Programa de Recuperação Econômica apoia empreendedores negros em meio à pandemia

O Programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá para Equidade Racial, foi lançado no dia 11 de novembro de 2020 em uma iniciativa que contou com a parceria com a Coca-Cola Foundation, Instituto Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim.  O objetivo era apoiar pequenos empreendimentos liderados por pessoas negras em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica no país, que tenham pequenos negócios com faturamento de até R$ 6.750,00.

Em 39 dias de inscrições abertas, a organização recebeu 700 propostas de pequenos empreendedores. Na primeira fase de triagem, 598 inscrições foram validadas, passando para a fase de avaliação das propostas em si. Dessas, 273 seguiram para a etapa de entrevistas virtuais. Elas foram realizadas pela organização FA.VELA, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Segundo Ludmila Correa, representante da FA.VELA, as conversas foram fundamentais para seleção de iniciativas empreendedoras para o programa. “Durante as entrevistas pudemos conhecer diversas realidades, ramos e formas de empreender desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, variando de entrevistas com empreendedores quilombolas, ribeirinhos, da zona rural e do meio urbano. Acreditamos que muitas iniciativas têm perspectiva de expansão, promovendo impacto territorial por meio da geração de renda, desenvolvimento sócio econômico, fortalecimento da atuação em rede, entre outros benefícios. O processo de entrevistas foi fundamental para o diálogo e entendimento da realidade de cada empreendedor, possibilitando verificar a adequação da iniciativa proposta para o programa, assim, colaboramos recomendando os participantes de forma mais assertiva e coerente”.

Ludmila Correa, gerente de projetos e programas do Fa.Vela

Após o processo de entrevistas, 141 iniciativas  foram recomendados ao comitê selecionador, que elegeu as 47, cujos nomes foram divulgados no dia 26 de fevereiro e serão contempladas com os recursos financeiros e de formação do programa. Uma das integrantes do comitê selecionador foi a consultora de negócios de diversidade e inclusão, Caroline Conceição Moreira: “Acredito que, por eu trabalhar com empreendedorismo, consegui contribuir com meu olhar de eterna captadora de talentos. Foi uma experiência incrível poder acessar tantos projetos potentes e saber que estas pessoas terão uma oportunidade incrível de potencializar seus empreendimentos”. 

Quem também utilizou a profissão ao seu favor, durante a sua participação no comitê selecionador, foi a psicóloga e diretora da Teçá Impacto, Marcela Bacchin: “Fiquei muito honrada de poder fazer parte do comitê de seleção do edital e trouxe meu conhecimento de 15 anos no apoio de empreendedores da base da pirâmide como estratégia de combate à pobreza, à serviço da definição de critérios para avaliação de maturidade das propostas e de um olhar propositivo de equilibrar a seleção com recorte de gênero, e territorialidade”. Marcela acredita que esse equilíbrio durante a seleção das iniciativas fez justiça aos selecionados: “Dessa forma, o grupo participante do comitê teve uma atuação de garantir o equilíbrio territorial dos investimentos e a prioridade para projetos do nordeste, liderados majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQI+”.

Marcela Bacchin, psicóloga e diretora da Teçá Impacto

Foi esse entendimento e processo coletivo entre os membros do comitê que ganhou elogios do diretor da Techsocial, conselheiro do Anjos do Brasil – um grupo de investidores anjo – e também conselheiro fiscal do Fundo Baobá para Equidade Racial, Marco Fujihara: “Eu gostei muito porque, principalmente, foi um processo coletivo, não foi a minha opinião sozinha que influenciou na escolha, mas todo processo coletivo é muito rico, porque você ouve a opinião das pessoas, elas ouvem a sua opinião, e você acaba achando um caminho do meio sempre, não tem aquele melhor ou pior”. Assim como também elogiou as iniciativas apoiadas: “Eu gostei muito das iniciativas empreendedoras inscritas pelo vínculo comunitário que elas tinham, o que tornou tudo bastante criativo e produtivo”. 

Marco Fujihara, diretor da Techsocial e conselheiro fiscal do Fundo Baobá

Para a psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva, Crisfanny Souza Soares, integrar o comitê foi um privilégio: “Estar em contato com ideias e iniciativas empreendedoras que virão a ser respostas efetivas na recuperação da economia e no desenvolvimento de modelos de negócios inovadores, trouxe para roda a visão de quem conhece, reconhece e apoia quem movimenta a economia brasileira: os 99% micro e pequenos empreendedores, e investiu no desenvolvimento de metodologias de apoio, parcerias de acesso para inclusão produtiva”. 

Outro membro do comitê foi Marcelo Rocha, mais conhecido como DJ Bola, um dos articuladores do coletivo A Banca. Para ele, integrar o comitê selecionador foi um grande aprendizado, além de uma imensa felicidade também: “Quando a Selma Moreira (diretora-executiva do Fundo Baobá) me disse que havia mais de 700 inscritos buscando apoio para tocar as suas iniciativas no Brasil todo, eu me senti muito feliz, porque isso é uma evidência do quanto o povo negro é potente e o quanto de mudança tem as quebradas”. Na visão do produtor cultural, a periferia tem uma enorme potência e bagagem, e iniciativas como o programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá, potencializa ainda mais os talentos existentes nesse meio: “A gente tem que sair dessa ótica da escassez, porque a periferia tem muito conteúdo, tem muito produto e tem muito serviço. Então, o Fundo Baobá conseguiu evidenciar mais uma vez a luta do povo preto, do pessoal LGBTQ+ e das mulheres, elas que sempre tiveram à frente iniciativas que trouxeram transformações dentro de casa, e agora elas estão à frente de iniciativas empreendedoras”.

Marcelo Rocha, DJ Bola, um dos articuladores do coletivo cultural A Banca

A pandemia da covid-19 ainda não chegou ao fim, pelo contrário: mesmo com a vacina aprovada em território nacional e com um plano de imunização que pretende vacinar toda a população ainda esse ano, apenas uma fatia minúscula da população recebeu a segunda dose da vacina até o momento, enquanto a média móvel diária de novos casos da doença atingiu patamares surpreendentes, com expectativa de chegarmos a meio milhão de mortes em breve. Com os governos estaduais implementando medidas sutis de isolamento para conter o avanço da doença e o colapso hospitalar, que acarreta  falta de leitos, estresse e exaustão de profissionais, os comércios e os pequenos empreendimentos voltam a fechar, o que resulta também em uma crise financeira. Entretanto, é preciso afirmar que os pequenos empreendimentos negros são de sobrevivência e existem, desde antes da crise sanitária, num contexto de desigualdade e racismo estrutural. Justamente dentro desse contexto que considera a relevância de ações como o Programa de Recuperação Econômica, considerando que a população negra, independente do cenário, é mais penalizada com as desigualdades: “A proposta do edital de recuperação econômica para empreendedores negros, busca atender uma demanda de pessoas vulnerabilizadas, de forma a fortalecer a sinergia entre empreendedores e ainda trazendo impacto positivos para os territórios ao qual eles fazem parte”, afirma Marcela Bacchin. “Sendo assim, essa é uma iniciativa que promove a dinamização econômica dos territórios, o desenvolvimento de novos negócios e a geração de renda através de atividades produtivas em diferentes setores. Serão produtos e serviços oferecidos por empreendedores negros para seus territórios, gerando o desenvolvimento local e valorização da comunidade negra”, completa.

Caroline Moreira frisa a importância de ações como essa, considerando o quadro desigual que o negro se encontra na sociedade brasileira: “É de extrema importância pensar nas questões raciais como foco, tendo em vista que os empreendedores negros são os que mais se prejudicam independente do cenário e falando em pandemia com certeza o fundo é uma possibilidade incrível de criar oportunidades para empreendedoras”.

Caroline Conceição Moreira, consultora de negócios de diversidade e inclusão

Crisfanny Soares afirma que o Programa de Recuperação Econômica movimenta dois pontos cruciais para a sustentabilidade das iniciativas: “O primeiro é o acesso ao capital financeiro e o segundo é a capacitação empreendedora que apoiará a estruturação e adaptação a dos negócios neste novo contexto que exige novas habilidades”, a gerente de projetos ainda confirma que o que mais lhe chamou a atenção neste edital foi a proposta de convergir negócios e suas propostas de valor para atuação em um mesmo território: “Além de inovadora, a proposta potencializa a visão de parcerias estratégicas comunitárias que podem fortalecer a economia local e mobilizar o surgimento de novos negócios ampliando o impacto”.

Crisfanny Souza Soares, psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva

Ainda sobre a vacinação no Brasil, mas trazendo um inédito recorte racial, uma pesquisa feita pela Agência Pública, a partir dos dados de 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose da vacina, mostra que a cada duas pessoas brancas, apenas uma pessoa negra recebeu a vacina, o que equivale a 1,48% da população negra vacinada, contra 3,66% da população branca vacinada. Para Marco Fujihara, o racismo está enraizado em toda estrutura do país e medidas como essa do Fundo Baobá, ajudam a promover a equidade racial: “A questão da equidade racial tem que ser colocada na pauta do dia sempre. O racismo é uma coisa que existe, e a primeira maneira de combater o racismo é acreditar que ele existe. Portanto, esse trabalho do Fundo Baobá é necessário e tem que ser ampliado”.

Fundo Baobá divulga selecionados do Edital de Recuperação Econômica para Empreendedores/as Negros e Negras

Diante da pandemia do novo coronavírus, o Fundo Baobá, em parceria com a Coca-Cola Foundation, o Instituto Coca-Cola Brasil, o BV e o Instituto Votorantim, lançou o edital Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores/as Negros e Negras em 11 de novembro de 2020. No curto espaço de tempo de lá até o dia 25 de fevereiro deste ano transcorreu um rigoroso processo seletivo, que incluiu  entrevistas virtuais e resultou em uma lista de 47 iniciativas que receberão R$30 mil, sendo R$10 mil para cada empreendedor (a). As iniciativas selecionadas podem ser conferidas aqui.

O processo de seleção abarcou 700 propostas recebidas nos 39 dias em que as inscrições estiveram abertas.  A primeira triagem era quanto à sua adequação ao que o edital estabelecia.  A principal premissa do edital de Recuperação Econômica era o suporte necessário para iniciativas lideradas por empreendedores negros e negras que foram afetadas financeiramente dentro do contexto da pandemia. As iniciativas que poderiam se inscrever no edital deveriam atender as com as seguintes características: Ser compostas por 3 empreendedores(as) negros(as) que atuem no mesmo território; que tenham 18 anos ou mais; disponibilidade real para participar das ações propostas pelo edital; que não tenham sido eleitos para cargos no legislativo ou executivo; que não tenham projetos com objetivos políticos/partidários; que não sejam funcionários, cônjuges ou parentes até segundo grau de colaboradores das empresas que apoiam essa iniciativa (Sistema Coca-Cola e Grupo Votorantim) ou mesmo de membros dos órgãos de governança do Fundo Baobá para Equidade Racial; pessoas que não tenham sido apoiadas pelo Fundo Baobá em 2020 por edital próprio (Doações Emergenciais) ou da Coalizão Editodos.

Ao fim desse processo, 595 inscrições foram validadas, passando para a fase de avaliação das propostas em si. Dessas, 278 seguiram para a etapa de entrevistas virtuais. Elas foram realizadas pela organização FA.VELA, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Segundo Ludmila Correa, representante da FA.VELA, as conversas foram fundamentais para seleção de iniciativas empreendedoras para o programa. “Durante as entrevistas pudemos conhecer diversas realidades, ramos e formas de empreender desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, variando de entrevistas com empreendedores quilombolas, ribeirinhos, da zona rural e do meio urbano. Acreditamos que muitas iniciativas têm perspectiva de expansão, promovendo impacto territorial por meio da geração de renda, desenvolvimento sócio econômico, fortalecimento da atuação em rede, entre outros benefícios. O processo de entrevistas foi fundamental para o diálogo e entendimento da realidade de cada empreendedor, possibilitando verificar a adequação da iniciativa proposta para o programa, selecionando assim participantes de forma mais assertiva e coerente”. 

Com esse cuidadoso processo, 141 projetos foram recomendados ao comitê selecionador, que elegeu as 47 iniciativas que serão contempladas com os recursos financeiros e de formação. 

Os próximos passos para os empreendedores selecionados é a assinatura do contrato com o Fundo Baobá, que acontecerá em março, além das atividades formativas, nas quais é obrigatória a participação. Planejamento e gestão de negócios, comunicação e marketing, finanças, marco jurídico – regulamentação dos negócios e direitos, estratégias de sustentabilidade, relação com território, ação em rede e parcerias, serão os temas abordados e discutidos nas formações, que acontecerão de março a julho de 2021. Todos estes passos, além do cronograma completo, serão detalhados por e-mail, na próxima semana.

Fundo Baobá divulga lista de aprovados para a segunda fase de seleção para o edital de Recuperação Econômica para empreendedores/as negros e negras

O Fundo Baobá, primeiro e único fundo dedicado exclusivamente para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil, encerra o ano de 2020 com um importante anúncio: a lista de selecionados para a segunda etapa do processo seletivo do seu edital de Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores/as Negros e Negras. O edital foi lançado no dia 11 de novembro e as inscrições foram encerradas em 20 de dezembro. Houve 700 (setecentas) inscrições que passaram por criteriosa primeira avaliação para que 595 fossem consideradas válidas. Dessas, 273 passam à segunda fase. 

O edital de Recuperação Econômica leva em conta o suporte necessário para iniciativas lideradas por empreendedores negros e negras, que foram afetadas financeiramente dentro do contexto da pandemia. Os apoiadores da iniciativa do Fundo Baobá são a  Coca-Cola Foundation, o Instituto Coca-Cola Brasil, o BV e o Instituto Votorantim. O segmento do empreendedorismo estima que 14 milhões de afro-brasileiros desenvolvem atividades como autônomos. Destes, 29% são empregadores. Já o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) indica em pesquisa de 2018 que 40,2% dos micro e pequenos empreendimentos brasileiros são comandados por negros e negras. 

Quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil, as medidas de isolamento adotadas impactou vários setores. Os pequenos e micros que trabalham na formalidade e na informalidade também foram severamente impactados, pois tiveram que parar, a lucratividade cessou e o desespero da falta de recursos foi se instaurando.   Daí a ação do Fundo Baobá para  Equidade Racial em pensar o edital de Recuperação Econômica e buscar essas importantes empresas parceiras que, somadas, destinaram R$ 1,8 milhão para o socorro aos empreendedores negros e negras. 

A lista divulgada agora considerou como aptas a participar da segunda etapa do processo de seleção as iniciativas que cumpriram com as seguintes características: Ser compostos por 3 empreendedores(as) negros(as) que atuem no mesmo território; que tenham 18 anos ou mais; disponibilidade real para participar das ações propostas pelo edital; que não tenham sido eleitos para cargos no legislativo ou executivo; que não tenham projetos com objetivos políticos/partidários; que não sejam funcionários, cônjuges ou parentes até segundo grau de colaboradores das empresas que patrocinam essa iniciativa (Sistema Coca-Cola e Grupo Votorantim) ou mesmo de membros dos órgãos de governança do Fundo Baobá para Equidade Racial; pessoas que não tenham sido apoiadas pelo Fundo Baobá em 2020 por edital próprio (Doações Emergenciais) ou da Coalizão Editodos. Cada um deles receberá R$ 10 mil, perfazendo R$ 30 mil para cada iniciativa.

Os selecionados desta fase serão convocados para a segunda etapa, a entrevista virtual, a partir do dia 5 de janeiro de 2021. As entrevistas estarão sob responsabilidade da organização FA.vela, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Os organizadores esperam que cada um dos três sócios inscritos por iniciativa participem da entrevista, que será agendada com antecedência e realizada pelo sistema de videochamada. Caso os empreendedores/as não possuam acesso à internet, a mesma ocorrerá por chamada telefônica. A entrevista agendada não poderá ser remarcada. 

O resultado final da seleção será divulgado em  fevereiro de 2021

Aqui, o link que leva à lista de selecionados.  

 

Recuperação econômica e fortalecimento de territórios negros é um dos caminhos para a justiça social

No dia 20 de dezembro, encerram-se as inscrições do Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial, que tem apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Instituto Votorantim e Banco BV, com a premissa de dar suporte financeiro a pequenos empreendimentos, liderados por pessoas negras, em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socieconômica no país. 

A pandemia do novo coronavírus acentuou as desigualdades em nosso país, o que gera discussões sobre o que significa desenvolvimento econômico. Para o mestre em sociologia e professor na FGV (Faculdade Getúlio Vargas), Márcio Macedo, há controvérsias nas definições e formas de se medir o desenvolvimento econômico: “Para os economistas mais ortodoxos, o desenvolvimento econômico pode ser medido a partir de parâmetros como PIB (Produto Interno Bruto), renda per capita e níveis de consumo da população. O que é considerado nessa forma de se medir desenvolvimento econômico é o tamanho da economia e do mercado consumidor. Hoje somos a nona economia mundial, nosso PIB gira em torno de US$ 1,8 trilhão. Com essa definição, o Brasil se encontra à frente de países como o Canadá. Contudo, se olharmos os índices de competitividade da nossa economia, o Brasil vai para uma posição 34º na lista das economias mundiais. Além disso, se levarmos em consideração o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – unidade de medida utilizada para aferir o grau de desenvolvimento de uma determinada sociedade nos quesitos de educação, saúde e renda), o Brasil, atualmente, encontra-se na 79º posição no ranking do IDH mundial (uma lista com mais de 180 países), como divulgado pelo PNUD, em 2018”, afirma Márcio. 

Márcio Macedo, mestre em sociologia, professor e coordenador de diversidade da FGV EAESP

Curiosamente, o Brasil encontra-se há três anos nessa posição, o que pode ser considerado uma estagnação. “De forma geral, podemos dizer que o Brasil é um país com grandes desigualdades e paradoxos. Assim, eu diria que não podemos nos considerar desenvolvidos economicamente porque temos uma desigualdade social e econômica enorme”, finaliza.

Para a empreendedora na Ceilândia (DF), formada em serviço social e pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial, Wemmia Santos, o que dificulta o desenvolvimento econômico e a redução das desigualdades é a manutenção de privilégios das classes favorecidas: “Vale dizer que somos cada vez mais afetados para perder as dimensões que desvinculam o consumo do exercício da cidadania, haja vista que o modelo de inclusão adotado para o desenvolvimento econômico se deu via políticas públicas de estímulo ao consumo de bens e serviços. Ao olhar com mais cuidado para essa estrutura, fica exposta a não opção pela dissolução/diminuição das desigualdades, e também fica evidente que quanto menor seu poder de renda,  menor seu exercício de acesso ao direito de ter direitos. A face dessa realidade desafia a temática de desenvolvimento econômico, bem como denuncia outras restrições no que se refere a questões ambientais e socioespaciais”.

É aprendizado básico de economia que os recursos são escassos e que não é possível dividir com todos, mas para Wemmia Santos é preciso romper com esse mito: “As ‘crises’ e a suposta escassez de recursos são os pretextos utilizados pelo Estado para justificar sua retirada da responsabilidade social, especialmente no campo das políticas sociais. Desse modo, o desenvolvimento econômico que deveria beneficiar toda população, fomentando o acesso à cultura, esporte e lazer com garantia de mobilidade que atenda a todos, é desfavorecido em favor do capital que tenciona a construção de instrumentos baseados unicamente no planejamento público tecnicista que limita a equidade e distribuição justa de bens e serviços, favorecendo apenas os estratos privilegiados”.

Wemmia Santos, pós-graduanda em Gestão, Empreendedorismo e Inovação Empresarial e empreendedora na empresa RAIX

Para muitos, a principal forma de se emergir economicamente é empreendendo, ou,  como dizem, se tornando o seu próprio patrão e dono do próprio negócio. Muito tem se discutido sobre o empreendedorismo, muito se tem estudado sobre os melhores formatos de se investir, empreender e obter lucro, mas, considerando a deficiência no desenvolvimento economico do nosso país, pouco se dialoga sobre a formalização do empreendedorismo negro. Wemmia recorre à história para demonstrar que o debate sobre empreendedorismo, mesmo com a proliferação da internet, está longe de ser algo recente. Ela cita inclusive, a Irmandade da Boa Morte, que teve a sua fundação no século XIX, em Salvador, vindo posteriormente a se estabelecer na cidade de Cachoeira, na Bahia: “As mulheres da Irmandade vendiam quitutes e com o lucro das vendas ajudavam seus afiliados e outros negros, fugidos da escravidão, pagando suas alforrias. Ainda hoje, elas preservam essa motivação inicial, em memória ao sofrimento dos escravizados pela busca da liberdade e, dessa forma, se mantêm um exemplo notório de luta e resistência contra a escravidão. São, portanto, revolucionárias desde aquela época. Transformaram a falha de mercado do sistema escravocrata em oportunidade de viabilizar a liberdade de seu povo. Encontraram e encontram meios para solucionar questões relacionadas à redução da pobreza e desigualdade, em um cenário nada propício à participação ativa da mulher, com ênfase nas mulheres negras”.

 

Para Wemmia, é importante conhecer a história, justamente para compreender os territórios negros: “Quando resgatamos a história do Brasil, antes mesmo do sistema capitalista, fica evidente a manutenção do racismo estrutural nos territórios que a população negra se concentra e nas faixas de rendimento entre negros e não negros. Para nós é necessário conhecer e preservar a história para, só assim, consolidar ações mais igualitárias”.

 

É dentro deste contexto histórico que Marcio Macedo acredita que, quando falamos em empreendedorismo negro ou afro empreendedorismo, há uma perspectiva política envolvida.  Ou seja, são negócios de pessoas negras, que podem envolver algum tipo de relação com elementos das culturas negras e ainda ser voltados, de forma prioritária, para o consumo de pessoas negras: “Apesar de isso não ser algo novo, ele tomou um novo significado em um contexto que o mercado consumidor e a economia como um todo passam a ser vistos como  espaços de questionamento da desigualdade racial. Falar que a invisibilidade do empreendedorismo negro é efeito do racismo estrutural e empresarial é simplificar o problema. Entender o fenômeno do empreendedorismo é olhar para as relações entre raça, classes, desigualdades das mais variadas entre negros e brancos,  além da reconfiguração do mercado de trabalho dentro de uma economia neoliberal”.

 

Pesquisa realizada pelo Sebrae em 2018, a Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revela que 40,2% das micro e pequenas empresas no Brasil são comandadas por negros. A mesma pesquisa, também nos mostra que apesar dos empreendedores negros liderarem o número de micro e pequenas empresas no Brasil, quando olhamos para o faturamento é maior a proporção de empreendedores negros que possuem renda familiar mais baixa do que empreendedores brancos e – ao contrário – é maior a proporção de empreendedores brancos que possuem rendas maiores: “Esses números discrepantes seguem a mesma linha ou dimensão da desigualdade vista entre negros e brancos no Brasil. Há diferenças nas formas, modos e tipos de negócios ou empreendimentos de negros e brancos. É preciso abrir os números para verificar com mais acuidade essas diferenças e desigualdades, mas diria que estamos comparando universos bastante distintos”, afirma Márcio.

 

Outra grande dificuldade da pessoa negra que empreende diz respeito à obtenção de créditos. Um estudo realizado pela PretaHub, em parceria com o instituto de pesquisas Plano CDE e o banco JP Morgan, mostrou que 32% dos empreendedores negros tiveram crédito negado, sem explicação. Márcio Macedo diz que ter acesso a crédito no Brasil é, em geral,  algo bastante difícil e caro e mais ainda para quem é pobre: “Há uma mistura de desinformação, desconfiança e seleção prévia realizada por bancos. O ponto central é: não há linhas de crédito com taxas de juros que não sejam exorbitantes para serem oferecidas para empreendedores e microempreendedores negros, porque a maior parte deles está alocada nas faixas de classe menos abastadas, que sofrem com problemas de formalização ou com questões às vezes bastante simples de serem resolvidas, mas que impedem o acesso ao crédito”.

 

A Pandemia de Covid-19 acentuou ainda mais as desigualdades sociais e raciais. E, no caso do empreendedorismo negro, um estudo do Sebrae mostrou que durante esse período 46% dos empreendedores estavam com dívidas em atraso. Sessenta e um por cento dos que buscaram empréstimo não conseguiram, mesmo tendo pedido valores mais baixos do que os brancos: “A pandemia afetou todos os negócios, tanto de brancos como os de negros. Contudo, a pandemia também se orientou pelas desigualdades na maneira como afetou de forma desproporcional a população. Ou seja, houve uma socialização desigual dos impactos negativos da pandemia, com um número maior de mortes e perdas de pobres e negros”, ressalta Márcio Macedo. “No caso dos empreendimentos negros, a forma de resiliência tem se dado através de apoio de redes familiares e de amigos. Muitas vezes não necessariamente na manutenção do negócio, mas na tentativa de dar conta das despesas de manutenção pessoal e familiar. Muitos empreendedores negros dependem dos seus negócios para pagar suas contas mensais, ou seja, sua subsistência está vinculada ao negócio. Na impossibilidade do negócio/empreendimento funcionar, algo que ocorreu no período mais crítico da quarentena, boa parte deles ficou sem renda e teve que recorrer à ajuda do Estado, dinheiro vindo do auxílio emergencial liberado pelo governo federal, ou buscou ajuda, como já disse, com familiares ou redes de amigos”, completa.

 

Com as dificuldades, no contexto da Covid-19, o empreendedorismo negro precisou pautar estrategias de resiliência negra para se manter vivo. Sendo empreendedora desde 2017 à frente da marca RAIX, atuando no ramo do vestuário com a valorização da cultura periférica,  e atuando também na Feira da Quebrada em Brasília e na Loja Colaborativa, Wemmia acredita que uma rede de parcerias com outros empreendedores negros pode ser eficaz na forma de aceleração e apoio de pequenos negócios. Márcio Macedo também vê de forma positiva a rede de parceria entre empreendedores negros: “Essa é uma estratégia que já vem sendo colocada por organizações como a Coalizão Éditodos, que visa captar recursos e apoiar negócios de empreendedores/as negros/as. A aceleração é algo que deve ser feita, contudo, é necessário experiência no universo do empreendedorismo. O processo de aceleração deve ser capitaneado por alguma organização que tem um papel importante e “know-how” no ecossistema empreendedor”.

 

Pensando nessa experiência no universo do empreendedorismo, Márcio Macedo está à frente do projeto “Raça & Mercado”, uma iniciativa conjunta da FGV EAESP – via FGVCenn e Coordenadoria de Diversidade – Feira Preta, AfroBusiness e Diaspora.Black. O projeto tem como premissa estimular a reflexão sobre o empreendedorismo negro e o fortalecimento do ecossistema: “Entre maio de 2019 e dezembro de 2020 realizamos onze fóruns de discussão nos quais foram convidados pesquisadores, empreendedores/as, empresas, organizações da sociedade civil e setores do Estado para discutir o tema do empreendedorismo negro a partir de diversas perspectivas. Publicaremos um relatório de atividades no início de 2021 com as principais conclusões”.

 

Atuando em seu território, Wemmia Santos é coordenadora do Programa LECria, (Laboratório de Empreendimentos Criativos) um edital de fomentos para empreendedores periféricos que, a cada ano, doa R $10 mil para 10 empreendimentos. Essa iniciativa surgiu após um estudo territorial: “Estudo realizado pela Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal) aponta que Ceilândia, Águas Claras e Taguatinga são as três Regiões Administrativas com o maior número de microempreendedores individuais (MEI) no setor da cultura, nas atividades artísticas como espetáculos, fotografia e música”, segundo a empreendedora, são empresas criativas que estimulam o mercado e são responsáveis pelo aumento da qualidade de vida na região. “O LECria, tem como objetivo instigar ainda mais o empreendedorismo criativo na construção e ampliação da economia solidária entre a juventude, oportunizando a inclusão de novas formas de empreender nas artes, danças, música, comunicação entre outros nichos”. Completa.

 

Dessa forma, além de fomentar a criação a Feira da Quebrada, Wemmia traz o conceito de loja colaborativa, como forma de ligar o empreendedor com o cliente: “A loja colaborativa RAIX, na Praça do Cidadão, em Ceilândia, foi criada com o objetivo de fomentar o empreendedorismo entre jovens periféricos trazendo um formato colaborativo, que já é tendência validada, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A ideia é sermos um veículo que conecta o vendedor ao cliente, cedendo o espaço por um valor justo e acessível, espaços compartilhados tem sido uma ótima solução para empreendedores iniciais e de pequena escala que buscam otimização de custos e escoamento de estoque, tendo em vista a impossibilidade de arcar sozinhos valores fixos, como aluguel, manutenção, funcionários, divulgação, dentre outros, fazendo assim que permaneçam por mais tempo na informalidade”, completa.

 

Márcio acredita que programas de recuperação econômica, como proposto pelo Fundo Baobá, são iniciativas louváveis e importantes para o desenvolvimento e fortalecimento do empreendedorismo negro no Brasil: “É necessário que outras organizações, públicas e privadas, sigam o exemplo do Fundo Baobá com vistas a possibilitar que inovações econômicas e sociais sejam conquistadas através do empreendedorismo de pessoas negras, que beneficia a todos/as, negros/as e não negros/as”. 

 

Wemmia Santos, que é uma das mulheres apoiadas pelo Fundo Baobá no Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, também reforça o coro: “Se eu não tivesse participado de um edital de fomento, com certeza boa parte das ações que executamos hoje não seriam possíveis. Fico feliz em ver cada vez mais iniciativas que incentivam pessoas negras a buscarem seus sonhos de forma ampliada”.

Fundo Baobá lança edital para apoiar empreendedores negros e empreendedoras negras no contexto pós-pandemia

O Fundo Baobá para Equidade Racial apresentou, no dia 11 de novembro, uma grande oportunidade para micro e pequenos empreendedores. É o Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), que vai apoiar 47 negócios que precisem de um aporte financeiro para melhor se desenvolver. Esses negócios têm que ser comandados por pessoas (homens e mulheres) negras que toquem os seus negócios em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica. O investimento é de R$ 1,6 milhão, com inscrições no site do Baobá até o dia 20 de dezembro. Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votantim apoiam a iniciativa do Fundo Baobá.

As pessoas negras que empreendem sofreram mais com a recessão econômica provocada pela pandemia. “Fomentar o empreendedorismo negro, contribuindo para o desenvolvimento e ampliação das habilidades das lideranças e aceleração de seus  negócios, é um dos instrumentos necessários para que o pleno potencial da população negra seja alcançado e para que se construa uma sociedade justa”, explica Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá.

“O Instituto Coca-Cola Brasil tem como objetivo passar de milhares para milhões de jovens impactados através de programas, parcerias e ecossistema no qual atua. Impulsionar o fortalecimento dos principais afetados pela pandemia é fundamental para alcançarmos este objetivo”, afirma Daniela Redondo, diretora do Instituto.

Para assegurar um impacto mais profundo, o edital estabelece que as propostas devem ser inscritas, em conjunto, por três pequenos empreendedores(as) negros(as) que já atuem em parceria ou queiram trabalhar de maneira complementar. Não é necessário possuir CNPJ – um detalhe que favorece a adesão de pessoas de comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica. Não há restrições a identidade de gênero e a faixa etária para inscrição é de 18 anos ou mais. Propostas das regiões Nordeste e Norte ou que envolvam negócios liderados por mulheres serão priorizadas.

O edital é exclusivo para empreendedoras e empreendedores negros que tenham pequenos negócios com faturamento de até R$ 6.750,00 (seis mil, setecentos e cinquenta reais) por mês. Os(as)  selecionados(as) vão receber R$ 10 mil cada um (totalizando R$ 30 mil por iniciativa). O programa  inclui ainda mentoria: assistência técnica, formação, troca de experiência entre participantes e empreendedores(as) de sucesso.

As inscrições podem ser feitas de 11 de novembro a 20 de dezembro no site do Fundo Baobá. O programa terá início em 1 de março de 2021, após as três fases de seleção.

O apoio à iniciativa do Fundo Baobá reforça o compromisso das corporações com o combate ao racismo e promoção da equidade racial no contexto econômico brasileiro. O Fundo Baobá – primeiro e único fundo dedicado exclusivamente à equidade racial no País – agrega seu profundo entendimento do tema, de forma que o edital não seja apenas transferência de recursos, mas sim uma iniciativa transformadora nas comunidades onde estão localizados os negócios apoiados.