Benfeitoria celebra 10 anos de filantropia com “café virtual” e participação do Fundo Baobá

No dia 28 de abril, a Benfeitoria completou 10 anos de existência. Para celebrar esse marco tão importante desta plataforma de financiamento coletivo, a organização realizou um evento virtual de 10 horas de duração, com diversos convidados do setor filantrópico, para dialogar, refletir, pensar e inspirar.

A “Benfeitoria 10 anos – A.Live” contou com as participações de Dorly Neto (Powernap), Monique Evelle (Inventivos), Michaell Zappa (Envisioning Institute), Dríade Aguiar (Midia Ninja), Fabio Szwarcwald (MAM RJ), além da diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, que participou de um bate-papo ao lado da presidente do GIFE e, também, presidente da Fundação Tide Setubal, Neca Setubal.

Intitulado “Café com Cuidado (Filantropia Regenerativa)”, o bate-papo entre ambas foi conduzido pela fundadora da Benfeitoria, Tatiana Leite, que apresentou o tema abordando uma metáfora de fácil compreensão: “Quando um barco está afundando, você precisa tirar a água urgentemente, mas você precisa também fechar o furo. Falando em doações, tudo que você faz na filantropia, principalmente neste momento trágico da sociedade que estamos vivendo, você precisa urgentemente tirar a água e olhar pra isso, mas a filantropia precisa ter também um papel de regenerar o sistema e consertar o furo”.

Selma Moreira, em sua fala inicial, ressaltou a importância do evento: “É importante estar aqui hoje, construindo a história, abrindo novas formas de comunicação e rompendo barreiras. Uma nova sociedade se faz encontrando conexões nos mais diversos universos, valorizando a pluralidade e diversidade que cada um traz”.

Para Neca Setubal, ainda estamos distantes da filantropia regenerativa, mas o contexto de pandemia trouxe novos atores para a causa, além da mídia que descortinou as desigualdades sociais mostrando que os movimentos de base contribuem para uma melhor ação filantrópica: “A gente também enquanto setor executor, também começou a dar um salto para olhar e apoiar organizações da base, que é um outro ganho, este olhar das organizações para as periferias, para as organizações de negros e negras, para as organizações periféricas. Ver o quanto de potências essas organizações têm, porque se não fossem por elas e por todas as outras que se criaram, não seria possível que todas essas doações de cestas básicas, cartões alimentação, chegassem às pessoas mais vulneráveis”.

Selma concordou com a fala de Neca e acredita ser esse o caminho: “A filantropia precisa dialogar a partir desse lugar: a comunidade”, entretanto, ela reconhece os desafios para realizar o trabalho em campo: “Não é uma tarefa simples, tem muito a ser feito. Sempre foi um item complexo buscar os recursos, entendendo o que é necessário para o campo, em contrapartida do que está sendo solicitado na matriz de metas dos financiadores. Agora a gente tem um pouco mais de abertura para a escuta, para entender o que e como o campo está demandando. É o campo que deve orientar a atuação da filantropia. Precisamos atuar e permitir essa construção, entendendo que não se trata de apoiados e de quem tem o recurso para apoiar. Quem vivencia aquele drama, talvez seja um dos melhores a contribuir para a busca de solução”. Completa.

Selma falou da trajetória do Fundo Baobá como um importante agente na desconstrução da cultura colonizadora e na promoção da equidade racial: “O Fundo Baobá foi criado como legado da Fundação Kellogg, que estava encerrando a sua operação aqui no Brasil. Mas foi o movimento negro que destacou o que diziam os dados: a população que estava com falta de acesso à educação, saúde e saneamento de qualidade era justamente a população negra, periférica, LGBTQI+, além das populações quilombolas e indígenas. Olharam pra isso e pensaram em construir uma solução. Convidaram ativistas, militantes do movimento negro, professores e pessoas que estavam trabalhando na filantropia com uma cultura antirracista, e todo mundo junto construiu o que hoje conhecemos como Fundo Baobá. A gente foi construído a partir de uma mentalidade que é da criação de um fundo patrimonial, que é dinheiro, é premissa de quem já vem com uma garantia de recurso, seja de família, de empresa, de alguma forma. Isso nos garantiu protagonismo.”

Para acompanhar o evento na íntegra, basta assistir o vídeo abaixo. O Café com Cuidado, com a participação de Selma Moreira e Neca Setubal, começa a partir de 2:28:30.

Sobre a Benfeitoria

Iniciando as atividades em 2011, a Benfeitoria foi uma ideia do casal Murilo Farah e Tatiana Leite, que se tornaria uma das maiores e mais completas plataformas de financiamento coletivo do país. 10 anos depois, o movimento começa a se naturalizar no dia a dia do brasileiro, principalmente com a urgência de diversas causas neste mais de um ano de pandemia. Desde 2011, mais de 3.500 campanhas foram viabilizadas por mais de 500 mil benfeitores, que superaram os R$135 milhões em doações, sendo R$81 milhões arrecadados só em 2020, através de 220 mil pessoas.

Fundo Baobá, Benfeitoria e Instituto Coca Cola Brasil e Movimento Coletivo foram parceiros no projeto Negras Potências que apoiou 13 iniciativas e soluções de impacto para o empoderamento de meninas e mulheres negras em território nacional, focados na redução das desigualdades raciais e sociais, contando com apoio de mais de  1.200 apoiadores benfeitores.

Além de todos esses trabalhos realizados, a Benfeitoria planejou diversos conteúdos, ferramentas e projetos, como o Rio +, a Universidade do Financiamento Coletivo e o Festival Reboot. Hoje ela conta com um time de 20 pessoas dedicadas em tempo integral à organização, além de contar com um reforço de mais de 140 Sócios Benfeitores. 

Fundo Baobá na imprensa em abril

O Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com a Citi Brasil, Demarest Advogados e Amadi Technology, ainda continua reverberando na mídia. No dia 1º de abril, uma matéria sobre o edital, produzida pelo PerfifaConnection, saiu na Folha de São Paulo, chegando a ganhar destaque na home do portal. A matéria “Apoiar entrada de jovens negros na universidade é pensar sobre qual futuro queremos”, ainda foi replicada no portal do Instituto Geledés da Mulher Negra e no site da FAI (Faculdade de Iporá).

A participação da diretora executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira no evento que celebrou os dez anos da Benfeitoria, foi destaque no portal Sopa Cultural, que fez um guia completo do que iria acontecer no evento.

Um tema de suma importância foi tratado no artigo “A naturalização de sistemas e tecnologias de vigilância na pandemia” escrito pela apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Mariana Gomes, publicado no Diplomatique Brasil – Le Monde. 

Na coluna Negras que Movem publicada no Portal Geledés, contando com textos de apoiadas do supracitado Programa Marielle Franco, tivemos no mês de abril a jornalista, administradora e autora do livro “Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho”, finalista do Prêmio Jabuti 2020, Jaqueline Fraga, com o artigo “Desde a CF/88 há cotas para brancos e ricos e ninguém nunca questionou”. O texto “Das escolas informais no período escravistas às redes de apoio em TI” foi assinado pela designer, professora e tutora na CESAR School, Taís Nascimento. Enquanto a administradora, mestre em desenvolvimento econômico, com concentração em Economia Social e do trabalho, especialista em planejamento e orçamento e servidora da carreira de planejamento e orçamento federal, Clara Marinho Pereira, escreveu o texto “Sete lições de liderança que aprendi com mulheres negras”. Clara, ao lado da advogada e ativista pela infância e adolescência Mayara Silva de Souza e da especialista em gestão pública, graduada em serviço social, agente da comissão Pastoral da Terra, Brígida Rocha dos Santos, escreveram o artigo “Os legados para as meninas negras só podem ser construídos por mulheres negras que movem as estruturas”.

01/04/2021 – Folha de São Paulo – PerifaConnection: Apoiar entrada de jovens negros na universidade é pensar sobre qual futuro queremos:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/perifaconnection/2021/04/apoiar-entrada-de-jovens-negros-na-universidade-e-pensar-sobre-qual-futuro-queremos.shtml 

01/04/2021 – Portal Geledés – Apoiar entrada de jovens negros na universidade é pensar sobre qual futuro queremos:
https://www.geledes.org.br/apoiar-entrada-de-jovens-negros-na-universidade-e-pensar-sobre-qual-futuro-queremos/

01/04/2021 – FAI (Faculdade de Iporá) – Apoiar entrada de jovens negros na universidade é pensar sobre qual futuro queremos:
https://site.fai.edu.br/2021/04/apoiar-entrada-de-jovens-negros-na-universidade-e-pensar-sobre-qual-futuro-queremos/ 

27/04/2021 – Sopa Cultural – Benfeitoria celebra os dez anos de financiamento coletivo no Brasil em super live gratuita, dia 28, e anuncia primeiro prêmio voltado para o setor:
https://www.sopacultural.com/noticias/benfeitoria-celebra-os-dez-anos-de-financiamento-coletivo-no-brasil-em-super-live-gratuita-dia-28-e-anuncia-primeiro-premio-voltado-para-o-setor/ 

 

Apoiadas do Fundo Baobá

26/04/2021 – Diplomatique: Le Monde Brasil – A naturalização de sistemas e tecnologias de vigilância na pandemia – Mariana Gomes:
https://diplomatique.org.br/a-naturalizacao-de-sistemas-e-tecnologias-de-vigilancia-na-pandemia/ 

 

Coluna Negras que Movem – Portal Geledés: 

03/04/2017 – Desde a CF/88 há cotas para brancos e ricos e ninguém nunca questionou – Jaqueline Fraga:
https://www.geledes.org.br/desde-a-cf-88-ha-cotas-para-brancos-e-ricos-e-ninguem-nunca-questionou/ 

12/04/2021 – Das escolas informais no período escravistas às redes de apoio em TI – Taís Nascimento:
https://www.geledes.org.br/das-escolas-informais-no-periodo-escravista-as-redes-de-apoio-em-ti/ 

17/04/2021 – Sete lições de liderança que aprendi com mulheres negras – Clara Marinho Pereira:
https://www.geledes.org.br/sete-licoes-de-lideranca-que-aprendi-com-mulheres-negras/ 

24/04/2021 – Os legados para as meninas negras só podem ser construídos por mulheres negras que movem as estruturas – Mayara Silva de Souza, Clara Marinho e Brígida Rocha dos Santos:
https://www.geledes.org.br/os-legados-para-as-meninas-negras-so-podem-ser-construidos-por-mulheres-negras-que-movem-as-estruturas/

“É nós por nós”: 25 anos de Conaq e de luta pela sobrevivência quilombola

No dia 12 de maio, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) celebrou 25 anos de existência. No dia 14 de maio, durante a live Diálogo Intergeracional: avanços e retrocessos na luta pela terra e território, que celebrou as duas décadas e meia de histórias e lutas da Coordenação quilombola, a educadora, mestra em Políticas Públicas e Gestão da Educação, doutoranda em sociologia e coordenadora executiva da Conaq, Givânia Maria da Silva, fez questão de parabenizar o movimento: “Salve a Conaq! Viva a todos que vieram antes, viva os que estão e os que virão. A Conaq somos todos nós. Não é de um grupo, não é de uma comunidade, é do povo brasileiro, é um patrimônio do povo negro e de todos nós”. 

Live comemorativa de 25 anos da Conaq

Muito antes de ser oficializada em 1996, a trajetória da Conaq iniciou na década de 1970, mais precisamente no estado do Maranhão, conforme relembra a tecnóloga em gestão ambiental, educadora popular e coordenadora executiva da Conaq no Maranhão, Célia Pinto: “Maranhão foi o estado pioneiro na identificação das comunidades quilombolas no país, através do Centro de Cultura Negra (CCN), que fazia um levantamento da população negra rural”. Segundo Célia, esse levantamento acabou gerando um projeto chamado “Vida de Negro”, que existe até hoje, e na época foi o responsável pelo mapeamento das comunidades negras rurais do Maranhão.

Como resultado desse mapeamento ocorreu, no ano de 1986, o 1º Encontro de Comunidades Negras Rurais: Quilombos e Terras de Preto no Maranhão. Célia Pinto faz questão de lembrar que o encontro aconteceu dois anos antes da Constituição Brasileira ser promulgada e muitas das reivindicações apresentadas pela população quilombola no encontro ajudaram a pautar medidas e decretos de proteção. “Naquela época já se começava a se pensar em políticas para essa população.”

Célia Pinto, tecnóloga em gestão ambiental, educadora popular e coordenadora executiva da Conaq no Maranhão

O Maranhão realizou mais quatro encontros estaduais de quilombolas incluindo resultados do mapeamento de comunidades negras rurais que ocorriam em outras regiões do país, com a apoio de outras instituições e movimentos, como o Movimento Negro Unificado (MNU). Até aquele momento 412 comunidades quilombolas eram conhecidas. O exercício de mapeamento e reconhecimento culminou no 1º Encontro Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, realizado em Brasília, no ano de 1995. Durante o evento foi criada a “Comissão Nacional Provisória das Comunidades Rurais Negras Quilombolas”.

Cartaz do “1º Encontro Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas”, em Brasília em 1995

No ano seguinte, 1996, aconteceu o segundo encontro nacional, dessa vez na cidade de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e foi justamente lá que a Comissão Nacional Provisória deu lugar à Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq. “Como diz Socorro Guterres, a Conaq nasceu em Bom Jesus da Lapa, mas ela foi gestada no Maranhão”, em complemento, Célia Pinto brinca “e eu tive o privilégio de participar dessa gestação desde o início”.

Atualmente, a Conaq está presente em 24 estados e, a partir do processo de identificação e visibilidade das comunidades quilombolas, articula um universo com mais de 3.500 comunidades, em todas as regiões do país. 

Se Célia Pinto teve o privilégio de participar da gestação da Conaq, até chegar a coordenação executiva da mesma em 2011, ela também esteve presente nas principais conquistas da coordenação para a população quilombola brasileira, como a sanção do decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. 

Quinze anos depois desta importante conquista coletiva, a Conaq se viu lutando contra o Supremo Tribunal Federal (STF) para manter a constitucionalidade deste decreto: “Foi um processo muito difícil pra gente, muito doloroso. Nós fizemos várias idas a Brasília, várias mobilizações, várias caravanas e quando chegávamos lá, na hora, a votação era suspensa”, relembra Célia. Finalmente, no dia 8 de fevereiro de 2018, o STF decidiu que o decreto era constitucional: “Não foi por unanimidade não! Porque ainda teve dois votos imparciais e um voto contrário, mas no final das contas nós conseguimos que o STF votasse como constitucional”, lembra Célia.

Para a coordenadora executiva, além da importância de manter as demarcações e o reconhecimento das terras quilombolas, a mobilização da Conaq por essa causa gerou uma grande visibilidade para o movimento: “Nós tivemos parcerias de várias organizações, tanto políticas como jurídicas e também de comunicação. Nós elaboramos campanhas e tivemos o apoio de vários artistas”. A campanha citada por Célia é a mobilização “O Brasil é Quilombola! Nenhum Quilombo a Menos!”, que contou com o apoio e a participação de atores globais como Ícaro Silva, Sérgio Malheiros, Letícia Colin e Sophia Abrahão, além de lideranças ativistas como a professora Vilma Reis, a coordenadora geral da ONG Criola, Lúcia Xavier e a jornalista e apresentadora Maria Paula de Andrade, entre outros: “Até então, a gente vinha fazendo essas lutas, vinha fazendo esses enfrentamentos, mas muito ainda na invisibilidade. Essa questão da votação fez com que a gente também pudesse ter essa visibilidade mais pra fora, até internacionalmente. Isso pra mim foi um marco muito importante”.

A Conaq e a Covid-19

Ao longo dos 25 anos de atuação a Conaq sempre teve que lidar com questões envolvendo a política de demarcação e reconhecimento de terras quilombolas; racismo ambiental mas,  no ano de 2020, a população quilombola teve que enfrentar um novo e imenso desafio, a pandemia do novo coronavírus. Segundo dados apresentados pela própria Conaq, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), com base no monitoramento das secretarias estaduais de saúde do país, até o dia 6 de maio deste ano foram confirmados 5.345 casos de Covid 19, em 21 estados e um total de 272 óbitos em 19 estados, sendo o Pará o recordista com 80 mortes, seguidos por Rio de Janeiro (42) e Amapá (35). Para Célia, os números ainda não representam a totalidade: “Para gerar esse boletim, nós solicitamos o apoio das lideranças. Eles pegam os boletins com as secretarias municipais, mas, infelizmente, não são todos os municípios que fazem isso. Tem estados que a gente tem mais facilidade, tem estado que a gente tem mais dificuldade, inclusive de reconhecer a população quilombola como sujeito de direito. Portanto, sabemos que mesmo esses dados que a gente tem dentro da nossa plataforma, são dados que, na verdade, não são reais. Infelizmente há muitos mais mortos”, lamenta.

Aliás, foi conquista da Conaq incluir a população quilombola como grupo prioritário no plano nacional de vacinação, através da Arguição de Descumprimento de Direito Fundamental (ADPF) 742/2020, votada e aprovada pelo STF. Até o momento, apenas 9,4% da população brasileira foi vacinada contra a Covid-19 e isso, obviamente, reverbera nas comunidades quilombolas: “Do total de vacinas que estavam destinadas para a população quilombola no Maranhão, veio apenas 63%. Portanto, o número de vacinas disponibilizadas não condiz com a realidade. Ainda mais considerando que os dados que o governo possui, a respeito das comunidades quilombolas, são de 2010, são 11 anos de defasagem”, frisa Célia, que ainda revela outra triste constatação em relação à vacinação da população quilombola no estado do Maranhão: “Aqui estima que temos em torno de 1.500 comunidades quilombolas espalhadas em 117 municípios. Porém, apenas 90 municípios chegaram a receber doses de vacinas, e destes, três informaram que não têm população quilombola, mas mesmo assim receberam vacinas para vacinar quilombolas”.

Equipe da Conaq em Brasília para a “Arguição de Descumprimento de Direito Fundamental (ADPF) 742/2020”, que incluiu a população quilombola como preferencial no plano nacional de vacinação contra à Covid-19 | Foto: Walisson Braga

Diante de todos esses entraves, Célia Pinto revela de onde vem a força da Conaq para lutar cada vez mais pelas comunidades quilombolas no país: “Como costumamos dizer por aqui, somos sempre nós por nós! É um cuidando do outro, buscando os nossos saberes ancestrais, buscando essas nossas energias vitais e cronológicas. É através disso que a gente tem vencido esses desafios”. 

Em 25 anos de atividade, apesar de muitos desafios, houve muitas conquistas: a titulação de territórios quilombolas através do Artigo 68 da Constituição; o programa de Educação Escolar Quilombola; o Programa Nacional de Habitação Rural, que viabiliza a construção ou a reforma de unidades habitacionais rurais, por meio de parcerias com as Entidades Organizadoras (EO), destinadas às famílias enquadráveis no âmbito, entre elas quilombolas e indígenas; o Programa Brasil Quilombola, que compreende um conjunto de ações voltadas para a melhoria das condições de vida e ampliação do acesso a bens e serviços públicos da população quilombola, entre muitas outras que tiveram as mãos da Conaq e de muitos parceiros. 

Como Givânia fez questão de frisar na live de aniversário: “A Conaq não nasceu sozinha, a Conaq não é uma ilha, não é uma organização isolada, ela tem e bebeu na ancestralidade e essa ancestralidade não é quilombola, ela é negra”. Célia Pinto, que  compartilha o mesmo pensamento, completa:  “A Conaq nunca fez isso sozinha, ela sempre contou com grandes parceiros que até hoje estão conosco. Nesses 25 anos de luta e de resistência, tivemos muitos braços e muitas pernas construindo junto conosco. Falar da Conaq é falar que todo quilombola é Conaq. Onde estiver um quilombola, uma quilombola, lutando por garantia de direitos, lutando pela garantia da vida, é um Conaquiano. A Conaq somos todos nós”.

Racismo ambiental: saiba o que é e enxergue como ele vem acontecendo

Neste 5 de junho (sábado), o mundo vai comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente. Um dia pela conscientização de toda a população para preservação,  conservação e recuperação das fontes naturais sustentáveis. 

O mundo tem estado atento mas, embora a tônica seja “não deixar ninguém para trás”, há sempre aquelas e aqueles que ficam à margem, vítimas da degradação das fontes de recursos naturais.

Para o ativista afro-americano de direitos civis Benjamin Franklin Chavis Junior, isso constitui o Racismo Ambiental, termo criado por ele  no início dos anos 1980 e que define a desigualdade com que as etnias vulnerabilizadas estão sendo expostas, cotidianamente, aos fenômenos ambientais nocivos ao bem-estar humano. 

Chavis Junior criou a expressão Racismo Ambiental a partir da constatação de que parte da população negra nos EUA estava sendo levada a viver em localidades degradadas de várias formas. Ele define Racismo Ambiental como “a discriminação racial no direcionamento deliberado de comunidades étnicas e minoritárias para exposição a locais e instalações de resíduos tóxicos e perigosos, juntamente com a exclusão sistemática de minorias na formulação, aplicação e remediação de políticas ambientais”. 

No Brasil, 51,9% da população não tem acesso ao saneamento básico. Segundo pesquisa do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), realizada em 2016, 51,6% da população sem acesso ao saneamento básico  é pobre, sendo a maioria negra.  

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em maio de 2020 que o Brasil tem mais de 5,1 milhões de domicílios localizados em favelas, comunidades, palafitas, grotas ou vilas, baixadas ou mocambos (aglomerados subnormais). Estes territórios totalizam 13.151 e estão presentes em 734 municípios do país. Qualquer que seja a denominação há um traço comum: gente vivendo na linha da pobreza ou compondo  os estratos recém nomeados  desamparados. Gente que, pela ausência de políticas públicas de habitação,  planejamento urbano, meio ambiente e políticas sociais em geral, é levada a viver e sobreviver com os piores resultados de um ambiente degradado, ou seja, a coexistir com o pior.

Não há como não associar justiça climática a direitos humanos e justiça social. Já há mais de 500 anos os povos da diáspora negra têm sofrido os impactos negativos do que se denomina desenvolvimento. Em nome desse desenvolvimento é que são promovidas queimadas, desmatamentos e desmantelamentos que vêm despejando opressão sobre o povo preto, indígena e quilombola. 

Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey analisa a importância do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, lançado no início de maio

No dia 5 de maio, o Fundo Baobá lançou mais um importante edital. Com o financiamento da Google.org, o edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça vai apoiar entidades negras atuantes no enfrentamento do racismo, violência racial e incorreções que acontecem dentro do sistema de justiça criminal no Brasil. Uma grande iniciativa dentro de um país que fechou 2020 com a marca de 43.892 mortes, segundo o NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

Concomitantemente ao lançamento do edital, o dia 6 de maio acabou entrando para a história brasileira como o dia da maior chacina ocorrida na cidade do Rio de Janeiro desde o século passado. Após a invasão do Morro do Jacarezinho por agentes policiais, 28 pessoas foram mortas. Um policial também morreu: André Leonardo Frias, 48 anos.  A motivação alegada pela polícia para a invasão do morro seria a repressão ao aliciamento de crianças e adolescentes pelo tráfico de drogas. 

O Superior Tribunal  Federal (STF), porém, determinou em  junho de 2020 que operações policiais em comunidades não deveriam ocorrer durante o período de pandemia. Situação que seria alterada apenas em casos excepcionais, o que não seria o caso do Jacarezinho. 

O presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, comenta: “O edital mantém uma linha de coerência com a trajetória do Fundo Baobá. Este edital resgata parte dos compromissos estabelecidos ao longo da mobilização que engajou 192 instituições, lideranças e personalidades negras, principalmente da Região Nordeste do Brasil, no processo que resultou na fundação do Fundo Baobá, em 2011. Já naquele momento um dos temas identificados foi o alto nível de letalidade de jovens negros”.

Harvey cita os eixos programáticos do Fundo Baobá e o alinhamento do Vidas Negras nesses eixos. “Ao longo desses 10 anos, o Baobá vem buscando qualificar a sua atuação programática, para que possa dar conta dos desafios, não apenas nesse eixo Viver com Dignidade, como nos demais: Comunicação e Memória, Educação e Desenvolvimento Econômico. O Baobá trabalha nesses quatro eixos. O edital Vidas Negras engloba os quatro eixos estratégicos”, afirmou o presidente do Conselho Deliberativo do Fundo. 

Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), no ano de 2020 foram realizadas quase 12 milhões de abordagens policiais para revista. O contingente mais impactado por essas abordagens é o dos jovens negros da periferia. Só isso já demonstra arbitrariedade na ação policial.  “Isso é importante porque é um tema que normalmente precisaria de investimento social privado. O Baobá conseguiu construir uma parceria com a Google.org no sentido de atender a uma demanda super nítida, que trata de um tema tão emergente. Um tema para o qual a  filantropia brasileira, o investimento social privado no Brasil,  ainda não dá relevância. Portanto, é importante que o braço filantrópico de uma empresa como a Google se alinhe ao Baobá  no sentido de sinalizar para a sociedade a relevância do enfrentamento desse tema para promover equidade racial”, define Giovanni Harvey. 

Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Dina Alves (SP) e Lorena Borges (MG) falam de suas conquistas

O Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, lançado em setembro de 2019 pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, teve evento inaugural no Rio de Janeiro. Além da família da vereadora assassinada em 14 de março de 2018, estiveram presentes cerca de 250 pessoas entre elas financiadores, membros da Assembleias Geral e Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, lideranças do movimento de mulheres negras, movimento negro e do movimento feminista. O principal, porém, estava por vir quando das inscrições e definição dos nomes das mulheres que receberam apoio financeiro e técnico para ampliação de suas habilidades.  

Entre tantas mulheres que, com seus esforços, vêm transformando as vidas de outras estão a advogada, atriz e mestra em Ciências Sociais Dina Alves e a também advogada, com pós-graduação em Direito Penal, Lorena Borges. A primeira é de São Paulo e a segunda, de Minas Gerais.  

O fato de estarem sendo apoiadas pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco tem dado um incremento maior à vida dessas mulheres. Dina, por exemplo, tem utilizado as diferentes plataformas em que atua para ampliar a defesa dos direitos  das mulheres negras. “Minha atuação está focada em múltiplas dimensões (profissional, acadêmica e ativista) na luta e defesa intransigente pela vida das mulheres negras. Atuar nestas dimensões tem me permitido construir uma agenda de Direitos Humanos racializada junto a mulheres negras em diferentes pautas. Assim,  tenho construido redes e identificado atores  na luta contra o genocídio antinegro a partir da pauta do encarceramento e mortes” diz. 

Dina Alves, advogada, atriz e mestra em Ciências Sociais

Lorena Borges encontrou significância na atuação com os povos quilombolas e na defesa de sua cultura em Minas Gerais. “Atuo como diretora cultural de eventos da Juventude de Terreiro Cenarab – MG (Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira). Faço parte da comunidade quilombola Manzo N’gunzu Kaiango, onde atuo no desenvolvimento, gestão e execução de projetos. O nosso principal eixo de atuação é o desenvolvimento e emancipação das mulheres da nossa comunidade. Meus trabalhos são voltados para o empoderamento e para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, onde a igualdade de gênero e racial estejam presentes. Para isso organizo e ministro formações, palestras e oficinas em comunidades tradicionais de matriz africana”, afirma.

O trabalho que Lorena vem desenvolvendo tem ajudado na preservação da memória cultural das raízes africanas. “Através deste trabalho alcançamos o fortalecimento e a criação de redes entre nós, que além de possibilitar troca de saberes também ajudam na organização das comunidades tradicionais de matriz africana e geram visibilidade e engajamento para nossas ações”, diz. Já o trabalho de Dina tem foco nas mulheres encarceradas. “A construção de redes em torno do debate sobre encarceramento em massa, feminismo negro e abolicionismo penal passa pelo fortalecimento da nossa identidade de mulher negra na luta antirracista. Estes anos de estudos e ativismo me proporcionaram acúmulo teórico e inspiração para fortalecer as redes e os vínculos com diversos coletivos feministas nacionais e internacionais”, conclui. 

Lorena Borges, advogada com pós-graduação em Direito Penal

Ser parte do Programa de Aceleração tem contribuído para que Dina siga investindo na defesa das mulheres privadas de liberdade e ainda incremente o intercâmbio entre as mulheres negras em diferentes territórios. “O fortalecimento das redes de mulheres negras traduz-se em fortalecimento da nossa autonomia, independência e autoconhecimento. As trocas sobre a política do autocuidado e da importância da preservação de dados pessoais – num contexto de assustador incremento da violência contra as mulheres negras – são conquistas imensuráveis”, afirma Dina. 

Lorena Borges também comemora o fato de estar no Programa de Aceleração. “Os avanços na minha formação acadêmica e os caminhos que venho traçando em prol de me consolidar como pesquisadora me trazem grande satisfação. Significa estar honrando a minha ancestralidade e contribuindo com as gerações futuras”, conclui.

Sobre o programa

O Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, é uma iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial, lançada em setembro de 2019, em parceria com a Fundação Kellogg, Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford e Open Society Foundations.

O intuito do Programa é fomentar lideranças femininas negras, de forma individual ou coletiva. Para que mulheres negras tenham mais subsídios para acessar espaços de tomada de decisão; mobilizem mais pessoas para a luta antirracista, por justiça, equidade racial e social e transformem o mundo a partir de suas experiências.

 

10 Anos do Baobá: a importância da Assembleia Geral e do Conselho Deliberativo

O texto começa com um agradecimento. Mas não é pieguice. É que ele tem muito significado para o que estará escrito posteriormente. Sim, o agradecimento é sentimental, mas também tem posicionamento político contundente. “Tenho prazer enorme em fazer parte desse time. Prazer enorme em estar desde o início dessa construção de ações, de projetos, de propostas de promoção de equidade racial no Brasil.  O Fundo Baobá tem um valor enorme para milhares de famílias brasileiras, de famílias nordestinas sobretudo. Porque aqui no nordeste está a expressão  maior de negação de direitos de todas as ordens. Quero agradecer imensamente por estar nessa organização, por fazer parte da Assembleia Geral do Baobá e poder contribuir de forma efetiva para que tenhamos uma sociedade mais justa, mais igualitária, que respeite de fato a sua diversidade.” 

A fala acima é da pedagoga Maria do Socorro Guterres, que faz parte da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial. Mas qual é o papel da Assembleia Geral e de seus membros dentro do Fundo Baobá? A própria Socorro Guterres explica: “A assembleia tem papel fundamental para a condução dos trabalhos da missão do Baobá. Os membros da assembleia têm um papel não só burocrático de aprovar e assinar atas, além da prestação de contas. O papel é de fortalecer o processo organizativo do Baobá. De construir alternativas que possibilitem a alteração dos propósitos de vida das pessoas para as quais o Baobá executa as suas ações. A Assembleia Geral não só decide, mas constrói, coordena e articula, ela decide os processos organizativos. Os processos de fortalecimento do Baobá.”

Maria do Socorro Guterres, pedagoga

Outra esfera de governança do Fundo Baobá é o Conselho Deliberativo, do qual faz parte o economista Elias Sampaio. Falando diretamente de Salvador, na Bahia, Sampaio disse: “O Conselho Deliberativo faz parte do que chamamos de Governança do Baobá. O Conselho é o elo entre a execução e os guardiões dos princípios do Baobá, que são os associados, os membros da Assembleia. O Conselho toma decisões estratégicas. É quem aponta os caminhos para onde o Baobá deve seguir e aponta correções, quando necessárias.  O papel do conselheiro é contribuir com esse debate”, afirma Elias Sampaio.  

Socorro Guterres e Elias Sampaio fazem parte da trajetória de criação do Fundo Baobá para Equidade Racial, lá na metade da primeira década dos anos 2000.  Como profissional da Educação e profissional da Economia, eles falam sobre esses dois eixos programáticos do Baobá. “O eixo educação é fundamental. A importância de ter o eixo educação desde a fundação do Fundo Baobá é pensar que ainda existe um fosso extremamente grande entre a população negra (adolescentes, jovens e crianças) e a população branca. Um fosso ainda muito grande em relação à educação. É necessário construir estratégias para a sua diminuição ou eliminação. Para que tenhamos a população negra em iguais possibilidades de acesso à educação em nosso país, isso pode ser construído e fortalecido com ações do Fundo Baobá”, afirma Socorro Guterres. 

Elias Sampaio enfatiza o papel da Economia. “A centralidade do Baobá é a Economia. Você não pode promover ação sem ter financiamento dessa ação. A grande inovação do Baobá é isso. O Baobá tem que ter mecanismos sólidos e sustentáveis de financiamento. Sem financiamento não há nenhum tipo de política pública”, afirma.

Elias Sampaio, economista

Com relação à contribuição do Fundo Baobá para a implementação da equidade racial no Brasil e o combate ao racismo, as visões dos conselheiros, por serem pessoas de muito conteúdo, como classificou Elias Sampaio, podem ser diferentes, fato que contribui ainda mais para o debate e tomada de um caminho comum.  “Acho sim que o Baobá já alcançou o propósito para o qual foi criado. Porque a promoção da equidade racial no Brasil não é só do Baobá. O Fundo Baobá  foi criado para contribuir nesse processo de construção de promoção da equidade. E tenho certeza que nesses 10 anos já cumpriu com isso. É claro que pode mais. Intensificando, continuando a implementar projetos, editais, ações que promovam e fortaleçam o exercício da cidadania de tantos sujeitos homens e mulheres, negros e negras. Podemos fortalecer o exercício de disputa de espaços de poder. Quando falo em disputa, falo no sentido do exercício sadio. Falo da possibilidade real de negros e negras estarem em espaços de poder”, diz Socorro Guterres. 

Elias Sampaio considera que a luta histórica ainda tem muito para ser equilibrada, quando questionado se o Fundo Baobá já teria alcançado o propósito de sua criação. “Não. E não poderia. Como vamos conseguir equidade racial em 10 anos se temos mais de 500 de iniquidade?  Nem que fosse com 25 bilhões de dólares, em 10 anos não conseguiriamos alterar as desigualdades históricas contra os negros no Brasil. E isso não é nenhum demérito para o Baobá. Nós não conseguimos chegar a nossa meta, pois ela é a meta de 210 milhões de brasileiros. Essa luta não é apenas dos negros, é de todos os brasileiros”, conclui.

28 de maio: Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher e Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna

Hoje celebramos duas lutas para a saúde feminina, o “Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher” e o “Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna”.

A primeira comemoração foi definida no “IV Encontro Internacional Mulher e Saúde”, que ocorreu em 1984, na Holanda, durante o “Tribunal Internacional de Denúncia e Violação dos Direitos Reprodutivos”. Nele foi discutida a mortalidade materna como o principal indicativo da qualidade de saúde ofertada para as mulheres fortemente influenciadas pelas condições socioeconômicas da população.

No Brasil, 28 de maio foi declarado pelo Ministério da Saúde como Dia Nacional da Redução da Mortalidade Materna, focando na necessidade de melhorar os serviços de atenção ao pré-natal e ao parto, bem como a capacitação dos profissionais de saúde para este atendimento.

Dados apresentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostravam no ano de 2016, no Brasil, que 1.829 mulheres morreram por causas relacionadas/agravadas por gravidez, parto ou o puerpério (período pós-parto de 42 dias). No mundo todo, 830 mulheres morreram por dia por essas causas.

Ainda sobre o Brasil, 54,1% das mortes maternas no país ocorrem entre as mulheres negras de 15 a 29 anos. A população negra feminina também tem duas vezes mais chance de morrer por causas relacionadas à gravidez, ao parto e ao pós-parto quando comparadas às mulheres brancas.

No entanto, a partir de 2020, com o avanço da Covid-19 no país, um levantamento realizado pelo Observatório Obstétrico Brasileiro COVID-19 (OOBr Covid-19), registrou que no ano passado tivemos 453 mortes de gestantes e de mães puérperas, sendo 10,5 óbitos da média semanal. Entretanto, esse número da média semanal dobrou agora em 2021, até o dia 7 de abril, foram 289 mortes (22,2 óbitos na média semanal).

O mesmo estudo mostra que a falta de acesso a tratamentos adequados é apontado com uma das principais causas do crescimento de mortes de gestantes e puérperas. Uma em cada cinco gestantes e puérperas internadas com coronavírus não tiveram acesso a UTI e cerca de 34% não foram intubadas, conforme afirma o OOBr Covid-19.

Contra à Covid-19 não existe tratamento precoce, o que imuniza o vírus é a vacina. Segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações, até o dia 23 de abril, foram vacinadas 22.295 gestantes no país, sendo a grande maioria com a vacina Astrazeneca produzida pelo Instituto Fiocruz em parceria com a universidade Oxford. O mesmo órgão apresentou um estudo informando que das três vacinas disponíveis no país, foram notificados 408 eventos adversos em gestantes, entretanto, 397 não são considerados graves, enquanto os 11 restantes, entre eles sete abortos espontâneos em gestantes vacinadas, que não sabiam que estavam grávidas, não teve associação com a vacina.

Sobre a eficiência ou contra indicações da vacina para gestantes, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou, no dia 2 de março, um documento científico com informações acerca do tema. Sobre a imunização de mulheres lactantes, a organização se pronuncia da seguinte forma: “A SBP é enfática em recomendar a vacinação de mulheres que, na sua oportunidade de vacinação, estiverem amamentando, independentemente da idade de seu filho, sem necessidade de interrupção do aleitamento materno, ressaltando todos os benefícios de ambas as ações (imunização e amamentação).” Em relação à administração de vacinas contra a Covid-19 durante a gestação, a posição da SBP é que ela poderá ser realizada após avaliação cautelosa dos riscos e benefícios e com decisão compartilhada, entre a mulher e seu médico prescritor. “As gestantes que eventualmente forem vacinadas inadvertidamente devem ser informadas pelos profissionais sobre a baixa probabilidade de risco e encaminhadas para o acompanhamento pré-natal de rotina”.

A luta diária para redução das mortes maternas e promoção do bem estar das mulheres é uma causa que envolve diversos setores da sociedade e dos governos, focando essencialmente no acesso aos serviços, numa assistência de qualidade e humanizada.

 

Movimentos e organizações sociais lançam campanha de combate à fome em meio a pandemia

A pandemia do novo coronavírus, que assola o país há um ano, trouxe um rastro de destruição que pode ser quantificado em dados: Em 12 meses, tivemos 12,5 milhões de casos e alcançamos a marca de mais de 300 mil vidas perdidas. Mesmo com a vacinação em curso, desde janeiro de 2021, até o momento, apenas 2,22% da população tomou a segunda dose da vacina contra a Covid-19, enquanto a média diária de morte tem alcançado o número de 3 mil por dia. Quanto mais tempo demorarmos para ampliar o acesso à vacinação e sem a consciência social sobre a prevenção, mais vidas serão ceifadas e outras tantas negativamente afetadas. 

A covid-19 acirrou desigualdades sociais existentes em nosso país, o aumento do desemprego, durante o período pandêmico, atingiu as populações mais vulneráveis e com isso, além da doença, um outro vilão têm assombrado essas pessoas: a fome.

Para fazer a contingência da pior crise humanitária dos últimos tempos no Brasil, a Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, 342 Artes, Nossas – Rede de Ativismo, Instituto Ethos, Orgânico Solidário e Grupo Prerrô, mobilizam suas forças para lançar a campanha de financiamento coletivo para arrecadar fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19.

A campanha “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer”, lançada no dia 16 de março, visa buscar formas de manter as ações das organizações apoiadoras nos territórios afetados pela pandemia, garantindo a saúde e a vida de lideranças territoriais e de membros do movimento negro. Aumentando a capacidade de organização e acompanhamento de famílias atendidas e, sobretudo, buscando condições estruturais e financeiras para atender milhares de famílias em extrema pobreza.

Foi realizado um mapeamento detalhado dos territórios e das famílias atendidas pelas ações de apoio humanitário promovidas pelas organizações que compõem esta campanha. O resultado prévio deste trabalho identificou 222.895 famílias a serem apoiadas e mobilizadas em periferias, favelas, palafitas, comunidades ribeirinhas e quilombolas de todo o território nacional. Famílias prioritariamente negras. 

O Fundo Baobá, com a premissa de promover a equidade racial para a população negra em nosso país, é mais um braço a somar nesta iniciativa. Assumimos o compromisso de divulgar a campanha junto às nossas bases e parceiros por meio de ações de comunicação, em eventos e outros espaços estratégicos. Falaremos da “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer” e a necessidade do apoio, participação e doação nessa empreitada. Todos podem participar dessa iniciativa, sendo pessoa física ou jurídica, o mais importante é doar.

A atuação do Fundo Baobá no combate à Covid-19, no ano de 2020, renderam cinco editais voltados para comunidade negra em situação de vulnerabilidade. Em um balanço preliminar, foram investidos mais de R$ 1.180 milhões, que beneficiaram, direta ou indiretamente, 421 indivíduos e 135 organizações, no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Para saber mais sobre a campanha “Se Tem Gente Com Fome, Dá de Comer”, e como colaborar acesse o site oficial e participe dessa iniciativa. 

Trabalho tecnológico e trajetória ativista definem a missão da Amadi Technology, apoiador do Programa Já É

O nome Amadi significa alegria e harmonia, ele veio de um ritual conhecido como Ikomojade, que dá nome ao recém nascido dentro da tradição Yorubá. “Há um ano e meio nossa filha nasceu e recebeu esse nome na comunidade tradicional de terreiro, o Ilê Alaketu Ifá Omo Oyá, da qual fazemos parte”, diz Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology, empresa que leva o mesmo nome de sua filha com o esposo e sócio Renato Racin.

A trajetória da Amadi Technology começou com Renato Racin. Trabalhando há 15 anos com informática, iniciou os seus trabalhos com o setor privado, depois contribuiu para ativistas de direitos humanos e ativistas políticos, além da comunidade de software livre. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Renato lutou por melhores condições de acesso e permanência na universidade.  

Com o aumento das demandas por trabalhos de TI com as organizações do terceiro setor, principalmente organizações que lutam pela defesa dos direitos humanos, houve a necessidade de aumentar o nível de profissionalização no atendimento dessas demandas e por uma gestão mais eficiente: “Foi então que constituímos uma sociedade, com a atual diretora-executiva Agnes Karoline”, revela Renato. Graduada em Ciências Sociais também pela UNIFESP, Agnes também possui cursos na área de gestão pública (ETEC CEPAM USP) e gestão e elaboração de projetos sociais (PUC).

Renato Racin, filosofo e sócio da Amadi Technology

Hoje, a Amadi Technology, conta com a colaboração de pessoas que constituem uma Equipe Executiva (Diretora Executiva, Coordenadora Administrativa e Financeira e Diretor de Tecnologia) e a Equipe de Tecnologia, que conta com um analista de suporte nível 1, que realiza seleção, implantação e manutenção de hardwares e software básico e de apoio, um analista de suporte pleno, responsável pelo atendimento de nível 2 e um parceiro de infraestrutura e prestação de serviços na área de elétrica, cabeamento estruturado e Circuito Fechado de TV (CFTV). “Recentemente, também passamos a contar com duas consultorias, responsáveis pelo processo de institucionalização da nossa comunicação e apoio jurídico”, conta Agnes Caroline.

Para Renato, o grande diferencial do trabalho oferecido pela Amadi Technology é a unidade da tecnologia com questões humanas: “Juntamos o trabalho tecnológico com a nossa trajetória ativista e também a experiência com a ancestralidade para dar sentido à empresa e para a missão que temos”.

A missão da Amadi Technology consiste em: 

– Oferecer recursos tecnológicos personalizados para melhorar processos internos de empresas e organizações, agregando maior produtividade por meio de uma gestão inteligente, responsável e confiável em Tecnologia da Informação e Informática. 

– Democratizar o uso das tecnologias da informação e informática, tanto em sua dimensão técnica como de apropriação digital, apresentando suas inúmeras possibilidades de uso criativo e adequado para todos os gêneros, etnias ou raças, modos de existências, lutas ou resistências e para todas as gerações.

“Tudo isso impulsionou nossa profissionalização no campo de direitos humanos e segurança da informação para o terceiro setor”, revela Agnes.

Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology e graduada em Ciências Sociais

E foi com essa vontade de mudar o mundo, oferecendo um bom serviço tecnológico, que os caminhos da Amadi Technology e do Fundo Baobá para Equidade Racial se cruzaram em 2019, conforme relembra Renato: “A diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, entrou em contato comigo para realizar a prestação de um serviço pontual de organização do parque de TI do escritório. Na oportunidade, foi possível identificar alguns recursos de produtividade que poderiam ser implantados na organização”. Hoje a parceria entre Amadi e Baobá segue forte: “Após a realização desse serviço inicial, iniciou-se uma parceria que hoje conta com um atendimento personalizado para Suporte e Gestão de TI, além de Compliance na área de proteção de dados pessoais”.

E a parceria entre Fundo Baobá e Amadi Technology se intensificou ainda mais durante a execução do “Já É: Educação e Equidade Racial”. Lançado em 2020, o Programa tem a premissa de apoiar jovens negros entre 17 e 25 anos para o acesso à universidade. As e os jovens selecionados são de regiões periféricas da cidade de São Paulo e da Grande São Paulo e receberam bolsa de estudos para frequentar aulas em um cursinho pré vestibular. O Programa conta com o apoio da Citi Brasil, Demarest Advogados e também da Amadi Technology, que foi fundamental considerando que as aulas iniciaram de forma remota, devido a Covid-19: “Após receber uma demanda operacional, para o levantamento orçamentário para a compra de notebooks e preparação dos mesmos para uso, percebemos a grandeza do Programa Já É e uma oportunidade de exercer nossa missão de facilitar os processos de democratização dos usos de tecnologias digitais”, diz Agnes. 

A Amadi Technology facilita a informatização dos alunos durante as aulas virtuais do Programa Já É: “Inicialmente realizamos uma pesquisa de equipamentos apropriados para contemplar as necessidades dos(as) estudantes do programa. Essa pesquisa inicial contou também com um estudo orçamentário e dos pré-requisitos da plataforma de estudos do cursinho..

Sugerimos também a instalação de um Sistema Operacional Livre (GNU/Linux) em todos os computadores, por conta de questões de segurança e estabilidade dos equipamentos, além de toda a economia com licenças proprietárias de software”. Afirma Renato.

O apoio ao Programa Já É do Fundo Baobá, não é a primeira e nem única incursão da Amadi Technology na esfera da equidade racial, o grupo de desenvolve o tema não apenas em outras parcerias mas dentro da própria empresa: “Apoiamos projetos em nosso território que fazem formação com mulheres na perspectiva interseccional, que é o curso das promotoras legais populares e também realizam atendimento para mulheres vítimas de violência doméstica, onde grande parte destas mulheres são periféricas e negras”, diz Agnes Karoline. “Os critérios de seleção para funcionários têm alta prioridade mulheres negras ou de comunidades tradicionais. Nossas parcerias estratégicas também contam com a sensibilidade para os debates dos direitos humanos”, reforça, acreditando que essa deve ser uma responsabilidade de todo o setor privado: “Em nossa opinião, o setor privado tem que ter responsabilidade social. Entender sua responsabilidade enquanto ator de impacto em questões de ordem econômica, política, social e cultural”.

Agnes Karoline durante a aula inaugural do “Programa Já É: Educação e Equidade Racial”

Agnes Caroline avalia de forma positiva o resultado da parceria da Amadi Technology no Programa Já É: “Conseguimos neste momento já ter entregado os computadores para os estudantes que é um recurso básico para acessar as aulas. E também ficamos disponíveis para eles dando suporte remoto às dificuldades com o hardware ou com o sistema operacional. Em breve faremos uma interação com as aulas para trazer o debate da tecnologia e segurança da informação e tecnopolítica”, que deixa também uma mensagem para todos(as) os(as) jovens participantes do Programa: “Você não está sozinho(a), a luta dos nossos ancestrais vem de muito tempo para chegarmos até aqui. Acredite em você. Todos os lugares são também pra vocês e não acredite naqueles que digam ao contrário ou menos que isso”.

Justiça Racial: o combate a injustiças históricas pode impedir a carne negra de ir de graça para os presídios

“A carne mais barata do mercado é a carne negra,
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
E vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos” 

Os versos da música A Carne, composta por Seu Jorge e Marcelo Yuca, dão uma pesada ideia da realidade vivida pelo povo preto brasileiro. O sistema prisional nacional tem na sua entranha a presença maciça do elemento negro, quer sejam homens ou mulheres. Esse é um reflexo da (in)justiça racial que impera no país. Segundo o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2019 e que teve atualização em fevereiro de 2021, o sistema Prisional Brasileiro conta com 657.844 detentos definidos por cor e raça. Desses, 438.719 (66,7%) são negros e negras. Os brancos são 212.444 (32,3%). O número de negros é o dobro que o de brancos. 

Para o doutor em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) Felipe Freitas, o modo de atuação da polícia no Brasil explica um pouco a presença tão marcante do elemento negro dentro do sistema prisional. “Em geral as decisões judiciais não reconhecem a violência policial e resistem em agir para coibir a violência de Estado. Conforme evidencia a  pesquisa do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa). Aceita-se a palavra do policial como única prova na ampla maioria dos casos apreciados no âmbito das audiências de custódia. Nos crimes de tráfico, por exemplo, 90% dos casos analisados pelo IDDD tinham como único elemento da acusação a palavra dos agentes envolvidos na abordagem”, complementa Felipe Freitas. 

Felipe Freitas, doutor em Direito, Estado e Constituição

A história brasileira vem marcando o histórico crescente da violência racial no Brasil. Um fato de peso e que veio contribuir ainda mais para isso, ocorreu durante a Conferência da Comissão Brasileira para a Anistia, realizada em 1979. Nela, o Movimento Negro Unificado (MNU) apresentou proposta sobre a questão da prisão de negros no país. “A proposta partia de uma premissa de que pessoas pobres e pretas presas também eram presos políticos. A proposta foi ridicularizada. Isso mostra como o pensamento negro foi descartado no âmbito da história brasileira”, disse o professor Freitas em recente depoimento em live realizada pela UnB durante o  ciclo Comunidades, Princípios e Processos Sociais de Exclusão, que discutiu o tema Entre Promessas de Paz e Sentenças de Guerra. 

O número de pessoas encarceradas no Brasil teve aumento percentual de 224,5% em 20 anos. O número saltou de 232.755 para 755.274. Num recorte por sexo, o relatório Mães Livres – A maternidade invisível no sistema de justiça, também elaborado  pelo IDDD em 2019, revela que, das 37,8 mil mulheres presas no Brasil, 63,5% são negras. Portanto 24 mil mulheres negras. “Seguimos desenhando um mundo onde não cabe a presença negra. Onde a presença negra não consegue sequer ser ilustrada como uma possibilidade nas nossas representações”, afirma Felipe Freitas.  Concluindo o quadro feminino dentro do sistema prisional, entre as 37,8 mil detentas, 47,3% são jovens entre 18 e 29 anos (17.879) , 51,9% possuem o ensino fundamental incompleto (19.618) e 60,1% são solteiras (22.717).

Em termos históricos, a população negra brasileira sempre tentou dialogar com as esferas do poder para o estabelecimento de uma política de tratamento igualitário e justo. Porém, segundo o professor Felipe Freitas, as inúmeras tentativas de aproximação sempre foram rechaçadas. “A relação do povo negro com a sociedade brasileira sempre foi uma relação de muita generosidade. A comunidade negra sempre ofereceu ao país o melhor: o melhor jogador de futebol; as vozes mais belas; as melhores propostas de políticas. A gente oferece ao Brasil pessoas como Benedita da Silva e Marielle Franco e a resposta da sociedade brasileira a estas ofertas generosas  são  tiros na cabeça e o massacre de crianças dormindo. Temos apostado no diálogo e a resposta do estado tem sido s violência.”, afirma. 

Os caminhos da justiça racial no Brasil, como demonstram as estatísticas, os dados históricos e as falas acima são muito sinuosos. A solução está no enfrentamento que a sociedade brasileira como um todo tem que promover.  O caminho passa pela luta. Mas a luta astuta. A luta inteligente, onde ações e palavras são os golpes mais contundentes contra o poder do racismo estruturado.

17 de maio: Dia Internacional Contra a LGBTQIA+fobia

Segundo o dicionário, a palavra “Fobia” tem dois significados, o primeiro vem de “medo exagerado”, o segundo está altamente atrelado a “falta de tolerância e aversão”. Hoje, dia 17 de maio, celebramos o Dia Internacional contra a LGBTQIA+fobia. A data é um marco, foi escolhida porque, neste dia, em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o “homossexualismo” da categoria de transtornos mentais. Passados 31 anos,  lésbicas, gays, travestis, transgeneres e outros grupos cuja identidade se constrói a partir das sexualidades, seguem reivindicando o direito de ter direitos.  O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo.

Um estudo de Isabella Vitral Pinto e colaboradores de diferentes instituições de ensino e pesquisa, membros de grupos temáticos da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), e funcionários do Ministério da Saúde, mostra que entre 2015 e 2017, foram registradas 24.564 notificações de violências contra a população LGBTQIA+ no Brasil, o que resulta, em média, quase uma notificação por hora, sendo a violência física equivalente a 75% dos casos. O mesmo estudo destaca que 50% das vítimas eram negras, destacando-se, entre elas, um elevado número de  mulheres lésbicas e mulheres trans.

Falando ainda de pessoas trans, estudo realizado pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em 2019, registrou naquele ano 124 assassinatos no Brasil. Do total de vítimas, 121 eram travestis e mulheres trans e outros 3 foram identificados como homens transgênero. Dessas vítimas, 82% eram negras. A Antra afirma em relatório que o perfilamento racial da violência contra pessoas trans se dá sob diversas formas e em diferentes contextos regionais.

Há 31 anos o “homossexualismo” foi retirado da categoria de transtornos mentais e isso é uma vitória, contudo, a transexualidade só foi retirada da mesma categoria em 2019.  

A própria ONU começou a se manifestar a favor dos direitos das pessoas LGBTQIA+ tardiamente. Assuntos como a inclusão de pessoas no mercado de trabalho, só foram discutidos pela organização no ano de 2010, quando do lançamento  da iniciativa “Construindo igualdade de oportunidades no mundo do trabalho combatendo a homo-lesbo-transfobia”, que se propôs a identificar situações de estigma e de discriminação no ambiente corporativo. Embora a iniciativa seja de suma importância, a inclusão no mercado formal ainda é um desafio.  Dados apresentados pela Antra sobre violência e morte contra transexuais, revelam que 67% dos assassinatos foram cometidos contra mulheres trans prostitutas e 64% dos casos aconteceram na rua, no exercício do trabalho informal.

Em quase uma década de atuação, o Fundo Baobá para Equidade já apoiou projetos e iniciativas de pessoas e organizações LGBTQIA+, como é o caso do Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria, fundado em 2002, na Paraíba, com o objetivo de combater a violência e o preconceito contra essas mulheres. Apoiadas no Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas: Marielle Franco, em 2019, o grupo lançou o projeto “Equidade sim! Racismo não!” que impulsionou e fortaleceu as lideranças internas, especialmente neste período de pandemia, em que as atividades se concentraram no mundo virtual: “O surgimento do Maria Quitéria é porque precisávamos de iniciativas que nos representassem além do HIV/Aids e que resgatasse nossa cidadania, promovendo a autoestima dessas mulheres”, revela Cryss Pereira, presidente do grupo, que afirma o avanço do grupo após o apoio do Fundo Baobá: “Visualizamos um avanço na disseminação de informações on-line, um maior envolvimento quanto às denúncias e quanto à propagação de postagens encorajadoras e empoderadoras para as mulheres”, completa.

Que neste dia de luta por direitos, possamos lembrar que amar em tempos de ódio é um ato revolucionário e que o Fundo Baobá, com a sua premissa de promover a equidade racial em todo território nacional, contribua para a construção de uma sociedade onde as vidas da população LGBTQIA+, as vidas negras e todas as vidas importem. 

10 Anos do Baobá: cineasta brasileiro e executiva mexicana têm passado e presente ligados à criação do Fundo Baobá

Neste ano de 2021, mais precisamente no mês de outubro, o Fundo Baobá para Equidade Racial completa 10 anos de existência. Nesse período, está consolidado como o maior fundo para promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. O Baobá trabalha com captação de recursos oriundos da filantropia e, através de seus editais, destina esses recursos  para organizações e lideranças negras que implementam ações contra o racismo e promovem a justiça social. 

Como um fundo que promove a justiça social, o Baobá tem como diretrizes o trabalho com ética e transparência, baseado em boas práticas de gestão. A busca de mecanismos de enfrentamento ao racismo e ações pela equidade racial para o povo negro brasileiro colocam o Fundo Baobá como referência no segmento da luta contra a desigualdade social no Brasil. 

Ao longo deste ano, vamos apresentar aqui as pessoas que fizeram e fazem a história do Fundo Baobá. Todas têm importância ímpar no histórico de fundação do fundo. Algumas delas sequer se conhecem. É o caso da mexicana Alejandra Garduno Martinez e do brasileiro Joel Zito Araújo. Alejandra está vivendo e trabalhando em Nova York, nos Estados Unidos. Joel Zito tem como base a cidade do Rio de Janeiro, onde trabalha e mora. 

O Fundo Baobá atua nas mais diferentes frentes. Então, para a sua formação foram chamadas pessoas das mais distintas vertentes de trabalho. Joel Zito Araújo, por exemplo, tem seu nome ligado à produção cultural do audiovisual. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Rádio, TV e Cinema pela Universidade do Texas em Austin (EUA), Joel tem como obras principais  A Negação do Brasil, As  Filhas do Vento e Meu Amigo Fela. Alejandra Garduno Martinez tem formação voltada para a área de negócios, com graduação em Relações Internacionais e mestrado em  Negócios Internacionais pela Universidade Nacional Autônoma do México. Ela trabalha para a Fundação Kellogg, principal apoiadora do Baobá. 

Joel Zito iniciou seu contato com o Fundo Baobá após um convite feito pelo antropólogo Athayde Motta e hoje faz parte da governança como membro do Conselho Deliberativo. Para ele, fazer parte do Baobá é promover a conscientização do jovem povo negro nas questões relativas ao combate ao racismo e busca pela equidade racial.  “Creio que o grande demonstrativo disto é o rejuvenescimento da militância negra. Hoje temos milhares de jovens negros combatendo o racismo em centenas de frentes”, afirmou.  

Alejandra Garduno, analisando os dez anos de surgimento do Baobá, concorda que houve muitos avanços na questão do combate às desigualdades no Brasil. “Definitivamente, fizemos progressos. A história da resistência ao autoritarismo, a abertura do espaço cívico, hoje muito ameaçada, a existência de fundos como o Baobá nos fala das conquistas e que hoje a conversa é diferente do que era há 10 anos”, afirmou. 

Alejandra Garduno, Diretora da Fundação Kellogg para América Latina

Fazendo uma volta no tempo, Alejandra relembra desafios enfrentados para a formação do Baobá. E quando há desafios no caminho de um sonho a ser alcançado, o negócio é enfrentá-los. “Existiram desafios de diferentes tipos. Há alguns anos, consolidar a estrutura da organização e garantir seu funcionamento foi um deles. Já hoje, são diferentes. Por exemplo, enfrentar o desafio de fazer investimentos coerentes com sua missão, fazer investimentos de grande valor nas comunidades e evoluir de acordo com as necessidades que surgem também em um ambiente social e financeiro instável”, disse a executiva da Fundação Kellogg. Para Joel, o maior desafio ainda está por vir. “Creio que a maior barreira é a falta de cultura de filantropia na  elite econômica brasileira. Não temos aqui o que vemos nos Estados Unidos, por exemplo: universidades com bibliotecas, centros de pesquisa, centros culturais com investimento particular de membros da elite norte-americana. Faz parte da cultura de elite de lá, “ostentar” o seu apoio a causas educacionais, de saúde, e em metas para diminuir as desigualdades sociais. A elite brasileira, que tanto copia os EUA, ignora tudo isto. Por outro lado também, a questão racial é ainda um tabu para 99% dos potenciais doadores para um fundo como o Baobá”, diz. 

Joel Zito Araújo, Cineasta e doutor em Ciências da Comunicação

A Fundação Kellogg (WK Kellogg Foundation) é a organização que propiciou a existência  do Fundo Baobá. O Fundo Baobá se constitui como o legado de trabalho e investimentos da WKKF no Brasil ao longo de décadas. Desde a sua criação, em 2011, o Fundo responde à demanda do movimento negro por ser uma instituição cuja atribuição exclusiva é apoiar iniciativas negras, ao mesmo tempo que é consistente com o compromisso da WKKF em promover a equidade racial e a saúde nas diferentes comunidades. Até 2026 a WKKF tem o compromisso de investir U$25 milhões no fundo patrimonial, criado para garantir a sustentabilidade e autonomia do Baobá. Importante destacar que, aos valores mobilizados pelo Fundo Baobá em moeda nacional a WKKF doa 3 vezes este valor para o fundo patrimonial. Quando a captação é em moeda estrangeira, a Fundação Kellog coloca duas vezes aquele valor no fundo patrimonial.

14 de maio e a sobrevivência do negro

“No dia 14 de maio, eu saí por aí
Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir
Levando a senzala na alma, eu subi a favela
Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci

Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia
Um dia com fome, no outro sem o que comer
Sem nome, sem identidade, sem fotografia
O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver”

(14 de Maio – Lazzo Matumbi)

O trecho acima é da canção 14 de Maio, de autoria do cantor, compositor e ativista baiano Lazzo Matumbi. A letra traça um panorama do que aconteceu com a população negra um dia depois do 13 de maio de 1888, o dia em que foi assinada a Lei Áurea, que concedia a libertação dos escravos em território nacional.

Nessa data, em torno de 750 mil negros e negras foram mantidos fora da competência do Estado, sem qualquer tipo de amparo legal ou medida afirmativa por parte do Estado e das próprias pessoas que detinham o poder, esse sustentado pelo trabalho, até então imprescindível, desses negros e negras. Sendo assim, o dia 14 de maio se tornou um dia de reflexão para a população negra ex-escravizada, que não tinha o que comer, o que vestir e onde morar, como canta Lazzo Matumbi. A cultura negra continuou a ser marginalizada e leis foram criadas para proibir sua exibição em público. Dois anos depois de a  Lei Áurea entrar em vigor, a Lei dos Vadios e Capoeiragem, de 1890, determinava que pessoas maiores de 14 anos que não trabalhavam e ofendessem “a moral e os bons costumes”  poderiam ser detidas. Dentro da mesma lei havia um decreto que tornava crime a prática da capoeira e de rodas de samba em ruas e praças públicas, considerando as duas manifestações artísticas uma “perturbação social”. 

Se Lazzo Matumbi canta que no dia 14 de maio o negro “subiu a favela pensando em um dia descer”, realmente, como completa a letra, ele nunca desceu. Não desceu por falta de políticas públicas que reintegrassem o negro, já não escravizado,  à sociedade. Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o perfil da população das principais favelas do país, existe a predominância da população negra na periferia. O estudo mostra que 40,1% das casas são chefiadas por homens negros e 26% por mulheres negras, contra 21,3% por homens brancos e 11,7% por mulheres brancas. Os dados da Rede Nossa São Paulo, apresentados em 2019, mostram que 32% da população da cidade de São Paulo se identificam como negros, mas em bairros periféricos como o Jardim Ângela, na zona sul da cidade, a concentração dessa população chega a 60%. Em outros distritos da capital, como Capão Redondo, Parelheiros, Grajaú, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista, a população negra chega a 56%. Na região considerada nobre da cidade, no bairro de Moema, por exemplo, apenas 5,82% se autodeclaram negros.

A não descida do negro também está relacionada com a política de segurança pública higienista que enxerga a população preta periférica como inimiga e pratica o extermínio sem culpa alguma, como aconteceu na favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro, na última semana. Para a jornalista, escritora e doutoranda em direitos humanos Maíra Brito, a polícia agir dessa forma com a população negra periférica é herança do período escravagista: “O historiador Luiz Antonio Simas explicou a razão da polícia assassinar civis, considerando que a função da instituição era defender propriedade de terras e seus donos – algo que acontece ainda no século 21. Ou seja, o problema das polícias não é ter dado errado, mas, sim, ter dado certo até hoje”, afirma.

O Brasil foi o último país do ocidente a abolir a escravidão. Antes do dia 13 de maio, inúmeros protagonistas negros assumiram a luta abolicionista e atuaram pelo fim da escravidão do país, como Luís Gama (1830-1822), que nasceu livre e foi vendido como escravo pelo próprio pai. Ele foi alfabetizado aos 17 anos, conseguiu a sua própria alforria judicialmente, tornou-se advogado e passou a atuar como defensor dos próprios escravos. Ao lado de Gama, nomes como José do Patrocínio, André Rebouças, Joaquim Nabuco, entre outros, reforçaram a luta abolicionista, muito antes da assinatura da Lei Áurea. Mas um epistemicídio apagou esses nomes da história do nosso país, tirando qualquer tipo de protagonismo negro diante do feito da abolição da escravatura.

A historiadora Flaviane Ribeiro Nascimento, integrante da Rede de Historiadorxs Negrxs, em seu artigo O trânsito para a liberdade e a precarização do trabalho livre no final do século XIX, publicado pelo site do Instituto Geledés da Mulher Negra, explica a precarização que levou ao processo de abolição, muito diferente da suposta compaixão que a história nos fez acreditar que a Princesa Isabel teve dos negros escravizados por três séculos: “A abolição vai acontecer apenas no final do século XIX, respaldada por legisladores, depois de um conjunto de normas jurídicas que pretendiam uma ‘transição’ para o trabalho livre mediante a indenização das elites escravistas, do controle e da disciplina dessas trabalhadoras e trabalhadores que passariam a ter liberdade para negociar a força de trabalho”. Flaviane cita também outra historiadora, Wlamyra Albuquerque, para explicar o porquê da demora da abolição da escravatura em nosso país: “A resistência à abolição da escravidão foi justificada pela dependência do trabalho cativo e pela racialização do comportamento em liberdade dessas mulheres e desses homens, que seria marcada por insubordinação, desordens e perversão moral”.

É importante lembrar que antes da assinatura da Lei Áurea, o país teve outras duas leis abolicionistas assinadas: a Lei do Sexagenário, assinada no dia 28 de setembro de 1885, que libertava escravos com mais de 60 anos e considerada, por muitos, a grande “gargalhada nacional” pelo fato de praticamente nenhum escravo conseguir chegar vivo aos 60 anos. E antes, em 1871, houve a Lei do Ventre Livre, determinando que filhos de mães escravizadas fossem libertos – como se recém nascidos tivessem autonomia para seguirem suas vidas longe de suas mães escravizadas.

Completando 10 anos em 2021, o Fundo Baobá tem como missão promover a equidade racial em nosso país, investindo em iniciativas de organizações, grupos e coletivos negros, alinhados aos seus  eixos programáticos prioritários, entre eles o Viver com Dignidade. Se a escravidão retirou a dignidade do povo negro e, mesmo após a abolição, ele se viu sem trabalho, sem casa, sem saúde, sem direitos, levando a senzala na alma, como diz a canção de Lazzo Matumbi, o Fundo Baobá existe para transformar realidades, promover resistência, resiliência e reiterar que a sociedade brasileira não será uma sociedade justa, enquanto não houver liberdade e equidade racial para a população negra.

Fundo Baobá na imprensa em Março

No mês de março tivemos a aula inaugural do Programa Já É: Educação e Equidade Racial, edital do Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com o Citi Brasil, Demarest Advogados e Amadi Technology. E o evento foi destaque na Folha de São Paulo e nos principais portais de mídia negra como Portal Geledés, Portal Gongogi, Jornal Empoderado e Mundo Negro.

Também no mês de março em virtude do Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, a diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, foi homenageada na campanha “Toda Mulher é Uma Potência” da Fundação Lemann, com o objetivo de destacar a atuação das mulheres durante a pandemia do novo coronavírus. Com um poema escrito pela escritora e poetisa Ryane Leão, além de Selma Moreira, foram homenageadas, Kátia Helena Schweickardt (secretária municipal de Educação em Manaus), Sabine Righetti (diretora da Agência Bori), Patrícia Santos (professora-autora do projeto Skills for Prosperity), Isabel Opice (diretora e cofundadora da Impulso), Fernanda Roder (enfermeira e pesquisadora do Projeto Xingu) Priscila Cruz (presidente-executiva do Todos pela Educação) e a cientista carioca Sue Ann Costa Clemens.

No momento que a imagem de Selma Moreira aparece no vídeo, a poetisa Ryane Leão diz: “Mulheres que com seus projetos transformam vidas, mulheres que enxergam o que é dito invisível, mulheres que elevam comunidades inteiras, mulheres que habitam a resiliência”

A homenagem foi destaque no portal Catraca Livre, no Vida e Ação e no site da Fundação Lemann. O vídeo completo você pode assistir aqui.

Selma Moreira e a diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, também foram homenageadas pela Imaginable Futures, organização filantrópica global, que tem como missão estimular o potencial humano através da aprendizagem. A entidade foi uma das apoiadoras do Edital Para Primeira Infância no Contexto da Covid-19.

Na ocasião do Dia Internacional da Mulher, a organização fez essa postagem, com a imagem de todas homenageadas, entre elas, Selma e Fernanda:

“Hoje, no #InternationalWomensDay, celebramos as líderes femininas visionárias que estão reformulando a educação e criando oportunidades equitativas para alunos e suas famílias. Junte-se a nós para destacar nossos parceiros incríveis ao longo do dia. # IWD2021”

A postagem original (em inglês), pode ser vista aqui.  

A participação de Selma Moreira no evento Expert XP, organizado pela XP Investimentos, sobre empreendedorismo e sustentabilidade, nos dias 2 a 5 de março, e que foi noticiado em nosso site, foi destaque de uma série de matérias. O próprio site do evento destacou a participação de Selma em duas matérias que podem ser lidas aqui e aqui. Já o portal EPBR fez questão de frisar a frase dita pela diretora-executiva “Diversidade de gênero e étnica podem ampliar lucros em até 35%”. Em outra matéria, o site dá ênfase às mulheres que participaram do evento e, mais uma vez, Selma é mencionada.

Selma Moreira também participou de uma reportagem especial do jornal Estado de São Paulo, sobre diversidade e mercado de trabalho, na ocasião, a diretora-executiva do Fundo Baobá falou da importância do gestor investir na diversidade racial no mercado de trabalho: “Para chegar às novas comunidades é necessário extrapolar as estratégias utilizadas anteriormente. Fazer as mesmas coisas leva aos mesmos resultados”. 

Outros dois membros da diretoria do Fundo Baobá para Equidade Racial foram citados na imprensa em março. O presidente do conselho deliberativo da organização, Giovanni Harvey, teve a sua participação no 11º Congresso GIFE – Fronteiras da Ação Coletiva citada no site do Instituto Unibanco, enquanto a diretora de programa, Fernanda Lopes, foi citada no site da Abrasco pelo o artigo de sua autoria “De Volta aos Primórdios: em defesa do SUS como uma política antirracista”, que foi publicado no boletim de Análise Político-Institucional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). No texto, Fernanda traz um histórico do Sistema Único de Saúde no país, e mostra o quanto ainda são necessários avanços na incorporação da pautaracial para que os princípios e diretrizes que sustentam o SUS sejam plenos, inclusive, citando indicadores atuais: “Dados mostram que 55% dos pacientes negros, hospitalizados com Covid-19 em estado grave, morreram em comparação com 34% dos pacientes brancos. Este cenário reforça a tese de que o racismo institucional é manifesto na inação consciente das instituições públicas governamentais ante as necessidades da população negra”.

Apoiadas do Fundo Baobá 

A jornalista e apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Midiã Noelle, participou de uma live organizada pelo Observatório do Terceiro Setor, no dia 4 de março, ao lado da repórter Isabela Alves, com o tema: “O que o BBB mostra sobre o ódio da sociedade brasileira”. A live na íntegra pode ser vista aqui.

O site da Prefeitura de Curitiba divulgou o evento “Afroempreender & Crescer”, que aconteceu no dia 4 de março e tinha a premissa de conectar e integrar os afroempreendedores da cidade usando a tecnologia. O evento virtual foi organizado pela iniciativa ConectAfro, que é formada pelas empreendedoras, Carolina Lopes, Olenka Borba e Roberta Kisy, todas selecionadas no edital Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores (as) Negros (as), uma iniciativa do  Fundo Baobá, cujas atividades foram recentemente iniciadas  e que conta  com o apoio da Coca-Cola Foundation, Instituto Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim.

A ativista e apoiada do Programa Marielle Franco, Jéssica Vanessa, foi entrevistada pelo portal Alma Preta, na matéria que denuncia o fato de Recife ainda não contar com uma Comissão de Igualdade Racial na Câmara dos Vereadores do município. Na matéria, Jéssica acredita que a criação da comissão vai funcionar como importante ferramenta de diálogo. “A política de inclusão racial está acima de qualquer bandeira partidária e ideológica e é uma das mais importantes para que se possa haver formulação de leis para o enfrentamento efetivo ao racismo e às discriminações contra as populações negra”. A matéria completa você pode conferir aqui

No mês de março, o Instituto Geledés da Mulher Negra, trouxe de volta ao seu portal a coluna “Coletiva Negras que Movem”, com artigos escritos pelas integrantes do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. A reinauguração aconteceu no dia 6, com o texto Desafios das mulheres negras no mercado de trabalho, de autoria de Clara Marinho, servidora da carreira de planejamento e orçamento federal. No dia 13, foi a vez da advogada Mayara Silva de Souza escrever o artigo As últimas depois de ninguém: meninas em privação de liberdade. No dia 20, a coreógrafa e oloya Leandra Silva assinou o texto Que Oxum nos dê olhos de ver Vênus. É ano novo no céu. E no dia 27, a marketeira digital e fundadora do LAB the Creator, Vitorí da Silva, escreveu o artigo Internet como ferramenta revolucionária.

04/03/2021 – Expert XP – Sustentabilidade integrada à governanç estratégia e transparência são as chaves do sucesso, dizem empresários:
https://conteudos.xpi.com.br/expert-esg/sustentabilidade-integrada-a-governanca-estrategia-e-transparencia/   

04/03/2021 – Expert XP – Governança fecha ‘ciclo sustentável’ no terceiro dia da Expert ESG:
https://conteudos.xpi.com.br/expert-esg/governanca-fecha-ciclo-sustentavel-no-terceiro-dia-da-expert-esg/ 

05/03/2021 – Catraca Livre – Conheça histórias femininas inspiradoras na campanha ‘Toda Mulher é Uma Potência’:
https://catracalivre.com.br/cidadania/historias-femininas-inspiradoras-campanha-toda-mulher-e-uma-potencia/  

05/03/2021 – EPBR – Diversidade de gênero e étnica podem ampliar lucros em até 35%:
https://epbr.com.br/diversidade-de-genero-e-etnica-podem-ampliar-lucros-em-ate-35/ 

08/03/2021 – Vida e Ação – Agenda Positiva Mês da Mulher:
https://www.vidaeacao.com.br/agenda-positiva-mes-da-mulher/ 

08/03/2021 – Fundação Lemann – Fundação Lemann homenageia mulheres selecionadas em campanha:
https://fundacaolemann.org.br/releases/fundacao-lemann-homenageia-mulheres-selecionadas-em-campanha 

09/03/2021 – EPBR – Oito entrevistas que mostram que as mulheres podem (e devem) ser fontes o ano inteiro:
https://epbr.com.br/8-entrevistas-que-mostram-que-mulheres-podem-e-devem-ser-fontes-o-ano-inteiro/ 

09/03/2021 – Abrasco – Fernanda Lopes é uma das autoras de edição temática do Boletim do IPEA:
https://www.abrasco.org.br/site/gtracismoesaude/2021/03/09/fernanda-lopes-e-uma-das-autoras-de-edicao-tematica-do-boletim-do-ipea/ 

16/03/2021 – Instituto Unibanco – Ricardo Henrique participa de evento de encerramento do 11º Congresso GIFE:
https://www.institutounibanco.org.br/conteudo/ricardo-henriques-participa-de-evento-de-encerramento-do-11o-congresso-gife/ 

18/03/2021 – Folha de São Paulo – Fundo Baobá realiza aula inaugural do Programa Já É – Educação e Equidade Racial:
https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2021/03/fundo-baoba-realiza-aula-inaugural-do-programa-ja-e-educacao-e-equidade-racial.shtml 

18/03/2021 – Portal Geledés – Fundo Baobá realiza aula inaugural do Programa Já É – Educação e Equidade Racial:
https://www.geledes.org.br/fundo-baoba-realiza-aula-inaugural-do-programa-ja-e-educacao-e-equidade-racial/  

18/03/2021 – Portal Gongogi – Fundo Baobá realiza aula inaugural do Programa Já É – Educação e Equidade Racial:
https://portalgongogi.com/fundo-baoba-realiza-aula-inaugural-do-programa-ja-e-educacao-e-equidade-racial/portalgongogi/ 

18/03/2021 – Ponto E – Fundo Baobá realiza aula inaugural do Programa Já É – Educação e Equidade Racial:
https://pontoe.org/blogs/geledes/fundo-baoba-realiza-aula-inaugural-do-programa-ja-e-educacao-e-equidade-racial/

18/03/2021 – Jornal Empoderado – Em meio à pandemia, programa de apoio a estudantes negros começa em formato virtual:
https://jornalempoderado.com.br/em-meio-a-pandemia-programa-de-apoio-a-estudantes-negros-comeca-em-formato-virtual/   

19/03/2021 – Site Mundo Negro – “Já É – Educação e Equidade Racial”, programa de apoio a estudantes negros começa em formato virtual:
https://mundonegro.inf.br/ja-e-educacao-e-equidade-racial-programa-de-apoio-a-estudantes-negros-comeca-em-formato-virtual/ 

24/03/2021 – Estado de São Paulo – Carreira: Gestor de diversidade e inclusão começa a aparecer no alto escalão:
https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,carreira-gestor-de-diversidade-e-inclusao-comeca-a-aparecer-no-alto-escalao-das-empresas,1158548 

Matéria de Apoiados dos Fundo Baobá:

01/03/2021 – Observatório do Terceiro Setor – Observatório do Terceiro Setor promove lives sobre direitos humanos – Apoiada Midiã Noelle:
https://observatorio3setor.org.br/noticias/observatorio-do-terceiro-setor-promove-lives-sobre-direitos-humanos/ 

12/03/2021 – Prefeitura de Curitiba – ConectAfro usa a tecnologia para integrar afroempreendedores de Curitiba – Apoiados ConectAfro:
https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/conectafro-usa-a-tecnologia-para-integrar-afroempreendedores-de-curitiba/58249 

16/03/2021 – Alma Preta – Recife ainda não conta com Comissão de Igualdade Racial na Câmara dos Vereadores – Apoiada Jéssica Vanessa:
https://almapreta.com/sessao/cotidiano/com-populacao-de-maioria-negra-recife-ainda-nao-conta-com-comissao-de-igualdade-racial-na-camara-dos-vereadores

Coluna Coletiva Negras que Movem – Portal Geledés

06/03/2021 – Desafios das mulheres negras no mercado de trabalho – Por Clara Marinho Pereira:
https://www.geledes.org.br/desafios-das-mulheres-negras-no-mercado-de-trabalho/ 

13/03/2021 – As últimas depois de ninguém: meninas em privação de liberdade – Por Mayara Silva de Souza:
https://www.geledes.org.br/as-ultimas-depois-de-ninguem-meninas-em-privacao-de-liberdade/ 

20/03/2021 – Que Oxum nos dê olhos de ver Vênus. É ano novo no céu – Por Leandra Silva:
https://www.geledes.org.br/que-oxum-nos-de-olhos-de-ver-venus-e-ano-novo-no-ceu/ 

27/03/2021 – Internet como ferramenta revolucionária – Por Vitorí da Silva:
https://www.geledes.org.br/internet-como-ferramenta-revolucionaria/

Dia da Trabalhadora Doméstica, celebrar a classe e reinvidicar melhorias

No dia 27 de abril é celebrado o Dia da trabalhadora Doméstica. No Brasil, um grande símbolo histórico da classe é Laudelina de Campos Melo. Nascida no dia 12 de outubro de 1904, na cidade mineira de Poços de Caldas, começou a trabalhar aos sete anos de idade como empregada doméstica. Ao longo de sua trajetória ela combateu a discriminação da sociedade em relação às empregadas domésticas, sempre exigindo melhor remuneração e igualdade de direitos sociais. Com 20 anos de idade, Laudelina chegou na cidade de Santos (SP), entrando para a Frente Negra Brasileira e criando, no ano de 1936, a Associação das Empregadas Domésticas do Brasil, que foi fechada pelo Estado Novo em 1942. Em 1961, ela fundou a Associação das Empregadas Domésticas, na cidade de Campinas (SP), a sua nova morada. A sua luta inspira a criação de associações em apoio às trabalhadoras domésticas no Rio de Janeiro e em São Paulo. A atuação de Laudelina foi fundamental na década de 1970 para a categoria conquistar o direito à carteira de trabalho e à previdência social. Em 1982, ela auxiliou a reestruturação da associação de Campinas, possibilitando a transformação da associação em sindicato, no dia 20 de novembro de 1988, dia da Consciência Negra. Laudelina de Campos Melo faleceu no dia 12 de maio de 1991, aos 86 anos, deixando sua casa para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas.

Laudelina de Campos Melo

A data de hoje é um sinal de resistência e luta para todos trabalhadores domésticos no país, considerando as situações nos quais muitos se encontram. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), no Brasil tem 6.158 milhões de trabalhadores domésticos, dos quais 92% são mulheres e 3,9 milhões são negras. No ano de 2015 foi sancionada a lei complementar que regula a PEC das domésticas, que apresentaria benefícios para a categoria, como o recolhimento obrigatório do FGTS por parte do empregador, seguro-desemprego, seguro contra acidentes de trabalho e indenização em caso de dispensa sem justa causa. Além de salário mínimo, jornada de trabalho, horário de almoço, férias e carteira assinada.

Porém, após seis anos da medida ser sancionada, os dados do IBGE mostram pouquíssimos avanços em termos de efetivação de direitos para a categoria. Neste período, apenas 32% das trabalhadoras domésticas possuem carteira de trabalho assinada. No Brasil ainda lidamos com a realidade do trabalho doméstico infantil. Em 2015, foram contabilizadas 156 mil crianças nessas condições, e trazendo esses números para o recorte de gênero e raça, a questão torna-se ainda mais desigual, considerando que 88,7% das trabalhadoras domésticas eram meninas e 71% eram negras.

No contexto da pandemia da covid-19, a categoria das empregadas domésticas foi uma das que não teve direito a um isolamento remunerado, não por acaso o primeiro caso de morte por covid-19 confirmado pelo Ministério da Saúde foi de uma diarista. No início da pandemia, a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD) promoveu a campanha “Cuida de Quem te Cuida”. A ação consistia em estimular os empregadores a deixarem as domésticas nas casas das famílias delas, com salários. E em casos onde não seria possível, como quando os empregadores trabalham no setor de saúde, por exemplo, a federação estimulou o transporte via aplicativos custeado pelo empregador. No dia 10 de abril, uma reportagem do jornal Correio 24 Horas, revelou que o  Sindicato de Empregadas Domésticas da Bahia recebeu pedido de socorro de 28 trabalhadoras que seguem por um ano em isolamento obrigatório, na casa dos patrões, vistas como ameaça de contaminação. Desses pedidos, 92% são de mulheres negras, moradoras de periferias e chefes de família. Diante desse fato, a presidente da FENATRAD, Luiza Batista, emitiu uma nota em nome da federação, protestando contra a ilegalidade do confinamento obrigatório de trabalhadoras domésticas, afirmando: “Se a trabalhadora não fez um contrato, onde essa assinou aceitando pernoitar no local de trabalho, ela não é obrigada a ficar. O empregador não pode determinar tal conduta”.

Em 2020, o Brasil ficou abalado com a trajetória de Mirtes Souza, a empregada doméstica de Pernambuco, que saiu para levar os cachorros dos patrões para passear e deixou o filho, Miguel, no apartamento sob os cuidados da  patroa e primeira-dama da cidade de Tamandaré (PE), Sari Corte Real. A criança foi direcionada por Sari até o elevador para que, sozinho, fosse ao encontro da mãe. A patroa, que mora no 5o andar, acionou a tecla do elevador que dá acesso à cobertura. Miguel parou no 9º andar, escalou um vão e alcançou uma unidade condensadora de ar, se desequilibrou e caiu do prédio, morrendo instantaneamente, aos olhos da mãe. A chocante história de Mirtes Souza foi contada pelas jornalistas Brenda Gomes e Thaís Vieira na matéria “Mirtes Souza e Danúbia Silva: Mães entre a saudade e a revolta”, que compõe o eBook “Narrativas Afirmativas em Tempos de Pandemia”, organizado pela Revista Afirmativa, em parceria com o Lab Afirmativa de Jornalismo, que narra as histórias e as dificuldades de outras trabalhadoras domésticas negras, e de trabalhadores de outras categorias, durante o período pandêmico.

Hoje, a FENATRAD reivindica prioridade para as trabalhadoras domésticas no Plano Nacional de Vacinação. O PL 1011/2020, tramita na Câmara dos Deputados e incluiu a categoria ao lado de outras 16 profissões consideradas essenciais e que podem ser consideradas no grupo prioritário, como caminhoneiros, trabalhadores de transporte coletivo rodoviário e metroviário, profissionais de limpeza pública, entre outros. 

Que possamos sempre lembrar dos dois pilares que sustaram a luta de Laudelina de Campos Melo: Um projeto voltado para a alfabetização das trabalhadoras domésticas, pois ela considerava que seria o primeiro passo para conscientização e entendimento da legislação trabalhista e consequentemente reivindicação dos direitos da classe; e a realização de atividades que tinham como objetivo estimular a solidariedade entre as trabalhadoras. Que essa data seja de luta, memória, resistência e solidariedade para todas as trabalhadoras domésticas do nosso país.

Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: conquistas coletivas e pessoais marcam o cotidiano de apoiadas no Norte do Brasil

A criação e implantação do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco tem feito emergir importantes lideranças femininas por todo o país. Na região norte do Brasil o fortalecimento dessas lideranças tem sido fundamental  na batalha pela conquista e proteção dos direitos das mulheres. A integração entre elas no campo das práticas e das ideias, na disseminação de informações nos territórios urbanos e no campo têm sido fundamentais para a difusão do conhecimento. 

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado do Pará tem 7,8 milhões de habitantes. A população negra, que identifica os autodeclarados pardos e pretos, equivale a 76,5% do total, o correspondente a 5,9 milhões de pessoas.

Olhando pelo recorte do acesso aos cursos superiores, 156 mil pessoas têm ou estão fazendo um curso superior. Dessas, 95 mil são mulheres. Negras, 82 mil. Daí a importância de um programa como esse, que apoia o acesso à formação e  à boa qualificação.   

Conversamos com duas apoiadas pelo Programa para saber como a participação tem impactado suas vidas e impactado as vidas de muitas outras mulheres que estão ao redor delas. 

Dandara Rudsan Sousa de Oliveira é mulher trans. Com formação em Direito e especialização em Diálogos e Mediação de Conflitos, ela atua politicamente na formação e defesa de direitos para a Rede de Mulheres Negras Amazônicas, além de ser a coordenadora do Núcleo de Mobilização de Recursos dos Movimentos Negros e LGBTQI+ unificados em Altamira, cidade do estado do Pará. 

Dandara Rudsan Sousa de Oliveira, formada em Direito e com especialização em Diálogos e Mediação de Conflitos, atua na Rede de Mulheres Negras Amazônicas e no Núcleo de Mobilização de Recursos dos Movimentos Negros e LGBTQI+ unificados em Altamira, no Pará

Girlian Silva de Sousa tem graduação em Ciências Econômicas, doutorado em Desenvolvimento Socioambiental e pós-graduação em Influência Digital, curso que foi financiado pelo Fundo Baobá através do Programa de Aceleração. 

As conquistas pessoais de ambas impactam a vida de um grande número de mulheres no norte do país. “Ao longo de nosso trabalho conjunto, temos conseguido grandes avanços nas articulações com órgãos de Defesa de Direitos, como o Ministério Público e a Defensoria Pública. Conseguimos trazer para a luta mulheres negras e LGBTQIA+ que sobrevivem em regiões isoladas ao longo do rio Xingu e da rodovia Transamazônica, assim como articular nossas pautas com as lutas regionais e nacionais. O nosso principal ganho tem sido a união entre mulheres cisgêneras e transgêneras na luta pela defesa da terra e do território, contra o racismo ambiental e todos os tipos de violência”, afirma Dandara Rudsan. 

Já Girlian, baiana da cidade de Itabuna, vivendo no Pará há oito anos e trabalhando em Santarém. Sua atuação fez com que a luta autônoma de algumas mulheres pela reivindicação de direitos ganhasse mais poder com a união de forças. “Sou integrante do Movimento das Mulheres Negras de Santarém. Trata-se de um grupo de mulheres que já exercia o ativismo, só que de forma autônoma. Após cruzarmos nossos caminhos em algumas ações, decidimos nos juntar. São mulheres  com diferentes tipos de formação e que atuam em várias áreas. Temos Promotoras Públicas, Pedagogas, Psicólogas, Antropólogas e Quilombolas”, diz. 

Girlian Silva de Sousa, graduada em Ciências Econômicas, doutorado em Desenvolvimento Socioambiental e pós-graduação em Influência Digital

A pandemia da Covid-19 e os percalços impostos às populações de todo o Brasil têm dificultado um pouco a realização de algumas metas. Mas dificultar não é impedir. Elas são resilientes. “Antes da pandemia, realizamos várias ações de combate ao racismo, em parceria com o Ministério Público e junto a escolas de cidades da região do Baixo Amazonas. Atualmente, com o financiamento do Fundo Baobá, estamos organizando a publicação de um livro sobre mulheres negras, escrito por mulheres negras cis e trans da Amazônia”, afirma a economista Girlian Sousa. 

Girlian Sousa passou por problemas de ordem pessoal. O pai dela sofreu um infarto e o fato de estar sendo financiada pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco propiciou a ela se deslocar de Santarém até Itabuna, na Bahia, e permanecer com ele. “O financiamento tem sido fundamental durante esse período muito difícil, que tem sido a pandemia. Me permitiu socorrer a minha família, me permitiu conquistar mais uma formação, que será importantíssima para a minha carreira profissional. Além disso, também tem sido fundamental para o aperfeiçoamento da minha prática ativista. Tenho aprendido muito. O projeto me promoveu um suporte multidimensional que tem me permitido enfrentar esse momento”, declara. 

Para Dandara Rudsan estar no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco abriu importantes portas.  “Passei a integrar o Grupo de Trabalho Interinstitucional de Enfrentamento ao Racismo Ambiental da Defensoria Pública do Estado do Pará. O mandato é de 4 anos. Estou professora convidada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) no curso de especialização em Relações Étnico-Raciais e Gênero. Também sou finalista no IX Prêmio República do Ministério Público Federal (MPF) na categoria Responsabilidade Social. Fui indicada para o processo seletivo de Bolsistas 2021 da Fundação Ford (que está em curso). Se tudo der certo, em breve estarei em mais este espaço”, afirma.

O Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco é uma iniciativa do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford e Open Society Foundations, cujo objetivo é ampliar a presença e participação de mulheres negras em espaços de poder e tomada de decisão. .

10 Anos do Baobá: Antes de ser batizado oficialmente, fundo dedicado à equidade racial era chamado de “Mecanismo”

Neste ano de 2021, mais precisamente no mês de outubro, o Fundo Baobá para Equidade Racial completa 10 anos de existência. Nesse período, constitui-se no único  fundo exclusivo para promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. O Baobá trabalha com captação de recursos oriundos da filantropia e, através de seus editais, destina esses recursos para organizações, grupos, coletivos e lideranças negras que lutam contra o racismo e promovem a justiça social. 

Apesar da concentração de riqueza e dos impactos negativos acumulados, expressos em alguns dos piores indicadores socioeconômicos do país, a potencialidade criativa e a capacidade de superação, conferem à região grande potencialidade. Se os investimentos corretos forem feitos nos estados do nordeste, a equidade racial para a população negra poderá deixar de ser uma utopia. 

E é do nordeste a dupla que abre essa série que irá até outubro mostrando quem trabalhou e trabalha pela consolidação do Fundo Baobá para Equidade Racial como um dos protagonistas na luta contra o racismo e pela busca da equidade racial no Brasil. São eles a mestranda em Gestão Social e Desenvolvimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Tricia Calmon, e o historiador com pós-graduação em Política e Gestão Cultural, Lindivaldo Leite Júnior. 

Tricia Calmon é baiana e Lindivaldo Júnior, pernambucano. Ambos se lembram do forte envolvimento com a ideia de que algo fosse constituído para que o povo preto nordestino fosse apoiado. “Fui convidado a fazer um trabalho de identificação de lideranças negras em Pernambuco que pudessem contribuir com um debate sobre a criação de algo que fosse para o enfrentamento ao racismo no Brasil. Não havia um nome, então, chamávamos de  mecanismo”, afirma Lindivaldo. “Eu era membro do núcleo de estudantes negros da Bahia e militante do Movimento Negro. O ano era 2008. O board da Fundação Kellogg estava visitando o Brasil, pois já organizavam a saída do país e eram muito questionados sobre temas relativos  à equidade racial”, diz Tricia. 

Lindivaldo Leite Júnior, historiador com pós-graduação em Política e Gestão Cultural

A questão de como organizar o mecanismo foi ganhando corpo. Mas Bahia e Pernambuco não poderiam ser apenas os dois estados envolvidos, entre os nove que compõem a região nordeste. “Fizemos uma caravana. Durou um mês e meio e acontecia nos finais de semana. Visitamos vários estados do Nordeste, com figuras muito representativas como Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Magno Cruz, Lurdinha Siqueira, Luiz Alberto, todas as nossas lideranças. Acho que isso ocorreu em 2009”, relembra Tricia Calmon. Para Lindivaldo Júnior, a lembrança é da riqueza na troca de experiências: “Participei de um conjunto de diálogos sobre uma metodologia específica a ser utilizada para conversar com lideranças. Assim, realizamos encontros com grupos diferentes de lideranças negras: jovens,  veteranos, acadêmicos, gestores, quilombolas e grupos culturais”, afirma. 

O trabalho coordenado pelo pessoal do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceafro), da UFBA, foi ganhando corpo. Mas, como qualquer projeto envolvendo pessoas, com cada um tendo seu tipo de pensamento formador a respeito de um tema, as disputas acabaram aparecendo. “A proposta de surgimento do Baobá era vista como uma concorrência e não como colaboradora da agenda que havia sido proposta pela Fundação Kellogg. E isso não era dito de forma muito clara. Construir esse lugar de um fundo novo, com pauta específica e inédita, contar com todos esses parceiros e construir uma imagem de colaboração, e não de concorrência interna, foi um dos grandes desafios”, revela Calmon. No entender de Lindivaldo Júnior, a construção das relações internacionais foi o principal entrave do começo. “Havia uma dificuldade para compreender como se relacionar com órgãos internacionais de financiamento”, diz. A questão do trabalho com filantropia, incipiente no Brasil, também criava dificuldades: “Foi necessária a composição de um grupo de confiança para tratar de um tema ainda delicado junto ao movimento negro”, afirma Júnior. 

Tricia Calmon, cientista social e mestranda em Gestão Social e Desenvolvimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

As dificuldades foram sendo vencidas com muitos quilômetros rodados pelo nordeste,  muita conversa e a prática de estratégias de convencimento. “São 10 anos de Baobá constituído. O Baobá se tornou e é uma organização única. O único fundo do Brasil de financiamento exclusivo de projetos e causas raciais. Sem subterfúgios. Isso se tornou realidade a partir de uma carteira de projetos interessantes, muito importantes, com boa flexibilidade e diálogo com organizações do Brasil inteiro”, declara Tricia Calmon. Lindivaldo Júnior enxerga o Baobá como projeto vitorioso: O Baobá ampliou sua relação com instituições financiadoras; manteve-se articulado com outros fundos de apoio, estruturou uma equipe e cumpriu com os compromissos assumidos com a Fundação Kellogg”, diz. 

Ainda há mais a conquistar, segundo Tricia Calmon: “O nosso sonho é que o Baobá alcance o que outras organizações negras não conseguem alcançar. Esteja onde outras organizações negras não conseguem estar. Financie autonomamente as pautas. E que o Baobá esteja na boca e nas mentes de todas as organizações negras brasileiras como um catalisador político forte e importante. O Baobá não é isso ainda. As pessoas não conhecem o Baobá como deveriam, ainda! Mas o Baobá está num caminho muito bom nesse sentido”.

Dia do Índio, o ressignificar de uma data

O dia 19 de abril é conhecido no Brasil todo como o “Dia do Índio”, entretanto a origem dessa celebração remete a um protesto realizado pelos povos indígenas do continente americano na década de 1940, quando um congresso organizado no México se propôs a debater medidas para proteger os índios no território. O “1º Congresso Indigenista Interamericano”, realizado em Patzcuaro, no México, aconteceu entre os dias 14 e 24 de abril de 1940. Na ocasião, os representantes indígenas haviam se negado a participar do evento, achando que não teriam voz e representatividade nas reuniões, sendo estas comandadas por líderes políticos dos países participantes. Os índios, então, fizeram um boicote nos primeiros dias, mas, justamente no dia 19 de abril, decidiram aparecer no congresso para tomar parte nas discussões. Foi por conta disso que a data escolhida para celebrar o dia do índio acabou sendo essa.

No Brasil, o Dia do Índio entrou no calendário oficial nacional no ano de 1943. Atualmente encontramos no território brasileiro 256 povos indígenas, falantes de mais de 150 línguas diferentes. A população indígena no Brasil soma, segundo o Censo IBGE 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país. Especificamente sobre questão territorial indígena, há no país 7 mil localidades distribuídas em 827 municípios, desse total, 632 são terras oficialmente delimitadas. Há ainda 5.494 agrupamentos indígenas, 4.648 dentro de terras indígenas e 846 fora desses territórios.

Os problemas enfrentados pelos povos indígenas ainda reverberam nos tempos atuais. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) a principal violação está  relacionada à invasão de terras. O relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil, traz dados alarmantes que demonstram que a intensificação das expropriações de terras indígenas, forjadas na invasão, na grilagem e no loteamento, consolida-se de forma rápida e agressiva em todo o território nacional, causando uma destruição inestimável.

Entre os dados apresentados no relatório, em relação ao aumento de casos de violências sistematizadas contra os povos indígenas, a categoria “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” que no ano de 2018 teve 109 casos registrados, saltou para 256 casos em 2019. Nessa categoria entram as queimadas que devastaram a Amazônia e o Cerrado em 2019, com ampla repercussão internacional. 

Infelizmente, os conflitos territoriais não são os únicos fatores que aumentam a vulnerabilidade desta parte da população. Em um ano o registro de  ameaças de morte, aumentaram de 8 para 33 e quando o assunto é lesões corporais dolosas, o número  quase triplicou, passando de 5 para 13.

No ano de 2021, a luta indígena por sobrevivência ganha novos contornos. Com a pandemia da Covid-19 em curso, as comunidades indígenas estão ainda mais expostas ao vírus e vulneráveis ao adoecimento e morte por menos acesso à informações corretas e em linguagem adequada, aos insumos de proteção individual, ao teste diagnóstico, aos serviços e tratamento em tempo adequado. Segundo dados apresentados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), em um ano de pandemia, foram 45.858 casos confirmados da doença. Já a estatística apresentada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), mostra que houve 1.023 óbitos, considerando também os óbitos de indígenas no contexto urbano.

Povos indígenas, assim como a população quilombola e ribeirinha, foram incluídos no grupo prioritário do plano nacional de vacinação contra a Covid-19. O ministério da saúde divulgou dados de que dos 247 mil indígenas vacinados, 86,8 mil já tomaram a segunda dose. Entretanto, a informação divulgada não vale para todos os estados do país e há contestações da população indígena referente a isso.  

O Fundo Baobá para Equidade Racial lançou no ano passado o edital Doações Emergenciais no contexto da Covid-19, financiando ações de prevenção ao novo coronavírus junto a grupos e comunidades vulneráveis. Na ocasião, iniciativas voltadas para povos indígenas, migrantes, refugiados, além de população negra, em situação de rua, periférica, eram priorizadas.  

Que o Dia do Índio não seja uma data para estereotipar as culturas e as tradições diversas dos muitos povos indígenas presentes no Brasil, mas que seja uma data de reflexão de como tem sido a nossa atuação pela defesa e preservação dos povos originários desse país. 

Diretora-executiva do Fundo Baobá é destaque em evento virtual sobre empreendedorismo e sustentabilidade

ESG é uma sigla em inglês que, para quem não é do ramo corporativo, não diz muita coisa. Mas trata-se de um conceito empresarial fundamental nos nossos tempos: Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). A primeira vez que ele foi utilizado foi no ano de 2005, em um relatório intitulado “Who Cares Wins” (Ganha quem se importa), sendo um resultado de uma iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Na ocasião, 20 instituições financeiras de nove países diferentes, incluindo o Brasil, se reuniram para desenvolver diretrizes e recomendações sobre como incluir questões ambientais, sociais e de governança na gestão empresarial. 

Foi sobre o tema ESG que a XP Investimentos realizou, entre os dias 2 a 5 de março, um evento virtual reunindo os principais experts do mercado financeiro para debater investimentos sustentáveis. Em quatro dias de debates virtuais, participaram Guilherme Benchimol (CEO e fundador do Grupo XP), o cientista Prof. Carlos Nobre, Denise Hills (Diretora Global de Sustentabilidade na Natura), José Alexandre Vasco (Superintendente da CVM), Liz Davidson (Ministra Conselheira do Governo Britânico no Brasil), Oskar Metsavaht (Fundador da Osklen e embaixador UNESCO para Sustentabilidade), o autor do livro “Cisnes Verdes”, John Elkington, Luiza Helena Trajano (Presidente do Conselho da Magazine Luiza), Liliane Rocha (Fundadora e CEO da Gestão Kairós), Rachel Maia (Fundadora RM Consulting e Presidente do Conselho Consultivo do UNICEF), DJ Bola (Fundador e Diretor da A Banca, produtora social cultural) e a diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, entre outros.

Selma Moreira participou do painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”, no dia 4 de março. Mediado pela analista de pesquisa ESG da XP Investimentos, Marcela Ungaretti, ele contou também com o fundador da Blockc/ZCO2, membro do comitê de sustentabilidade da Duratex e da Marfrig, presidente do conselho da D.R.I Brasil e membro da Conecta Direitos Humanos, Marcelo Furtado, e com a diretora ESG e relações com investidores do Grupo Cosan, Paula Kovarsky, que na ocasião substituiu o CEO da Cosan,  Luis Henrique Guimarães.

Painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”

Selma Moreira fez uma análise sobre o histórico de discussão envolvendo o conceito ESG: “É uma discussão que não é nova, a gente tem uma nova forma de se dirigir ao ESG.  A gente falava de Triple Bottom Line (que é o chamado tripé da sustentabilidade) há um tempo atrás, e já havia uma preocupação em se pensar muito além de compliance, em fazer o que é certo, da forma correta. Hoje quando eu observo a forma de operação das empresas privadas e dos fundos que propõe fazer investimentos nessas empresas para promoção de desenvolvimento, eu acho que a gente olha e consegue ter nitidez de uma consolidação de termos econômicos, de estratégias de gestão e de compliance, muito adequadas. A gente está começando a melhorar, mas ainda me parece que há que se desenvolver formas, métodos e ações, que permita que a parte do “S” e do “E” do ambiental, sejam avaliadas de uma maneira mais estratégica”. Ainda com a palavra, Selma fez uma importante análise contextual do Brasil contemporâneo: “Pensando no nosso contexto de país, a gente está aqui hoje em um dia de muita emoção, mas a gente olha para o nosso país em um dia de luto, um dia muito triste, e não dá para dissociar a empresa do contexto ao qual ela pertence. A gente está vivendo um contexto de tristeza e as empresas são formadas por pessoas, então, no fim do dia, quando a gente conecta tudo isso, conseguir colocar um olhar mais direcionado para que as decisões promovidas pelas empresas sejam éticas e justas, vai muito além da lei. No momento que a gente está pensando que as decisões são promovidas pelos conselhos, executadas pelos executivos, elas se coloquem, sejam passíveis de dúvidas. Quando a gente começa a repensar as nossas certezas, a gente começa a repactuar nosso pacto de gestão, com o ambiente no qual a gente pertence e com o planeta. Acho que é fundamental começar por aí”.   

Selma Moreira durante o painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”

Paula Kovarsky complementou o raciocínio: “Eu concordo muito com o que a Selma falou, que precisa ser uma coisa que está imbuída em todo o seu processo de tomada de decisão e, essencialmente, porque o mundo está caminhando nessa direção, então isso tem que ser por definição círculo virtuoso, eu preciso como companhia olhar para as tendências de mudanças climáticas, por exemplo, porque isso vai definir o portfólio de produtos que vai ter sucesso num horizonte de cinco a dez anos. Eu preciso ter uma empresa que é reconhecida e que tem, de verdade, um compromisso com a diversidade, porque se eu não tiver isso, eu não vou ser capaz de atrair os talentos que eu preciso para ter sucesso no futuro”.

Questionada sobre qual é a importância de ter a diversidade em diferentes níveis de governança, quais são os desafios dessa jornada e o que precisa ser feito de fato para atingir esse patamar, Selma Moreira fez questão de frisar a importância do diálogo em diferentes esferas: “A gente vive um momento onde o mundo está mais aberto para o diálogo. O que era uma barreira antes, e trazia aquela dificuldade de se expor e de estar em um ‘terreno difícil’, hoje há mais abertura e disposição para dialogar. O que é fundamental, se a gente não dialogar, estará alimentando um processo que é da construção da nossa sociedade desigual. Precisamos também qualificar esse diálogo. Hoje nós temos pesquisas que mostram que, com igualdade de gênero, a produtividade melhora em 15%, e que, quando é trabalhado questões raciais e étnicas, a produtividade melhora 35%.

Com esses dados apresentados, Selma Moreira aprofunda o debate do diálogo da diversidade, principalmente, nos níveis executivos: “Nós precisamos entender que diversidade é lucrativo, então a gente tem que pensar isso para todas as etapas, para todos os estágios de gestão de uma organização, na base, mas também no topo, também nos níveis executivos e nos conselhos. E justamente nos níveis executivos que a gente vai perceber os gargalos, no qual 4,9% é o número de executivos negros que participam de conselhos de administração e 4,7% é o número de executivos na gestão”. 

Selma Moreira (Fundo Baobá), Paula Kovarsky (Grupo Cosan) e Marcelo Furtado (Duratex, D.R.I Brasil e Conecta Direitos Humanos)  

Para Selma, é necessário reflexão e auto análise quando o assunto é diversidade de gênero e étnica: “A gente precisa refletir sobre todo o processo de desigualdade e gargalo acumulado no processo escolar e nas questões de acesso ao mundo do trabalho. Então precisamos criar processos que sejam de fato mais inclusivos e afirmativos também, até porque considerando o ritmo que a sociedade resolve os seus problemas, precisamos ser mais evidentes e mais convictos no que a gente quer fazer. O fato de, no Brasil a gente observar essas desigualdades todas, ter nitidez de tudo isso, é um momento de fazer auto análise, do viés inconsciente, de como a gente gosta de ficar com os nossos iguais, como é bacana falar com alguém em que as ideias e valores conectam com os nossos, mas isso nos leva a construir as mesmas soluções de sempre, baseado em seu mindset. A gente precisa se permitir diversificar, como fazemos com os investimentos, com os portfólios, é o que a gente faz com os produtos, mas a gente não vai conseguir diversificar se ficar procurando um currículo igualzinho ao nosso”.

Hoje, a população negra no Brasil, segundo dados do IBGE, equivale a 56%. Mesmo assim, pessoas negras são minorias em cargos de chefia. Selma aproveitou a oportunidade para compartilhar a sua própria experiência profissional: “Eu sou uma mulher negra de origem periférica e que trabalha com equidade racial, trata-se de um tema que não está longe do meu dia-a-dia, ele está no meu coração, é o que corre na minha veia, mas é um tema que é de muita resistência em muitos espaços. Então, o questionamento que eu trago é: como é que a gente se abre para o diálogo e como é que a gente constitui mais potência a partir das nossas diferenças? Esse é o caminho que vai fazer com que se constituam empresas e uma sociedade cada vez mais forte, diversa, brilhante, potente e respeitando as diferenças. A gente não inova se não olhar a partir de um outro ponto”.

Dentro do mesmo contexto, Selma Moreira falou sobre a importância da equidade: “Tem um ponto que a gente pouco usa nos diálogos no Brasil que é falar de equidade, que se trata de justiça. Quando a gente fala de olhar as populações, há que se pensar o quanto as empresas refletem, de maneira justa, a população das regiões onde elas estão inseridas. E nós estamos olhando para isso? A gente tem feito alguma ação que nos tira do lugar de conforto para produzir essa diversidade? Pode ser que tenhamos uma trilha de aprendizagem e aprender faz parte”. 

Para assistir a participação completa da Selma Moreira no painel “Sustentabilidade Integrada à Governança: Estratégia e Transparência”, basta se cadastrar gratuitamente aqui e acompanhar esse e outros painéis ocorridos no evento Expert ESG.