“Conversa afiada” reúne mais de 100 participantes para debater a participação política de mulheres negras

No dia 26 de maio, o Fundo Baobá, junto com a Oxfam Brasil, organizou o evento virtual “Conversa Afiada – Mulheres Negras e Participação Política”, que reuniu mais de 100 lideranças femininas para debater e promover a integração e potencialização de ideias sobre representatividade e desigualdades que impactam a participação política de mulheres negras.

O bate-papo contou com duas convidadas: Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora da ONG Criola, e Robeyoncé Lima, codeputada estadual de Pernambuco, pela Mandata Juntas/PSOL, com mais quatro codeputadas. Participaram também Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, diretora de programa da organização, Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil, e Tauá Pires, coordenadora de gênero e raça dessa organização.

Na abertura do evento, Katia Maia reforçou a importância do encontro virtual para  aumentar o engajamento político daquelas que não são representadas: “é uma luta fundamental para o nosso país neste momento e a principal forma de enfrentar e combater a desigualdade é entrar nos espaços dominados por homens brancos”, afirmou.

Selma Moreira fez questão de exaltar a importância da representatividade naquela ocasião: “Me emociona ver tantos rostos de mulheres negras nesta tela”. Como diretora-executiva do Fundo Baobá, ela salientou a importância de programas que desenvolvam as habilidades de liderança de mulheres negras: “Quando a gente fala de participação política, a gente olha para os grupos que estão em cargos parlamentares. Porém, há também outros espaços de poder, como as comunidades, e os seus processos locais;  as empresas. Por isso, quando o Fundo Baobá desenvolve e lança um programa de aceleração de lideranças femininas negras, é com expectativa de contribuir para que mais mulheres representem a força da mulher negra em vários espaços e construir um novo cenário. Que possamos participar de um espaço que nos inclua”.  

Em sua fala, Lúcia Xavier (ONG Criola) também ressaltou a importância de espaços que fomentem a participação política da mulher negra na nossa sociedade. “A participação feminina negra é a afirmação do sujeito político mulher negra, que vem a público dizer o que quer, o que lhe interessa, o que lhe é de direito, mas que também vem  a público disputar poder”. Segundo ela, participação é manejar instrumentos políticos que, necessariamente, parecem naturais. “Basta dizer sim ou não e isso já é uma manifestação política, mas são instrumentos que nos ajudam a construir a nossa expressão pública, explicitando nossos interesses e nossos processos de disputa de poder e, sobretudo, nos ajudam a definir quem somos nos momentos de decisão, individual e coletiva”. Lúcia afirmou ainda que a participação da mulher negra é fundamental para a cidadania “porque, sem essa dinâmica de participação, a cidadania  não tem sentido, ela não se faz concretamente, age como título sem conteúdo.”

Frente às dificuldades encontradas neste país em garantir a participação política negra, Lúcia Xavier recorreu à história e relembrou que as mulheres negras não tinham participação política no processo de preparação para a Conferência de Durban, na África do Sul. “As mulheres negras estavam de fora do processo da conferência de Durban e, em 1999,  elas resolveram criar uma articulação que pudesse dar conta da participação de diferentes mulheres naquele contexto. A partir daí, dominaram de 1999 a 2001 todos os campos de discussão, aprendendo e ensinando a fazer política em um campo já determinado e fechado, com práticas e instrumentos que elas não dominavam”, explicou. “Então, necessariamente, não significa que a participação seja só agir sob o instituído, mas sim instituir novos processos e novas dinâmicas, nos quais a sua voz e a sua vez são projetadas.”

A codeputada Robeyoncé Lima, de Recife (PE), aproveitou o gancho deixado por Lúcia Xavier, sobre a nova dinâmica de fazer política, para exaltar a forma como ela, mulher-trans e negra, conseguiu se tornar representante na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em uma nova configuração que se constituiu na “Mandata Coletiva – Juntas”, na qual ela e mais quatro codeputadas (Jô Cavalcante, Carol Vergolino, Kátia Cunha e Joelma Carla) foram eleitas para conduzir o mesmo mandato. “É uma tentativa de trazer um novo cenário para a política e um novo contexto, sendo uma nova configuração e, até mesmo, um ‘hackeamento’, dessa política que não representa a gente. Na Assembleia Legislativa, somos a primeira experiência de uma Mandata Coletiva de participação popular antirracista e anticapitalista. Vivemos um momento em que a participação de mulheres na política, sobretudo de mulheres negras, é pouco expressiva.”

Robeyoncé também rememorou a origem da falta de participação política feminina, sobretudo a negra, na história do país e do mundo. “As mulheres só tiveram direito ao voto no ano de 1932, mesmo assim com a autorização do marido. Portanto, a história da mulher negra na política é algo muito recente. A gente vem tentando, constantemente construir, e esse espaço é negado pra gente o tempo todo”, afirmou. Depois de 80 anos da conquista do voto feminino, as mulheres são apenas 15% das cadeiras do Congresso Nacional, conforme falou a codeputada. “Em se tratando de mulheres negras, esse número cai para 3%, sendo que representamos 28% da população do país. Essa disparidade põe em cheque a falácia de que o Congresso Nacional é o sistema representativo que a gente tem no país. No final das contas, ele terminou cedendo a interesses econômicos e cedendo à ideia cultural da sociedade brasileira de que política é só para homem. O que precisamos fazer é desconfigurar esse sentido. Se quisermos reescrever a história, precisamos ter gente nossa lá dentro”. 

Com exceção das organizadoras do evento, de Lúcia, da codeputada Robeyocé e da jornalista Camila da Silva, do portal Mundo Negro, todas as demais mulheres que falaram fazem parte do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras Marielle Franco. Vanessa Barbosa, articuladora do Movimento Negro Evangélico no Recife (PE) e da Rede de Mulheres Negras Evangélicas do Brasil, foi a primeira a pedir a palavra, e destacou a importância da educação política para as pessoas em situação de vulnerabilidade, ressaltando, principalmente, as mulheres negras “No começo do ano, tivemos uma pesquisa do Datafolha mostrando que a maioria do núcleo evangélico no país é composto por mulheres negras, de baixa escolaridade e de baixa renda. Nós, do Movimento Negro Evangélico, temos nos preocupado em como fazer um processo de conscientização e educação política junto como esse povo, porque a gente sabe que o fundamentalismo religioso é expresso na bancada evangélica, nas esferas estadual e federal. E essa frente parlamentar evangélica tem prestado um verdadeiro desserviço à nossa democracia e à vida da população negra, principalmente nesse contexto de pandemia”, afirmou.

Referente ao impacto da pandemia do coronavírus na população negra, a líder Clara Marinho, que é gestora pública federal, atua na área econômica e tem acesso às previsões macroeconômicas, explicou que serão tempos desafiadores e que é necessário resiliência. “Há uma previsão, pós pandemia, de aceleração tecnológica, de uberização dos empregos, ampliação de desemprego e do subemprego. Tivemos, recentemente, o projeto da renda emergencial, que teve muitos buracos. Chegou pra gente que não precisava e não chegou pra quem realmente necessitava. O valor de 600 reais foi fixado pelo Congresso Nacional, mas quem recebeu os benefícios políticos disso foi o Executivo. Portanto, é necessário agir.”

Dentro ainda do contexto de educação política, apresentado por Vanessa Barbosa, a jornalista Camila da Silva, do portal Mundo Negro, externou sua preocupação com a juventude feminina negra. “Eu me questiono como nós, mulheres negras, conseguimos transformar todas as nossas discussões, e embasamento, em ações, pautando também a juventude negra e as meninas negras. Como a gente entende a educação nesse cenário, ainda mais considerando que o Brasil é o quarto país em número de casamentos na infância e adolescência, e grande parte deles envolvem meninas negras?”, indagou.

Ingrid Farias, advogada feminista antiproibicionista de Pernambuco, ressaltou que a discussão de fomentar candidaturas de mulheres negras deve ser pautada dentro dos próprios partidos políticos. “A dificuldade em se ter uma mulher dentro da política começa dentro dos próprios partidos políticos, ditos progressistas, que minimizam a nossa luta dizendo que assuntos de identidade não podem estar acima de assuntos relacionados à crise política. Sempre que tentamos colocar o debate racial no centro da questão, somos tidas como loucas, que querem mudar o foco diante de um momento de crise, sendo justamente nesses momentos que devemos levantar essas questões”.  Ela também destacou que a esquerda não conhece a classe trabalhadora, quem a compõe nem quem faz as cidades e suas riquezas. Dogivania Sousa, líder quilombola do Maranhão, reforçou o cenário de exclusões vivenciados nos partidos e apresentou a ideia de “formar um partido apenas com mulheres.”

“Esse sistema, da forma como está estruturado, não vai nos escutar, pois está estruturado para manter privilégios”, disse Chiara Ramos, do Coletivo Abayomi de Juristas Negras, de Pernambuco, em uma fala que ela mesma classificou como incendiária. “Ou nos articulamos para sermos uma força revolucionária ou não vamos conseguir fazer com que nos escutem e que se sensibilizem. Afinal, trata-se de um sistema construído e constituído juridicamente, politicamente e institucionalmente para nos negar a existência.”

Chrys Pereira, do Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quiteria, da Paraíba, recitou um poema dedicado a todas as participantes do evento. O texto traz luz e esperança, configurando o objetivo do encontro virtual, aliado com a missão do Fundo Baobá, que é a promoção da equidade racial dentro do eixo viver com dignidade:

“Atenção, atenção
Finalmente estamos unidas fazendo revolução
É Preta que questiona
É Preta que tensiona
É organização ancestral que está se manifestando em nós

Recebe, Preta
Recebe
Deixa essa energia trabalhar 
Seja no parlamento, no campo, na cidade
Ou nas águas que você está
Mas tem que ser com a sabedoria das Pretas mais velhas,  
Que te forjaram nessa resistência.

Tá na hora de tu reconhecer
Que o teu conhecimento tem poder 
É poder e ninguém tira de você
Ocupa, Preta. Ocupa”