Política fiscal é uma das ferramentas de reparação para a população negra

Política fiscal é uma das ferramentas para reparação histórica da população negra. Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco - Individual, propõe caminhos para a reparação

Do imposto ao patrimônio: a professora Eliane Barbosa, apoiada pelo Programa Marielle Franco – Individual, propõe caminhos para a reparação

Tem uma pergunta que insiste em voltar quando se olha para a história de uma família negra no Brasil: por que algumas pessoas acumulam oportunidades ao longo das gerações e outras precisam recomeçar do zero a cada vez? Eliane Barbosa não escapou dessa pergunta. Foi atravessada por ela e decidiu transformá-la em pesquisa. Hoje, investiga na universidade o que muitos tratam como destino: a política fiscal, o imposto, o patrimônio e a forma como o Estado escolheu quem podia ter futuro.

Ela sabe do que fala. Começou a trabalhar aos oito anos. O pai não sabia ler. A mãe estudou até a quarta série. Ela foi a primeira da família a concluir o ensino superior. Nada disso aparece aqui como superação individual, aparece como dado de uma engrenagem que ela decidiu investigar de dentro.

Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Eliane pesquisa economia política da desigualdade, justiça fiscal, tributação, orçamento público, desigualdades raciais e reparação histórica. Coordena o Observatório Social da Política Fiscal da UNILAB e o projeto Tributação Justa, Reparação Histórica. Também é diretora de Justiça Econômica, Desigualdades e Reparação da Plataforma JUSTA e donatária do Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá.

Sua trajetória ajuda a ilustrar um fato para além dos números: a desigualdade racial também é uma desigualdade de patrimônio e de possibilidades.

Esse é um dos pontos de contato entre o trabalho de Eliane e a reflexão apresentada por Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, em entrevista ao programa C-Level, da Folha de S.Paulo. Ao falar sobre reforma tributária, Harvey chamou atenção para mecanismos como o  cashback e para a necessidade de pensar a justiça tributária também a partir do impacto racial das políticas econômicas. O cashback tributário, que está previsto para o Brasil a partir de 2027, prevê a devolução de impostos pagos sobre o consumo para famílias de baixa renda com o objetivo de promover a justiça socioeconômica. A questão, para ele,  é ampliar o debate: não basta reconhecer que o racismo produz desigualdades; é preciso discutir como o Estado pode enfrentá-las por meio de políticas públicas estruturais. E, quando o assunto é reparação histórica, uma dessas estruturas é a política fiscal.

A escravidão acabou. A desigualdade, não

A abolição da escravidão não veio acompanhada de uma política de distribuição de terras, indenização, acesso amplo à educação ou mecanismos de formação de patrimônio para a população negra. Ao contrário: milhões de pessoas foram enganadas e colocadas em condições profundamente desiguais. Para Eliane, esse passado não ficou preso aos livros de História. Ele ajuda a explicar quem possui patrimônio hoje, quem recebe herança, quem consegue comprar uma casa, quem tem acesso a crédito, quem pode poupar e quem precisa utilizar toda a renda para sobreviver.

“Patrimônio produz patrimônio. Quem recebeu terras, imóveis, capital, educação, redes de relações e condições para poupar e investir transmitiu aos seus descendentes não apenas bens, mas oportunidades”, fala a pesquisadora. 

Do outro lado, quem saiu da escravidão sem patrimônio e com acesso restrito à educação e ao mercado de trabalho começou a vida livre em desvantagem. Essa diferença também atravessa gerações. É o que ela chama de desigualdade durável: vantagens e privações que se acumulam ao longo do tempo e ajudam a definir as possibilidades das gerações seguintes. “As privações de uma geração reduzem as possibilidades da geração seguinte; acumulam-se e acabam se cristalizando”, afirma a professora. Por isso, para ela, falar em reparação histórica exige olhar além da renda.

Quem paga a conta?

A pergunta aparece quase inevitavelmente quando se fala em reparação: quem deve pagar? Eliane faz uma distinção importante entre quem possui responsabilidade histórica e quem deve financiar uma política de reparação. Em sua visão, o Estado brasileiro tem responsabilidade central porque sustentou juridicamente a escravidão e, após a abolição, não implementou políticas capazes de assegurar condições equivalentes de acesso à terra, educação, trabalho protegido e formação de patrimônio. A sustentação jurídica da escravidão deu-se a partir da instituição do Decreto 528/1890. Esse decreto, também conhecido como Lei Glicério, em referência ao então ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Francisco Glicério, determinava regras sobre a questão imigratória ao Brasil. O primeiro artigo do decreto dizia que pessoas aptas ao trabalho teriam a entrada liberada, porém essa entrada estava vetada a indígenas da Ásia ou da África. 

Mas o Estado não é o único ator envolvido. Empresas, instituições e grupos econômicos também participaram da economia escravista, dela se beneficiaram ou acumularam patrimônio em uma estrutura econômica construída durante aquele período. A reparação, portanto, não deve ser entendida apenas como uma indenização paga por indivíduos ou famílias identificados como descendentes da escravização. “Quando perguntamos ‘quem deve pagar a conta?’, eu distinguiria duas questões: quem tem responsabilidade histórica pela reparação e quem deve financiá-la?”, afirma a pesquisadora. 

Créditos: Arquivo pessoal

Para Eliane, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais uma sociedade democrática distribui coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado. “Eu não penso que a solução seja simplesmente localizar hoje os descendentes dos escravizadores e apresentar-lhes uma conta. Em uma sociedade democrática, a política tributária é justamente um dos instrumentos por meio dos quais distribuímos coletivamente o financiamento das responsabilidades do Estado”, afirma. É aí que entra um princípio conhecido da justiça fiscal: quem possui maior capacidade econômica deve contribuir mais. Renda, patrimônio, herança e grandes fortunas passam, então, a fazer parte da conversa.

Não é só quanto você ganha

Imagine duas pessoas com a mesma renda mensal. Uma mora em um imóvel próprio, recebeu patrimônio da família e conta com uma rede familiar que pode ajudá-la em um momento de dificuldade. A outra paga aluguel, não recebeu herança e ainda sustenta pais, filhos ou outros parentes. As duas ganham a mesma coisa. Mas vivem situações econômicas bastante diferentes. É justamente essa diferença que Eliane quer colocar no centro da discussão tributária. “Duas pessoas podem receber exatamente a mesma renda e possuir capacidades econômicas muito diferentes”, conclui. 

Para ela, olhar somente para a renda corrente pode fazer com que o Estado trate como equivalentes pessoas que não possuem a mesma capacidade econômica. “Meu argumento é que olhar apenas para a renda corrente pode fazer com que o sistema trate como economicamente equivalentes pessoas que, concretamente, não estão na mesma situação.” E a questão racial aparece nesse ponto porque o acesso à terra, à educação, ao trabalho protegido e à formação de patrimônio foi historicamente desigual no Brasil.

A população negra está representada entre os grupos de menor renda e patrimônio e sub-representada no topo da distribuição. Por isso, um sistema tributário que pesa fortemente sobre o consumo pode produzir um efeito racial mesmo quando sua regra não menciona raça. Quem ganha menos tende a comprometer uma parcela maior da renda com bens e serviços essenciais. E, como os negros estão mais concentrados nas faixas de menor renda e riqueza, a regressividade econômica também tem consequências raciais.

Mas há uma segunda pergunta, tão importante quanto ‘quem paga?’ que é: quem recebe? 

Para Eliane, tributação e gasto público precisam ser analisados juntos. Não basta saber de onde vem o dinheiro. É preciso acompanhar para onde ele vai e quem consegue transformar os recursos públicos em melhores condições de vida. É aqui que a proposta dela se aproxima e, ao mesmo tempo, amplia o debate sobre justiça fiscal. Uma primeira frente seria tornar o sistema tributário mais progressivo: a ideia é aliviar os impostos para quem ganha menos e aumentar a cobrança sobre quem tem rendimentos, patrimônios e heranças maiores.  

A segunda frente é pensar em uma tributação afirmativa, focada em reduzir desigualdades raciais. Essa é uma agenda ainda em construção. Eliane trabalha com a ideia de um “encontro de contas”: se existe uma dívida histórica e material do Estado brasileiro com a população negra, é preciso discutir como essa dívida pode ser considerada na formulação de políticas públicas. “Reparação tributária não pode significar apenas fazer a população negra pagar um pouco menos. Precisa contribuir para alterar sua posição na distribuição da riqueza”, conclui. 

Um passo importante, segundo ela, é saber enxergar a desigualdade dentro do próprio sistema tributário. A inclusão do quesito raça/cor na declaração do Imposto de Renda é um exemplo. Com dados, torna-se possível observar como o imposto incide sobre diferentes grupos e construir políticas mais precisas. A partir daí, entram outras possibilidades: incentivos para aquisição da primeira moradia, formação de poupança, educação, empreendedorismo negro e outras formas de criação de patrimônio. A lógica muda de lugar.

Não se trata apenas de fazer a população negra pagar menos. E, sim, criar condições para que ela acumule mais, tenha mais segurança econômica e possa transmitir patrimônio às próximas gerações.

Da renda para o patrimônio

Durante muito tempo, políticas de redução da pobreza e da desigualdade concentraram-se na renda. É compreensível: renda determina o acesso imediato a bens e serviços. Mas patrimônio é outra coisa. Uma família pode melhorar sua renda e continuar vulnerável porque não possui casa própria, terra, poupança ou ativos financeiros. Uma emergência pode consumir rapidamente aquilo que levou anos para ser construído. “Patrimônio significa também segurança, capacidade de planejamento e possibilidade de transmitir melhores condições para os filhos”, afirma a docente.  

Por isso, Eliane defende que uma política reparatória precisa olhar para a formação de ativos pela população negra. A ideia tem precedentes históricos. Nos Estados Unidos, logo após o fim da Guerra Civil, a chamada Ordem de Campo nº 15 reservou terras para pessoas recém-libertas, experiência que ficou conhecida como “40 acres e uma mula”. A política acabou revertida e as terras foram devolvidas aos antigos proprietários. O episódio ajuda a ilustrar uma questão que Eliane considera fundamental: reparação também é sobre criar condições materiais para construir autonomia econômica.

O debate não termina no Estado. Algumas empresas e instituições também fizeram parte da economia construída durante o período escravista e, no presente, algumas continuam reproduzindo desigualdades raciais em contratação, remuneração, promoção e acesso a oportunidades. “Uma agenda de reparação empresarial deveria, portanto, combinar memória, responsabilização e transformação das práticas atuais.”

Ela vê possibilidades de incentivos tributários vinculados a resultados concretos de equidade racial, mas faz uma ressalva: benefício fiscal sem contrapartida pode se transformar simplesmente em renúncia de receita. “Qualquer benefício fiscal deveria ter contrapartida mensurável, transparência e avaliação periódica”, sugere Eliane. Por isso, defende mecanismos com metas verificáveis, transparência, avaliação periódica e resultados concretos, como formação profissional e progressão de trabalhadores negros. A pergunta, novamente, não é apenas quanto dinheiro está sendo investido. É qual transformação esse investimento produz? 

Segundo Eliane, não existe uma única medida capaz de resolver uma desigualdade construída durante séculos. Se o Brasil decidisse assumir a reparação histórica da população negra como política de Estado, ela defenderia a construção de um programa nacional voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania. “Se eu tivesse que escolher uma primeira medida, hoje eu pensaria em algo mais amplo do que um instrumento tributário isolado. Defenderia a construção de um programa nacional de reparação voltado à formação de patrimônio e à ampliação das condições concretas de cidadania da população negra”, fala. 

Moradia, terra, educação, saúde, alimentação, segurança, cultura, lazer e cuidado, de acordo com ela, fariam parte dessa agenda. E há um elemento que chama atenção: o tempo. Tempo para estudar. Para cuidar. Para participar da vida pública. Para criar. Para conviver. Para desenvolver projetos que não estejam permanentemente subordinados à necessidade de produzir renda para sobreviver. É uma ampliação importante do conceito de reparação. Não se trata somente de redistribuir dinheiro ou patrimônio, mas de redistribuir possibilidades de vida.

Essa perspectiva também ajuda a entender a própria história de Eliane. Quando decidiu, aos 25 anos, que não teria filhos, uma das questões que pesaram foi justamente a consciência de que amor, sozinho, não garante uma vida digna. É preciso haver condições materiais para que uma pessoa desenvolva suas potencialidades. “Os seres humanos precisam de muito amor, mas também de condições materiais para desenvolver suas potencialidades”, define. A reflexão que começou no campo pessoal acabou encontrando, anos depois, sua expressão na pesquisa acadêmica e na incidência sobre políticas públicas.

Uma nova pergunta para o debate racial

A entrevista de Giovanni Harvey e a pesquisa de Eliane partem de caminhos diferentes, mas chegam a uma questão comum: como transformar o reconhecimento da desigualdade racial em mecanismos concretos de reparação? A resposta não está somente em novas leis ou programas específicos. Também passa pela estrutura econômica que define quem paga impostos, quem recebe recursos públicos, quem acumula patrimônio e quem participa das decisões sobre essas prioridades. 

De acordo com Eliane, as três dimensões precisam caminhar juntas: arrecadar de forma mais justa, distribuir os recursos de maneira mais equitativa e democratizar o poder que define essas escolhas. “Reparação exige mudar simultaneamente a forma de arrecadar, a forma de gastar e a distribuição do poder que determina ambas”, explica. É uma discussão que desloca o debate sobre reparação. Em vez de perguntar apenas quanto o Brasil deve à população negra, passa-se a perguntar também como essa dívida pode ser enfrentada por meio das estruturas do Estado e da economia.

Depois de quase quatro séculos de escravidão e de gerações marcadas por desigualdades no acesso à riqueza, reparar não seria apenas devolver o que foi perdido. Seria criar condições para que a população negra possa escolher outros caminhos, construir patrimônio, exercer plenamente seus direitos e transmitir às próximas gerações algo que a história brasileira tantas vezes negou: possibilidades.

Sociedade Protetora dos Desvalidos recebe novo apoio estratégico do Fundo Baobá

Sociedade Protetora dos Desvalidos recebe novo apoio estratégico do Fundo Baobá Nova doação dá continuidade ao fortalecimento institucional e à preservação da memória de uma organização histórica do Brasil

Nova doação dá continuidade ao fortalecimento institucional e à preservação da memória de uma organização histórica do Brasil.

O Fundo Baobá renovou o apoio estratégico à Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), dando continuidade à parceria iniciada em 2023. A nova doação, no valor de R$ 300 mil e com vigência até 2027, reafirma o compromisso do Fundo Baobá com o fortalecimento e a sustentabilidade de organizações negras que têm papel fundamental no enfrentamento ao racismo no país.

Fundada em 1832, na Bahia, a SPD é reconhecida como a mais antiga associação negra regulamentada em funcionamento no Brasil. Criada em um contexto de escravização, a instituição nasceu da organização de homens negros livres, libertos e escravizados que construíram uma rede de solidariedade e resistência. Ao longo de sua trajetória, a SPD se tornou um importante espaço de autonomia, proteção e emancipação da população negra.

O novo investimento na organização acontece a partir dos avanços alcançados no primeiro ciclo da parceria. Desde 2023, a SPD vem implementando um plano de fortalecimento institucional voltado à gestão, governança, clima organizacional e comunicação. Entre os resultados estão o aprimoramento dos processos contábeis e administrativos, o desenvolvimento de conhecimentos em gestão de projetos, captação de recursos, comunicação e a preservação da memória.

“O apoio inicial em 2023 produziu um fortalecimento significativo da organização e reforça a seriedade e o comprometimento institucional da SPD na gestão desse processo. Esses movimentos também evidenciam a importância da garantia de recursos flexíveis e de apoio de longo prazo para consolidar processos de fortalecimento institucional nas organizações”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.

Para Lígia Margarida, Diretora Administrativa da Sociedade Protetora dos Desvalidos, uma das mudanças mais importantes ocorreu na organização dos processos internos. “As principais mudanças ocorreram na forma de organização administrativa, com maior controle da rotina e documentação, sempre buscando regularizar as pendências judiciais e impostos”, explica.

A preservação da memória também está entre os desafios e prioridades da instituição. Com quase dois séculos de história, a SPD inaugurou em setembro de 2026 um espaço de memória e se prepara para as etapas de higienização, catalogação e organização dos documentos, que ainda estão em andamento. O que poderá resultar, no futuro, em uma exposição sobre a trajetória da organização.

Ao renovar a parceria, o Fundo Baobá reafirma seu comprometimento não apenas com o financiamento de iniciativas, mas também com a criação de condições para que organizações negras fortaleçam a autonomia e a capacidade de seguir construindo suas próprias histórias. Apoiar organizações negras é investir na preservação de memórias, na autonomia e na continuidade de trajetórias que fazem parte das estratégias de enfrentamento ao racismo  no Brasil.

Incentivo amplia presença de estudantes negros brasileiros em áreas STEM no exterior

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM. Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026. Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior. Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Se nós não nos enxergarmos, dificilmente vamos chegar naquele posto.” A frase do professor Fernando Caixeta resume um dos principais desafios para estudantes negros que desejam construir uma trajetória acadêmica internacional nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla, em inglês, STEM.

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, o programa contemplou três estudantes negros brasileiros com bolsas complementares de R$ 42 mil anuais para cursar graduação em áreas STEM em universidades no exterior.

Para Caixeta, ocupar esses espaços tem um significado que vai muito além da conquista individual. A experiência internacional, segundo ele, também mostra como a presença de uma pessoa negra pode abrir caminho para outras. Ele próprio conhece o caminho. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, uma das instituições mais reconhecidas do mundo nas áreas de ciência e tecnologia.

“Quando eu era criança, me diziam que um negro precisa estudar duas vezes, três vezes mais que um branco para se destacar”, lembra. Hoje, a mensagem que ele procura transmitir aos seus alunos é outra: não é preciso ser um “super-homem” ou uma “super-mulher” para chegar a uma universidade de excelência fora do país. É preciso ter oportunidade e, principalmente, conseguir se enxergar naquele lugar. 

Professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), no Campus Uberlândia, Caixeta foi mentor do Programa Black STEM, iniciativa do Fundo Baobá que chega à terceira edição em 2026.

Na foto: Fernando Caixeta, Professor do IFTM e mentor do Programa Black STEM | Créditos: Thalita Guimarães

Esse ponto é especialmente importante quando se fala em STEM, áreas que historicamente concentram oportunidades acadêmicas, científicas e profissionais de alto impacto. 

Dados disponíveis sobre mobilidade acadêmica ajudam a dimensionar o tamanho da desigualdade, embora ainda exista uma lacuna importante nas estatísticas brasileiras. Um estudo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, com dados de programas de mobilidade do CNPq e informações do Censo de 2022, analisou 38.238 participantes com informação de raça/cor. Entre eles, 1.055 se declararam pretos, o equivalente a 2,76% do total, enquanto 6.487 se declararam pardos, ou 16,96%. Somados, pretos e pardos representavam 19,72% dos participantes analisados. O dado chama atenção porque a população brasileira é majoritariamente negra. Ou seja, mesmo quando existe uma política de mobilidade internacional, a presença de estudantes negros não acompanha o peso demográfico da população brasileira.

E há outro problema: não existe, hoje, uma estatística pública nacional consolidada que permita dizer exatamente quantos estudantes negros brasileiros estão matriculados em universidades estrangeiras, especialmente em cursos STEM. Essa ausência de dados, por si só, revela uma defasagem. Sem saber exatamente quem está indo, para onde está indo e em quais áreas está estudando, fica mais difícil medir desigualdades e construir políticas capazes de enfrentá-las.

Pesquisas acadêmicas já apontaram, entretanto, que raça e origem socioeconômica interferem no acesso de estudantes brasileiros à mobilidade internacional.  Pesquisas sobre o programa Ciência sem Fronteirasmostram que a mobilidade acadêmica internacional ainda reproduz desigualdades raciais presentes no ensino superior brasileiro. Estudo realizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) revelou que estudantes pretos e pardos representavam, em média, 16,68% dos matriculados entre 2012 e 2016, mas correspondiam a apenas 9,38% dos bolsistas do programa no período. 

É justamente nesse espaço que iniciativas como o Black STEM entram.

Na primeira edição, o programa selecionou cinco estudantes negros para graduação no exterior, oferecendo bolsas de R$ 35 mil anuais para apoiar despesas como moradia, alimentação, transporte e material acadêmico. Na segunda edição, outros quatro estudantes foram selecionados. Agora, na terceira, serão três novos bolsistas.

São números que carregam uma dimensão simbólica importante. Cada estudante que chega a uma universidade estrangeira também pode se tornar referência para quem ainda está pensando se aquele lugar é acessível. 

Caixeta chama atenção para uma transformação geracional. Segundo ele, estudantes negros de hoje estão “metendo o pé na porta” e ocupando espaços internacionais com uma disposição diferente da geração anterior. China, Dubai, Estados Unidos ou qualquer outro destino deixam de parecer lugares impossíveis. A pergunta passa a ser menos “será que existe alguém como eu lá?” e mais “como faço para chegar?”.

Evento Black STEM 2026 | Créditos: Thalita Guimarães

Para o professor, a função da mentoria é ajudar a transformar o sonho em projeto. E isso significa também falar sobre aquilo que nem sempre aparece nas fotos de uma universidade estrangeira: dinheiro, alimentação, moradia, transporte, segurança e a possibilidade de voltar para casa se alguma emergência acontecer. “Eu preciso ter dinheiro, preciso beber, preciso comer, preciso viver e preciso estudar ao mesmo tempo”, resume.

A preocupação também se estende ao ambiente acadêmico. Caixeta defende que equipes científicas e tecnológicas mais diversas conseguem produzir soluções mais conectadas com a realidade de diferentes grupos sociais. Ele lembra de uma experiência em um laboratório no qual pesquisava tecidos usados nas toucas de cetim para proteção dos cabelos.

Em uma equipe mais racializada, ele percebeu que não precisava explicar aquilo que fazia parte da vida cotidiana de outras pessoas negras. Para ele, essa identificação muda a qualidade da conversa, da pesquisa e das soluções produzidas. 

Fernando Caixeta alerta para a necessidade de discutir uma tecnologia que não reproduza discriminações e que seja acessível a diferentes grupos sociais. A presença negra nas áreas de STEM, portanto, não diz respeito apenas a quem ocupará os laboratórios, empresas de tecnologia ou universidades no futuro. Diz respeito também a quem fará parte da criação de tecnologias que vão influenciar a vida de todos.

No Brasil, esse desafio ainda passa pelo enfrentamento do chamado “racismo à brasileira”, expressão usada por Caixeta para falar de situações em que a discriminação existe, mas muitas vezes não é reconhecida como tal. No exterior, por sua vez, o estudante negro precisa aprender a lidar com novos contextos culturais e com possibilidades de racismo que também podem surgir. É aí que a representatividade ganha outra dimensão.

Para Caixeta, não basta estar. É preciso se enxergar, viver aquele espaço e conseguir imaginar uma trajetória possível. Quando um professor negro aparece diante de um estudante e diz “eu fui, eu consegui, eu estou aqui”, a distância entre o sonho e a realidade diminui.

É esse movimento que o Black STEM procura apoiar, não apenas enviar estudantes negros para fora do Brasil, mas criar condições para que eles permaneçam, concluam seus cursos e ampliem as possibilidades para quem vem depois. A experiência internacional, nesse sentido, deixa de ser apenas uma conquista individual. Transforma-se em caminho aberto.

E, como lembra Caixeta, cada pessoa que chega primeiro ajuda a tornar a chegada das próximas um pouco menos difícil. No caso das áreas STEM, ocupar esse espaço significa também participar das decisões sobre ciência, tecnologia e inovação. Significa mostrar que pessoas negras não estão apenas consumindo tecnologia. Elas também podem criá-la, pesquisá-la, transformá-la, decidir para quem ela será feita e como será utilizada.

Área de Programas do Fundo Baobá transforma 15 anos de experiência em matéria-prima para planejar o futuro

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos. Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais. “A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma. O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre: “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural. Foi observando essa panorama que Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

As desigualdades raciais sobre as quais o Fundo Baobá atua foram construídas ao longo da história brasileira. Quinze anos depois do início de sua trajetória, o tempo também se tornou fonte de aprendizado para a própria organização. A experiência acumulada no apoio a organizações, grupos, coletivos e lideranças negras ajuda a orientar programas, formas de apoio e decisões sobre os próximos passos.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.

“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Para Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, uma das constatações deste percurso está na capacidade das organizações negras de atuar em diferentes territórios, movimentos e setores, mobilizando pessoas, construindo redes e incidindo sobre as desigualdades raciais.
“A experiência do Fundo Baobá no apoio a organizações, grupos e coletivos negros reforça nossa convicção de que eles são agentes estratégicos e fundamentais para um processo de transformação social”, afirma.

Na foto: Tainá Medeiros, Gerente de Programas | Créditos: Thalita Guimarães

O conhecimento acumulado ao longo desses anos também tornou mais evidentes as dificuldades de sempre:  “Por outro lado, persistem desafios constantes: dificuldade de acesso a recursos, financiamentos e apoios institucionais”, diz Tainá. Para ela, esse cenário exige um compromisso continuado da filantropia com apoio financeiro, institucional e fortalecimento estrutural.

Foi observando essa panorama que  Fundo Baobá investiu mais de R$ 23,2 milhões em mais de 1.300 iniciativas, alcançando indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas. Os apoios passaram por áreas como formação acadêmica de jovens negros em Ciência, Tecnologia e Inovação, empreendedorismo, desenvolvimento econômico, formação para o mundo do trabalho, empregabilidade, fortalecimento de lideranças femininas negras e de organizações negras, memória, defesa de direitos e vida digna.

A experiência acumulada também ajuda a entender o trabalho desenvolvido no presente. Em 2026, uma das frentes da área de Programas foi a conclusão da avaliação do Edital Educação e Tecnologia, realizado em parceria com o MOVER. Depois da avaliação, foram organizados encontros de devolutiva com as organizações apoiadas e os parceiros financiadores para compartilhar os resultados e ampliar a aprendizagem produzida pelo programa.

O Programa Marielle Franco de Apoio Individual também teve continuidade. As mulheres apoiadas estão recebendo mentorias individuais voltadas ao fortalecimento de seus planos de desenvolvimento e à ampliação de conexões com outras mulheres negras com trajetórias de liderança. No Programa Já É, o acompanhamento inclui jovens que se preparam para os vestibulares e aqueles que já ingressaram na universidade e começam sua trajetória acadêmica.

Outra iniciativa que avançou no primeiro semestre foi o Programa Black STEM, que concluiu o processo seletivo de sua terceira edição. Três novos bolsistas passaram a integrar o programa e participaram, em agosto, de atividades de boas-vindas, formação e fortalecimento de vínculos. Eles seguirão para universidades nos Emirados Árabes Unidos, na Espanha e nos Estados Unidos.

Na área de fortalecimento institucional, o Fundo Baobá renovou o apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, iniciado em 2023. Uma nova doação de R$ 300 mil dará continuidade, até 2027, ao plano de fortalecimento institucional da organização.

Enquanto acompanha essas iniciativas, a área de Programas já prepara os próximos passos. Para o segundo semestre, estão previstas novas oportunidades de fortalecimento institucional para organizações, grupos e coletivos, além da continuidade do monitoramento dos apoios em andamento e do início da avaliação de iniciativas já concluídas.

O aprendizado também acontece dentro do próprio Fundo. A área pretende dar continuidade ao aprimoramento de sua gestão e à participação em espaços de troca de experiências e conhecimentos, acompanhando demandas, tendências e inovações que possam contribuir para sua atuação nos próximos anos.

Parte da experiência acumulada nesses 15 anos aparece ainda na relação com organizações e lideranças que procuram os editais do Fundo Baobá. Para quem não tem familiaridade com a elaboração de projetos, Tainá procura retirar um pouco do peso que costuma acompanhar esse processo.

“A elaboração de projetos pode ser uma tarefa acessível”, afirma. O primeiro passo, segundo ela, é ler atentamente o edital, compreender seus objetivos e conferir as informações e os documentos solicitados.

“O melhor caminho é apresentar uma proposta simples, porém coerente com a capacidade da organização, alinhada à sua experiência, ao território em que atua e aos objetivos do edital”, orienta. A elaboração da proposta também pode servir para que a própria organização estruturesuas ideias sobre desafios, necessidades, objetivos e possibilidades de atuação.

Nem sempre, porém, uma boa proposta chega a ser avaliada. Entre os problemas encontrados nas inscrições estão informações incorretas ou incompletas, documentos ausentes ou ilegíveis, arquivos em formatos diferentes dos solicitados e perda de prazos. Falhas desse tipo podem levar à desclassificação antes da análise do mérito do projeto.

Por isso, Tainá recomenda que organizações e lideranças reservem tempo para conferir a inscrição antes do envio. Informações, documentos, formatos e prazos precisam ser revisados com antecedência, inclusive para que seja possível corrigir eventuais problemas. “Revisar a inscrição nunca é demais”, resume.

A África como o novo horizonte da excelência acadêmica e o papel do STEM nessa jornada

Quando o sonho de estudar no exterior bate à porta, nosso imaginário coletivo costuma apontar automaticamente para destinos como Europa, Estados Unidos ou Canadá. Mas e se lhe disséssemos que, a partir de um olhar decolonial (perspectiva que visa à superação das estruturas de poder, saber e ser que foram impostas pela colonização), existe um mundo de ensino superior de alta qualidade em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) na África? Um continente que é origem da humanidade, berço de civilizações, inovação e pensamento científico.

Quando o sonho de estudar no exterior bate à porta, nosso imaginário coletivo costuma apontar automaticamente para destinos como Europa, Estados Unidos ou Canadá. Inclusive, já indicamos aqui universidades historicamente negras nos Estados Unidos – centros de excelência essenciais para a formação de lideranças negras.

Mas e se lhe disséssemos que, a partir de um olhar decolonial (perspectiva que visa à superação das estruturas de poder, saber e ser que foram impostas pela colonização), existe um mundo de ensino superior de alta qualidade em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) na África? Um continente que é origem da humanidade, berço de civilizações, inovação e pensamento científico. 

Na África, instituições de ensino têm unido pesquisas de ponta e soluções para desafios globais e regionais, consolidando-se entre as melhores do mundo e atraindo estudantes e pesquisadores internacionais. Um deles pode ser você.

Por que considerar a África como destino acadêmico?

Contexto de inovação e impacto: Universidades africanas têm forte foco em pesquisa aplicada em áreas cruciais como saúde pública, energia renovável, agricultura sustentável e tecnologia digital. Isso cria um ambiente formativo alinhado às urgências do século XXI.

Conexão histórica e cultural: Para estudantes negros(as) brasileiros(as), estudar na África é mais do que formação acadêmica: é experimentar a diversidade cultural do continente e se conectar com realidades africanas contemporâneas. É uma oportunidade de construir uma ponte viva entre Brasil e África.

Pluralidade linguística e cultural: Com instrução em inglês, português, francês e línguas africanas, as universidades permitem que estudantes ampliem suas competências linguísticas para além do inglês. Essa pluralidade fortalece a experiência cultural e abre portas para novas redes, algo que o foco exclusivo em instituições estadunidenses não proporciona.

Universidades africanas que estão redefinindo o ensino superior

Conheça algumas das principais instituições de ensino superior no continente africano que são destaque no STEM.

University of Cape Town (UCT) | África do Sul

Uma das melhores universidades do hemisfério sul, referência em sustentabilidade, engenharia ambiental e tecnologia médica. Seu campus é também um espaço vibrante de debate sobre equidade racial, ciência africana e justiça social. Saiba mais sobre a UCT aqui.

Universidade de Makerere | Uganda (África Oriental)

Uma das mais antigas e respeitadas da África, referência continental em pesquisa biomédica, agricultura sustentável e inovação tecnológica. Formou líderes como Julius Nyerere, primeiro presidente da Tanzânia. Saiba mais sobre a Mekerere aqui.

Universidade Cheikh Anta Diop (UCAD) | Senegal (África Ocidental)

Nomeada em homenagem a um dos maiores intelectuais africanos, a UCAD é polo de excelência em ciências, humanidades e ciências sociais. Um espaço para quem busca unir rigor acadêmico e consciência histórica. Saiba mais sobre a UCAD aqui.

American University in Cairo (AUC) | Egito (Norte da África)

Instituição internacional com cursos em inglês e forte foco em inovação, sustentabilidade e tecnologia. Seu campus cria pontes entre o conhecimento africano, árabe e global. Saiba mais sobre a AUC aqui.

Universidade de Stellenbosch | África do Sul

Reconhecida por seus programas de engenharia, ciências aplicadas e tecnologia da informação. Tem avançado na promoção da diversidade e no acesso de estudantes negros a uma educação de ponta. Saiba mais sobre Stellenbosch aqui.

Julho: mês de reverenciar as mulheres negras

Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

Julho é mais do que um mês no calendário: é tempo de reconhecer que mulheres negras seguem em movimento, transformação e reivindicação por direitos historicamente negados. O Julho das Pretas reforçou esse chamado à consciência e tem como marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

Mais do que uma data comemorativa, o 25 de julho representa uma agenda política construída pelas próprias mulheres negras. Instituído em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, o dia nasceu da articulação de cerca de 400 lideranças de mais de 30 países, que se reuniram para denunciar os impactos do racismo, do sexismo, da violência e das desigualdades sobre suas vidas. 

A data simboliza a luta coletiva contra as diferenças de toda ordem que ainda atravessam a vida de milhões de mulheres negras. No Brasil, a homenagem também reverencia Teresa de Benguela, referência de resistência, liderança e liberdade.

Já o Julho das Pretas transforma esse dia histórico em um mês de mobilização, incidência política e fortalecimento das lutas das mulheres negras, reafirmando seu papel fundamental na construção de sociedades mais justas e democráticas.

Embora as mulheres negras representem a maioria da população brasileira, elas continuam enfrentando barreiras no acesso a direitos, como a igualdade salarial e a participação política em espaços de decisão. Por isso, celebrar o 25 de julho é também reafirmar o compromisso com políticas e iniciativas que fortaleçam seu protagonismo.

É nesse contexto que o Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá, ganha ainda mais significado. Inspirado no legado de uma mulher negra que transformou sua atuação política em instrumento de luta por direitos, o programa investe na formação, no fortalecimento e no desenvolvimento de lideranças negras e organizações lideradas por mulheres negras, ampliando sua presença em espaços de poder e influência. A iniciativa apoia trajetórias individuais, organizações e coletivos liderados por mulheres negras, contribuindo para que suas vozes sejam cada vez mais ouvidas e suas agendas avancem.

Celebrar o 25 de julho é reconhecer que a luta das mulheres negras não se limita a uma data. É compreender que investir em suas lideranças é fortalecer a democracia, promover justiça social e construir um futuro em que direitos, oportunidades e representatividade sejam uma realidade para todas.

A agenda de incidência política do Julho das Pretas 2026 foi marcada por manifestações de norte a sul do Brasil. A seguir, destacamos cinco iniciativas realizadas ao longo do mês que levaram mulheres negras ativistas às ruas e aos mais diversos espaços de debate, reafirmando a força da mobilização coletiva em diferentes territórios:

Nordeste – Piauí
A X Feira Preta, organizada pelo Instituto Mulher Negra do Piauí – Ayabás, acontecerá amanhã, dia 31 de julho, no Memorial Esperança Garcia. O evento promove o empreendedorismo negro por meio da comercialização de produtos e da oferta de serviços.

Norte – Tocantins
O 6º Encontro Estadual de Mulheres Negras, organizado pelo Coletivo Feminista de Mulheres Negras do Tocantins (Ajunta Preta), aconteceu nos dias 25 e 26, na Universidade Federal do Tocantins. Com o tema O Feminismo Negro que Temos e o Feminismo Negro que Queremos, reuniu um número significativo de mulheres negras para debater os desafios e perspectivas do movimento.

Centro-Oeste – Goiás
O Corredor Urbano das Pretas: Ocupação Política do Centro, promovido pelo Instituto Pretas, ocupou, no dia 25, algumas das principais vias de Goiânia (Av. Tocantins, Praça Cívica, Av. Goiás, Av. Anhanguera, Rua 10 e Praça Universitária). A ação buscou fortalecer a visibilidade das pautas das mulheres negras e reafirmar a ocupação dos espaços públicos como estratégia de memória, resistência e incidência política.

Sudeste – Rio de Janeiro
O I Seminário Direito à Cidade e à Justiça Climática: As Raízes, as Vozes e a Força das Mulheres Negras Brasileiras, organizado pelo Ministério das Cidades no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, reuniu, no dia 23, mulheres negras para discutir direito à cidade e justiça climática, integrando atividades de literatura, gastronomia, arte, música e empreendedorismo.

Sul – Paraná
O Pacto da Negritude, organizado pela Rede Mulheres Negras do Paraná no cursinho popular Ubuntu, na Universidade Federal do Paraná (Campus Rebouças), promoveu, em 25 de julho, um debate voltado à conscientização e ao fortalecimento de práticas antirracistas.

Articulação Social fortalece as conexões do Fundo Baobá com territórios e organizações

A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo.

O Fundo Baobá nasceu, há 15 anos, a partir de um processo de diálogo com movimentos sociais, lideranças negras, organizações da sociedade civil, academia e parceiros institucionais. Essa escuta ativa, que sempre fez parte do DNA da organização, foi fortalecida recentemente, com a criação da área de Articulação Social. Ela surge a partir de aprendizados de uma década e meia, com o objetivo de dar manutenção às redes de relacionamento do Fundo Baobá e a sua capacidade de incidência no ecossistema de promoção da equidade racial no Brasil.

A área de Articulação Social do Fundo Baobá atua como uma ponte entre a organização e diversos territórios, ampliando a escuta do campo, fortalecendo relações institucionais e trazendo oportunidades que possam apoiar a atuação das demais áreas da organização. Dessa forma, contribui para que as ações programáticas, de comunicação, captação de recursos e operações estejam cada vez mais conectadas às demandas e aos desafios vivenciados pelo campo. Ela é também uma resposta a diversas transformações no ecossistema filantrópico e nos movimentos sociais, pois ao longo da última década e meia ampliaram o debate sobre justiça racial, reparação histórica e fortalecimento de organizações lideradas por pessoas negras. 

Para Caroline Almeida, gerente de articulação social do Fundo Baobá, o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.

Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, comenta sobre o aumento da demanda por modelos de apoio mais conectados aos territórios e às agendas dos movimentos sociais fortalece a capacidade de atuação do Fundo Baobá em dialogar com diferentes atores, construir alianças e contribuir para a consolidação de uma sociedade mais comprometida com a equidade racial.

Na foto: Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social | Créditos: Thalita Guimarães

“A transformação social não ocorre apenas por meio do apoio financeiro, mas também pela construção de relações estratégicas, fortalecimento de redes e incidência”, afirma Caroline. Para ela, trata-se de tornar mais intencional e sistematizada uma prática que sempre esteve presente na atuação do Fundo Baobá.

A área nasce com a missão de contribuir para que a atuação do Fundo Baobá seja cada vez mais conectada às transformações do contexto social e político, tendo como busca a potencialização de diversas vozes nos processos de reflexão, decisão e incidência que envolvem a organização e o campo da filantropia. Mais do que ampliar relacionamentos, a área apoia a consolidação de uma cultura institucional baseada na escuta qualificada, na construção de confiança e na promoção de alianças estratégicas comprometidas com a transformação social e a justiça racial.

“Nosso compromisso é fortalecer processos de escuta, diálogo e construção conjunta. Entendemos que movimentos, organizações e lideranças negras não são apenas beneficiários de recursos, mas sujeitos políticos fundamentais na  formulação de soluções e estratégias para a promoção da justiça racial”, afirma Caroline.

No Sul, organização liderada por uma mulher negra promove acesso à arte e à cultura com apoio do Fundo Baobá

Black Brazil Art, Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

O ano de 2026 marca os 15 anos de atuação do Fundo Baobá para Equidade Racial, que reafirma seu compromisso com o fortalecimento de lideranças, organizações e iniciativas negras em todas as regiões do país. Com presença em territórios diversos e realidades distintas, a organização tem contribuído para ampliar oportunidades, promover inclusão e fortalecer redes de transformação social. 

O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.

Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

Segundo Patrícia, o apoio recebido contribuiu para  ampliar o alcance das atividades voltadas para jovens negros, moradores de bairros periféricos, criando conexões e experiências que ultrapassaram os limites dos territórios onde vivem. “O apoio do Fundo Baobá teve um impacto direto nas pessoas. Em 2016, trabalhamos com três bairros grandes e periféricos aqui de Porto Alegre: Restinga, Cruzeiro do Sul e Morro Santana. Até hoje, ou seja, dez anos depois, ainda carecem de um olhar voltado para atividades culturais. Então, ter acesso a esse recurso ampliou a oportunidade de formação para esses jovens na criação de intercâmbios para além das suas regionalidades”, explica Patrícia da Silva, coordenadora do coletivo.

A iniciativa também contribuiu para aproximar diferentes gerações de artistas negros que atuam nos territórios periféricos, fortalecendo redes locais de produção cultural e ampliando as perspectivas profissionais dos jovens participantes. “Esse suporte contribuiu para o desenvolvimento profissional desses jovens e também para o envolvimento desses artistas territoriais para fazer uma espécie de casamento entre essa geração que está surgindo agora e a que já está atuando nesses bairros”, acrescenta.

O trabalho desenvolvido pela Black Brazil Art, em Porto Alegre (RS), é um exemplo do impacto desses investimentos, cujo objetivo é fortalecer a participação de mulheres no sistema das artes, apoiar a diversidade cultural e promover a inclusão de artistas no cenário brasileiro, a partir de temáticas urgentes e de cunho social e racial.
Liderada por Patrícia da Silva, a organização – que é uma plataforma institucional de formação, curadoria e articulação artística – foi uma das contempladas pelo Fundo Baobá em 2016, por meio do Edital “Cultura Negra em Foco”. O investimento permitiu a ampliação das atividades desenvolvidas nas áreas de arte, cultura e educação, além de contribuir para a estruturação institucional do Coletivo, o fortalecimento da equipe e a expansão de suas ações para além da capital gaúcha.

Créditos: Divulgação Black Brazil Art

Ao longo de seus 15 anos de atuação, o Fundo Baobá tem investido no fortalecimento de organizações negras em diferentes estados brasileiros e em diferentes áreas de atuação, reconhecendo o papel estratégico dessas iniciativas na promoção da equidade racial e no enfrentamento das desigualdades históricas. Além do aporte financeiro, os programas desenvolvidos pela instituição contribuem para ampliar a visibilidade de projetos, fortalecer redes de colaboração e criar novas oportunidades para organizações, profissionais e lideranças negras.

Para Patrícia, esse tipo de investimento continua sendo fundamental para ampliar o acesso da juventude negra a oportunidades de formação, desenvolvimento e protagonismo. A história da Black Brazil Art é um dos exemplos que ilustram o alcance nacional do Fundo Baobá, que amplia oportunidades e promove a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

“Ainda carecemos de mais oportunidades e de mais acessos, principalmente para a nossa juventude preta. Então, sou muito grata por ter sido uma das tantas contempladas a receber um recurso do Fundo Baobá. No meu caso, esse investimento foi fundamental porque ofereceu suporte concreto para que a minha organização, que é liderada por uma mulher negra, pudesse desenvolver esse projeto com tantas outras meninas e meninos negros”, finaliza Patrícia da Silva.

Entenda o processo criativo e a repercussão da nova marca do Fundo Baobá

Em seu ano de 15 anos, o Fundo Baobá apresentou uma nova identidade visual inspirada nas tranças nagôs. A marca valoriza a memória, a continuidade e a atuação da organização, que desde 2011 mobiliza recursos e apoia iniciativas voltadas à promoção da equidade racial no Brasil.

Na edição deste mês, compartilhamos os bastidores da criação e repercussão de um momento histórico: o desenvolvimento da nova marca do Fundo Baobá. Para contar como foi possível transformar impacto, ancestralidade e resistência em identidade visual e verbal, conversamos com a equipe criativa do projeto.

A empresa responsável, Motora Design, passou por um processo de imersão para traduzir a bagagem histórica e social do Fundo Baobá em formas, linguagens, cores e tipografias. Nessa etapa, foi necessário pensar e  construir conexões e narrativas que reverenciavam a memória de quem se mobilizou para que o Fundo Baobá nascesse e crescesse. O resultado desse trabalho é o símbolo atual, cujos traços foram inspirados e remetem às tranças nagôs, uma referência que carrega história, identidade e movimento. 

Historicamente, as tranças afro possuem um profundo significado cultural, social e de resistência. Na África Antiga, com origem no povo iorubá, elas indicavam a identidade de uma pessoa, revelando sua idade, estado civil, tribo e posição social. Durante o período da escravidão, o trançado tornou-se ferramenta de sobrevivência e liberdade: seus desenhos geométricos serviam como mapas secretos com rotas para os quilombos e, entre os fios, eram escondidas sementes para garantir o plantio nas comunidades livres. Além de preservar a dignidade e a vaidade daqueles que tinham suas cabeças raspadas pelos colonizadores, o ato de trançar carrega uma dimensão sagrada de afeto e socialização ligada ao culto ao Orí (a divindade da cabeça e do destino). Hoje, as tranças permanecem um poderoso símbolo de autoafirmação, empoderamento e reconexão com a herança afrodescendente.

Para entender como o processo de redesenho da marca começou, a equipe criativa fez um mergulho profundo nos materiais e documentos que registram a história do Fundo Baobá. Também houve a preocupação de olhar para a comunicação atual da organização e de outras, dentro e fora do Brasil, que atuam no mesmo ecossistema para buscar referências importantes.

Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos nos conta que esse projeto começou com uma inquietação sobre como traduzir o que é o Fundo Baobá para Equidade Racial hoje. Ela afirma que foi muito relevante o papel de  Amalia Fischer, Vice-Presidente do Conselho Deliberativo, que apoiou com escuta, experiência e direcionamento juntamente com a equipe executiva, que se envolveu bastante e foi fundamental para esse resultado. 

A “roupa nova” chega bem na hora da festa: 2026 é o ano em que o Fundo Baobá completa 15 anos de história apoiando iniciativas de enfrentamento ao racismo no Brasil e promovendo equidade racial.

“A marca baila pelo tempo: olha para trás em reverência ao passado, se adapta aos desafios do presente e aponta para um futuro cheio de possibilidades”, afirma Janaina.

Ao longo do processo foram realizados workshops, entrevistas e conversas com diferentes pessoas da organização. “Ouvimos histórias, percepções e expectativas”, conta Laís Fonseca, diretora de arte da Motora. A partir daí, o desafio foi traduzir conceitos que são essencialmente humanos em uma linguagem visual. “Buscamos construir uma identidade que não fosse apenas bonita ou contemporânea, mas que fosse capaz de carregar significado. Cada escolha, da paleta de cores aos grafismos, nasceu dessa tentativa de transformar histórias em símbolos e valores em linguagem visual”, afirma.

A nova identidade do Fundo Baobá nasce de uma ideia que parece simples, mas é muito poderosa: o futuro não se constrói sozinho. O Fundo Baobá é uma organização que olha adiante, mas que entende que o futuro só existe porque muitas pessoas vieram antes, abriram caminhos e sustentaram lutas coletivas. Por isso, os grafismos, as cores, a tipografia e até a forma como os elementos ocupam o espaço foram pensados para traduzir essa ideia de movimento contínuo. Portanto, o sentimento que fica desse processo de reposicionamento da marca é a base sólida que sustenta o Fundo Baobá e dá a certeza de sua continuidade nos próximos anos.

“Nosso trabalho estratégico continua sendo a ampliação do reconhecimento da marca, do propósito e das ações. Afinal, não é só sobre o visual, mas sim sobre garantir que nosso público realmente conheça o que o Fundo Baobá faz e como opera”, afirma Xavier Amorim, Assistente de Comunicação do Fundo Baobá. Para ela, o resultado final foi possível pelo envolvimento de toda a atual equipe executiva: “A escuta e pesquisa sobre o legado fez toda a diferença para chegar não somente em algo novo, mas também em um conceito que apresentasse a trajetória do Fundo Baobá”.

Para Luize Araujo, diretora criativa, o maior desafio foi equilibrar a narrativa que se tornou o grande fio condutor de todo o projeto: garantir que seria construída uma visão comum de futuro sem desrespeitar ou ignorar todo o legado do Fundo Baobá. “Legado esse, aliás, que não se limita só ao tempo de atuação da organização, já que suas raízes vêm de movimentos e articulações muito mais antigas e complexas do que a existência do próprio Fundo Baobá”, afirma.

Pouco depois do lançamento da marca, que ocorreu em 19 de março, como parte das comemorações pelos 15 anos, houve uma grata surpresa de vê-la no site Brand New, uma das maiores referências globais em design, especializado em analisar o redesign de marcas do mundo inteiro, e que faz uma curadoria para destacar  o “antes e depois” de identidades visuais de grandes empresas e organizações. 

Experiência do Fundo Baobá ganha destaque em evento internacional 

Experiência do Fundo Baobá ganha destaque em evento internacional

O Fundo Baobá foi um dos convidados para participar de uma série de oficinas organizadas pela RIAFRO – Rede Interamericana de Altas Autoridades para a População Afrodescendente, realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia, em maio deste ano. O evento reuniu representantes estatais de diversos países como México, Guatemala, Peru, Uruguai, Panamá e Colômbia com o objetivo de capacitar os países a acessar recursos de cooperação internacional voltados para equidade racial e enfrentamento ao racismo. 

A RIAFRO é um mecanismo especializado de diálogo, coordenação e colaboração contínua entre as autoridades nacionais das Américas para promover a implementação de políticas para as populações afrodescendentes, em conformidade com as obrigações internacionais e regionais, com objetivo de  promover os direitos humanos da população negra em todo o mundo.

Criada em Lima, Peru, em 2018, é composta por 12 Estados-membros: Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, e apresenta, a cada dois anos, seus avanços em políticas públicas para a inclusão de populações afrodescendentes e combate ao racismo, além de todas as formas de discriminação e intolerância.

O Fundo Baobá fez parte do evento com a presença de Giovanni Harvey, Diretor Executivo, Hebe Silva, Gerente de Operações, e Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos. Giovanni Harvey foi mediador na oficina “Conceitos: Cooperação Internacional, Arrecadação e Gestão de Recursos para Instituições Nacionais de Políticas para Afrodescendentes”. E também painelista na mesa “Como funciona a cooperação para afrodescendentes em fundações internacionais?”, que contou com a participação de Melissa Hernández, da Fundação Ford; Renata Braga, da Open Society Foundations, e Jenny Petrow, da Fundação Kellogg.

Arquivo Fundo Baobá

Durante as oficinas, ficou evidente que o Brasil é visto como uma grande referência em políticas de justiça racial na América Latina e no Caribe. Conquistas históricas como a criminalização do racismo, as políticas afirmativas em universidades e concursos públicos, e a própria existência de um fundo independente gerido por pessoas negras, como o Fundo Baobá, serviram de referência para os países presentes.

Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, a participação deu a oportunidade de observar a dinâmica de uma reunião de estado, com pessoas engajadas e comprometidas na reparação histórica dos afrodescendentes na diáspora. “A questão racial tem menor escala de importância nos fundos internacionais e em alguns organismos governamentais. Isso faz com que essa área de atuação não apresente a robustez equivalente à importância da causa. No evento, tivemos oportunidade de falar sobre o Brasil e sobre nossa atuação, fundamentada nos aspectos amplos que a promoção da equidade racial demanda”, afirma. 

Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos do Fundo Baobá reitera que a presença em fóruns como este valida a capacidade de incidência e diálogo, além de posicionar o Brasil como um ator relevante nas discussões sobre justiça racial na América Latina e Caribe. Para ela, é um reconhecimento de que a metodologia do Fundo Baobá é um modelo inspirador para outros países e uma importante consolidação para mostrar que a filantropia negra brasileira tem muito a contribuir com o ecossistema global.

Estar presente na RIAFRO reafirma o compromisso do Fundo Baobá com a continuidade e o entrelaçamento de trajetórias. Ocupar esses espaços trazendo conhecimentos estratégicos para a nossa rede é a garantia de que o investimento social privado em equidade racial continue gerando frutos, de forma regional e global.



Corinthians doa camisa-manifesto contra o racismo para o Fundo Baobá

Corinthians doa camisa-manifesto contra o racismo para o Fundo Baobá

O combate ao crime de racismo ganhou um novo manifesto: uma camisa oficial do clube paulistano com a ilustração na gola “Racismo é Crime. Denuncie”. Após injúrias raciais sofridas pelo jogador Vini Jr., e pelo goleiro Hugo Souza, o Corinthians decidiu transformar a indignação em atitude e criou a camisa. 

camisa oficial do Corinthians com a ilustração na gola “Racismo é Crime. Denuncie”

Arquivo Fundo Baobá

A peça, doada ao Fundo Baobá, é um lembrete de que o enfrentamento ao racismo exige ação e é um chamado à responsabilidade coletiva. Além da mensagem, ela conta com um QR code que direciona a uma página do clube com orientações práticas sobre o que fazer em caso de ser vítima ou presenciar injúria racial. Seu significado vai além dos gramados. O gesto de vestir a camisa, símbolo de pertencimento e compromisso, reforça que o combate ao racismo é responsabilidade de todos e deve ser contínuo.

O clube buscou o Fundo Baobá e outras organizações que atuam pela promoção da equidade racial para entregar oficialmente a camisa. A iniciativa reforça a força do símbolo como ferramenta de luta por respeito e justiça racial em todos os espaços da sociedade.

A entrega ocorreu em 23 de abril. A equipe do Fundo Baobá foi recebida por Rafael Garcia, Gestor de ESG e Marketing do Corinthians. 

A ação reforça a urgência de promover iniciativas e debates que ampliem a conscientização e o combate ao racismo em todas as esferas da sociedade.

O Fundo Baobá reconhece este posicionamento, e reforça que promover equidade racial no país sempre envolve ação.

Governança ativa, participação coletiva e visão estratégica marcam os 15 anos de Fundo Baobá

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes.

Os quinze anos de caminhada do Fundo Baobá ensinaram que construir caminhos para a equidade racial exige tanto planejamento, quanto escuta das organizações, comunidades e pessoas que apoiamos e das gerações que vieram antes. É a partir dessa trajetória coletiva, marcada por aprendizados e melhorias ao longo do tempo, que o Fundo Baobá segue fortalecendo sua atuação e um modelo de governança que está na base dos nossos passos.

Atualmente, o Fundo Baobá conta com uma equipe de 20 profissionais e uma governança ativa, permitindo que o crescimento amplie o alcance de iniciativas voltadas à promoção da equidade racial. Entre elas estão programas de formação acadêmica internacional, acesso ao ensino superior, desenvolvimento de lideranças femininas negras e ações emergenciais, como o apoio durante a pandemia da Covid-19. São iniciativas que contribuem para que pessoas negras ocupem espaços historicamente negados à sua presença e ao seu conhecimento.

Para Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá, os 15 anos da organização marcam também o início de um novo ciclo estratégico. Nesse momento, a construção de processos eficientes, a gestão participativa e a adoção de tecnologias alinhadas à segurança, transparência e impacto social, são pilares para garantir continuidade ao trabalho desenvolvido.

Hebe da Silva, Gerente de Operações do Fundo Baobá

Crédito fotográfico: Thalita Novais

Mais do que administrar recursos, a área de Operações atua como suporte para todas as demais áreas organizacionais, apoiando estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e a sustentabilidade financeira.

“O Fundo Baobá é para sempre”, resume Hebe, ao falar sobre o compromisso de longo prazo da organização com a promoção da equidade racial no Brasil. Uma permanência construída coletivamente, com raízes firmadas no fortalecimento das iniciativas negras e na construção de futuros mais equitativos.

Em entrevista, Hebe fala mais sobre o ponto de vista da área de Operações sobre os 15 anos do Fundo Baobá.

Em janeiro, Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá, falou que os 15 anos do Fundo Baobá não eram apenas uma celebração, eram uma  preparação para um novo ciclo estratégico. Como a sua área, Gestão Operacional, define esse novo ciclo estratégico?
Uma etapa que apresenta novas demandas exige novos esforços. A área de Operações presta suporte às atividades das demais áreas. Somos uma das fontes para pensarmos estratégias de editais, articulações com a sociedade civil e captação de recursos. Pensar nas novas tecnologias do mercado e como podemos adotá-las, sem prejuízo ou risco à equipe e ao nosso público, será a contribuição da área de Operações no desenho deste novo ciclo.

Na mesma matéria, você fala em uma gestão participativa para garantir a sustentabilidade do Fundo Baobá. No dia a dia do trabalho, como acontece essa gestão participativa? 

Todas as pessoas da equipe são responsáveis pela gestão dos recursos. O alinhamento dos nossos gestores é tarefa cotidiana entre as áreas. Quem desejamos alcançar? Qual a melhor forma de fazer isso? Qual a maneira mais eficiente de gerir o recurso disponível? Todas essas variáveis são analisadas em equipe, que comunga do princípio de oferecer excelência no atendimento, seja qual for a atividade. Isso agiliza os ajustes processuais e nos fortalece enquanto grupo.

Você fala também em “olhar para a perenidade do Fundo Baobá”. Como gestora financeira, é possível prever um Fundo Baobá atuante daqui a 20, 30 anos ou mais que isso? Quais as diretrizes econômicas para atingir essas marcas?  

O Fundo Baobá é para sempre. Para os que estão aqui agora e para os que virão depois. Em 20, 30 anos as demandas da população podem mudar, o que influenciará nas nossas estratégias de atuação, mas o sentido de nossa existência permanecerá. Sendo otimista, vislumbro um futuro com todas as organizações da sociedade civil brasileira comprometidas com a promoção da equidade racial, mesmo que em menores níveis de prioridade. As diretrizes já estabelecidas pelo nosso conselho deliberativo nos dão suporte para essa perenidade: transparência, planejamento e governança participativa.

Como o Fundo Baobá define os valores investidos em seus editais, programas e ações a partir da rentabilidade do Fundo Patrimonial? Como essa estratégia de uso dos rendimentos contribui para a sustentabilidade e o planejamento de longo prazo da organização? 

O valor é definido entre nosso Conselho e Equipe Executiva. A depender dos reflexos deste alinhamento, o valor pode ser maior que o previsto inicialmente. Isso aconteceu no edital Black Stem, quando decidimos ampliar o número de vagas ofertadas no edital. Isso impactou em todo orçamento do projeto, mas obtivemos sucesso na decisão.

Auxílio emergencial no período da pandemia da Covid-19, programas voltados para educação, para o desenvolvimento de lideranças e enfrentamento à violência racial. Para quem trabalha com gestão financeira, como você definiria seu sentimento ao ver o impacto dessas iniciativas nas vidas das pessoas apoiadas?

O sentimento é de que um objetivo ambicioso e desafiador está sendo cumprido. Ver nossos projetos impactando diferentes atuações na causa racial, promovendo mudanças econômicas em grupos populacionais sub-representados, qualificando um público que nunca acessou recursos da filantropia, tudo isso reverbera no nosso sentimento de importância na sociedade brasileira e no nosso dever de continuar trabalhando com excelência.

Quais resultados do Fundo Baobá chamam mais a atenção de quem não faz parte da organização? 

Autossuficiência, execução bem-sucedida do planejamento estratégico e meta de construção do Fundo Patrimonial alcançada com êxito. 

Quais foram as estruturas invisíveis mais importantes para que o fundo chegasse até aqui?

Equipe comprometida com a preservação dos ativos institucionais: nossa relação com donatários, gestão eficiente dos recursos e uma governança atuante. Também é muito importante possuir uma assessoria jurídica qualificada para lidar com as especificidades de uma organização do terceiro setor que possui um Fundo Patrimonial.

Existe alguma decisão operacional tomada anos atrás que hoje vocês entendem como fundamental para a longevidade do fundo? 

O acordo com a Kellogg Foundation previa que os aportes financeiros ao Fundo Patrimonial seriam realizados mediante apresentação de um relatório de auditoria externa, aprovado pelo nosso Conselho. Isso colaborou para o fortalecimento de nossa transparência. Aprimoramos nossas ferramentas de trabalho para alcançar, com a maior agilidade possível, informações sobre a nossa gestão. Isso colabora não apenas para o gerenciamento financeiro, mas também para atender tempestivamente qualquer due diligence (levantamento sobre um parceiro de negócio) que algum financiador nos faça. Estamos preparados para falar de nossa história através dos números registrados aqui.

 O que mudou na forma de operar da organização ao longo destes 15 anos? 

O aumento da equipe refletiu na possibilidade de ampliação de nossas atividades. Houve um período em que fomos apenas 3 pessoas. Hoje somos 20. Isso mudou nossa estrutura física, nos possibilitou melhoria das ferramentas e demanda um esforço conjunto para construir a ambientação de cada nova pessoa que integra a equipe, incluindo a governança. Um time de trabalho empenhado e que se sente livre e seguro para opinar, propor e fazer.

Fundo Baobá participa do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, na Suíça

Fundo Baobá participa do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, na Suíça

O Fundo Baobá marcou presença no Fórum Permanente sobre Afrodescendentes, em Genebra, representado pelo seu Diretor Executivo, Giovanni Harvey, e pela gerente de Articulação Social, Caroline Almeida. A participação no evento, realizado em abril, ocorre em um momento de intensa mobilização internacional. O encontro na Suíça dá sequência a uma série de movimentações estratégicas promovidas pela ONU, como a histórica resolução aprovada pela Assembleia Geral em março, que reconheceu o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade 

A reunião marcou ainda o 25º aniversário da Declaração e Programa de Ação de Durban. O documento, que permanece como o principal marco normativo das Nações Unidas no combate à discriminação, reconhece que a escravidão, o tráfico e o colonialismo produziram desigualdades estruturais profundas e duradouras. Ao relembrar essa data, o fórum reforça o chamado para que os Estados repudiem o racismo e adotem políticas ativas de igualdade e reparação.

O evento reuniu 80 países membros das Nações Unidas, além de diversos atores da sociedade civil envolvidos na promoção dos direitos humanos das pessoas de ascendência africana, assim como agências e órgãos especializados da ONU. Como principal destino da diáspora africana, os países da América Latina e Caribe tiveram forte atuação nos debates, com destaque para o Brasil e Colômbia. Gana, que junto com a União Africana apresentou a resolução que reconhece o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas como o crime mais grave contra a humanidade, também participou ativamente.

Instituições nacionais de direitos humanos e organizações de igualdade racial, além do Fundo Baobá, também estiveram presentes, junto com outros representantes da sociedade civil. Para Caroline Almeida, gerente de Articulação do Fundo Baobá, um ponto de atenção é a necessidade de avançar nas discussões para a implementação de políticas de combate à discriminação, ao racismo e à promoção da equidade racial. 

“É bastante positivo e importante espaços como este, porém, ainda é evidente as lacunas que existem na implementação das ações”, assinala. O próprio balanço dos 25 anos de Durban comprova isso. Embora 180 dos 193 países que são membros plenos da ONU tenham aderido à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, apenas 42 adotaram ou reformaram políticas e medidas antidiscriminação, criando 35 organismos nacionais de igualdade racial.

Caroline também destaca o painel sobre juventudes, que reforçou a necessidade de inclusão dos jovens nos espaços de decisão. “Foi um momento de forte sintonia entre gerações. Os jovens cobraram mais escuta e participação e os mais velhos destacaram a importância de passar o bastão para as novas gerações”, comenta. As novas gerações também pediram mais atenção a temas como saúde mental e violência policial.

Fundo Baobá chega aos 15 anos promovendo equidade racial no mundo do trabalho

Fundo Baobá chega aos 15 anos promovendo equidade racial no mundo do trabalho

Embora as ações afirmativas tenham ampliado o acesso de pessoas negras ao ensino superior, esse avanço não se reflete na mesma proporção no mercado de trabalho. Segundo pesquisa do Pacto de Promoção da Equidade Racial e da Fundação Itaú, divulgada no fim de 2025, jovens negros  qualificados seguem enfrentando barreiras estruturais que limitam sua inserção em espaços de decisão e crescimento profissional   mesmo em contextos onde a diversidade e inclusão no ambiente de trabalho são cada vez mais discutidas.

Dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), baseados na PNAD Contínua do IBGE do segundo semestre de 2025, revelam que a população negra forma um contingente de 120 milhões de pessoas no Brasil. Deste total, a taxa de ocupação formal é de 56,7%, enquanto 59,4% estão fora do mercado formal de trabalho, em funções sem carteira assinada e mecanismos de proteção social ou sem qualquer ocupação. A desigualdade é maior no recorte de gênero: mulheres negras estão mais expostas a baixos salários e ao emprego doméstico. O cenário de desigualdade se acentua em cargos de gerência e direção, onde negros ocupam apenas 33% das posições (14% de mulheres e 19% de homens), conforme o DIEESE. 

Para transformar esse cenário, o Fundo Baobá atua, há 15 anos, na mobilização de recursos para construir pontes entre o conhecimento da população negra e oportunidades concretas. Nossa atuação é criar condições para que cada pessoa apoiada defina sua trajetória, para que possa aprimorar suas habilidades, seu trabalho e suas redes, transformando a autonomia em inovação e liderança. Um exemplo é o Programa Carreiras em Movimento, que vai além da orientação profissional. É um espaço de desenvolvimento de habilidades para que cada pessoa ocupe seu lugar com autonomia e propósito.

A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem. Após ter a trajetória interrompida pela pandemia, ela foi selecionada pelo edital em 2023 e recebeu R$10 mil para aprimorar habilidades. “Utilizei 60% do recurso em aulas de conversação de inglês e os outros 40% na aquisição de equipamentos e cursos livres complementares”, revela.

Após o investimento, Daniela conquistou uma vaga em uma empresa global de design. “Fui selecionada e atingi o nível C2 de proficiência em inglês. Hoje sou Senior Product Operations e não teria conseguido a vaga sem o incentivo do edital, que me permitiu focar no idioma”, afirma.

A pernambucana Daniela Marreira, graduada em Comunicação com habilitação em Rádio, TV e Internet, é um exemplo que mostra o poder dessa abordagem.
Daniela Marreira | Crédito: Arquivo pessoal.

No setor de ciências exatas, onde a presença de pessoas negras é minoritária ainda, o Fundo Baobá criou o edital Educação em Tecnologia. Nele, empresas negras e organizações que contribuem para a ampliação da capacidade de pessoas negras se inserirem no mercado de trabalho no segmento da tecnologia são apoiadas. Já o programa Black STEM tem como foco estudantes brasileiros negros e negras que buscam formação acadêmica no exterior nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Eles recebem suporte financeiro e mentoria qualificada visando  continuidade em seus cursos, o que poderá garantir posições de destaque dentro desse segmento. 

”A discussão sobre empregabilidade negra é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Não existe país próspero sem a inclusão da maioria de sua população”, afirma Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá. “Precisamos urgentemente avançar nas políticas de cotas raciais e vagas inclusivas para ações que incidam diretamente nos gargalos que impedem a juventude negra de acessar uma educação superior de qualidade. Esse é um pré-requisito básico para elevar a presença negra nas posições de tomada de decisão e liderança que poderão movimentar um ciclo virtuoso de inclusão social”, completa.

Em 15 anos, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1.209 iniciativas, muitas com o foco de ampliar oportunidades para pessoas negras no mundo do trabalho. Esse investimento já alcançou 1,35 milhão de beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. Provando que, quando a população negra tem acesso a recursos, participação em redes e desenvolvimento de suas habilidades, transforma os espaços onde atua. 

Fundo Baobá apoia programa de pós-graduação no exterior

Fundo Baobá apoia programa de pós-graduação no exterior

Estão abertas as inscrições para a Bolsa Complementar Alcance, uma iniciativa da Fundação Lemann com apoio do Fundo Baobá. A oportunidade é voltada para estudantes brasileiros negros, pardos e indígenas que já estão matriculados em programas de mestrado e doutorado no exterior.

A bolsa tem o objetivo de apoiar a permanência desses estudantes, contribuindo com despesas essenciais do cotidiano acadêmico, como alimentação, transporte, moradia, materiais e outros custos que compõem a vida de quem estuda fora do país. É um suporte concreto para que a jornada não seja interrompida no meio do caminho.

Além do valor de USD 7 mil ao longo de 12 meses, com possibilidade de renovação, a iniciativa também oferece acompanhamento psicológico e acesso a redes de conexão entre estudantes brasileiros no exterior. As pessoas selecionadas também passam a integrar comunidades e iniciativas de conexão vinculadas ao programa. 

O Fundo Baobá participa da iniciativa com apoio técnico e financeiro, no âmbito da parceria vigente.As inscrições para a Bolsa Complementar Alcance vão até 11 de maio. Se essa oportunidade tem relação com a sua caminhada ou com a de alguém próximo, confira o edital e saiba mais.

Programa Black STEM abre oportunidade de apoio a estudo no exterior para estudantes brasileiros

Edital Black Stem 2026

O Fundo Baobá anunciou, no dia 26 de março, a terceira edição do Programa Black STEM, voltado ao apoio de estudantes negros brasileiros que desejam cursar a graduação no exterior. A iniciativa, com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, fortalece um ecossistema que acredita na educação como ferramenta real de transformação.

A proposta é simples e potente ao mesmo tempo: ampliar o acesso de pessoas negras às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as famosas STEM) em universidades de ponta ao redor do mundo. Mas o programa vai além do acesso, ele também garante a permanência dos estudantes na universidade.

Nesta nova edição, até três estudantes serão contemplados com bolsas anuais de R$ 42 mil, que apoiam os custos desde moradia até o material acadêmico Os selecionados também terão apoio com mentorias, acompanhamentos psicológicos, conexão com lideranças negras e uma rede que faz toda diferença na jornada internacional. 

As inscrições, com início em 26 de março, vão até 7 de maio. O processo seletivo inclui análise de perfil, vídeo de apresentação e entrevista. É aquele tipo de oportunidade que exige preparo, mas que também pode mudar completamente o rumo da história de estudantes negros e negras do Brasil. 

O Black STEM acumula diversas histórias inspiradoras pelo mundo. São estudantes de diferentes cantos do Brasil que hoje ocupam universidades reconhecidas, como Enio Barbosa (Ciência da Computação na Stanford University – EUA), Gabriel Menezes (Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – EUA), Gabriela Marques Ferreira  (Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame EUA).  Essas trajetórias mostram que estudar fora do país é ocupar espaços historicamente negados, mas hoje permitem também mostrar como a ciência é produzida no mundo.

As áreas STEM estão no centro das grandes mudanças do planeta: da tecnologia que usamos no dia a dia às soluções para saúde e meio ambiente. E mesmo com toda contribuição histórica da população negra, ainda existe sub-representação nessas áreas. O Black STEM chega justamente para  transformar nesse cenário, incentivando, apoiando e confirmando, na prática, que pessoas negras não só pertencem a esses lugares como sempre fizeram parte da construção da ciência.

O programa Black STEM constrói pontes, fortalece trajetórias e amplia o futuro de pessoas negras, afinal quando uma pessoa negra acessa a universidade, no Brasil ou no exterior, ela não vai sozinha. Ela leva consigo sua história, sua comunidade e abre caminho para muita gente que ainda virá.

Fundo Baobá investe em mulheres negras como parte de uma estratégia ampla para equidade racial

Fundo Baobá investe no fortalecimento de mulheres negras no país

O investimento em mulheres negras, por meio de programas técnicos e de qualificação, é uma das estratégias adotadas pelo Fundo Baobá para enfrentar desigualdades e impulsionar transformações duradouras na sociedade brasileira.

Nestes 15 anos, o Fundo Baobá tem direcionado recursos para diferentes iniciativas, conectando lideranças, organizações e territórios. Nesse percurso, o apoio a mulheres negras se consolida como uma frente relevante, que mostra que o investimento feito é um mecanismo de impacto estrutural para o país.

Na prática, em um contexto de disparidades de gênero e raça, o Fundo Baobá investe no fortalecimento de lideranças e iniciativas que posicionam mulheres negras como executoras de estratégias sociais. A organização mapeia a liderança exercida por essas mulheres em diferentes contextos de desigualdade, utilizando editais para fortalecer sua atuação como agentes de mudança. 

O Programa Marielle Franco, por exemplo, oferece suporte para a ampliação da incidência política e a ocupação de espaços de tomada de decisão. A iniciativa foca no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade de gênero e raça, apoiando trajetórias individuais e coletivas em diversas regiões do Brasil.

Entre as ações recentes, o Fundo destinou R$1,25 milhão à Marcha das Mulheres Negras 2025, viabilizando a mobilização nos 26 estados e no Distrito Federal. O aporte concentrou-se em logística e articulação estadual, com atenção especial à participação de mulheres quilombolas, fortalecendo sua presença no debate sobre reparação e bem viver. 

O papel do Fundo Baobá consiste em conectar trajetórias e garantir que lideranças negras tenham acesso a oportunidades de continuidade, reduzindo os impactos da violência racial e de gênero. O investimento em mulheres negras faz parte de uma decisão estratégica de desenvolvimento do país. Quando mulheres negras têm condições de incidir em decisões, elas fortalecem redes, criam soluções e ampliam o acesso a direitos para todas as pessoas.

Fundo Baobá participa de articulação internacional por justiça racial em cúpula das Américas

O Fundo Baobá participou do encontro em Porto Rico que reuniu organizações e lideranças para fortalecer estratégias de equidade racial em escala regional.

O diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, Giovanni Harvey, participou do painel “Investimento estratégico em iniciativas afrolatinas”, durante o Racial Equity Builders Dialogue (REBD), realizado em Porto Rico nos dias 25, 26 e 27 de fevereiro. A conversa foi mediada por Arelis Diaz, da W. K. Kellogg Foundation, organização que incentivou a formação do Fundo Baobá em 2011.

O encontro reuniu lideranças, organizações filantrópicas e especialistas para discutir formas de ampliar o investimento em comunidades afro-latinas nos Estados Unidos e nas Américas. Durante sua participação, Giovanni Harvey destacou a importância de fortalecer investimentos que promovam autonomia e preservem a integridade cultural das iniciativas apoiadas nos territórios. Ele também abordou caminhos de acesso ao financiamento para organizações negras, a participação nas discussões do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU e o impacto do apoio da Kellogg ao longo dos 15 anos do Fundo Baobá.

Com o lema “A Hora é Agora: Um Diálogo para Ação em Todas as Américas”, o encontro refletiu sobre a urgência do papel da filantropia no fortalecimento de democracias inclusivas, e na construção de respostas coletivas para enfrentar o racismo em escala global.

O REBD é um encontro internacional que reúne organizações, articuladores sociais, filantropos e especialistas em equidade racial para discutir estratégias, fortalecer redes e promover o intercâmbio de experiências sobre justiça racial e desenvolvimento comunitário. A edição deste ano teve como foco avançar da reflexão para a ação, buscando transformar propostas de equidade racial em ações coordenadas, baseadas em aprendizado compartilhado e na defesa coletiva de lideranças comunitárias, parceiros filantrópicos e especialistas internacionais.

Pela segunda vez, o Fundo Baobá participou do evento, sendo a única organização brasileira presente nesta edição. A participação ampliou a visibilidade do Brasil em um espaço estratégico de diálogo internacional sobre equidade racial. Durante o encontro, organizações presentes demonstraram interesse em conhecer a experiência brasileira na promoção da equidade racial. 

Entre os temas discutidos estavam: funcionamento das instituições democráticas brasileiras em contextos recentes, o acompanhamento internacional de casos emblemáticos de violência racial no Brasil, como a condenação dos responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e de Anderson, além do papel da cultura brasileira como elemento de conexão e projeção internacional, e o reconhecimento do Brasil como ator relevante nas agendas globais de justiça racial.

Fundo Baobá participa do desfile que homenageou a missão do Geledés

Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”

No último dia 13/02, a Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem à força ancestral das mulheres negras e à missão do Geledés – Instituto da Mulher Negra, por sua missão institucional na luta contra o racismo, o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras.

A convite do Geledés, o Fundo Baobá esteve presente na avenida para celebrar esse momento simbólico. O samba-enredo exaltou a potência das mulheres negras em uma narrativa que uniu ancestralidade, luta e celebração. Com participação e curadoria do Geledés, a escola transformou o desfile em um verdadeiro manifesto cultural.

Integrantes da equipe do Fundo Baobá participaram da homenagem em reconhecimento a essa trajetória. Ao longo de 15 anos, o Fundo Baobá atua no fortalecimento de organizações e lideranças negras, com foco prioritário nas regiões Norte e Nordeste do país, investindo em educação, em vida com dignidade, em desenvolvimento econômico, em comunicação e memória.

Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relatou que ver o homenageado Geledés, todas as mulheres que o construíram e tantas outras que, de alguma forma, contribuíram e participaram da história da instituição, é reconhecer a importância da luta das mulheres negras no Brasil contra o racismo e o sexismo:
“Que bom poder ver essa homenagem acontecendo a essa instituição, que é uma referência para todas nós, e que bom poder ver essas mulheres sendo reconhecidas e lembradas. É uma grande felicidade quando uma escola de samba, que é símbolo de um pilar tão importante da nossa cultura, como o carnaval, é uma ferramenta pedagógica importantíssima para nossa sociedade”, afirmou Tainá.

O desfile reforçou que a trajetória das mulheres negras deve ser contada por elas mesmas, e que o lugar delas é na história, na academia, no samba, na política, na cultura e onde mais decidirem ocupar. 

Para além das alegorias, a agremiação apresentou uma narrativa de inteligência, organização coletiva e resistência histórica.

Maria Paula, assistente de diretoria do Fundo Baobá, confirmou que desfilar em uma escola que homenageou Gueledés foi mais do que atravessar a avenida: foi atravessar a história. Segundo ela, o samba exaltou mulheres negras que abriram caminhos e evidenciou a intelectualidade e a liderança das que hoje seguem construindo novas possibilidades. “Porque o futuro é ancestral”, resumiu.


A construção visual da Mocidade Unida da Mooca integrou ancestralidade e futuro. A comissão de frente destacava a origem da mulher negra como sustentação e transformação para as sociedades. Ao longo da avenida, vieram referências às irmandades, aos quilombos, às tecnologias ancestrais, à organização coletiva e às múltiplas formas de resistência construídas ao longo do tempo.

“Foi uma honra receber o convite para desfilar em uma escola de samba que homenageou o Geledés, esse instituto que eu conheci ainda criança, através de conversa na minha família e foi emocionante voltar a desfilar depois de 15 anos numa escola que ressalta a importância da mulher negra”, contou Juliana Vargem, assistente executiva do Fundo Baobá.

Maria Sylvia, advogada e diretora executiva do Geledés, ressaltou a importância de apresentar a trajetória da instituição à sociedade brasileira, ampliando o reconhecimento das mulheres negras como protagonistas na construção social do país. “Que essa homenagem inspire mais escutas, mais diálogos e mais respeito às nossas trajetórias. Obrigada à Mocidade Unida da Mooca por fazer da arte um instrumento de memória, reconhecimento e continuidade”, afirmou.
O refrão: Quero ver… casa-grande vai tremer, No meu Quilombo é noite de Xirê! A MOOCA FAZ REVOLUÇÃO, É Guèledés: A LIBERTAÇÃO, ecoou nos ensaios e na avenida, transformando o desfile em celebração e afirmação coletiva. O desfile foi um gesto público de memória, reconhecimento e continuidade. Uma noite que reafirmou que o futuro é ancestral — e que a história das mulheres negras segue sendo escrita com coragem, inteligência e organização.

Winsana  N’Tchala: Do Programa Já É para o curso de Medicina

Winsana N’Tchala: do Programa Já É para o curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná

Há histórias que são sobre conquistas e resistência. A de Winsana N’Tchala é sobre as duas coisas, mas também sobre amor, propósito e educação como ferramenta de transformação. Aos 21 anos, essa jovem curitibana realizou o sonho de infância: foi aprovada em Medicina na Universidade Federal do Paraná. E não foi por acaso.

A trajetória de Winsana ganhou reforço importante quando ela conheceu o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A indicação veio da cunhada, Byanka, que acompanhava as ações do Fundo Baobá e enviou o link de inscrição pelo WhatsApp.

O Já É, que está em sua segunda edição, foi criado para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior para pessoas negras de 20 a 25 anos, com ensino médio completo em escola pública. Nesta segunda edição, até 30 jovens receberam bolsa mensal de R$ 700 por 17 meses, além de mentorias coletivas e individuais, acompanhamento psicológico e atividades formativas. Um investimento na permanência e na potência da presença negra na academia, que amplia perspectivas e fortalece a produção de conhecimento.

Para Winsana, o impacto foi concreto.“O Já É agregou muito ao meu conhecimento de mundo, ao meu desenvolvimento pessoal e trouxe uma estabilidade financeira melhor do que eu tinha antes. A bolsa ajudou, e ainda ajuda, a custear gastos com os estudos.”

Mais do que apoio financeiro, o programa oferece algo essencial: pertencimento e orientação. Para muitos jovens negros, entrar e permanecer na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, e contar com uma rede de apoio faz diferença.

O sonho da menina da periferia que  nasceu e cresceu em Curitiba hoje se concretiza com o alicerce da família. A mãe, Claudia Maria Ferreira; o pai, Francisco N’Tchalá, natural de Guiné-Bissau; e os irmãos Watena, Yabna e Abayomi.

A infância simples, marcada por desafios financeiros, mas também por algo fundamental: incentivo. “Meus pais nunca deixaram faltar nada. Sempre me incentivaram a fazer uma graduação e ter orgulho da minha negritude”, conta.

Aos 6 anos, em uma conversa sobre profissões com o pai, nasceu a vontade de estudar Medicina. Quando ele morreu, vítima de insuficiência renal, ela tinha apenas 10 anos. A experiência de cuidar dele reforçou o desejo: queria ser médica. Queria cuidar de pessoas.

Sua formação se deu por completa em escolas públicas, como tantos jovens negros e negras no Brasil que enfrentam as defasagens estruturais da educação básica. Nas últimas décadas, houve avanços importantes no acesso ao ensino superior, mas pessoas negras ainda estão sub-representadas nas universidades. Em cursos altamente concorridos, como Medicina, a desigualdade é ainda mais visível.

“Foram quatro anos de dedicação total aos estudos. Parei de fazer coisas que eu gostava, sofri com matérias que tinha dificuldade. Não foi fácil. Mas valeu a pena”, afirma.

Nesse percurso, ela prestou vestibular para a PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), onde conquistou o segundo lugar. Mesmo assim, a escolha já  estava feita: seguir na UFPR. “Foi a realização de um sonho para mim e para minha família.” E a sensação da aprovação? “Foi como quando uma criança ganha um presente que queria muito”, afirma. 

Segundo o IBGE 2022, embora a presença de pessoas pretas e pardas com ensino superior tenha crescido, a proporção de jovens brancos de 18 a 24 anos com ensino superior completo ainda é mais que o dobro da registrada entre pretos e pardos. Além disso, milhões de jovens brasileiros não concluem sequer o ensino médio. E a maioria é negra.

Esses dados evidenciam que a desigualdade não está na capacidade, mas no acesso às oportunidades e nas condições de permanência.

Quando perguntada sobre o futuro, Winsana responde com simplicidade e firmeza:
“Quero ser uma médica humanizada, que escuta com atenção os pacientes, uma profissional de excelência.” Ela ainda não decidiu a especialidade. Mas já decidiu o principal: fará tudo com dedicação.

Para quem sonha em participar do Programa Já É, ela deixa um conselho direto: “Não vai ser fácil. Mas não desistam. A única forma que tenho certeza que nós, pessoas de baixa renda e negras, temos de ter ascensão social é por meio dos estudos.”

A aprovação de Winsana na UFPR é, sim, uma conquista individual. Mas também é a prova de que quando existe investimento, acompanhamento e confiança na juventude negra, os resultados aparecem. O Fundo Baobá acredita nisso. O Já É aposta nisso.
E Winsana N´Tchala é a prova viva de que já é tempo de ocupar todos os espaços,  inclusive aqueles que, historicamente, sempre foram negados ao povo preto.

Além de Winsana N´Tchala, o Fundo Baobá comemora também o sucesso de outros estudantes apoiados pela segunda edição do Programa Já É: Aryele Costa, Administração na Universidade Federal do Maranhão; Christian Leal, Arquivologia na Universidade Federal da Bahia; Denagnon Gogo, Engenharia na Universidade Federal do Espírito Santo; Gabriele Marques, Medicina na Universidade Federal de Pelotas; Joicilene Cabral, Medicina na Universidade Federal do Pará e Lara Dias, Jornalismo na Universidade Salvador (Unifacs).