Programa de Recuperação Econômica apoia empreendedores negros em meio à pandemia

O Programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá para Equidade Racial, foi lançado no dia 11 de novembro de 2020 em uma iniciativa que contou com a parceria com a Coca-Cola Foundation, Instituto Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim.  O objetivo era apoiar pequenos empreendimentos liderados por pessoas negras em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica no país, que tenham pequenos negócios com faturamento de até R$ 6.750,00.

Em 39 dias de inscrições abertas, a organização recebeu 700 propostas de pequenos empreendedores. Na primeira fase de triagem, 598 inscrições foram validadas, passando para a fase de avaliação das propostas em si. Dessas, 273 seguiram para a etapa de entrevistas virtuais. Elas foram realizadas pela organização FA.VELA, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Segundo Ludmila Correa, representante da FA.VELA, as conversas foram fundamentais para seleção de iniciativas empreendedoras para o programa. “Durante as entrevistas pudemos conhecer diversas realidades, ramos e formas de empreender desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, variando de entrevistas com empreendedores quilombolas, ribeirinhos, da zona rural e do meio urbano. Acreditamos que muitas iniciativas têm perspectiva de expansão, promovendo impacto territorial por meio da geração de renda, desenvolvimento sócio econômico, fortalecimento da atuação em rede, entre outros benefícios. O processo de entrevistas foi fundamental para o diálogo e entendimento da realidade de cada empreendedor, possibilitando verificar a adequação da iniciativa proposta para o programa, assim, colaboramos recomendando os participantes de forma mais assertiva e coerente”.

Ludmila Correa, gerente de projetos e programas do Fa.Vela

Após o processo de entrevistas, 141 iniciativas  foram recomendados ao comitê selecionador, que elegeu as 47, cujos nomes foram divulgados no dia 26 de fevereiro e serão contempladas com os recursos financeiros e de formação do programa. Uma das integrantes do comitê selecionador foi a consultora de negócios de diversidade e inclusão, Caroline Conceição Moreira: “Acredito que, por eu trabalhar com empreendedorismo, consegui contribuir com meu olhar de eterna captadora de talentos. Foi uma experiência incrível poder acessar tantos projetos potentes e saber que estas pessoas terão uma oportunidade incrível de potencializar seus empreendimentos”. 

Quem também utilizou a profissão ao seu favor, durante a sua participação no comitê selecionador, foi a psicóloga e diretora da Teçá Impacto, Marcela Bacchin: “Fiquei muito honrada de poder fazer parte do comitê de seleção do edital e trouxe meu conhecimento de 15 anos no apoio de empreendedores da base da pirâmide como estratégia de combate à pobreza, à serviço da definição de critérios para avaliação de maturidade das propostas e de um olhar propositivo de equilibrar a seleção com recorte de gênero, e territorialidade”. Marcela acredita que esse equilíbrio durante a seleção das iniciativas fez justiça aos selecionados: “Dessa forma, o grupo participante do comitê teve uma atuação de garantir o equilíbrio territorial dos investimentos e a prioridade para projetos do nordeste, liderados majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQI+”.

Marcela Bacchin, psicóloga e diretora da Teçá Impacto

Foi esse entendimento e processo coletivo entre os membros do comitê que ganhou elogios do diretor da Techsocial, conselheiro do Anjos do Brasil – um grupo de investidores anjo – e também conselheiro fiscal do Fundo Baobá para Equidade Racial, Marco Fujihara: “Eu gostei muito porque, principalmente, foi um processo coletivo, não foi a minha opinião sozinha que influenciou na escolha, mas todo processo coletivo é muito rico, porque você ouve a opinião das pessoas, elas ouvem a sua opinião, e você acaba achando um caminho do meio sempre, não tem aquele melhor ou pior”. Assim como também elogiou as iniciativas apoiadas: “Eu gostei muito das iniciativas empreendedoras inscritas pelo vínculo comunitário que elas tinham, o que tornou tudo bastante criativo e produtivo”. 

Marco Fujihara, diretor da Techsocial e conselheiro fiscal do Fundo Baobá

Para a psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva, Crisfanny Souza Soares, integrar o comitê foi um privilégio: “Estar em contato com ideias e iniciativas empreendedoras que virão a ser respostas efetivas na recuperação da economia e no desenvolvimento de modelos de negócios inovadores, trouxe para roda a visão de quem conhece, reconhece e apoia quem movimenta a economia brasileira: os 99% micro e pequenos empreendedores, e investiu no desenvolvimento de metodologias de apoio, parcerias de acesso para inclusão produtiva”. 

Outro membro do comitê foi Marcelo Rocha, mais conhecido como DJ Bola, um dos articuladores do coletivo A Banca. Para ele, integrar o comitê selecionador foi um grande aprendizado, além de uma imensa felicidade também: “Quando a Selma Moreira (diretora-executiva do Fundo Baobá) me disse que havia mais de 700 inscritos buscando apoio para tocar as suas iniciativas no Brasil todo, eu me senti muito feliz, porque isso é uma evidência do quanto o povo negro é potente e o quanto de mudança tem as quebradas”. Na visão do produtor cultural, a periferia tem uma enorme potência e bagagem, e iniciativas como o programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá, potencializa ainda mais os talentos existentes nesse meio: “A gente tem que sair dessa ótica da escassez, porque a periferia tem muito conteúdo, tem muito produto e tem muito serviço. Então, o Fundo Baobá conseguiu evidenciar mais uma vez a luta do povo preto, do pessoal LGBTQ+ e das mulheres, elas que sempre tiveram à frente iniciativas que trouxeram transformações dentro de casa, e agora elas estão à frente de iniciativas empreendedoras”.

Marcelo Rocha, DJ Bola, um dos articuladores do coletivo cultural A Banca

A pandemia da covid-19 ainda não chegou ao fim, pelo contrário: mesmo com a vacina aprovada em território nacional e com um plano de imunização que pretende vacinar toda a população ainda esse ano, apenas uma fatia minúscula da população recebeu a segunda dose da vacina até o momento, enquanto a média móvel diária de novos casos da doença atingiu patamares surpreendentes, com expectativa de chegarmos a meio milhão de mortes em breve. Com os governos estaduais implementando medidas sutis de isolamento para conter o avanço da doença e o colapso hospitalar, que acarreta  falta de leitos, estresse e exaustão de profissionais, os comércios e os pequenos empreendimentos voltam a fechar, o que resulta também em uma crise financeira. Entretanto, é preciso afirmar que os pequenos empreendimentos negros são de sobrevivência e existem, desde antes da crise sanitária, num contexto de desigualdade e racismo estrutural. Justamente dentro desse contexto que considera a relevância de ações como o Programa de Recuperação Econômica, considerando que a população negra, independente do cenário, é mais penalizada com as desigualdades: “A proposta do edital de recuperação econômica para empreendedores negros, busca atender uma demanda de pessoas vulnerabilizadas, de forma a fortalecer a sinergia entre empreendedores e ainda trazendo impacto positivos para os territórios ao qual eles fazem parte”, afirma Marcela Bacchin. “Sendo assim, essa é uma iniciativa que promove a dinamização econômica dos territórios, o desenvolvimento de novos negócios e a geração de renda através de atividades produtivas em diferentes setores. Serão produtos e serviços oferecidos por empreendedores negros para seus territórios, gerando o desenvolvimento local e valorização da comunidade negra”, completa.

Caroline Moreira frisa a importância de ações como essa, considerando o quadro desigual que o negro se encontra na sociedade brasileira: “É de extrema importância pensar nas questões raciais como foco, tendo em vista que os empreendedores negros são os que mais se prejudicam independente do cenário e falando em pandemia com certeza o fundo é uma possibilidade incrível de criar oportunidades para empreendedoras”.

Caroline Conceição Moreira, consultora de negócios de diversidade e inclusão

Crisfanny Soares afirma que o Programa de Recuperação Econômica movimenta dois pontos cruciais para a sustentabilidade das iniciativas: “O primeiro é o acesso ao capital financeiro e o segundo é a capacitação empreendedora que apoiará a estruturação e adaptação a dos negócios neste novo contexto que exige novas habilidades”, a gerente de projetos ainda confirma que o que mais lhe chamou a atenção neste edital foi a proposta de convergir negócios e suas propostas de valor para atuação em um mesmo território: “Além de inovadora, a proposta potencializa a visão de parcerias estratégicas comunitárias que podem fortalecer a economia local e mobilizar o surgimento de novos negócios ampliando o impacto”.

Crisfanny Souza Soares, psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva

Ainda sobre a vacinação no Brasil, mas trazendo um inédito recorte racial, uma pesquisa feita pela Agência Pública, a partir dos dados de 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose da vacina, mostra que a cada duas pessoas brancas, apenas uma pessoa negra recebeu a vacina, o que equivale a 1,48% da população negra vacinada, contra 3,66% da população branca vacinada. Para Marco Fujihara, o racismo está enraizado em toda estrutura do país e medidas como essa do Fundo Baobá, ajudam a promover a equidade racial: “A questão da equidade racial tem que ser colocada na pauta do dia sempre. O racismo é uma coisa que existe, e a primeira maneira de combater o racismo é acreditar que ele existe. Portanto, esse trabalho do Fundo Baobá é necessário e tem que ser ampliado”.

Programa Já É, do Fundo Baobá, aproxima jovens pretos e periféricos da universidade

Com mais de 200 inscritos, o edital custeará não só os gastos em curso pré-vestibular, mas também despesas com transporte e alimentação

O Fundo Baobá para Equidade Racial busca a promoção da equidade racial para a população negra. No front desde 2011, a instituição não possui fins lucrativos e vem mobilizando recursos pelo Brasil e mundo afora, para apoiar organizações que atuam no enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial.

Na prática, o Fundo Baobá investe em ações por meio de editais, organizações e lideranças pretas, que se comprometem com o combate ao racismo e às desigualdades. Um dos grandes exemplos desse trabalho é o Programa Já É: Educação para Equidade Racial.

O edital foi criado a fim de impulsionar o ingresso de jovens pretos e periféricos nas universidades, através do custeamento dos gastos em um curso pré-vestibular, e também transporte e alimentação. Além de tudo, o edital prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, bem como mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas e vivências.

Foram 245 inscritos no total, com a segunda etapa de seleção sendo uma entrevista com 120 desses candidatos. Ao total, 100 jovens foram aprovados para ingressar no programa e, entre eles, estavam Julia Camile Santos, 17, Julia Firmino, 18, e Carlos Eduardo Cerqueira, 19.

Julia Camile encontrou no Fundo Baobá uma oportunidade para conquistar sua independência profissional. A estudante teve uma infância curta, adquirindo responsabilidades já aos 8 anos de idade por conta de problemas familiares. Ela descobriu o edital enquanto navegava na internet em busca de cursos pré-vestibular.

Hoje, com os conflitos familiares já resolvidos,  Camile continua sendo independente e agora já pensa em se tornar universitária. A jovem sonha em ser bióloga por influência de seu ex-professor do ensino fundamental, e enxerga no Programa Já É a porta aberta para o mercado de trabalho. “O edital me abriu portas e hoje enxergo o potencial que antes eu achava que não tinha. Hoje vejo novas perspectivas”, conta.

Julia Camile Santos, 17 anos

Há muitos jovens que almejam ingressar na universidade, mas ainda não decidiram em qual curso pretendem se inscrever. Contudo, isso não é um impeditivo para já começar a se preparar para as provas. Carlos Eduardo é um exemplo. “Eu quero me especializar na área financeira, que é onde me dou bem”, explica. Carlos descobriu o edital através de um amigo, que sabia de sua procura por cursos preparatórios para vestibulares.

Ele acredita que a iniciativa do Fundo Baobá é uma oportunidade para chegar mais perto do seu sonho. “Apesar da pandemia ter atrapalhado os meus planos, pois é muito ruim estudar de casa, o caminho para chegar onde eu quero continua sendo através da educação”, afirma.

Carlos Eduardo Cerqueira, 19 anos

Os efeitos do racismo na vida de jovens negros

O racismo é um projeto genocida que funciona sem grandes falhas e o Fundo Baobá trabalha diariamente para a erradicação dessa estrutura. Apesar dos esforços, muitos jovens pretos ainda não estão livres de vivenciar situações racistas. É o caso de Julia Firmino, de 18 anos.

Julia concluiu o ensino médio em 2020, com formação técnica em Edificações. Apesar de gostar da área e querer cursar Arquitetura, a estudante recebeu pouco apoio dos colegas da escola. “Diziam que o curso técnico não era para mim, e que eu deveria procurar algo mais fácil”, desabafa.

Julia Firmino, 18 anos

Apesar disso, Julia não se abateu, porque vem de uma estrutura familiar fortalecida. “Nossa situação é apertada, pois minha mãe criou eu e meus 5 irmãos sozinha. Mas eu sempre soube que sofria racismo e aprendi a lidar. Fui bem instruída”.

Tais situações só fizeram a jovem ter ainda mais certeza de que poderia conquistar o que quisesse, e o Fundo Baobá colaborou para isso. O edital Já É foi importante para eu entender que, independentemente da minha cor, sou capaz de qualquer coisa”, diz.

Fundo Baobá apresenta as 47 iniciativas empresariais escolhidas para serem apoiadas pelo seu edital de Recuperação Econômica

Em evento virtual ocorrido no dia 24 de março, o Fundo Baobá para Equidade Racial reuniu os selecionados para serem apoiados pelo edital de Recuperação Econômica, lançado em novembro de 2020. Estiveram presentes na live de lançamento membros das 47 iniciativas apoiadas, além de representantes da Coca Cola Foundation, do Instituto Coca Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim. 

A situação de pandemia que acontece em todo mundo levou o Fundo Baobá a lançar em 11 de novembro de 2020 o edital de Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores (as) Negros (as). Um rigoroso processo de seleção foi iniciado e concluído no dia 25 de fevereiro, com a divulgação da lista dos escolhidos. O edital teve 700 inscrições, 598 foram validadas, 273 foram para a entrevista, 141 receberam a recomendação para avaliação e, como determinavam as regras, 47 iniciativas foram selecionadas para  receber aporte de R$ 30 mil. As iniciativas teriam que ter composição societária de três empreendedores negros ou negras. 

Na abertura do evento, a diretora de Programas do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destacou a importância do programa de Recuperação Econômica. “Esse programa é parte da resposta do Fundo Baobá, frente aos impactos da emergência sanitária na vida da população negra. Sabemos que a pandemia do coronavírus acentuou as desigualdades socioraciais no nosso país. Sabemos como o empreendedorismo negro foi afetado, que a saúde financeira dessas empreendedoras e empreendedores foi afetada. Esse programa tem o objetivo de fortalecer o ecossistema de apoio ao emprendedor negro, envolvendo diversos atores que atuam nesse campo, Esse programa se insere dentro de um eixo prioritário de investimento do Fundo Baobá,  que é o desenvolvimento econômico”, disse. 

O presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, enalteceu o espírito das pessoas empreendedoras e chamou a atenção para o incentivo que elas precisam ter. “De forma geral as pessoas acham que aqueles que empreendem não precisam de investimento. E é com muita alegria que vejo instituições como Coca Cola e BV se juntarem a esse tipo de iniciativa. Mais do que ter tido coragem de apoiar essa pauta está a coragem de apoiar uma pauta para os invisíveis. São os mais invisibilizados com o discurso ilusório de que quem empreende não precisa de investimento. A ação de empreendedores negros e negras acontece desde antes da abolição”, concluiu. . 

Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

Membro do Conselho Fiscal do Baobá, Marco Antônio Fujihara usou uma analogia para se referir ao espírito empreendedor dos apoiados pelo Programa de Recuperação Econômica. 

“Empreender é como soltar uma pipa. A gente vai soltando corda e ela vai voando. E se a gente tiver muita corda, ela vai voando sempre. Façam essa sua pipa voar muito alto. Mas tenham os pés no chão. Só pelo fato de terem participado desse processo vocês já são liderança”, afirmou

Marco Antônio Fujihara, membro do Conselho Fiscal do Baobá

Heloisa Binello, gerente de Comunicação do Instituto Coca Cola Brasil, e Tiago Silva Soares, gerente de Marketing e Sustentabilidade do Banco BV, falaram respectivamente sobre o que motivou a ideia do edital e a determinação que os apoiados terão que ter. “Nós tínhamos que olhar para o que viria com a pandemia, que era a necessidade de recuperação econômica. Então, espero que essa jornada seja tão importante para vocês como está sendo pra gente”, afirmou.

Heloisa Binello, gerente de Comunicação do Instituto Coca Cola Brasil

Tiago Soares, abordando a determinação, lembrou a trajetória de seus pais como empreendedores. “Minha mãe teve uma banca de jornal, uma pequena livraria e vendeu roupa.  Meu pai foi dono de farmácia. Então, cresci vendo os prazeres e as dificuldades que o empreendedor tem. Parabéns por continuarem em um momento tão difícil pelo qual o Brasil e o mundo estão passando. Espero que seja um caminho muito positivo para todo mundo”, afirmou Tiago Soares. 

Tiago Silva Soares, gerente de Marketing e Sustentabilidade do Banco BV

Representando o FA.Vela, parceiro operacional do Fundo Baobá, estavam presentes João Souza, diretor de Futuros Inclusivos, e  Ludmilla Correa, diretora de Projetos e Programas. “Tivemos a oportunidade de conhecer muitas histórias de resiliência. Particularmente, li, vi e ouvi mais de 200 histórias. Conseguimos desenhar várias experiências e necessidades a partir das escutas que realizamos. Agora, começamos uma jornada incrível para o desenvolvimento de vocês”, disse Ludmilla.

Ludmilla Correa, diretora de Projetos e Programas do FA.Vela

A voz das pessoas apoiadas

Entre as histórias de resiliência vistas  por Ludmilla Correa está a de Ana Verônica Isidorio, do Ceará, da iniciativa Atitudes & Negritudes Cariri, juntamente com Luziana Souza e Antonio Carlos Dias de Oliveira. Mulher lésbica, ela falou da satisfação em ter sido selecionada pelo edital de Recuperação Econômica. “Sou preta, pobre, lésbica e moro longe. A sensação de participar desse projeto é inexplicável. Acreditávamos que seríamos escolhidas. Confiávamos muito no nosso trabalho. Somos de uma região que tem o maior índice de feminicídio do Ceará. Estar aqui é uma grande vitória”, disse Ana Verônica.

Ana Verônica Isidorio, da iniciativa Atitudes & Negritudes Cariri (CE)

Tayná Maysa Passos, do Afroitas – Arte,  estética e gastronomia preta, de Pernambuco, falou da sua esperança de vencer com seu próprio negócio, ao lado de Lucilene Ferreira e Maíra de Melo. “É difícil viver de empreendedorismo. Viver do seu próprio negócio. Mas eu tinha muita esperança de vencer. Agradeço Iansã, que jogou um vento para que a gente ganhasse”, agradeceu.

Tayná Maysa Passos, do Afroitas (PE)

Do Amapá, Rejane Soares e suas parceiras Alcimar Guedes e Nadia Correa formaram o Afrolab Virtual. “É gratificante mostrar que o Norte tem população preta. Que tem mulher preta à frente dos negócios. Que tem gente na nossa luta”, disse Rejane Soares. 

Rejane Soares, Afrolab Virtual (AP)

Encerramento

Coube à diretora executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, encerrar o evento com uma exaltação aos parceiros do Baobá e um pedido para que incentivem novos parceiros. “O que estamos vendo aqui é o resultado de uma história com muitas intersecções. Esses parceiros têm histórico de trabalho e investem na temática do empreendedorismo há longa data. Quero agradecer a eles, que acreditaram e investiram. Peço que busquem outros parceiros para que a gente possa fazer esse tipo de projeto acontecer. Vamos fazer as placas tectônicas se moverem. Quando a gente fala em empreender trata-se de como vamos mover nossa teia. Trata-se de justiça também. Acreditamos muito na potência desses conjuntos. No poder desses trios de empreendedores e empreendedoras”, afirmou.

Dia Mundial da Saúde: Pouco a celebrar, muito a reivindicar

Hoje, 07 de abril, é celebrado o Dia Mundial da Saúde. A data foi criada no ano de 1948, durante a primeira Assembléia Mundial da Saúde, no qual também foi criada a Organização Mundial da Saúde (OMS). A primeira celebração ocorreu em 1950.

O objetivo da data é garantir o melhor nível de saúde para as pessoas em todo o mundo, através da divulgação de temas importantes para a sociedade e que possam contribuir com a melhoria da qualidade de vida.

Hoje, 71 anos depois da primeira celebração, não há muito o que comemorar. Com a pandemia do novo coronavírus em curso, há um ano, na última terça-feira (6), o Brasil bateu o recorde de morte diárias pela covid-19, foram, ao todo, 4.195 vidas perdidas em 24 horas. Até o momento, já perdemos 337 mil vidas.

No dia 17 de janeiro, a esperança parecia renascer quando Mônica Calazans, uma enfermeira negra, foi a primeira pessoa a ser vacinada no país, no mesmo dia que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19 no Brasil: a CoronaVac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan (SP), e a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca, que será produzida no Brasil pela Fiocruz (RJ). Porém, dois meses depois, os dados de pessoas vacinadas não avançam com a velocidade que deveriam, os últimos dados revelam que apenas 2,78% da população brasileira foi imunizada com a segunda dose da vacina

Mônica Calazans, a primeira pessoa a ser vacina contra a Covid-19 no Brasil (Foto: Divulgação)

Quando o plano nacional de imunização foi apresentado, populações quilombolas e ribeirinhas foram incluídas no grupo prioritário de vacinação. Entretanto, a realidade é outra. Uma reportagem feita pela Agência Pública, confirma que 28% dos brasileiros vacinados até agora são negros, enquanto brancos representam mais de 52% dos imunizados. Esse número mostra a desigualdade racial em nosso país considerando que 56% da população brasileira se autodeclara negra, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). O  estudo Raça e Saúde Pública, coordenado pela Vital Strategies, mostra que homens negros são maioria no índice de mortalidade por Covid-19 no país, sendo que este grupo representa o dobro do que é formado por mulheres brancas.

De acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos, enquanto 53% são negros, portanto, é ainda maior o número de profissionais negros na linha de frente do combate ao coronavírus.

Ainda sobre os profissionais da saúde, em especial as enfermeiras negras,  uma pesquisa feita pela Fiocruz Minas e a Rede Covid-19 Humanidades, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Easp/FGV), sobre a situação dos profissionais da saúde no combate à Covid-19, mostra que as mulheres negras foram as que mais declararam sensação de despreparo (58,7%) e ocorrência de assédio moral no trabalho (38%). Elas também sentiram medo (54%), desconfiança (28%) e tristeza (53%) em maior proporção do que outros grupos. Por outro lado, homens brancos que afirmaram sentir despreparo para lidar com a crise estão em 33,5%, enquanto aqueles que sofreram assédio moral, 25%.

A Covid-19 jogou luz sobre as desigualdades raciais e sociais existentes em nosso país. Caso não sejam implementadas políticas e ações pró-equidade eficazes, o SUS não se consolida como mecanismo de justiça social e não haverá possibilidades de contribuir com a principal premissa do Dia Mundial da Saúde: a garantia de saúde para todas as pessoas do mundo.

Resgate da ancestralidade no passado, corre pela equidade racial no hoje em busca da colheita no futuro

Por Vitória Macedo e Weslley Galzo, do Perifaconnection

Em um cenário de crise aguda nas áreas social, sanitária e econômica, a educação continua sendo alvo de vilipêndio, como mostra a proposta enviada pelo governo federal ao Congresso Nacional – que pede a retirada de 1,4 bilhão de reais do orçamento do Ministério da Educação em 2021 para o enfrentamento da pandemia do coronavírus. 

Ao mesmo tempo, jovens de baixa renda, em sua maioria negros, sofrem com a falta de equipamento adequado e apoio no desenvolvimento dos estudos em meio à pandemia de Covid-19. Tais problemas dificultam ainda mais a inserção da juventude negra e periférica no ambiente acadêmico.

É nesse contexto de descalabro que surge uma iniciativa corajosa e potente, o programa “Já É: Educação e Equidade Racial”. Seu intuito é oferecer bolsas em cursos preparatórios para o vestibular, disponibilizar notebooks, apoio psicopedagógico e benefícios de permanência – como auxílio transporte e alimentação – para que jovens afetados pela erosão das bases da educação não sejam desamparados na busca pelos seus sonhos.

A iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Citi, Demarest Advogados e Amadi Technology, ocorre no ano seguinte ao de maior abstenção na história do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As taxas variaram entre 55% e 72% de não comparecimento.

Dentre os vários propósitos, o programa foi pensado como estratégia de enfrentamento da realidade apresentada pelos números. Nesse contexto, o Já É surge para que 100 jovens negros selecionados, das periferias da capital paulista e da Região Metropolitana de São Paulo, não desistam dos seus sonhos – por conta da impossibilidade de se preparar adequadamente.

Após a seleção das e dos estudantes — que se mostraram potenciais lideranças, ativistas ou empreendedores a serem lançados em suas carreiras profissionais por algumas das instituições mais prestigiadas do país –, o Fundo Baobá convidou o Perifaconnection para contar as histórias dessa molecada.

Uma equipe formada por jovens jornalistas pretxs contando a trajetória de uma juventude que compartilha dos mesmos anseios em relação ao futuro.

O Perifaconnection, então, uniu as potências do jornalismo brasileiro presentes nas quebradas de três regiões do país (Sul, Sudeste e Nordeste), na missão de rememorar o passado da garotada do Já É e prestar escuta atenta aos seus desejos em relação ao futuro. 

Parceria Fundo Baobá e Perifa Connection para a divulgação do Programa Já É

Os 14 profissionais de comunicação envolvidos nessa empreitada, em sua maioria mulheres, experimentaram a potencialidade dos seus respectivos trabalhos e gozaram da possibilidade de explorar a subjetividade da sua negritude em grupo. 

O bonde está espalhado em Guaianazes, São Miguel Paulista, Cidade Tiradentes e Grajaú, em São Paulo, no Pantanal em Duque de Caxias, também no Engenho Novo, Santa Tereza e Jacarezinho no Rio de Janeiro até a Casa Amarela, em Recife. Além de um olhar atento à Região Metropolitana com uma representantes no Planalto, em São Bernardo do Campo, e em Franco da Rocha.

Entre as e os jovens selecionados, a maioria é mais nova do que o grupo de repórteres, e isso fez com que uma relação mútua de espelho fosse criada. Tanto entrevistades se inspiravam em quem estava ali para ouvir suas histórias, quanto entrevistadores relembravam a fase que viveram para entrar na universidade. 

Ainda que muitos tenham saído agora do ensino médio e estejam vivenciando o início da vida adulta, é perceptível que essa juventude tem um vasto conhecimento de mundo.

Esses jovens que participam do Programa Já É são crias das periferias e sabem o significado de entrarem no ensino superior. Seja pelo desejo de mudar a realidade em que foram criados, transformar e inspirar a vida de outros semelhantes, ou por fazer a diferença na família. 

O apoio familiar é algo que se destaca em grande parte das conversas que compuseram a obra. Quando reconhecemos a luta ancestral e todo o caminho percorrido pelos que vieram antes de nós, a valorização pelo que acontece hoje é praticamente instantânea, além da garra para conquistar um futuro melhor, e isso esses jovens têm de sobra. Muitos vieram de famílias cujos pais não tiveram acesso ao sistema de ensino, talvez por isso se desdobram tanto ao apoiarem os filhos na conquista de um sonho que é coletivo.  

Nesta seleção, temos jovens negros diversos, cada um com sua subjetividade. Diante de narrativas que sempre colocam o negro no lugar do “outro”, retirando qualquer resquício de sua humanidade, as e os 100 jovens selecionados, dentre eles mães, transexuais, cisgêneros, héteros, homossexuais, são conscientes de suas particularidades e capacidades que definem o seu lugar no mundo. 

Alguns têm o sonho de empreender, enquanto outros querem ser artistas, ou funcionários públicos. Entretanto, todos têm o mesmo objetivo: entrar em uma universidade.  

Para colocar no papel tantas histórias potentes e complexas em sua subjetividade foi necessário um corpo de repórteres que se envolveu emocionalmente com cada fala, até mesmo por já terem vivido na pele alguns dos relatos. 

Contar o passado e a visão de futuro desses jovens foi um trabalho de fé baseado em dedicação, por acreditarmos nas mudanças concretas que serão promovidas pelo projeto. 

Em 2 meses de trabalho, foram realizadas 25 reportagens, 100 perfis, mais de 15 reuniões de pauta e acompanhamento, cerca de 1.500 minutos de captação de áudio, mais de 150 páginas de texto e uma síntese grandiosa em 7 minutos de vídeo. Esse é o fruto do trabalho de uma juventude que acreditou no chamado para fazer parte de uma iniciativa emancipadora de mentes e construtora de realidades que gozam do bem viver. 

Por fim, com a bolsa na mão, os 100 jovens negros terão acesso a conteúdos preparatórios para o vestibular e vão assumir compromissos com a entidade e os seus próprios futuros. Desse modo, o Programa Já É vai monitorar alguns indicadores importantes durante esse percurso. 

Dentre eles, a frequência dos alunos nas atividades que integram e iniciativa, a evolução de nota nas provas simuladas aplicadas pelo cursinho pré-vestibular, os alunos que ingressam na universidade via Sisu ou Prouni, também aqueles que tiveram pontuação igual ou maior a 450 no Enem, bem como a evasão durante os 12 meses do projeto. 

Um programa como esse nos faz pensar: o que queremos para o futuro dos nossos jovens? Diante da criticidade da situação que o país enfrenta, em que a educação não é valorizada e o genocídio dos jovens negros é vigente, o Programa Já É vem com o objetivo de subverter realidades e garantir possibilidades de mudanças concretas. É a partir de ações coletivas, em comunidade, que faremos um mundo melhor. 

Nas histórias de cada um desses jovens, conscientes do mundo onde vivem e cheios de gás para ir atrás dos sonhos, vemos como as relações humanas são interdependentes e que sempre precisaremos dos nossos para seguir. 

Programa de Aceleração Marielle Franco inspira lideranças femininas ao engajamento proposto pelo Dia Internacional contra a Discriminação Racial

“Nós, mulheres negras, somos a vanguarda do movimento feminista nesse país. Nós, povo negro, somos a vanguarda das lutas sociais deste país,  porque somos os que sempre ficaram para trás, aquelas e aqueles para os quais nunca houve um projeto real e efetivo de integração social.”  A frase da filósofa, escritora, ativista do movimento negro brasileiro, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra e uma das fundadoras do Fundo Baobá para Equidade Racial, Sueli Carneiro, retrata de forma fiel o que tem marcado, ao longo da história, a busca pelos direitos de igualdade na sociedade brasileira..

As mulheres têm tido papel preponderante nessa busca, pois além de se posicionarem e lutarem pelos direitos de todas, todos, todes , têm buscado e alcançado vitórias, mas ainda há muito a conquistar contra o racismo estrutural e a desigualdade social. 

O Dia Internacional contra a Discriminação Racial foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para ser uma espécie de lembrete pela conscientização contra o racismo em todo 21 de março. Ele tem origem a partir do massacre ocorrido em Shaperville (Joanesburgo), na África do Sul, também em  21 de março, mas em 1960. A população negra saiu às ruas protestando contra a Lei do Passe, que a obrigava a só circular apenas por locais pré-determinados. Mesmo sendo uma ação pacífica, a polícia sul-africana abriu fogo contra os manifestantes. Morreram 69 pessoas, mulheres e homens, e outras 186 ficaram feridas. Essa é a informação oficial. Os números podem ser bem maiores. 

O racismo anda de mãos dadas com a morte, pactua com a violência e é amigo íntimo da opressão. Sempre foi assim. Continua sendo assim no mundo moderno. A conscientização relacionada ao respeito ao outro, independentemente de sua cor, religião, raça, orientação sexual ou identidade de gênero ainda não contagiou toda a  humanidade. Mas sua influência está crescendo. As manifestações ocorridas ao redor do mundo após a morte do negro norte-americano George Floyd e da negra norte-americana Breonna Taylor, ambos assassinados por policiais, lançam uma luz de esperança na busca por uma sociedade em que a equidade racial seja exercida por todos, todas e todes. 

George Floyd e Breonna Taylor, ambos assassinados nos Estados Unidos

Lucia Xavier, assistente social, ativista dos direitos humanos no Brasil,  coordenadora-geral do Criola, organização social que trabalha na defesa dos direitos das mulheres negras, afirma que o racismo impede toda forma de desenvolvimento. “Enquanto houver racismo não haverá democracia. Para que a população negra alcance a equidade faz-se necessário enfrentar o racismo, a discriminação racial e as formas correlatas de intolerância, efetivando direitos e estabelecendo políticas de ações afirmativas para dirimir as desigualdades. Além de alcançar o acesso e a participação nos espaços de decisão e deliberação”, disse. 

Lucia Xavier, assistente social, ativista dos direitos humanos no Brasil,  coordenadora-geral do Criola

Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco

A fala de Lucia Xavier remete ao que foi escrito e dito pela administradora, doutora em Ciências Sociais e também fundadora do Fundo Baobá, Luiza Bairros: “Não se trata mais de ficarmos o tempo todo implorando, digamos assim, para que os setores levem em conta nossas questões, que abram espaços para que o negro possa participar. Essa fase efetivamente acabou. Daqui para a frente, vamos construir nossas próprias alternativas e, a partir dessas alternativas, criar para o povo negro como um todo no Brasil uma referência positiva”. Se estivesse viva, Luiza Bairros teria completado 63 anos de idade no dia 27 de março.

O Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco , lançado pelo Fundo Baobá em 2019 em parceria com a Ford Foundation, Open Society Foundations, Instituto Ibirapitanga e W.K. Kellogg Foundation, surge à luz da alteração. O principal objetivo do Programa de Aceleração é ampliar a participação e consolidar mulheres negras cis e trans em posições de poder e influência, através de investimento em suas formações políticas e técnicas. 

As ações desenvolvidas pelo Programa de Aceleração foram a sustentação para que a professora de Comunicação e Empreendedorismo, gerente de projetos e co-fundadora do projeto Ecociclo, a baiana Hellen Caroline dos Santos Sousa, colocasse suas ideias na rua e com muito sucesso. A Ecociclo foi criada a partir da ideia de desenvolvimento de um absorvente 100% biodegradável e brasileiro. “Em 2019 a Universidade de Michigan (EUA) nos convidou para apresentar lá o nosso plano de negócios”, disse Hellen. Além do desenvolvimento do Ecociclo, o apoio do Marielle Franco fez surgir uma nova Hellen Caroline. “O trabalho do Fundo Baobá tem sido justo, maravilhoso e honesto. É a primeira vez que o Brasil tem algo tratado com tanto cuidado, como tem que ser para nós, mulheres pretas. Algo que nos dá ferramentas e a oportunidade de escolha sobre o que fazer com essas ferramentas. Além do que, foi a primeira vez que eu pude pensar a minha vida com estratégia”, afirmou. 

Hellen Caroline dos Santos Sousa, professora de Comunicação e Empreendedorismo, gerente de projetos e co-fundadora do projeto Ecociclo

Lucia Xavier enaltece a importância do Programa Marielle Franco para o coletivo de mulheres negras brasileiras. “É uma das mais importantes iniciativas em prol das mulheres negras no Brasil. Além de ser a maior ação afirmativa para o desenvolvimento de habilidades, profissionalização, participação cívica e de empoderamento de jovens mulheres negras cis e trans. O programa traz como marca política o apoio aos projetos de vida e o fortalecimento das lideranças, transferindo também tecnologias sociais para o desenvolvimento de ações, o enfrentamento do racismo patriarcal  cis-heteronormativo”, afirmou. 

Os objetivos do Programa de Aceleração Marielle Franco possibilitaram à pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal do Acre, Sulamita Rosa, da Rede de Formação para Mulheres Negras, Indígenas e Afro-indígenas do Acre,  implementar seu PDI (plano de desenvolvimento individual).  “Trabalho com formação para enfrentar o racismo e contribuir com a inserção de mulheres negras nos espaços de poder, com foco no ambiente acadêmico”, disse. Desde que iniciou seu trabalho, a proximidade e a influência sobre outras mulheres têm sido suas maiores conquistas. “O reconhecimento das outras mulheres e os feedbacks com relação a continuar nesse meu sonho têm me incentivado muito”, revela.

Sulamita Rosa, pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal do Acre e integrante da Rede de Formação para Mulheres Negras, Indígenas e Afro-indígenas do Acre

 

Combate às questões de vulnerabilidade

No contexto do Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, a luta das mulheres tem foco também no combate ao sexismo e outras questões que as colocam em situação de vulnerabilidade. Lucia Xavier cita a Carta das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver como o guia nessa luta. “Na carta, o movimento de mulheres negras declara as diferentes reivindicações no campo dos direitos, mas entra também nas possibilidades de inverter o padrão dessa civilidade que convive pacificamente com o racismo e as desigualdades raciais”, argumenta.  Já em termos de avanços, Xavier fala dos diferentes focos nos quais as futuras conquistas estão centradas: “As estratégias políticas adotadas para enfrentar o racismo patriarcal cis-heteronormativo são aquelas relacionadas à incidência política por direitos; o fortalecimento das mulheres negras cis e trans e suas organizações; a mobilização política; a articulação com diferentes setores da sociedade brasileira e internacional para ampliação da luta contra o racismo; a disseminação do pensamento das mulheres negras cis e trans; e a mudança do padrão  desumano, excludente, violento e hierarquizante das civilidades”, afirma.  

Ativismo antirracista

Para o escritor Oswaldo Faustino, autor de A Legião Negra – A Luta dos Afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 e  Nei Lopes – Retratos do Brasil Negro, Shaperville marcou o início de uma grande jornada de conquistas em todas as vertentes em que ocorria a discriminação por cor, raça e sexo. “O Massacre de Shapeville é um marco não só na história da luta contra o Apartheid sul-africano, mas na própria luta antirracista e contra as discriminações de todos os gêneros no mundo todo,  em especial nos países onde a diáspora africana aconteceu em números mais expressivos. Ele mudou a postura do Congresso Nacional Africano (CNA), que pregava a não violência frente aos ataques policiais, gerou manifestações internacionais de consciência racial  e angariou solidariedade pela causa negra em povos dos cinco continentes”, afirmou Faustino.

Escritor Oswaldo Faustino

10 Anos do Baobá: Antes de ser batizado oficialmente, fundo dedicado à equidade racial era chamado de “Mecanismo”

Neste ano de 2021, mais precisamente no mês de outubro, o Fundo Baobá para Equidade Racial completa 10 anos de existência. Nesse período, constitui-se no único  fundo exclusivo para promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. O Baobá trabalha com captação de recursos oriundos da filantropia e, através de seus editais, destina esses recursos para organizações, grupos, coletivos e lideranças negras que lutam contra o racismo e promovem a justiça social. 

Apesar da concentração de riqueza e dos impactos negativos acumulados, expressos em alguns dos piores indicadores socioeconômicos do país, a potencialidade criativa e a capacidade de superação, conferem à região grande potencialidade. Se os investimentos corretos forem feitos nos estados do nordeste, a equidade racial para a população negra poderá deixar de ser uma utopia. 

E é do nordeste a dupla que abre essa série que irá até outubro mostrando quem trabalhou e trabalha pela consolidação do Fundo Baobá para Equidade Racial como um dos protagonistas na luta contra o racismo e pela busca da equidade racial no Brasil. São eles a mestranda em Gestão Social e Desenvolvimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Tricia Calmon, e o historiador com pós-graduação em Política e Gestão Cultural, Lindivaldo Leite Júnior. 

Tricia Calmon é baiana e Lindivaldo Júnior, pernambucano. Ambos se lembram do forte envolvimento com a ideia de que algo fosse constituído para que o povo preto nordestino fosse apoiado. “Fui convidado a fazer um trabalho de identificação de lideranças negras em Pernambuco que pudessem contribuir com um debate sobre a criação de algo que fosse para o enfrentamento ao racismo no Brasil. Não havia um nome, então, chamávamos de  mecanismo”, afirma Lindivaldo. “Eu era membro do núcleo de estudantes negros da Bahia e militante do Movimento Negro. O ano era 2008. O board da Fundação Kellogg estava visitando o Brasil, pois já organizavam a saída do país e eram muito questionados sobre temas relativos  à equidade racial”, diz Tricia. 

Lindivaldo Leite Júnior, historiador com pós-graduação em Política e Gestão Cultural

A questão de como organizar o mecanismo foi ganhando corpo. Mas Bahia e Pernambuco não poderiam ser apenas os dois estados envolvidos, entre os nove que compõem a região nordeste. “Fizemos uma caravana. Durou um mês e meio e acontecia nos finais de semana. Visitamos vários estados do Nordeste, com figuras muito representativas como Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Magno Cruz, Lurdinha Siqueira, Luiz Alberto, todas as nossas lideranças. Acho que isso ocorreu em 2009”, relembra Tricia Calmon. Para Lindivaldo Júnior, a lembrança é da riqueza na troca de experiências: “Participei de um conjunto de diálogos sobre uma metodologia específica a ser utilizada para conversar com lideranças. Assim, realizamos encontros com grupos diferentes de lideranças negras: jovens,  veteranos, acadêmicos, gestores, quilombolas e grupos culturais”, afirma. 

O trabalho coordenado pelo pessoal do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceafro), da UFBA, foi ganhando corpo. Mas, como qualquer projeto envolvendo pessoas, com cada um tendo seu tipo de pensamento formador a respeito de um tema, as disputas acabaram aparecendo. “A proposta de surgimento do Baobá era vista como uma concorrência e não como colaboradora da agenda que havia sido proposta pela Fundação Kellogg. E isso não era dito de forma muito clara. Construir esse lugar de um fundo novo, com pauta específica e inédita, contar com todos esses parceiros e construir uma imagem de colaboração, e não de concorrência interna, foi um dos grandes desafios”, revela Calmon. No entender de Lindivaldo Júnior, a construção das relações internacionais foi o principal entrave do começo. “Havia uma dificuldade para compreender como se relacionar com órgãos internacionais de financiamento”, diz. A questão do trabalho com filantropia, incipiente no Brasil, também criava dificuldades: “Foi necessária a composição de um grupo de confiança para tratar de um tema ainda delicado junto ao movimento negro”, afirma Júnior. 

Tricia Calmon, cientista social e mestranda em Gestão Social e Desenvolvimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

As dificuldades foram sendo vencidas com muitos quilômetros rodados pelo nordeste,  muita conversa e a prática de estratégias de convencimento. “São 10 anos de Baobá constituído. O Baobá se tornou e é uma organização única. O único fundo do Brasil de financiamento exclusivo de projetos e causas raciais. Sem subterfúgios. Isso se tornou realidade a partir de uma carteira de projetos interessantes, muito importantes, com boa flexibilidade e diálogo com organizações do Brasil inteiro”, declara Tricia Calmon. Lindivaldo Júnior enxerga o Baobá como projeto vitorioso: O Baobá ampliou sua relação com instituições financiadoras; manteve-se articulado com outros fundos de apoio, estruturou uma equipe e cumpriu com os compromissos assumidos com a Fundação Kellogg”, diz. 

Ainda há mais a conquistar, segundo Tricia Calmon: “O nosso sonho é que o Baobá alcance o que outras organizações negras não conseguem alcançar. Esteja onde outras organizações negras não conseguem estar. Financie autonomamente as pautas. E que o Baobá esteja na boca e nas mentes de todas as organizações negras brasileiras como um catalisador político forte e importante. O Baobá não é isso ainda. As pessoas não conhecem o Baobá como deveriam, ainda! Mas o Baobá está num caminho muito bom nesse sentido”.

Movimentos e organizações sociais lançam campanha de combate à fome em meio a pandemia

A pandemia do novo coronavírus, que assola o país há um ano, trouxe um rastro de destruição que pode ser quantificado em dados: Em 12 meses, tivemos 12,5 milhões de casos e alcançamos a marca de mais de 300 mil vidas perdidas. Mesmo com a vacinação em curso, desde janeiro de 2021, até o momento, apenas 2,22% da população tomou a segunda dose da vacina contra a Covid-19, enquanto a média diária de morte tem alcançado o número de 3 mil por dia. Quanto mais tempo demorarmos para ampliar o acesso à vacinação e sem a consciência social sobre a prevenção, mais vidas serão ceifadas e outras tantas negativamente afetadas. 

A covid-19 acirrou desigualdades sociais existentes em nosso país, o aumento do desemprego, durante o período pandêmico, atingiu as populações mais vulneráveis e com isso, além da doença, um outro vilão têm assombrado essas pessoas: a fome.

Para fazer a contingência da pior crise humanitária dos últimos tempos no Brasil, a Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, 342 Artes, Nossas – Rede de Ativismo, Instituto Ethos, Orgânico Solidário e Grupo Prerrô, mobilizam suas forças para lançar a campanha de financiamento coletivo para arrecadar fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19.

A campanha “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer”, lançada no dia 16 de março, visa buscar formas de manter as ações das organizações apoiadoras nos territórios afetados pela pandemia, garantindo a saúde e a vida de lideranças territoriais e de membros do movimento negro. Aumentando a capacidade de organização e acompanhamento de famílias atendidas e, sobretudo, buscando condições estruturais e financeiras para atender milhares de famílias em extrema pobreza.

Foi realizado um mapeamento detalhado dos territórios e das famílias atendidas pelas ações de apoio humanitário promovidas pelas organizações que compõem esta campanha. O resultado prévio deste trabalho identificou 222.895 famílias a serem apoiadas e mobilizadas em periferias, favelas, palafitas, comunidades ribeirinhas e quilombolas de todo o território nacional. Famílias prioritariamente negras. 

O Fundo Baobá, com a premissa de promover a equidade racial para a população negra em nosso país, é mais um braço a somar nesta iniciativa. Assumimos o compromisso de divulgar a campanha junto às nossas bases e parceiros por meio de ações de comunicação, em eventos e outros espaços estratégicos. Falaremos da “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer” e a necessidade do apoio, participação e doação nessa empreitada. Todos podem participar dessa iniciativa, sendo pessoa física ou jurídica, o mais importante é doar.

A atuação do Fundo Baobá no combate à Covid-19, no ano de 2020, renderam cinco editais voltados para comunidade negra em situação de vulnerabilidade. Em um balanço preliminar, foram investidos mais de R$ 1.180 milhões, que beneficiaram, direta ou indiretamente, 421 indivíduos e 135 organizações, no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Para saber mais sobre a campanha “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer”, e como colaborar acesse o site oficial e participe dessa iniciativa. 

Com uma “Bike Sonora”, o Movimento Social Fome levou informações em tempos de fake news

Imagine um sistema de som ligado em uma bicicleta levando informações corretas  sobre a covid-19 e como se prevenir. Pois essa bicicleta existiu – e percorreu várias ruas de Sobral, no Ceará com o apoio do “Edital Apoio Emergencial para Ações de Prevenção ao Coronavírus” – uma iniciativa do Fundo Baobá em parceria com a Fundação Ford, para apoiar projetos de regiões e povos vulneráveis mais afetados pela pandemia da Covid-10 no Brasil.

“Projeto Bike Sonora” do Movimento Social Fome – Sobral (CE) – (Foto: arquivo pessoal)

Lançado no dia 5 de abril de 2020, em apenas 12 dias, o edital recebeu 1.037 inscritos de todas as regiões do país. Nesse total, 387 eram iniciativas de organizações sociais e 650, de indivíduos. Após uma análise minuciosa da organização, o Fundo Baobá divulgou em três listas um total de 350 projetos selecionados, sendo 215 de indivíduos e 135 de organizações. Cada iniciativa recebeu R$ 2,5 mil para ações de prevenção em comunidades periféricas ou de difícil acesso.

Entre essas iniciativas selecionadas estava o Movimento Social Fome, de Sobral (CE), com o seu ousado projeto da Bike Sonora: “A ideia surgiu como uma força de construir uma comunicação não violenta, onde não assustasse as pessoas num momento tão delicado que estamos passando. Era fundamental colocarmos nas ruas informações necessárias e cuidadosas a fim de atingir um público exclusivo que era a periferia”, diz a fundadora, produtora cultural e articuladora social do Movimento Social Fome, Raiana Souza.

“Projeto Bike Sonora” do Movimento Social Fome – Sobral (CE) – (Foto: arquivo pessoal)

Em tempos de fake news e desinformação, o trabalho do Movimento Social Fome na proliferação de informações sobre o novo coronavírus na comunidade carrega a alcunha de serviço essencial para a população: “Tivemos o cuidado de fazer frente a uma desconstrução de informações falsas advindas da produção de Fake News que se espalhavam nas mídias sociais e tomavam proporções de abrangências exorbitantes, desse modo, pensar uma estratégia de comunicação no combate e enfrentamento a covid-19 foi uma tarefa de luta coletiva que está simbolizando, até hoje, um marco na nossa trajetória enquanto moradores e militantes sociais”.

Muito antes da covid-19 ser decretada pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Bike Sonora ser uma realidade em meio à crise da saúde pública, o Movimento Social Fome já fazia a diferença para a população vulnerável de Sobral. Fundado no ano de 2013, trata-se de um coletivo de jovens moradores da periferia sobralense, surgido nas calçadas, nas ruas e nas associações comunitárias do bairro Terrenos Novos, periferia da cidade de Sobral: “O surgimento do Movimento Social Fome se deu em meio aos ensaios de um grupo de teatro de rua que ensaiava durante a semana no período noturno ao lado da capela da igreja católica, hoje paróquia São Paulo Apóstolo. Foram quase três anos acompanhando as movimentações de amigos, conhecidos e colegas que faziam parte do grupo de teatro denominado ‘Amigos da Paixão’. O grupo só produzia e encenava no período da quaresma cristã, passando assim, o restante do ano, sem organizar ou produzir qualquer outro trabalho teatral”. E foi durante esse longo intervalo sem produzir, que Raiana e os seus amigos enxergaram a necessidade de criar algo que movimentasse a cultura entre os jovens daquele local, e assim nasceu o Movimento Social Fome: “A pretensão inicial do FOME era construir uma agenda de atividades artísticas e culturais como forma de ocupação direta do espaço público da periferia, tornando essas atividades uma maneira mais direta de chegarmos nas pessoas do bairro a fim de convidá-las para fazerem parte do coletivo, ou mesmo apoiar as ações que eram executadas”.

Raiana Souza, fundadora, produtora cultural e articuladora social do Movimento Social Fome – (Foto: arquivo pessoal)

Além de Raiana Souza, fundaram o Movimento Social Fome o educador social e produtor cultural Renan Dias, o artista e grafiteiro Thiago Tavares, o rapper e músico Frank Soares, os produtores culturais e Mc’s Leandro Guimarães e Wisley Nascimento, assim como a produtora cultural e social mídia Fran Nascimento: “Nossa primeira atividade na rua foi exatamente com a proposta de uma intervenção audiovisual com exibições de filmes e videoclipes de artistas locais. O Cine Comunitário foi uma atividade bem direta com a finalidade de explorar a reação das pessoas que até então não sabiam exatamente do que se tratava aquela intervenção audiovisual”, relembra Raiana. No ano de 2018, o Cine Comunitário se tornou Cine Mucambim em alusão ao açude histórico que fica localizado dentro do bairro Terrenos Novos: “para nós moradores do bairro, o Mucambinho tem um valor imaterial que se estende desde sua historicidade até mesmo o valor econômico e social que o mesmo traz para famílias de pescadores que tiram do açude a única renda para por em casa”.

Sessão do Cine Mucambim no bairro Terrenos Novos (Foto: arquivo pessoal)

Outras atividades artísticas e culturais foram organizadas pelo Movimento, como o Som na Praça, com o propósito de levar para as praças e calçadas dos bairros Terrenos Novos e Vila União, ações voltadas à música e leitura. Assim como aulas de música, o Sarau Força e Resistência na praça da juventude no bairro Vila União e o Miss Perifa, que consiste na formação, produção e desfile de mulheres cis, trans e travestis da periferia: “O Miss Perifa é um evento de desfile auto-organzado pelo núcleo feminista do Movimento Social Fome que se chama “Mulheres do Gueto que Lutam sem Medo”.

O Miss Perifa é um evento de desfile auto-organzado pelo núcleo feminista do Movimento Social Fome que se chama “Mulheres do Gueto que Lutam sem Medo” – (Foto: arquivo pessoal)

Em 2014, o grupo participou de duas ações integradas dos moradores da região, o Sopão Comunitário e o Natal Comunitário: “Eram atividades organizadas com o apoio dos moradores do bairro que contavam com o apoio do Fome para realizar outras ações integradas como levar oficinas de graffiti, oficinas de artesanato, oficina de desenho, exibição de filmes com o cine comunitário e organização de mutirões de limpezas nas áreas adjacentes onde ocorriam os eventos especiais”.

Com a chegada da covid-19, com as medidas de isolamento social para conter o avanço da doença e evitar um colapso no sistema de saúde, o Fundo Baobá lançou o edital Doações Emergenciais, e o Movimento Social Fome inscreveu o seu projeto Bike Sonora, sendo uma das 350 iniciativas selecionadas: “A relação do cuidado em tempos de pandemia também ressoou diretamente na renda básica familiar de moradores da periferia. Notamos que, com a pandemia, houve um crescente número de desempregados a nível nacional, e com nossa realidade aqui da periferia da cidade de Sobral/CE não foi diferente. Muitas famílias e jovens enfrentam as duras dificuldades para manter-se vivos e sobreviver ao vírus e a crise financeira que assola ainda hoje muitas pessoas”, e com o apoio dado pelo Fundo Baobá, houve uma transformação na realidade daquela região: “A partir do incentivo gerado pelo edital do Fundo Baobá, que nós do Movimento Social Fome pensamos estratégias de redistribuição da grana para um número maior de pessoas, fazendo assim circular um dinheiro dentro do próprio bairro”, afirma Raiana. “Conseguimos pagar um incentivo fixo para três jovens dos bairros onde o projeto Bike Sonora foi executado: Terrenos Novos, Vila União e Nova Caiçara, além é claro de distribuição de cesta básica de alimentos e produtos de higiene pessoal para famílias e crianças que participam da Biblioteca Comunitária Adalberto Mendes”. A biblioteca é um espaço em Terrenos Novos, onde o Movimento Social Fome executa atividades pedagógicas voltadas às crianças. O espaço se encontra fechado desde o início da quarentena em março de 2020.

Ao relembrar os momentos marcantes vivenciados com o projeto Bike Sonora, Raiana cita a experiência vivida pelo jovem Emanuel Nascimento, que “pilotou” a Bike Sonora pelas ruas de Sobral, e que se no começo ele despertou o estranhamento da população, que não estava acostumada com aquele tipo de novidade, no meses seguintes ele ganhou o carinho e consideração dos moradores locais: “No começo as pessoas estranhavam aquela ação e não entendiam ao certo o objetivo ou do que se tratava, causando assim pouca adesão por parte dos moradores. Com um tempo, Emanuel nos contou que os mesmos moradores agora já paravam ele para elogiar a iniciativa parabenizando-o pela coragem, pela luta e pelo cuidado coletivo. E a partir daquele momento muitos moradores já o esperavam no horário marcado que a Bike Sonora passava para lhe oferecer água, merenda e um cafezinho da tarde”. Raiana revela que depois que as ações do Bike Sonora chegaram ao fim, Emanuel relatou para a equipe do Movimento Social Fome que muitas pessoas do seu bairro tem perguntado porque parou e quando o Bike Sonora irá voltar.

“Projeto Bike Sonora” do Movimento Social Fome – Sobral (CE) – (Foto: arquivo pessoal)

Um ano depois de decretada pandemia de covid-19, hoje no Brasil nós vivemos o pior momento da doença, com média móvel de 71.739 novos casos e com 57 dias seguidos com a média móvel de mortes acima da marca de 1 mil. Mais de 300 mil vidas perdidas. Raiana Souza, destaca a importância do trabalho do Fundo Baobá com edital Doações Emergenciais e o impacto que ele causou na comunidade: “Os impactos centrais que podemos citar aqui se destacam entre duas linhas de campo principais que são: A informação e o cuidado coletivo dentro da periferia, e a distribuição de renda que foi ofertado pelo edital”.

Mesmo sem o trabalho da Bike Sonora, o Movimento Social Fome continua ativo no combate à covid-19 e colocando em prática as lições aprendidas com apoio do edital Doações Emergenciais: “Acredito que os vínculos que foram criados a partir do projeto apoiado pelo Fundo Baobá, o Bike Sonora, foram fortemente estabelecidos nos desejos de sempre insistir, resistir e não se entregar. Temos fome e ela não espera, quem tem fome tem pressa”.

Veja o vídeo da Bike Sonora em ação aqui

Diretora-executiva do Fundo Baobá é destaque em evento virtual sobre empreendedorismo e sustentabilidade

ESG é uma sigla em inglês que, para quem não é do ramo corporativo, não diz muita coisa. Mas trata-se de um conceito empresarial fundamental nos nossos tempos: Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). A primeira vez que ele foi utilizado foi no ano de 2005, em um relatório intitulado “Who Cares Wins” (Ganha quem se importa), sendo um resultado de uma iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Na ocasião, 20 instituições financeiras de nove países diferentes, incluindo o Brasil, se reuniram para desenvolver diretrizes e recomendações sobre como incluir questões ambientais, sociais e de governança na gestão empresarial. 

Foi sobre o tema ESG que a XP Investimentos realizou, entre os dias 2 a 5 de março, um evento virtual reunindo os principais experts do mercado financeiro para debater investimentos sustentáveis. Em quatro dias de debates virtuais, participaram Guilherme Benchimol (CEO e fundador do Grupo XP), o cientista Prof. Carlos Nobre, Denise Hills (Diretora Global de Sustentabilidade na Natura), José Alexandre Vasco (Superintendente da CVM), Liz Davidson (Ministra Conselheira do Governo Britânico no Brasil), Oskar Metsavaht (Fundador da Osklen e embaixador UNESCO para Sustentabilidade), o autor do livro “Cisnes Verdes”, John Elkington, Luiza Helena Trajano (Presidente do Conselho da Magazine Luiza), Liliane Rocha (Fundadora e CEO da Gestão Kairós), Rachel Maia (Fundadora RM Consulting e Presidente do Conselho Consultivo do UNICEF), DJ Bola (Fundador e Diretor da A Banca, produtora social cultural) e a diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, entre outros.

Selma Moreira participou do painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”, no dia 4 de março. Mediado pela analista de pesquisa ESG da XP Investimentos, Marcela Ungaretti, ele contou também com o fundador da Blockc/ZCO2, membro do comitê de sustentabilidade da Duratex e da Marfrig, presidente do conselho da D.R.I Brasil e membro da Conecta Direitos Humanos, Marcelo Furtado, e com a diretora ESG e relações com investidores do Grupo Cosan, Paula Kovarsky, que na ocasião substituiu o CEO da Cosan,  Luis Henrique Guimarães.

Painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”

Selma Moreira fez uma análise sobre o histórico de discussão envolvendo o conceito ESG: “É uma discussão que não é nova, a gente tem uma nova forma de se dirigir ao ESG.  A gente falava de Triple Bottom Line (que é o chamado tripé da sustentabilidade) há um tempo atrás, e já havia uma preocupação em se pensar muito além de compliance, em fazer o que é certo, da forma correta. Hoje quando eu observo a forma de operação das empresas privadas e dos fundos que propõe fazer investimentos nessas empresas para promoção de desenvolvimento, eu acho que a gente olha e consegue ter nitidez de uma consolidação de termos econômicos, de estratégias de gestão e de compliance, muito adequadas. A gente está começando a melhorar, mas ainda me parece que há que se desenvolver formas, métodos e ações, que permita que a parte do “S” e do “E” do ambiental, sejam avaliadas de uma maneira mais estratégica”. Ainda com a palavra, Selma fez uma importante análise contextual do Brasil contemporâneo: “Pensando no nosso contexto de país, a gente está aqui hoje em um dia de muita emoção, mas a gente olha para o nosso país em um dia de luto, um dia muito triste, e não dá para dissociar a empresa do contexto ao qual ela pertence. A gente está vivendo um contexto de tristeza e as empresas são formadas por pessoas, então, no fim do dia, quando a gente conecta tudo isso, conseguir colocar um olhar mais direcionado para que as decisões promovidas pelas empresas sejam éticas e justas, vai muito além da lei. No momento que a gente está pensando que as decisões são promovidas pelos conselhos, executadas pelos executivos, elas se coloquem, sejam passíveis de dúvidas. Quando a gente começa a repensar as nossas certezas, a gente começa a repactuar nosso pacto de gestão, com o ambiente no qual a gente pertence e com o planeta. Acho que é fundamental começar por aí”.   

Selma Moreira durante o painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”

Paula Kovarsky complementou o raciocínio: “Eu concordo muito com o que a Selma falou, que precisa ser uma coisa que está imbuída em todo o seu processo de tomada de decisão e, essencialmente, porque o mundo está caminhando nessa direção, então isso tem que ser por definição círculo virtuoso, eu preciso como companhia olhar para as tendências de mudanças climáticas, por exemplo, porque isso vai definir o portfólio de produtos que vai ter sucesso num horizonte de cinco a dez anos. Eu preciso ter uma empresa que é reconhecida e que tem, de verdade, um compromisso com a diversidade, porque se eu não tiver isso, eu não vou ser capaz de atrair os talentos que eu preciso para ter sucesso no futuro”.

Questionada sobre qual é a importância de ter a diversidade em diferentes níveis de governança, quais são os desafios dessa jornada e o que precisa ser feito de fato para atingir esse patamar, Selma Moreira fez questão de frisar a importância do diálogo em diferentes esferas: “A gente vive um momento onde o mundo está mais aberto para o diálogo. O que era uma barreira antes, e trazia aquela dificuldade de se expor e de estar em um ‘terreno difícil’, hoje há mais abertura e disposição para dialogar. O que é fundamental, se a gente não dialogar, estará alimentando um processo que é da construção da nossa sociedade desigual. Precisamos também qualificar esse diálogo. Hoje nós temos pesquisas que mostram que, com igualdade de gênero, a produtividade melhora em 15%, e que, quando é trabalhado questões raciais e étnicas, a produtividade melhora 35%.

Com esses dados apresentados, Selma Moreira aprofunda o debate do diálogo da diversidade, principalmente, nos níveis executivos: “Nós precisamos entender que diversidade é lucrativo, então a gente tem que pensar isso para todas as etapas, para todos os estágios de gestão de uma organização, na base, mas também no topo, também nos níveis executivos e nos conselhos. E justamente nos níveis executivos que a gente vai perceber os gargalos, no qual 4,9% é o número de executivos negros que participam de conselhos de administração e 4,7% é o número de executivos na gestão”. 

Selma Moreira (Fundo Baobá), Paula Kovarsky (Grupo Cosan) e Marcelo Furtado (Duratex, D.R.I Brasil e Conecta Direitos Humanos)  

Para Selma, é necessário reflexão e auto análise quando o assunto é diversidade de gênero e étnica: “A gente precisa refletir sobre todo o processo de desigualdade e gargalo acumulado no processo escolar e nas questões de acesso ao mundo do trabalho. Então precisamos criar processos que sejam de fato mais inclusivos e afirmativos também, até porque considerando o ritmo que a sociedade resolve os seus problemas, precisamos ser mais evidentes e mais convictos no que a gente quer fazer. O fato de, no Brasil a gente observar essas desigualdades todas, ter nitidez de tudo isso, é um momento de fazer auto análise, do viés inconsciente, de como a gente gosta de ficar com os nossos iguais, como é bacana falar com alguém em que as ideias e valores conectam com os nossos, mas isso nos leva a construir as mesmas soluções de sempre, baseado em seu mindset. A gente precisa se permitir diversificar, como fazemos com os investimentos, com os portfólios, é o que a gente faz com os produtos, mas a gente não vai conseguir diversificar se ficar procurando um currículo igualzinho ao nosso”.

Hoje, a população negra no Brasil, segundo dados do IBGE, equivale a 56%. Mesmo assim, pessoas negras são minorias em cargos de chefia. Selma aproveitou a oportunidade para compartilhar a sua própria experiência profissional: “Eu sou uma mulher negra de origem periférica e que trabalha com equidade racial, trata-se de um tema que não está longe do meu dia-a-dia, ele está no meu coração, é o que corre na minha veia, mas é um tema que é de muita resistência em muitos espaços. Então, o questionamento que eu trago é: como é que a gente se abre para o diálogo e como é que a gente constitui mais potência a partir das nossas diferenças? Esse é o caminho que vai fazer com que se constituam empresas e uma sociedade cada vez mais forte, diversa, brilhante, potente e respeitando as diferenças. A gente não inova se não olhar a partir de um outro ponto”.

Dentro do mesmo contexto, Selma Moreira falou sobre a importância da equidade: “Tem um ponto que a gente pouco usa nos diálogos no Brasil que é falar de equidade, que se trata de justiça. Quando a gente fala de olhar as populações, há que se pensar o quanto as empresas refletem, de maneira justa, a população das regiões onde elas estão inseridas. E nós estamos olhando para isso? A gente tem feito alguma ação que nos tira do lugar de conforto para produzir essa diversidade? Pode ser que tenhamos uma trilha de aprendizagem e aprender faz parte”. 

Para assistir a participação completa da Selma Moreira no painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”, basta se cadastrar gratuitamente aqui e acompanhar esse e outros painéis ocorridos no evento Expert ESG.

Fundo Baobá na Imprensa em Fevereiro

No dia 11 de fevereiro, o presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá para Equidade racial, Giovanni Harvey,  participou do “Webinar: Direitos Humanos e Empresas”, organizado pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE). Além de Giovanni, participaram do evento virtual, o presidente do IREE, Walfrido Warde, o economista e pesquisador do INSPER, Michael França, o jornalista, coordenador de direitos humanos do IREE e coordenador do Coletivo de Entidades Negras, Yuri Silva e a presidente do conselho do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, Luiza Trajano.

Em sua fala inicial, Giovanni Harvey citou a importância daquele evento que buscava reiterar a importância dos direitos humanos dentro de uma instituição privada: “O tema do evento é extraordinário, as empresas privadas têm um papel importantíssimo no que diz respeito às pautas sociais, elas são instituições educacionais”. Na ocasião, Giovanni fez questão de relembrar um diálogo que teve com o empresário e doutor em engenharia metalúrgica e materiais, Alfredo Laufer, na época do pensamento nacional das bases empresariais, durante a transição democrática, nos anos 1980, no qual falava da função educacional que as empresas cumpriam junto aos seus funcionários: “Muitas vezes nas empresas, os funcionários tinham acesso à condições sanitárias e de alimentação, coisas que não tinham em sua residência. E eram influenciados pela convivência no ambiente de trabalho, que essas pessoas passavam a investir nas melhorias de saúde e de vida dos seus lares”, reflete Giovanni, que ainda faz um paralelo com a atual situação: “Hoje, a pauta trabalhada dentro das empresas se ampliou e envolve questões como democracia e direitos humanos”.

Durante o webinar, ao ser questionado pelo jornalista Yuri Silva, sobre qual era o papel do estado e do setor privado no debate das pautas dos direitos humanos, Giovanni Harvey fez questão de lembrar da sua experiência profissional nos dois lados: nos entes federativos (município, estado e governo federal) em oito oportunidades diferentes, e na iniciativa privada: “Não há comparação entre a musculatura que o estado tem para formular, implementar e gerir políticas públicas de direitos humanos, em comparação com as empresas. O estado detém prerrogativas que as empresas privadas não têm. Mas, por outro lado, as empresas têm um papel fundamental nessa luta, tem um papel subsidiário, um papel educativo, um papel à partir dos seus valores, dos seus princípios, da sua capacidade de influenciar a sociedade através da publicidade e das boas práticas”, diz Giovanni, que faz questão de mencionar a importância das instituições privadas no momento atual: “No contexto como esse que nós estamos vivendo que há uma interdição do Estado, em relação a agenda de direitos humanos, as empresas tomaram para si essa responsabilidade, elas saíram de uma zona de conforto. Claro que são papéis distintos, as empresas não substituíram o Estado, elas não têm a força que o Estado tem, elas não têm a capacidade legislativa que o Estado tem, mas elas têm o papel fundamental, nessa conjuntura que o Brasil está vivendo hoje, com a interdição de segmentos importantes do Estado, as empresas adquiriram protagonismo fundamental e, graças a sociedade civil e as empresas privadas, nós estamos conseguindo manter essa agenda no momento no qual o Estado deixa a desejar como protagonista desse processo”, finaliza.

Para acompanhar o evento na íntegra, basta assistir o vídeo abaixo: 

No dia 8 de fevereiro, a doutora, filósofa, ativista, uma das fundadoras do Fundo Baobá para Equidade Racial e membro do conselho deliberativo da organização, Sueli Carneiro, foi premiada pela Associação de Estudos Latino Americano (Lasa). Em nota oficial, a entidade afirma: “A Dra. Carneiro, recebe este prêmio por sua vasta produção acadêmica centrada nas relações raciais e de gênero na sociedade brasileira, (…) bem como pelo seu destacado compromisso no âmbito das políticas educativas”.

A premiação de Sueli Carneiro foi destaque em uma matéria no portal UOL escrita pela jornalista e escritora, Bianca Santana. No texto, Bianca relembra momentos importantes da trajetória da doutora Sueli, como a publicação do seu primeiro livro “Mulher Negra: Política Governamental e a Mulher”, em 1985. A sua coordenação na pesquisa em todos os cartórios e fóruns do estado de São Paulo para identificar condenações por discriminação racial com aplicação da Lei Afonso Arinos, no ano de 1989. Além da criação do Programa de Direitos Humanos de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

A matéria completa pode ser lida aqui.

No dia 26 de fevereiro, o portal Seu Dinheiro, fez uma matéria divulgando o evento Expert ESG, organizado pela XP Investimentos no mês seguinte, entre os dias 2 a 5 de março, reunindo os principais experts do mercado financeiro para debater investimentos sustentáveis. Entre os participantes, estava a diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, que participou do terceiro dia de evento, voltado para “governança corporativa”, discutindo como a cultura corporativa e os líderes empresariais estão migrando para um modelo mais consciente e sustentável de negócios. Neste dia, além de Selma Moreira, o Expert ESG contou com Raj Sisodia, co-fundador e co-presidente do Conscious Capitalism Inc. e professor da Babson College. Halla Tomasdottir, empresária e CEO do B Team (organização que tem liderado um movimento global para ressignificar o papel dos negócios na sociedade) e ex-candidata à Presidência da Islândia. Luis Henrique Guimarães, CEO da Cosan. Marcelo Furtado, fundador da Zscore/BlockC, membro de Conselhos e do Comitê de Sustentabilidade da Duratex e da Marfrig. Gilson Finkelsztain, CEO da B3; e Renato Franklin, CEO da Movida.

A programação completa do evento, você pode conferir aqui.

Apoiadas do Fundo Baobá são destaque na imprensa

E como não poderia ser diferente, as nossas apoiadas do Fundo Baobá ganharam mais uma vez destaque na imprensa, com as suas ações, conhecimentos e com as suas contribuições para promoção da equidade racial.

No dia 11 de fevereiro, a jornalista Midiã Noelle, apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, escreveu uma coluna para o jornal Folha de São Paulo, dando a sua opinião sobre a representatividade negra no reality show Big Brother Brasil, da Rede Globo de Televisão. No texto “BBB 21: desserviço e contribuição ao ódio racial”, Midiã traz uma reflexão de como as importantíssimas pautas raciais foram reduzidas e ridicularizadas no programa, assim como os participantes negros, em nome do entretenimento.

O texto completo, você pode ler aqui.

Por fim, outra liderança do Programa Marielle Franco também ganhou destaque na mídia em fevereiro, a liderança comunitária, integrante do coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste e do Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), ambos em Recife (PE), teve a sua participação no webinar “Mudança climática: sujeito feminino?” divulgada no portal eCycle.

O evento virtual que vai acontecer no dia 6 de maio, é organizado pelo Observatório do Clima, em parceria com a organização ambiental Imaflora, e trará discussões sobre impacto de gênero nas variações climáticas no Brasil e ao redor do mundo, além da criação de um grupo de trabalho para propor ações na intersecção entre os dois assuntos.

Saiba mais sobre o evento e de como participar aqui.

 

Veja as matérias completas abaixo:

09/02/2021 – IREE Webinar: Direitos Humanos e Empresas:
https://iree.org.br/iree-webinar-direitos-humanos-e-empresas/

09/02/2021 – Sueli Carneiro recebe prêmio da Lasa por sua produção acadêmica:
https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bianca-santana/2021/02/09/sueli-carneiro-recebe-premio-da-lasa-por-sua-producao-academica.htm 

26/02/2021 – XP promove evento online e gratuito com experts do mercado para discutir ESG – entre os convidados estão Yuval Harari, Jean Case e Luiza Trajano:
https://www.seudinheiro.com/2021/xp-branded/xp-promove-evento-online-e-gratuito-com-experts-do-mercado-para-discutir-esg-entre-os-convidados-estao-yuval-harari-jean-case-e-luiza-trajano/ 

 

Matérias sobre apoiados do Fundo Baobá

11/02/2021 – Midiã Noelle – BBB 21: desserviço e contribuição ao ódio racial:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/perifaconnection/2021/02/bbb-21-desservico-e-contribuicao-ao-odio-racial.shtml

26/02/2021 – Sarah Marques – Observatório do Clima e Imaflora promovem webinar sobre gênero e mudança climática:
https://www.ecycle.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=9401&Itemid=

Emoção marca aula inaugural do programa educacional Já É, lançado pelo Fundo Baobá para Equidade Racial

A emoção esteve presente o tempo todo na noite de quinta-feira (18 de março) quando o Fundo Baobá realizou a aula inaugural do programa Já É – Educação e Equidade Racial. O Já É tem como objetivo dar apoio a estudantes negros da periferia da cidade de São Paulo e de municípios da região metropolitana de São Paulo no que se refere ao acesso ao ensino superior, um dos grandes gargalos que afetam a juventude negra em seu desenvolvimento social. A aula inaugural do programa aconteceu no formato virtual por conta das medidas de distanciamento social adotadas durante o período da pandemia da Covid-19, que perdura desde março de 2020.

O programa Já É tem apoio de Citi Foundation, Demarest Advogados e Amadi Technology. As inscrições para fazer parte do programa aconteceram entre julho e agosto de 2020. As etapas classificatórias aconteceram entre setembro e novembro de 2020. O Já É selecionou 100 jovens entre 17 e 25 anos que vão receber bolsa para estudarem, durante 1 ano, no Cursinho da Poli. O programa foi todo planejado para que as aulas acontecessem em caráter presencial. Porém, com as medidas restritivas da pandemia, por enquanto, elas terão que ocorrer virtualmente. Para que as aulas possam acontecer dessa forma, cada aluna, aluno, alune recebeu um computador e um chip de acesso à internet, pois a maioria  não possui acesso a internet de banda larga em casa ou pacote de dados que permita acessar a plataforma de aulas, fazer pesquisas e outros detalhes que envolvam aprendizado. Quando as aulas voltarem  a acontecer presencialmente, os alunos selecionados vão receber auxílio alimentação e vale transporte. 

A aula inaugural teve participação de representantes das instituições apoiadoras do Já É, além de membros de órgãos de governança do Fundo Baobá e outros parceiros estratégicos. Pelos apoiadores estiveram presentes Fernando Granziera e Patricia Salles (Citi Brasil), Paulo Rocha e Karina Miranda (Demarest Advogados) e Agnes Karoline de Farias Castro (Amadi Technology). Pelo Fundo Baobá, estiveram presentes Giovanni Harvey (presidente do Conselho Deliberativo), Sueli Carneiro e Rebecca Reichmann Tavares (membros do Conselho Deliberativo), Maria do Socorro Guterres e  Lindivaldo Oliveira Leite Junior (membros da Assembleia Geral), Marco Antonio Fujihara (membro do Conselho Fiscal), além dos membros da equipe executiva. 

Fernando Granziera, líder de Produtos e Co Chair do grupo Blacks at Citi no Brasil, disse que a organização está focando nos projetos sociais. “O empoderamento da juventude negra é prioridade para o Citi. Acreditamos em vocês. Estamos investindo pesado em projetos sociais e esperamos que vocês possam, no futuro, ser nossos colaboradores. Parabéns”, comemorou Granziera.

Fernando Granziera, líder de Produtos e Co Chair do grupo Blacks at Citi no Brasil

Patricia Salles, analista sênior de documentação do Citi, comentou a importância de o Citi Brasil estar presente nesse projeto. “Abraçar a diversidade de pessoas e ideias é atuar com ética. Essa é nossa responsabilidade. Essa é a forma de nos aproximarmos de nossos funcionários, da comunidade e dos nossos clientes”, concluiu Salles que é a madrinha do Ja É no Citi Brasil.

Patricia Salles, analista sênior de documentação do Citi

Já Paulo Coelho da Rocha, do Demarest Advogados, pediu aos alunos muita força de propósito: “Todos acreditamos nos sonhos e ninguém, ninguém, deve desistir de nada. Eu sou um homem branco e isso implica em ter privilégios em nossa sociedade. Então, aproveitem muito essa oportunidade. Aproveitem muito as aulas”, disse.

Paulo Coelho da Rocha, Demarest Advogados

A personificação desse sonho no Demarest está na figura da advogada Karina Miranda, que trabalha com Contencioso Cível. A história dela é semelhante à dos alunos do Já É. “Há 10 anos eu estava no lugar de cada um de vocês. Meu sonho era estudar Direito na USP. Deu certo. Eu me formei na USP. Alcancei meu sonho. Então, dediquem-se! Entreguem-se!”, disse.

Karina Miranda, Demarest Advogados

Com Coelho da Rocha concorda Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology. “Por conta de nossa sociedade desigual, o uso da tecnologia também é desigual entre as pessoas. Somos uma empresa, mas temos uma responsabilidade social grande. Vamos trazer um pouco do debate da tecnopolítica. A tecnologia não é neutra. Ela está nos campos da transformação social”, definiu Agnes Karoline. 

Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology

O lançamento do Já É também marca o ano de comemoração dos 10 anos do Fundo Baobá. A diretora de programa, Fernanda Lopes, falou da importância do que aconteceu na noite de quinta (18). “Estamos plantando sementes. Transformando vidas. Mudando a história.  Somos parte dessa massa que conspira e provoca mudanças. E nem o distanciamento vai impedir a nossa força. Quando menos esperarem estaremos em mais lugares, seremos muitos e mais fortes. Muitas sementes de Baobá!”, disse. 

Fernanda Lopes, diretora de programa do Fundo Baobá para Equidade Racial

Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, enalteceu a iniciativa. “Quero expressar o nosso agradecimento. Porque as iniciativas que o Baobá tem só são viáveis na medida em que possamos trazer parceiros que se tornem viáveis e qualifiquem essas iniciativas. Agradeço por terem se somado a essa iniciativa que busca atender um público prioritário para o Baobá, que é a juventude negra”, afirmou. 

Socorro Guterres, uma das fundadoras do Fundo Baobá e que faz parte da Assembleia Geral, falou da origem da organização. “É com prazer enorme que faço parte desse momento. Porque vejo nesse mosaico de tantas caras de jovens negros e negras, inúmeras perspectivas. Isso é extremamente significativo. Isso mostra que podemos apresentar aos jovens novos caminhos. Caminhos para construir a própria história. Já é possível sonhar. Já é possível esperançar. Já É!”, afirmou Socorro Guterres.

Socorro Guterres, fundadora e membro da assembleia geral do Fundo Baobá 

Thuane Nascimento, diretora executiva do Perifa Connection, destacou a importância do projeto e o histórico que a luta por acesso ao estudo têm no Brasil. “Essa iniciativa é um sopro de esperança. Porque, como diz a professora  de Direito Thula Pires, “vivemos em um mundo meritocrático. Então, vocês precisam estudar; Persistam! Façam o que tem que ser feito, que é estudar. Tenham em mente a luta que foi travada para que vocês estivessem aqui hoje. A luta pelas cotas, travada por pessoas como a Sueli Carneiro, que está aqui entre nós. Não fossem as cotas, eu não estaria aqui hoje”, disse. Thuane é aluna de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  

Thuane Nascimento, diretora executiva do Perifa Connection

As falas dos estudantes foram pautadas pela emoção devido à busca por uma oportunidade como essa, que não estava acontecendo. Uma das falas mais simbólicas foi a da aluna Rubyanne Yasmine, que mostrando a sua filha, ainda um bebê, disse: “Estou aqui porque este é o símbolo da minha luta”.  Para a aluna Isabella Amaro,  o programa é uma espécie de reparo a algumas formas de opressão impostas ao povo negro.

Rubyanne Yasmine, aluna

“O processo escravocrata, o processo de eugenia e o processo de racialização que o Brasil sofre é muito forte na questão da coisificação dos negros. Nós fomos coisificados. Acabamos nos afastando um dos outros e de nós mesmos. Esse projeto é uma forma de reparação. Uma forma de fazer com que andemos juntos. É importante ter um irmão de luta ao lado, que vai saber o que sentimos e vai se identificar com a gente. As palavras para o Já É são humanidade e democratização”, afirmou Isabella Amaro.

Isabella Amaro, aluna

Para Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá, a parte mais importante está na confiança que esses jovens tiveram no Baobá. “Olhando tudo o que a gente dialogou aqui, eu me sinto mais impelida a buscar novas oportunidades como essa. Ainda alcançamos pouco de tudo o que nos é devido. Queremos construir um mundo que seja mais equânime, um mundo mais justo. E é por isso que acordamos todos os dias. O dia de hoje foi lindo e deu mais sentido ao nosso trabalho”, disse.

Juventude conectada e comprometida com a assistência social

Por Eliane de Santos

Em 2019, o Estado do Rio Grande do Norte tinha 1.329.000 pessoas – o equivalente a 38% da sua população -, vivendo abaixo da linha de pobreza, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais 2020, divulgada pelo IBGE em novembro do ano passado. A mesma pesquisa apurou que um em cada quatro potiguares, com idades entre 15 e 29 anos, não estudava e nem trabalhava em 2019.

Pois no final do ano passado ao lançar o Edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19, na companhia da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, da Porticus América Latina e Imaginable Futures, o Fundo Baobá teve uma grata surpresa recebendo propostas de jovens do Rio Grande do Norte.

Eles não se conheciam, entretanto compartilhavam da mesma sensação de incômodo quando paravam, olhavam ao redor e viam a fome e o sofrimento de vizinhos. Antenados, se inscreveram no edital, buscaram parcerias e fizeram diferença para centenas de pessoas.

Aline Pedro de Moura, de 28 anos, nem precisou olhar para muito longe. Moradora da comunidade quilombola de Capoeiras, em Macaíba, ela sentiu na pele e com força o abandono do estado quando a pandemia chegou.

“O que me levou a me inscrever no Edital Primeira Infância foi a falta de apoio educacional para a garotada do quilombo. As crianças na fase da primeira infância e os demais alunos estiveram nesse período totalmente abandonados, educacionalmente falando. Isto preocupa, porque é durante a primeira infância que as crianças constroem a base, o alicerce para vida”.

A interrupção das aulas na região não era o único problema: os adultos do quilombo perderam emprego e renda; faltou comida na mesa de muitas famílias. Aline pensava no bem-estar de todos e agiu, colocando em prática parte dos conhecimentos adquiridos em uma faculdade de Pedagogia, em cursos técnicos de Agropecuária e Informática.

Primeiro ela reuniu os interessados presencialmente, explicou o projeto e como gostaria de ajudá-los. Depois criou um grupo, num aplicativo de mensagens, para facilitar a comunicação e evitar aglomerações. Outros encontros presenciais foram necessários para a construção de quintais produtivos no quilombo: hortas caseiras que em breve poderão aliviar a fome das famílias.

“Os maiores desafios do projeto, aliás, ocorreram após o plantio. Muitos beneficiados tiveram os quintais invadidos pelas galinhas e foi preciso criar proteções. Além disso, a escassez de água para a rega impediu que alguns moradores participasse dessa ação”, lamenta a jovem, que mesmo assim contribuiu para que 200 adultos e 60 crianças se sentissem mais acolhidos nos dois meses de projeto.

“O quintal produtivo é muito importante para melhorar a qualidade da alimentação da minha família e dos meus filhos. Estou agradecida pelo projeto estar nos proporcionando isso”, relatou a participante Liliane Barbosa de Moura, 24, ainda durante as atividades.

Confira o Instagram do projeto Educar em Tempo de Pandemia

A menos de 200 quilômetros dali, no bairro Auto São Francisco, município de Assu, a jovem Itamara Luiza da Silva, 26, tem a convicção de que os jovens negros das periferias podem ser referência na construção de um Brasil mais igualitário e justo. Ela não apenas acredita, como contribuiu para que isso aconteça.

“Tenho uma filha pequena e, como mãe, sei que as crianças são sem dúvidas as mais prejudicadas com os agravos da pandemia. Meu sentimento maternal, de educadora e principalmente mulher me fez me inscrever neste projeto, que está sendo realizado 90% on-line devido a pandemia”, conta Itamara, que é formada em História.

“Tenho um grupo de voluntários que chega a 40 pessoas. Junto de outro jovem de Assu, que também está no edital, nós realizamos muitas coisas em parceria. Formamos um grupo de 50 mães, oferecendo cuidados no WhatsApp, compartilhando atividades e conteúdos”.

Quando coragem e oportunidade geram mudanças e bem-estar para a sociedade

Por Eliane de Santos

Recém-formada no curso de Serviço Social e Tecnologia em Gestão Pública, Fernanda de Sá Sampaio​, de 32 anos, estreou na profissão com um desafio em tanto.

“A gestora da ONG onde eu trabalho, em Pirituba, São Paulo, me falou sobre o Edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19. Ela me apresentou o site do Fundo Baobá, perguntou se eu gostaria de me inscrever e se eu tinha alguma ideia para desenvolver”, recorda.

Com o conteúdo do curso ainda fresco na cabeça, Fernanda lembrou de alguns debates relacionados à concessão de benefícios eventuais, como cestas básicas. E considerando que a fome era uma realidade nas comunidades que assistia rotineiramente, além de um dos focos de atenção do edital, ela não teve dúvidas:

“Após o estabelecimento do isolamento social, as preocupações voltadas para alimentação eram aparentemente as maiores entre as famílias, por isso eu considerei pertinente tratar dessa temática. E havia um agravante: sem ir à escola as crianças perderam ao menos uma refeição saudável e acompanhamento nutricional diário”, conta.

Projeto de Fernanda de Sá Sampaio, Pirituba (SP)

Coube à Fernanda minimizar esses impactos e para isso ela mobilizou outros colegas profissionais na elaboração de reuniões socioeducativas presenciais, em espaços cedidos pelo projeto Amigos das Crianças, por igrejas e salões locais. Mais encontros ocorreram de forma remota para apresentar aos responsáveis informações sobre higienização, armazenamento e reaproveitamento de alimentos.

Encerrada a etapa de reuniões, cada participante recebeu em casa kit’s com frutas, legumes, uma apostila e pote de armazenamento. Aliás, um dos desafios enfrentados foi obter transporte para a logística de compra e a entrega desses alimentos, pois muitas comunidades ficavam distantes cerca de quatro quilômetros de Canta Galo, bairro onde Fernanda mora e trabalha. Sem um carro próprio, ela recorreu aos colegas da ONG e motoristas de aplicativo.

Projeto de Fernanda de Sá Sampaio, Pirituba (SP)

O projeto beneficiou 211 famílias das comunidades do Canta Galo, Vila Mirante, Jardim Paquetá e Vila Zatt, no distrito de Pirituba.

“Eu fiquei muito satisfeita. Uma das mães nos procurou ao final e agradeceu muito, alegando que antes do projeto achava que tinha que ter muito dinheiro para dar uma alimentação saudável ao filho. Desejo participar de outros editais, porém com atividades que incentivem o cultivo de hortas”, planeja a jovem.

O mesmo edital valorizou diferentes propostas focadas na redução de desigualdades sociais, violência urbana e/ou intrafamiliar, desemprego, fome e outras adversidades agravadas pela pandemia.  Contextos que a pedagoga Samily Maria Moreira da Silva e Silva, 29, de Belém do Pará, conhece bem.

“Quando me tornei gestante comecei a pesquisar novas formas de maternar, mais parecidas com formas ancestrais de cuidados voltados para a natureza. Percebi que dentro de um sistema capitalista a maternidade é romantizada comercialmente mas na prática, principalmente para as mulheres negras, acontecem muitas violências, inclusive psicológicas. Sou mãe de Violeta, de 7 anos, e ao longo de nossas vidas sofremos violência de várias formas”, desabafa.

O projeto abraçou 10 famílias do distrito de Icoaraci e do bairro de Terra Firme, distantes da capital.  Samily Maria trabalhou pelo fortalecimento de uma rede de mães negras, com filhos de 0 a 6 anos, ressaltando a importância dessas mulheres para a proteção das crias e para a própria comunidade; fornecendo palavras de apoio e resgatando saberes ancestrais como a cultura das puxadeiras, ou parteiras, e do uso das garrafadas (remédios feitos com ervas naturais) para a recuperação do útero e auxílio à amamentação. Culturas que já foram mais fortes na região.

A primeira atividade aconteceu de forma remota, com uso de um aplicativo de mensagens para entrevistar mulheres e homens que integram a rede de apoio das mães. Depois as crianças foram convocadas para ajudar na produção de podcast’s com os temas: “Cuidados com primeira infância no contexto da Covid-19”, “A importância da amamentação” e “A importância da rede de apoio”, também compartilhados por aplicativo de mensagens.

“Além da minha filha, a produtora do projeto também é mãe de um menino, chamado Francisco, de 5 anos, e a nossa rede de comunicação e produção de mulheres negras também tem muitas mães trabalhamos em rede com várias mulheres da cidade que têm crianças. Então pensamos em criar este conteúdo de crianças negras para outras crianças negras, sobre amamentação e cuidados na pandemia”.

Dez famílias foram contempladas e no final do projeto receberam kit de cuidado e beleza mais cesta com hortaliças.

“A gente está terminando com sede de ter mais condição de firmar esse trabalho. É uma demanda grande e sempre bate uma angústia, porque esbarramos na negligência com a região Norte, com as mães pretas periféricas, na falta de acesso a vários serviços. Seguimos aos trancos e barrancos, mas fica essa sede de conseguir fazer trabalho um continuo, de envolvendo mais pessoas”.

Seja por motivação pessoal ou profissional colaborar para o bem-estar e a qualidade de vida de populações vulneráveis gera empatia, gratidão e mudanças que estão longe de ser superficiais.

Em São Paulo, a terapeuta ocupacional Lara de Paula Eduardo, 41, desejava fazer parte desta engrenagem e não hesitou em aderir ao edital.

“Tenho muito interesse em realizar trabalhos sociais que busquem transformação cultural e justiça social. Participar do Edital Primeira Infância foi uma forma de subsidiar parte do custo, e me possibilitou a parceria da psicóloga Adriana Haaz de Moura Gaunsze”, afirma.

A dupla tinha como público-alvo crianças de 1 a 3 anos, atendidas por uma creche, em Itatuba, Embu das Artes, São Paulo; seus familiares e cuidadores, incluindo homens. No entanto, chegou até eles indiretamente, incrementando a formação de 11 educadoras que já estavam acompanhando aproximadamente 100 famílias de alunos à distância.

“Sabemos que é um grande desafio auxiliar as crianças que mais precisam de apoio, estando os adultos também em grande tensão. Por isso desenvolvemos para as educadoras alguns encontros virtuais de acolhimento, reflexão e aprofundamento sobre o desenvolvimento infantil, educação, questões relativas a pandemia; importância das relações para a estruturação psíquica e o brincar”, descreve Lara.

“Aprendemos que há muito a ser feito pela educação infantil no Brasil, principalmente nas creches e berçários que trabalham com os bebês de 1 a 3 anos, em que a presença, disponibilidade e relação do adulto é fundamental para a constituição psíquica e desenvolvimento infantil.”

A força do coletivo: Reunindo recursos, saberes e criatividade. Edital Primeira Infância resgata a esperança

Por Eliane de Santos

“Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá em grupo!” É fácil encontrar essa frase na internet, sempre citada como um provérbio africano. A mensagem que ela carrega faz todo sentido para a pedagoga Meire Pereira de Oliveira, de 31 anos – educadora popular e coordenadora artística e pedagógica na Universidade da Reconstrução Ancestral e Amorosa (UNIRAAM), no Pelourinho, em Salvador.

Esta segunda função, ela realiza de forma voluntária, desenvolvendo atividades pedagógicas de arte e educação com jovens e adultos, crianças e adolescentes. Sempre envolvendo parcerias com escolas públicas da comunidade do Centro Histórico da capital e adjacências; bibliotecas e praças públicas, por exemplo.

“Atuar na área de educação em comunidades periféricas, utilizando conteúdo antirracista e baseado na Lei 10.639/03 é uma das minhas maiores motivações. Soube do Edital Primeira Infância, do Fundo Baobá, por meio de duas amigas (Maria Claúdia Dias e Maria Belga Ofinger) e não pensei duas vezes. Logo nos reunimos para pensar em atividades lúdicas e didáticas com referencial identitário”, conta Meire.

Projeto de Meire Pereira de Oliveira, Projeto Em Cantos de São Lázaro, Salvador (BA)

O trio concentrou a atenção nas famílias com crianças de 0 a 6 anos e criou a campanha ‘Fortalecendo a identidade étnico-racial na primeira infância através do Em Cantos de São Lázaro em meio à pandemia 2020’. São Lázaro é uma localidade, no bairro Federação, um bairro cultural de Salvador, famoso pelas tradicionais festas ao santo padroeiro, São Roque e Omolu.

“Já estávamos presentes na comunidade, mas precisávamos nos adequar ao novo perfil de realização das atividades, em meio a pandemia. Para criar engajamento, envolvemos três representantes da comunidade na aplicação de um questionário para 30 famílias. A ideia era identificar as demandas em relação a nossa proposta”, explica.

Projeto de Meire Pereira de Oliveira, Projeto Em Cantos de São Lázaro, Salvador (BA)

“Contatamos os profissionais que já trabalhavam no Em Cantos e novas parcerias para escolher a melhor didática a ser aplicada. Preparamos 25 vídeo aulas de arte-educação e as compartilhamos por mensagens de texto. O início do primeiro vídeo foi explicativo para os pais. Cada monitor detalhou a sua atividade e maneira como ela seria conduzida. Essa ação possibilitou o engajamento dos responsáveis e estimulou a afetividade no ambiente familiar”.

Na pegada do coletivo, o grupo decidiu que artistas e brincantes negros gravariam três vezes mais vídeos, aumentando a representatividade negra nas telas. Os vídeos, que tratavam de história e cultura negra e indígena, foram publicados no Instagram,  Facebook e  YouTube.

Houve ainda oficina para a construção de instrumentos musicais com materiais reciclados (tambores de lata, ganzás de latas e garrafas pet), e doação de pandeiros infantis.

“Alcançamos 17 adultos com as assinaturas autorizando a participação dos filhos mais sete mães acompanhando as atividades presenciais, nas quais tomamos todas as medidas sanitárias contra a Covid. Chegamos a atender 34 crianças no total”, calcula Meire, feliz com o trabalho de equipe.

@projetoemcantosdesaolazaro

Veja mais vídeos no canal oficial do Projeto Em Cantos de São Lázaro no Youtube.

No Rio de Janeiro a pedagoga Débora Dias Gomes, 62, escolheu o ditado ‘Uma andorinha só não faz verão’ como lema do Instituto Pertencer, uma organização não governamental, voltada para inclusão de pessoas com deficiência, jovens e adultos em situação de risco social, que ela fundou em 2011.

Nove anos depois, Débora inscreveu o Pertencer no Edital Primeira Infância, pretendendo legitimar as ações sistemáticas e continuadas de apoio às famílias no cuidado integral de crianças de até 6 anos. E conseguiu: no dia 10 de dezembro 10 de dezembro, a equipe recebeu da Prefeitura do Rio o Selo Direitos Humanos, pelo reconhecimento ao trabalho realizado no contexto da COVID 19.

Projeto de Débora Dias Gomes, Instituto Pertencer, Rio de Janeiro (RJ)

Uma equipe interdisciplinar cuidou de 100 crianças, por meio de atendimentos pscicossociais e ações com as famílias, ambos de forma remota, utilizando grupo no Whatsapp e outras ferramentas de apoio.

Ocorreram também alguns encontros presenciais na sede do projeto para entregas de cestas básicas, materiais de higiene e limpeza, além de outros proventos. Sempre a partir de um cronograma para não haver aglomeração. E na cozinha-escola do Pertencer, mães e avós das crianças assistidas participaram de um curso para formação de boleiras e salgadeiras, visando geração de renda.

Projeto de Débora Dias Gomes, Instituto Pertencer, Rio de Janeiro (RJ)

“O objetivo era oferecer opção de renda nesse tempo de crise. Aulas comportamentais complementares trataram temas como perfil da empreendedora, inteligência emocional e mundo do trabalho, por meio de vídeoaulas e textos entregues on-line. As alunas também usavam o aplicativo de mensagem para encaminhar fotos das suas produções, áudios com dúvidas ou texto escrito. Eu diria que o maior desafio para a realização das atividades no contexto da COVID foi nos reinventarmos, nos adaptarmos para não haver interrupção das atividades propostas”.

Visite o Facebook do Instituto Pertencer 

O ambiente virtual, que poderia atrapalhar o projeto da Débora, trouxe gratas surpresas para a pedagoga Christiane Teixeira Mendes, 36, de Coroadinho, São Luís do Maranhão. Ela usou a ferramenta TikTok – febre nas redes sociais durante a quarentena – para gravar e compartilhar vídeos curtos, sensibilizando pais e responsáveis sobre questões como hiperatividade e a importância de ouvir os pequenos.

Com o incentivo do edital, ela realizou atividades (na maioria das vezes virtuais) com foco em ações de apoio a famílias (20 crianças e 60 adultos) para a melhoria do cuidado integral na primeira infância.

Projeto de Christiane Texeira Mendes, Coroadinho (MA)

“Houve uma reunião presencial, na sede da associação comunitária de Coroadinho, quando apresentamos o projeto para os pais e responsáveis. No mais, a equipe se comunicou basicamente por chamadas de vídeo no WhatsApp. Também usamos a internet para organizar um quis virtual, com perguntas em um formulário do Google Docs para os pais e responsáveis. As respostas foram analisadas por mim e por três professoras que convidei para ajudar”.

A análise do quiz gerou outra ação: a análise de relacionamento familiar. A partir das respostas elas sugeriram dicas de relacionamento personalizadas e dicas de atividades que estimulassem o desenvolvimento infantil. Tudo foi incluído em uma caixa surpresa, entregue aos participantes. Dentro também havia livros, jogos e cinco sugestões de atividades, entre elas, uma receita de picolé para pais e filhos fazerem juntos; um brinquedo para construírem e testarem juntos.

Projeto de Christiane Texeira Mendes, Coroadinho (MA)

“Fiz essa escolha porque na minha opinião essa é a fase em que nós seres humanos mais aprendemos e também é a fase em que menos recebemos investimentos. As crianças costumam ser as mais prejudicadas com a falta de vagas na rede pública, por exemplo. E agora, na pandemia, as escolas fecharam ou faliram. Muito triste”, lamenta.

 

 

Edital Primeira Infância: Ponto de partida para a empatia e o resgate da autoestima

Por Eliane de Santos

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística a taxa de desemprego no Brasil chegou a 14,6% no terceiro trimestre de 2020, a maior da série histórica iniciada em 2012. O percentual correspondia na época a 14,1 milhões de pessoas.

A falta de uma renda formal contribuiu para outro dado alarmante, neste caso apurado por pesquisadores do Laboratório de Psiquiatria Molecular da UFRGS e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, divulgado em outubro do ano passado: 80% da população tornou-se mais ansiosa e 68% desenvolveu sintomas depressivos durante a pandemia.

Desemprego e estado de ansiedade eram justamente uma realidade para Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, de 34, quando ela decidiu se inscrever no Edital Primeira Infância do Fundo Baobá. Encontrou ali a motivação que precisava, além de um caminho para estimular outros brasileiros a manterem seus corpos e mentes saudáveis.

“Notei que as crianças, os responsáveis, as mulheres grávidas e puérperas sofriam muito com o distanciamento social. Percebi também que o poder público não desenvolveu ações para auxiliá-los nesse período. A instabilidade estava aumentando a ansiedade entre os pequenos e expondo os adultos à depressão, síndrome do pânico e outras doenças emocionais/psicológicas”, explica.

Projeto de Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, São Paulo (SP)

Jaqueline tem formação livre em vários estilos de dança (contemporânea, afro-brasileira, urbanas, jazz, sapateado e ballet clássico) e há 12 anos dá aulas em projetos sociais próximos na cidade de Pompeia, onde mora, e em outras duas cidades vizinhas: Queiroz e Oriente, no Centro-Oeste da capital paulista. Ela arregaçou as mangas e só precisou de um pouco de criatividade para mudar a forma de ensinar. Na verdade, a partir das medidas de distanciamento, muitas escolas e projetos fecharam e ela já vinha realizando aulas on-line, no Instagram.

Projeto de Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, São Paulo (SP)

Ao todos 30 pessoas se beneficiaram com as oficinas virtuais de ballet infantil (02 a 06 anos), alongamento para gestantes e puérperas, ballet e jazz para adultos que ela organizou. Gostaram tanto que indicaram para pessoas em outras cidades, que desejam saber se Jaqueline formará mais turmas remotas. Mesmo depois da pandemia.

“Algumas mães comentaram que as filhas ficaram menos ansiosas com as aulas de ballet infantil, e que perceberam melhora também na coordenação motora e na postura das meninas. Já algumas gestantes enviaram mensagens, reportando que as aulas de alongamento as ajudaram a dormir melhor”, comemora Jaqueline, hoje mais animada e certa da missão que tem com a dança.

Projeto de Jaqueline Barbosa dos Santos Heldt, São Paulo (SP)

‘Se a vida te der um limão, faça dele uma limonada’ é um ditado que vale para outros brasileiros que abraçaram o desafio do Fundo Baobá. A pedagoga Heloisa Ferreira da Silva, 42, já estava desempregada quando a Organização Mundial da Saúde anunciou a disseminação mundial do novo coronavírus, em março do ano passado. Com a notícia, ela perdeu duas chances profissionais:

“Eu havia sido aprovada em uma seleção pública e em uma instituição privada, para trabalhar como professora e coordenadora escolar. Mas veio a pandemia e não fui convocada por nenhuma das duas”, lembra.

Estava aberta no país mais uma temporada de demissões, porém outra de oportunidades. Atenta, Heloisa se candidatou ao edital do Baobá, desejando doar o seu tempo e os seus conhecimentos para o bem-estar de moradores do bairro do Engenho Velho de Brotas, em Salvador, Bahia.

Projeto de Heloisa Ferreira da Silva, Salvador (BA)

Mas a limonada ainda não estava pronta. Surgiram dificuldades logo na etapa inicial, quando ela tentou obter autorização para trabalhar com famílias cadastradas no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) da região.

“Fui ao CRAS, expliquei as minhas intenções de prestar orientações pedagógicas para crianças de 0 a 6 anos e apoiar as mães que, como eu, estavam sem trabalhar, preocupadas com a educação dos filhos em casa. Fui orientada a não fazer o projeto”.

A saída foi percorrer a comunidade apresentando as propostas, colando cartazes e cadastrando os interessados.

Projeto de Heloisa Ferreira da Silva, Salvador (BA)

“Mudei a estratégia de divulgação. Busquei parceiros no bairro e adjacências, como o Mídia informativa Nosso Engenho, o bloco afro Os Negões, a Associação Santa Luzia, o Terreiro Ilê Axé Aji Ati Oya e o portal A gente educa”.

Cinquenta famílias decidiram participar. Como nem todas tinham acesso às redes sociais, também foi preciso usar o boca a boca para se comunicar com elas e, por exemplo, anunciar a entrega de kits pedagógicos com caixa de lápis de cor, borracha, massinha de modelar e jogos de coordenação motora, entre outros itens que variavam de acordo com a faixa etária.

Heloisa abraçou aproximadamente 150 crianças com o projeto e foi estimulada pelos pais a repeti-lo. Enfim, o refresco esperado.

Eu sempre senti a necessidade de apresentar para a sociedade uma educação que respeita as diversidades e atende com equidade. O Fundo Baobá abriu caminhos para eu iniciar a prática deste apoio comunitário e não vou parar!”

Projeto de Heloisa Ferreira da Silva, Salvador (BA)

Pobreza, desemprego, solidão, ansiedade e violência. Todos esses fatores estressores se apresentaram na pesquisa que Priscila Costa, 36, realizou ainda no início da pandemia com 153 pais e mães de crianças com menos de 3 anos de idade, matriculadas em uma creche próxima à favela Alba, no bairro de Jabaquara, na Grande São Paulo.

Como docente da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo, há cinco anos ela desenvolve ali atividades de extensão voltadas à promoção do desenvolvimento infantil e de apoio à parentalidade. Priscila portanto, já conhecia a realidade dura daquelas famílias mas precisava saber como elas estavam vivendo no contexto da Covid-19.

“Pouco tempo depois eu tive conhecimento do edital e achei que ele se encaixava com o meu trabalho. Para me inscrever, eu também considerei a minha experiência como mãe de uma criança de 1 ano e cinco meses nessa pandemia. Ser mãe impulsiona o nosso olhar para ver diferente a situação de outros pais. Eu me senti sobrecarregada na fase de isolamento social. Tive momentos difíceis, sem uma rede de apoio. Imaginei como não estariam as famílias da creche, que além de tudo lidam com o desemprego, a fome e a falta de infraestrutura”, relata Priscila que também é mestre e doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de São Paulo.

Projeto de Priscila Costa, São Paulo (SP)

Ela desejava fortalecer as famílias, promovendo o desenvolvimento infantil em casa e gerenciando o estresse dos pais durante o surto de coronavírus. Para isso aplicou um programa da Universidade de Havard (EUA) que já pesquisava há um ano.

“O nome é ‘Cinco Básicos no dia-a-dia’ e tem origem no programa “The Basics”, desenvolvido no The Achievement Gap Initiative da Universidade de Harvard, sob coordenação do professor Ronald Ferguson. É uma intervenção de saúde pública. Consiste em cinco formas simples e divertidas de apoiar a parentalidade no crescimento dos filhos: dar muito amor e controlar o estresse; falar, cantar e apontar; contar, agrupar e comparar; explorar através do movimento e da brincadeira; ler e discutir histórias”, define.

“O professor Ferguson conferiu apoio irrestrito para disseminarmos o conteúdo em português”.

Na fase de planejamento Priscila convocou 33 educadores da creche de Jabaquara para uma reunião virtual, na qual foram apresentados os cinco princípios do ‘Cinco Básicos’ e discutidas maneiras de facilitar a comunicação com as famílias por meio do WhatsApp. Dali saíram algumas ideias iniciais: oferta de um brinde que as famílias poderiam retirar na creche, composto por um livro infantil, um batom gloss e um folheto dos Cinco Básicos; envio de mensagens de texto, áudio e vídeo para o engajamento das 153 famílias.

Projeto de Priscila Costa, São Paulo (SP)

Foi preciso ainda traduzir 125 mensagens de texto sobre os Cinco Básicos, elaborar uma identidade visual do programa para as mensagens de texto, produzir uma logomarca em português, legendar e dublar um vídeo sobre o ‘Cinco Básicos’ e, finalmente, engajar as famílias via WhatsApp. Ao todo 35 participaram.

“Os principais desafios foram o curto período para execução das atividades, a complexidade de traduzir as mensagens de texto, do Inglês para o Português, fazendo uma adaptação cultural de seu conteúdo, e o engajamento das famílias utilizando apenas o WhatsApp como canal de comunicação. Aprendemos muito com isso e ossos planos para o futuro incluem ampliar a disseminação do Cinco Básicos, inclusive com ações presenciais, sites e redes sociais. Vamos seguir com o projeto.”

Edital Primeira Infância facilitou ações para o acesso a direitos sociais

Acreditando que o ambiente doméstico mais do que nunca deve estar livre de qualquer tipo de violência ou negligência, a psicóloga Anny Waleska Saldanha Torres, de 48 anos, investiu tempo, amor e recursos -captados junto ao Edital Primeira Infância do Fundo Baobá -, para levar informação aos lares de 15 famílias do Distrito Maria Quitéria, na Zona Rural de Feira de Santana, na Bahia.

“Trabalho há sete anos e sete meses no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) São José, com uma comunidade negra e quilombola, então me sensibilizo por suas causas. Eu quis apresentar às famílias conteúdos pertinentes ao bom desenvolvimento na primeira infância: as consequências da violência; os benefícios do afeto, do cuidado e dos estímulos diversos para a construção da identidade e para o desenvolvimento cognitivo em aspectos como linguagem, atenção e memória”, descreve Anny Waleska que também é especialista em Neuropsicologia.

A psicóloga Anny Waleska Saldanha Torres de Feira de Santana (BA)

“A busca ativa das famílias para o projeto foi presencial, através de contatos pessoais com famílias que procuravam espontaneamente o CRAS, e via WhatsApp, através dos cadastros do CRAS e outros repassados por uma visitadora do Programa Criança Feliz. Na etapa de cadastramento, recolhemos dados referentes à composição familiar, endereço, raça, escolaridade, situação financeira/ocupacional, gestação e parto, desenvolvimento da criança etc”.

As atividades giraram em torno da produção e do envio de vídeos pelo mesmo aplicativo de mensagens. Os assuntos variavam de legislações (Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto da Igualdade Racial, Estatuto da Pessoa Idosa, Lei Maria da Penha e direitos socioassistenciais) a desenvolvimento infantil (aspectos psicológicos e neuropsicológicos), passando por cuidados com o excesso de mimos, a importância da afetividade e do brincar. Com base nos ensinamentos repassados, os pais foram estimulados a contar histórias para os filhos, praticar brincadeiras no quintal e jogos que estimulassem a memória e a criatividade. No final, eles compartilharam vídeos dessas atividades, bem como as impressões gerais do projeto.

Projeto de Anny Waleska Saldanha Torres, Feira de Santana (BA)

“As famílias precisavam conhecer os seus direitos e saber a quem recorrer em casos de violação ou da garantia deles. Quanto à afetividade, nós buscamos sensibilizar os familiares da importância de uma comunicação com afeto, onde a criança de 0 a 6 anos possa construir suas relações com uma base emocional sólida, longe de relações de abuso, violência e medo.”

** @ocordel site

Vídeo 1

Vídeo 2

Vídeo 3

Vídeo 4

Vídeo 5

Vídeo 6

Vídeo 7

A garantia dos direitos da primeira infância também é uma das causas que Fernanda Flávia Cockell da Silva, 42, tem abraçado ao longo da sua trajetória de pesquisas e trabalhos de extensão pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“A pandemia tirou de mim o que sempre me moveu, o abraço! No dia 22 de março de 2020, por decreto publicado no Diário Oficial do município de Santos, todas as atividades comunitárias em grupo foram interrompidas por causa da pandemia, e as ações universitárias canceladas”, lembra Fernanda, que é fisioterapeuta, mestre e doutora em engenharia de produção e pós-doutora em Sociologia.

Era preciso se adequar à realidade, optar pelos abraços e cuidados virtuais. Com apoio do Fundo Baobá ela manteve uma das suas principais ações: a ‘Abrace seu Mundo: estreitando laços parentais’, que há cerca de quatro anos incentiva atenção às puérperas nas redes de saúde da cidade de Santos, a partir de visitas domiciliares e da prática de técnicas de vínculo parental (sling, ofurô e shantala), promovendo apoio às famílias que vivem em contextos de desigualdade social.

Projeto de Fernanda Flávia Cockell da Silva do Abrace Seu Mundo: Estreitando Laços Parentais, Santos (SP)

“Eu sabia que os filhos das alunas universitárias estavam sendo afetados pelas aulas virtuais e pela falta de creches. Os meus conhecimentos fariam diferença em tempos pandêmicos. Com o projeto eu ainda pude estender a mesma estratégia de acolhimento, escuta e o apoio à amamentação para as mães dos Morros de Santos”, comemora.

“Vivenciar o puerpério, longe de sua família é o que acontecia para muitas de nós antes da pandemia, mas com isolamento social e os riscos reais de contaminação, muitos adultos perderam o apoio dos avós ainda presentes nas comunidades. Ou a família se afastava dos mais velhos com a chegada do recém-nascido, ou assumia os riscos de contaminá-los. As crianças que estão nascendo em 2020/2021 vivenciam a primeira infância em um ambiente ainda mais vulnerável do ponto de vista social e econômico e com a fragilidade dos vínculos parentais”.

Mesmo de longe foi possível fazer muito. Fernanda e sua equipe de apoio organizaram rodas de conversa sobre questões relativas à parentalidade e maternidade no meio acadêmico, usando para isso um serviço de comunicação por vídeo (o Google Meet). Depois promoveram atividades presenciais e remotas focadas no fortalecimento dos vínculos parentais.

Projeto de Fernanda Flávia Cockell da Silva do Abrace Seu Mundo: Estreitando Laços Parentais, Santos (SP)

“A segunda ação envolveu 20 mulheres no último trimestre de gestação. Todas moradoras do Morro Nova Cintra, em Santos, com data de parto provável entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021. Elas foram acompanhadas pelas equipes de Estratégias da Saúde da Família. Acolhemos as mães presencialmente e agendamos uma conversa individual, em ambiente virtual (whatsapp) ou via chamada telefônica, com a equipe de extensionistas do projeto. A proposta era estruturar vínculos interrompidos pela pandemia “, conta.

Com este grupo foram organizados ainda encontros semanais e até um chá comunitário, remotos, respeitando ao máximo as regras de isolamento.

“O chá ocorreu pelo Facebook no dia 12 de dezembro, com tema aleitamento materno. Na ocasião dez mães foram contempladas com sorteios de enxoval (roupas novas, fraldas e lenços umedecidos). Apesar de a interação ser apenas por chat, foi possível compartilhar nossas vivências e narrativas. Além das mães presentes, havia profissionais da rede, multiplicadores e alunos, permitindo que a interação ocorresse”.

Projeto de Fernanda Flávia Cockell da Silva do Abrace Seu Mundo: Estreitando Laços Parentais, Santos (SP)

É preciso determinação e empatia para ultrapassar as barreiras sociais impostas por uma pandemia, em prol de quem mais precisa. Na cidade do Rio de Janeiro, a socióloga Ester Oliveira Bayerl, 40, fez diferença nos lares de 30 crianças com Transtorno de Espectro Autista moradoras da Cidade de Deus, uma comunidade na Zona Oeste carioca.

Ester é mãe do Samuel, 5, uma criança diagnostica com autismo leve, mas que chegou a apresentar sinais de ansiedade e convulsões nos últimos meses.

“O meu filho ia para a escola diariamente, fazia terapia ocupacional duas vezes por semana, em locais diferentes, e natação em outros dois dias. De repente foi preciso parar com tudo. Ele estranhou e passamos por momentos difíceis. Precisei me reinventar como mãe, professora, terapeuta, e improvisar atividades para ele em casa”, conta.

Projeto de Ester Oliveira Bayerl, Cidade de Deus (RJ)

“A quantidade de mães de autistas deprimidas nesse período da pandemia é muito grande, porque são elas que normalmente ficam com os filhos mais tempo. Tem autista que nem dorme. Sem poder ir para a escola ou para a terapia, eles ficaram extremamente nervosos e as mães pressionadas”.

Dar suporte a essas famílias tornou-se meta para Ester. O Edital Primeira Infância se apresentou como a ferramenta necessária para colocar uma ideia em prática: o projeto Caixa Box, que previa a montagem e a distribuição de caixas de madeira abastecidas com itens como lápis de cor, tintas e baldes de massinha, próprios para o brincar e o desenvolvimento de habilidades de crianças com TEA.

Projeto de Ester Oliveira Bayerl, Cidade de Deus (RJ)

“Na ONG que o meu filho frequenta eu vejo outras mães muito humildes, que não podem se dar ao luxo de investir em um brinquedo neste momento, e que não sabem como podem cuidar dos filhos sozinhas. Por isso, junto com as caixas foram entregues dicas de atividades que as famílias poderiam desenvolver com as crianças a partir do material doado. Entregamos também o nosso contato e criamos uma rede de diálogos com as mães”.

Uma moradora da Cidade de Deus fez a ponte entre Ester, lideranças locais, uma ONG e o Conselho Tutelar. A rede indicou as mães de autistas da comunidade e Ester descobriu que elas são muitas, mais do que conseguiria atender num primeiro momento.

“Por enquanto a ideia é continuar com esse suporte, reabastecendo as caixas após o edital, e quem sabe ampliar o alcance do projeto. Precisaremos de mais de financiamento, mas eu faria tudo novamente”.

Edital Primeira Infância no Contexto da Covid-19, aprovou propostas que zelavam pela educação infantil em vários aspectos

Dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, indicam que o Brasil avançou nos últimos anos em relação à educação infantil. O atendimento de crianças de 0 a 3 anos nas creches do país subiu de 16%, em 2005, para 30,4% atualmente. Já na Pré-escola, o número de matrículas passou de 72% para 90%, no mesmo período. Mas o acesso e a qualidade ainda são desiguais e isso precisa mudar, se desejamos um país mais próspero e justo.

Com esse mesmo pensamento, e desejando contribuir justamente no momento em que algumas atividades essenciais – como a Educação – foram impactadas pela pandemia de Covid-19, a pedagoga Maria Lúcia dos Santos Rodrigues, de 58 anos, se inscreveu no Edital Primeira Infância.

“O tema me interessou, pois há 18 anos trabalho com crianças na fase de educação infantil, fundamentada no Neo Humanismo, uma filosofia que proporciona o desenvolvimento integral através da prática de Yoga (meditação, exercícios respiratório, princípios universais), da alimentação saudável (vegetarianismo), da extensão do sentimento do amor a todos os seres universais e da valorização da cultura local”, ela descreve.

Projeto de Maria Lúcia dos Santos Rodrigues, Comunidade Moara, Ananindeua (PA) – Foto: Lucia Rodrigues

Então, com a ajuda de uma psicóloga experiente, Maria Lúcia levou o projeto até 50 famílias da comunidade Moara e adjacências, no bairro de Águas Lindas, Ananindeua, região metropolitana de Belém do Pará.

“Primeiro realizamos a formação contínua de seis educadoras em temas como: Família, Ser Criança, Emoções e o Sentimento da Esperança. Depois elas foram desenvolvendo os temas com as famílias por meio de vídeos, áudios ou textos compartilhados via aplicativo de mensagens. As famílias, por sua vez, deveriam desenvolver os assuntos com os pequenos em casa. Aquelas que não tinham aparelho de telefone celular, ou cuja internet era insuficiente (em torno de 15 das 50 famílias) realizavam as atividades na sede de um Projeto CENHAMAR, na região”, lembra.

Projeto de Maria Lúcia dos Santos Rodrigues, Comunidade Moara, Ananindeua (PA) – Foto: Dayana Brito

No final do Projeto Baobá, como ficou conhecida iniciativa, houve uma surpresa a mais para os envolvidos: parceiros contribuíram para a entrega de cestas básicas e brinquedos, na semana de Natal.

“Dar um apoio às famílias que tenham crianças na faixa etária da primeira infância, fortalecendo os vínculos afetivos com o cuidador e o educador, é fundamental para o desenvolvimento integral e a saudável delas. Essa relação traz também benefícios no momento e no futuro para a família e para a sociedade.”

Projeto de Maria Lúcia dos Santos Rodrigues, Comunidade Moara, Ananindeua (PA) – Foto: Estela Gonçalves

E não importa de que forma vem esse afeto. Ele pode vir a cavalo, como propôs a psicóloga Kelly de Souza Prado, 41. Através do edital ela conseguiu financiamento para aplicar a técnica do volteio gratuitamente, para crianças e adolescentes do município de Francisco Morato, em São Paulo.

“Acredito que agora essas crianças e adolescentes podem ter uma visão diferente do caos emocional que criou-se com a pandemia. Essa era a oportunidade de darmos ferramentas emocionais e físicas para eles lidarem com o dia a dia e as dificuldades.”

Projeto de Kelly de Souza Prado, Francisco Morato (SP)

Kelly pôde contar com uma equoterapeuta e uma professora de educação física voluntária, ambas para as atividades de volteio. Outros dois voluntários auxiliaram as mães no plantio e cuidado de uma horta. Aliás, essa era uma condição para as crianças serem acolhidas pelo projeto.

Os atendimentos ocorreram no Rancho São Joaquim, em encontros presenciais, já que na ocasião o município estava na fase verde de prevenção contra a Covid-19. Os cuidados com a higiene foram reforçados.

Cartaz de divulgação do projeto de Kelly de Souza Prado, Francisco Morato (SP)

“A escolha em trabalhar na natureza veio de um projeto que eu e a proprietária do rancho, Luciana Simões, já tínhamos planejado. O financiamento veio para conseguirmos colocar tudo em prática. Entendemos que a psicologia e o volteio se complementam, pois trabalham o emocional e a consciência corporal”, explica Kelly.

“Paralelamente realizamos uma horta, como forma de os pais retribuírem o atendimento gratuito que os filhos tiveram. Quando estiver pronta para colheita, ela servirá para o consumo das próprias famílias, ou terá a renda revertida para elas e o projeto”.

Cinco crianças, um adolescente, uma avó, uma tia e quatro mães participaram ativamente. Outros 21 familiares foram impactados indiretamente. As mães relataram os filhos ficaram mais autoconfiantes, calmos, compreensivos e cooperativos em casa. Elas por sua vez acharam o trabalho na horta gratificante. Algumas inclusive, agradeceram pela oportunidade de fugir um pouco da rotina de casa, fazendo algo diferente ou que já haviam experimentado em outro momento da vida.

“Essa oportunidade que o Fundo Baobá nos ofereceu permitiu ao projeto ter continuidade. Hoje temos uma fila de espera com pelo menos cinco crianças para a próxima turma”.

Veja o vídeo da iniciativa aqui

Empatia gera empatia. E essa corrente chegou à Vila Santa Inês e comunidades próximas, no município de Ermelino Matarazzo, São Paulo, com o Brincando na Kebrada – um coletivo de mulheres pretas, mães solos, educadoras sociais e ludo educadoras, que promove a cultura da infância por meio de brincadeiras lúdicas, prazerosas, afetivas e respeitosas. Para isso, inclusive, vale o uso de muitas cores, sons, cheiros e sabores.

“Defendemos os brincares em suas diversidades, auxiliando na construção positiva do imaginário infantil! O Brincando na Kebrada visa estimular a participação e o protagonismo infantil, por meio da ocupação de ruas, praças, becos, calçadas e vielas; a construção dos brinquedos e do resgate de brincadeiras tradicionais”, conta a pedagoga e arte-educadora Minéia Miranda Santos de Oliveira, 46.

“Observamos que as necessidades físicas, como acesso aos alimentos e itens de higiene pessoal, não estava sendo contempladas e que também faltava o alimento lúdico, assegurando o direito infantil de brincar”.

Projeto de Minéia Miranda Santos de Oliveira, Brincando na Kebrada, Ermelino Matarazzo (SP)

O projeto desenvolvido com a doação do Fundo Baobá funcionou da seguinte maneira: os pais e mães cadastrados receberam sacolas com materiais pouco comuns, como bolinhas de gel, massinha ou sabão, por exemplo. Depois, por meio de vídeos compartilhados num grupo do WhatsApp, eles foram orientados a utilizarem tudo em atividades de exploração sensorial com os filhos. Houve também uma reunião presencial para orientações sobre prevenção da Covid-19, além da distribuição de alimentos e de produtos de higiene pessoal, selecionados de acordo com a faixa etária dos pequenos.

Projeto de Minéia Miranda Santos de Oliveira, Brincando na Kebrada, Ermelino Matarazzo (SP)

“Nosso maior desafio era não sobrecarregar as famílias com uma atividade a mais, porém proporcionar-lhes um momento de troca e fortalecimento de vínculos, reforçando a brincadeira como ferramenta de aprendizagem e desenvolvimento infantil”, esclarece Minéia.

“Nós aprendemos a não julgar o outro, seja pelas suas atitudes ou posturas diante de determinadas situações (econômica, política, familiar, social, entre outros). O projeto nos fez repensar, refletir e elaborar estratégias educativas de apoio humanizado. gostaríamos de continuar com o mesmo projeto agregando o acolhimento às mulheres (autocuidado, escuta, empoderamento, rede de apoio), até porque acreditamos que esse suporte é muito importante. Quem educa uma mulher, educa uma geração inteira”.

 

Literatura e afeto como alimento na pandemia

Especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, bacharel em Ciência Política e também em Comunicação, Leandro Vilas Verde Cunha, tem 39 anos, e há 20 dedica-se ao trabalho voluntário.  Com o anúncio da pandemia, pela Organização Mundial da Saúde, ele sentiu-se intimado a doar seu tempo e seus conhecimentos a quem precisa.

“Neste tempo todo de atuação social tenho me inquietado em identificar como as desigualdades raciais são perpetuadas. Sabemos que a educação é um eixo importante dessa estrutura. Nesse quesito, um dos pontos importantes de reprodução das distâncias entre negros e não-negros é a idade em que as crianças têm acesso às primeiras ações pedagógicas, a exemplo da leitura. Na pandemia, essa desigualdade ficou mais acentuada, quando as escolas de crianças brancas implementaram rapidamente metodologias de ensino à distância, inclusive para as séries iniciais, enquanto as escolas públicas, acessadas por maioria negra, não conseguiu até então dar conta de forma razoável desse desafio”, pondera.

Projeto de Leandro Vilas Verde Cunha, Coletivo Ibomin – Salvador, Lauro de Freitas e São Francisco do Conde (BA)

“Eu participo de um coletivo que mantém uma biblioteca especializada em literatura afrocentrada. Fiquei me perguntando sobre o impacto da falta de acesso das crianças a esses livros com o espaço fechado, em decorrência das medidas de distanciamento social. Daí surgiu a ideia de levar a biblioteca, de forma qualificada, até as crianças, envolvendo as famílias e suas relações comunitárias no processo de responsabilização pelo incentivo à leitura”.

Depois veio o que faltava: recursos para colocar o pensamento em prática, através do edital Primeira Infância –iniciativa do Fundo Baobá, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Porticus América Latina e Imaginable Futures. A proposta de Leandro era mobilizar uma rede de cuidados para crianças de até 6 anos, durante a epidemia de Covid-19, usando o universo da leitura como estratégia.

Projeto de Leandro Vilas Verde Cunha, Coletivo Ibomin – Salvador, Lauro de Freitas e São Francisco do Conde (BA)

Para isso elaborou três práticas: entrega de livros, jogos da memória e outros materiais educativos aos participantes; criação de um grupo no WhatsAppp para trocas de experiências entre as famílias e o envio de vídeos já disponíveis na internet, com leituras de livros infantis afrocentrados, e, por fim, mobilização de outros adultos para atuarem como padrinhos ou madrinhas de leitura.

“As ações são realizadas junto a famílias frequentadoras do Ilê Axé Odé YeyÊ Ibomin, e que residem em três municípios da região metropolitana: Salvador, Lauro de Freitas e São Francisco do Conde. Algumas famílias aproveitam visitas ao Ilê para pegar os itens, mas a maioria recebe em casa. Para isso, contratamos um serviço de entrega de um membro do terreiro. As demais ações são feitas remotamente, por telefone, whatsapp e outras redes sociais. Dessa forma, vamos fortalecendo uma rede de cuidado à primeira infância de famílias negras frequentadoras de nosso Ilê”.  Leandro alcançou 13 crianças e 24 adultos com o projeto:

“Ouvimos muito elogios, pessoas dizendo que nunca viram ação tão linda quanto essa, que as crianças adoraram as atividades com os livros, que mesmo as mais novinhas se divertiram com as figuras e com as contações de história. A principal lição que fica é a de que nossa salvação vem de nós mesmos. A ideia do nós por nós, do Ubuntu, é realmente o caminho e podemos promover ainda mais espaços de cuidado para nossas crianças negras.”

Projeto de Leandro Vilas Verde Cunha, Coletivo Ibomin – Salvador, Lauro de Freitas e São Francisco do Conde (BA)

Confira o Instagram do Coletivo Ibomin

A busca pela equidade racial move Jonatas Aparecido Silva, 38, outro brasileiro comprometido com a literatura e militância negras.

“Sou bacharel em Comunicação Social pela Metrocamp, educador social e agente afro cultural. Tenho experiência com trabalho social pela rede socioassistencial de Campinas, dialogando com juventudes periféricas afrodiaspóricas. Amigos me indicaram o edital do Fundo Baobá, justamente por saberem do meu ativismo antirracista e da minha participação no Coletivo Mil Tambores, que realizou uma revista chamada Tamborim.”

Coletivo Mil Tambores – Projeto de Jonatas Aparecido Silva, Campinas (SP)

A ideia da publicação surgiu a partir de uma ação social da Central Única das Favelas, na periferia de Campinas, em São Paulo:

“A CUFA estava distribuindo livros junto das cestas de alimentos, no entanto eram livros e histórias euro referenciadas. Pensamos então em produzir conteúdos afro referenciados que contemplassem a nossa diversidade e gerassem a identificação das famílias. Na mesma época eu fui informado do chamado do Fundo Baobá”.

A revista Tamborim é o ponto central das atividades propostas ao Edital Primeira Infância. O plano inicial de trabalhar com uma garotada de 7 a 12 anos, mais vulnerável à evasão escolar, precisou mudar: o coletivo abriu o público-alvo para crianças a partir de 5 anos, buscando maior interação dos pais com os filhos na idade da primeira infância, a partir da leitura e das práticas indicadas na revista.

Nas 20 páginas ilustradas os leitores acompanham as aventuras dos irmãos Inza e Akin, durante um final de semana ensolarado na casa dos avós, na Região Metropolitana de Campinas. Sem sair de lá, a dupla viaja no tempo, aprende um pouco sobre as histórias do rádio e do Samba, e referências. Os leitores vão junto e são desafiados com jogos educativos e brincadeiras como a das 5 Marias, trazida ao Brasil por escravos moçambicanos.

Revista Tamborim – Projeto de Jonatas Aparecido Silva, Campinas (SP)

Com a revista foram entregues retalhos de pano e um tutorial para a montagem de bonecas Abayomi, símbolos de alegria e felicidade.

Ocorreram alguns contratempos na reta final do projeto, que foram contornados com um rede de apoio:

“Nós fechamos parceria com a CUFA para incluir a Tamborim nas cestas deles, e com o Quilombo Urbano OMG, para utilizar o espaço da sede durante a nossa distribuição. Porém, quando os 100 exemplares da revista ficaram prontos a CUFA já havia encerrado a entrega de cestas básicas e a sede do Quilombo Urbano entrou em reforma. Foi preciso reunir outros parceiros, batemos de porta em porta, usamos os Correios. Chegamos a doar 30 exemplares como material pedagógico para a EMEF Oziel Alves Pereira, que tem um projeto chamado Africanidades”, conta.

Projeto de Jonatas Aparecido Silva, Coletivo Mil Tambores, Campinas (SP)

“Enquanto educadores, pesquisadores, agentes culturais e ativistas a gente viu que a revista deu certo e queremos continuar. Essa é nossa luta, o sentido da nossa existência e nossa contribuição para um mundo melhor. Queremos continuar, ouvir os leitores e chegar a mil leitores. A segunda edição já está no forno”.

Confira o Instagram do Coletivo Mil Tambores

Na cidade de Assu, no Rio Grande do Norte, o jovem Paulo Henrique do Nascimento, 27, escolheu aplicar os seus conhecimentos em Nutrição para abrandar o sofrimento de 50 conterrâneos (mães e cuidadores de crianças de 0 a 6 anos) praticamente desassistidos pelo poder público durante a pandemia.

“O edital oportunizou pessoas vulneráveis a acessarem, mesmo que de forma remota, ações que salvaram suas vidas”.

Projeto do Paulo Henrique do Nascimento, Assu (RN)

Paulo reuniu 20 voluntários, entre professores, pedagogos, educadores físicos e artistas locais, na produção e compartilhamento (via redes sociais e aplicativos de mensagem) de peças informativas e vídeos com dicas de higiene pessoal e alimentação. Uma ação social encerrou o projeto com a distribuição de itens de limpeza e proteção pessoal contra o novo coronavirus e atividades para crianças nas comunidades.

“Como nutricionista poder promover a alimentação saudável para as crianças é algo fantástico. Sinto a missão cumprida”.

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Educar e Capacitar gera benefícios práticos

Tobias Pereira Soares Filho, 29 anos, é professor da Educação Básica e trabalha com projetos sociais dede 2009, sempre voltados para reforço escolar e educação ambiental. Neste período de pandemia ela viu a necessidade de somar novas demandas:

“Pensei nos pais e responsáveis, principalmente as mães e mulheres que estão diretamente ligadas aos cuidados com a crianças e também com a comunidade em geral, como com cursos de alfabetização de jovens, adultos e idosos. Assim, focamos o projeto em iniciativas que tinham duas intencionalidades, contribuir nos cuidados e também gerar potencialidades financeiras para essas mulheres.”

A ajuda deveria gerar ajuda prática e esperança. Tobias direcionou o projeto para a localidade de Sol Nascente, região administrativa do Distrito Federal considerada uma das maiores favelas do Brasil, ao lado da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Projeto do Tobias Pereira Soares Filho, Sol Nascente (DF)

“Atuamos em uma parte deste território projeto é focado no Trecho II do Sol Nascente, mais especificamente na Chácara 97 (lá ainda as quadras são chamadas de chácaras, mesmo sendo urbanas), onde ainda há debilidades nas áreas de saúde, educação, segurança pública e transporte”, explica.

“Realizamos, a partir do Fundo Baobá, duas oficinas com 17 mulheres do território. Uma primeira com um mestre de cultura popular da cidade, Mestre Madioca Frita, também um periférico, que ensinou a construir quatro brinquedos populares (traca-traca, mané-gostoso, rói-rói e a galinha) para um grupo de 10 mulheres do território, mais algumas crianças que preferiram ficar na oficina do que na ciranda (lugar de cuidado para os filhos e filhas destas trabalhadoras, dando melhores condições para que elas possam participar das atividades). A segunda oficina foi com a pedagoga Lídia Pereira, que ensinou a fazer uma boneca de tecido.”

Projeto do Tobias Pereira Soares Filho, Sol Nascente (DF)

Ele explica que o propósito era produzir brinquedos que ficassem com as mães ou mulheres responsáveis após as oficinas, já pensando no Natal, e principalmente que elas pudessem dominar as técnicas para futuramente produzirem novas peças, vendê-las e gerarem renda.

“Também durante todas as oficinas o grupo se preocupou que o máximo possível do recurso ficasse no próprio território, assim as mulheres que produziram a alimentação das oficinas e as cuidadoras do espaço de ciranda, foram mulheres do próprio território e ligadas ao processo de pensar as atividades, acompanhar a execução e depois avaliarem”.

Os desafios não foram muitos, começando pelos vários casos de violência contra crianças e mulheres que ocorreram durante o processo, gerando o afastamento de uma das mulheres envolvidas. Abstenções também ocorriam quando as participantes desempregadas conseguiam trabalhos de faxina nos dias de atividade.

Projeto do Tobias Pereira Soares Filho, Sol Nascente (DF)

“Não conseguimos bom engajamento na internet então as ações ocorreram basicamente e forma presencial, porém seguindo os protocolos de segurança sanitária. Como nosso espaço tinha uma pequena área coberta, também contamos com a sorte meteorológica para não chover nos dias de atividade, evitando aglomerações”, cita mis alguns.

“Escutamos das participantes inúmeras vezes expressões sobre como era novamente bom brincar ou como fazia tempo que não brincavam daquela forma, foi bonito! Também escutamos inúmeras histórias das brincadeiras de cada uma das mulheres em seus tempos de infância, foram momentos muito importantes de troca. Acho que o maior aprendizado foi o da importância de manter a cabeça sempre aberta às brincadeiras e nos permitirmos esses tempos, mesmo dentro de todas as dificuldades.”

Também em Ceilância, no Distrito Federal, a assistente social Ágata Parentes Ferreira 32, também decidiu colaborar com a população de Sol Nascente, estimulando a cooperação comunitária e a geração de trabalho e renda.

“A realidade de Sol Nascente-DF é de grande vulnerabilidade social, especialmente no Trecho III – o qual ainda está em processo de ocupação e sem infraestrutura organizada pelo Estado. As oportunidades de trabalho e de desenvolvimento pessoal são escassas, estando jovens e adultos à mercê da irregularidade empregatícia, sem certezas de quando terão chance de ganhar dinheiro para sobrevivência diária. Ao mesmo tempo, numa comunidade recente, há poucos equipamentos sociais – como feiras, mercadinhos, padarias, bares, restaurantes – o que diminui ainda mais as oportunidades de trabalho e desenvolvimento local e, principalmente, dificulta o acesso a alimentos saudáveis para consumo diário dos cidadãos e cidadãs”, descreve Ágata.

“Essa dificuldade de acesso interfere na segurança alimentar e nutricional dos moradores e moradoras da comunidade, ou seja, no “acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais” (Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006), e, consequentemente, na qualidade de vida dessas pessoas”.

A população precisava ser fortalecida, vislumbrar oportunidades de trabalho e se crescimento pessoal e cooperativo, o que na opinião de Ágata iria  interferir diretamente na vida das crianças. Ela então pensou em muitas atividades virtuais, com o intuito de diminuir o contato físico e a transmissão da Covid-19, mas esbarrou em limitações de conexão de internet e na falta de equipamentos eletrônicos. Foi preciso adaptar a abordagem para o modo presencial, seguindo as orientações da OMS e da FIOCRUZ para mitigar o risco de contaminação.

“Todo o processo foi realizado coletivamente. Houve semanalmente reuniões de planejamento e alinhamento do processo de construção da cozinha comunitária, que foi transformada em padaria comunitária devido às necessidades da própria população. Enquanto os equipamentos e utensílios estavam sendo comprados, conseguimos também implementar dois espaços de formação para melhor gestão da padaria. Os temas abordados foram Introdução à Administração Colaborativa e Introdução sobre Manipulação de Alimentos, enfatizando os cuidados operacionais da cozinha e a higiene dos manipuladores”, conta.

O grupo ainda desenvolveu cardápios com pouco uso de alimentos ultra processados e tratou divulgação da padaria comunitária com faixas, grafites e uma bicicleta de som, para atrair a clientela e aumentar o capital de giro.

“As avaliações foram bastante positivas, pois há bastante força de vontade para fazer acontecer esse empreendimento coletivo. Desde o início, todas ficaram bastante ansiosas para que a padaria iniciasse, e este passou a ser uma meta principal dessas pessoas para poder ajudar no processo de garantia de renda. A nossa equipe aprendeu a potência que essas mulheres têm e que a oportunidade de trabalho é o que falta para que essas pessoas se desenvolvam pessoal e profissionalmente.”

Em São Paulo, a psicóloga e gestora ambiental Camila Britto da Silva, 30, está convicta de que psicologia a preparou para trabalhar a autoestima, o autocuidado e autonomia dos indivíduos, e por isso não desperdiça a chance de desenvolver projetos que permitam cumprir esse objetivo.

“Em meu trabalho como supervisora do programa Criança Feliz, via junto com as estagiárias as principais necessidades vivenciadas pelas famílias e principalmente pelas mães, e como tudo isso impactava no desenvolvimento das crianças. Sendo assim, enxerguei o edital como uma maneira de trazer uma nova perspectiva para essas mulheres, o que iria impactar também em seus filhos e famílias”, justifica.

Projeto da Camila Britto da Silva do Programa Criança Feliz, São Paulo (SP)

Era preciso estimular a autonomia financeira das famílias, então ela planejou o projeto Inclui e Conect@ com o propósito de proporcionar acesso a cursos profissionalizantes e de capacitação para famílias em situação de vulnerabilidade, no município de Arujá, na Região Metropolitna de São Paulo e Alto Tietê, e que tiveram essa condição acentuada no período da pandemia.

Projeto da Camila Britto da Silva do Programa Criança Feliz, São Paulo (SP)

“Inicialmente, foi realizada uma triagem por meio de formulários para selecionar as famílias que tinham interesse e disponibilidade de realizar os cursos. A partir desse resultado, foram feitas as matrículas e as participantes que não dispunham de internet e dos materiais necessários em casa, puderam realizar as aulas no Centro de Convivência da Criança e do Adolescente no Centro. No total, foram 12 cursos com carga horária de 20h a 30h oferecidos por meio das plataformas online dos sites do SENAC, SEBRAE E SENAI, de finanças pessoais, empreendedorismo, legislação trabalhista, confeitaria, entre outros. A maior parte do projeto foi realizada de maneira virtual, salvo a entrega dos certificados e os períodos de aula de algumas mães que não dispunham de internet em casa.”

O projeto teve o engajamento total de 22 mulheres que receberam certificados. Algumas, segundo Camila, aproveitaram os cursos e conseguiram oportunidades de trabalho. Outras, decidiram iniciar ou ampliar seus próprios negócios.

Projeto da Camila Britto da Silva do Programa Criança Feliz, São Paulo (SP)

“Isso me fez acreditar que o impacto do projeto tenha abrangido não somente elas, mas também suas famílias, uma vez que todas as participantes ou estavam gestantes, ou tinham filhos e companheiros. Todos enfrentando momentos difíceis por conta da pandemia. Dessa forma, o edital beneficiou cerca de 60 indivíduos.”