O país que queremos: foco nas comunidades que ninguém enxerga

O Brasil desconhece o Brasil. A frase, semelhante a que dá início à música “Querelas do Brasil”, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, imortalizada na voz de Elis Regina, define muito bem a falta de informações (decorrente, por sua vez, da falta do olhar) sobre o que efetivamente acontece no território nacional – sobretudo, nas regiões periféricas e quilombolas.

Permanecem distantes física, caso dos quilombos, e socialmente, como as comunidades periféricas, de quem vive nas grandes cidades. Assim, vão lidando com suas dificuldades diárias: as primeiras enfrentando o avanço do agronegócio, da exploração de recursos naturais e da terra, que pertence por direito e hereditariedade a seus moradores; as da periferias com a falta de acesso ao básico (serviços, saúde, infraestrutura) para a garantir a saúde de seus moradores. Agora, indistintamente, enfrentam também o desafio do isolamento imposto e agravado pela pandemia do coronavírus. 


Dados do censo do IBGE, de 2010, mostram que, naquele ano havia  3.224.529 domicílios, em 6.329 em favelas ou aglomerados subnormais, de acordo com a classificação do instituto. Um olhar mais atento sobre essas informações revelam significativa desigualdade, de acordo com a cor. Em 2018, era maior a proporção de negros residindo em casas sem coleta de lixo (12,5%) do que brancos (6%), sem abastecimento de água encanada (17,9% contra 11,5%) e sem rede de esgoto (42,8% contra 26,5%). Essas condições aumentam a vulnerabilidade, elevam a exposição a agentes causadores de doenças. Em nove anos, o número de aglomerados no país praticamente dobrou e o de moradores nessas condições aumentou em quase 20%.

Sarah Marques do Nascimento, educadora popular e co-fundadora do Coletivo Caranguejo Tabaiares, em Recife (PE) – e  uma das selecionadas do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco com o projeto “Fortalecimento e resgate histórico das lutas comunitárias” – destaca que a pandemia tirou véus e mostrou a realidade das comunidades a quem não queria enxergar, pois evidenciou que saneamento básico e educação têm relação direta com saúde. 

Sarah Marques do Nascimento, educadora popular e co-fundadora do Coletivo Caranguejo Tabaiares, em Recife (PE)

“Nunca tivemos acesso fácil a nada, principalmente a serviços que hoje ainda são considerados privilégios, mas são direitos.” Ela acredita que só é possível mudar essa realidade recorrendo à força dos ancestrais, principalmente das mulheres que aterraram aquele chão. “Precisamos mostrar como foi duro, mas foi lindo construir a história dessa comunidade com tantas mulheres fortes, ligadas à terra, ao território e às nossas águas, como comunidade pesqueira que somos.”

Quem também acredita na força dos antepassados para entender o momento da comunidade e transformar realidades é Andrea Sena, diretora-presidente da Associação Artístico-Cultural Odeart, de Salvador. O projeto “Mulheres, Adolescentes e jovens negros do Cabula exigindo direitos à cidade”, selecionado, em 2018 no edital “A cidade que queremos”, do Fundo Baobá, dentro do eixo Comunicação e Memória, teve como ponto de partida a história do Quilombo Cabula e a luta pelos direitos humanos (civis, políticos, sociais, econômicos e culturais) de seus moradores.

Da esq pra dir: Andrea Sena, diretora-presidente da Associação Artístico-Cultural Odeart, de Salvador (BA) e Janice Nicolin

Foi o conhecimento sobre o passado quilombola que manteve a comunidade unida e engajada em diversas atividades, especialmente as que são dirigidas às crianças e aos jovens negros. O resgate da memória incluiu, entre outras atividades, o espetáculo “Cabula Aiyê”, com música, dança, cenografia, texto. “Tivemos também atividades da oficina de comunicação que, além das postagens nas redes sociais, criou peças sobre Salvador e o Cabula com sua luta quilombola”, conta Andrea. Não foram abordados apenas os aspectos históricos dessa luta, mas também as violação dos direitos de igualdade social que a população negra vive em Salvador e em várias áreas urbanizadas do Brasil. “Violência urbana, de gênero e raça contra a mulher e a mulher negra, genocídio da juventude negra, o papel das mídias negras nas dinâmicas de denúncia contra o racismo e a divulgação das dinâmicas de afirmação da igualdade racial foram outros temas trabalhados”, explica a diretora da Odeart.

Territórios do esquecimento

Segundo ela, quando se pensa em territorialidade, o Cabula é um lugar de luta contra os direitos violados: falta saneamento, educação, escolas adequadas à questão da igualdade racial, e serviços de saúde capazes de atender a demanda das 22 comunidades. Nem todas as casas têm água potável. Rede de esgoto não há. Percebe-se, no lugar, valas e regos que passam pela porta das moradias. Além da ameaça da Covid-19, os bairros têm focos do mosquito Aedes aegypti e registram casos de Chikungunya. A oferta de hospitais e postos de saúde é insuficiente para atender as comunidades, que contam, como o Cabula, com mais de 30 mil moradores cada.

“Então, quando se fala de meio ambiente e direitos violados torna-se difícil traçar um cenário de igualdade social no Cabula”, afirma Andrea. “Agora, na pandemia, muitos perderam emprego ou tiveram remuneração cortada, uma grande maioria tem como renda familiar o trabalho informal”. 

“Vivemos aqui uma discussão contra milícia e disputa de territórios. Sabemos que essa luta pode valer nossa vida, mas não há outra outra opção que não seja a luta pelo básico: saúde, educação, bem-estar”, explica Sarah Marques do Nascimento, do  Coletivo Caranguejo Tabaiares.  Para ela, é essencial ter apoio para contar cada uma dessas histórias, com a certeza de que, assim, não serão apagadas do mapa. “Ter apoio de um um programa que leva o nome da Marielle é muito forte”, ressalta.

Protagonistas locais mudam a História

Andrea Sena, diretora-presidente da Associação Artístico-Cultural Odeart, lembra que a partir do apoio do Fundo Baobá foi possível manter um grupo de trabalho coeso e atuante. “Permitiu criar uma estrutura física, com notebook, quadro de giz, flip-chart, algumas mesas com cadeira, além de materiais pedagógicos de consumo”, diz. Até aquele momento, o trabalho era feito com doações esporádicas de simpatizantes do projeto, participantes, educadores e artistas. “Hoje a Odeart tem uma infraestrutura tímida, com uma pequena biblioteca, cozinha e três salas de aula para 18 pessoas, além de um espaço para atividades das mulheres com cinco máquinas de costura emprestadas”, enumera.

Por meio da Rede Cabula Vive, que também foi apoiada pelo Fundo Baobá para Equidade Racial em uma parceria com o Fundo Socioambiental da Caixa Econômica Federal, no período de 2018-2019, a organização dialoga e atua com outras organizações sociais civis do lugar. O resultado dessa interação levou ao desenvolvimento de um aplicativo que tenta mapear a saúde da população. Ao mesmo tempo, são promovidos encontros educativos com mulheres e jovens. “Pensar esses temas é criar estratégias para que a maioria possa ter acesso ao conhecimento por meio de dinâmicas de educação para população negra com ênfase na afirmação da identidade como caminho para a liberdade e a equidade social”, resume.

Sarah Marques do Nascimento, do  Coletivo Caranguejo Tabaiares, destaca a importância das ações realizadas na comunidade, especialmente com mulheres e crianças. Para isso, contam com o apoio do grupo AdoleScER e a Articulação Recife de Luta para mostrar que os moradores precisam ter seus direitos garantidos. Atualmente, são 5 mil pessoas e apenas uma equipe de saúde da família para acompanhá-las. É nitidamente uma relação desproporcional.

Sarah Marques do Nascimento em ação com o Coletivo Caranguejo Tabaiares – Recife (PE)

“Durante a pandemia, fazemos o trabalho de entrega de alimentos para melhorar a vida das pessoas e colocamos pias na comunidade porque nem todos têm acesso à água em casa”, desabafa. Como a fome não é apenas de comida, bicicletas rodam a região recitando poemas e músicas para ajudar no enfrentamento dos problemas. “Também entregamos kits de higiene pessoal e de limpeza da casa e promovemos o autocuidado da mulher. Participamos de um comitê de monitoramento para amenizar o impacto do coronavírus, já que o governo não assume o seu papel”.A líder comunitária afirma que o recorte racial não é visto nem considerado para pagamento da dívida histórica da sociedade com essas populações, majoritariamente formadas por negros. “Ficamos à margem, sempre. Com a pandemia, tudo o que acontece na comunidade fica mais explícito. Precisamos mostrar e tratar isso para termos acesso aos nossos direitos”. Sarah fala que a falta de reconhecimento data de 500 anos. “Falta reconhecimento do nosso povo com toda a sua riqueza, oralidade, usos das plantas medicinais, ligação com a  terra e a água”, revela.

Essas vozes anseiam ultrapassar os limites de seu território, conforme diz, e chegar às academias, ocupando debates em salas de aula e voltando para as comunidades sob a forma de ações práticas. “É importante que a gente consiga, com a nossa linguagem, falar e deixar de ser invisível”, declara.