“Rompi fronteiras e preconceitos”

Conheça a história de Dandara Rudan, a advogada que está focada em obter a licença da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para fazer diferença no enfrentamento à transfobia e ao racismo estrutural

Estudo realizado em 2016 pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABGLT) revela que 73% de estudantes que não se denominam heteressexuais já sofreram agressões verbais nas escolas, especialmente com comentários negativos sobre a sexualidade. E isso é um dos principais fatores para abandonar os estudos.

O que a pesquisa mostrou em números, Dandara Rudsan, 30 anos, natural de Santarém, no Pará, sentiu na pele. Preta, transexual, antirracista e antiproibicionista, como se define, desde cedo esbarrou em preconceitos. O impulso para superá-los veio da educação. “Sem dúvida, o acesso à educação foi e é fundamental para a conquista de espaços e habilidades estratégicas para a luta. Mas é necessário destacar que, sem a determinação, a priori, não é possível exercer esse acesso”, explica.

Sua trajetória, como a de tantas mulheres transexuais, é marcada por processos de exclusão, agressão, violação de direitos e tentativas de aniquilação no enfrentamento ao machismo. “Nascemos em uma estrutura social que, definitivamente, não reconhece a existência de nossos corpos transexuais e esse ‘não existir’ se reflete nas leis, políticas públicas e, consequentemente, na educação”,  diz.

O que não a derrubou, fortaleceu.  “Além das dificuldades que a estrutura patriarcal e racista impõe à vida das mulheres transexuais negras, a luta contra a invisibilidade (em diversos espaços) tem sido uma das principais dificuldades para se chegar até aqui.”

Dandara Rudsan, do projeto “Atitude TRANSversal: Mulher Negra Transexual da Amazônia tecendo Redes e Ampliando Horizontes

Vencidos os preconceitos iniciais, foi a vez de encarar espaços educacionais onde, longe de se praticar e estimular o livre ser e pensar, a realidade era de mais exclusão e afastamento. “Quando sobrevivemos minimamente à marginalização de nossas vidas e conseguimos entrar em espaços educacionais tradicionais, como escola e universidades, nos deparamos com um sistema que não nos cabe, não respeita e não  reconhece como legítimas nossas realidades, vivências e experiências. E aí entra a determinação.”

Dandara fala que, se fosse comparar sua luta a um carro, o acesso à educação seria o motor e a determinação o combustível para avançar. “A partir do momento que nós, travestis e transexuais, colocamos nosso primeiro pé na educação formal, tudo é enfrentamento e aí só a determinação pode nos manter lutando ou suportando as violações, o racismo, a transfobia.”

Nesse processo, foi necessário criar estratégias para ultrapassar obstáculos. “Se algo não nos cabe, a gente pega e inventa uma maneira de caber”, diz. “Minha determinação, criatividade e inovação foram cruciais para as conquistas e para trazer mais pessoas para a luta, mas reconheço que sem o apoio de uma comunidade inteira de mulheres negras cis isso não seria possível.”

Selecionada no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford, Open Society Foundations e Fundação Kellogg, com o projeto “Atitude TRANSversal: Mulher Negra Transexual da Amazônia tecendo Redes e Ampliando Horizontes”, ela afirma que as dificuldades enfrentadas no Pará por ela não se distanciam das histórias de outras mulheres trans e pretas que lutam para conquistar seus direitos.

Viver naquela região impõe dificuldades específicas, como a obrigação de lutar pela terra, pelo território e pelo meio ambiente. “O problema é que o imaginário ‘cis heteronormativo’ e a invisibilidade desses corpos, dentro dos movimentos sociais, não permite que, em um primeiro momento, se perceba a luta das mulheres transexuais e travestis que estão nesse contexto”, afirma.

A advogada reconhece que muitas companheiras transexuais e travestis, assim como a comunidade LGBTQI+, estão encabeçando lutas importantíssimas no país, atuando nas agendas de enfrentamento ao HIV, à aids e à homotransfobia, em defesa do empreendedorismo de mulheres trans. “Existem mulheres, mulheres travestis e mulheres transexuais atuando fortemente na agricultura familiar, na pesca artesanal, no extrativismo e na coleta de sementes e, mesmo assim, quase não ouvimos falar delas”, desabafa.

Desafios não faltaram nesse caminho. O maior deles foi se estruturar e apoiar a família, quando começou a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que começou em 2011 e perdurou até 2019. Sua família, assim como a comunidade, foi removida e transferida para assentamentos urbanos coletivos. Todas essas dificuldades a fortaleceram e abriram caminho para outras que vieram depois.  

Mulheres transexuais e travestis, assim como cis, aliaram-se à luta anti LGBTfobia na região da Transamazônica, criando o Coletivo Amazônico LesBiTrans, o primeiro grupo de luta exclusivamente LGBTQI+ da Cidade de Altamira e, por meio de seu projeto no Programa Marielle Franco, estabeleceram a Rede de Cooperação  Negra e LGBTQI+ Pretas & Coloridas, além do Laboratório de Ciberativismo Zarabatana Info.

Além de simbólica, a aprovação na OAB representa o fechamento de um ciclo de estudos, lutas, dificuldades. Para Dandara, que atua em postos de coordenação no Centro de Formação do(a) Negro(a) da Transamazônica e Xingu (CFNTX) e no Coletivo Amazônico LesBiTrans, isso permitirá atuar em diversos espaços do Poder Judiciário, ampliando a capacidade de enfrentamento de questões raciais e de gênero. “Para mim e para todas as mulheres pretas e trans, será a mensagem de que podemos ser e chegar aonde quisermos”, conclui.