Fundo Baobá participa do desfile que homenageou a missão do Geledés

Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”

No último dia 13/02, a Mocidade Unida da Mooca, estreante no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma homenagem à força ancestral das mulheres negras e à missão do Geledés – Instituto da Mulher Negra, por sua missão institucional na luta contra o racismo, o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras.

A convite do Geledés, o Fundo Baobá esteve presente na avenida para celebrar esse momento simbólico. O samba-enredo exaltou a potência das mulheres negras em uma narrativa que uniu ancestralidade, luta e celebração. Com participação e curadoria do Geledés, a escola transformou o desfile em um verdadeiro manifesto cultural.

Integrantes da equipe do Fundo Baobá participaram da homenagem em reconhecimento a essa trajetória. Ao longo de 15 anos, o Fundo Baobá atua no fortalecimento de organizações e lideranças negras, com foco prioritário nas regiões Norte e Nordeste do país, investindo em educação, em vida com dignidade, em desenvolvimento econômico, em comunicação e memória.

Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relatou que ver o homenageado Geledés, todas as mulheres que o construíram e tantas outras que, de alguma forma, contribuíram e participaram da história da instituição, é reconhecer a importância da luta das mulheres negras no Brasil contra o racismo e o sexismo:
“Que bom poder ver essa homenagem acontecendo a essa instituição, que é uma referência para todas nós, e que bom poder ver essas mulheres sendo reconhecidas e lembradas. É uma grande felicidade quando uma escola de samba, que é símbolo de um pilar tão importante da nossa cultura, como o carnaval, é uma ferramenta pedagógica importantíssima para nossa sociedade”, afirmou Tainá.

O desfile reforçou que a trajetória das mulheres negras deve ser contada por elas mesmas, e que o lugar delas é na história, na academia, no samba, na política, na cultura e onde mais decidirem ocupar. 

Para além das alegorias, a agremiação apresentou uma narrativa de inteligência, organização coletiva e resistência histórica.

Maria Paula, assistente de diretoria do Fundo Baobá, confirmou que desfilar em uma escola que homenageou Gueledés foi mais do que atravessar a avenida: foi atravessar a história. Segundo ela, o samba exaltou mulheres negras que abriram caminhos e evidenciou a intelectualidade e a liderança das que hoje seguem construindo novas possibilidades. “Porque o futuro é ancestral”, resumiu.


A construção visual da Mocidade Unida da Mooca integrou ancestralidade e futuro. A comissão de frente destacava a origem da mulher negra como sustentação e transformação para as sociedades. Ao longo da avenida, vieram referências às irmandades, aos quilombos, às tecnologias ancestrais, à organização coletiva e às múltiplas formas de resistência construídas ao longo do tempo.

“Foi uma honra receber o convite para desfilar em uma escola de samba que homenageou o Geledés, esse instituto que eu conheci ainda criança, através de conversa na minha família e foi emocionante voltar a desfilar depois de 15 anos numa escola que ressalta a importância da mulher negra”, contou Juliana Vargem, assistente executiva do Fundo Baobá.

Maria Sylvia, advogada e diretora executiva do Geledés, ressaltou a importância de apresentar a trajetória da instituição à sociedade brasileira, ampliando o reconhecimento das mulheres negras como protagonistas na construção social do país. “Que essa homenagem inspire mais escutas, mais diálogos e mais respeito às nossas trajetórias. Obrigada à Mocidade Unida da Mooca por fazer da arte um instrumento de memória, reconhecimento e continuidade”, afirmou.
O refrão: Quero ver… casa-grande vai tremer, No meu Quilombo é noite de Xirê! A MOOCA FAZ REVOLUÇÃO, É Guèledés: A LIBERTAÇÃO, ecoou nos ensaios e na avenida, transformando o desfile em celebração e afirmação coletiva. O desfile foi um gesto público de memória, reconhecimento e continuidade. Uma noite que reafirmou que o futuro é ancestral — e que a história das mulheres negras segue sendo escrita com coragem, inteligência e organização.

Winsana  N’Tchala: Do Programa Já É para o curso de Medicina

Winsana N’Tchala: do Programa Já É para o curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná

Há histórias que são sobre conquistas e resistência. A de Winsana N’Tchala é sobre as duas coisas, mas também sobre amor, propósito e educação como ferramenta de transformação. Aos 21 anos, essa jovem curitibana realizou o sonho de infância: foi aprovada em Medicina na Universidade Federal do Paraná. E não foi por acaso.

A trajetória de Winsana ganhou reforço importante quando ela conheceu o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A indicação veio da cunhada, Byanka, que acompanhava as ações do Fundo Baobá e enviou o link de inscrição pelo WhatsApp.

O Já É, que está em sua segunda edição, foi criado para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior para pessoas negras de 20 a 25 anos, com ensino médio completo em escola pública. Nesta segunda edição, até 30 jovens receberam bolsa mensal de R$ 700 por 17 meses, além de mentorias coletivas e individuais, acompanhamento psicológico e atividades formativas. Um investimento na permanência e na potência da presença negra na academia, que amplia perspectivas e fortalece a produção de conhecimento.

Para Winsana, o impacto foi concreto.“O Já É agregou muito ao meu conhecimento de mundo, ao meu desenvolvimento pessoal e trouxe uma estabilidade financeira melhor do que eu tinha antes. A bolsa ajudou, e ainda ajuda, a custear gastos com os estudos.”

Mais do que apoio financeiro, o programa oferece algo essencial: pertencimento e orientação. Para muitos jovens negros, entrar e permanecer na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, e contar com uma rede de apoio faz diferença.

O sonho da menina da periferia que  nasceu e cresceu em Curitiba hoje se concretiza com o alicerce da família. A mãe, Claudia Maria Ferreira; o pai, Francisco N’Tchalá, natural de Guiné-Bissau; e os irmãos Watena, Yabna e Abayomi.

A infância simples, marcada por desafios financeiros, mas também por algo fundamental: incentivo. “Meus pais nunca deixaram faltar nada. Sempre me incentivaram a fazer uma graduação e ter orgulho da minha negritude”, conta.

Aos 6 anos, em uma conversa sobre profissões com o pai, nasceu a vontade de estudar Medicina. Quando ele morreu, vítima de insuficiência renal, ela tinha apenas 10 anos. A experiência de cuidar dele reforçou o desejo: queria ser médica. Queria cuidar de pessoas.

Sua formação se deu por completa em escolas públicas, como tantos jovens negros e negras no Brasil que enfrentam as defasagens estruturais da educação básica. Nas últimas décadas, houve avanços importantes no acesso ao ensino superior, mas pessoas negras ainda estão sub-representadas nas universidades. Em cursos altamente concorridos, como Medicina, a desigualdade é ainda mais visível.

“Foram quatro anos de dedicação total aos estudos. Parei de fazer coisas que eu gostava, sofri com matérias que tinha dificuldade. Não foi fácil. Mas valeu a pena”, afirma.

Nesse percurso, ela prestou vestibular para a PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), onde conquistou o segundo lugar. Mesmo assim, a escolha já  estava feita: seguir na UFPR. “Foi a realização de um sonho para mim e para minha família.” E a sensação da aprovação? “Foi como quando uma criança ganha um presente que queria muito”, afirma. 

Segundo o IBGE 2022, embora a presença de pessoas pretas e pardas com ensino superior tenha crescido, a proporção de jovens brancos de 18 a 24 anos com ensino superior completo ainda é mais que o dobro da registrada entre pretos e pardos. Além disso, milhões de jovens brasileiros não concluem sequer o ensino médio. E a maioria é negra.

Esses dados evidenciam que a desigualdade não está na capacidade, mas no acesso às oportunidades e nas condições de permanência.

Quando perguntada sobre o futuro, Winsana responde com simplicidade e firmeza:
“Quero ser uma médica humanizada, que escuta com atenção os pacientes, uma profissional de excelência.” Ela ainda não decidiu a especialidade. Mas já decidiu o principal: fará tudo com dedicação.

Para quem sonha em participar do Programa Já É, ela deixa um conselho direto: “Não vai ser fácil. Mas não desistam. A única forma que tenho certeza que nós, pessoas de baixa renda e negras, temos de ter ascensão social é por meio dos estudos.”

A aprovação de Winsana na UFPR é, sim, uma conquista individual. Mas também é a prova de que quando existe investimento, acompanhamento e confiança na juventude negra, os resultados aparecem. O Fundo Baobá acredita nisso. O Já É aposta nisso.
E Winsana N´Tchala é a prova viva de que já é tempo de ocupar todos os espaços,  inclusive aqueles que, historicamente, sempre foram negados ao povo preto.

Além de Winsana N´Tchala, o Fundo Baobá comemora também o sucesso de outros estudantes apoiados pela segunda edição do Programa Já É: Aryele Costa, Administração na Universidade Federal do Maranhão; Christian Leal, Arquivologia na Universidade Federal da Bahia; Denagnon Gogo, Engenharia na Universidade Federal do Espírito Santo; Gabriele Marques, Medicina na Universidade Federal de Pelotas; Joicilene Cabral, Medicina na Universidade Federal do Pará e Lara Dias, Jornalismo na Universidade Salvador (Unifacs).

15 anos do Fundo Baobá: do primeiro apoio ao próximo capítulo

15 anos do Fundo Baobá: do primeiro apoio ao próximo capítulo

Em 2014, a Cia Um Brasil de Teatro e Artes foi uma das organizações apoiadas na primeira chamada pública do Fundo Baobá. Anos depois, em 2019, lançou o emocionante curta-documentário Nossa Família. Agora, prepara um novo capítulo: o longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas da história.

Essa trajetória, que atravessa mais de uma década, mostra como investimento, confiança e memória caminham juntos. Ao completar 15 anos, o Fundo Baobá celebra justamente isso: não apenas os projetos apoiados no passado, mas as histórias que seguem vivas, se transformando e criando novos futuros.

Em 2014, quando o Fundo Baobá lançou sua primeira chamada para apoiar organizações negras, a Cia Um foi uma das selecionadas. Na direção do projeto estava Max Mu, ator, dramaturgo, diretor, cineasta e produtor cultural, que há mais de 20 anos pesquisa e transforma em arte histórias de um Brasil invisibilizado. Foram essas histórias que ganharam espaço no documentário Nossa Família.

O curta, lançado na Festa Literária Internacional de Paraty em 2019, segue disponível ao público, emocionando quem o assiste. A narrativa acompanha o cotidiano de duas catadoras de materiais recicláveis que adotaram, respectivamente, 25 e 45 filhos. Isso mesmo! Uma filosofia de vida baseada no cuidado, na partilha e no amor. Um retrato sensível de mulheres que transformaram a própria realidade e a de dezenas de crianças com coragem e afeto.

A produção atravessou mudanças e desafios ao longo do caminho. Em meio a esse processo, Max assumiu integralmente a condução da obra e levou o projeto até o fim. O apoio do Fundo Baobá foi decisivo. Mais do que financeiro, foi um gesto de confiança que ajudou a tirar o roteiro do papel e registrar uma memória viva da cultura brasileira.

É justamente esse movimento que o Fundo Baobá deseja mostrar ao celebrar seus 15 anos.

Hoje a história segue sendo contada. A Cia Um Brasil está produzindo um longa-metragem sobre Dona Tereza, uma das protagonistas do curta, agora com 85 anos. Para viabilizar o filme, a companhia lançou uma campanha de captação direta chamada “Ciclo Positivo”, uma proposta que busca mobilizar apoiadores individuais para tornar o filme possível e apoio que retorna em forma de gratidão.

Diante de um cenário em que mecanismos de financiamento seguem modelos baseados em referências externas à realidade brasileira, o Fundo Baobá escolhe apoiar a partir da memória, das práticas comunitárias e das estratégias históricas da população negra. 

Como afirma Max Mu, “é sobre reconhecer quem nos enxergou quando quase ninguém nos via. É sobre fortalecer a missão de fazer ‘Um Brasil’ cada vez mais visto.” 

Celebrar 15 anos é também olhar para trás e perguntar: onde estão hoje aqueles que apoiamos? A resposta está em histórias como esta — que continuam crescendo.

Conheça o projeto, assista a Nossa Família e acompanhe os próximos capítulos dessa trajetória. Registrar memórias é investir no futuro.

Ciência negra sem fronteiras: caminhos e dicas para uma carreira global em STEM

dicas para uma carreira global em STEM

As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) estão no centro das grandes transformações do mundo contemporâneo. É nesses campos que surgem soluções para a saúde, o meio ambiente, a mobilidade e até mesmo para os desafios sociais que vivemos diariamente. No entanto, quando pensamos em quem tem ocupado esses espaços, é impossível ignorar a baixa presença de pessoas negras. Embora a população negra sempre tenha contribuído para a ciência, essa participação histórica e atual frequentemente é invisibilizada nos círculos acadêmicos. Para universitários negros em STEM, o desafio é duplo: superar as barreiras de acesso ao ensino superior e, uma vez dentro, garantir que suas perspectivas sejam valorizadas.

A potência da formação internacional em STEM

Quando estudantes negros brasileiros chegam a universidades internacionais, eles não levam apenas suas mochilas, mas também suas histórias, seus territórios e suas referências culturais. Essa presença muda não só a trajetória individual, mas também a forma como a ciência é produzida globalmente, enquanto se redobram os desafios, sejam eles linguísticos, culturais ou financeiros. Para estudantes negros, ocupar esses espaços é também um ato de reafirmar que a produção científica negra existe, é potente e precisa ser valorizada.

A brasileira Luana Marques Ferreira, de 29 anos, atualmente estudante de doutorado em Ciência de Polímeros e Engenharia, na Universidade de Massachusetts Amherst, Cidade de Amherst, Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos da América (EUA), relatou que mesmo durante toda a graduação no Brasil, na área de STEM, precisou se desdobrar em várias atividades para custear a sua permanência na universidade, além de contribuir com as despesas de casa, e que:

Crédito: Acervo pessoal (2025). Legenda: Imagem de Luana Marques no campus da Universidade de Massachusetts Amherst 
 

“Por isso, quando surgiu a oportunidade de vir para os Estados Unidos, mesmo com a bolsa da universidade, eu tinha receio dos novos desafios que enfrentaria, especialmente o elevado custo de vida do estado que moro e a incerteza financeira até o recebimento da primeira bolsa”, relatou a estudante.

É verdade que o caminho da formação internacional apresenta desafios únicos, desde a adaptação cultural até o enfrentamento de microagressões. Mas cada obstáculo superado fortalece a convicção de que você pertence a esse espaço e de que sua perspectiva no ensino superior é fundamental. O mais importante é saber que, para cada barreira, existe uma rede de apoio e uma solução possível.

Por onde começar sua jornada internacional no STEM 

É hora de sair do sonho e entrar na estratégia! Sabemos que fazer uma graduação exige um planejamento minucioso. Por isso, preparamos um guia com os primeiros passos práticos e estratégicos para você começar a construir sua jornada internacional agora:

•   Defina opções de cursos ou áreas: Engenharia, por exemplo, é um campo amplo, com formações que se conectam entre si, como Materiais, Química, Ambiental ou Biomédica. Ter mais de uma opção não reduz seu caminho, apenas aumenta as possibilidades de encontrar um programa que combine com seus interesses e objetivos acadêmicos. Importante lembrar que o mesmo acontece para a área de saúde ou humanidades, crie uma lista de cursos prioritários.

•   ENEM: Identificar países que aceitam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como forma de ingresso direto em universidades estrangeiras pode ser um diferencial, porque o exame que já conhecemos no Brasil também abre portas no exterior. Portugal, por exemplo, possui acordos com diversas instituições que recebem a nota do ENEM no processo seletivo. Além disso, outros países na América Latina e até na Europa já vêm reconhecendo o exame como critério de admissão. Confira aqui a indicação dos países que aceitaram o ENEM em 2025.

•   Busque Bolsas Específicas: Concentre-se em editais que valorizam a diversidade, como o Black STEM, mas também em fundações e programas das próprias universidades que focam na permanência estudantil.

•   Invista no Idioma e na Rede: A proficiência em idiomas é essencial. Construa sua rede de apoio com professores, colegas, organizações negras e comunidades acadêmicas. Use o LinkedIn para encontrar egressos do seu curso ou universidade de interesse.

•   Experiências Extracurriculares: Um ponto que pode ser a grande diferença da sua candidatura são as experiências fora da sala de aula. Participar de projetos voluntários, grêmios estudantis, associações culturais, esportes, música ou feiras acadêmicas demonstra disciplina, liderança e capacidade de impacto. Até mesmo o bom desempenho em esportes ou artes conta, mostrando comprometimento e trabalho em equipe. Essas experiências revelam quem você é além das notas, e fortalecem suas chances de ingresso e adaptação na universidade. E essa dica vale para a maioria dos cursos.

Rede de Apoio: A Força da Permanência

Em muitas das situações, o mais difícil não é ser aceito para uma graduação em um outro país, mas sim permanecer. Um dos diferenciais do Black STEM é oferecer não apenas o apoio financeiro, mas também suporte acadêmico, psicológico e uma rede de contatos que acompanha cada bolsista ao longo da jornada. Essa rede é fundamental para garantir que os estudantes consolidem sua trajetória nas universidades. Luana Marques também destaca que: 

“Na área de STEM, os custos com workshops, viagens e eventos científicos muitas vezes tornam o ambiente inacessível para quem vem de contextos menos privilegiados. Programas como esse não apenas viabilizam a permanência de estudantes em ambientes internacionais, mas também ampliam a diversidade e o impacto das nossas vozes na ciência”, relatou a brasileira.

Estudar fora do país envolve desafios que vão além das aulas. Moradia, alimentação, materiais acadêmicos e transporte exigem organização financeira, ao mesmo tempo em que o estudante precisa lidar com a distância da família, o choque cultural e o idioma. Para quem está entrando no ensino superior agora, essa transição já é grande. Para jovens negros em países onde o racismo segue permeando algumas relações, tudo se torna ainda mais delicado. Por isso, o apoio à permanência é tão importante quanto o acesso: é o que garante que esses estudantes possam não só chegar, mas permanecer e crescer nesses novos espaços.

Conheça mais sobre o trabalho, as experiências e as conquistas de Luana Marques através dos seus perfis no Linkedln e no Instagram. Lembre-se de que o objetivo final vai além da obtenção de um diploma internacional. É sobre fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovação e o surgimento de uma nova geração de líderes em STEM. 

Não espere chegar à universidade para dar o primeiro passo. Desde o Ensino Médio, suas escolhas já podem abrir portas para o exterior. Quem sabe se o próximo capítulo da ciência pode ser escrito por você?

Fundo Baobá anuncia as selecionadas da segunda edição do Programa Marielle Franco – Edital de Apoio Individual

É com alegria que o Fundo Baobá anuncia os nomes das selecionadas na segunda edição do edital de apoio individual do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ao todo, são 30 mulheres negras de todas as regiões do país, cis, trans ou travestis, maiores de 18 anos, residentes em diferentes estados e do Distrito Federal, que passarão a integrar o programa. O apoio inclui bolsas mensais de R$3.500,00 por 18 meses, além de mentorias individuais e coletivas voltadas ao fortalecimento e à aceleração de trajetórias de liderança já em curso, com foco no fortalecimento de competências técnicas, socioemocionais e à ampliação de incidência em espaços de decisão.

O Programa Marielle Franco é uma oportunidade de ampliar a capacidade de atuação, incidência e ocupação de espaços de tomada de decisão por mulheres negras, contribuindo para o enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial e de gênero.

A segunda edição do edital de apoio individual evidenciou a dimensão e complexidade desse desafio. Ao todo, foram recebidas 3793 candidaturas de todas as regiões do país. Desse total, após análise, 2188 candidaturas foram consideradas válidas, por atenderem integralmente a todos os pré-requisitos do edital. Cada uma dessas candidaturas foi efetivamente lida e avaliada segundo critérios estabelecidos no edital, em um processo que envolveu múltiplas etapas.

Após a etapa de análise técnica, conduzida por consultoria externa especializada, foram elaborados pareceres individuais para as mais de 2000 candidaturas válidas, consolidando a avaliação realizada com base nos critérios do processo seletivo.

O volume e a profundidade dessa etapa evidenciam a complexidade do edital e o nível de estrutura necessário para conduzir uma seleção dessa dimensão, em um cenário marcado por alta demanda e poucas oportunidades de apoio similares. Ainda sim, todas as candidatas aprovadas ou não receberão devolutiva sobre sua participação no processo.

O processo seletivo incluiu uma etapa de entrevistas individuais, que envolveu 24 avaliadoras convidadas, mulheres negras que são referências atuando no setor público, setor privado, na academia e no terceiro setor, em organizações nacionais e internacionais, distribuídas em nove painéis de avaliação. Os painéis dividiram-se para realizar as entrevistas com as 42 candidatas presentes nesta etapa, e entrevistou de quatro a cinco candidatas, produzindo um novo parecer técnico correspondente a essa etapa.

“Foi uma alegria enorme participar como avaliadora do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Todas as mulheres, em sua diversidade, que chegaram nesta fase da seleção, apresentaram trajetórias de resiliência e de impacto presente e condições reais de transformação futura pelo fim do racismo e o bem-viver para todas as pessoas. O programa é um sucesso e deveria ser escalado, para alcançar e impulsionar ainda mais mulheres negras”, afirma Rachel Quintiliano, jornalista, escritora e fundadora da Quintiliano: Planejamento e Comunicação.

Amalia Fischer e Sueli Carneiro na etapa final de seleção

A etapa final contou com a composição de um Comitê de Seleção liderado por Sueli Carneiro e Amália Fischer, respectivamente Presidente e Vice-Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá. A divulgação das selecionadas marca o encerramento de um processo seletivo complexo e multifacetado, marcado pela qualidade e diversidade das candidaturas analisadas e a articulação de diferentes olhares avaliativos ao longo de todas as etapas.

Para Sueli Carneiro, o Programa Marielle Franco é surpreendente a cada edição, pois “é uma agradável surpresa presenciar candidaturas tão ousadas, altivas e super qualificadas, afirmando que é um florescimento desse segmento social vencendo barreiras e disputando lugares estratégicos da sociedade”, ressalta. “Quando temos a oportunidade de lançamento de um edital como esse, podemos constatar como as mulheres negras estão se desenvolvendo de maneira extraordinária, desafiando um conjunto de ideologias que amarram, que interditam a presença das mulheres negras em determinados espaços”, afirma.

A metodologia do Programa Mariele Franco e dos demais editais do Fundo Baobá, é fruto dos 15 anos de atuação do fundo na implementação de editais voltados à promoção da equidade racial, com processos que vêm sendo aprimorados a cada edição a partir da experiência acumulada e da escuta contínua de lideranças, organizações e especialistas do campo da equidade racial.

“Celebramos as admiráveis trajetórias de mulheres negras, cis, trans e travestis, que constroem trajetórias pessoais, acadêmicas e profissionais comprometidas com a equidade de gênero e raça. As 30 mulheres selecionadas representam um retrato importante das mulheres negras brasileiras, abrangendo diferentes territórios, faixas etárias, áreas de atuação mas principalmente refletindo toda a sua densidade, força e brilhantismo”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.

Grande parte do grupo das mulheres selecionadas é composto por mulheres entre 35 e 59 anos, com trajetórias de liderança em curso. A seleção inclui ainda mulheres pertencentes a grupos sub-representados, como quilombolas, ribeirinhas, de povos e comunidades tradicionais, mulheres trans e travestis, mulheres com deficiência e LBTQIA+, refletindo a diversidade de experiências, territórios e identidades que marcam esta edição.

A alta qualificação das candidaturas e o grande volume de inscrições evidenciam a escassez de iniciativas de apoio a lideranças negras no país, especialmente femininas. Há trajetórias qualificadas e projetos sólidos, mas poucas oportunidades capazes de responder a essa demanda. O Programa Marielle Franco se insere nesse cenário como uma resposta concreta, ao acelerar o desenvolvimento de lideranças em áreas como Direitos, Justiça e Cidadania, Saúde, Finanças, Meio Ambiente, Tecnologia e Engenharias, entre outras.

Para Amália Fischer, o edital revela a potência das mulheres negras em diferentes contextos do país. “Frente a um mundo totalmente patriarcal em que a palavra de mulheres negras não vale nada, a gente observa através deste edital que o que elas se dedicam elas cumprem com lealdade e honestidade”, afirma. Ela destaca ainda a importância de ampliar o investimento filantrópico em iniciativas como o Programa Marielle Franco, diante do papel estratégico que essas lideranças exercem na defesa da democracia e da justiça social.

Desde a fundação, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1209 iniciativas e ações ao longo dessa jornada. Já são mais de 1 milhão e 350 mil beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. O Programa Marielle Franco é um dos pilares dessa atuação, e a cada edição, reafirmamos nosso compromisso com o legado de Marielle e com a construção de um futuro onde todas as vozes sejam ouvidas e valorizadas.

Fundo Baobá celebra 15 anos de atuação voltada à equidade racial no Brasil

Em 2026, o Fundo Baobá celebra 15 anos de uma trajetória construída a partir do diálogo, da escuta e da ação coletiva junto a movimentos sociais e lideranças negras em todo o Brasil. Desde o início, sua atuação incide sobre pilares estratégicos para a promoção da equidade racial no Brasil, somando 15 anos de trabalho contínuo para transformar vidas e histórias.

Celebrar esse aniversário não é só uma oportunidade de reconhecer conquistas, mas de valorizar uma trajetória em permanente construção e aprimoramento. A partir dos aprendizados acumulados, das relações e dos desafios vividos, o Fundo Baobá inicia um novo ciclo que aprofunda o modo de atuar, fortalecendo parcerias e inovando para ampliar o impacto de suas ações.

Neste início de 2026, o Baobá – Fundo para Equidade Racial convida você a conhecer o que vem por aí no decorrer do ano nas palavras das lideranças da organização, que antecipam algumas decisões da equipe executiva, prioridades programáticas, estratégias de articulação social, caminhos da mobilização de recursos, avanços em comunicação e aprimoramentos na área de operações.

Com a palavra, Giovanni Harvey, Diretor Executivo: “Os 15 anos não são apenas uma celebração, mas também um momento de preparação para um novo ciclo estratégico. O período recente representou um ponto de virada para o Fundo Baobá, impulsionado pela doação de US$ 5 milhões da Mackenzie Scott”, afirma. Esse aporte marcou a emancipação financeira do Fundo e garantiu autonomia para realização da primeira doação estratégica. Foi possível destinar inicialmente R$500 mil à Sociedade Protetora dos Desvalidos e, posteriormente, R$ 1.25  milhão, para a Marcha das Mulheres Negras 2025. Ele destaca ainda que a atuação da organização está fincada em um plano estratégico e que esse planejamento está no final de um ciclo de 10 anos, que marca a conclusão de propostas estruturantes previstas, e o início de uma nova fase. 

Giovanni nos conta que ao longo do ano será lançada a nova marca da organização, que expressa esse novo momento institucional e que dialoga com maturidade, autonomia e o impacto construídos ao longo desses 15 anos. Serão realizadas diversas ações com parceiros estratégicos, fazendo dos 15 anos um espaço de diálogo. “A proposta é ampliar a conversa com diferentes segmentos da sociedade que são aliados da equidade racial e que, como o Baobá, atuam na defesa da democracia em um contexto marcado por intensas polarizações”, afirma o diretor.


Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá, relata que o Fundo Baobá espera retomar ações de apoio que já tiveram destaque em alguns dos editais, como o fortalecimento institucional de organizações, grupos e coletivos de mulheres negras, além de iniciativas de apoio à ampliação do potencial de empregabilidade de pessoas negras. Outra prioridade é continuar estruturando e fortalecendo o primeiro programa próprio e perene de bolsas complementares para estudantes de STEM que irão cursar a graduação completa em instituições internacionais.

“Não apenas a área programática mas a instituição Fundo Baobá desafia o campo filantrópico a ir além do tradicional e colocar a causa da equidade racial no centro de sua atuação. Esperamos que essa centralidade possa influenciar cada vez mais o setor, sensibilizando sobre a importância de destinar recursos diretos e contínuos a grupos, coletivos, organizações, movimentos e lideranças negras, e de assumir publicamente esse compromisso”, afirmou. Esse apoio é fundamental porque reconhece o conhecimento, a capacidade de ação e a liderança da população negra na construção de soluções para os problemas que a afetam diretamente.


Tainá ressalta ainda que uma das principais lições destes 15 anos é sobre a importância do acompanhamento contínuo, que constitui uma ação essencial do trabalho desenvolvido. É o acompanhamento e a escuta que proporcionam aprendizados e fortalecem uma relação de confiança com o campo. Da mesma forma, os investimentos indiretos (formações, mentorias e assessorias) têm mostrado que, além de complementar as doações financeiras, contribuem para o fortalecimento e a autonomia das organizações e pessoas apoiadas. Segundo ela, assegurar um processo sistemático de avaliação para cada iniciativa implementada é importante para garantir a análise e o aprimoramento, sempre com a incorporação de novas respostas baseadas nas lições aprendidas. “Investir nessas ações nos permite oferecer respostas cada vez mais coerentes e alinhadas, tanto aos objetivos institucionais quanto às necessidades apresentadas pelo campo”, afirma.

Para Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, o ano de 2026 permitirá avançar na qualificação do diálogo com atores fundamentais  (movimentos sociais, filantropia, academia, esfera pública, entre outros), ampliando alianças e contribuindo para que o Fundo Baobá atue de forma cada vez mais conectada, coerente e intencional no enfrentamento ao racismo e na promoção da equidade racial.

“O principal desafio é aprimorar uma área que já está  em processo de amadurecimento, adaptando  processos, metodologias e formas de atuação para melhor dialogar com a complexidade dos contextos sociais e políticos nos quais o Fundo Baobá está inserido”, afirma Caroline. Para ela, o desafio é ampliar a escuta qualificada do campo nas diversas regiões do país para reunir informações que contribuam para a tomada de decisões cada vez mais consistentes e alinhadas ao propósito do Fundo Baobá, levando sempre em consideração o fortalecimento de redes e o reconhecimento do papel dos movimentos como sujeitos centrais na produção de conhecimento e transformação social.

Janaina Barbosa, Gerente de Comunicação e Mobilização de Recursos, explica que a comunicação terá um papel-chave nos 15 anos do Fundo Baobá. “Queremos contar um pouco da nossa história, do nosso legado, das mais de 1200 iniciativas negras apoiadas até o momento”. Com relação aos caminhos a seguir em 2026, a gerente de comunicação deseja que as relações já estabelecidas com veículos e jornalistas da mídia negra e independentes continuem sendo uma das prioridades da organização, tendo como objetivo uma comunicação direta com a comunidade negra sobre o posicionamento e propósito do Fundo Baobá.

Na gestão de Operações, Hebe da Silva, que atua na gerência da área, afirma que para garantir a sustentabilidade do Fundo em 2026 é preciso uma gestão participativa com todas as pessoas da equipe. Ela diz que a transparência é um valor institucional, registrado no Estatuto do Fundo Baobá. “Dialogar diariamente com a equipe sobre os nossos números e o alcance que temos na sociedade é uma ferramenta para alavancar as doações recebidas e gerir nossos recursos financeiros de maneira sustentável, olhando sempre para a nossa perenidade”, afirma.

O que se projeta para o futuro é a continuidade de uma atuação comprometida com impacto real, aliada à inovação e à responsabilidade histórica. Em permanente movimento desde a sua fundação, o Fundo Baobá é um mecanismo  que constrói seu legado diariamente ao criar condições para que esse horizonte se realize, seguindo na construção concreta da equidade racial como base para um país justo e democrático.

Fundo Baobá fecha 2025 com saldo positivo  de ações pela equidade racial

Em 2025, o Fundo Baobá seguiu fortalecendo a luta por equidade racial no Brasil, ampliando o alcance de seus programas, apoiando uma agenda pública em prol da justiça social e acompanhando de perto as trajetórias de pessoas e organizações negras em diferentes territórios, que movimentam a luta por um país mais justo.  Em cada ação, foi possível constatar que a filantropia pode ser, antes de tudo, um compromisso com a vida, com a dignidade e com a construção de futuros onde ninguém fica para trás.

Entre as raízes antigas ao longo do ano, está a Marcha das Mulheres Negras, que reeditou um momento histórico de dez anos atrás, quando mulheres foram à rua em Brasília para reafirmar um projeto de sociedade mais democrático, inclusivo e comprometido com o bem viver de todas as pessoas.. A marcha de 25 de novembro na capital do país, foi o ápice de um amplo e delicado trabalho realizado ao longo do ano, inserindo representações dos 27 estados brasileiros em uma construção coletiva, democrática e potente. Esse movimento foi apoiado pelo Fundo Baobá, que destinou R$ 1,25 milhão para sua realização, e pela presença de toda sua equipe que, ao lado de milhares de mulheres, caminhou junto, participando, aprendendo e colaborando com a transformação que queremos.

O Fundo Baobá também levou cinco jornalistas da imprensa negra e independente – uma de cada região do país – para uma cobertura in loco que contribuísse com uma visibilidade mais completa e aprofundada da marcha, produzida pelo olhar de quem vive e movimenta essa luta de acordo com as realidades locais. As convidadas foram: Luciana Santos, representando a região norte, da Revista Cenarium; Camila Rodrigues, da região sudeste, do Alma Preta;  Alane Reis, representando o nordeste, pela Revista Afirmativa; Kelly Ribeiro, representando o Portal Catarinas, da região sul; e Mari Magalhães, representando o centro-oeste. 

A força das mulheres negras que atuam em seus territórios, liderando soluções e impulsionando mudanças foi apoiada pelo Fundo Baobá com o lançamento da 2ª edição do Programa Marielle Franco. A oportunidade visa contemplar 30 mulheres negras de todo país para desenvolver suas habilidades pessoais e aperfeiçoar suas competências de liderança em suas comunidades ou nos segmentos em que atuam. O objetivo é fortalecer lideranças femininas que desejam ampliar sua capacidade de atuação e transformação social.

No campo da educação, Programas já conhecidos ganharam novos capítulos. É o caso do Edital Black STEM, que teve uma segunda edição em 2025. STEM é a sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Mesmo sendo áreas promissoras, a presença de estudantes negros ainda é baixa – especialmente no exterior, onde ficam as instituições de ensino de ponta desses segmentos. Assim como na primeira edição, os estudantes selecionados pelo Black STEM receberam bolsas de estudos para apoiá-los na permanência durante todo o curso. Os selecionados foram: Enio Ferreira Barbosa (Engenharia Eletrônica, Imperial College London), Gabriel Hemetrio de Menezes (Engenharia Elétrica e Eletrônica, Universidade de Glasgow), Gabriela Torreão Marques Ferreira (Engenharia Biomédica, University of Southampton) e Maria Luiza Storck Ferreira Neurociência Cognitiva, University of Amsterdam). 

Gabriela Torreão, Gabriel Hemetrio, Maria Luiza Stock e Enio Ferreira

O Programa Já É também teve uma segunda edição, para apoiar o acesso de 30 estudantes negros ao ensino superior, ampliando oportunidades de trabalho e desenvolvimento pessoal. Na primeira edição, o programa acompanhou estudantes que se tornaram os primeiros de suas famílias a disputar vagas em universidades de referência ou que descobriram novos caminhos profissionais, histórias que mostram como o Já É amplia projetos de vida e abre possibilidades concretas de futuro. Com formação educacional em cursos preparatórios para vestibulares, o programa oferece uma rede de apoio completa para garantir que os estudantes possam focar apenas nos estudos. Na edição 2025, foram selecionados 30 estudantes. 

Tanto o Black STEM como o Já É são iniciativas que têm um objetivo de longo prazo: ampliar horizontes, transformar futuros e criar condições reais para que esses jovens ocupem espaços estratégicos — na ciência, no mercado, na tecnologia e em outros setores onde novas lideranças podem redefinir caminhos e enfrentar desigualdades estruturais.

30 jovens aprovados para a 2ª edição do Programa Já É

Novos conselheiros se juntam à governança

A governança do Fundo Baobá se fortaleceu em 2025 com a chegada de três nomes comprometidos com a agenda da equidade racial: Nelson Narciso, Gabriela Mendes Chaves e Michael França. Cada um deles traz vivências e perspectivas que enriquecem o Conselho — e reafirmam o compromisso voluntário com a causa.

Com mais de quatro décadas dedicadas ao setor de energia, Nelson Narciso passou a integrar o Conselho Deliberativo do Fundo. Engenheiro mecânico com carreira nacional e internacional, atuou em grandes empresas e foi diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), onde contribuiu para políticas públicas de impacto duradouro nesse setor. Sua experiência técnica, aliada a uma visão estratégica e ao compromisso com a equidade racial — tema que acompanha sua vida desde a juventude — fortalece ainda mais o propósito institucional do Fundo Baobá. Para ele, fazer parte do Conselho é unir propósito, responsabilidade e futuro: “Cada projeto é a chance de transformar conhecimento em impacto”.

Chega também ao Fundo Baobá a economista Gabriela Mendes Chaves, mais conhecida como Gaby Chaves. Fundadora da NoFront – Empoderamento Financeiro, ela se tornou referência na democratização do conhecimento econômico, especialmente para públicos historicamente excluídos das discussões sobre finanças. Sua atuação conecta educação, estratégia e cuidado, abrindo caminhos para que mais pessoas compreendam, acessem e ocupem o mercado financeiro. Como conselheira, Gabriela traz uma visão contemporânea e a capacidade de traduzir temas complexos em caminhos possíveis.

Completa o trio o economista e pesquisador Michael França. Doutor pela Universidade de São Paulo, colunista da Folha de S.Paulo e vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, Michael é fundador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper. Seu trabalho rigoroso sobre desigualdades sociais e formulação de políticas públicas o transformou em uma das vozes mais importantes do país quando o assunto é equidade racial baseada em evidências. A experiência internacional como professor visitante em Columbia e Stanford amplia ainda mais a perspectiva acadêmica e estratégica que traz agora ao Fundo Baobá.

Juntos, Nelson, Gabriela e Michael somam experiências e saberes que se entrelaçam e se complementam — técnica, educação, pesquisa, gestão, inovação e compromisso social. Suas chegadas fortalecem o Fundo Baobá em um momento especial: a preparação para celebrar 15 anos de atuação em 2026. Um marco que simboliza permanência, resistência e a força coletiva de uma organização que olha para o futuro com coragem e estratégia.

Selo de Igualdade Racial

O ano de 2025 também trouxe para o Fundo Baobá o Selo Igualdade Racial, concedido pela Prefeitura de São Paulo junto com outras 120 instituições selecionadas no resultado preliminar publicado em outubro. O Selo busca incentivar políticas afirmativas, ampliar a igualdade étnico-racial, reparar desigualdades históricas e combater práticas discriminatórias. Essa certificação reconhece o compromisso do Fundo com a promoção da equidade racial no mercado de trabalho.

Presença na mídia como estratégia de visibilidade para a pauta negra

Outro destaque do ano de 2025 foi a presença do Fundo Baobá na imprensa nacional. Estivemos presentes em veículos da mídia negra e independente, como o Alma Preta Jornalismo, Notícia Preta e Mundo Negro. Também participamos de matérias em veículos como Folha de S.Paulo, Correio Braziliense, Folha de Pernambuco

Encerramos 2025 com a certeza de que cada iniciativa apoiada, cada estudante que avançou, cada liderança fortalecida e cada articulação construída transforma de verdade o cenário da equidade racial no Brasil. O caminho não se faz sozinho: é resultado da ação conjunta de quem acredita que a mudança é possível agora, e trabalha para torná-la real. Em 2026, seguimos aprofundando parcerias, fortalecendo territórios e impulsionando histórias que movem o país para um futuro melhor.

Crédito para as fotos: Thalita Guimarães e Katarina Silva


Faculdades e Universidades Historicamente Negras (HBCUs): um caminho para estudantes negros brasileiros

Da luta por acesso à referência mundial em pesquisa e tecnologia

Quando se fala em estudar no exterior, a maioria das pessoas pensa imediatamente nas tradicionais universidades dos Estados Unidos. No entanto, existe um grupo de instituições igualmente importantes e transformadoras, com uma história e missão singulares: as HBCUs (Historically Black Colleges and Universities).

Essas faculdades e universidades foram criadas para fornecer educação superior à comunidade negra estadunidense em um período de segregação, quando o acesso a outras instituições era negado. Hoje, elas continuam sendo um pilar vital do ensino superior, oferecendo uma experiência acadêmica de alta qualidade, um forte senso de comunidade e uma rede de apoio poderosa para estudantes negros. Atualmente, existem mais de 100 HBCUs nos EUA, formando cerca de 300 mil alunos anualmente. Conheça a lista completa de instituições. 

Para estudantes brasileiros, especialmente aqueles que se identificam como negros, as HBCUs podem representar um espaço de pertencimento e empoderamento. Elas não só oferecem excelência acadêmica, com programas reconhecidos em diversas áreas como STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), negócios e artes, mas também promovem um ambiente onde a identidade e as experiências negras são valorizadas e celebradas.

O processo de aplicação é igual ao das universidades sem a mesma missão histórica, elas são inclusivas, recebendo estudantes de diversas nacionalidades, raças e etnias, fomentando um ambiente intercultural. Além disso, muitas dessas instituições oferecem assistência financeira generosa na forma de bolsas, empréstimos e subsídios, tornando o sonho de estudar nos EUA mais acessível.

Nomes como a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris (formada em Howard University), e a apresentadora Oprah Winfrey (Tennessee State University) são apenas alguns exemplos de líderes e personalidades globais que se formaram em HBCUs, mostrando o impacto duradouro dessas instituições na formação de talentos.

3 HBCUs de peso para sua jornada em STEM!

Instituições como Howard University, North Carolina A&T State University e Spelman College estão impulsionando a presença negra nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) e criando impacto global.

Estudar em uma HBCU (Historically Black College or University) com destaque em STEM significa estar em um ambiente que une tradição, excelência acadêmica e compromisso com a representatividade. Para estudantes negros do Brasil e do mundo, essa é uma chance de desenvolver habilidades técnicas de alto nível, criar conexões globais e contribuir ativamente para a inovação científica e tecnológica, enquanto se sente parte de um legado histórico de transformação social. Conheça um pouco mais sobre três destas universidades:

1. Howard University – Localizada em Washington, D.C., Howard é uma das HBCUs mais prestigiadas do mundo. Seu College of Engineering and Architecture é referência em formação de engenheiros negros e está conectado a centros de pesquisa de ponta, como a NASA e empresas líderes em tecnologia. A universidade também se destaca pela produção científica em áreas como engenharia elétrica, ciência da computação e inteligência artificial. Acesse o site oficial da instituição aqui.

2. North Carolina A&T State University – Considerada a maior HBCU dos Estados Unidos, localizada em Greensboro, Carolina do Norte, é a número 1 na formação de engenheiros negros nos EUA. Com programas robustos de Engenharia Mecânica, Engenharia Química e Ciência da Computação, a instituição mantém parcerias estratégicas com empresas como Boeing, Lockheed Martin e IBM, garantindo aos alunos experiências práticas e oportunidades de carreira de alto impacto. Acesse o site oficial da instituição aqui.

3. Spelman College – Localizado em Atlanta, Geórgia, é um dos mais renomados colleges femininos do mundo e referência na formação de mulheres negras na área de STEM. Seu Departamento de Ciências Naturais e Matemática é reconhecido pela alta taxa de graduação e colocação de alunas em programas de pós-graduação de elite. Spelman tem sido destaque no incentivo à participação feminina negra em áreas historicamente dominadas por homens, como ciência da computação, biotecnologia e física. Acesse o site oficial da instituição aqui.

Se você está pronto para mergulhar no universo STEM e quer uma experiência universitária que combine excelência acadêmica com um ambiente de pertencimento, as HBCUs são o seu destino. Escolher uma HBCU é mais do que optar por uma universidade; é fazer parte de uma história de resistência, excelência e ativismo, onde você pode se desenvolver plenamente enquanto contribui para um futuro com equidade racial.

E lembre-se, você não está sozinho nessa jornada! O programa Black STEM, uma iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial, oferece bolsas de graduação exclusivas para estudantes negros(as) aceitos em universidades estrangeiras e em cursos STEM. 

Saiba mais sobre o Black STEM e dê o primeiro passo rumo à sua graduação no exterior.

A oportunidade está batendo à sua porta. Você tem o que é preciso para abri-la!

Imagem de formandos da Howard University em 2023 | Fonte: Howard Magazine

Fundo Baobá marca presença na histórica segunda Marcha das Mulheres Negras em Brasília

Milhares de mulheres negras (cerca de 300 mil, segundo estimativas) das 27 capitais brasileiras, junto com representantes de mais de 40 países, se reuniram no dia 25 de novembro, em Brasília. Dez anos depois da primeira marcha reivindicando direitos básicos e enfrentando o racismo e o sexismo sofrido por elas, elas caminharam pela capital federal mostrando para a sociedade brasileira que não há democracia sem a participação efetiva de mulheres negras. 

Para a filósofa Sueli Carneiro, Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, “lutar é uma condição existencial que temos em legítima defesa das nossas vidas e dos nossos, pois estamos em um país que está determinado a nos exterminar. E para que de fato a democracia seja libertária e emancipatória, se faz necessário que o avanço organizativo e de mobilização das mulheres negras continue crescente em todas as esferas da sociedade.”

Após um ano de mobilização em diversas frentes, a equipe do Fundo Baobá, comprometida há quinze anos com a promoção da equidade racial no Brasil, celebrou a marcha com entusiasmo e compromisso. O apoio institucional se deu em três eixos principais, um aporte financeiro direto de pouco mais de R$ 1,3 milhão para a mobilização nacional, logística e articulação estadual, com atenção especial à garantia de presença de mulheres quilombolas; um fundo emergencial para garantir a presença de representantes de estados com desafios logísticos; e a atuação no campo filantrópico para engajar outras instituições para apoiar o movimento. 

Como ação de comunicação, o Fundo Baobá convidou 5 jornalistas negras, cada uma representando uma região do Brasil, para fazerem a cobertura da Marcha. A iniciativa buscou promover uma cobertura plural e amplificar as vozes das diferentes realidades de cada região, e contou com a presença de: Luciana Santos representando a região norte, da Revista Cenarium, Camila Rodrigues da região sudeste, da Alma Preta, Alane Reis, representando o nordeste pela Revista Afirmativa, Kelly Ribeiro, representando o Portal Catarinas da região sul e Mari Magalhães, jornalista independente do centro-oeste.

Caroline Almeida, gerente de Articulação Social do Fundo Baobá, enaltece o apoio da instituição à Marcha e faça dos efeitos positivos que isso pode trazer. “Ao apoiar uma mobilização como essa, contribuímos para que mais mulheres negras estejam conectadas em rede, com mais condições de influenciar políticas públicas, disputar narrativas e ocupar espaços de decisão. Esse investimento reforça o compromisso do Fundo Baobá com a promoção da equidade racial e com o fortalecimento de lideranças que atuam nos territórios, nas organizações e nos movimentos sociais”, afirma. 

Além da presença de toda a equipe do Fundo Baobá, o nosso grupo ainda incluiu membras da governança da organização e parceiros da filantropia, reforçando nosso compromisso coletivo com a causa. 

Para Tainá Medeiros, Coordenadora de Projetos do Fundo Baobá, ver a Marcha se materializar com o apoio do Baobá é ter a certeza de que a instituição está cumprindo com o seu papel de apoiar a agenda racial e os movimentos negros do Brasil. Ela destaca inclusive que estar presente com mulheres de tantas gerações “é gratificante, pois dá a dimensão do quanto elas foram fundamentais para a construção de muitos direitos que hoje são usufruídos pelas gerações mais novas.” 

Ao marcharem, as mulheres fizeram a leitura do novo manifesto político da Marcha, documento que atualiza as urgências do movimento em um contexto marcado por retrocessos, desigualdades e impactos climáticos. O texto reforça que o projeto político é constituído por outras matrizes, de outros conhecimentos e fazeres, de outras percepções e filosofias, o que significa a luta constante contra o racismo patriarcal. A reparação é apontada como urgência para a reinvenção do mundo.

Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá, afirma que “ver o produto final entregue é reiterar mais uma vez que a instituição está comprometida com a dignidade e a promoção das mulheres negras“. Ela também reforça que as mulheres negras movem o mundo, mas que ainda lutam arduamente por políticas reparatórias que sejam de fato eficientes para construção de mundos utópicos e revolucionários.

Fotos: Katarina Silva

Conheça a força coletiva que move Goiás rumo a Brasília no próximo dia 25

Em Goiás, o Comitê Estadual da Marcha das Mulheres Negras tem mostrado que a organização coletiva é um ato de resistência, mas também de transformações concretas. A mobilização começou com a formação de um grupo de 156 voluntárias, integrantes da Rede Goiana de Mulheres Negras, espalhadas por diferentes territórios urbanos e rurais do estado. São mulheres cis e trans, com idades entre 16 e 89 anos, ligadas a organizações de mulheres negras, movimentos populares, coletivos feministas e também mulheres independentes.

A estrutura do Comitê reflete a diversidade dessa rede: há comitês operativos, como o Executivo e o de Comunicadoras, e comitês temáticos, que atuam diretamente em  assuntos como educação antirracista, justiça climática, saúde, cultura, saberes ancestrais e participação política. Cada grupo reúne cerca de 12 mulheres, que articulam ações e mobilizam territórios, fortalecendo a capilaridade da Marcha em mais de 50% dos municípios goianos.

Nos últimos meses, as ações do Comitê se expandiram por todo o estado: rodas de conversa, encontros formativos, campanhas de prevenção à violência, oficinas de comunicação antirracista e desfiles carnavalescos com o estandarte da Marcha. Foram mais de 200 eventos e iniciativas, incluindo feiras de economia criativa, cursos de capacitação, incidência política, ações em escolas e universidades, produções audiovisuais e atividades culturais com foco na valorização das mulheres negras do Cerrado.

Essas experiências fortalecem a identidade coletiva, ampliam a formação política e conectam gerações, especialmente para as mais jovens, que vêm ganhando protagonismo no processo.Segundo levantamento do Comitê, 38,4% das participantes têm entre 16 e 29 anos. Essas jovens estão introduzindo novas linguagens, tecnologias e sua energia transformadora para o movimento. Atualmente, mulheres jovens lideram grupos temáticos estratégicos, como os de Justiça Ambiental, Cultura e Comunicação.

Além disso, está em formação a Organização Mulheres Negras Jovens em Marcha, iniciativa que surge de um processo de mentoria, escuta e afeto, voltado à construção de projetos de vida e ao fortalecimento das lideranças negras do futuro.

Os desafios são muitos, desde conciliar pautas diversas, superar as desigualdades regionais até enfrentar a falta de recursos e lidar com a sobrecarga das múltiplas jornadas das mulheres. Mas, porém como destacam as articuladoras, cada obstáculo se converte em um convite à invenção coletiva.

Entre as estratégias que fortalecem o grupo destacam-se: a criação de agendas compartilhadas, o mapeamento de demandas territoriais, a escuta como prática política, e o rodízio na liderança dos processos. As ações ações formativas também são prioridade, mostrando-se fundamentais para fortalecer vínculos e ampliar o protagonismo das mulheres negras, especialmente as da base, que hoje assumem o centro das decisões e a condução de comitês e projetos.

Nos últimos meses, o Comitê de Goiás concentrou esforços na realização de três Encontros Regionais e um Encontro Estadual, preparando diretamente a Caravana para Brasília, onde milhares de mulheres negras de todo o país se reunirão na Segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, no dia 25 de novembro. Além disso, seguem em curso as atividades de comunicação, capacitação e planejamento para o pós-Marcha, assegurando que o legado desse processo permaneça vivo nos territórios.

“Estaremos juntas no caminho de luta e afeto que herdamos das gerações que nos antecederam. Nossa história carrega o legado da justa reparação. A construção do bem viver é condição possível para o futuro. Levante das Pretas 2025,” afirma Janira Sobre, coordenadora do Comitê Impulsor da Marcha das Mulheres Negras de Goiás.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Mulheres Negras em Movimento: a força da articulação capixaba na construção da Marcha das Mulheres Negras 2025

O Núcleo da Marcha das Mulheres Negras do Espírito Santo, também conhecido como Núcleo Impulsor Capixaba, organizou-se em 2014 com a missão de mobilizar e organizar as mulheres negras do estado para a histórica Iª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em 2015, em Brasília. Desde então, o Núcleo se consolidou como uma importante referência na luta antirracista e feminista, fortalecendo o protagonismo das mulheres negras capixabas e ampliando sua presença nos espaços de decisão e nas políticas públicas.

A criação do Núcleo inaugurou um novo momento na articulação política das mulheres negras no Espírito Santo, reafirmando a importância da organização coletiva em torno da justiça social, da equidade de gênero e do enfrentamento às múltiplas formas de opressão. Nesse percurso, foram inúmeros encontros, formações, campanhas e mobilizações. Entre os marcos dessa trajetória destacam-se o Encontro Estadual de Mulheres Negras do Espírito Santo de 2017, a participação em eventos nacionais e a realização da Iª Marcha Estadual das Mulheres Negras Capixabas, em 2024, que convocou mulheres, homens e crianças em defesa do direito à vida, à saúde, à economia e pelo fim da violência e do racismo.

Em 2025, o Núcleo intensificou sua agenda com atividades que reafirmam a força e a vitalidade do movimento. Entre elas, o Encontro do Coletivo Sudeste, que articulou lideranças de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, além de reuniões itinerantes em diferentes municípios, como Serra, Colatina e Vila Velha, e a Marcha Estadual das Mulheres Negras Capixabas, realizada em julho, seguida do Encontro Estadual de Mulheres Negras Capixabas, ambos voltados à formação, avaliação e planejamento estratégico do movimento no estado.

Essas ações integram um esforço contínuo de descentralização e interiorização da mobilização, ampliando a escuta das mulheres negras em diferentes territórios e fortalecendo a Marcha nas comunidades. As reuniões itinerantes têm sido espaços fundamentais para o diálogo com as mulheres dos municípios, possibilitando trocas, escutas e a construção de agendas locais que se conectam à luta nacional pelo Bem Viver.

A mobilização de novas mulheres é uma prioridade do Comitê. Por meio das redes sociais, de participações em audiências públicas, eventos e campanhas, o Núcleo amplia sua base e integra jovens lideranças ao movimento. Hoje, um grupo no WhatsApp reúne mais de 200 mulheres de todo o estado, funcionando como um espaço ativo de comunicação, troca e articulação política.

Nos últimos meses, o Núcleo também passa por um processo de renovação, com a chegada de jovens mulheres negras ao grupo de comunicação e à coordenação das atividades itinerantes. Essa integração intergeracional fortalece o movimento, ampliando sua presença digital e diversificando as estratégias de mobilização. “A entrada de novas vozes é fundamental para a continuidade e a vitalidade da nossa luta”, afirma a coordenadora estadual Marilene Pereira.

Apesar da força do movimento, alguns desafios persistem. A falta de recursos financeiros e logísticos representam entraves à realização de atividades no interior do estado e à ampliação da presença digital. A ausência de suporte técnico para comunicação e a dificuldade de financiamento de transporte e alimentação impactam diretamente a capacidade de mobilização. Ainda assim, o Núcleo busca caminhos criativos para seguir adiante por meio de parcerias, voluntariado ou apoios, como os do Fundo Baobá e o Edital Nilda Bentes, que têm sido sustentado a atuação do movimento e viabilizado eventos como a Marcha Estadual e o Encontro de 2025.

Para os próximos meses, o Núcleo Impulsor Capixaba seguirá em marcha. Estão programadas novas reuniões itinerantes nos municípios de São Mateus, Linhares e Cariacica, além da organização da delegação capixaba para a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que acontecerá em novembro, em Brasília.“ Cada passo, cada encontro e cada voz reafirmam que o futuro será negro, feminino e coletivo. Porque nossas vidas importam e o Bem Viver é o horizonte que seguimos tecendo juntas,” afirma Marilene.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Nota de posicionamento

O Fundo Baobá para Equidade Racial reitera seu profundo pesar e repúdio à condução da operação policial realizada no último dia 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de mais de 120 pessoas, considerada a mais letal da história do país.

 

O episódio agride a população da cidade do Rio de Janeiro, a sociedade brasileira e a comunidade internacional.

 

As características desta “operação policial” evidenciam uma grave violação aos protocolos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) decorrentes de episódios anteriores, amplamente divulgados pela imprensa nacional e internacional.

 

O Governo do Estado optou por uma estratégia que resultou na morte de 4 policiais e 117 pessoas supostamente mortas em confronto.

 

A dimensão dos fatos é agravada pelo comportamento subsequente das autoridades policiais do estado do Rio de Janeiro. Elas ignoraram o abandono de mais de 60 cadáveres na mata, desviaram o foco e passaram a intimidar a população local, sob a alegação de interferência na cena do crime.

 

São chocantes os relatos de constrangimentos impostos aos familiares das vítimas durante o reconhecimento dos corpos no IML do Rio de Janeiro. Tais atitudes violam todos os princípios do direito, o que configura a revitimização institucional dessas pessoas.

 

A narrativa que reduz vidas perdidas a “danos colaterais” ou “consequência de guerra” é perversa e desumana. Viola não apenas o direito à vida, mas também o direito de toda uma comunidade à paz, à mobilidade e à dignidade. Uma cidade inteira foi refém da violência, e suas marcas permanecerão.

 

O Fundo Baobá solidariza-se com todas as famílias enlutadas, tanto de moradores locais quanto de policiais que foram expostos a riscos pelas ações irresponsáveis, com evidente motivação eleitoral, por parte dos governantes do Estado do Rio de Janeiro.

 

Em conjunto com outras instituições filantrópicas, daremos continuidade às iniciativas em defesa dos direitos humanos e ao enfrentamento ao racismo que naturaliza a morte da população negra.

 

O respeito ao Estado Democrático de Direito, ao devido processo legal e ao direito de defesa não são negociáveis e exigem o firme repúdio de toda a sociedade brasileira.

Fundo Baobá é reconhecido com Selo de Igualdade Racial na prefeitura de São Paulo

O Baobá – Fundo para Equidade Racial acaba de ser reconhecido entre as 120 instituições selecionadas para receber o Selo Igualdade Racial 2025, conforme resultado preliminar publicado no Diário Oficial do Município de São Paulo no último dia 09/10. A conquista reforça nosso compromisso com a promoção da equidade racial no mercado de trabalho da capital paulista. 

O Selo Igualdade Racial reconhece instituições que têm pelo menos 20% de profissionais negros em seu quadro de colaboradores, em diferentes níveis hierárquicos.

Giovanni Harvey | crédito da foto: Thalita Guimarães

“O Fundo Baobá tem uma longa trajetória no que tange o apoio a iniciativas voltadas para a equidade racial.”

O objetivo do Selo é incentivar a adoção de políticas afirmativas no âmbito do trabalho, a promoção da igualdade étnico-racial e reparação histórica à população negra, a mitigação e eliminação gradual de atos discriminatórios e a igualdade material de oportunidades.

“O Fundo Baobá tem uma longa trajetória no que tange o apoio a iniciativas voltadas para a equidade racial. Projetos como o Quilombolas em Defesa da vida, o Saúde Mental Quilombola, entre outros, são exemplos de investimento que o Fundo vem fazendo para mitigar as desigualdades sociais. Portanto a concessão de renovação do selo de igualdade racial pela prefeitura de São Paulo é um importante reconhecimento e instiga o tanto que ainda podemos agir enquanto Fundo.” Afirma Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá.

Programa Marielle Franco bate recorde e demonstra a força das mulheres negras

Um feito para celebrar: O Baobá – Fundo para Equidade Racial alcançou um número recorde com a segunda edição do Programa Marielle Franco: 3.793 inscrições oriundas de todos os estados brasileiros, um crescimento de 19 vezes em relação à primeira edição, realizada em 2019.

Esse salto demonstra não apenas o crescimento do programa, mas também o engajamento e a força das mulheres negras em todo o país, que seguem se organizando, se fortalecendo e se reconhecendo como protagonistas de suas próprias trajetórias.

Cada inscrição carrega em si uma história de perseverança e de luta, além de uma visão potente de transformação social. Diante da alta qualidade e diversidade das inscrições recebidas, o Fundo Baobá vai precisar de um tempo adicional para realizar a avaliação minuciosa que cada candidatura merece. Por isso, a divulgação do resultado final, que estava prevista para 09 de janeiro, passou a ser 09 de fevereiro de 2026.

Este volume expressivo de inscrições comprova a urgência de iniciativas como essa e a necessidade de mais instituições que estejam comprometidas a se somarem a esta causa. É mais uma evidência de que há potência, criatividade e liderança feminina negra pulsando em todos os cantos do Brasil. 

O Fundo Baobá também reafirma o compromisso de seguir fortalecendo caminhos de justiça e liberdade, honrando o legado de Marielle Franco.

SPD celebra 193 anos de história, resistência e fortalecimento institucional

Em 16 de setembro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD) completou 193 anos de fundação. Criada em 1832, em Salvador, a instituição é um marco da resistência negra no Brasil e um símbolo de organização coletiva, solidariedade e luta por liberdade e justiça social. A SPD nasceu em um período escravocrata, quando negros e negras libertos decidiram unir esforços para garantir a liberdade de outros ainda em situação de escravização.

Assim surgiu o sistema de cotização, uma forma de contribuição coletiva para a compra de alforrias (cartas expedidas por proprietários de pessoas escravizadas decretando a liberdade deles). Esse movimento coletivo deu origem a uma das primeiras experiências de cooperativismo e autogestão negra de que se tem notícia no Brasil. Desde então, a Sociedade Protetora dos Desvalidos tem mantido sua independência financeira e institucional, atuando sem apoio governamental direto.

Em 2023, a SPD recebeu um impulso decisivo para sua modernização e sustentabilidade. Por meio de uma doação de R$500 mil do Baobá – Fundo para Equidade Racial, a entidade iniciou um processo de reestruturação administrativa e fortalecimento institucional, sem abrir mão de sua autonomia e de seus valores históricos.

O apoio foi um reconhecimento ao papel histórico da SPD e buscou ampliar sua capacidade de atuação, fortalecendo ações como o espaço terapêutico para mulheres, a Casa de Angola, local que acolhe estudantes africanos que vêm estudar no Brasil, além de outras iniciativas sociais e educativas voltadas à promoção da equidade racial.

Para Camila Carvalho, assistente de projetos do Fundo Baobá, as transformações ocorridas na SPD são um reflexo direto de seu compromisso com a preservação da memória e com a modernização da gestão. “Dentre as mudanças indicadas pelos próprios membros da SPD, podemos destacar o  ambiente de trabalho mais colaborativo, a melhoria da área administrativa e o impacto positivo nas questões contábeis e fiscais que fortaleceram a gestão da instituição, possibilitando o alcance de novas oportunidades de crescimento e fortalecimento, além do aumento da visibilidade da organização, proporcionando novos cenários promissores”, diz. 

A partir da parceria com o Fundo Baobá, a SPD passou a investir na capacitação de sua equipe, no planejamento estratégico e na reorganização dos processos administrativos. As melhorias se refletem no clima organizacional, nas receitas e na eficiência operacional. As transformações também ampliaram a presença da SPD em debates sobre inclusão racial e justiça social, com novas campanhas educativas e ações de conscientização.

Caroline Almeida, gerente de articulação social do Fundo Baobá, acompanha de perto a trajetória da SPD e afirma que tem sido uma experiência inspiradora e educativa: “É muito bom acompanhar, agora ainda mais de perto, devido à parceria com o Fundo Baobá, como a Sociedade Protetora dos Desvalidos vem mantendo suas tradições e a coerência institucional ao longo do tempo. A trajetória da SPD é marcada pela resistência, pela organização coletiva e pela fidelidade a um propósito que atravessa quase dois séculos”, afirma. 

Caroline destaca que o processo de reorganização foi conduzido com responsabilidade e respeito aos princípios da fundação da SPD: “A confiança estabelecida entre as instituições permitiu que a SPD conduzisse, com serenidade, disciplina e retidão, um processo cuidadoso de reorganização da sua gestão, criando bases mais sólidas para as transformações que se seguiram. Sem perder de vista seus valores fundadores, a organização tem alinhado tradição e modernização, dando um grande exemplo de comprometimento com sua missão e seu propósito.”

Ela conclui afirmando que celebrar os 193 anos da SPD é também celebrar o futuro. “Para o Fundo Baobá, é uma honra caminhar ao lado de uma organização histórica que segue inspirando gerações, reafirmando a importância da autogestão e da autonomia negra. Celebrar os 193 anos da SPD é, também, celebrar a continuidade dessa parceria que simboliza reconexão, enraizamento e futuro”, celebra. 

Crédito das fotos: Shai Andrade

Na reta final, Marcha das Mulheres Negras 2025 toma corpo em todos os estados

Com apoio do Fundo Baobá, comitês locais fortalecem a articulação nacional, mostrando a força da mobilização local

A Marcha das Mulheres Negras 2025 – a ser realizada em 25 de novembro em Brasília – vem sendo construída a muitas mãos, vozes e histórias em todo o Brasil. A mobilização, que envolve 26 estados mais a Capital Federal, conta com o apoio estratégico do Fundo Baobá para Equidade Racial, que atua como parceiro na articulação, escuta e fortalecimento dos comitês estaduais responsáveis pela organização do movimento. 

Com uma trajetória marcada pelo compromisso com a justiça racial, o Fundo Baobá reafirma que a filantropia é um ato político e coletivo, que ganha sentido quando promove o reconhecimento das vozes das mulheres negras como motores de transformação social. O trabalho delas demonstra que promover equidade racial é um processo vivo, que nasce nos territórios e nas comunidades, e ganha força quando se sustenta com apoio das redes de solidariedade, afeto e ação política.

Encontro de mulheres negras da região Sul. Presentes Tainá Medeiros e Caroline Almeida

Para Camila Carvalho, Assistente de Projetos do Fundo Baobá, acompanhar o processo de mobilização nacional nas 27 capitais brasileiras é quase impossível pela quantidade de atividades que os comitês têm realizado. “É indescritível a dedicação dessas mulheres para alcançar os objetivos mapeados, mesmo com a sobrecarga e os desafios que envolvem as diferentes funções e responsabilidade exercidas por elas em suas vidas, mas nada impediu o alcance de um número expressivo em suas mobilizações”, afirma.

Camila reforça que, apesar das dificuldades com deslocamento, agendas e falta de recursos financeiros, os comitês estaduais têm feito história ao garantir que a Marcha seja conhecida e chegue a diferentes territórios, inclusive fora dos grandes centros urbanos. “A Marcha se espalha pelo país respeitando as especificidades e necessidades de cada território, o que demonstra sua força e capilaridade”, complementa

Edmara Pereira, Assistente de Articulação Social do Fundo Baobá, observa que os principais desafios são as desigualdades regionais, marcadas por grandes distâncias geográficas, pela diversidade dos territórios e comunidades, pelos longos percursos sujeitos a condições climáticas adversas, pela ausência de infraestrutura adequada e pelos altos custos de transporte, que tornam a mobilização desigual entre as regiões.

É nesse sentido que a atuação do Fundo Baobá tem contribuído para fortalecer as redes locais e ampliar o alcance político da Marcha, que há décadas denuncia as omissões e violências estruturais do Estado brasileiro, ao mesmo tempo em que propõe um novo projeto de país — mais democrático, justo e equânime.

A Marcha também tem sido sustentada pelo comprometimento de lideranças e voluntárias que, mesmo diante da sobrecarga das jornadas profissionais, comunitárias e familiares, seguem mobilizadas na construção coletiva. Esse esforço revela o quanto o trabalho político das mulheres negras segue invisibilizado e pouco reconhecido, ao mesmo tempo em que evidencia o desafio de engajar as gerações mais jovens, igualmente atravessadas por múltiplas demandas. Ainda assim, o processo reafirma a força e a capacidade de transformação das mulheres negras, que convertem o desgaste cotidiano em ação política e mobilização coletiva.

“Apoiar a Marcha das Mulheres Negras é, portanto, reconhecer um movimento que há décadas denuncia as falhas, omissões e violências estruturais do Estado brasileiro, mas que também propõe um novo projeto de país, no qual ele seja de fato democrático, justo, diverso. Uma filantropia que não escuta e não dá suporte a movimentos como este demonstra não compreender plenamente o contexto social em que atua ou, então, escolhe conscientemente apoiar interesses distantes das urgências coletivas,” afirma Caroline Almeida, Gerente de Articulação Social.

Caroline Almeida e Tainá¡ Medeiros no encontro regional do nordeste em Pernambuco.

“O trabalho das mulheres negras segue invisibilizado, mas é nele que reside grande parte da força transformadora que move o país”

Ela ressalta que é fundamental que o campo filantrópico esteja comprometido com os movimentos sociais e com a escuta ativa das pautas que emergem dos territórios. “O trabalho das mulheres negras segue invisibilizado, mas é nele que reside grande parte da força transformadora que move o país”, conclui.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e faça parte dessa mobilização!

Edital Carreiras em Movimento impulsiona trajetórias e amplia oportunidades

O Baobá – Fundo para Equidade Racial, por meio do edital Carreiras em Movimento, uma parceria com o Mover (Movimento pela Equidade Racial), tem como objetivo impulsionar o desenvolvimento profissional de pessoas negras que desejam fortalecer suas carreiras, acessar novas oportunidades de aprendizado e conquistar posições de destaque em suas áreas de atuação. A iniciativa apoia o aperfeiçoamento técnico, o investimento em cursos, formações e ferramentas que contribuam para o avanço de trajetórias profissionais comprometidas com a equidade racial e o protagonismo negro no mercado de trabalho.

O edital recebeu centenas de inscrições de todo o país, refletindo a ampla demanda por oportunidades de formação intelectual e crescimento profissional. Mais de 300 pessoas foram selecionadas e receberam apoio de um recurso de R$5 mil a R$10 mil para investir em seus projetos de desenvolvimento profissional. 

Um dos selecionados foi o paraense radicado em Belo Horizonte, Jean Carlos Oliveira, que queria se especializar na área de controladoria. Para isso, ter conhecimentos de inglês, Excel e Power BI eram fundamentais. E foi com esse foco que Jean Carlos investiu o recurso que recebeu do edital Carreiras em Movimento: “O edital foi importante para eu poder viabilizar cursos que objetivava”, diz. 

Entre as selecionadas está Wynnie Carvalho, de Salvador, na Bahia. Profissional de marketing digital e com formação de jornalista, ela soube do edital através do Instagram e decidiu se inscrever por enxergar na iniciativa uma chance concreta de materializar sonhos que poderiam transformar sua carreira. “Vi ali uma oportunidade de me posicionar em lugares de autoridade que eu precisava para ter maior reconhecimento”, conta Wynnie Carvalho. 

Com o apoio recebido do Fundo Baobá, Wynnie pôde realizar um dos seus grandes objetivos: cursar Storytelling na Miami Ad School, a escola de criatividade mais premiada do mundo, e adquirir um tablet para estudo. Durante o curso, ela se destacou entre alunos de diversos países e foi reconhecida com o prêmio Top Dog, como aluna destaque, tendo sua equipe sido vencedora de um desafio internacional. “O meu objetivo foi alcançado. No meio de alunos do mundo todo, recebi um troféu em casa. Esse reconhecimento me trouxe ótimos frutos na carreira”, afirma. 

Wynne Carvalho. Crédito: André Frutuôso

“O meu objetivo foi alcançado. No meio de alunos do mundo todo, recebi um troféu em casa. Esse reconhecimento me trouxe ótimos frutos na carreira”

O impacto de ter participado do edital foi profundo. Após a formação, Wynnie foi promovida a uma posição sênior, passou a dar aulas de marketing digital e storytelling e aplica diariamente os conhecimentos adquiridos no curso em seu trabalho. “O edital me proporcionou acessar saberes que eu não fazia ideia quando — e se — teria a oportunidade de conseguir”, afirma.

A trajetória de Wynnie ilustra o propósito do Carreiras em Movimento: fomentar o acesso, a valorização e o reconhecimento de profissionais negros, criando caminhos reais de ascensão e transformando vidas por meio da educação e do investimento em potencial.

“Filantropia com propósito é um sonho carregado de ação. Sem propósito, ela não passa de passatempo”

Conexões em Movimento, a newsletter mensal do Movimento Bem Maior, inspira filantropos, promove a troca de ideias e fortalece conexões para a justiça social. Neste mês, nossa conversa é com Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, uma das mais importantes instituições de promoção da equidade racial no Brasil.

Na filantropia, Giovanni Harvey é uma exceção que busca questionar as regras sob as quais o campo funciona. Ocupa uma posição singular, à frente de uma organização única no contexto brasileiro, o Fundo Baobá para Equidade Racial . Suas bases construídas nos movimentos sociais e na vivência como homem negro sustentam o pensamento crítico que marca sua trajetória.

Com 61 anos, Giovanni é de uma geração que se constituiu politicamente no final dos anos 1970, em meio ao fim do regime militar e às mobilizações pela redemocratização do país. Aproximou-se do movimento negro aos 17 anos — não apenas para “se associar”, mas, como ele diz, para “se alistar”, assumindo um compromisso vitalício com a causa.

Hoje, lidera um endowment que garante a sustentabilidade da própria organização e permite que toda captação seja destinada exclusivamente a ampliar as doações, enquanto o patrimônio continua crescendo. Ao mesmo tempo, atua para incidir sobre o ecossistema da filantropia, ocupando espaços de governança e atraindo novos investidores para agendas historicamente negligenciadas.

Na entrevista a seguir, Giovanni fala sobre os desafios e contradições do campo filantrópico, o conceito de “filantropia recreativa” e o que considera essencial para o amadurecimento do debate racial no Brasil.

  • Você provoca reflexões diretas sobre o papel da filantropia e do investimento social privado. Queria começar com uma que você trouxe no Congresso do GIFE, sobre “filantropia recreativa”. Como você vê essa prática no campo hoje?

Quando eu fui chamado pela Sueli Carneiro e pelo Hélio Santos para o Baobá, eu sou obrigado a refletir sobre qual é o meu papel como ativista político, qual é o papel dessa instituição e quais são as contradições nas quais a instituição está inserida.

Uma instituição que tem hoje 170 milhões de reais aplicados no mercado financeiro, comparativamente com outras instituições filantrópicas financeiras, é um fundo pequeno, mas está em uma condição completamente diferente das organizações do movimento negro tradicionais. Isso me empurra a olhar o que está sendo feito a minha volta.

Percebo que existem várias filantropias e que algumas não têm alinhamento com causa alguma. Se constituem em verdadeiros jardins de diversão, onde as pessoas muitas vezes estão mais preocupadas em ilustrar suas biografias, suprir suas próprias carências e preencher um determinado tipo de vazio do que, servir a uma causa.

Foi isso que chamei de uma filantropia sem propósito, uma filantropia recreativa. É como qualquer outra atividade na vida. Se eu não tenho objetivo claro para estudar, trabalhar, praticar uma atividade física… aquilo vira apenas recreação.

Gosto de uma formulação do futurista norte-americano Joel Barker: uma visão de futuro é um sonho carregado de ação, e um sonho que não gere ação é só um passatempo. Para mim, filantropia com propósito é um sonho carregado de ação; sem propósito, ela não passa de passatempo.

  • O Fundo Baobá tem uma trajetória singular — e, infelizmente, ainda ocupa um espaço único em termos de capacidade de investimento e articulação de organizações negras. De que forma vocês têm posicionado o Baobá no ecossistema atual?

Somos um fundo patrimonial independente, cuja gestão é feita integralmente por nossa equipe — liderada por Hebe Da Silva , uma mulher negra, do Mato Grosso. Nosso fundo patrimonial é de R$ 170 milhões, oriundos principalmente da Fundação Kellogg, Fundação Lemann , B3 , Mackenzie Scott e outros parceiros estratégicos. Além disso, gerimos cerca de R$ 20 milhões de recursos de terceiros, como Fundação Ford, Instituto Ibirapitanga , Open Society Foundations e Instituto Unibanco .

Ao longo de 15 anos, já doamos mais de R$ 22,4 milhões, via 23 editais, apoiando mais de 1.200 iniciativas em todas as regiões do país, nas áreas de educação, desenvolvimento econômico, comunicação, memória e direitos humanos. Estamos baseados em São Paulo, com uma equipe de 20 pessoas, e em breve teremos sede própria.

A própria Fundação Kellogg afirma não ter outra experiência semelhante à do Baobá em seu histórico. Mesmo no campo da equidade racial, há pouquíssimas iniciativas com essa capacidade de investimento e nosso objetivo é ampliá-la.

Nossa visão de futuro é alcançar R$ 250 milhões de fundo patrimonial até 2026/2027 e nosso endowment cresce porque reinvestimos anualmente 95% do rendimento médio dos últimos três anos, retirando no máximo 5%. Hoje já somos autossustentáveis operacionalmente, de modo que toda captação adicional é destinada exclusivamente a doações.

O segundo foco é a incidência sobre o ecossistema da filantropia. Participamos ativamente de redes como o GIFE e a Rede Comuá , que, no nosso entendimento, têm atuação complementar: o GIFE, mais voltado para o investimento social privado; e a Comuá, voltada para fundos independentes ligados à base social ou territorial. O Baobá é a única instituição da filantropia brasileira com assento no Conselho da Rede Comuá e no Conselho Deliberativo do GIFE, além de fazer parte de instâncias colegiadas e de gestão de várias outras organizações, como o Motriz , Todos Pela Educação e a Plataforma Alas, da Fundação Tide Setubal .

Buscamos incidir sobre o ecossistema levando nossa visão de filantropia e, muitas vezes, atraindo investidores ao colocar nosso próprio recurso à frente para que outros se engajem. Partimos do pressuposto de que, quando investimos, estamos enviando uma mensagem clara de que aquela agenda é importante. É o caso do apoio à Sociedade Protetora dos Desvalidos, a mais antiga instituição filantrópica em operação no Brasil, e à Marcha das Mulheres Negras. No entanto, mesmo assim, quase ninguém mais colocou recursos.

No apoio à Marcha das Mulheres Negras, destinamos R$ 1,25 milhão, tornando-nos seu maior doador até agora. Comparando nosso tamanho com outras instituições, fica evidente a falta de alinhamento do campo com uma agenda de extrema importância e que, em 2025, será a maior manifestação popular de luta por direitos no Brasil, em novembro, em Brasília.

  • Como você enxerga essa distância que ainda existe entre grandes investidores sociais e os movimentos de base?

Eu acho que, primeiro, tem uma “financeirização”, uma absorção de uma cultura de mercado por várias dimensões da vida social. A educação, por exemplo. A linguagem no ambiente educacional está cada vez mais mercadológica. É “entrega”. Então, o aluno é avaliado pelas entregas que faz. Eu tenho severas críticas a esse tipo de linguagem. Acho que isso deseduca, isso adoece as pessoas.

Há uma “mercadologização” que está impregnando a sociedade brasileira. A filantropia começa a falar em entrega, não fala mais em causa. E, em alguma medida, passa a ser vista apenas como um campo de trabalho para o qual as pessoas podem migrar sem ter nenhum tipo de compromisso com causa alguma. Essas pessoas vão constituir burocracias que lidam com o investimento filantrópico e com o investimento social privado como se estivessem fabricando salsicha ou peça automotiva — sem perceber que estão lidando com pessoas, com anseios, com traumas, com lutas políticas, com processos históricos que, na maior parte das vezes, sequer são compreendidos.

Essa burocratização, falta de compreensão e despolitização fazem parte do pano de fundo dessa “recreação”. Nós nos contrapomos a isso. Defendemos filantropia com propósito. Não necessariamente o mesmo que o nosso, porque existe mais de um tipo. Toda filantropia é legítima. O que eu cobro é que se diga: “Eu faço filantropia para isso.” “Eu faço filantropia para a caridade, eu acredito que o assistencialismo é importante…” E é. Eu li a entrevista que Fernanda Camargo concedeu aqui em que ela diz que até certa linha, precisamos do assistencialismo para poder olhar para impacto. O primeiro impacto é ter oferta de comida.

Voltando à nossa visão: defendemos que quem faz filantropia coloque na mesa o que faz e para quê faz. E que tenha certa sofisticação intelectual para não cometer o equívoco — e eu falei isso no congresso do GIFE anterior — de confundir atender pessoas negras com enfrentar o racismo. Ter clientela negra não significa que a iniciativa enfrente o racismo. Posso apoiar iniciativas que atendem pessoas negras e, ainda assim, reproduzem relações de dominação.

É preciso que se diga: “Eu atendo pessoas negras para isso. Minha estratégia é essa, meu propósito é esse.” Eu não critico os propósitos. Critico a falta de transparência e a tentativa de confundir, fazendo uma análise equivocada que confunde público com causa.

  • Em ambientes da filantropia e do ISP, vemos que algumas pautas — especialmente equidade racial — quando colocadas na mesa geram desconforto e são questionadas sobre de fato serem endereçadas. A que você atribui esse fenômeno?

A questão racial, para nós, ativistas do movimento negro, não é uma escolha. Somos colocados cotidianamente diante de situações nas quais precisamos nos posicionar – porque se não o fizermos, ninguém fará. E, quando um problema real não é enfrentado, a omissão só o agrava.

O debate racial no Brasil está na origem da nossa constituição como sociedade, no período pós-abolição, que coincide com o processo de construção da República. Isso funda as relações no país e desconhecer esse contexto é um equívoco histórico profundo. Ao tratar as desigualdades étnicas como se ninguém tivesse responsabilidade sobre elas, cria-se a ilusão de que, por “não termos mais escravidão”, o problema se resolveria por geração espontânea. Mas não foi algo que surgiu espontaneamente; foi construído e reforçado por decisões políticas, incluindo decretos presidenciais.

Essa distorção histórica alimenta um imaginário — presente na literatura, na sociologia e até na filantropia — de que o problema da população negra se resolve com escolarização. A ideia de que brancos e ricos “vão salvar” negros oferecendo oportunidades é um subproduto dessa concepção. Em ambientes onde está pacificado que “o problema do negro é falta de escolarização” e que “a culpa é da escravidão, mas o presente nada tem a ver com isso”, qualquer tentativa de cobrar ação efetiva dos atores políticos provoca desconforto.

Inclusive na filantropia, que muitas vezes se vê num “faz de conta” de doar para iniciativas que, na prática, reproduzem desigualdades, formam para profissões obsoletas e que nem sequer arranham a concentração de renda. Não há debate real sobre temas estruturantes como rentismo, taxas de juros e distribuição de riqueza. Assim, exceções são tratadas como regra, usadas para legitimar a ideia de que, quem não conseguiu furar esses bloqueios é mal sucedido e que a responsabilidade, por isso, são delas.

  • Muitas lideranças negras se veem obrigadas a modular o tom, a linguagem e até omitir posicionamentos para conseguir “caber” em determinados espaços institucionais, mesmo na filantropia. É possível encontrar equilíbrio entre se fazer ouvir e manter a integridade do discurso?

Eu acho que é um desafio. E falo de um lugar confortável porque as condições do Baobá me permitem verbalizar coisas que sinto obrigação de dizer. Lembro de uma fala recente do presidente da República, na posse do atual presidente do BNDES. Ele disse: “Espero que você possa criticar as taxas de juros, porque eu não posso. Me elegi, e quando critico, gera problema. Alguém aqui precisa poder falar.”

Fazendo um paralelo: alguém precisa dizer determinadas coisas. Uma das contradições de uma sociedade que busca manter privilégios é a tentativa de silenciar as pessoas com a ilusão de algum benefício — pessoal ou institucional — se elas “se comportarem” e não afrontarem o status quo. Isso também acontece na filantropia. Lideranças de várias causas e segmentos modulam seu discurso para se tornarem “palatáveis” e aptas a receber recursos.

Não considero errado. Jamais cobraria de uma instituição que se inviabilizasse no ecossistema por não fazer algum tipo de modulação. Mas faltam sinais, especialmente do investimento social privado. Quanto mais o interesse empresarial impacta essa agenda, mais difícil é aceitar a crítica. Vejo mais abertura na filantropia, com exemplos como o de Neca Setubal , que reconhece que parte da fortuna da família tem origem em relações de dominação no passado — algo corajoso e coerente. Essa postura permite conversar sem o “bode na sala” que limita tantas discussões.

Mesmo no Baobá, não saio falando tudo o que penso. É uma questão de responsabilidade no ecossistema e de preservar um mínimo de civilidade. Venho de uma geração que aprendeu, no movimento estudantil, a respeitar quem pensa diferente. Críticas precisam ser feitas de forma respeitosa, sem a pretensão de sermos donos da verdade ou apontar o dedo o tempo todo. Precisamos buscar consensos, elevar o nível do debate e encontrar soluções sustentáveis e honestas, capazes de mostrar à sociedade que, mesmo em um país que mantém historicamente segmentos em posição subalterna, ainda é possível construir caminhos de mobilidade e mudança.

  • Em uma entrevista à Rede GIFE, você disse que “a subsistência de práticas ilusórias de inclusão de pessoas negras reflete o estágio de compreensão e da maturidade da sociedade brasileira”. Qual seria o passo possível nesse processo de amadurecimento?

Eu posso dizer a você, com todas as críticas que ainda faço à realidade brasileira, que me orgulho do estágio que o país alcançou no debate racial. Não imaginava que estaria vivo para ver a sociedade brasileira discutindo essa questão da forma como temos feito.

Demos saltos enormes na compreensão do tema, porque não poderia continuar sendo um debate restrito a nós, negros e negras — ele pertence à sociedade brasileira. Quando vejo, por exemplo, o Movimento Bem Maior, a Fundação Lemann, a Imaginable Futures pautando a questão racial, sinto orgulho.

Como próximos passos, acho que nós, movimento negro, e as pessoas comprometidas com essa causa, precisamos garantir que não haja retrocesso: que os espaços conquistados e a ampliação de atores e atrizes políticas que discutem o tema não recuem, garantindo que alianças estratégicas não retrocedam.

O segundo ponto é construir consensos mínimos: uma agenda qualificada que eduque sobre o que é, de fato, enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial, reduzindo a quantidade de pessoas que ainda acreditam que atender pessoas negras é o mesmo que enfrentar o racismo. O debate racial no Brasil exige estudo, esse é um debate científico, no sentido de que é preciso estudar história, sociologia… não depende de títulos acadêmicos para chegar nessa compreensão.

O terceiro ponto depende de todos, inclusive de nós, pessoas negras: precisamos nos apresentar para a sociedade como sujeitos que pensam o país, e não apenas nossos próprios problemas. Eu, como dirigente de organização social e ex-gestor público, sempre pensei a sociedade brasileira a partir do meu compromisso com soluções para a questão racial, mas sem restringir minha atuação a isso. O problema racial é o que mais me afeta, mas não é o único que existe.

As pessoas negras precisam discutir projetos de país, e as pessoas brancas em posições de gestão, seja monocrática ou colegiada, precisam se abrir a ouvir o que temos a dizer para além da questão racial. Eu, por exemplo, me recuso a ser o “bedel” que só fala sobre isso nos conselhos de que participo. Se o tema surge, muitas vezes fico calado. Quando me perguntam: “Você não vai se manifestar?”, respondo: “Quero ouvir o que vocês têm a dizer.”

Resumindo, são três pontos: não recuar, qualificar o debate para educar e discutir, conjuntamente, projetos para o país.

Entrevista e edição: Emanuely Lima / Analista de Comunicação no Movimento Bem Maior. Publicado originalmente na newsletter Conexões em Movimento, do Movimento Bem Maior. Fotos: Thalita Guimarães

Fundo Baobá lança a 2ª edição do Programa Marielle Franco

O Fundo Baobá, referência nacional no fortalecimento de iniciativas negras, acaba de lançar a segunda edição do “Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco”, de apoio individual. Inspirado no legado da vereadora que se tornou símbolo de resistência, o programa vai apoiar 30 mulheres negras – cis, trans ou travestis – em seus planos individuais de formação e fortalecimento de lideranças. Cada selecionada receberá uma bolsa mensal de R$3.500 durante 18 meses, que poderá ser usada para formações técnicas, políticas e socioemocionais, além de mentorias, aquisição de equipamentos e participação em eventos estratégicos.

A segunda edição do Programa Marielle Franco, realizada em parceria com a Fundação Kellogg, Fundação Ford, Open Society Foundation e Instituto Ibirapitanga, tem como objetivo ampliar a presença de mulheres negras em posições estratégicas de liderança política, social e econômica. 

Criado em 2019, o Programa Marielle Franco já apoiou 59 mulheres negras de 19 estados e do Distrito Federal, com idades entre 22 e 69 anos. Diversas  lideranças,das artes, ciência, direitos humanos e educação, ampliaram sua atuação com apoio do Baobá. 

Segundo Fernanda Lopes, diretora de Programa do Baobá, esta edição é mais uma oportunidade de impulsionar lideranças femininas negras comprometidas com o enfrentamento ao racismo patriarcal e a construção de uma sociedade justa. É também mais uma oportunidade de reafirmar o compromisso do Fundo Baobá em criar redes de apoio, ampliar a presença de mulheres negras em posições estratégicas e fortalecer suas trajetórias em diferentes áreas.

Ao impulsionar lideranças femininas negras em diferentes áreas do conhecimento, como ciência de dados, arquitetura, psicologia e engenharia, entre outras, o Fundo Baobá fortalece narrativas positivas sobre o protagonismo dessas mulheres e reafirma seu papel central na transformação do Brasil em uma sociedade mais equitativa.

Midiã Noelle, mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia, é a outra donatária da primeira edição. Em 2022, compartilhou sua experiência em um vídeo. “Fui uma das aceleradas do Programa Marielle Franco e foi uma experiência muito importante porque pude fortalecer minha liderança. Eu tinha o entendimento, fiz a minha proposição para entrar no processo, mas eu não reconhecia as minhas potencialidades individuais e como eu poderia construir o meu projeto de vida a partir daquilo que eu amo e acredito. O processo com o Baobá foi importante para eu entender, de fato, qual é meu compromisso comigo mesma”, disse. 

As inscrições para o Programa Marielle Franco: Apoio Individual são gratuitas e estão abertas de 11 de setembro a 14 de outubro no site https://baoba.org.br/home/programa-marielle-franco-apoio-individual/. O resultado final será divulgado em 09 de janeiro de 2026. 

Mulheres Negras do Piauí realizam atividades em territórios quilombolas para mobilização da 2ª Marcha de Mulheres Negras

Para ampliar e diversificar a mobilização nacional, o Comitê da Marcha das Mulheres Negras do Piauí tem intensificado os encontros com lideranças locais. No fim de agosto foram realizadas várias atividades na Comunidade Quilombola Arthur Passos, em Jerumenha (PI). Com a participação de mais de 300 pessoas das comunidades quilombolas de Brejo, Potes e Tapuio, foram debatidos temas como: Desafios e perspectivas na implementação da educação escolar quilombola, direitos humanos e justiça ambiental, defesa do território e soberania quilombola e Mulheres quilombolas na construção dos saberes e do bem-viver.

O Comitê do Piauí é composto por 32 organizações – de sindicatos a várias entidades do Movimento Negro. A construção da Segunda Marcha das Mulheres Negras 2025, que vai ocorrer em novembro, em Brasília, tem sido marcada pela força coletiva de mulheres que, em diferentes territórios do Brasil, reafirmam a centralidade da luta contra o racismo, o sexismo e todas as formas de opressão às mulheres negras. A quilombola Maria Rosalina dos Santos, 62 anos, tem se destacado nos encontros regionais organizados no Piauí ao compartilhar seus conhecimentos, que incluem sabedoria ancestral.

Para ela, um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas é a invisibilidade. E está intimamente ligado ao fato de que o processo histórico dessas mulheres é de marginalização social, econômica, política e cultural. Ainda que ocupem papel central na preservação da memória, na resistência comunitária e na defesa dos territórios, elas são frequentemente apagadas das narrativas oficiais e pouco representadas. A participação de mulheres quilombolas nesses encontros no Piauí reafirma a defesa do território, da cultura e do modo de vida comunitário.

Mais do que um espaço de organização, esses encontros regionais com as mulheres negras do Piauí são momentos de escuta, partilha e construção política. Para Maria Rosalina, a Marcha representa continuidade e esperança. E a certeza de que o caminho foi aberto em 2015 e segue pulsando e que, em 2025, envolverá mais vozes e histórias. Portanto, participar dos encontros regionais do Piauí é também garantir que as demandas das mulheres quilombolas – como acesso a políticas públicas, proteção dos territórios e valorização das tradições – estejam no centro da agenda da Marcha.

Com sua atuação, Maria Rosalina inspira novas gerações de mulheres a se organizarem, mostrando que a luta pela vida digna, pela memória e pelo futuro é um legado que atravessa o tempo. Sua voz, somada a tantas outras, reafirma que a Segunda Marcha das Mulheres Negras 2025 é uma construção coletiva que nasce a partir dos quilombos, das periferias, das aldeias e de todos os cantos do Brasil.

Ceça Santos, vice presidente da Comunidade Artur Passos

Halda Regina, principal responsável pelas atividades nesses territórios quilombolas, e representante do Comitê do Piauí, afirma que é importante priorizar a organização e participar dos encontros para conhecer melhor a trajetória dessas mulheres e suas lutas.“Não estamos sentadas, acomodadas, esperando que algum governante faça algo por nós. Somos nós, as mulheres negras, que vamos exigir dignidade e bem viver deste país. Foi duro presenciar a morte e a violência contra nosso povo, mas não estamos caladas. Nunca silenciamos”, afirma.

As ações previstas para os próximos meses são encontros de rodas de conversa descentralizados, com caráter formativo, pautando o tema central da Marcha nos municípios de Parnaíba e de Cocal, além de atividade com mulheres que professam religiões de matriz africana.

Acompanhe as atualizações da Marcha das Mulheres Negras 2025 e do Comitê Impulsor do Piauí e faça parte dessa mobilização!