Viver com dignidade está muito além de um conceito. É prática em que priorizamos a nós mesmos sem esquecer a prioridade do outro

Dois homens negros que habitam a maior cidade do país, São Paulo. Ambos professores universitários. Um deles é fisioterapeuta e gerontólogo (alguém que estuda e trabalha com processos do envelhecimento) e o outro é um sociólogo  (alguém que estuda a organização e o funcionamento das sociedades humanas e as relações sociais). 

Procuramos saber deles, a partir do conceito do viver com dignidade, quais são suas opiniões sobre alguns temas que permeiam o nosso cotidiano. Os tópicos vão de relacionamento familiar, passando por ativismo político, saúde, racismo e masculinidade. 

Os entrevistados foram o gerontólogo Alexandre da Silva, professor do departamento de saúde coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), e o sociólogo Deivison Nkosi, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Campus Baixada Santista, em Santos (SP). Eles não se esconderam de nenhum tema e suas ideias são de grande contribuição para quem deseja pensar uma sociedade progressista, em que o respeito ao outro e a equidade sejam praticados por todes. 

 

PARTICIPAÇÃO POLÍTICA 

Alexandre da Silva Falar de política é não ser partidário. É entender o contexto atual. Quando há discordância política, isso não quer dizer que os discordantes sejam de partidos diferentes. Não quer dizer que sejam opositores. Eu exerço meu direito político todos os dias, pensando em mim e nas outras pessoas. Tento entender quais são as manifestações políticas delas. O exercício político é o exercício da minha cidadania, baseado no fato de que todos nós temos os mesmos direitos. 

Deivison Nkosi –   Minha atuação política se dá por diversos meios. Entendi que a produção intelectual é uma forma de intervenção política importante. É uma forma de ativismo. Então me considero um intelectual orgânico do movimento megro. Mas entendo que a atuação política não pode se limitar à produção intelectual. Então,  procuro  me envolver com os movimentos sociais de combate ao racismo, especialmente aqueles que estão situados no espectro mais à esquerda do universo político. Atuo em contribuição a uma série de organizações de trabalho de base, que fazem tanto trabalhos pedagógicos quanto comunitários. Também tento intervir no debate político sobre temas conjunturais da nossa sociedade, que vão desde as questões sanitárias epidemiológicas (se a gente pensar na Covid-19) até as questões políticas mais gerais, tendo como eixo o movimento negro.

  

RELAÇÃO FAMILIAR

Alexandre da Silva –  Eu estimulo sempre o diálogo. Ele sempre é válido, principalmente quando associado à escuta. Em muitos casos de conflito, com essa receita, a do diálogo e a da importância da escuta,  a gente consegue resolver. E as estratégias de solução nunca passam por qualquer tipo de violência, como falar alto ou coisas assim. 

Alexandre da Silva, gerontólogo, professor do departamento de saúde coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP)

  

Deivison Nkosi – Entendo sim que a presença familiar é um acontecimento político. Entendo que a minha participação junto à minha família é uma intervenção política. Então, tendo isso em consideração, eu tento conciliar os tempos e os espaços. Isso nem sempre é possível, mas quando a gente percebe a importância política do fortalecimento familiar, a importância das famílias negras para a resistência negra, para a reprodução da nossa existência, mas sobretudo para a criação da possibilidade de existências afetivas e até financeiras, entendemos que esse espaço tem que ser priorizado. Eu venho tentando fazer isso. Sou casado, tenho dois filhos, mas faço parte de uma família ampliada, onde entendo que  influenciar na vida das pessoas da família é contribuir para um mundo melhor e sobretudo contribuir para que mais pretos e mais pretas estejam vivos e estejam bem, além de atentos ao que está acontecendo.

 

ARTICULAÇÕES SOCIAIS

Alexandre da Silva –  Sou apaixonado por gente. Falo com todo mundo: pobres, ricos, velhos, novos, bonitos ou considerados feios. Eu não posso e não se pode agir com preconceito. Trabalho com saúde pública. Trabalho com gente. Eu estudo o envelhecimento, e esse é um fato que acontece na vida das pessoas. O grande problema é que algumas pessoas buscam e legitimam discurso que traduz o que elas pensam e esse movimento de ultradireita do mundo expressa um retrocesso. Já procurei fazer uma análise que não envolvesse o racismo, mas o racismo sempre está presente nesse discurso direitista. 

Deivison Nkosi – As minhas articulações sociais são, sim, permeadas pelo meu engajamento político, mas também pela minha produção intelectual. Eu sou uma pessoa que vem da geração do hip hop; geração que buscava ser,  na prática,  a revolução que procurava ver no mundo. E isso significa trazer para a vida cotidiana determinadas preocupações de gênero, de raça e de classe. Trazer para a experiência cotidiana a preocupação de não reproduzir uma relação coisificada, uma relação reificada com as pessoas. Não tratar as pessoas como propriedade, não tratá-las como coisas que  podem ser descartadas. E estar vigilante com a possibilidade de reproduzir o racismo. Mesmo sendo vítimas do racismo a gente não está isento de reproduzir o racismo. Uma geração  vigilante com a possibilidade de reproduzir as dores e os sofrimentos do racismo e transferir isso para as pessoas com quem a gente convive. Entendo que essas coisas não podem estar separadas e isso significa trazer para o cotidiano aquilo que a gente discute, que a gente teoriza. Trazer para o cotidiano significa  pensar as demandas políticas de gênero, de raça, de classe, de orientação sexual,  tanto no campo pessoal quanto no campo profissional e político como um todo. Senão, podemos defender algo que não vale para nós. Que não vale ser defendido. Então, acredito que seja necessário não perder de vista a necessidade de viver na prática aquilo que a gente defende para o mundo.

Deivison Nkosi, sociólogo, professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Campus Baixada Santista, em Santos (SP)

RELAÇÃO COM OS TERRITÓRIOS DE VIVÊNCIA

Alexandre da Silva –  Tenho amizades duradouras desde aquele tempo. Até hoje procuro me relacionar com vários territórios, pois defendo o direito das populações negras de envelhecer. E as pessoas envelhecem em todos os espaços. Defendo o envelhecimento com dignidade. Em qualquer território. Procuro conscientizar e fazer a pessoa perceber que ter acesso ao que é digno  faz parte do cotidiano dela. É um direito. 

Deivison Nkosi –  A minha relação com os territórios que passo é bastante ambígua. Eu venho da favela,  cresci na favela, brincava no lixão, e vi o processo acelerado de urbanização das favelas. Tive acesso à universidade e depois a um tipo de possibilidade de visitar e conhecer outros territórios além da favela. Inclusive a universidade é um desses espaços. A favela é o meu lugar de origem, mas também eu pude circular e conhecer o mundo e ver que o mundo é muito maior que a favela. A favela tem construções de resistência, mas também tem carências e dificuldades de acesso a algumas coisas fantásticas,   que são comuns  a algumas pessoas. Então, minha relação é de ambiguidade com esse lugar de origem.

 

RELAÇÃO COM A COMUNIDADE

Alexandre da Silva –  Tenho procurado levar às pessoas meus conceitos sobre saúde, doença e cuidados. Procuro conscientizar. Fazer com que as pessoas percebam o que faz parte do cotidiano delas. Procuro expandir os conhecimentos sobre a população negra dentro da minha área, que é a saúde. Tento incutir nelas o valor do lazer, o exercício da intelectualidade e procuro aflorar nelas tudo o que nos desperta como cidadãos. 

Deivison Nkosi Contribuo de diversas formas. Se minha comunidade não é esse lugar onde eu durmo, minha comunidade é muito maior. Minha comunidade é a comunidade negra brasileira, afrodiaspórica do mundo. Minha  comunidade é a classe trabalhadora. Minha contribuição política vai na direção de defesa desses grupos.

Num âmbito mais estreito,  tento participar das atividades do movimento negro na minha cidade, das atividades de bairro da minha cidade, das atividades do meu bairro de origem.  As pessoas como eu, que são intelectuais e que vivem para atuar na pesquisa e difusão  de conhecimento, têm uma responsabilidade para com a sociedade. Aí eu procuro devolver o que acumulo,  participando de atividades que  possam fomentar um trabalho de base, uma conscientização, fomentar o avanço de alguns debates e algumas pautas.

 

SAÚDE E BEM ESTAR

Alexandre da Silva –  Valorizo muito minha prática física e a leitura. Mas isso não é fácil. Se deixarmos, o trabalho acaba nos engolindo. O fato de eu estudar o envelhecimento faz com que eu analise o meu próprio. A maioria da população negra não teve lazer porque trabalhou muito, sempre trabalhou. A população negra morre trabalhando, sem contemplar. O trabalho é importante, mas saber dosar, parar e desfrutar é importante também. 

Deivison Nkosi –  Saúde e bem estar: Isso é uma questão bem importante, porque saúde não é a ausência de doença. Saúde é bem estar psíquico, físico, emocional, mas é também a possibilidade de intervir nas políticas públicas. É a possibilidade de se ver representado nos espaços de poder. É a possibilidade de concretizar projetos de vida. E vivemos em uma sociedade que impede isso a todo tempo. Seja pela classe, pela raça ou pelo gênero. E isso coloca um desafio logo de cara. A saúde da população negra é completamente atravessada pelo racismo no Brasil. O racismo representa uma barreira enorme para uma vivência plena para a qualidade de vida e para o acesso à saúde. Vários dados mostram que a população negra tem menor acesso à saúde e,  ao mesmo tempo,  é mais acometida por uma série de doenças. Então, o racismo representa uma barreira para a saúde da população negra.

 

COMBATE AO RACISMO

Alexandre da Silva –  Tenho feito um trabalho trazendo a discussão do envelhecimento para dentro da perspectiva racial. A questão é sobre como o racismo tem impedido o envelhecimento da população negra. Por exemplo, quando se joga para a frente o tempo exigido para aposentadoria, essa é uma forma de dizer “o negro não”. O Brasil falhou no compromisso com o envelhecimento dessa parcela da população. 

Deivison Nkosi –  Sou um militante do movimento negro,  intelectual orgânico do movimento negro.  90% da minha produção teórica é voltada para o combate ao racismo. Mas também, quase 100% da minha atuação política é voltada ao combate ao racismo.  Estou engajado aos movimentos sociais como um todo. Sou uma das pessoas que dedicam a vida ao combate ao racismo. Isso é pesado em alguns momentos, porque a vida não é só combater. A gente precisa amar, desejar, sonhar, brincar, descansar e muitas vezes a atuação no movimento não dá descanso.

 

IDENTIDADE E MASCULINIDADE NEGRA

Alexandre da Silva – Eu acho que o desafio maior seja a desconstrução do macho, do forte,  que acaba sendo algo que gera muito sofrimento para o homem negro.  Porque as violências acontecem de diversas formas.  Isso limita também as outras expressões de masculinidades. Então, é importante pensarmos que masculinidade negra fala também de diversos gêneros, de diversas possibilidades, trocas de afeto, novas construções. Passa por pensarmos uma paternidade mais presente,  que muitas vezes é confrontada com o imaginário da população de que o homem se relaciona com várias mulheres e não consegue ter uma. Não estou pregando para que voltemos a um modelo judaico cristão. Não. Cada um pode escolher a forma que lhe convém para viver. Mas que a gente possa expandir essa identidade e masculinidades negras. E hoje a gente percebe um movimento grande, forte,  responsável e afetivo de diversos sujeitos, pessoas negras que estão trazendo essas identidades e discutindo essas masculinidades. E isso tem sido um abraço coletivo. Uma forma de todos  nós nos sentirmos pertencentes a esse mundo que sempre foi nosso. 

Deivison Nkosi –  Sobre Identidade e masculinidade é bom separar, porque são duas questões diferentes e que se relacionam. Antes de existir uma Identidade negra havia uma Identidade branca.  O que obriga o negro a afirmar a sua negritude é o fato de ele sofrer racismo. E o racismo se baseia em um identitarismo branco, identitarismo que vê o branco como única expressão de humanidade, beleza, bondade e verdade. O negro, quando aparece, aparece como animal, selvagem, violento, agressivo. Então, é o próprio racismo que cria a necessidade da afirmação da identidade negra. Também  é verdade que uma pessoa negra não é só negra. Ela é um monte de outras coisas. É o racismo que reduz o negro ao negro. Mas o negro é homem, é mulher, é hétero,  é gay,  é bi, é trans, é cis, é trabalhador. Existem várias identidades que perpassam a nossa existência. E mesmo assim a gente não se reduz a elas. Há momentos em que somos pai, somos filhos, somos profissionais de tal profissão, tem momentos que somos moradores de tal bairro.  As identidades não são fixas. Elas estão em diálogo a depender do contexto. O desafio é pensar estas dinâmicas complexas da identidade. Pensar inclusive que um negro não é só um negro. Acima de tudo ele é um ser humano. E nem tudo que um negro vive está ligado à negritude. O negro sofre, o negro ama, o negro tem sonhos, desejos, dores que estão na dimensão humana e ele partilha com outros humanos a expressão dessa experiência. E ainda que haja o racismo e que ele atravesse a vida do negro, o negro não se reduz ao negro. Cada pessoa tem seu próprio jeito de viver a vida. 

Quando pensamos as masculinidades negras, temos que pensar que o machismo privilegia os homens em detrimento das mulheres. Também o racismo  privilegia o branco em detrimento do negro. E isso coloca uma questão para homens e mulheres negras.  A Grada Kilomba (escritora portuguesa)  fala que a mulher negra é o outro do outro. Porque embora ela seja mulher, no feminismo ela deixa de ter a sua experiência considerada. Ela vira um outro em relação à mulher branca. Mas também nos espaços do movimento negro muitas vezes as mulheres negras têm suas pautas invisibilizadas. Então, se a mulher negra é o outro do outro, o que dizer do homem negro?

Promover a equidade racial através da potencialização da educação do jovem negro

No dia 10 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Fundo Baobá para Equidade Racial divulgou em seu site oficial a lista das 100 pessoas selecionadas para o Programa Já É – Educação para a Equidade Racial

O programa foi lançado exatos cinco meses antes, em 10 de julho de 2020, com o objetivo de apoiar 100 jovens negros residentes em bairros periféricos de São Paulo e outros municípios da região metropolitana a acessarem o ensino de nível superior. A iniciativa do Fundo Baobá, em parceria com a Citi Foundation, inclui não só os custos dos estudos em cursinho preparatório para o vestibular e as despesas com transporte e alimentação ao longo do programa. Ele prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais. Ainda prevê mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas, experiências profissionais e de vida.

Educação é um dos quatro eixos nos quais a missão estratégica do Fundo Baobá para Equidade Racial está focada. E não podia ser diferente: o ambiente escolar é um dos mais severos gargalos à equidade racial do Brasil. Dados mostram que o ensino fundamental tem quase o mesmo percentual entre crianças brancas e negras de 6 a 10 anos (96,5% e 95,8%, respectivamente). Mas, na faculdade, a matemática é outra: na média, só 25,2% dos jovens entre 18 e 24 anos cursam ou concluem o ensino superior, segundo o IBGE. Só que o percentual de jovens brancos que frequentam ou concluem o ensino superior (36,1%) é praticamente o dobro do percentual de jovens pretos ou pardos (18,3%) na faixa de 18 a 24 anos.

Não podemos negar que nos últimos anos houve um aumento significativo de pessoas negras nas universidades. Uma pesquisa do IBGE,  de 2018, mostrava que 50,3% dos estudantes do ensino superior da rede pública eram negros, sendo a primeira vez na história que o número de matrículas negras ultrapasava o de pessoas brancas. O Censo da Educação Superior, também em 2018, apresentou uma pesquisa na qual o número de negros no ensino superior saltou 78% entre 2014 e 2018. 

Para a gerente sênior de riscos e continuidade de negócios, Viviane Elias Moreira, o aumento de pessoas negras no ensino superior está atrelado à aplicação de políticas afirmativas e de reparação histórica e social, como as cotas raciais e o Programa Universidade Para Todos (ProUni), instituído pelo o governo federal no ano de 2005: “As medidas afirmativas são a base para que a população negra tenha acesso ao ensino de qualidade e a uma correção histórica educacional voltada à evolução da população negra, e que tenha também acesso a todo suporte pressuposto para que você tenha ensino de qualidade de primeira linha”. 

Viviane Elias Moreira, administradora com ênfase em comércio exterior e gerente sênior de riscos e continuidade de negócios

Para o economista, membro da assembleia geral e um dos fundadores do Fundo Baobá, também fundador do Instituto Cultural Steve Biko e vereador reeleito em Salvador, Silvio Humberto, é evidente que o aumento de negros nas universidades veio de políticas afirmativas, mas que isso não é apenas mérito do governo: “Essas políticas não chegam porque governo decidiu fazer. Você tem um movimento antes e tem sempre que se fazer referência ao movimento negro, ao trabalho pioneiro”. Silvio, inclusive,  menciona o trabalho do Instituto Cultural Steve Biko, que no dia 31 de julho deste ano completou 28 anos de atividades, e foi um dos pioneiros no cursinho pré-vestibular para pessoas negras na Bahia: “Nós falamos que são 28 anos promovendo ações afirmativas, então o que eu diria é que isso, tanto as as cotas raciais, quanto o ProUni, de garantir em escala o acesso de pessoas negras às universidades, tem um nome, tem um movimento anterior, que vem sendo puxado desde os anos 1990, com os movimentos dos cursinhos pré-vestibulares negros, populares e comunitários”.

Viviane Elias, que se formou na universidade antes do surgimento das políticas de inclusão, também é fruto do cursinho pré-vestibular social: “Eu sempre falo que o meu divisor de águas na vida foi o meu curso pré-vestibular, que eu fiz no Núcleo da Consciência Negra na USP, no ano de 1997. Porque lá eu tive acesso a uma possibilidade de ensino pré-vestibular com qualidade, com apostilas de qualidade, que eram elaboradas por um cursinho pré-vestibular muito caro e famoso, na época. Mas principalmente com relação à representatividade, foi ali que eu vi biólogos negros, químicos negros, historiadores negros,  professor de inglês negro e tínhamos também professores brancos que contribuíam e eram aliados ali naquela causa”.

O ingresso do negro na universidade também fica atrelado a uma educação básica de qualidade. Mas uma pesquisa do IBGE, de 2018,  mostra que um terço dos brasileiros entre 19 e 24 anos não havia conseguido concluir o ensino médio naquele ano. Entre os que não conluíram esta etapa, 44,2% são homens jovens negros. Muitos dos motivos que mostram a evasão escolar corresponde ao fato de o jovem negro ingressar mais cedo no mercado de trabalho. Para Silvio Humberto, isso é parte do círculo vicioso da pobreza e ele necessita ser rompido: “A evasão é consequência da vulnerabilidade social em que se encontra a maioria dessa juventude. Então, se você tem uma escola que não oferece os meios e as condições, começam as distorções de idade-série. Jovens  e adolescentes na faixa dos 13 anos começam a migrar para a noite, obrigados a entrar muito mais cedo no mercado de trabalho”. O que também revela outra problemática que afasta  jovens da escola: a gravidez na adolescência: “Muitas meninas, por engravidarem,  têm que ficar em casa pra cuidar não só da sua cria, mas também da família, dos seus irmãos, e tudo isso vai interferindo na sua educação, nas condições para garantir uma educação de qualidade,  de eles terem acesso”.

Silvio Humberto, economista, membro da assembleia geral e um dos fundadores do Fundo Baobá, também fundador do Instituto Cultural Steve Biko e vereador reeleito em Salvador (BA)

Viviane Elias também atribui o ingresso do negro na universidade a uma boa educação de base,  de qualidade, mas também reconhece as problemáticas no ensino básico. Portanto,  ela acredita que o trabalho que precisa ser feito é o empoderador: “Precisamos empoderar jovens negros, mostrando que eles podem ser o que eles quiserem e que existe um mundo de possibilidades para eles”. Muito da fala de Viviane é baseada em sua experiência em trabalho com  jovens de comunidades vulneráveis: “Muitos deles acham que a faculdade ainda é um sonho distante, porque é uma coisa elitista, ou não é para eles. Então,  empoderar esses jovens negros que, sim,  podem entrar em uma universidade e a partir do momento que eles entrarem, o esforço de alguma maneira vai ser considerado dentro do processo dele. Precisam levar em consideração o fato de um jovem negro de periferia levar quatro horas dentro de um ônibus, se ele trabalha o dia inteiro. Para poder entregar um trabalho do dia pra noite, os professores precisam, ao menos, ter sensibilidade de entender que essa pessoa tem algumas restrições para executar o trabalho”.

Silvio também reforça a importância do acompanhamento para esses jovens: “É preciso ter uma visão sistêmica, não vai se combater a evasão escolar somente com esse acompanhamento. Daí a importância do serviço social na educação para poder ir nas causas. Mas precisa também, fundamentalmente, não se perder de vista que é necessário combater a vulnerabilidade social das famílias das quais  esses jovens são oriundos”.

As trajetórias de Silvio Humberto e Viviane Elias incluem instituições particulares de básico. “Eu sou a prova cabal de que a exceção só serve para confirmar a regra”, brinca o economista. O fato de Silvio ter estudado em uma escola particular veio de uma recomendação que a sua mãe recebeu: “Deixe de dar uma boa roupa para o seu filho e dê educação”, sendo assim, os seus pais se esforçaram bastante para que Silvio e os irmãos pudessem ingressar numa boa escola: “Fiz o ensino médio em uma escola de classe média aqui de Salvador, onde a minha realidade era uma e a dos meus colegas era outra, completamente diferente, porque onde eu morava tinha problemas de saneamento, de falta de água, às vezes de energia elétrica, a rua não era asfaltada, era uma área pobre e tinha pessoas também extremamente pobres, embora fosse um bairro extremamente musical, cultural que é a Fazenda Garcia”. Conhecido hoje como reduto musical, o bairro Garcia é um dos mais antigos e tradicionais da cidade de Salvador. Durante muito tempo, recebeu o nome de Fazenda Garcia, por abrigar no espaço a fazenda do Conde Garcia D’Avila. Silvio afirma que ser um aluno negro em uma escola particular, majoritariamente branca, construiu a sua consciência de classe e raça, e que a boa contribuição disso veio de seu pai que, na época, trabalhava como mecanógrafo, consertando máquinas de escrever e de calcular: “Eu era um dos poucos negros dentro dessa escola, mas um conselho que recebi de meu pai quando eu tinha 14 anos foi:  ‘Não se esqueça, você é filho de operário, você não é igual a esses burgueses que estudam nessa escola’. E isso eu nunca esqueci, isso foi a forma dele me falar, do jeito dele, o que era consciência negra e de classe, da minha origem social, para demarcar bem quem eu era e o que eu estava fazendo ali”.

Viviane estudou boa parte do ensino fundamental também em uma escola particular, mas em São Paulo: “Eu fui bolsista no colégio particular até a oitava série e depois, por questões financeiras de não conseguir nem pagar a bolsa, eu tive que ir para um colégio público”. Na época, havia sorteios e uma grande concorrência para ingressar, inclusive, nas escolas públicas: “Eu dormi na fila de um colégio na Vila Formosa, e consegui ser sorteada para estudar no período da tarde, que era o menos disputado, para conseguir ter acesso ao ensino médio de qualidade. E aí foi meu primeiro grande choque com a defasagem de um ensino que eu tive até a oitava série como bolsista em uma escola particular até a  chegada no terceiro colegial,  que era uma escola pública e, mesmo de ponta, era normal por exemplo, na metade do primeiro colegial,  eles estavam ensinando pela primeira vez uma coisa que eu aprendi na sexta série. Então,  eu sempre fui vista como se fosse uma nerd do colégio, mas eu não era. A questão é que eu já tinha tido um ensino diferente dentro do colégio particular”. 

O primeiro vestibular prestado por Silvio foi aos 16 anos: “Entrei na universidade com 17 anos. Dentro da trajetória escolar eu não perdi ano nenhum, entrei na universidade muito cedo, mas era uma exceção, um ponto fora da curva, você se formar, como eu me formei em economia, com 20 anos de idade”. Após prestar um concurso público e não ser chamado, Silvio prestou concurso para auditor fiscal da Secretaria Municipal da Fazenda: “O meu primeiro concurso foi feito no ano de 1984 e eles chamaram em 1985, e de lá são 35 anos como auditor fiscal da Secretaria da Fazenda e depois, em 1993, eu me tornei professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, no curso de Economia”.

Viviane prestou vestibular em duas oportunidades. Na primeira tentativa, foi para o jornalismo: “Não passei para segunda fase por dois pontos, mas passei em uma faculdade particular  e não tive dinheiro para pagar. Então, voltei a cursar meio ano de cursinho em 1998”. Na segunda oportunidade, ela passou em três faculdades: Estudando de manhã e trabalhando como operadora de telemarketing à tarde, o primeiro estágio veio apenas no último ano de curso e foi uma experiência frustrante: “Consegui um estágio no Banco Alfa. Fui contratada para ser estagiária da mesa de câmbio, mas me colocaram como operadora de telemarketing para o processo de concessão de leasing e, quando eu fui ver, eu estava limpando as mesas dos operadores da época. Foi uma das minhas maiores frustrações”, relembra.

Mentoria e carreira

Além de custear o cursinho pré-vestibular para jovens negros e as despesas com ônibus e transporte, o Programa Já É- Educação para Equidade Racial terá programa de mentoria e acompanhamento acadêmico, para que o jovem tenha a possibilidade de se descobrir profissionalmente e escolher a sua carreira, uma coisa que a juventude negra de antigamente nem ao menos sonhava, como relembra Viviane: “Hoje a gente fala de carreira para um menino de 18 anos. Na minha época, as pessoas negras nem sabiam o que era carreira. Ela sabia que era o trabalho. Eu precisava trabalhar para pagar minhas contas, para pagar o aluguel da minha casa, então nem pensava em fazer carreira, eu pensava em ter um emprego e evoluir no emprego para ter mais dinheiro,  para ter uma ascensão social e conseguir o meu grande sonho, que sempre foi comprar a casa dos meus pais e ter os meus objetivos de viajar e conseguir estudar, porque eu sempre gostei muito de estudar”.

Quando surgiu a oportunidade de cursar o seu primeiro vestibular, a voz familiar se fez presente, mais uma vez, na vida de Silvio: “A minha mãe, no alto da sua sapiência, me disse: ‘Meu filho, pobre sabe escolher: ou é medicina, ou é direito, ou é engenheiro, é isso que eu sei. Como eu não posso te orientar, peça a Deus’. Então eu posso dizer que a minha entrada na economia tem a ver com essa força da espiritualidade, que eu acredito muito, que escolheu esse caminho para eu trilhar”. 

Após a experiência traumática com o primeiro estágio, Viviane pensou em uma solução drástica: “Eu decidi que iria hackear o sistema”, frisa. “Enquanto o sistema achar que eu estou seguindo os passos dele, eu estou tentando viabilizar estratégias para que eu consiga hackeá-lo e estar sempre à frente”. Após terminar o curso de Administração com Ênfase em Comércio Exterior, Viviane foi cursar outra faculdade, dessa vez de Processos Gerenciais: “Era uma faculdade de dois anos, que era o que dava para pagar. Mas  depois disso, acabei investindo muito em certificação, principalmente certificações internacionais e estudo de idioma. Posso te falar que todas essas conexões, além dos meus últimos estudos que foram dois MBAs diferenciais para o que eu faço, realmente foram que me possibilitaram hackear o sistema e ter mais chances no mercado de trabalho”. 

 

Silvio, por sua vez, não tinha muita ideia do que era o curso de economia: “Eu não sabia muito o que era, então a forma que o curso foi se desenhando, que a academia de cursos me preparou para ingressar no mercado de trabalho, estava focado em fazer concurso”. E foi na faculdade que Silvio teve o primeiro contato com o movimento negro: “Foi em 1980, eu participei do MNU (Movimento Negro Unificado), fui um dos fundadores do Grupo Negro da UCSAL (Universidade Católica de Salvador) inspirado no grupo negro da PUC-SP”.

 

Promover a equidade racial, potencializando a educação dos jovens negros de regiões vulneráveis,  é a principal premissa do Fundo Baobá, através do Programa Já É: “O Fundo Baobá é formado por líderes visionários. Afinal de contas, quando você vê que jovens de 17 a 25 anos têm acesso a iniciativas como essa. Que essas iniciativas  cobrem todos os pontos de defasagem e ainda disponibilizam um plus, o Fundo Baobá vai proporcionar que essas pessoas tenham acesso à representatividade tangível, que é uma bandeira que eu levanto muito. Representatividade é muito importante, mas quantas pessoas de nós terão acesso a Michelle Obama, por exemplo? Mas quantas dessas pessoas vão ter acesso a uma Fernanda Lopes, a uma Viviane Elias, a uma Selma Moreira? E isso é transformar vidas através de ações afirmativas”. 

 

Silvio também acredita na força e no potencial do Já É, mas também alerta para a importância de estendê-lo  para outros estados do Brasil: “A proposta é excelente, mas só acho que não deveria ficar restrito ao município de São Paulo, apesar de ser lá onde você tem as maiores desigualdades. A gente precisa que esse programa se estenda para o Brasil, e sobretudo para a região Nordeste, é preciso encontrar parceiros, é preciso apoiar as organizações que já existem”, finaliza.

 

Fazendo um retrospecto em sua trajetória profissional, Viviane Elias reforça ainda mais o surgimento de medidas como o Programa Já É: “Eu sou uma profissional de gestão de riscos e gestão de crises, hoje eu componho o pequeno percentual de 2.6% de mulheres executivas nesse país, estou participando do primeiro curso de formação de conselheiras negras deste país, tenho dois MBAs e passagens profissionais por multinacionais e nacionais nos mais diversos segmentos, única e exclusivamente por ações afirmativas como essa do Fundo Baobá. Eu sou o resultado do que ações afirmativas, alinhadas com educação de qualidade e com suporte psicossocial de blindagem contra ações do racismo estrutural, podem fazer. Hoje eu gero receita, procuro praticar o ‘ninguém larga a mão de ninguém’, participo de outros grupos de empoderamento de mulheres e meninas negras da periferia, porque eu sei que uma ação social como essa pode movimentar e mudar vidas”, completa.

Recuperação econômica e fortalecimento de territórios negros é um dos caminhos para a justiça social

No dia 20 de dezembro, encerram-se as inscrições do Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial, que tem apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Instituto Votorantim e Banco BV, com a premissa de dar suporte financeiro a pequenos empreendimentos, liderados por pessoas negras, em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socieconômica no país. 

A pandemia do novo coronavírus acentuou as desigualdades em nosso país, o que gera discussões sobre o que significa desenvolvimento econômico. Para o mestre em sociologia e professor na FGV (Faculdade Getúlio Vargas), Márcio Macedo, há controvérsias nas definições e formas de se medir o desenvolvimento econômico: “Para os economistas mais ortodoxos, o desenvolvimento econômico pode ser medido a partir de parâmetros como PIB (Produto Interno Bruto), renda per capita e níveis de consumo da população. O que é considerado nessa forma de se medir desenvolvimento econômico é o tamanho da economia e do mercado consumidor. Hoje somos a nona economia mundial, nosso PIB gira em torno de US$ 1,8 trilhão. Com essa definição, o Brasil se encontra à frente de países como o Canadá. Contudo, se olharmos os índices de competitividade da nossa economia, o Brasil vai para uma posição 34º na lista das economias mundiais. Além disso, se levarmos em consideração o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – unidade de medida utilizada para aferir o grau de desenvolvimento de uma determinada sociedade nos quesitos de educação, saúde e renda), o Brasil, atualmente, encontra-se na 79º posição no ranking do IDH mundial (uma lista com mais de 180 países), como divulgado pelo PNUD, em 2018”, afirma Márcio. 

Márcio Macedo, mestre em sociologia, professor e coordenador de diversidade da FGV EAESP

Curiosamente, o Brasil encontra-se há três anos nessa posição, o que pode ser considerado uma estagnação. “De forma geral, podemos dizer que o Brasil é um país com grandes desigualdades e paradoxos. Assim, eu diria que não podemos nos considerar desenvolvidos economicamente porque temos uma desigualdade social e econômica enorme”, finaliza.

Para a empreendedora na Ceilândia (DF), formada em serviço social e pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial, Wemmia Santos, o que dificulta o desenvolvimento econômico e a redução das desigualdades é a manutenção de privilégios das classes favorecidas: “Vale dizer que somos cada vez mais afetados para perder as dimensões que desvinculam o consumo do exercício da cidadania, haja vista que o modelo de inclusão adotado para o desenvolvimento econômico se deu via políticas públicas de estímulo ao consumo de bens e serviços. Ao olhar com mais cuidado para essa estrutura, fica exposta a não opção pela dissolução/diminuição das desigualdades, e também fica evidente que quanto menor seu poder de renda,  menor seu exercício de acesso ao direito de ter direitos. A face dessa realidade desafia a temática de desenvolvimento econômico, bem como denuncia outras restrições no que se refere a questões ambientais e socioespaciais”.

É aprendizado básico de economia que os recursos são escassos e que não é possível dividir com todos, mas para Wemmia Santos é preciso romper com esse mito: “As ‘crises’ e a suposta escassez de recursos são os pretextos utilizados pelo Estado para justificar sua retirada da responsabilidade social, especialmente no campo das políticas sociais. Desse modo, o desenvolvimento econômico que deveria beneficiar toda população, fomentando o acesso à cultura, esporte e lazer com garantia de mobilidade que atenda a todos, é desfavorecido em favor do capital que tenciona a construção de instrumentos baseados unicamente no planejamento público tecnicista que limita a equidade e distribuição justa de bens e serviços, favorecendo apenas os estratos privilegiados”.

Wemmia Santos, pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial e empreendedora na empresa RAIX

Para muitos, a principal forma de se emergir economicamente é empreendendo, ou,  como dizem, se tornando o seu próprio patrão e dono do próprio negócio. Muito tem se discutido sobre o empreendedorismo, muito se tem estudado sobre os melhores formatos de se investir, empreender e obter lucro, mas, considerando a deficiência no desenvolvimento economico do nosso país, pouco se dialoga sobre a formalização do empreendedorismo negro. Wemmia recorre à história para demonstrar que o debate sobre empreendedorismo, mesmo com a proliferação da internet, está longe de ser algo recente. Ela cita inclusive, a Irmandade da Boa Morte, que teve a sua fundação no século XIX, em Salvador, vindo posteriormente a se estabelecer na cidade de Cachoeira, na Bahia: “As mulheres da Irmandade vendiam quitutes e com o lucro das vendas ajudavam seus afiliados e outros negros, fugidos da escravidão, pagando suas alforrias. Ainda hoje, elas preservam essa motivação inicial, em memória ao sofrimento dos escravizados pela busca da liberdade e, dessa forma, se mantêm um exemplo notório de luta e resistência contra a escravidão. São, portanto, revolucionárias desde aquela época. Transformaram a falha de mercado do sistema escravocrata em oportunidade de viabilizar a liberdade de seu povo. Encontraram e encontram meios para solucionar questões relacionadas à redução da pobreza e desigualdade, em um cenário nada propício à participação ativa da mulher, com ênfase nas mulheres negras”.

 

Para Wemmia, é importante conhecer a história, justamente para compreender os territórios negros: “Quando resgatamos a história do Brasil, antes mesmo do sistema capitalista, fica evidente a manutenção do racismo estrutural nos territórios que a população negra se concentra e nas faixas de rendimento entre negros e não negros. Para nós é necessário conhecer e preservar a história para, só assim, consolidar ações mais igualitárias”.

 

É dentro deste contexto histórico que Marcio Macedo acredita que, quando falamos em empreendedorismo negro ou afro empreendedorismo, há uma perspectiva política envolvida.  Ou seja, são negócios de pessoas negras, que podem envolver algum tipo de relação com elementos das culturas negras e ainda ser voltados, de forma prioritária, para o consumo de pessoas negras: “Apesar de isso não ser algo novo, ele tomou um novo significado em um contexto que o mercado consumidor e a economia como um todo passam a ser vistos como  espaços de questionamento da desigualdade racial. Falar que a invisibilidade do empreendedorismo negro é efeito do racismo estrutural e empresarial é simplificar o problema. Entender o fenômeno do empreendedorismo é olhar para as relações entre raça, classes, desigualdades das mais variadas entre negros e brancos,  além da reconfiguração do mercado de trabalho dentro de uma economia neoliberal”.

 

Pesquisa realizada pelo Sebrae em 2018, a Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revela que 40,2% das micro e pequenas empresas no Brasil são comandadas por negros. A mesma pesquisa, também nos mostra que apesar dos empreendedores negros liderarem o número de micro e pequenas empresas no Brasil, quando olhamos para o faturamento é maior a proporção de empreendedores negros que possuem renda familiar mais baixa do que empreendedores brancos e – ao contrário – é maior a proporção de empreendedores brancos que possuem rendas maiores: “Esses números discrepantes seguem a mesma linha ou dimensão da desigualdade vista entre negros e brancos no Brasil. Há diferenças nas formas, modos e tipos de negócios ou empreendimentos de negros e brancos. É preciso abrir os números para verificar com mais acuidade essas diferenças e desigualdades, mas diria que estamos comparando universos bastante distintos”, afirma Márcio.

 

Outra grande dificuldade da pessoa negra que empreende diz respeito à obtenção de créditos. Um estudo realizado pela PretaHub, em parceria com o instituto de pesquisas Plano CDE e o banco JP Morgan, mostrou que 32% dos empreendedores negros tiveram crédito negado, sem explicação. Márcio Macedo diz que ter acesso a crédito no Brasil é, em geral,  algo bastante difícil e caro e mais ainda para quem é pobre: “Há uma mistura de desinformação, desconfiança e seleção prévia realizada por bancos. O ponto central é: não há linhas de crédito com taxas de juros que não sejam exorbitantes para serem oferecidas para empreendedores e microempreendedores negros, porque a maior parte deles está alocada nas faixas de classe menos abastadas, que sofrem com problemas de formalização ou com questões às vezes bastante simples de serem resolvidas, mas que impedem o acesso ao crédito”.

 

A Pandemia de Covid-19 acentuou ainda mais as desigualdades sociais e raciais. E, no caso do empreendedorismo negro, um estudo do Sebrae mostrou que durante esse período 46% dos empreendedores estavam com dívidas em atraso. Sessenta e um por cento dos que buscaram empréstimo não conseguiram, mesmo tendo pedido valores mais baixos do que os brancos: “A pandemia afetou todos os negócios, tanto de brancos como os de negros. Contudo, a pandemia também se orientou pelas desigualdades na maneira como afetou de forma desproporcional a população. Ou seja, houve uma socialização desigual dos impactos negativos da pandemia, com um número maior de mortes e perdas de pobres e negros”, ressalta Márcio Macedo. “No caso dos empreendimentos negros, a forma de resiliência tem se dado através de apoio de redes familiares e de amigos. Muitas vezes não necessariamente na manutenção do negócio, mas na tentativa de dar conta das despesas de manutenção pessoal e familiar. Muitos empreendedores negros dependem dos seus negócios para pagar suas contas mensais, ou seja, sua subsistência está vinculada ao negócio. Na impossibilidade do negócio/empreendimento funcionar, algo que ocorreu no período mais crítico da quarentena, boa parte deles ficou sem renda e teve que recorrer à ajuda do Estado, dinheiro vindo do auxílio emergencial liberado pelo governo federal, ou buscou ajuda, como já disse, com familiares ou redes de amigos”, completa.

 

Com as dificuldades, no contexto da Covid-19, o empreendedorismo negro precisou pautar estrategias de resiliência negra para se manter vivo. Sendo empreendedora desde 2017 à frente da marca RAIX, atuando no ramo do vestuário com a valorização da cultura periférica,  e atuando também na Feira da Quebrada em Brasília e na Loja Colaborativa, Wemmia acredita que uma rede de parcerias com outros empreendedores negros pode ser eficaz na forma de aceleração e apoio de pequenos negócios. Márcio Macedo também vê de forma positiva a rede de parceria entre empreendedores negros: “Essa é uma estratégia que já vem sendo colocada por organizações como a Coalizão Éditodos, que visa captar recursos e apoiar negócios de empreendedores/as negros/as. A aceleração é algo que deve ser feita, contudo, é necessário experiência no universo do empreendedorismo. O processo de aceleração deve ser capitaneado por alguma organização que tem um papel importante e “know-how” no ecossistema empreendedor”.

 

Pensando nessa experiência no universo do empreendedorismo, Márcio Macedo está à frente do projeto “Raça & Mercado”, uma iniciativa conjunta da FGV EAESP – via FGVCenn e Coordenadoria de Diversidade – Feira Preta, AfroBusiness e Diaspora.Black. O projeto tem como premissa estimular a reflexão sobre o empreendedorismo negro e o fortalecimento do ecossistema: “Entre maio de 2019 e dezembro de 2020 realizamos onze fóruns de discussão nos quais foram convidados pesquisadores, empreendedores/as, empresas, organizações da sociedade civil e setores do Estado para discutir o tema do empreendedorismo negro a partir de diversas perspectivas. Publicaremos um relatório de atividades no início de 2021 com as principais conclusões”.

 

Atuando em seu território, Wemmia Santos é coordenadora do Programa LECria, (Laboratório de Empreendimentos Criativos) um edital de fomentos para empreendedores periféricos que, a cada ano, doa R $10 mil para 10 empreendimentos. Essa iniciativa surgiu após um estudo territorial: “Estudo realizado pela Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal) aponta que Ceilândia, Águas Claras e Taguatinga são as três Regiões Administrativas com o maior número de microempreendedores individuais (MEI) no setor da cultura, nas atividades artísticas como espetáculos, fotografia e música”, segundo a empreendedora, são empresas criativas que estimulam o mercado e são responsáveis pelo aumento da qualidade de vida na região. “O LECria, tem como objetivo instigar ainda mais o empreendedorismo criativo na construção e ampliação da economia solidária entre a juventude, oportunizando a inclusão de novas formas de empreender nas artes, danças, música, comunicação entre outros nichos”. Completa.

 

Dessa forma, além de fomentar a criação a Feira da Quebrada, Wemmia traz o conceito de loja colaborativa, como forma de ligar o empreendedor com o cliente: “A loja colaborativa RAIX, na Praça do Cidadão, em Ceilândia, foi criada com o objetivo de fomentar o empreendedorismo entre jovens periféricos trazendo um formato colaborativo, que já é tendência validada, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A ideia é sermos um veículo que conecta o vendedor ao cliente, cedendo o espaço por um valor justo e acessível, espaços compartilhados tem sido uma ótima solução para empreendedores iniciais e de pequena escala que buscam otimização de custos e escoamento de estoque, tendo em vista a impossibilidade de arcar sozinhos valores fixos, como aluguel, manutenção, funcionários, divulgação, dentre outros, fazendo assim que permaneçam por mais tempo na informalidade”, completa.

 

Márcio acredita que programas de recuperação econômica, como proposto pelo Fundo Baobá, são iniciativas louváveis e importantes para o desenvolvimento e fortalecimento do empreendedorismo negro no Brasil: “É necessário que outras organizações, públicas e privadas, sigam o exemplo do Fundo Baobá com vistas a possibilitar que inovações econômicas e sociais sejam conquistadas através do empreendedorismo de pessoas negras, que beneficia a todos/as, negros/as e não negros/as”. 

 

Wemmia Santos, que é uma das mulheres apoiadas pelo Fundo Baobá no Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, também reforça o coro: “Se eu não tivesse participado de um edital de fomento, com certeza boa parte das ações que executamos hoje não seriam possíveis. Fico feliz em ver cada vez mais iniciativas que incentivam pessoas negras a buscarem seus sonhos de forma ampliada”.

Representatividade negra nos espaços de tomadas de decisão e educação como ferramenta de equidade racial foram temas de lives com participação do Fundo Baobá

No mês dedicado à consciência negra, a direção do Fundo Baobá para Equidade Racial participou de lives e webinarios falando sobre equidade racial, representatividade negra nos espaços públicos e de tomadas de decisões, a importância da educação como instrumento na redução das desigualdades sociais e raciais e o papel da mídia na cobertura da pandemia do novo coronavírus, doença que escancarou o racismo e acentuou ainda mais as desigualdades em nosso país.

A primeira live de novembro aconteceu no dia 5, dentro do projeto “Redes&Raízes” do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, em parceria com o Observatório da Juventude do UNFPA, e contou com a participação da diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, no treinamento “Captação de Recursos para Organizações”. Selma exemplificou para os jovens presentes o conceito de captação e como deve ser realizado: “Captação é igual negócio, você precisa investir para ter retorno. Tem que pensar quais são os recursos disponíveis para trazer o investimento. Isso não acontece magicamente”.

Durante o evento virtual, o participante do Observatório da Juventude da UNFPA, Hugo Sabino dos Santos, fez o seguinte comentário: “A apresentação da Selma me trouxe muitas reflexões sobre entender o lugar de quem está nessa posição de captador. Entendi o quão necessária é a minha formação sobre o conhecimento da instituição em que trabalho, porque, possivelmente, também eu esteja dentro dessas reuniões, desse discurso e dessa troca de captação”.

Diante dessa reflexão, Selma respondeu: “A gente tem uma equipe bem pequena no Fundo Baobá, mas todo mundo tem que ser captador, isso não significa que vai estar sempre à frente [da captação]. Se, às vezes, você vê uma oportunidade ou lê um edital, mas se não está conectado com a alma da organização, pode deixar passar”.

No dia 26, Selma Moreira retornou para outra formação do “Rede&Raízes” sobre captação de recursos, que teve a participação de 19 jovens representantes de coletivos, organizações e iniciativas para as juventudes negras. Selma apresentou passo a passo para que as entidades possam se afirmar, citando por exemplo, a criação de alinhamentos institucionais estratégicos. Além de construir um planejamento orçamentário, um plano de mobilização de recursos buscando pessoas e parceiros para dialogar e criar estratégias de captação. “O trabalho de captação pelos coletivos possuiu uma camada a mais, que é a camada da barreira jurídica. Existe o desafio do tempo presente, as organizações não estão preparadas para lidar com coletivos (grupos que não sejam formalmente constituídos como organizações da sociedade civil). É uma questão do nosso modelo jurídico, muitas vezes o projeto tem conexão, mas não tem institucionalidade – dado que o coletivo não tem CNPJ.” 

Segundo a diretora-executiva do Fundo Baobá, o ambiente e a visão de empresas estão em transformação e as organizações da sociedade civil podem auxiliar neste processo: “Parte do nosso trabalho é construir caminhos e deixar nítido para as instituições que esses pontos não devem ser encarados de maneira superficial”.

A cobertura completa do evento, você pode acompanhar na matéria completa no site oficial da UNFPA

O curso virtual “Raça, Gênero, Democracia e Participação Política no Brasil”, uma iniciativa do Instituto Geledés da Mulher Negra, em parceria com a Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo, contou com nove aulas semanais, dos dias 22 de setembro a 17 de novembro. E no dia 10 de novembro, aconteceu a aula de número oito, com o tema Promoção da Equidade de Raça e Gênero, e teve a participação da diretora-executiva do Fundo Baobá, pós-graduada em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas, pela Escola de Comunicação e Artes da USP e MBA em Gestão e Empreendedorismo Social, pela FIA,  Selma Moreira, ao lado do doutor em sociologia e pós doutor no departamento de estudos africanos e da diáspora africana pela universidade de Wisconsin, Sales Augusto dos Santos, com a mediação da professora e mestre Suelaine Carneiro.

Em sua fala, Selma apresentou o trabalho do Fundo Baobá e destacou: “Um dos desafios que nós temos é como conseguir constituir a pauta da equidade racial em uma conversa para todo o mundo. Hoje o movimento negro tem feito um esforço hercúleo para entrar em mentes e corações, e eu acho que a gente consegue sonhar quando a gente alcança esse espaço, nessa perspectiva do quanto é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mais equânime e mais inclusiva, conseguir entender as diferanças e, a partir delas, dar um passo para o nosso próximo momento como sociedade.” 

Selma aproveitou para frisar a importância de se trabalhar com investimentos focados na promoção da equidade racial no país: “A gente vive um momento, em todo o mundo e,  principalmente no Brasil, onde negar a existência do racismo, fazendo um discurso só com uma perspectiva de classe, não é mais suficiente, em função de todos os movimentos realizados, promovidos historicamente pelo movimento negro. A gente chegou em um momento que não se permite mais negar a necessidade de investimentos focados. As organizações como o Fundo Baobá, que fazem parte da Rede de Fundos para Justiça Social, tem promovido esse diálogo, na perspectiva de repensar os seus investimentos, mas também de pensar os seus times; trabalhar na perspectiva de inclusão; trabalhar as relações raciais, tanto no escopo programático, da forma como se investe e qual o diálogo é feito com o campo, mas também em um olhar interno. Eu diria que esse discurso, ele tem aberto espaço para dialogar com as empresas onde ainda há resistência e uma certa timidez”.   

Confira a aula completa aqui

Selma Moreira, também participou no dia 17 do evento internacional “Moving Forward: Rebuilding a More Just and Equitable Educational Future” (Seguindo em frente: reconstruindo um futuro educacional mais justo e equitativo), organizado pela WISE, que é uma plataforma internacional multissetorial para pensamento criativo, debate e ação proposital, promovendo a inovação e construindo o futuro da educação por meio da colaboração. Selma contextualizou o cenário educacional em nosso país, enfatizando as desigualdades raciais existentes no processo, apresentando dados alarmantes: “Um rápido olhar sobre a questão do racismo no Brasil e seu impacto na educação de jovens negros apresenta números que chocam, pois os negros correspondem a 56% da população brasileira, mas quase 10 a cada 100 negros com idade acima de 15 anos não sabem ler e escrever. A taxa de analfabetismo é 3 vezes maior em negros que em brancos. 76% dos jovens brancos entre 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio, entre negros, este número cai para 62%. 55,8% de brancos concluem o ciclo básico de educação, entre negros o número cai para 40,3%”. Selma também usou o espaço para falar sobre a atuação do Fundo Baobá na promoção da equidade racial no país: “Junto com Desenvolvimento Econômico, Viver com Dignidade, Comunicação e Memória, Educação é um dos eixos que definimos para a atuação do Baobá – que atualmente é o único fundo brasileiro que se dedica, exclusivamente, à promoção da equidade racial para a população negra. Tanto que este ano, mesmo em meio à pandemia do coronavírus, o Fundo Baobá lançou um edital, em parceria com a Fundação Citibank, para preparar jovens da periferia de São Paulo, a maior cidade do país, a alcançar o ensino superior”. O Programa Já É – Educação para Equidade Racial, citado por Selma, inclui o custeio dos estudos em cursinho preparatório para o vestibular e as despesas com transporte e alimentação ao longo do programa, que deve ter duração de 12 meses, além de atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, incluindo programa de mentoria.

Confira abaixo

No dia 25 de novembro, o presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, mediou uma importante discussão: Onde estão os negros no Serviço Público. Segundo dados do IPEA (Instituto Nacional de Pesquisa Econômica Aplicada),  divulgados este ano, o número de funcionários públicos no Brasil é de 11,4 milhões nas esferas federal, estadual e municipal. 

Embora o governo não torne público dados do número de funcionários por recorte de cor ou raça,  estima-se que apenas 35% dos postos do serviço federal são ocupados por negros. A Prefeitura de São Paulo é a única no País a ter um recorte por raça e cor dos seus funcionários: 28,6% deles, ativos da Prefeitura de São Paulo são negros. E eles têm participação maior nos quadros de nível básico, em que representam 48%. 

Foi para discutir caminhos para um maior acesso dessa população que o Instituto República chamou, Matilde Ribeiro, ex-ministra da Seppir (Secretaria de Políticas para Promoção da Igualdade Racial), Eloi Araujo, ex-ministro da Seppir (Secretaria de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial) e Paulo Paim, atual senador da República pelo estado do Rio Grande do Sul. 

Giovanni Harvey que também já atuou em diferentes instâncias de governo, iniciou o debate com uma indagação sobre como é possível contribuir para uma diversidade de pessoas no serviço público. 

Para Matilde Ribeiro “a gestão, no sentido do desenvolvimento, tem que ser democrática, participativa, visando o bem comum. Pessoas em diferentes posições no jogo, mas o jogo deve ser jogado por todos. Já as ações afirmativas, como forma de construção de Justiça diante de situações de desigualdade, passa pela  ação por construção de diversidade, construção de inclusão, construção democrática de participação e construção do desenvolvimento igualitário. As duas coisas, portanto, têm total conexão”, afirmou.  

O senador Paulo Paim, corroborando com o pensamento de Matilde Ribeiro, enalteceu em sua fala as importantes contribuições que as várias vertentes do movimento negro deram para a construção de políticas inclusivas dentro do funcionalismo público e em outros segmentos do trabalho. “A criação do Estatuto da Igualdade Racial é uma das grandes vitórias do movimento negro brasileiro. Foi por intermédio dele que, em 2014, foi estabelecida a Lei de Cotas no Serviço Federal, a Lei 12.990/14. Um benefício para muitos que estavam à margem desse processo de sequer poder aspirar a um cargo na esfera pública federal”, afirmou. 

Embora exista uma Lei de Cotas, para o ex-ministro Eloi Araujo isso ainda não é o suficiente. A reivindicação tem que ser maior. “Quero pensar sobre como somos minoria na administração pública. Os números divulgados pelo IPEA dão conta da minoria absurda que é a comunidade negra na administração pública. Na diplomacia não somos 6% de negras e negros. Entre embaixadores não contamos 10 negros. e negras. Na auditoria da Receita Federal,  não chegamos a 15% de negros e negras”, disse. 

Para Araujo, é preciso maior avanço na presença negra no serviço público de uma forma geral. Para isso, ele pede uma mobilização. “Temos que avançar em algumas políticas públicas. Criar protocolos rigorosos no sentido de proteger a saúde, proteger a vida de negros e negras que são ofendidos nas favelas. Que são ofendidos pelo Estado brasileiro. Criar protocolos rigorosos  para avançar nas políticas de ação afirmativas, notadamente nas políticas de cotas. Essa é a forma mais intensa de avançar com a perspectiva educacional, uma perspectiva de ingressar a juventude negra na universidade. Agora que o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) ganhou esse conceito constitucional, temos que estimular a juventude negra a ir para as universidades e prestar concursos públicos para todos os cargos da administração pública superior”, afirmou.

Acompanhe a live completa abaixo

No mesmo dia, a diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, foi uma das convidadas da live “Um olhar para a mídia negra no ‘novo normal’: Potencialidades e desafios”, organizada pela Revista Afirmativa, em parceria com o Lab Afirmativa de Jornalismo, que marcou o lançamento do Ebook “Narrativas Afirmativas em Tempos de Pandemia”. O evento mediado pela jornalista Alane Reis contou também com Thales Vieira (Instituto Ibirapitanga), Lígia Batista (Open Society Foundation), Atila Roque (Fundação Ford), Rosana Fernandes (Cese), Taciana Gouveia (Fase), além da estudante de jornalismo, Andressa Franco, e da jornalista recém formada, Brenda Gomes, ambas contribuíram na produção do Ebook.

As estudantes de jornalismo, Andressa Franco e Luana Gama, escreveram a matéria “Emprego, renda e Covid-19: O impacto da pandemia na vida dos trabalhadores negros”, que narrou histórias de pessoas como o jovem Matheus Cardoso, que mora no bairro de Pernambués em Salvador (BA), e durante a pandemia passou a trabalhar como entregador de comidas por aplicativo, após ser dispensado do estágio em uma academia. Assim como também nos apresentou a vida de Darcilene de Jesus, moradora do bairro Engomadeira em Salvador (BA), que trabalha como diarista. Antes da pandemia, ela fazia faxina três vezes por semana na casa de uma senhora que morava com a filha. Após as medidas de isolamento social foi dispensada pela patroa, que faz parte do grupo de risco. Sem carteira assinada, sem benefício algum e com um filho de três anos, Darcilene passou a receber o auxílio emergencial.

Para Andressa Franco, escrever essa matéria e acompanhar esses relatos “foi muito mais do que contar histórias, foi a oportunidade de ter empatia com todas elas. Nós conseguimos construir novas perspectivas para o futuro”.

Brenda Gomes, por sua vez, ao lado da estudante de jornalismo, Thaís Vieira, assinou a matéria “Mirtes Souza e Danúbia Silva: Mães entre a saudade e a revolta”. O texto conta a história de “Duas maternidades que foram interrompidas durante a pandemia”, alerta Brenda. A história de Mirtes ficou conhecida no Brasil todo. A empregada doméstica de Pernambuco, que saiu para levar os cachorros dos patrões para passear e deixou o filho, Miguel, no apartamento junto com a patroa e primeira-dama da cidade de Tamandaré (PE), Sari Corte Real. A criança saiu do apartamento de Sari, no 5º andar, para procurar a mãe e foi até os elevadores do condomínio. A patroa acionou a tecla do elevador que dá acesso à cobertura. Miguel parou no 9º andar, escalou um vão e alcançou uma unidade condensadora de ar, se desequilibrou e caiu do prédio.

Brenda Gomes também contou a história da baiana Danúbia Santos,  que perdeu o seu filho Marcus Vinícius, de 21 anos. Ele saiu de casa para comprar bolo para celebrar o aniversário de 1 mês do seu filho e foi atingido por tiros e chutes na costela, durante uma operação da polícia militar.

Mediando o bate-papo, Alane Reis ressaltou que histórias como as de Danúbia, Mirtes, Darcilene, Matheus e muitas outras registradas no Ebook só foram contadas porque a mídia negra cumpre essa função de contar a sua própria história: “Somos nós falando de nós para todo o mundo”. Alane ainda citou que há 65 mídias negras no Brasil e que esse trabalho pode se intensificar ainda mais se houver uma unidade: “Apesar da mídia negra ser tão forte, existe uma necessidade que a gente dialogue mais”.

Lígia Batista, da Open Foundation Society, também ressaltou a importância histórica da atuação das mídias negras em nosso país, principalmente em tempos de pandemia, onde se acentuaram ainda mais as desigualdades: “A mídia negra tem o papel de ressignificar a nossa história, acabando de uma vez por todas com o mito da democracia racial”.

“São as mídias negras que movem a estrutura narrativa, elas são as placas tectônicas narrativas”, diz Thales Vieira do Instituto Ibirapitanga: “Afinal de contas, as histórias estão sendo contadas o tempo todo, mas quem está contando as nossas histórias e como estão contando?” questiona.   

O diretor-executivo da Fundação Ford para Brasil e América Latina, Atila Roque, fez questão de ressaltar a importância da produção do Ebook ter sido feita por 11 jovens negros, além de as equipes de editoração e diagramação também serem negras: “É impossível não olhar para essas carinhas e não ter uma explosão de esperança e um sopro de visão de futuro, Nós precisamos redimensionar as nossas possibilidades de reimaginar o Brasil.”

Fernanda Lopes, ressaltou que o direito à informação é um direito humano e que a mídia negra cumpre o papel de informar e fazer valer esse direito, ao construir novas narrativas: “É importante reiterar esse lugar do jornalismo de escrevivência, que retrata a sociedade brasileira nessas diferentes dinâmicas, sendo a forma de oferecer para a sociedade a oportunidade de mudar paradigmas, desnaturalizar estigmas, construir novas representações sociais e um novo imaginário coletivo sobre a população negra brasileira”. Por fim, a diretora de programa do Fundo Baobá afirmou: “O futuro é a transformação e o novo normal é a mudança”.

Para Taciana Gouveia, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), e grande parceira do Lab Afirmativa de Jornalismo desde 2016, não há nada de novo para as populações mais vulneráveis, no contexto da pandemia do novo coronavírus: “Não há nada de novo na forma como vivem as favelas, as populações vulneráveis e LGBT+, quem é privilegiado, continua sendo privilegiado. Não existe novo normal”.

Rosana Fernandes, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), também traz a sua visão crítica para o chamado “Novo Normal”: “O normal pra gente é isso que a gente vê todos os dias, é isso que está no Ebook, essa tragédia cotidiana, que nós mulheres, homens negros, particularmente, vivenciamos todos os dias, a juventude que é exterminada e a mulher que tem o seu filho morto por uma bala perdida, que na verdade é uma bala acertada”. 

 Leia gratuitamente o Ebook Narrativas Afirmativas em Tempos de Pandemia aqui. E acompanhe a live completa abaixo.

Baobá na imprensa em novembro

O penúltimo mês do ano foi de muitas atividades e participação na mídia para o Fundo Baobá para Equidade Racial, sendo a principal o lançamento do Edital de Recuperação Econômica, que tem como foco fortalecer pequenos negócios liderados por negros, que representam a maioria dos empreendedores no Brasil.

O edital nasce do duplo reconhecimento de que pessoas negras que empreendem sofreram mais com a recessão econômica provocada pela pandemia e de que são eles que podem gerar maior inserção social ao se recuperar e se desenvolver. 

Foi dada ampla divulgação ao edital, com destaque importante para as entrevistas concedidas à Rádio Bandeirantes e ao Portal R7 que, por sua abrangência, conseguem chegar ao público ao qual o edital se destina. Portais negros, como Jornal Empoderado, Mundo Negro e Notícia Preta, também  fizeram reportagens sobre o tema.

Para fechar o mês, uma importante parceria foi estabelecida com a Google, com a doação de  US $400 mil para viabilizar projetos de promoção da justiça racial e combate à violência contra a população negra. Esse valor equivale a algo em torno de R $2,1 milhões.

EDITAL DE RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

11/11 – Mundo Negro

11/11 – Jornal Empoderado 

11/11 – MS Pontocom

19/11 – Notícia Preta

19/11 – Rádio Bandeirantes – Áudio

20/11 – Band

20/11 – Época Negócios

25/11 – R7 

13/11 – Folha de São Paulo 

16/11 – Exame

 

PARCERIA GOOGLE

Imprensa

19/11 – Folha de S. Paulo

20/11 – Canaltech

20/11 – Forbes

20/11 – Yahoo

20/11 – TI Bahia

20/11 – TI Inside

20/11 – Revista Raça  

23/11 – IP News

23/11 – Channel 360º

 

Canais Google

20/11 – Twitter Google Global (In English)

20/11 – Blog do Google Brasil

20/11 – Blog do Google (In English)

25/11 – Twitter Google (Em Português)

 

CASO CARREFOUR: 

24/11 – Folha de São Paulo – Entrevista Giovanni Harvey