir o meu grande sonho, que sempre foi comprar a casa dos meus pais e ter os meus objetivos de viajar e conseguir estudar, porque eu sempre gostei muito de estudar”.

Quando surgiu a oportunidade de cursar o seu primeiro vestibular, a voz familiar se fez presente, mais uma vez, na vida de Silvio: “A minha mãe, no alto da sua sapiência, me disse: ‘Meu filho, pobre sabe escolher: ou é medicina, ou é direito, ou é engenheiro, é isso que eu sei. Como eu não posso te orientar, peça a Deus’. Então eu posso dizer que a minha entrada na economia tem a ver com essa força da espiritualidade, que eu acredito muito, que escolheu esse caminho para eu trilhar”. 

Após a experiência traumática com o primeiro estágio, Viviane pensou em uma solução drástica: “Eu decidi que iria hackear o sistema”, frisa. “Enquanto o sistema achar que eu estou seguindo os passos dele, eu estou tentando viabilizar estratégias para que eu consiga hackeá-lo e estar sempre à frente”. Após terminar o curso de Administração com Ênfase em Comércio Exterior, Viviane foi cursar outra faculdade, dessa vez de Processos Gerenciais: “Era uma faculdade de dois anos, que era o que dava para pagar. Mas  depois disso, acabei investindo muito em certificação, principalmente certificações internacionais e estudo de idioma. Posso te falar que todas essas conexões, além dos meus últimos estudos que foram dois MBAs diferenciais para o que eu faço, realmente foram que me possibilitaram hackear o sistema e ter mais chances no mercado de trabalho”. 

 

Silvio, por sua vez, não tinha muita ideia do que era o curso de economia: “Eu não sabia muito o que era, então a forma que o curso foi se desenhando, que a academia de cursos me preparou para ingressar no mercado de trabalho, estava focado em fazer concurso”. E foi na faculdade que Silvio teve o primeiro contato com o movimento negro: “Foi em 1980, eu participei do MNU (Movimento Negro Unificado), fui um dos fundadores do Grupo Negro da UCSAL (Universidade Católica de Salvador) inspirado no grupo negro da PUC-SP”.

 

Promover a equidade racial, potencializando a educação dos jovens negros de regiões vulneráveis,  é a principal premissa do Fundo Baobá, através do Programa Já É: “O Fundo Baobá é formado por líderes visionários. Afinal de contas, quando você vê que jovens de 17 a 25 anos têm acesso a iniciativas como essa. Que essas iniciativas  cobrem todos os pontos de defasagem e ainda disponibilizam um plus, o Fundo Baobá vai proporcionar que essas pessoas tenham acesso à representatividade tangível, que é uma bandeira que eu levanto muito. Representatividade é muito importante, mas quantas pessoas de nós terão acesso a Michelle Obama, por exemplo? Mas quantas dessas pessoas vão ter acesso a uma Fernanda Lopes, a uma Viviane Elias, a uma Selma Moreira? E isso é transformar vidas através de ações afirmativas”. 

 

Silvio também acredita na força e no potencial do Já É, mas também alerta para a importância de estendê-lo  para outros estados do Brasil: “A proposta é excelente, mas só acho que não deveria ficar restrito ao município de São Paulo, apesar de ser lá onde você tem as maiores desigualdades. A gente precisa que esse programa se estenda para o Brasil, e sobretudo para a região Nordeste, é preciso encontrar parceiros, é preciso apoiar as organizações que já existem”, finaliza.

 

Fazendo um retrospecto em sua trajetória profissional, Viviane Elias reforça ainda mais o surgimento de medidas como o Programa Já É: “Eu sou uma profissional de gestão de riscos e gestão de crises, hoje eu componho o pequeno percentual de 2.6% de mulheres executivas nesse país, estou participando do primeiro curso de formação de conselheiras negras deste país, tenho dois MBAs e passagens profissionais por multinacionais e nacionais nos mais diversos segmentos, única e exclusivamente por ações afirmativas como essa do Fundo Baobá. Eu sou o resultado do que ações afirmativas, alinhadas com educação de qualidade e com suporte psicossocial de blindagem contra ações do racismo estrutural, podem fazer. Hoje eu gero receita, procuro praticar o ‘ninguém larga a mão de ninguém’, participo de outros grupos de empoderamento de mulheres e meninas negras da periferia, porque eu sei que uma ação social como essa pode movimentar e mudar vidas”, completa.

Recuperação econômica e fortalecimento de territórios negros é um dos caminhos para a justiça social

No dia 20 de dezembro, encerram-se as inscrições do Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial, que tem apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Instituto Votorantim e Banco BV, com a premissa de dar suporte financeiro a pequenos empreendimentos, liderados por pessoas negras, em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socieconômica no país. 

A pandemia do novo coronavírus acentuou as desigualdades em nosso país, o que gera discussões sobre o que significa desenvolvimento econômico. Para o mestre em sociologia e professor na FGV (Faculdade Getúlio Vargas), Márcio Macedo, há controvérsias nas definições e formas de se medir o desenvolvimento econômico: “Para os economistas mais ortodoxos, o desenvolvimento econômico pode ser medido a partir de parâmetros como PIB (Produto Interno Bruto), renda per capita e níveis de consumo da população. O que é considerado nessa forma de se medir desenvolvimento econômico é o tamanho da economia e do mercado consumidor. Hoje somos a nona economia mundial, nosso PIB gira em torno de US$ 1,8 trilhão. Com essa definição, o Brasil se encontra à frente de países como o Canadá. Contudo, se olharmos os índices de competitividade da nossa economia, o Brasil vai para uma posição 34º na lista das economias mundiais. Além disso, se levarmos em consideração o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – unidade de medida utilizada para aferir o grau de desenvolvimento de uma determinada sociedade nos quesitos de educação, saúde e renda), o Brasil, atualmente, encontra-se na 79º posição no ranking do IDH mundial (uma lista com mais de 180 países), como divulgado pelo PNUD, em 2018”, afirma Márcio. 

Márcio Macedo, mestre em sociologia, professor e coordenador de diversidade da FGV EAESP

Curiosamente, o Brasil encontra-se há três anos nessa posição, o que pode ser considerado uma estagnação. “De forma geral, podemos dizer que o Brasil é um país com grandes desigualdades e paradoxos. Assim, eu diria que não podemos nos considerar desenvolvidos economicamente porque temos uma desigualdade social e econômica enorme”, finaliza.

Para a empreendedora na Ceilândia (DF), formada em serviço social e pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial, Wemmia Santos, o que dificulta o desenvolvimento econômico e a redução das desigualdades é a manutenção de privilégios das classes favorecidas: “Vale dizer que somos cada vez mais afetados para perder as dimensões que desvinculam o consumo do exercício da cidadania, haja vista que o modelo de inclusão adotado para o desenvolvimento econômico se deu via políticas públicas de estímulo ao consumo de bens e serviços. Ao olhar com mais cuidado para essa estrutura, fica exposta a não opção pela dissolução/diminuição das desigualdades, e também fica evidente que quanto menor seu poder de renda,  menor seu exercício de acesso ao direito de ter direitos. A face dessa realidade desafia a temática de desenvolvimento econômico, bem como denuncia outras restrições no que se refere a questões ambientais e socioespaciais”.

É aprendizado básico de economia que os recursos são escassos e que não é possível dividir com todos, mas para Wemmia Santos é preciso romper com esse mito: “As ‘crises’ e a suposta escassez de recursos são os pretextos utilizados pelo Estado para justificar sua retirada da responsabilidade social, especialmente no campo das políticas sociais. Desse modo, o desenvolvimento econômico que deveria beneficiar toda população, fomentando o acesso à cultura, esporte e lazer com garantia de mobilidade que atenda a todos, é desfavorecido em favor do capital que tenciona a construção de instrumentos baseados unicamente no planejamento público tecnicista que limita a equidade e distribuição justa de bens e serviços, favorecendo apenas os estratos privilegiados”.

Wemmia Santos, pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial e empreendedora na empresa RAIX

Para muitos, a principal forma de se emergir economicamente é empreendendo, ou,  como dizem, se tornando o seu próprio patrão e dono do próprio negócio. Muito tem se discutido sobre o empreendedorismo, muito se tem estudado sobre os melhores formatos de se investir, empreender e obter lucro, mas, considerando a deficiência no desenvolvimento economico do nosso país, pouco se dialoga sobre a formalização do empreendedorismo negro. Wemmia recorre à história para demonstrar que o debate sobre empreendedorismo, mesmo com a proliferação da internet, está longe de ser algo recente. Ela cita inclusive, a Irmandade da Boa Morte, que teve a sua fundação no século XIX, em Salvador, vindo posteriormente a se estabelecer na cidade de Cachoeira, na Bahia: “As mulheres da Irmandade vendiam quitutes e com o lucro das vendas ajudavam seus afiliados e outros negros, fugidos da escravidão, pagando suas alforrias. Ainda hoje, elas preservam essa motivação inicial, em memória ao sofrimento dos escravizados pela busca da liberdade e, dessa forma, se mantêm um exemplo notório de luta e resistência contra a escravidão. São, portanto, revolucionárias desde aquela época. Transformaram a falha de mercado do sistema escravocrata em oportunidade de viabilizar a liberdade de seu povo. Encontraram e encontram meios para solucionar questões relacionadas à redução da pobreza e desigualdade, em um cenário nada propício à participação ativa da mulher, com ênfase nas mulheres negras”.

 

Para Wemmia, é importante conhecer a história, justamente para compreender os territórios negros: “Quando resgatamos a história do Brasil, antes mesmo do sistema capitalista, fica evidente a manutenção do racismo estrutural nos territórios que a população negra se concentra e nas faixas de rendimento entre negros e não negros. Para nós é necessário conhecer e preservar a história para, só assim, consolidar ações mais igualitárias”.

 

É dentro deste contexto histórico que Marcio Macedo acredita que, quando falamos em empreendedorismo negro ou afro empreendedorismo, há uma perspectiva política envolvida.  Ou seja, são negócios de pessoas negras, que podem envolver algum tipo de relação com elementos das culturas negras e ainda ser voltados, de forma prioritária, para o consumo de pessoas negras: “Apesar de isso não ser algo novo, ele tomou um novo significado em um contexto que o mercado consumidor e a economia como um todo passam a ser vistos como  espaços de questionamento da desigualdade racial. Falar que a invisibilidade do empreendedorismo negro é efeito do racismo estrutural e empresarial é simplificar o problema. Entender o fenômeno do empreendedorismo é olhar para as relações entre raça, classes, desigualdades das mais variadas entre negros e brancos,  além da reconfiguração do mercado de trabalho dentro de uma economia neoliberal”.

 

Pesquisa realizada pelo Sebrae em 2018, a Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revela que 40,2% das micro e pequenas empresas no Brasil são comandadas por negros. A mesma pesquisa, também nos mostra que apesar dos empreendedores negros liderarem o número de micro e pequenas empresas no Brasil, quando olhamos para o faturamento é maior a proporção de empreendedores negros que possuem renda familiar mais baixa do que empreendedores brancos e – ao contrário – é maior a proporção de empreendedores brancos que possuem rendas maiores: “Esses números discrepantes seguem a mesma linha ou dimensão da desigualdade vista entre negros e brancos no Brasil. Há diferenças nas formas, modos e tipos de negócios ou empreendimentos de negros e brancos. É preciso abrir os números para verificar com mais acuidade essas diferenças e desigualdades, mas diria que estamos comparando universos bastante distintos”, afirma Márcio.

 

Outra grande dificuldade da pessoa negra que empreende diz respeito à obtenção de créditos. Um estudo realizado pela PretaHub, em parceria com o instituto de pesquisas Plano CDE e o banco JP Morgan, mostrou que 32% dos empreendedores negros tiveram crédito negado, sem explicação. Márcio Macedo diz que ter acesso a crédito no Brasil é, em geral,  algo bastante difícil e caro e mais ainda para quem é pobre: “Há uma mistura de desinformação, desconfiança e seleção prévia realizada por bancos. O ponto central é: não há linhas de crédito com taxas de juros que não sejam exorbitantes para serem oferecidas para empreendedores e microempreendedores negros, porque a maior parte deles está alocada nas faixas de classe menos abastadas, que sofrem com problemas de formalização ou com questões às vezes bastante simples de serem resolvidas, mas que impedem o acesso ao crédito”.

 

A Pandemia de Covid-19 acentuou ainda mais as desigualdades sociais e raciais. E, no caso do empreendedorismo negro, um estudo do Sebrae mostrou que durante esse período 46% dos empreendedores estavam com dívidas em atraso. Sessenta e um por cento dos que buscaram empréstimo não conseguiram, mesmo tendo pedido valores mais baixos do que os brancos: “A pandemia afetou todos os negócios, tanto de brancos como os de negros. Contudo, a pandemia também se orientou pelas desigualdades na maneira como afetou de forma desproporcional a população. Ou seja, houve uma socialização desigual dos impactos negativos da pandemia, com um número maior de mortes e perdas de pobres e negros”, ressalta Márcio Macedo. “No caso dos empreendimentos negros, a forma de resiliência tem se dado através de apoio de redes familiares e de amigos. Muitas vezes não necessariamente na manutenção do negócio, mas na tentativa de dar conta das despesas de manutenção pessoal e familiar. Muitos empreendedores negros dependem dos seus negócios para pagar suas contas mensais, ou seja, sua subsistência está vinculada ao negócio. Na impossibilidade do negócio/empreendimento funcionar, algo que ocorreu no período mais crítico da quarentena, boa parte deles ficou sem renda e teve que recorrer à ajuda do Estado, dinheiro vindo do auxílio emergencial liberado pelo governo federal, ou buscou ajuda, como já disse, com familiares ou redes de amigos”, completa.

 

Com as dificuldades, no contexto da Covid-19, o empreendedorismo negro precisou pautar estrategias de resiliência negra para se manter vivo. Sendo empreendedora desde 2017 à frente da marca RAIX, atuando no ramo do vestuário com a valorização da cultura periférica,  e atuando também na Feira da Quebrada em Brasília e na Loja Colaborativa, Wemmia acredita que uma rede de parcerias com outros empreendedores negros pode ser eficaz na forma de aceleração e apoio de pequenos negócios. Márcio Macedo também vê de forma positiva a rede de parceria entre empreendedores negros: “Essa é uma estratégia que já vem sendo colocada por organizações como a Coalizão Éditodos, que visa captar recursos e apoiar negócios de empreendedores/as negros/as. A aceleração é algo que deve ser feita, contudo, é necessário experiência no universo do empreendedorismo. O processo de aceleração deve ser capitaneado por alguma organização que tem um papel importante e “know-how” no ecossistema empreendedor”.

 

Pensando nessa experiência no universo do empreendedorismo, Márcio Macedo está à frente do projeto “Raça & Mercado”, uma iniciativa conjunta da FGV EAESP – via FGVCenn e Coordenadoria de Diversidade – Feira Preta, AfroBusiness e Diaspora.Black. O projeto tem como premissa estimular a reflexão sobre o empreendedorismo negro e o fortalecimento do ecossistema: “Entre maio de 2019 e dezembro de 2020 realizamos onze fóruns de discussão nos quais foram convidados pesquisadores, empreendedores/as, empresas, organizações da sociedade civil e setores do Estado para discutir o tema do empreendedorismo negro a partir de diversas perspectivas. Publicaremos um relatório de atividades no início de 2021 com as principais conclusões”.

 

Atuando em seu território, Wemmia Santos é coordenadora do Programa LECria, (Laboratório de Empreendimentos Criativos) um edital de fomentos para empreendedores periféricos que, a cada ano, doa R $10 mil para 10 empreendimentos. Essa iniciativa surgiu após um estudo territorial: “Estudo realizado pela Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal) aponta que Ceilândia, Águas Claras e Taguatinga são as três Regiões Administrativas com o maior número de microempreendedores individuais (MEI) no setor da cultura, nas atividades artísticas como espetáculos, fotografia e música”, segundo a empreendedora, são empresas criativas que estimulam o mercado e são responsáveis pelo aumento da qualidade de vida na região. “O LECria, tem como objetivo instigar ainda mais o empreendedorismo criativo na construção e ampliação da economia solidária entre a juventude, oportunizando a inclusão de novas formas de empreender nas artes, danças, música, comunicação entre outros nichos”. Completa.

 

Dessa forma, além de fomentar a criação a Feira da Quebrada, Wemmia traz o conceito de loja colaborativa, como forma de ligar o empreendedor com o cliente: “A loja colaborativa RAIX, na Praça do Cidadão, em Ceilândia, foi criada com o objetivo de fomentar o empreendedorismo entre jovens periféricos trazendo um formato colaborativo, que já é tendência validada, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A ideia é sermos um veículo que conecta o vendedor ao cliente, cedendo o espaço por um valor justo e acessível, espaços compartilhados tem sido uma ótima solução para empreendedores iniciais e de pequena escala que buscam otimização de custos e escoamento de estoque, tendo em vista a impossibilidade de arcar sozinhos valores fixos, como aluguel, manutenção, funcionários, divulgação, dentre outros, fazendo assim que permaneçam por mais tempo na informalidade”, completa.

 

Márcio acredita que programas de recuperação econômica, como proposto pelo Fundo Baobá, são iniciativas louváveis e importantes para o desenvolvimento e fortalecimento do empreendedorismo negro no Brasil: “É necessário que outras organizações, públicas e privadas, sigam o exemplo do Fundo Baobá com vistas a possibilitar que inovações econômicas e sociais sejam conquistadas através do empreendedorismo de pessoas negras, que beneficia a todos/as, negros/as e não negros/as”. 

 

Wemmia Santos, que é uma das mulheres apoiadas pelo Fundo Baobá no Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, também reforça o coro: “Se eu não tivesse participado de um edital de fomento, com certeza boa parte das ações que executamos hoje não seriam possíveis. Fico feliz em ver cada vez mais iniciativas que incentivam pessoas negras a buscarem seus sonhos de forma ampliada”.

Representatividade negra nos espaços de tomadas de decisão e educação como ferramenta de equidade racial foram temas de lives com participação do Fundo Baobá

No mês dedicado à consciência negra, a direção do Fundo Baobá para Equidade Racial participou de lives e webinarios falando sobre equidade racial, representatividade negra nos espaços públicos e de tomadas de decisões, a importância da educação como instrumento na redução das desigualdades sociais e raciais e o papel da mídia na cobertura da pandemia do novo coronavírus, doença que escancarou o racismo e acentuou ainda mais as desigualdades em nosso país.

A primeira live de novembro aconteceu no dia 5, dentro do projeto “Redes&Raízes” do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, em parceria com o Observatório da Juventude do UNFPA, e contou com a participação da diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, no treinamento “Captação de Recursos para Organizações”. Selma exemplificou para os jovens presentes o conceito de captação e como deve ser realizado: “Captação é igual negócio, você precisa investir para ter retorno. Tem que pensar quais são os recursos disponíveis para trazer o investimento. Isso não acontece magicamente”.

Durante o evento virtual, o participante do Observatório da Juventude da UNFPA, Hugo Sabino dos Santos, fez o seguinte comentário: “A apresentação da Selma me trouxe muitas reflexões sobre entender o lugar de quem está nessa posição de captador. Entendi o quão necessária é a minha formação sobre o conhecimento da instituição em que trabalho, porque, possivelmente, também eu esteja dentro dessas reuniões, desse discurso e dessa troca de captação”.

Diante dessa reflexão, Selma respondeu: “A gente tem uma equipe bem pequena no Fundo Baobá, mas todo mundo tem que ser captador, isso não significa que vai estar sempre à frente [da captação]. Se, às vezes, você vê uma oportunidade ou lê um edital, mas se não está conectado com a alma da organização, pode deixar passar”.

No dia 26, Selma Moreira retornou para outra formação do “Rede&Raízes” sobre captação de recursos, que teve a participação de 19 jovens representantes de coletivos, organizações e iniciativas para as juventudes negras. Selma apresentou passo a passo para que as entidades possam se afirmar, citando por exemplo, a criação de alinhamentos institucionais estratégicos. Além de construir um planejamento orçamentário, um plano de mobilização de recursos buscando pessoas e parceiros para dialogar e criar estratégias de captação. “O trabalho de captação pelos coletivos possuiu uma camada a mais, que é a camada da barreira jurídica. Existe o desafio do tempo presente, as organizações não estão preparadas para lidar com coletivos (grupos que não sejam formalmente constituídos como organizações da sociedade civil). É uma questão do nosso modelo jurídico, muitas vezes o projeto tem conexão, mas não tem institucionalidade – dado que o coletivo não tem CNPJ.” 

Segundo a diretora-executiva do Fundo Baobá, o ambiente e a visão de empresas estão em transformação e as organizações da sociedade civil podem auxiliar neste processo: “Parte do nosso trabalho é construir caminhos e deixar nítido para as instituições que esses pontos não devem ser encarados de maneira superficial”.

A cobertura completa do evento, você pode acompanhar na matéria completa no site oficial da UNFPA

O curso virtual “Raça, Gênero, Democracia e Participação Política no Brasil”, uma iniciativa do Instituto Geledés da Mulher Negra, em parceria com a Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo, contou com nove aulas semanais, dos dias 22 de setembro a 17 de novembro. E no dia 10 de novembro, aconteceu a aula de número oito, com o tema Promoção da Equidade de Raça e Gênero, e teve a participação da diretora-executiva do Fundo Baobá, pós-graduada em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas, pela Escola de Comunicação e Artes da USP e MBA em Gestão e Empreendedorismo Social, pela FIA,  Selma Moreira, ao lado do doutor em sociologia e pós doutor no departamento de estudos africanos e da diáspora africana pela universidade de Wisconsin, Sales Augusto dos Santos, com a mediação da professora e mestre Suelaine Carneiro.

Em sua fala, Selma apresentou o trabalho do Fundo Baobá e destacou: “Um dos desafios que nós temos é como conseguir constituir a pauta da equidade racial em uma conversa para todo o mundo. Hoje o movimento negro tem feito um esforço hercúleo para entrar em mentes e corações, e eu acho que a gente consegue sonhar quando a gente alcança esse espaço, nessa perspectiva do quanto é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mais equânime e mais inclusiva, conseguir entender as diferanças e, a partir delas, dar um passo para o nosso próximo momento como sociedade.” 

Selma aproveitou para frisar a importância de se trabalhar com investimentos focados na promoção da equidade racial no país: “A gente vive um momento, em todo o mundo e,  principalmente no Brasil, onde negar a existência do racismo, fazendo um discurso só com uma perspectiva de classe, não é mais suficiente, em função de todos os movimentos realizados, promovidos historicamente pelo movimento negro. A gente chegou em um momento que não se permite mais negar a necessidade de investimentos focados. As organizações como o Fundo Baobá, que fazem parte da Rede de Fundos para Justiça Social, tem promovido esse diálogo, na perspectiva de repensar os seus investimentos, mas também de pensar os seus times; trabalhar na perspectiva de inclusão; trabalhar as relações raciais, tanto no escopo programático, da forma como se investe e qual o diálogo é feito com o campo, mas também em um olhar interno. Eu diria que esse discurso, ele tem aberto espaço para dialogar com as empresas onde ainda há resistência e uma certa timidez”.   

Confira a aula completa aqui

Selma Moreira, também participou no dia 17 do evento internacional “Moving Forward: Rebuilding a More Just and Equitable Educational Future” (Seguindo em frente: reconstruindo um futuro educacional mais justo e equitativo), organizado pela WISE, que é uma plataforma internacional multissetorial para pensamento criativo, debate e ação proposital, promovendo a inovação e construindo o futuro da educação por meio da colaboração. Selma contextualizou o cenário educacional em nosso país, enfatizando as desigualdades raciais existentes no processo, apresentando dados alarmantes: “Um rápido olhar sobre a questão do racismo no Brasil e seu impacto na educação de jovens negros apresenta números que chocam, pois os negros correspondem a 56% da população brasileira, mas quase 10 a cada 100 negros com idade acima de 15 anos não sabem ler e escrever. A taxa de analfabetismo é 3 vezes maior em negros que em brancos. 76% dos jovens brancos entre 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio, entre negros, este número cai para 62%. 55,8% de brancos concluem o ciclo básico de educação, entre negros o número cai para 40,3%”. Selma também usou o espaço para falar sobre a atuação do Fundo Baobá na promoção da equidade racial no país: “Junto com Desenvolvimento Econômico, Viver com Dignidade, Comunicação e Memória, Educação é um dos eixos que definimos para a atuação do Baobá – que atualmente é o único fundo brasileiro que se dedica, exclusivamente, à promoção da equidade racial para a população negra. Tanto que este ano, mesmo em meio à pandemia do coronavírus, o Fundo Baobá lançou um edital, em parceria com a Fundação Citibank, para preparar jovens da periferia de São Paulo, a maior cidade do país, a alcançar o ensino superior”. O Programa Já É – Educação para Equidade Racial, citado por Selma, inclui o custeio dos estudos em cursinho preparatório para o vestibular e as despesas com transporte e alimentação ao longo do programa, que deve ter duração de 12 meses, além de atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, incluindo programa de mentoria.

Confira abaixo

No dia 25 de novembro, o presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, mediou uma importante discussão: Onde estão os negros no Serviço Público. Segundo dados do IPEA (Instituto Nacional de Pesquisa Econômica Aplicada),  divulgados este ano, o número de funcionários públicos no Brasil é de 11,4 milhões nas esferas federal, estadual e municipal. 

Embora o governo não torne público dados do número de funcionários por recorte de cor ou raça,  estima-se que apenas 35% dos postos do serviço federal são ocupados por negros. A Prefeitura de São Paulo é a única no País a ter um recorte por raça e cor dos seus funcionários: 28,6% deles, ativos da Prefeitura de São Paulo são negros. E eles têm participação maior nos quadros de nível básico, em que representam 48%. 

Foi para discutir caminhos para um maior acesso dessa população que o Instituto República chamou, Matilde Ribeiro, ex-ministra da Seppir (Secretaria de Políticas para Promoção da Igualdade Racial), Eloi Araujo, ex-ministro da Seppir (Secretaria de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial) e Paulo Paim, atual senador da República pelo estado do Rio Grande do Sul. 

Giovanni Harvey que também já atuou em diferentes instâncias de governo, iniciou o debate com uma indagação sobre como é possível contribuir para uma diversidade de pessoas no serviço público. 

Para Matilde Ribeiro “a gestão, no sentido do desenvolvimento, tem que ser democrática, participativa, visando o bem comum. Pessoas em diferentes posições no jogo, mas o jogo deve ser jogado por todos. Já as ações afirmativas, como forma de construção de Justiça diante de situações de desigualdade, passa pela  ação por construção de diversidade, construção de inclusão, construção democrática de participação e construção do desenvolvimento igualitário. As duas coisas, portanto, têm total conexão”, afirmou.  

O senador Paulo Paim, corroborando com o pensamento de Matilde Ribeiro, enalteceu em sua fala as importantes contribuições que as várias vertentes do movimento negro deram para a construção de políticas inclusivas dentro do funcionalismo público e em outros segmentos do trabalho. “A criação do Estatuto da Igualdade Racial é uma das grandes vitórias do movimento negro brasileiro. Foi por intermédio dele que, em 2014, foi estabelecida a Lei de Cotas no Serviço Federal, a Lei 12.990/14. Um benefício para muitos que estavam à margem desse processo de sequer poder aspirar a um cargo na esfera pública federal”, afirmou. 

Embora exista uma Lei de Cotas, para o ex-ministro Eloi Araujo isso ainda não é o suficiente. A reivindicação tem que ser maior. “Quero pensar sobre como somos minoria na administração pública. Os números divulgados pelo IPEA dão conta da minoria absurda que é a comunidade negra na administração pública. Na diplomacia não somos 6% de negras e negros. Entre embaixadores não contamos 10 negros. e negras. Na auditoria da Receita Federal,  não chegamos a 15% de negros e negras”, disse. 

Para Araujo, é preciso maior avanço na presença negra no serviço público de uma forma geral. Para isso, ele pede uma mobilização. “Temos que avançar em algumas políticas públicas. Criar protocolos rigorosos no sentido de proteger a saúde, proteger a vida de negros e negras que são ofendidos nas favelas. Que são ofendidos pelo Estado brasileiro. Criar protocolos rigorosos  para avançar nas políticas de ação afirmativas, notadamente nas políticas de cotas. Essa é a forma mais intensa de avançar com a perspectiva educacional, uma perspectiva de ingressar a juventude negra na universidade. Agora que o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) ganhou esse conceito constitucional, temos que estimular a juventude negra a ir para as universidades e prestar concursos públicos para todos os cargos da administração pública superior”, afirmou.

Acompanhe a live completa abaixo

No mesmo dia, a diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, foi uma das convidadas da live “Um olhar para a mídia negra no ‘novo normal’: Potencialidades e desafios”, organizada pela Revista Afirmativa, em parceria com o Lab Afirmativa de Jornalismo, que marcou o lançamento do Ebook “Narrativas Afirmativas em Tempos de Pandemia”. O evento mediado pela jornalista Alane Reis contou também com Thales Vieira (Instituto Ibirapitanga), Lígia Batista (Open Society Foundation), Atila Roque (Fundação Ford), Rosana Fernandes (Cese), Taciana Gouveia (Fase), além da estudante de jornalismo, Andressa Franco, e da jornalista recém formada, Brenda Gomes, ambas contribuíram na produção do Ebook.

As estudantes de jornalismo, Andressa Franco e Luana Gama, escreveram a matéria “Emprego, renda e Covid-19: O impacto da pandemia na vida dos trabalhadores negros”, que narrou histórias de pessoas como o jovem Matheus Cardoso, que mora no bairro de Pernambués em Salvador (BA), e durante a pandemia passou a trabalhar como entregador de comidas por aplicativo, após ser dispensado do estágio em uma academia. Assim como também nos apresentou a vida de Darcilene de Jesus, moradora do bairro Engomadeira em Salvador (BA), que trabalha como diarista. Antes da pandemia, ela fazia faxina três vezes por semana na casa de uma senhora que morava com a filha. Após as medidas de isolamento social foi dispensada pela patroa, que faz parte do grupo de risco. Sem carteira assinada, sem benefício algum e com um filho de três anos, Darcilene passou a receber o auxílio emergencial.

Para Andressa Franco, escrever essa matéria e acompanhar esses relatos “foi muito mais do que contar histórias, foi a oportunidade de ter empatia com todas elas. Nós conseguimos construir novas perspectivas para o futuro”.

Brenda Gomes, por sua vez, ao lado da estudante de jornalismo, Thaís Vieira, assinou a matéria “Mirtes Souza e Danúbia Silva: Mães entre a saudade e a revolta”. O texto conta a história de “Duas maternidades que foram interrompidas durante a pandemia”, alerta Brenda. A história de Mirtes ficou conhecida no Brasil todo. A empregada doméstica de Pernambuco, que saiu para levar os cachorros dos patrões para passear e deixou o filho, Miguel, no apartamento junto com a patroa e primeira-dama da cidade de Tamandaré (PE), Sari Corte Real. A criança saiu do apartamento de Sari, no 5º andar, para procurar a mãe e foi até os elevadores do condomínio. A patroa acionou a tecla do elevador que dá acesso à cobertura. Miguel parou no 9º andar, escalou um vão e alcançou uma unidade condensadora de ar, se desequilibrou e caiu do prédio.

Brenda Gomes também contou a história da baiana Danúbia Santos,  que perdeu o seu filho Marcus Vinícius, de 21 anos. Ele saiu de casa para comprar bolo para celebrar o aniversário de 1 mês do seu filho e foi atingido por tiros e chutes na costela, durante uma operação da polícia militar.

Mediando o bate-papo, Alane Reis ressaltou que histórias como as de Danúbia, Mirtes, Darcilene, Matheus e muitas outras registradas no Ebook só foram contadas porque a mídia negra cumpre essa função de contar a sua própria história: “Somos nós falando de nós para todo o mundo”. Alane ainda citou que há 65 mídias negras no Brasil e que esse trabalho pode se intensificar ainda mais se houver uma unidade: “Apesar da mídia negra ser tão forte, existe uma necessidade que a gente dialogue mais”.

Lígia Batista, da Open Foundation Society, também ressaltou a importância histórica da atuação das mídias negras em nosso país, principalmente em tempos de pandemia, onde se acentuaram ainda mais as desigualdades: “A mídia negra tem o papel de ressignificar a nossa história, acabando de uma vez por todas com o mito da democracia racial”.

“São as mídias negras que movem a estrutura narrativa, elas são as placas tectônicas narrativas”, diz Thales Vieira do Instituto Ibirapitanga: “Afinal de contas, as histórias estão sendo contadas o tempo todo, mas quem está contando as nossas histórias e como estão contando?” questiona.   

O diretor-executivo da Fundação Ford para Brasil e América Latina, Atila Roque, fez questão de ressaltar a importância da produção do Ebook ter sido feita por 11 jovens negros, além de as equipes de editoração e diagramação também serem negras: “É impossível não olhar para essas carinhas e não ter uma explosão de esperança e um sopro de visão de futuro, Nós precisamos redimensionar as nossas possibilidades de reimaginar o Brasil.”

Fernanda Lopes, ressaltou que o direito à informação é um direito humano e que a mídia negra cumpre o papel de informar e fazer valer esse direito, ao construir novas narrativas: “É importante reiterar esse lugar do jornalismo de escrevivência, que retrata a sociedade brasileira nessas diferentes dinâmicas, sendo a forma de oferecer para a sociedade a oportunidade de mudar paradigmas, desnaturalizar estigmas, construir novas representações sociais e um novo imaginário coletivo sobre a população negra brasileira”. Por fim, a diretora de programa do Fundo Baobá afirmou: “O futuro é a transformação e o novo normal é a mudança”.

Para Taciana Gouveia, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), e grande parceira do Lab Afirmativa de Jornalismo desde 2016, não há nada de novo para as populações mais vulneráveis, no contexto da pandemia do novo coronavírus: “Não há nada de novo na forma como vivem as favelas, as populações vulneráveis e LGBT+, quem é privilegiado, continua sendo privilegiado. Não existe novo normal”.

Rosana Fernandes, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), também traz a sua visão crítica para o chamado “Novo Normal”: “O normal pra gente é isso que a gente vê todos os dias, é isso que está no Ebook, essa tragédia cotidiana, que nós mulheres, homens negros, particularmente, vivenciamos todos os dias, a juventude que é exterminada e a mulher que tem o seu filho morto por uma bala perdida, que na verdade é uma bala acertada”. 

 Leia gratuitamente o Ebook Narrativas Afirmativas em Tempos de Pandemia aqui. E acompanhe a live completa abaixo.

Baobá na imprensa em novembro

O penúltimo mês do ano foi de muitas atividades e participação na mídia para o Fundo Baobá para Equidade Racial, sendo a principal o lançamento do Edital de Recuperação Econômica, que tem como foco fortalecer pequenos negócios liderados por negros, que representam a maioria dos empreendedores no Brasil.

O edital nasce do duplo reconhecimento de que pessoas negras que empreendem sofreram mais com a recessão econômica provocada pela pandemia e de que são eles que podem gerar maior inserção social ao se recuperar e se desenvolver. 

Foi dada ampla divulgação ao edital, com destaque importante para as entrevistas concedidas à Rádio Bandeirantes e ao Portal R7 que, por sua abrangência, conseguem chegar ao público ao qual o edital se destina. Portais negros, como Jornal Empoderado, Mundo Negro e Notícia Preta, também  fizeram reportagens sobre o tema.

Para fechar o mês, uma importante parceria foi estabelecida com a Google, com a doação de  US $400 mil para viabilizar projetos de promoção da justiça racial e combate à violência contra a população negra. Esse valor equivale a algo em torno de R $2,1 milhões.

EDITAL DE RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

11/11 – Mundo Negro

11/11 – Jornal Empoderado 

11/11 – MS Pontocom

19/11 – Notícia Preta

19/11 – Rádio Bandeirantes – Áudio

20/11 – Band

20/11 – Época Negócios

25/11 – R7 

13/11 – Folha de São Paulo 

16/11 – Exame

 

PARCERIA GOOGLE

Imprensa

19/11 – Folha de S. Paulo

20/11 – Canaltech

20/11 – Forbes

20/11 – Yahoo

20/11 – TI Bahia

20/11 – TI Inside

20/11 – Revista Raça  

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CASO CARREFOUR: 

24/11 – Folha de São Paulo – Entrevista Giovanni Harvey

Fundo Baobá divulga a lista de selecionados para Programa Já É: Educação para Equidade Racial

Hoje, 10 de dezembro, celebramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Foi também em um dia 10 de dezembro, no ano de  1948, durante a assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), em Paris (França), que foi instituída a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Composta por 30 artigos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos traz os direitos que todo ser humano tem ao nascer e ao longo de toda vida, entre eles, está a educação. No 26ª artigo diz que “Todo ser humano tem direito à educação”, e ainda reforça que “A educação será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais”.

Acreditando na importância da educação para a promoção da justiça social, que o Fundo Baobá para Equidade Racial, com o apoio da Citi Foundation, lançou o Programa Já É: Educação para Equidade Racial.

Lançado no dia 10 de julho de 2020, para apoiar 100 jovens negros, residentes em bairros periféricos de São Paulo e outros municípios da região metropolitana, a acessarem o ensino de nível superior. O programa inclui não só os custos dos estudos em cursinho preparatório para o vestibular e as despesas com transporte e alimentação ao longo do programa.

Ele prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais e ainda mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas, experiências profissionais e de vida.

O Programa Já É, teve 245 pessoas inscritas, até o encerramento das inscrições no dia 9 de agosto de 2020. A segunda etapa de seleção do edital foi classificatória e aconteceu dentro do período de 05 de outubro a 10 de novembro. Foram convidados para a entrevista 211 candidatos, no qual 120 participaram da entrevista.

Hoje anunciamos as 100 pessoas selecionadas para participar do Programa Já É: Educação para Equidade Racial. Confira abaixo a lista em ordem alfabética:

1 – Alan David Vieira Hildebrando
2 – Aline Castro
3 – Ana Claudia Rocha de Souza
4 – Ana Júlia Melo de Lucas
5 – Ana Maria Silva Oliveira
6 – Ângela Ferreira da Silva
7 – Antonio Gustavo Ribeiro Da Silva
8 – Aretha Victoria Ramos dos Santos
9 – Barbara Oliveira Guimaraes dos Santos
10 – Beatriz Moreira Passos da Silva
11 – Beatriz Sampaio do Nascimento
12 – Bianca Paixao Silva
13 – Bruna Cypriano da Silva Pacheco
14 – Camila Carvalho Santos
15 – Carlos Eduardo de Castro Cerqueira
16 – Caroline Cristina Santos Gino
17 – Cherisch Dantas Invangelho
18 – Clarissa Beatriz Da Costa Bulling
19 – Eduardo Silva de Souza
20 – Emily Tauany Souza Andrade Pereira
21 – Erick dos Santos Rodrigues
22 – Fernanda Ferreira dos Santos
23 – Flavia Martins de Santana
24 – Gabriel Lima Viana Silva
25 – Gabriella Beltrão Martins Mota
26 – Gabrielly Maria Silva
27 – Geovana de Carvalho Teles de Amorim
28 – Geovanna da Silva Melo
29 – Giovanna Oliveira Correia da Silva
30 – Giovanna Vitória Dos Santos Xavier
31 – Gustavo de Jesus Oliveira
32 – Gustavo de Jesus Soares
33 – Ikaro Ricardo Sampaio Cruz Vieira
34 – Ione Vitor Mendes
35 – Isabella Alcantara dos Santos
36 – Isabella Amaro da Costa Oliveira
37 – Isaque Rodrigues de Oliveira
38 – Izabel dos Santos Neimeir
39 – Jaini Da Silva Macedo
40 – Jakeline Souza Lima
41 – Jefferson Luis Ramos do Nascimento
42 – Jessica Santos Paixão
43 – João Gabriel Ribeiro dos Santos
44 – João Pedro Araújo da Silva
45 – João Victor dos Santos Bezerra
46 – Joyce Cristina Nogueira
47 – Julia Camile Da Silva Santos
48 – Julia Firmino Gabriel
49 – Karine Lopes dos Santos
50 – Kerollyn Silva Alves
51 – Ketlen Leandra Carvalho
52 – Laiza Catarine Ferreira Diniz
53 – Larissa Araujo Aniceto
54 – Laryssa Lorrany Gonçalves de Oliveira/ Leonardo
55 – Laura Tatiana Alves Mendonça Prates
56 – Laysa Stefani de Almeida Brito
57 – Leandro Gomes de Oliveira
58 – Livia Ferreira Estanislau
59 – Luana Silva Santos
60 – Lucca Catherine Ferreira dos Santos
61 – Luiz Benedito Ferreira de Oliveira
62 – Luiz Fernando Muniz Oliveira
63 – Luiz Vinicius Reis Silva
64 – Luíza Firmino Gabriel
65 – Maria Eduarda Da Silva Souza
66 – Mateus Gomes dos Santos
67 – Maura Maria de Araujo Ramos
68 – Max Juan Oliveira Santos
69 – Mayara Maria Malta
70 – Maysa Silva Dias
71 – Melissa de Jesus Calixto Costa
72 – Micheli Karoline da Silva Santos
73 – Murilo Alves de Oliveira
74 – Naomi Brito
75 – Natália dos Anjos Oliveira
76 – Natalini Santos de Jesus
77 – Natan Conceição da Silva Santos
78 – Natanael Teodoro dos Santos
79 – Nayara Silva de Oliveira
80 – Nicholas Welington Crisologo Gonçalves
81 – Paulo Vicco
82 – Raphaela Dos Santos Moura
83 – Raquel Pinheiro De Carvalho
84 – Rayane Jesus Santos
85 – Rayanne Caetano da Silva
86 – Rhasna Neves Ferreira
87 – Rubianne Yasmini de Paula Araujo
88 – Tallita Soares de Andrade
89 – Taluma Gabriely Sousa Ferreira
90 – Taynara Silva Santos
91 – Thais Vieira Costa
92 – Thauany Christina Gabriel Aniceto
93 – Thereza Eliete Oliveira Ribeiro/ Breno Oliveira Ribeiro
94 – Vanessa da Silva Souza
95 – Victor dos Passos Moreira
96 – Vinicios Gabriel Salatiel
97 – Vinicius Ribeiro
98 – Vitoria de Jesus Damasceno
99 – Vitoria Nunes
100 – Wellington Marcelino

Parabéns a todas as pessoas selecionadas. O Fundo Baobá para Equidade Racial entrará em contato por e-mail com todos vocês. As aulas começam em março de 2021, mas em fevereiro haverá encontro virtual para orientações gerais. Também nesse mês acontece a assinatura do contrato de bolsa e benefícios.

As e os jovens selecionadas(os) pelo Programa JÁ É serão periodicamente avaliadas por profissionais especializados em relação ao seu desempenho e performance no processo preparatório para o vestibular e, além disso deverão frequentar as atividades obrigatórias e apresentar relatórios periódicos de progresso, seguindo as orientações e formulários disponibilizados pelo Fundo Baobá.

Caso haja desistência, as pessoas que estiverem na lista de espera serão convocadas. A convocação irá acontecer no início de março de 2021.

Confira a lista de espera em ordem de classificação

LISTA DE ESPERA EM ORDEM DE CLASSIFICACAO
1 – Alice Silva Gomes
2 – Anna Beatriz da Silva Garcia
3 – Caroline Vitória Rocha Dos Santos
4 – Kenya Cristina S. Pereira
5 – Karina Leal de Souza
6 – Joselaine Romão Soares
7 – Malcolm Da Silva Barreto
8 – Thiago Nery da Silva
9 – Thaís Lopes de Souza
10 – Thais Sousa Silva
11 – Luiz Felipe Motta da Silva
12 – Heloisa Cristina
13 – Marcos Agostinho da Silva Filho
14 – Ewerton de Jesus Lima
15 – Pietra Isabelle dos Reis

 

Nota Oficial sobre o assassinato do Senhor João Alberto Silveira Freitas

Nota Oficial sobre o assassinato do Senhor João Alberto Silveira Freitas

As instâncias de Governança do Fundo Baobá para a Equidade Racial expressam, em nome de todas as pessoas que fazem parte da instituição, a mais absoluta perplexidade, indignação e repulsa com a sequência criminosa de atrocidades perpetradas por “seguranças” da rede Carrefour, na noite de ontem, dia 19 de novembro de 2020, nas dependências de uma das unidades da rede, localizada na cidade de Porto Alegre.

Os empreendimentos comerciais e as instituições públicas não podem mais continuar a se eximir da adoção de medidas de prevenção e nem, tampouco, continuarem a terceirizar as suas responsabilidades em episódios desta natureza.

O assassinato de um cidadão negro, por dois pretensos “seguranças”, supostamente vinculados à empresa Vector Segurança, sendo um deles integrante da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, é um crime bárbaro cujas consequências não podem, mais uma vez, serem geridas dentro da “zona de conforto” das marcas.

Expressões como “romperá contrato com a empresa que responde pelos seguranças ”, “desligamento do funcionário que estava no comando da loja” e “o Carrefour lamenta profundamente” não surtem mais efeitos diante dos reincidentes episódios, tornados públicos desde as agressões sofridas pelo senhor Januário Alves de Santana, em 2009, em uma unidade do Carrefour na cidade de Osasco, no Estado de São Paulo.

As instâncias de Governança do Fundo Baobá têm consciência de que as agressões físicas praticadas por “seguranças” de shoppings centers e estabelecimentos comerciais não se limitam à rede Carrefour. Episódios de discriminação e racismo fazem parte do nosso cotidiano e acontecem todos os dias, em todo o Brasil.

Estes crimes, recorrentes e previsíveis, seriam evitados caso houvesse uma ação efetiva de prevenção e controle da truculência da força de trabalho, notadamente na linha de frente do atendimento.

O enfrentamento ao racismo estrutural e às expressões da branquitude devem ser uma responsabilidade de todas as instituições, empresas, cidadãos e cidadãs, sem prejuízo da ação dos entes federativos que constituem o Estado brasileiro, através da implementação de políticas públicas. O momento exige iniciativas que vão além da punição de crimes: precisamos nos unir para superar os gargalos que impedem a equidade e a justiça social, para criar laços e fortalecer o respeito entre todes, independentemente da origem étnica, do gênero ou da orientação sexual.

Este trágico episódio exige, no mínimo, por respeito póstumo à memória do senhor João Alberto Silveira Freitas e ao luto da sua família, uma ação contundente e articulada da sociedade brasileira, das instituições judiciárias e dos órgãos responsáveis pela tutela e controle da atividade jurisdicional.

São Paulo, 20 de novembro de 2020

Comitê Executivo do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá para Equidade Racial

Giovanni Harvey

Sueli Carneiro

Amália Fischer

O despertar da consciência

Kizomba, palavra de origem africana, significa uma grande reunião de pessoas para uma também grande celebração de identificação. Em todo 20 de Novembro, gente negra de todos os cantos do Brasil se reúne, nas mais diferentes formas, para celebrar a memória de Zumbi dos Palmares, líder e herói, símbolo de uma luta iniciada bem antes de sua morte em 1695 pela liberdade de seu povo. Um grande motivo para se juntar.  

E hoje, ao celebrar a memória de Zumbi, vivemos mais uma perda. Na noite de 19 de novembro, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, homem negro, foi espancado até a morte por seguranças de uma empresa varejista, em Porto Alegre. 

A morte de João Alberto Silva Freitas torna esse 20 de novembro de 2020 ainda mais diferente. Neste ano, que encerra a segunda década do século 21 e que foi marcado por uma pandemia sem precedentes, que expôs de forma crua e cruel o que a desigualdade racial significa para o Brasil, temos uma oportunidade ímpar para despertar a consciência da sociedade brasileira acerca dos impactos do racismo. 

O despertar de uma consciência raramente é um processo fácil. Tanto em nível individual, como em coletivo, o que não é consciente geralmente está nas sombras: são atos, fatos, memórias e projeções que preferimos não enxergar. Mas em 2020 foi impossível não enxergar o jovem negro sufocado até a morte por policiais norte-americanos. Ou tiros nos morros cariocas vitimando jovens negros dentro de casa ou a caminho da escola. Ou os percentuais mais elevados de óbitos causados pela Covid19 entre negros.

Vivemos um ano de maior despertar da consciência. Um ano no qual nós, do Fundo Baobá, abrimos canais de interlocução com diversos outros atores da filantropia que, em maior ou menor grau, estão percebendo a importância de adotar as lentes da equidade racial em seus programas e projetos ou mesmo na estrutura organizacional.  A oportunidade é imensa: segundo o último censo da filantropia realizado por institutos e fundações empresariais, promoção da igualdade racial responde por apenas 14% dos projetos e programas apoiados. 

No final de outubro, realizamos um riquíssimo debate sobre filantropia para promoção da equidade racial no Brasil. Ao longo do ano – e um ano de pandemia, de confinamento, de retração econômica – conseguimos lançar cinco editais: dois de apoio emergencial a pessoas e famílias mais afetadas pela pandemia da  Covid19; um para apoio a pequenos negócios de empreendedores(as) negros(as); um edital que dialoga com a comunidade acadêmica negra;  além de um edital de apoio a jovens negros(as)  que desejam ingressar na universidade.

Conseguimos avançar porque mais e mais parceiros estão se juntando a nós. É como diz o ditado: uma andorinha só não faz verão.  Precisamos que mais pessoas, mais empresas, mais fundações, institutos e fundos filantrópicos se juntem na caminhada em direção à equidade racial. Esse precisa ser um indicador de consciência e de justiça adotado pelo  Brasil, cuja população é composta por  56% de pessoas que se autodeclaram negras (pretas ou pardas). Cuja história, cultura, ciência, artes, esportes foram forjados com participação decisiva de negros. 

Nós, juntos, temos que tornar o Brasil um país mais justo. Você tem papel fundamental nisso. A sua ação de engajamento é importante. Faça parte da rede de organizações e pessoas que lutam por em busca de um país igualitário. Vamos, junte-se! 

Despertar não é um ato, mas um processo. Estamos despertando cada dia mais, cada dia melhor.  Apesar dos inúmeros desafios, há avanços – e contribuir com a promoção desses avanços é o DNA do Fundo Baobá.

Fundo Baobá terá financiamento do Google.Org para apoiar Projetos De Justiça Racial

O Fundo Baobá para Equidade Racial – primeiro e único fundo dedicado exclusivamente à promoção da equidade racial no Brasil – contará com financiamento do braço filantrópico do Google para apoiar projetos focados no avanço da justiça racial e no combate à violência contra a população negra no Brasil. O anúncio foi feito nesta sexta-feira, 20, Dia da Consciência Negra e envolve doações que totalizam US$ 400 mil (cerca de R$ 2,1 milhões). 

Esses recursos viabilizarão edital a ser lançado em 2021 com vistas a apoiar 10 organizações negras para execução de projetos locais focados em temas como acesso à justiça e combate à violência contra população negra, em especial a juventude negra, dentro das prioridades de investimento do Fundo Baobá  ligadas ao eixo viver com dignidade.

Além do apoio financeiro, as organizações negras de base comunitária selecionadas irão participar de jornadas de fortalecimento institucional, a fim de que, no futuro, possam ter mais autonomia para buscar novos financiamentos,  disseminar resultados e boas práticas.   Parte dos recursos doados pelo Google também irá financiar a operação do Fundo Baobá. 

“Segundo o último censo da filantropia realizado por institutos e fundações empresariais, promoção da equidade racial responde por apenas 14% dos projetos e programas apoiados”, destaca Selma Moreira, diretora do Fundo Baobá. “O apoio do Google.org tem um potencial que vai além das organizações que serão apoiadas com os recursos financeiros destinados à justiça racial. Trata-se de um importante exemplo para que outras instituições abracem o desafio e  promovam a equidade racial no Brasil”, analisa.

“O Google continuará a apoiar a luta por justiça racial. Acreditamos em um sistema de justiça baseado na equidade para todos, orientado por dados e apoiado por soluções baseadas na comunidade. Temos orgulho de apoiar as organizações que estão enfrentando esse desafio complexo”, diz Justin Steele, diretor de Google.org nas Américas.

Fundo Baobá lança edital para apoiar empreendedores negros e empreendedoras negras no contexto pós-pandemia

O Fundo Baobá para Equidade Racial apresentou, no dia 11 de novembro, uma grande oportunidade para micro e pequenos empreendedores. É o Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), que vai apoiar 47 negócios que precisem de um aporte financeiro para melhor se desenvolver. Esses negócios têm que ser comandados por pessoas (homens e mulheres) negras que toquem os seus negócios em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica. O investimento é de R$ 1,6 milhão, com inscrições no site do Baobá até o dia 20 de dezembro. Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votantim apoiam a iniciativa do Fundo Baobá.

As pessoas negras que empreendem sofreram mais com a recessão econômica provocada pela pandemia. “Fomentar o empreendedorismo negro, contribuindo para o desenvolvimento e ampliação das habilidades das lideranças e aceleração de seus  negócios, é um dos instrumentos necessários para que o pleno potencial da população negra seja alcançado e para que se construa uma sociedade justa”, explica Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá.

“O Instituto Coca-Cola Brasil tem como objetivo passar de milhares para milhões de jovens impactados através de programas, parcerias e ecossistema no qual atua. Impulsionar o fortalecimento dos principais afetados pela pandemia é fundamental para alcançarmos este objetivo”, afirma Daniela Redondo, diretora do Instituto.

Para assegurar um impacto mais profundo, o edital estabelece que as propostas devem ser inscritas, em conjunto, por três pequenos empreendedores(as) negros(as) que já atuem em parceria ou queiram trabalhar de maneira complementar. Não é necessário possuir CNPJ – um detalhe que favorece a adesão de pessoas de comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica. Não há restrições a identidade de gênero e a faixa etária para inscrição é de 18 anos ou mais. Propostas das regiões Nordeste e Norte ou que envolvam negócios liderados por mulheres serão priorizadas.

O edital é exclusivo para empreendedoras e empreendedores negros que tenham pequenos negócios com faturamento de até R$ 6.750,00 (seis mil, setecentos e cinquenta reais) por mês. Os(as)  selecionados(as) vão receber R$ 10 mil cada um (totalizando R$ 30 mil por iniciativa). O programa  inclui ainda mentoria: assistência técnica, formação, troca de experiência entre participantes e empreendedores(as) de sucesso.

As inscrições podem ser feitas de 11 de novembro a 20 de dezembro no site do Fundo Baobá. O programa terá início em 1 de março de 2021, após as três fases de seleção.

O apoio à iniciativa do Fundo Baobá reforça o compromisso das corporações com o combate ao racismo e promoção da equidade racial no contexto econômico brasileiro. O Fundo Baobá – primeiro e único fundo dedicado exclusivamente à equidade racial no País – agrega seu profundo entendimento do tema, de forma que o edital não seja apenas transferência de recursos, mas sim uma iniciativa transformadora nas comunidades onde estão localizados os negócios apoiados.

Fundo Baobá reúne institutos e fundações para debater filantropia para justiça social

O Fundo Baobá para Equidade Racial completa dez anos de atividades em 2021 – nesses longos meses de pandemia do coronavírus no Brasil -, quando as desigualdades socioeconômicas e raciais não deixaram dúvidas sobre seus impactos e perversidade. O cenário no qual o Fundo Baobá incide tornou-se mais severo, exigindo um olhar sobre o presente e sobre o futuro. 

Para discutir motivos e apontar caminhos de solução visando uma mudança nas desigualdades raciais, o Fundo Baobá reuniu algumas das principais lideranças mundiais que trabalham com a filantropia em busca da justiça social. O evento inédito e de peso, organizado pelo J.P. Morgan e pelo Fundo Baobá,  juntou profissionais atuantes na América do Sul e Estados Unidos em um webinário no dia 28 de outubro. Em um país como o Brasil, que carrega a discrepância de ter 55,8% de população negra, mas sem acesso aos bens e serviços em função do racismo estrutural mantenedor das desigualdades sociais e econômicas, a discussão sobre onde realmente os recursos devem chegar para socorrer e gerar a diferença positiva foi de muita importância. 

Para essa pensata, foram convidados algumas das mais expressivas instituições, além de organizações não filantrópicas, comprometidas em contribuir para a construção de sociedades mais justas e igualitárias.  Líderes da Fundação Kellogg, Fundação Ford, Instituto Ibirapitanga, Rede de Fundos para Justiça Social, GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), Instituto Coca-Cola Brasil, The Walt Disney Company, Fama Investimentos e o Philantropy Center J.P. Morgan participaram do webinário Investimentos Filantrópicos para a promoção da equidade racial, promovido pelo Fundo Baobá com apoio do J.P. Morgan. 

Quem conduziu o evento, ocorrido em 28 de outubro, foi Fernanda Lopes, diretora de Programa do Fundo Baobá para Equidade Racial. Em sua fala introdutória, apontou a necessidade de criar narrativas que contribuíssem para a equidade, reduzindo o apartheid vigente no país – em que os negros, embora maioria da população, muitas vezes deixam de ter  suas vozes, seus direitos e protagonismo reconhecidos. “O investimento social privado pode e deve incorporar a perspectiva da justiça racial na concessão de doações. A proposta é pautar, desafiar e, sobretudo, estimular o ambiente corporativo a construir ações inovadoras e concretas para superar o verdadeiro estado de apartheid racial no Brasil.”, disse Fernanda Lopes.  

Segundo a diretora, a abordagem da equidade racial na filantropia tem sido a mistura de avanços e retrocessos. “É essencial examinar onde houve mais e menos avanço, o que contribuiu e o que pode nos ter tirado do caminho”, completou. O objetivo do webinário foi criar uma narrativa sobre como a filantropia e o investimento social privado se desenvolveram no país, qual a história dos principais investimentos e as iniciativas para a promoção da equidade racial. 

Na fala de abertura, Daniel Darahem, presidente do J.P. Morgan Brasil, destacou que nunca é tarde para pensar e promover a equidade. Explicou alguns dos projetos desenvolvidos pelo banco, voltados a jovens negros, como o de formação de lideranças.  “Trabalho há 23 anos nessa organização, mas como presidente estou há menos tempo, peguei a bandeira magistralmente empunhada pelo meu antecessor, eterno amigo e mentor, José Berenguer, que fez excelente trabalho na área de diversidade e inclusão.”

Daniel Darahem – Presidente do J.P. Morgan Brasil

Para ele, séculos de mobilização de movimentos negros geraram conquistas, com muitos desafios e dificuldades. “E como há milhares de talentos que precisam ser incluídos, o banco optou por se engajar com intencionalidade e consistência em um  propósito de busca da equidade, criando vários programas de inclusão ao longo dos anos.” 

Alguns deles são o Advancing Black Leaders, programa global do banco para a formação de lideranças negras e o Black Future Leaders, voltado para  formar, aqui no Brasil,  líderes a partir de jovens negros em início de carreira. A cada dez inscritos, sete são mulheres negras. Por intermédio da J.P. Morgan Chase Foundation, o banco passou a colocar a equidade racial como um de seus focos. “Tivemos erros e acertos. Foram pequenos passos que nos ajudaram a trilhar o caminho certo. O evento de hoje é oportunidade de aprendizado para todos nós.”

Para  Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, o mês da consciência negra marca uma agenda intensa de atividades antirracistas promovidas pelas organizações. O papel da iniciativa privada tem sido pioneiro nesse sentido e deve continuar sendo. 

“Parte da minha vida profissional passei na iniciativa privada que, no Brasil, tem sido pioneira ao longo do tempo. Eram e são empresas que têm entendimento e responsabilidade com a educação e formação de jovens, como a Fundação BankBoston, que criou o Projeto Geração XXI, em 1999,  para contribuir com a melhoria da educação de jovens negros, garantindo a igualdade de oportunidades“, afirmou. Harvey aproveitou para felicitar o J.P. Morgan e as demais instituições presentes pelo empenho em criar ações em prol da equidade racial e por dedicarem seu tempo a essa discussão. 

Giovanni Harvey – Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

O evento contou com quatro mesas, cada uma com três participantes, exceto a quarta, de encerramento, que contou com a presença de Laura Martini Zellmeister, oficial de programa da J.P. Morgan Chase Foundation para a América Latina, e Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial. Confira aqui no site do Fundo Baobá o relato dos outros debates.

Existem débitos históricos com a população negra que a filantropia ainda não equacionou

As relações de poder que, direta ou indiretamente, sustentam o racismo estrutural fizeram parte dos temas mais comentados pelos(as) palestrantes da mesa “Filantropia e relações raciais: presente e futuro”. Esse painel fez parte do webinário Investimentos Filantrópicos para a promoção da equidade racial, organizado pelo J.P. Morgan e o Fundo Baobá, em 28 de outubro.

Alejandra Garduno Martinez, diretora da Fundação Kellogg para a América Latina, relembrou que a Covid-19 expôs, de forma contundente, as profundas desigualdades da sociedade com relação à justiça social e à equidade. Lembrou que o racismo se expressa de muitas formas, algumas invisíveis, mas a pandemia as tornou evidentes. 

Alejandra Garduno Martinez – Diretora da Fundação Kellogg para América Latina

Átila Roque, Diretor Regional da Fundação Ford no Brasil, lembrou que o racismo está estruturado em uma consistente ideia,  construída por séculos, de supremacia branca. “O mundo ocidental é tributário do racismo e o Brasil, historicamente, se colocou no centro desse processo. Basta olhar os números. Do total de 11 milhões de negros trazidos para a América e o Caribe, quase 5 milhões, algo em torno de 46%, vieram para o Brasil. Não dá para desconsiderar essa memória e a dívida que temos.” 

O diretor da Fundação Ford destacou que o grau de dedicação e de investimento da filantropia brasileira é desproporcional ao imperativo ético que é a questão antirracista. “Não há nada mais central do que essa agenda”. Logo, o padrão de desigualdade não é sustentável nem rentável para o país. Por isso, é primordial reconhecer o papel de cada instituição e olhar com franqueza para o quanto cada uma é tributária da ideia de progresso ancorada no legado do colonialismo ou da supremacia branca. 

Átila Roque – Diretor Executivo da Fundação Ford para Brasil e América Latina

Respondendo à pergunta da mediadora Fernanda Lopes, diretora de Programa do Fundo Baobá, Alejandra Garduno Martinez ressaltou que a filantropia avançou nos últimos anos, embora questões antigas continuem latentes, como a intolerância que se agrava frente às posições mais conservadoras de poder, como as que estão em curso na América Latina e Caribe. “Avançamos, sim, nesses indicadores, mas não o necessário. Ainda temos cenários políticos que, em seu conservadorismo, fortalecem discursos pró-racismo”, afirmou. 

Dessa forma, reconhecer a existência do racismo estrutural e dar visibilidade a essa questão é um dos principais desafios da filantropia. “Precisamos gerar maior número de parcerias entre nós e com outros setores, junto a organizações filantrópicas diversas, mas é essencial avaliar como nos associamos, com quem nos associamos e quais as causas sociais que nos permitem aspirar bons modos de vida para todos.”

Embora na última década tenham sido implementados esforços para promover justiça social por meio da filantropia, segundo a diretora falta olhar se as entidades doadoras estão, efetivamente, voltadas para quem precisa, como as organizações negras e as que trabalham pela equidade.

“Na Kellogg, tínhamos essa preocupação desde 1968. Em 2007, iniciamos processo para estabelecer compromisso com uma declaração realmente antirracista, contribuindo para erradicar o racismo moderno”, afirmou. Nessa época, consolidou-se a ideia do Fundo Baobá, criado em 2008, inicialmente como um mecanismo. “Temos que ser claros, explícitos até, na forma como impulsionamos o acesso a um fundo que procura investir, a longo prazo, em modelos que promovam mudanças estruturais sistêmicas.” 

Para Átila Roque, eventos que reunissem fundações, empresas privadas e um grande banco seriam impensáveis há alguns anos, quando a filantropia dava seus primeiros passos no país. “Dificilmente, teríamos essa tela diante de nós. Avançamos, sem dúvida, mas avançamos pouco e tardiamente.”

André Degenszajn, diretor-presidente do Instituto Ibirapitanga, também concorda que houve progresso da filantropia no Brasil, principalmente porque os debates não se restringem mais aos pequenos círculos. Hoje, ocupam também jornais e discussões em família. Mas é preciso avançar mais. “Quando olhamos as estatísticas em qualquer dimensão, como educação, renda, violência, o quadro é assustador. E a ausência de pessoas negras em lugares de poder e não só na política, mas em escolas, por exemplo, é acintosa.” 

Andre Degenszajn – Presidente Instituto Ibirapitanga

Para Degenszajn, é fundamental as organizações buscarem coerência entre seus investimentos para fortalecer o movimento negro e sua constituição, inserindo, por exemplo, pessoas negras na equipe. “Muitos avanços foram alcançados por esses movimentos, como a Lei de Cotas e a Lei Caó. Essas instituições não estão apartadas do racismo estrutural quando se fala do acesso delas a fontes de financiamento. Assim, existe a necessidade de construir caminhos para que isso aconteça”, acrescentou. 

“Temos que ver o quanto nossos mecanismos e critérios de doação servem realmente para permitir o acesso de organizações negras,  de forma que seja cada vez mais acessível empoderar atores que precisam ser promovidos”, afirmou Átila. Um ponto essencial levantado pelo diretor da Fundação Ford é a dúvida que está no DNA da população em decorrência do histórico da colonização, sobre a capacidade dessas organizações serem protagonistas quando beneficiadas com apoio de longo prazo. “Volto a dizer que não existe fórmula, mas temos que olhar onde alocamos os recursos e fazer essa pergunta constantemente. É preciso estimular a dúvida e promover, sem medo, o protagonismo negro.”

O pensamento da equidade racial deve pautar ações diárias

“Temos que pensar a questão racial atravessando tudo o que a gente faz. Isso é mudança de pensamento”. A fala de Ana Letícia Silva, representante da Rede de Filantropia para Justiça Social, permeou a segunda mesa do evento Filantropia e Justiça Racial, que teve como tema “Filantropia no Brasil: eficiência, compromisso com a mudança e a justiça social” e contou também com a participação de Maria Alejandra Oltra, assessora de Filantropia do Philanthropy Center JP Morgan, e Tricia Calmon, membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá. 

As representantes das três entidades estabeleceram suas falas a partir de três questões propositivas: 1) Como a filantropia para a justiça social pode ser mais eficiente?  2) Como deve ser o comportamento de um filantropo(a)? 3) Como as instituições filantrópicas devem medir suas doações e investimentos sociais, considerando a equidade racial como uma meta?  Com esse guia introdutório, discorreram sobre a importância do trabalho filantrópico;  a destinação correta dos recursos da filantropia no Brasil; o povo negro relegado a segundo plano e buscando, por conta própria, os apoios financeiros; a questão do não tratamento igualitário, que acaba gerando privilégios. 

Para Tricia Calmon, a agenda da Justiça Social no Brasil vem se revisitando para pensar o lugar que a discussão do racismo tem ocupado nessas agendas, pois em muito tempo ocupou lugar algum, “obedecendo a um raciocínio que nos educou na história do Brasil, que é o mesmo raciocínio que construiu o projeto de nação brasileira a partir de um pacto de desenvolvimento que partiu da eliminação física e simbólica do sujeito negro”, sintetizou.  “A sociedade brasileira e sua parcela negra têm se reinventado ao longo da história por conta própria e, muitas vezes, encontrando mãos e braços no campo da  filantropia, sobretudo nas comunidades empobrecidas”, completou.

Tricia Calmon – Membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá para Equidade Racial

Nesse contexto, Ana Letícia Silva deu ênfase à necessidade de mudança de pensamento na destinação de recursos, por conta de um fato marcante no Brasil. “Temos 56% da população negra. Temos que fazer essa questão, a racial,  passar pela nossa atuação enquanto entidade”, afirmou. Para ela, o tema da destinação de recursos e de atuação transformadora passa por algo de extrema simplicidade. “Se eu for o Fundo X, que não está ligado à questão da equidade racial, tenho que incorporar esse pensamento da equidade ao que eu fizer todos os dias.” 

A questão da filantropia voltada para a equidade racial não encontra problema de direcionamento de recursos apenas no Brasil. Para Maria Alejandra Oltra, assessora  de Filantropia do Philanthropy Center J.P. Morgan, o problema envolve muitos outros países do continente americano. “Há  países na América Latina que têm políticas tributárias voltadas para a filantropia  Porém, esse não é um traço comum que contribua para que a destinação de recursos nos diferentes países aconteça. Muitos países não possuem essa política tributária, o que dificulta que as iniciativas oficiais de auxílio sejam alcançadas.” 

Maria Alejandra Oltra – Vice President The Philanthropy Center J.P. Morgan

A não existência de uma política voltada para a arrecadação tributária, e a consequente destinação de recursos a entidades filantrópicas, acaba por gerar um grande déficit de recursos. Nesse contexto, coube às grandes entidades colocarem foco sobre o que gerava esse déficit e tentar trazer soluções. 

A Rede de Filantropia para a Justiça Social acabou surgindo da necessidade de fazer com que os recursos da grande filantropia alcançassem quem mais necessitava. “A Rede de Filantropia para a Justiça Social congrega, neste momento, 12 organizações. Esperamos que muitas mais venham para perto da Rede, porque a gente sabe que há instituições de filantropia para  justiça social, filantropia comunitária, que estão aí escondidas pelo Brasil, ainda não reconhecidas. Sabemos que muito do que as pessoas conseguem sobreviver tem a ver  com a filantropia de justiça social, mesmo que essas organizações não estejam ligadas à Rede. São as solidariedades que acontecem diariamente que fazem com que as pessoas possam sobreviver”, afirmou Ana Letícia Silva. 

Ana Leticia Silva – Rede de Fundos para Justiça Social

E como lembrou Maria Alejandra Oltra, do Philanthropy Center J.P. Morgan, a questão da sobrevivência está intimamente ligada à questão da equidade. “Se todos queremos ser iguais, temos que pensar que nem todos são tratados como iguais. E é difícil na filantropia ajustar isso para sermos mais eficientes. Acredito, que ao longo do tempo, a filantropia tentou ser o melhor para todos. Mas é impossível fazer o melhor para todos sem identificar diferenças.”

Como a efetividade dos investimentos sociais rumo à promoção da equidade racial tem sido incorporada aos indicadores e metas das instituições

“É muito importante uma organização do sistema financeiro, como  J.P. Morgan, estar liderando junto com o Fundo Baobá, que é um fundo voltado para equidade racial, esse compartilhamento e essa liderança conjunta. Ela é muito simbólica para o mundo hoje”, foi com essas palavras que Neca Setubal, presidente do Conselho do GIFE e da Fundação Tide Setubal, abriu a terceira mesa do webnário Investimentos Filantrópicos para a promoção da equidade racial, organizado pelo J.P Morgan e pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, na quarta-feira (28).

Com o título “Equidade Racial e suas trilhas, nos institutos, fundações, empresas e ESG – Caminhos, evidências e possíveis mudanças”, além de Neca Setubal a mesa virtual contou com Rita de Cassia Barros Oliveira (Gerente Sênior de Vendas Promocionais de Redes de Mídia na The Walt Disney Company), Daniela Redondo (Diretora Executiva do Instituto Coca-Cola Brasil) e Fabio  Alperowich (Fama Investimentos).

Para Neca Setubal, houve um avanço na cultura da filantropia e na promoção da justiça social no país, inclusive no período de Covid-19: “Acho que a pandemia acelerou esse avanço ao descortinar as desigualdades e o racismo brasileiro. Existem problemas de séculos, mas a sociedade começou a enxergá-los, isso é positivo”. Fábio Alperowich também acredita em contenção de danos no período de pandemia: “A Covid-19 trouxe uma reflexão muito grande para as empresas, elas passaram a repensar os seus papéis. Antes, as organizações entendiam que o seu papel na sociedade era apenas a venda de produtos e serviços, agora elas começam a compreender que têm um papel dentro da sociedade que é maior que aquilo, algumas estão agindo através de filantropia, outras estão melhorando as suas práticas, elas estão repensando isso em múltiplas dimensões, tanto do lado ambiental quanto do lado social”.

Neca Setubal – Presidente do Conselho do GIFE e da Fundação Tide Setúbal

Falando exclusivamente das organizações, um dos assuntos abordados na mesa virtual foi a forma que a promoção da equidade racial havia sido incorporada em cada instituição. Rita de Cássia fez questão de frisar a importância da representatividade na The Walt Disney Company: “Estou na empresa há 9 anos e eu venho acompanhando de perto todas as transformações que ela vem passando e fazendo, em tudo o que diz respeito à diversidade e inclusão. Sendo uma empresa mundialmente reconhecida pelas histórias mágicas e os personagens inspiracionais, lúdicos e heróicos, estando tão presentes no imaginário de muitas pessoas no mundo todo”. Na ocasião, ela citou os principais pilares da empresa nessa questão: “Ser o melhor em diversificar o nosso arsenal de talentos e conteúdos, trazendo essa representatividade e mostrando de fato o valor de toda essa experiência do ponto de vista do negro.  e integrar a inclusão nessas práticas de operações comerciais também. Sabemos que a Disney, por ser líder, tem toda a capacidade de impactar o ecossistema onde está envolvida, trazendo parceiros, fornecedores, empresas que são licenciadas, liderando esse movimento. Nós temos também algumas iniciativas nesse sentido, garantir que toda a nossa liderança tenha poder para agir, porque diferente do que acontece nos Estados Unidos, onde nós temos 13% da população negra, aqui no Brasil a gente tem um universo muito diferente. A urgência e a necessidade de avançar nessas frentes e de trazer resultados efetivos, ela é muito grande, com o grande compromisso da liderança”. 

Rita de Cassia Barros Oliveira – Gerente Sênior de Vendas Promocionais de Redes de Mídia na The Walt Disney Company

Atuando como diretora-executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, Daniela Redondo afirma que a organização atua há quase duas décadas na filantropia por justiça social, entretanto, tem focado nos últimos 10 anos em atividades de empoderamento e desenvolvimento: “Especialmente de jovens em comunidades vulneráveis, focando no recorte de empoderamento econômico, com aproximadamente 250 mil jovens impactados, sendo que  desse número 70% são negros e 60% são mulheres”. 

Em 2014, a Coca-Cola conheceu o Fundo Baboá e no ano de 2018 desenvolveram o segundo trabalho juntos, o edital Negras Potências, voltado para empreendedoras negras e focado no empoderamento feminino negro: “Foi o maior o matchfunding do país. E o que nós aprendemos e percebemos foi a importância de dar visibilidade para as causas, permitir que projetos que não são, às vezes, tão atrativos, mas que são de muita importância para aquela população, sejam reconhecidos e visibilizados. Além do que a gente tem que ter um conselho que tenha propriedade e representatividade”, completa Daniela. 

Daniela Redondo – Diretora Executiva do Instituto Coca Cola Brasil

Neca Setubal também reconhece que uma organização financiadora, para estar em proximidade com as instituições apoiadas, tem que ter um núcleo diverso, utilizando o exemplo da sua própria fundação, a Tide Setubal, que atua há 15 anos: “Hoje a Fundação Tide Setubal conta com 50% de colaboradores negros e 50% não negros, indo desde o conselho curador ao nosso conselho administrativo e à gestão estratégica, que são todos os coordenadores de projetos. Eu acho que isso é um ganho enorme, assim estaremos próximos das organizações que temos apoiado”, afirma, revelando também a criação de um comitê de diversidade dentro da fundação, para atualizar o censo de representatividade acerca dos projetos aprovados pela mesma: “Trata-se de um compromisso de que todos os nossos projetos tenham um olhar na questão racial. É o compromisso da gente ser uma das organizações divulgadoras e difusoras da importância da equidade racial para o Brasil e para todos nós”, completa. 

A Walt Disney também conta com a criação de conselhos, em cada região da América Latina, para fomentar ainda mais a cultura da diversidade e da equidade racial: “Aqui no Brasil, ele atua fortemente, eu lidero o pilar de raça, com todas as iniciativas. Nós estamos desenhando todas as métricas e metas que queremos atingir nos próximos 24 meses e para isso as alianças e as parcerias são fundamentais”, afirma Rita de Cássia, que revela que o trabalho influencia diretamente no produto criado pela companhia: “A gente percebe que esse networking que se forma com esse olhar e com esse objetivo é super importante para que esses resultados sejam de fato atingidos. Trazendo isso pra dentro do universo da Disney, que é um segmento de entretenimento, a questão é  como eu consigo mostrar diversidade através dos personagens, privilegiando a cultura e trazendo protagonismo para as tradições?”, completa.  

Trabalhando diretamente com  investimentos de empresas e organizações através da Fama Investimentos, Fábio Alperowich tem uma visão otimista do avanço do debate sobre equidade racial, mas reconhece que não avançou ainda mais devido ao não reconhecimento do racismo estrutural em nossa sociedade: “Quando existe a negação do racismo estrutural, a gente tá muito mais distante da solução. Pra avançar nessa agenda, é preciso reconhecer a existência desse racismo estrutural e expor essa situação, por mais que esse processo de reconhecimento seja doloroso, difícil. E  falando do ponto de vista de um investidor, vai trazer alguma dor para dentro das companhias e para a sociedade civil, ao expor uma questão dessa, mas ela é absolutamente necessária”, afirma Fábio. Ele também mostra como os investidores podem colaborar, de forma indireta, com o aumento da diversidade nas empresas: “Quando eu olho o relatório de sustentabilidade de boa parte das empresas, os dados sobre equidade de gênero aparecem, mas os dados de equidade racial não aparecem. Em muitos casos isso pode ser falta de olhar, um descaso, o que configura no racismo estrutural, ou pode ser vergonha de não ter se interessado por esse problema antes. Importante lembrar que os relatórios de sustentabilidade têm dados seletivos, então grande parte das empresas mostra o que quer e esconde o que não quer. Daí, quanto mais os investidores pressionarem pela transparência desses dados, mais evidente vai ficar o avanço em relação a essa desigualdade racial. Ou seja, empresas que forem pressionadas pelos investidores para expor esses dados, elas, no ano seguinte, terão que ter algum avanço nessa questão ou serão pressionadas também. Eu acho que é fundamental o papel dos investidores: a pressão para que as empresas sejam cada vez mais transparentes e inclusivas em relação a isso”, completa.  

Fabio Alperowich – Fama Investimentos

É justamente dentro deste contexto que Daniela Redondo acredita que companhias como a Coca-Cola, têm o papel fundamental de exercer influência diante dessas situações: “A gente precisa reconhecer também o nosso papel de influência e poder de convocação. Então quando a gente está falando de ecossistema, de como a gente avança, de como a gente acelera isso, a gente tem que reconhecer realmente que pode acelerar muito e atingir outros se realmente usarmos todo o poder para convocar, investir e chamar outros para esse movimento”,disse. Além do poder de convocação e influência, Daniela Redondo também acredita que para fortalecer as organizações é necessário dar independência: “Quando a gente fala de fortalecimento de organizações, para nós,  na prática,  funcionou demais, quando foi dada liberdade e flexibilidade para o uso do recurso. Então,  quando a gente fala em investir nas organizações de base ou de equidade racial, você dá flexibilidade e autonomia para usar esse recurso, porque muitas vezes, na posição de doador, a gente coloca regras pouco flexíveis, e lá na ponta, quem está sentindo a dor, a temperatura e o que eles precisam, são as próprias lideranças, as próprias beneficiárias”, completa.

Fernanda Lopes, diretora de programa do Fundo Baobá, na abertura da mesa virtual já havia salientado a relevância de o recurso chegar onde deve. “Na filantropia precisamos fazer que o recurso chegue onde ele deve chegar. Quem demanda e recebe o recurso sabe o que fazer com ele, sabe o que faz diferença. Não se pode ser igual, investir igual, medir ou qualificar igual, porque o contexto que atuamos é resultado de desigualdades e injustiças”,disse. Ela encerrou frisando a importância deste momento na promoção da equidade racial: “Nós enxergamos movimentos, e muitos em novas direções, é uma questão de toda sociedade brasileira. Somos todes responsáveis pelas mudanças e,  mais que isso, pela sustentabilidade de seus resultados, dentro e fora das empresas”.

Fingir que nada está acontecendo não adianta. Promover Justiça Social e Equidade Racial é um imperativo de consciência

“Se eu fechar a janela do meu carro, que tenha um vidro muito escuro, isso não me atinge. Se eu mudar de bairro, isso também não me atinge”. Com esta fala, Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, iniciou a quarta e última mesa do evento, cujo tema foi: “Juntos por uma sociedade justa e sem racismo!”

Selma Moreira – Diretora Executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial

A diretora se referia aos negros, especialmente, e aos excluídos que, por séculos, foram mantidos à distância dos olhos e das políticas públicas que dão acesso a direitos fundamentais e essenciais. Segundo ela, a sociedade brasileira é composta por diversas populações e se, individualmente, as pessoas pensarem que uma determinada parte pode evoluir e conseguir acesso e pleno direito à saúde, à educação, ao emprego e à justiça, e o restante se não conseguir, está tudo bem é preciso lembrar que “o restante não é o restante, pois falamos de 56% do povo brasileiro”, completou.

Selma Moreira destacou ainda que aquele encontro fora pensado justamente para construir alianças para que todos os envolvidos ali contribuíssem na consecução da missão do Fundo Baobá, que é exclusivamente fortalecer lideranças, organizações, grupos e coletivos negros. “Vocês já sabiam e hoje puderam ouvir diferentes sujeitos que, juntes, podem fazer mais e melhor”. 

Na sequência, Laura Martini Zellmeister, oficial de Programa da JP Morgan Chase Foundation para a América Latina, assumiu a palavra. Em sua apresentação, destacou que o evento foi de muito aprendizado e trocas. Explicou que, quando se fala de equidade racial, o tema é urgente, uma dívida. 

Ela aproveitou para contar a experiência da J.P. Morgan Chase Foundation que,   embora mantivesse projetos apoiados, com participantes negros, especialmente no campo da empregabilidade, não tinha programas exlcusivamente voltados para eles. “Há três anos, tivemos o olhar para perceber que não é uma questão estratégica, mas estrutural. Então, estabelecemos uma parceria com a Faculdade Zumbi dos Palmares e a Febraban. Foi um programa específico para jovens negros com foco nos setor financeiro e apoio à empregabilidade”, destacou. 

Laura Martini Zellmeister – Global Philanthropy Associate, covering Latin America

Foi tão sob medida, que o processo seletivo foi pensado e desenhado para a(o) jovem negro(a). “Muitos deles, que depois entraram no banco e se tornaram analistas, falaram que se inscreveram no programa porque se sentiram chamados e porque aquele era um espaço para eles”. 

A pauta da equidade racial, segundo Laura Zellmeister, não tem dono. É uma questão coletiva, que precisa envolver organizações do Terceiro Setor, iniciativa privada e governo. “Nesse contexto, demos uma série de passos e agora, mais recentemente, começamos a trabalhar com projetos para olhar resultados de impacto e empregabilidade, com questões como: os jovens negros estão tendo os mesmos resultados e permanência no emprego que os jovens brancos?”, indagou.

Para ela, uma das parcerias mais exitosas, entre todas estabelecidas com a fundação, foi com o Fundo Baobá. Ator de longa data de vários projetos, recebeu aporte do J.P. Morgan em seu fundo patrimonial quando o banco investiu mundialmente depois da morte do americano George Floyd.

“Com a morte de Floyd e a Covid-19 houve um grande impacto e as empresas estabeleceram uma aliança para fazer doações a várias organizações nos Estados Unidos, em outros mercados e no Brasil. Aqui, optamos pelo Fundo Baobá por estar cem por cento focado na questão da equidade racial”, alega. “Para nós, é muito importante saber que esses recursos serão usados por muitos anos para causar impacto na vida de pessoas e organizações.” 

Sua fala foi encerrada com um chamado para que as pessoas unissem talentos, investimentos e tempo, de forma intencional e coordenada, a favor da filantropia para a justiça e a equidade racial. 

Selma Moreira encerrou a mesa agradecendo todas as presenças e participações. Disse estar especialmente feliz e tocada com o diálogo estabelecido ali. “Venho de uma trajetória da iniciativa privada e faço parte do Fundo Baobá desde 2014. Tem sido uma trajetória muito desafiadora. Este é um lugar de muitas conquistas e desafios.” Confirmou que o racismo é um tema difícil para quem é negro e para quem não é. Mas, pretos e pardos, além de acharem o tema difícil, vivem essa realidade em seu dia a dia. Por isso, a importância de construir caminhos. “Vimos, este ano, tanta coisa acontecendo de maneira tão evidente, e não dá mais para fingir que não aconteceu ou não é com a gente.”

Selma explicou que, com essa divisão desigual, não tem economia nem país que se sustente. “A sociedade civil está correndo, as organizações do movimento negro estão correndo, mas a gente não dá conta de cuidar disso tudo sozinho. Precisamos fazer juntos. Acho que é esse o convite. Esse é o chamado: precisamos de aliados”. Por isso, o Fundo Baobá está aberto a discutir, pensar caminhos e construir, junto com parceiros, soluções para a equidade. “Pode ser difícil, mas talvez seja porque nunca foi feito”, argumenta.

A diretora-executiva explicou que vivemos um momento em que a sociedade está acelerada com a Covid-19, a tecnologia e o ritmo rápido de mudanças. “Então, não é possível que a gente siga pensando que as temáticas relacionadas à promoção da equidade racial podem seguir outro modelo. Acho que hoje, aqui, todas as falas evidenciaram essa urgência e como é estratégica para termos um país mais justo e equânime”. Destacou a necessidade de construir alianças. “Hoje me senti parte de uma constelação, vendo e ouvindo essas estrelinhas que são parceiros e estão conosco nesta jornada. E isso já faz desse diálogo um canal de irmandade. Agradeço a todos pelo desejo de mudar este país para todo mundo.”

Diretoras do Fundo Baobá participam de lives sobre justiça social e fortalecimento de redes territoriais

A diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, participou de uma live organizada pelo Citi Brasil e mediada por Andréia Abreu, analista sênior de Projetos e Processos e líder da frente de comunidades – um grupo de afinidade do Citi Brasil voltado para comunidade negra e que tem como objetivo trabalhar as pautas sobre racismo estrutural, concientização da população não negra, além de apoiar a equipe de gestão do Citi nos esforços de recrutamento, bem como o desenvolvimento e retenção dos colaboradores negros. Gabriela Graci e Patrícia Salles, responsáveis por Operações e Comercial Card do Citi, além de madrinhas do Programa Já É – Educação Para Equidade Racial, edital lançado pelo Fundo Baobá e financiado pela Citi Foundation, também integraram a conversa, realizada em 9 de outubro.

Gabriela Graci perguntou sobre a ausência de negros em cargos de chefia. “A educação é apontada como um caminho para construção de uma sociedade melhor e mais inclusiva. Mesmo assim, muitas pesquisas apontam que mesmo negros com qualificação profissional ainda possuem salários menores no mercado formal, como podemos evoluir neste cenário?”, indagou. Para Selma,  esse cenário é reflexo do racismo estrutural. “Há muito o que se fazer, estamos dando ‘passinhos curtos’, mas têm passinhos sendo dados. Não há como pensar o desenvolvimento de uma sociedade e da inclusão sem dialogar a educação, sendo ela de qualidade e inclusiva para todos. O Fundo Baobá promove a equidade racial, e quando falamos sobre equidade, estamos falando de justiça, e não sobre como encontrar novos caminhos mágicos”. 

Segundo a diretora-executiva, promover a equidade racial é uma missão de todos. “O racismo estrutural afeta a nossa constituição e a sociedade, mas, mesmo assim, tem muita gente que diz que não fez parte disso, você pode não ter feito parte objetiva do problema, mas você pode fazer parte da solução, isso que é mais importante. Esse diálogo que estamos fazendo aqui se trata de mover essa forma de pensar, para que a gente construa pontes fortes e conectadas, para pensar em caminhos para o Brasil que permita o desenvolvimento de todas as pessoas de forma igual”. Finaliza.

https://www.youtube.com/watch?v=N5_wfpjbk_0&feature=youtu.be 

Vinte dias depois, foi a vez da diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, participar da live Semear Ação da Juventudes, uma iniciativa do Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS Brasil), em parceria com o programa Jovens Construtores. O bate-papo abordou ações de promoção de saúde, equidade e fortalecimento de redes territoriais no combate à Covid-19. Quem mediou a conversa foi o assessor de projetos do Jovens Construtores, Hugo Sabino. Além da Fernanda Lopes, participaram membros do programa Jovens Construtores que tiveram as suas iniciativas apoiadas pelo Fundo Baobá no edital de Doações Emergenciais no combate à Covid-19, entre eles: Thalyta Cunha, Juliano Pereira, Pâmella Santos, além de Diego Nóbrega que não pode participar do evento ao vivo, mas enviou um vídeo.

Com a mesa virtual aberta para o bate-papo, Thalyta Cunha, da região de Del Castilho (RJ),  falou da sua iniciativa apoiada, que consistiu na impressão do material pedagógico para as crianças que estavam sem aula, devido à pandemia: “Pensou-se em deixar as crianças em casa, em desenvolver atividades pedagógicas e aulas online, sendo que a gente mora em um país no qual uma entre cada quatro pessoas não têm acesso à internet, isso são 46 milhões de brasileiros, em um país de 209 milhões de habitantes, é muita gente que não tem acesso a informação, e foi pensando em tudo isso que eu tive a ideia de fazer a impressão do material pedagógico, enviado pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, juntamente com a distribuição de kit lanche para essas crianças”. Com o fechamento das escolas, outro problema foi identificado por Thalyta: “As crianças continuaram na rua, sem camisa, descalço e soltando pipa, eu vi crianças brincando na lixeira, foi um trabalho de formiguinha ter que explicar tudo isso, que além da Covid-19 tinha a leptospirose, dengue e muitas outras doenças”. Para Thalyta, o engajamento de uma mãe da comunidade, foi primordial para a divulgação da sua atividade: “Eu não fiz flyer e nem panfletos, a divulgação foi boca a boca, chamei uma das mães, que conhece todo mundo da comunidade, sendo super ativa e engajada, e eu contei do projeto pra ela e pedi segredo, por ser poucas vagas, no dia seguinte tinha mais de 20 pessoas batendo na minha porta”.

Para a jovem, foi gratificante a realização dessa ação: “Eu ouvi relatos de pessoas que estavam gastando cerca de cinquenta reais, imprimindo material da prefeitura e eles disponibilizavam material semanalmente, uma família com cinco crianças não consegue dar conta desse gasto. Eu me senti extremamente abençoada em ver as crianças estudando e ver os agradecimentos dos responsáveis.”

Thalyta reforça a importância de projetos como estes, na construção de uma sociedade melhor: “Eu sou fruto de um projeto assim, e hoje eu me vejo como uma ferramenta, para que essas pessoas passem pela mesma evolução que eu passei”.

Diego Nóbrega, da Cidade de Deus (RJ), trabalhou a comunicação como ferramenta no combate ao coronavírus e principalmente na conscientização dos moradores da comunidade. “O que me incentivou a realizar esse projeto é que o pessoal continuou com aglomerações, barzinhos e festas, colocando a vida de muita gente em risco. Diante disso, coloquei um carro de som para rodar na comunidade durante cinco dias, pedindo para o pessoal se conscientizar e sair de casa somente se fosse necessário. Fiz banners e coloquei nos pontos mais vistos da nossa comunidade. Além disso, foram distribuídas 20 cestas básicas e kits de higiene para 20 famílias mais vulneráveis da nossa comunidade.” Afirma Diego, que realizou um trabalho de pesquisa para saber quais áreas do território necessitavam de mais atenção: “Fui para o lugar mais caótico da comunidade, onde o pessoal mais necessitava, fiz uma pesquisa e dali eu tirei as 20 famílias e fiz a distribuição das cestas básicas e kit higiene”. Para a realização da ação, o jovem estabeleceu parcerias, como, por exemplo, com o CEDAPS, que auxiliou na compra das cestas básicas. “Me senti completamente realizado por estar fazendo algo pela minha comunidade, realmente as pessoas precisavam muito de ajuda”, finaliza Diego 

Trabalhar a comunicação na comunidade também foi o projeto da Pâmella Santos, da região da Pavuna (RJ). Ela e o irmão colocaram uma caixa de perguntas em frente ao portão de casa. “Sob a caixa tinha um cartaz que questionava qual era dúvida deles sobre a doença, e em pouco tempo nós recebemos muitas perguntas. Foram feitos panfletos, com as perguntas que os moradores fizeram e hoje em dia eles ainda estão circulando”. Assim como Diego, Pamella também realizou um trabalho de pesquisa, mapeamento e monitoramento de uma comunidade carente, para realizar entrega de kits de higiene para os moradores: “Eu e mais quatro jovens mapeamos uma comunidade muito vulnerável, dentro do Complexo da Pedreira, que tinha esgoto a céu aberto, e levamos kits de higiene. Mesmo usando máscara, era nítida a felicidade no olhar em receber algo que eles não tinham condições de comprar.”

Para Pamella, havia uma mistura de sentimentos, ao mesmo tempo que existia a alegria de fazer o bem a quem necessita, havia a insatisfação com o poder público diante daquela situação: “A nossa ação coletiva foi muito importante, considerando que político nenhum tinha entrado naquela favelinha, nós fomos os únicos a entrar para levar um pouco de esperança e dignidade para aquelas pessoas”, diz a jovem que relembra que foi alertada por uma moradora, que a atitude dela, e dos jovens que a acompanhava, era de muita coragem, considerando o ambiente vulnerável que eles se encontravam, principalmente em meio à uma pandemia. 

Ainda em sua fala, Pamella ressaltou a importância da ação realizada em rede e de estabelecer parcerias e trabalhar em comunidade: “Somos um fruto daquilo que despertamos em nós mesmos e sabemos que não estamos sozinhos, e não é preciso ser super herói para fazer algo, é preciso buscar ativamente ser uma luz em um mundo cheio de sombras. Aquilo que a gente faz, é aquilo que a gente é, seres de enorme valor, basta apenas a gente escolher a nossa causa pessoal, aquilo que ressoa em nosso coração e na nossa cabeça, para agir. Nós somos a rede, nós somos a referência”.

Fernanda Lopes, explicou sobre a missão e as prioridades do Fundo Baobá para Equidade Racial,  sobre o que foi o edital, teceu comentários sobre cada uma das exposições, e reiterou que são iniciativas como essas que movem o trabalho do Fundo Baobá. “No ano que vem, o Fundo Baobá completa dez anos e eu espero que essa iniciativa que mobilizou cinco participantes do Jovens Construtores possa mobilizar muitos outros jovens para estar conosco”, finalizou.  

Veja a live completa aqui: 

https://www.youtube.com/watch?v=hSD5BvCB7V0&feature=youtu.be 

Fundo Baobá na imprensa em outubro

O principal destaque do Fundo Baobá para Equidade Racial na imprensa no mês de outubro foi o edital de Chamada para Artigos que subsidiem a filantropia para justiça social, com foco na promoção da equidade racial, considerando os impactos da pandemia da Covid-19 para a população negra.

Com as inscrições encerradas no dia 30 de outubro, para figurar como primeiro(a) autor(a) do artigo era necessário ser especialista, mestre ou doutor com produção acadêmica concernente às áreas priorizadas pelo Fundo Baobá, como educação, saúde; população quilombola; juventude negra; racismo religioso; violência de gênero, além de ciência e tecnologia; desenvolvimento econômico; comunicação, arte e memória, violência contra a população LGBTQI+ e violência racial

O Canal Futura, assim como em outros dois editais anteriores, produziu o quadro Minuto Futura dedicado ao novo edital do Fundo Baobá, sendo exibido na TV e nas redes sociais da emissora, na última semana das inscrições.

Os portais negros, como o Alma Preta e Aliança Pró-saúde da População Negra, além de sites de filantropia para justiça social,  como Desabafo Social, Prosas e Fundo Brasil, também divulgaram o edital de Chamada para Artigos.

Tratando-se de um edital voltado para produção acadêmica, o mesmo foi destaque na página oficial do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp e também na página da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, que já havia falado do edital em setembro no seu site oficial.

E portais de notícias do Brasil inteiro, como o Metropolis, O Semanário, Climatempo, Gazeta Brasília, Portal Notícias MG, Capital em Foco, Estado do Paraná, entre outros, falaram do novo edital do Fundo Baobá.

Confira todas as reportagens de outubro sobre o Fundo Baobá:

Metropolis – 01/10     

Jornal O Semanário – 01/10

Climatempo – 01/10

Gazeta Brasília – 01/10

Portal Notícias MG – 01/10

Estado do Paraná – 01/10

Diário do Porto – 01/10

Revista Sampa – 01/10

Capital em Foco – 01/10

Rio das Ostras – 01/10

Alma Preta – 08/10 

Desabafo Social – 08/10 

Aliança Pró-saúde da População Negra – 16/10

Pagu – 17/10

Futura – 29/10

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Prosas 

Fundo Brasil

Estado participativo. Só que não

Apesar do assunto política se manter em evidência durante o período eleitoral, a ciência política é vivenciada a todo momento. É notório que determinados territórios, considerados negros, empobrecidos, periféricos e quilombolas, carecem de atenção e atuação do poder público. Para discutir sobre participação política, resiliência comunitária e recuperação econômica, conversamos com Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora da ONG Criola, organização com mais de 25 anos de trajetória na defesa da sociedade civil e parceira do Fundo Baobá para Equidade Racial no Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.

 

Quando falamos em territórios, principalmente territórios negros, empobrecidos, periféricos, quilombolas, como fazer que as suas demandas e necessidades sejam ouvidas e atendidas pelo poder público?

Há uma ideia de incapacidade da população de arregimentar e correr atrás dos seus direitos parece que elas não fizeram as perguntas certas na hora certa para a população garantir os seus direitos. Na verdade, faz parte da dinâmica do racismo institucional garantir que o que você faz e o que pensa não faça sentido. Então, por mais que as pessoas tenham uma experiência na solução dos problemas, elas vão enfrentar um racismo institucionalizado que vai fazer com que essa entrega seja entendida como ainda não acabada, ainda impossível de ser executada. Daí uma necessidade de uma mobilização da sociedade, de que você consiga trazer para um contexto social essa demanda e fazer com que ela seja compreendida, quer seja no ponto de vista da solidariedade ou do compromisso político, como uma demanda legítima. Você pode não conseguir o efeito 100%, mas você pode ter uma resposta à altura desses acontecimentos. Um exemplo: morte materna –  a sociedade se corrói com essa questão da morte materna, mas ela não é capaz de se movimentar a ponto de pedir o fim da morte materna. Então fica-se sempre achando que você ainda não alcançou essa fala porque você ainda não soube traduzir esse conhecimento, essa necessidade, mas na verdade nos falta ainda uma possibilidade de sensibilizar, tanto o próprio setor da população negra quanto fora dele, sensibilizar a sociedade de modo geral, para que sejam dadas respostas à altura do que a gente necessita.

 

No que se diz respeito à Resiliência Comunitária: o quanto as comunidades, os  territórios negros, para sobreviver, precisam se organizar para ocupar o espaço que o Estado não ocupa?

É importante frisar que o Estado não deixa nada vago. Não tem espaço vago na política. Ele que faz você acreditar que falta algo em você para alcançar aquilo, para dar o retorno necessário para o desenvolvimento da sua atuação, porque, afinal de contas o Estado é um espaço da disputa entre grupos. Fica parecendo falta de competência dos grupos no acesso à representação política, que os grupos não foram capazes de construir representação suficiente. E você acredita nisso, você acredita que não tinha candidatos preparados, que não tinha candidatos adaptados para este processo. Então você fica imaginando que tem uma vaga que nunca vai ser preenchida, e aí você olha e acha que isso tem a ver com o racismo, mas na verdade tem a ver também com modo que se estruturam essas relações para fazer você imaginar que falta ainda capacidade para essa população acessar esse mecanismo. Então a ideia é que parece que tem uma vaga, mas na verdade há uma estrutura para você não participar. É como se eu te oferecesse um emprego para você varrer a minha rua, mas em seguida, quando você se coloca à disposição, eu digo que a qualificação para essa vaga é saber pular amarelinha; aí você se prepara para pular amarelinha, mas no mesmo momento eu falo que é uma amarelinha que não usa somente os pés, mas as mãos também. Ou seja, eu vou dando dificuldades que parecem parte do jogo, mas que no fundo têm a ver com as estratégias do racismo institucional.

Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora da ONG Criola

Como podemos classificar a participação dos habitantes de territórios negros, territórios empobrecidos, periféricos, quilombolas no espaço político? E se são candidatos, conseguem se eleger?

Eu imagino que a população tem um modo de operar os processos políticos, analisando os seus problemas e a capacidade de diferentes sujeitos a dar conta desses problemas. Por exemplo, se eu tenho problemas de transporte na região onde eu vivo, no meu território, essa questão se apresenta pra mim como uma questão importante, que precisa ser tratada. Então eu vou olhar na constelação de candidatos aqueles que também olham para os mesmos problemas que eu. Se você é igual a mim, esteve nas mesmas condições, qual é a sua chance de alcançar essa disputa e trabalhar esse direito? Então o que eu acho que tem acontecido é que a população faz uma boa análise e, inclusive, até vota nos candidatos do seu próprio território. Mas ela também aspira outras questões relacionadas ao seu direito, à força política para fazer mudanças naquele território e que se relacionam com o conjunto da cidade, com estado e com o país. É claro que tem fisiologismo, tem a compra dos votos que, nesse sentido, ultrapassa as dinâmicas da política. Muitos acham que a população vende o seu voto: claro que não! Às vezes ela está presa a armadilhas que estão nas mãos de políticos, como vaga em escola ou o acesso a serviços de saúde. Então, de certa maneira, fica parecendo que ela vendeu o voto, mas não: é o sistema que opera de maneira que ela não tenha oportunidade de apresentar novas candidaturas, novos representantes e novas possibilidades de mudanças. Eu acho que a população arrisca sempre nessa análise, escolhe candidaturas que vão dar conta dos problemas que ela está elegendo nesse processo: saúde, trabalho, educação, segurança… e a partir daí planeja essa candidatura, mesmo que às vezes pareça conservadora e violenta. Por que nos parlamentos tem tantos policiais e pessoas do mundo militar? Porque a sociedade está achando que esse grupo pode vir a enfrentar um problema que ela não consegue, que é a violência armada, o crime organizado, a violência policial. A população quer alguém que venha dar conta de dinâmicas que ela mesma não dá conta. A Marielle Franco foi uma liderança política que quando foi eleita, os dois grupos a estavam analisando corretamente, o grupo interno e o grupo externo. O grupo interno, no caso a Favela da Maré, que ela teve votos lá também, analisava que ela seria uma boa representante para remover essas barreiras e garantir direitos. E, o grupo externo a enxergava com mais força ainda, porque vinha daquele lugar e, para além do seu próprio discurso, ela seria capaz de  projetar a sua voz para a sociedade, à favor daquele grupo. Por isso eu entendo que quem votou na Marielle não foi a elite, eu entendo que quem votou na Marielle tinha o mesmo projeto, tanto os que moravam na favela,quanto aqueles que moravam fora. Votaram pensando nas mudanças e nas melhorias para aquele local, para aquela cidade, para aquele grupo. Votaram por estas razões, e você vê que até hoje que ela segue sendo  referência. A  partir dela se ampliaram mais representações políticas que vinham desse mesmo campo.

 

O Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, do Fundo Baobá, surgiu para fomentar lideranças femininas em espaços de poder. Para você, o que falta para que as mulheres, principalmente mulheres negras, vindas de territórios negros, ocupem esses espaços políticos?

Eu vou olhar isso de dois modos: ser uma liderança na sociedade, promovendo processos de fortalecimento das mulheres e da população negra, ampliando os horizontes da democracia brasileira, melhorando a qualidade de vida dessa população. Acho que já é uma possibilidade das mais importantes você ter gente em vários setores debatendo e discutindo a questão racial e, ao mesmo tempo, pontuando a partir daí direitos, liberdade, democracia. E o outro ponto tem a ver com as dinâmicas institucionais, aquelas que também vão estabelecer direitos que podem melhorar a democracia e ampliar liberdades. Quando eu vejo alguém se candidatando a algum cargo público em um parlamento, eu também penso que essa pessoa possa dirigir uma unidade de saúde e uma unidade escolar, pode gerenciar programaticamente secretarias, ministérios, direção de instituições, o que é claro, uma disputa complexa, mas necessária. Mas não é possível olhar  só um lado, é preciso ter vozes fortes na sociedade. Porque parte das mudanças produzidas na sociedade têm a ver com a capacidade dos setores envolvidos nessa discussão de sensibilizar e convencer outros setores. Pegando como exemplo a eleição da Marielle e o lugar de onde ela veio: ela convenceu outros setores a apoiar as suas causas, e essa experiência política de participação da sociedade é de muita importância. A Marielle, que estava se candidatando a um cargo público no parlamento, foi capaz de expressar na sociedade a necessidade de fazer valer essa ideia, esse propósito. Ela também moveu a estrutura da sociedade a pensar na população negra, para enfrentar a violência contra essa população, para pensar nos territórios que essa população vive. Então um projeto como o Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco deve ter a capacidade de construir lideranças na sociedade que estejam em outros setores além do público, para fazer valer o direito da população.

 

Hoje, como tem sido a atuação da ONG Criola dentro desse contexto de resiliência comunitária, recuperação econômica e participação política?

Nós temos uma experiência muito importante. Agora, durante a pandemia da covid-19, nós consultamos algumas lideranças sobre o que elas estavam fazendo diante desse processo. Era importante compreender como elas estavam enfrentando as violações de direitos, se elas estavam se solidarizando com o seu território e com a população deste território. E a gente descobriu que elas estavam buscando soluções de todos os níveis: soluções em torno da prevenção, dos impactos econômicos, da fome, da falta de renda. E nós perguntamos se elas queriam atuar nessa mesma direção,  promovendo direitos humanos, e elas aceitaram, até porque elas já estavam atuando nesse campo. Nós queríamos remover barreiras contra esses direitos, para que, só alguém vivendo nessa realidade poderia nos ajudar. Perguntamos se essa ação de ajuda humanitária não poderia ser conjugada também com uma ação de direitos, e elas toparam. Então, as lideranças que fecharam esta parceria com Criola promoveram distribuição de alimentos e também ajudaram no cadastramento para o auxílio emergencial, identificaram e foram ajudando as mulheres a removerem algumas das barreiras que as impediam de terem acesso ao auxílio. O auxílio era essencial pois se tratava de algo de mais longo prazo, em comparação à  ajuda solidária, que teria um fim em algum momento, tendo em vista que a pandemia atingiu todo mundo. Acabou ocorrendo que essas mulheres, com apoio das lideranças,  resolveram problemas da documentação, acionaram serviços públicos que estavam paralisados, reivindicaram direito à saúde, à assistência, trabalharam junto com órgãos de Justiça, como a Defensoria Pública, para poder alcançar esses direitos, promoveram a prevenção – não só a distribuição do material, mas também garantiram o acesso à informação correta. Também puderam reunir outras forças comunitárias para enfrentar o problema, atuaram junto com jovens, igrejas, terreiros, coletivos e grupos comunitários, todos trabalhando nas lógica e na dinâmica de direitos.

Para quem quiser mais informações sobre essa iniciativa, é só acessar o agoraehora.org

 

  

Pandemia impõe desafios de ações mais efetivas para proteção infantil

Pesquisa feita pela Unicef, intitulada Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, revelou que famílias com crianças e adolescentes até 18 anos foram as mais impactadas pela pandemia no Brasil. Realizado pelo Ibope, o estudo, que foi divulgado em agosto de 2020, mostra que esses grupos foram os que tiveram maior redução de rendimentos com, por exemplo, a perda de emprego e, consequentemente, maior exposição à fome e à violência. 

O que o levantamento expôs em números, a pedagoga Viviana Santiago, 40 anos, conhece na prática. Gerente de Gênero e Incidência Política da Plan International Brasil, ONG voltada à promoção dos direitos das crianças e igualdade para meninas, ela convive diretamente com as famílias e comunidades em contexto de vulnerabilidade agravada pela crise sanitária. 

Viviana Santiago é Gerente de Gênero e Incidência Política da Plan International Brasil

Segundo Viviana, que atua no terceiro setor há 14 anos, seis dos quais na organização internacional, a pandemia alimentou a violência, o estresse e a fome nessas famílias. “Com a desmobilização das redes de cuidado das crianças e da educação infantil, essas pessoas perderam muito. Centenas ficaram sem rendimento ou emprego. Outras precisaram continuar trabalhando para sustentar as famílias”, afirma.

Os responsáveis pela renda tiveram que trabalhar, deixaram muitas vezes os filhos menores sob a supervisão e cuidado dos mais velhos (e não tão mais velhos assim!). Os que ficaram sem renda foram ainda mais expostos, pois não tinham o que oferecer à família para garantir o básico. “Ou seja: a pandemia acrescentou mais estresse ou mais trabalho para esses núcleos”, completa Viviana.

Com a falta de espaços de alimentação e acolhimento para essas mulheres e seus filhos, aconteceu o aumento da violência intrafamiliar – física ou sexual -, com abuso e exploração, o que reverberou especialmente na vida das crianças pequenas. Foi nesse contexto que o Fundo Baobá lançou em julho o edital de doações emergenciais com foco em famílias com crianças de 0 a 6 anos. O objetivo era selecionar profissionais dos setores saúde, educação e assistência social capazes de formular e implementar iniciativas de apoio, no contexto da pandemia Covid-19, a famílias com mulheres e adolescentes grávidas, mulheres que deram à luz, homens responsáveis e corresponsáveis pelo cuidado de crianças nessa faixa etária em seus núcleos. A iniciativa, realizada em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a Porticus América Latina e a Imaginable Futures, atraiu mais de 200 pleiteantes de todas as regiões do Brasil. Foram selecionadas 56 propostas que estão recebendo apoio no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Por regiões, o número de projetos contemplados é o seguinte: 24 do Nordeste, 23 do Sudeste, 4 do Norte, 4 do Centro Oeste e 1 do Sul. A lista de selecionados foi divulgada no final de setembro e pode ser conferida aqui.

Parte da solução para interromper esse ciclo, segundo Viviana, é fortalecer as redes de proteção para que continuem sendo capazes de cuidar, não apenas das crianças e adolescentes, mas também dos provedores da família para recompor a renda e impactar o menos possível o desenvolvimento infantil. “Quando acontece a retomada do trabalho, sem o suporte para essas crianças e adolescentes, aumentam as chances do trabalho infantil e de que eles fiquem em risco”, explica. “Por isso, é tão importante criar ações coordenadas de proteção para essas famílias.”

Renata Santos, 43 anos, ou simplesmente “Meduza com Z” (seu nome artístico), concorda. Diz que a pandemia evidenciou as vulnerabilidades dos territórios, por exemplo, como Sapopemba, na zona leste de São Paulo, que lidera os rankings de pessoas infectadas e de vítimas fatais. “Muitos residem com suas  famílias em ocupações, favelas, vielas, casas pequenas,  não tendo como manter o isolamento social”, afirma, com a certeza de quem lida com essa realidade todos os dias.

Perda de empregos e escolas fechadas – que, embora oferecessem aulas on-line deixaram milhares de estudantes sem acesso porque ou não tinham equipamentos ou não dispunham de internet – pressionaram ainda mais as famílias, aumentando os casos de maus-tratos, a negligência, a violência doméstica e sexual.

Meduza com Z do projeto CapoELAndo

“Aqui, foi uma tragédia declarada”, completa. “A expectativa é de que, quando a pandemia acabar, os governantes percebam o quanto continuamos sendo prejudicados. Dessa forma, implantem políticas públicas com ofertas regulares de serviços que possam, de fato, suprir as necessidades básicas da população da periferia.”

Também uma das contempladas pelo Fundo Baobá para Equidade Racial no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Renata tem uma longa trajetória de atuação social. Recentemente, dedica-se ao projeto CapoELAndo, que reúne professoras e alunas, desenvolve iniciativas socioculturais para mulheres negras e periféricas de Sapopemba.  Afinal, Renata sabe que ali convivem, lado a lado, criminalidade, drogadição, violência doméstica e todo tipo de violação de direitos. Por isso, capitaneou uma campanha junto ao Enfrente/Benfeitoria com o CapoELAndo – Luta por Direitos Fundamentais. 

“Conseguimos arrecadar bom recurso financeiro que permitiu auxiliar as nossas atendidas, seus familiares e outras centenas de famílias necessitadas com doação de cestas básicas e produtos de higiene. Além disso, realizamos visitas para orientá-las sobre a importância de prevenção do coronavírus”. Os projetos não param por aí. Se depender do fôlego da Meduza com Z, tem ainda muita arte, esporte e lazer na mira dela para fortalecer sua comunidade.