Aliança entre Fundos doa R$ 1,5 milhão para projetos com foco em quilombolas e indígenas

Recursos serão disponibilizados pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental. Fundo Baobá anuncia aporte de mais R$ 1 milhão para quilombolas até o final de setembro

A Aliança entre Fundos – que reúne os Fundos Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental – realiza nesta quinta-feira, 9 de setembro, a primeira ação conjunta: o lançamento simultâneo de editais exclusivos para as comunidades quilombolas e indígenas em contexto de vulnerabilidade agravada pela COVID-19. A ação é uma iniciativa inédita e inovadora de filantropia colaborativa no Brasil.

Os Fundos Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental lançam, respectivamente, o Edital Em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e a Chamada de Projetos para Apoio às Comunidades Quilombolas no Enfrentamento aos Impactos causados pela COVID. O Fundo Baobá lançará, até o final de setembro, o edital Quilombolas em defesa: vida, direitos e justiça, no valor de R$ 1 milhão.

Direito à terra e ao território

O Edital Em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, do Fundo Brasil, vai selecionar pelo menos 10 projetos no valor de até R$ 50 mil cada, para apoio no período máximo de 12 meses. O valor disponível para este edital é de R$ 500 mil. A meta é apoiar comunidades e organizações indígenas que apresentem como foco o direito à terra e ao território com usufruto exclusivo dos recursos naturais em terras indígenas; defesa de direitos e fortalecimento de comunidades, organizações e lideranças indígenas. O objetivo é fortalecer a capacidade de comunidades e organizações indígenas diante dos impactos decorrentes da pandemia. As inscrições estão abertas a partir do dia 09/09 e os interessados podem enviar os projetos até o dia 7/10. Para ler o edital completo clique aqui.

Resiliência comunitária e soberania alimentar

Já a Chamada de Projetos para Apoio às Comunidades Quilombolas no Enfrentamento aos Impactos causados pela COVID, do Fundo Casa Socioambiental, vai eleger até 33 projetos de até R$ 30 mil cada. O valor total disponível para esta chamada é de R$ 1 milhão. O objetivo é apoiar organizações, grupos e coletivos de pessoas negras e quilombolas, localizados nas regiões Norte e Nordeste do país, por meio de  iniciativas que contribuam com a recuperação e sustentabilidade econômica, promoção da soberania e segurança alimentar, resiliência comunitária e defesa dos direitos nas comunidades quilombolas. Os projetos deverão atender aos seguintes recortes específicos:  recuperação da renda dos grupos que atuam com economia solidária e negócios coletivos e na fomentação de estratégias de resiliência comunitária e ações e metodologias para o fortalecimento da soberania alimentar dessas comunidades. As inscrições estão abertas a partir do dia 09/09 e os interessados podem enviar os projetos até o dia 9/10. Para ler o edital completo clique aqui.

Sobre a Aliança

A Aliança entre Fundos é uma iniciativa inédita lançada recentemente no Brasil. Pela primeira vez, três Fundos –  Fundo Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental – se reúnem para promover maior aporte de recursos diretos para os povos indígenas, comunidades quilombolas mais vulnerabilizados pela pandemia. O aporte inicial é de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais.

Além de ampliar o apoio a projetos inovadores no enfrentamento aos impactos à pandemia, a Aliança entre Fundos aumenta a capilaridade das ações, especialmente nas localidades mais isoladas.

Sobre o Fundo Baobá para Equidade Racial

Criado em 2011, o Fundo Baobá para Equidade Racial é o primeiro e único fundo dedicado, exclusivamente, para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. Orientado pelos princípios de ética, transparência e gestão, mobiliza recursos financeiros e humanos, dentro e fora do país, e investe em iniciativas da sociedade civil negra para o enfrentamento ao racismo e promoção da justiça social.

Sobre o Fundo Brasil

O Fundo Brasil de Direitos Humanos é uma fundação independente e sem fins lucrativos, instituída em 2006. Tem como missão promover o respeito aos direitos humanos no país, criando mecanismos sustentáveis, inovadores e efetivos para fortalecer organizações da sociedade civil e para desenvolver a filantropia de justiça social.

Sobre o Fundo Casa Socioambiental

​O Fundo Casa Socioambiental é uma organização que busca promover a conservação e a sustentabilidade ambiental, a democracia, o respeito aos direitos socioambientais e a justiça social por meio do apoio financeiro e fortalecimento de capacidades de iniciativas da sociedade civil na América do Sul.

Dia da Mulher Negra: a potencialização do poder negro e feminino

No dia 25 de julho é celebrado no país o Dia da Mulher Negra. A data foi instituída no ano de 2014, juntamente com o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18. A história conta que, sob a sua liderança, a comunidade do Quariterê, que abrigava mais de 100 pessoas, com destacada presença de negros e indígenas,  resistiu à escravidão por duas décadas.

Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18

Para a doutora em História, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escritora e liderança apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Giovana Xavier, o dia 25 de julho é uma data muito importante porque oficializa o direito humano e o dever patriótico de celebrar a história de mulheres negras, além de suas ideias, emoções e projetos políticos: “Aprendi com a professora Ida Mara Freire um saber precioso: ‘ao celebrar saímos do automático’. Assim, o 25 de julho é o desvio de um olhar automático de inferioridade e objetificação para um olhar vivo, essencial para a missão de restituir a humanidade negada a mulheres negras pelo Estado brasileiro”.

Giovana acredita que este novo olhar impacta todos os grupos raciais: “Pois ao enxergar mulheres negras pelas vias do brilho, criatividade e protagonismo, transformamos positivamente as relações de ensino-aprendizagem, pesquisa científica, relações pessoais e política institucional”.

Giovana Xavier, historiadora, doutora em História, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escritora e liderança apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco

Entretanto, em um país com 56,4% da população autodeclarada negra (preta e parda) e onde as mulheres negras representam 27,8% da população brasileira (IBGE), ainda há um longo caminho para inserção deste grupo em espaços de poder e tomada de decisões. Giovana acredita que a figura e a história de Tereza de Benguela seja inspiração para outras mulheres negras: “Quando pensamos que, apesar dos indiscutíveis avanços, mulheres negras permanecem sub-representadas em espaços estratégicos de decisão como a ciência e a política institucional, a sua história é inspiradora, pois alude literalmente ao fato de que nossos passos vêm de longe.”

Para explicar a grandeza de Tereza de Benguela, Giovana faz questão de recorrer à reflexão feita pela assistente social e coordenadora geral da Ong Criola, Lúcia Xavier, sobre “sujeito político, mulher negra”: “Tereza é a materialização deste sujeito político, pois definiu nos próprios termos os sentidos de ser mulher e negra. Sentidos estes ligados à autonomia, coragem, governança, que foram combustíveis para colocar em prática o sonho da liberdade para a comunidade negra no Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18”.

História não contada

No ano de 2003, foi instituída a lei 10.639, que inclui no currículo oficial da rede de ensino do país a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Porém, mesmo com essa lei, histórias de mulheres negras como Tereza de Benguela, Maria Felipa, Dandara dos Palmares, Luísa Mahin, entre outras, seguem desconhecidas. Para a historiadora Giovana Xavier, existe uma grande diferença entre história desconhecida e história não contada: “As histórias destas mulheres podem até não ser contadas associadas aos seus nomes nos espaços formais de educação, o que, sem dúvida, é uma grande injustiça. Mas para expandir os horizontes, também é importante considerar que seus legados fazem-se presentes na maioria das famílias das classes trabalhadoras brasileiras, chefiadas por mulheres negras que mantêm viva a tradição de liderança em casa, ativismo político em comunidades, criação de definições de cuidado e maternidade, alinhados às suas experiências de vida e leituras de mundo.”, finaliza.

O nascimento do Dia da Mulher Negra no Brasil e a concretização da Marcha das Mulheres Negras

É importante ressaltar que o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído e celebrado no Brasil desde 2014, é inspirado no Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. O reconhecimento desta data surgiu após o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas realizado entre os dias 19 a 25 de julho de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, no qual levaram ao evento discussões sobre os diversos problemas e alternativas de como resolvê-los. A partir desse encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas.

Quem participou deste encontro em Santo Domingo foi a historiadora, mestre em Educação, coordenadora executiva do Odara Instituto da Mulher Negra e do Fórum de Promoção de Igualdade Racial (FOPIR), também secretária-executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Valdecir dos Santos Nascimento, que faz questão de frisar a principal motivação da sua participação e de outras mulheres negras brasileiras neste encontro: “Nós nos organizamos em 1992 e fomos à Santo Domingo para protestar contra as celebrações dos 500 anos do Descobrimento da América. Nós somos um movimento em ressonância ou consonância com toda a conjuntura local, nacional e internacional. Portanto, a nossa participação não foi apenas por uma incidência contra a violência doméstica ou até mesmo contra o racismo, mas sim uma incidência contra um modelo que escravizou e colonizou os povos da América e os povos africanos que foram trazidos para cá”.

Valdecir dos Santos Nascimento, historiadora, mestre em Educação, coordenadora executiva do Odara Instituto da Mulher Negra e do Fórum de Promoção de Igualdade Racial (FOPIR) e secretária-executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) – Photo: UN Women/Ryan Brown

A Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) começou a dar os primeiros passos nos anos 1990, mas ela se consolidou em 2000, para fortalecer a participação das mulheres negras na 3ª Conferência Mundial Contra o Racismo, organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizada em Durban, na África do Sul, em 2001. “Nós sempre atuamos no Brasil, no entanto não estávamos atuando de forma tão organizada, com uma articulação nacional. A partir deste momento, nós começamos a não apenas pautar questões prioritárias, mas como também a mobilizar esses debates em torno das organizações de mulheres negras no Brasil”, afirma Valdecir.

Para a secretária executiva, o marco histórico da AMNB e um importante acontecimento para potencialização das organizações de mulheres negras, foi a 1ª Marcha das Mulheres Negras, que teve toda a sua articulação em 2013, mas foi realizada no dia 18 de novembro de 2015, reunindo cerca de 100 mil mulheres em Brasília. “A Marcha com sua organicidade e com a sua clareza de quais são os próximos passos que ela vai demarcar, tornou-se um espaço político de qualidade de incidência política e de visibilidade do movimento de mulheres negras.”

1ª Marcha das Mulheres Negras em 2015

Hoje, olhando para trás, vendo a sua participação na 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas em Santo Domingo, que gerou o Dia da Mulher Negra, além da sua atuação na AMNB que anos depois consolida na Marcha das Mulheres Negras, Valdecir enxerga avanços significativos: “Depois de todas essas ações, nós vimos aumentar o número de mulheres negras candidatas a cargos eletivos, o que nos mostra uma crescente. Mesmo que a eleição de 2020 não tenha expressado o número de concorrentes, de uma forma ou de outra você vai perceber que o número de mulheres trans e cis negras eleitas, começa a fazer pressão na sociedade brasileira”. A fala de Valdecir afirma a informação do Tribunal Superior Eleitoral, a respeito das eleições municipais de 2020. Em números totais, 84.418 mulheres negras foram candidatas a vereadoras em 2020, mas apenas 3.634 foram eleitas, representando 6% nas câmaras municipais.

A força da mulher negra

A ativista Angela Davis tem uma famosa frase que diz “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela”, Valdecir faz coro à frase da norte-americana, ressaltando que não existiria movimento negro no Brasil sem a articulação das mulheres negras: “O movimento negro brasileiro é conduzido pelas mulheres negras, não tem como solapar o nosso protagonismo. É o movimento mais organizado no país, porque você tem quase todos os segmentos de mulheres negras organizadas, você tem jovens negras feministas, você tem ialorixás organizadas, mulher trans, além de mídia negra com o protagonismo de mulheres negras, produção literária, entre outras. Então, olhando o Brasil e essa mobilização de sujeitas políticas da nossa própria história, ela ganha cada vez mais força”.

A própria criação do Dia da Mulher Negra no Brasil, no dia 25 de julho, em 2014, Valdecir, atribui a essa força: “O Dia de Tereza de Benguela foi instituído porque o nosso movimento se apresenta como uma força política que precisa ser reconhecida, então essa data é evidência de que nós mulheres negras estamos atuando de forma qualitativa para mudança dessa nação”.

Justamente neste contexto, que a historiadora Giovana Xavier escreveu o livro Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história que, segundo a própria autora, tem a premissa de fazer as mulheres negras pensarem e refletirem sobre suas experiências e organizarem as suas ideias: “Lendo isso, parece óbvio, mas no dia a dia costuma ser desconsiderado uma vez que vivemos em um país no qual vigora uma história única da intelectualidade. Gosto de associar o livro, e todo o meu trabalho científico, à oferta de uma alternativa epistemológica na qual mulheres negras ocupam o centro e conduzem a análise”.

Livro de autoria de Giovana Xavier

Isso faz Valdecir Nascimento relembrar a carta escrita pela organização da Marcha das Mulheres Negras, em 2015, apresentando o evento e mostrando a força da mulher negra: “Na carta nós escrevemos ‘nós não queremos reivindicar, nós estamos generosamente apresentando para vocês as possibilidades de fazer um outro Brasil’. Nós, mulheres negras, apresentamos para o Brasil uma estratégia e uma perspectiva de um outro projeto de nação onde a igualdade e a equidade sejam os pontos que estruturem as relações neste país”, finaliza.

Por que celebramos hoje o Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes?

Por Vinícius Vieira

Hoje, dia 31 de agosto de 2021, celebramos pela primeira vez o Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes. A data é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), como forma de relembrar a célebre 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, organizada por ela entre os dias 31 de agosto e 8 de setembro de 2001, na cidade de Durban, na África do Sul.

Celebrando 20 anos na presente data, a Conferência de Durban teve a participação de 173 países e 4 mil ONGs. No final do encontro, dois documentos foram gerados como forma de aplicar políticas públicas de combate ao racismo em todo o mundo: a Declaração de Durban e o Programa de Ação.

3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, organizada, em 2001, na cidade de Durban, na África do Sul

O Brasil esteve presente na Conferência. A sociedade civil negra organizada, em especial as mulheres negras, tiveram papel fundamental. O país não só é signatário de suas resoluções, como compôs a relatoria oficial do evento. Para o doutorando em Saúde Coletiva (PPGSCM/IFF/Fiocruz), mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ), psicólogo, pesquisador da Fiocruz e coordenador do Plano Fiocruz de Enfrentamento à Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeiro, Richarlls Martins, a participação do país na Conferência trouxe avanços significativos: “A Conferência de Durban é um marcador histórico no âmbito global e especialmente aqui no Brasil, trazendo pautas relacionadas à promoção da equidade racial e de enfrentamento ao racismo”. 

Richarlls Martins, doutorando em Saúde Coletiva (PPGSCM/IFF/Fiocruz), mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ), psicólogo e professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Algumas das pautas defendidas pelo movimento negro no final dos anos 80 e na década de 90 foram reforçadas em Durban e convertidas em políticas públicas: a utilização do critério de autodeclaração de cor/raça nos censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e as políticas afirmativas para inclusão de pessoas negras no ensino superior, como o sistema de cotas em instituições públicas e o Programa Universidade para Todos (ProUni). Com a visibilidade estatística, cuja importância foi tão ressaltada na Conferência Mundial, sabemos hoje que a maioria da população brasileira é negra, representando 54,6% e que, em 2018 negros  passaram a representar 50,3% dos estudantes do ensino superior da rede pública.

Entretanto, 20 anos depois, mesmo com todas estas conquistas simbólicas, a realidade da população afrodescendente ainda está longe do ideal. As desigualdades seguem pujantes e fazendo vítimas. Em junho, a mesma ONU da Conferência de Durban divulgou um relatório especial de Promoção e proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais das pessoas africanas e afrodescendentes contra o uso excessivo da força e outras violações dos direitos humanos por agentes policiais. O documento foi apresentado à Assembleia Geral pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos e aprovado após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, que deflagrou uma série de protestos no mundo e popularizou um brado: “Vidas Negras Importam”.

A premissa do documento é desconstruir culturas de negação, desmantelar o racismo sistêmico e acabar com a impunidade para as violações dos direitos humanos por parte de agentes policiais. O Brasil é um dos países que mais tem mortes de pessoas negras por policiais, o próprio relatório cita um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública no qual a taxa de mortalidade em 2019, devido a intervenções policiais, foi 183,2% maior para pessoas afrodescendentes do que para pessoas brancas. O mesmo estudo foi realizado em  2020 e mostrou que 78% dos mortos pela polícia eram negros. 

O relatório da ONU ainda cita os assassinatos de Luana Barbosa dos Reis Santos, que foi morta na frente do seu filho de 14 anos, na cidade de Ribeirão Preto (SP), e do jovem João Pedro Mattos Pinto, que foi assassinado dentro de casa em uma ação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (SP).

Luana Barbosa dos Reis Santos e João Pedro Mattos Pinto

Segundo Richarlls, tudo se trata de um processo histórico de violação de direitos: “Tivemos avanços significativos em algumas áreas setoriais, mas a grande dificuldade desse processo se dá na temática de garantia de direito à vida da população negra. Tudo isso está enraizado no processo histórico de violação dos direitos da população negra, a partir de um processo secular de escravização, que ainda quer permitir o flagelo sobre o corpo negro”. Inclusive, Richarlls faz questão de mencionar que o momento político e econômico atual, além da grande crise sanitária, derivada da pandemia do novo coronavírus, impactou diretamente na vida da população afrodescendente brasileira: “Nos últimos três anos nós tivemos um retrocesso, começando pela perda do ministério da igualdade racial, havendo uma defasagem no âmbito da governança das políticas públicas. Hoje nós temos uma ampliação da extrema pobreza na população negra, além do aumento de desemprego e da violência letal contra afrodescendentes”.

Por reconhecer os impactos do racismo na vida e no desenvolvimento de afrodescendentes, a ONU instituiu de 2015 até 2024 a Década Internacional de Afrodescendentes, sendo uma ocasião para promover maior conhecimento, valor e respeito às conquistas da população afrodescendente e às suas contribuições para a humanidade, além de promover o respeito, proteção e a concretização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, conforme reconhecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Década Internacional dos Afrodescendentes: 2015-2024

Richarlls diz que é preciso aproveitar essas ocasiões para trazer visibilidade para a luta afrodescendente: “O nosso país precisa ser alvo de solidariedade global. Especialmente no que diz respeito à pauta de ampliação e defesa dos direitos da população negra”.

Aliança entre Fundos: Conheça a iniciativa inédita no campo da filantropia do sul global

Por Vinícius Vieira

No dia 26 de agosto, aconteceu o evento virtual que discutiu os “Impactos da COVID-19 e a filantropia para a justiça social no Brasil”, que também marcou o lançamento da Aliança Entre Fundos, uma iniciativa surgida a partir da mobilização comunitária pela justiça racial, social e ambiental, propondo um novo modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil: a filantropia colaborativa para a justiça social.

Integram esta iniciativa inédita o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental. Juntos, os três Fundos irão fazer um aporte inicial de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais. A grande novidade é o modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil. Esta é a primeira vez que três Fundos se reúnem para promover o maior aporte de recursos diretos para os povos indígenas e as comunidades quilombolas mais vulnerabilizadas pela pandemia.

O Fundo Baobá, que celebra dez anos de atividades em 2021, é o primeiro e único Fundo no país dedicado à promoção da equidade racial. A organização realizou no ano de 2020, cinco editais inseridos no contexto da Covid-19, entre eles o “Apoio Emergencial para Ações de Prevenção ao Coronavírus”, que apoiou 350 projetos (215 de indivíduos e 135 de organizações) de comunidades vulneráveis, mulheres, população negra, idosos, povos originários e comunidades tradicionais. Acerca das comunidades quilombolas, este edital apoiou 17 iniciativas de organizações quilombolas e 16 projetos de pessoas que moram em quilombos. 

O Fundo Brasil Direitos Humanos é uma fundação independente e sem fins lucrativos, formada no ano de 2006 e que atua promovendo o respeito aos direitos humanos no país, criando mecanismos sustentáveis, inovadores e efetivos para fortalecer organizações da sociedade civil e para desenvolver a filantropia de justiça social. No dia 8 de abril, a organização lançou o edital “Fundo de Apoio Emergencial: Covid-19”, que atendeu 271 pedidos de organizações, grupos e coletivos que atuaram no enfrentamento às consequências da pandemia junto às suas comunidades.

O Fundo Casa Socioambiental é uma organização que atua desde 2005 e busca promover a conservação e a sustentabilidade ambiental, a democracia, o respeito aos direitos socioambientais e a justiça social por meio do apoio financeiro e fortalecimento de capacidades de iniciativas da sociedade civil na América do Sul. As suas ações voltadas para o combate da Covid-19 resultou em uma série de parcerias, principalmente em defesa dos povos indígenas, diante do contexto pandêmico, como a campanha do “Fundo de Emergência da Amazônia”, que foi criada justamente para canalizar fundos diretamente para as comunidades indígenas que enfrentam o novo coronavírus na floresta amazônica.

A Iniciativa da Aliança entre Fundos foi impulsionada pelo reconhecimento da atuação e do protagonismo dos povos indígenas, da população quilombola e das organizações de base comunitária diante da pandemia da COVID-19. Antes individualmente e agora unidos, os Fundos atuam na construção de convocatórias para o apoio a ações de grupos, organizações e/ou indivíduos que visem enfrentar os impactos da pandemia.

Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, salienta a importância da aliança inédita entre os três Fundos, ao atender diretamente as comunidades mais vulneráveis: “Decidimos nos voltar para essas comunidades de povos tradicionais, que têm mais dificuldade para acessar esse tipo de recurso. E também resolvemos trabalhar juntos nessa operação por causa da pandemia. Há muitos recursos, mas também muita disputa por eles”.

Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial

“A luta por direitos é coletiva e, portanto, incentivar e viabilizar o trabalho em rede no campo dos direitos humanos é uma estratégia central na atuação do Fundo Brasil”, diz Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos. “Por isso, faz muito sentido para nós que as fundações criem metodologias de apoio conjunto às organizações e grupos ativistas. Essa é uma parceria que fortalece todas e todos nós.”

Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos

Já a fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa Socioambiental Maria Amália Souza, afirma que a organização nasceu e sempre funcionou a partir de alianças, parcerias e uma enorme rede de confiança. “Para atuar em territórios complexos e levar recursos para as mãos dos verdadeiros guardiões planetários, é preciso trabalhar junto. Portanto, a Aliança entre Fundos é uma realização importantíssima, pois viabiliza uma coordenação ímpar no campo da filantropia para a justiça social, onde trabalharemos de forma coordenada para ampliar nosso impacto coletivo na sociedade como um todo”.

Maria Amália Souza, fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa Socioambiental

Os editais de cada uma das instituições que compõem a Aliança Entre Fundos, serão lançados em Setembro.

 

Vida Quilombola – Respeitar, reivindicar e se impor para ter respeito

Por Wagner Prado

No mês de julho entrevistamos duas líderes quilombolas: Selma Dealdina, secretária executiva da Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e Luiza Cavalcante Santos Dias, do Sitio Agatha, na Zona da Mata, em Pernambuco. Uma conversa rica, de muito aprendizado sobre a vida nos quilombos. Nesta edição, a conversa será com o Jhonny Martins de Jesus, quilombola com origem na comunidade de Furnas do Dionísio em Jaraguari/MS e que atualmente reside no Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI), estudioso da vida nos quilombos, outra importante figura entre essa rica comunidade 

Quais as principais reivindicações da comunidade quilombola hoje?
Acesso à terra (titulação), educação, saúde com o enfrentamento ao COVID e vacina para todos/as quilombolas. Apoios com projetos que gerem renda e emprego nos quilombos. 

Que barreiras impedem chegar a essas reivindicações?
O racismo estrutural e institucional e o sucateamento das políticas públicas são algumas das barreiras impostas aos quilombolas.  O Estado brasileiro, com suas estruturas e posturas racistas, é um entrave, uma vez que a política quilombola é vista como uma política de governo e não de Estado. Para atender a algumas poucas reivindicações exigidas pelo movimento quilombola, precisamos recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), como foi o caso recente do COVID em territórios quilombolas. 

Jhonny Martins de Jesus, liderança quilombola no Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI)

Como está a questão do não reconhecimento das terras quilombolas?
Nossa maior reivindicação é a titulação dos territórios quilombolas. São 1.767 processos no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). São 2.819 quilombos certificados e 3.475 quilombos identificados no Brasil. A CONAQ estima que existam no país 6.300 quilombos. São 134 territórios quilombolas titulados; 47 territórios quilombolas parcialmente titulados. Sem a garantia definitiva dos nossos territórios, continuaremos a sofrer com as violações do Estado brasileiro.

Você se considera um estudioso da vida e da cultura quilombola?
Sou um estudioso da vida e da cultura quilombola e também sou um agricultor quilombola.

Que ensinamentos o modo de vida quilombola pode trazer para homens e mulheres neste quase ¼ do século 21?
Aprendemos com nossos ancestrais a lutar pela garantia dos nossos territórios, a viver em coletividade, cuidando da terra, da água, das pessoas que no quilombo vivem, guardando os conhecimentos ancestrais. A prendemos a lidar com as plantas medicinais, a produzir e manter a cultura e a tradição quilombola, mas também a fazer o enfrentamento ao racismo,  que em pleno Século 21 precisamos denunciar, numa sociedade que viola os corpos negros, que não titula os territórios quilombolas. Vivemos numa reflexão mútua em aprender e ensinar sobre nosso modo de viver e fazendo com que a sociedade conheça a história do Brasil. Para isso, precisam saber que ainda existem sim, quilombos neste país.    

Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI)

No contexto da Pandemia, os quilombolas deixaram de ser priorizados?
No dia 9 de setembro de 2020, a CONAQ, juntamente com entidades que apoiam a luta quilombola, e partidos políticos, protocolou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 742 (ADPF), que reconheceu o direito à implementação de medidas específicas para combate à COVID, diante da vulnerabilidade social das comunidades, agravada pela pandemia. Isso não se restringiu à vacinação, mas também a materiais de higiene; promoção de testagens; logística para acesso a leitos hospitalares; garantia do acesso à alimentação; à água potável e falta de efetivação do direito à terra. Esses foram alguns dos elementos abordados pela ADPF.

Saiba mais sobre a ADPF

A contribuição negra para a Comunicação no Brasil

Por Vinícius Vieira

No dia 5 de agosto, estreou nos principais cinemas do país o filme Doutor Gama, que narra a trajetória de Luiz Gama, líder abolicionista. A vida de Luiz Gama já foi abordada pelo Fundo Baobá em uma matéria especial, mas é importante salientar que Gama foi uma figura importantíssima para a modernização da Comunicação no país. No ano de 1864, o advogado e jornalista fundou o primeiro jornal ilustrado humorístico da capital paulista, o Diabo Coxo, considerado algo inovador para a época.

Diabo Coxo – Jornal ilustrado idealizado por Luiz Gama

Para Edson Cardoso, jornalista, mestre em Comunicação Social, doutor em Educação e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, há um grande apagamento da história de pessoas negras que contribuíram para o avanço da Comunicação no país, assim como foi Luiz Gama: “José do Patrocínio, outro grande nome do século XIX, é considerado um dos maiores jornalistas que o país conheceu”, relembra Edson. “Mas, além dos indivíduos que se destacaram por seus méritos numa realidade adversa e hostil, há uma imprensa negra vinculada ao coletivo de associações e entidades, que diz respeito aos esforços de organização política”, completa.

José do Patrocínio, jornalista e abolicionista

Foi justamente com a premissa de valorizar e preservar a memória negra brasileira, que nasceu das mãos de Edson Cardoso o Irohin, que surgiu no ano de 1996, como um jornal impresso e hoje é um centro de memória e documentação da história negra, além do projeto de uma biblioteca. O nome Irohin é uma palavra de origem Iorubá que significa notícia. O seu criador considera o Irohin um projeto de maturidade: “Antes do Irohin, eu editei o Raça & Classe e o Jornal do MNU (Movimento Negro Unificado), ambos tabloides. Na revista da UnB (Universidade de Bahia), Humanidades, eu era um faz-de-tudo, com o nome três vezes no expediente, e sou também o editor convidado em 1988 para o número do Centenário da Abolição”, sendo que neste último, Edson contou com a colaboração de Lélia Gonzales, Luíza Bairros, Helena Teodoro, entre outras personalidades negras. “No Irohin, tive oportunidade, finalmente, de coordenar um projeto que envolveu muita gente jovem talentosa, num momento de enfrentamento decisivo como foi a luta pela legitimidade das ações afirmativas. Eu já tinha o mestrado em Comunicação, mas a minha aprendizagem foi lenta e acidentada, fora da escola. O projeto de valorização da memória era, em princípio, valorização da memória do Irohin”, conta Edson, que também afirma que aos poucos vai incorporando outras dimensões no projeto.

Edson Cardoso, jornalista, mestre em Comunicação Social, doutor em Educação e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

Quando se fala em resgate de memória, automaticamente pensamos em personalidades renomadas, porém Edson salienta a importância de registrar e contar memórias de pessoas comuns: “é justamente no cotidiano das nossas comunidades que vamos encontrar o rico patrimônio de uma cultura de resistência e continuidade que enfrenta os obstáculos a nossa participação econômica, social e política”. Edson usa como exemplo a história do Valdir Macário, um cabeleireiro que foi brutalmente assassinado em 2016, em seu local de trabalho, em Salvador: “Valdir era referência comunitária importante, uma perda inestimável. Exatamente por isso que eu tenho insistido, em várias intervenções, de que nós devemos valorizar mais as estratégias de sobrevivência utilizadas pela população negra. Sempre estivemos por nossa própria conta, sobrevivemos por nossa própria conta. Os recursos públicos, as políticas públicas, seletivas e orientadas pelo racismo, foram responsáveis pelo aprofundamento das desigualdades raciais. Portanto, é preciso que retornemos à nossa comunidade, sempre. Para nos convencermos de que nada nos é impossível.

Valdir Macário, “Valdir Cabeleireiro”, assassinado em 2016 na Bahia

157 anos depois da fundação do primeiro jornal ilustrado, pelas mãos de Luiz Gama, hoje temos um avanço significativo de pessoas negras na Comunicação. Se por um lado celebramos a presença da jornalista Maju Coutinho como âncora do jornal com maior duração da emissora mais popular do país, Edson faz questão de frisar que no país dos 56,4% da população negra, segundos dados do IBGE, a TV brasileira se comporta como um selo colonial: “Quando você examina um selo de Angola e Moçambique emitidos por Portugal, que era a matriz colonial, a imagem representada no selo era portuguesa. Angola e Moçambique, invisíveis, eram representados por imagens portuguesas, com despudor e arrogância”, diz o jornalista que ainda cita Muniz Sodré para concluir o pensamento: “Ele disse que a TV brasileira, para o negro, era como o espelho para o vampiro. Não reproduzia sua imagem, tal qual como os selos coloniais”, completa.

Mesmo que a representatividade seja pequena, Edson Cardoso acredita que é importante valorizar todas as conquistas: “Quando falamos em avanço, falamos em pequenas mudanças nesse quadro de violência brutal. Há um longo e tortuoso caminho ainda a ser percorrido, mas todos os passos são importantes. Mesmo os vacilantes e trôpegos, o importante é que a direção é correta”.

Edson ressalta, entretanto, que existem muitos veículos de comunicação e que não podemos ficar limitados apenas à grande imprensa: “Temos que nos debruçar também sobre um rico e diversificado acervo: o frente-e-verso, o panfleto, o informativo, a precária e sofrida edição única, os cartazes. Têm um sentido coletivo, de intervenção política, que nos interessa muito”.

Por fim, Edson, que seguiu a profissão de jornalista tendo como exemplo o pai que era tipógrafo, acredita que o essencial para a juventude negra que quer trilhar no caminho da Comunicação é se engajar no esforço coletivo que atravessa gerações: “Tenho esperanças de que a produção intelectual e o avanço das pesquisas conduzidas por intelectuais comprometidos trarão mais luz para os embates que travamos no campo decisivo da Comunicação”.

10 Anos do Baobá: Após uma década de atuação, Fundo lança olhar para o futuro

Martha Rosa, professora e doutora em História, e Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do fundo, falam sobre o tema

Por Wagner Prado

A comemoração dos 10 anos de atividades do Fundo Baobá para Equidade Racial coloca, à equipe de governança da instituição, questionamentos. Alguns deles: Como serão os próximos 10 anos? Como expandir? Como ser a melhor opção para os doadores? Como será a atuação política? Internacionalizar-se ou manter-se local? 

Algumas dessas questões foram colocadas para a historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Martha Rosa Queiroz, e para o presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey. Para se ter o olhar no futuro é importante se voltar para o passado, talvez a maior fonte de aprendizado visando um bom planejamento. 

O primeiro aspecto abordado por ambos é quanto aos próximos desafios para o Baobá. Para a professora Martha Rosa, ter forte presença nas capitais e cidades do Nordeste é tão fundamental quanto ter voz atuante a partir de estados nordestinos, notadamente alguns dos quais as populações mais sofrem com questões de desigualdade econômica no Brasil. “O mais  importante é se firmar como uma voz política em defesa da equidade racial e do combate ao racismo e efetivar sua inspiração primeira de falar a partir do nordeste.”  Para Giovanni Harvey, o foco está na maior capacidade e independência de atuação do Baobá. “Acho que o desafio que nós temos, nos próximos dez anos, é alcançar a cifra dos R$ 250 milhões de balanço patrimonial para que o Baobá possa ter, de fato, capacidade de incidência maior. Nós podemos dizer isso, sem prejuízo do avanço institucional e sem prejuízo da necessidade de fazer esse debate”, afirma.

Mas mesmo sem ainda ter alcançado a cifra desejada em termos de doações recebidas, que hoje estaria na casa dos R$ 30 milhões, o Baobá já seria, com 10 anos de existência, uma instituição consolidada? Martha Rosa Queiroz afirma que sim: “Do ponto de vista  organizacional, sim. Somos uma instituição bem estruturada e com princípios definidos.  Concebendo a consolidação como um processo constante, o Baobá está  consolidado para perceber, analisar e atender as demandas, que são muitas e atualizadas  cotidianamente”, diz. 

Martha Rosa, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

O presidente do Conselho Deliberativo tem a sua própria visão: “A consolidação ainda não foi alcançada. Nós temos um aspecto institucional, esse aspecto institucional está  ligado ao desenho do Baobá, sua governança, as funções que são necessárias para que o Baobá possa cumprir a sua missão.  Existe o segundo aspecto que é o financeiro, patrimonial, que diz respeito ao quanto esse endowment (balanço patrimonial) dá consistência a que o Baobá possa cumprir as suas atribuições e um terceiro aspecto eu chamaria de mais político-institucional. No institucional, temos um desenho evoluído e estamos próximos da consolidação, com uma assembleia geral, um conselho fiscal, um comitê de investimento. Eu diria que nós avançamos bastante nesses dez anos e que sobre esse ponto de vista o Baobá está mais próximo da consolidação do que nos outros aspectos.”

Analisando o Brasil com o olhar progressista, o que se enxerga é um retrocesso em termos políticos, o que não facilita uma evolução para quem, como o Fundo Baobá, trabalha com ações afirmativas. A partir desse cenário, ambos, Martha Rosa e Giovanni Harvey, pensam em como deverá ser o trabalho do Baobá caso o cenário político brasileiro siga inalterado. “Será necessário ampliar alianças  com diferentes setores, fortalecer o Movimento Negro  e investir em ações de agenda de autossustentação política e econômica”, afirma a professora Martha Rosa. 

Giovanni Harvey acredita que a estratégia futura, mesmo nesse momento em que, administrativamente, a política brasileira está passando por um período de ruptura,  seja continuar com o mesmo foco no trabalho desenvolvido até aqui. E o motivo é simples: “Não quero dar a esse ciclo de quatro anos da história do Brasil a capacidade de desconstruir o que foi construído em mais de trinta anos (desde a Constituição de 1988). Eu não reconheço a condição de se evitar que a sociedade civil e a iniciativa privada, mesmo sob este Governo, tomem iniciativas que nunca tomaram na história e que essas iniciativas tenham o peso superior ao que eles (Governo) deixaram de fazer nesse momento. Mas, sem dúvida alguma, estamos diante de uma tentativa de desconstrução”, afirma. 

Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá

O caminho da internacionalização do Fundo Baobá é inevitável na estratégia de arregimentar novos e importantes investidores e fortalecer a relação com quem já se tem dialogado ou com quem o fundo já atua em parceria. 

Finalizando a conversa sobre o olhar para o futuro, Martha Rosa e Giovanni Harvey falam sobre as vantagens de apoiar o Baobá, sendo um pequeno ou grande doador. “Milhões de potencialidades são abortadas sistematicamente no Brasil em função da mentalidade escravocrata  que ainda impera no país.  Investir em um Fundo que enfrenta essa mentalidade significa abrir horizontes infinitos”, diz Martha Rosa.  Giovanni Harvey é contundente: “Não se faz combate ao racismo promovendo o racismo. Então, se eu tenho uma instituição fundada e liderada sob a hegemonia de pessoas negras e outra liderada por pessoas brancas, as duas instituições se propõem a fazer o enfrentamento à discriminação étnico-racial no Brasil, eu vou botar dinheiro na instituição de negros. Então, a condição preliminar,  independentemente do ser o Baobá ou não ser o Baobá, é reconhecer o protagonismo das pessoas negras”, conclui Harvey.

Fundo Baobá na imprensa em Julho

Por Vinícius Vieira

No mês de julho, membros da diretoria do Fundo Baobá foram destaque na imprensa, falando da importância da promoção da equidade racial em nosso país. 

O economista e membro do conselho deliberativo da organização, Elias Sampaio, foi entrevistado na matéria Exclusão racial no topo da pirâmide de renda do Brasil deve aumentar, publicada na Folha de São Paulo, no dia 3, e também compartilhada no portal O Tempo. A reportagem abordou a desigualdade entre negros e brancos mais ricos do país. O IFER (Índice Folha de Equilíbrio Racial) indicou que, em 2019, a população negra representava 54% da população brasileira com 30 anos ou mais, mas apenas 30,4% se encontravam no topo da pirâmide de renda. As projeções mostram que se não houver nenhuma alteração no componente econômico ao longo dos anos, essa fatia de negros no topo da pirâmide pode, ao invés de aumentar,  encolher, chegando a 24% em 2046.

Em sua fala, Elias Sampaio salientou a importância de incluir a questão racial na centralidade das políticas econômicas do Brasil: “A questão racial é o elemento mais importante para se discutir o desenvolvimento brasileiro. É um problema estruturante”.

A diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, foi entrevistada na matéria especial Como suas ancestrais, empreendedoras negras driblam dificuldades e criam as próprias oportunidades, publicada no portal Alma Preta. O centro da reportagem é o empreendedorismo de mulheres negras, que têm usado a internet como a principal ferramenta de difusão do seu trabalho. Fernanda falou de estratégias que as afroempreendedoras podem utilizar para criar a própria oportunidade de crescimento: “Buscar informações sobre o seu campo de atuação, e o que as pessoas que atuam no mesmo setor têm realizado para divulgar o trabalho, seus produtos, e o que eles trazem de diferencial. Ou seja: é preciso ter uma visão geral do que estão fazendo, para poder fazer diferente, ou fazer semelhante a ponto de ser percebido”.

Também foi destaque na imprensa no mês de julho o Pacto de Promoção da Equidade Racial, uma iniciativa desenvolvida por um grupo de 140 apoiadores, entre eles, investidores institucionais, empresários, CEOs, representantes do movimento negro, ONGs, pesquisadores, entre outros, que têm a ambição de conseguir, no tempo do crescimento de uma geração, melhorar a educação pública para conseguir obter uma representação mais justa dos profissionais negros no mercado de trabalho. O Fundo Baobá participou da concepção da iniciativa, com contribuições importantes de membros do Conselho Deliberativo e Assembleia Geral. A diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, foi entrevistada pelo jornal Valor Econômico e falou da importância do Pacto: “É obrigação da geração atual, a fim de reparar as injustiças acumuladas no passado, equilibrar o presente e promover um futuro mais justo e inclusivo”.

O Pacto de Promoção da Equidade Racial foi destaque também no Estadão, Idis e no Bonde

 

Julho das Pretas

O mês de julho é conhecido como o “Julho das Pretas”, em virtude da comemoração do Dia da Mulher Negra e Dia Nacional de Tereza de Benguela, duas organizações apoiadas pelo Fundo Baobá, foram destaque na mídia com a realização de eventos para celebrar o Julho das Pretas. A Rede de Mulheres Negras do Piauí organizou o 3º Encontro Estadual de Mulheres Negras, nos dias 14, 16 e 17 de julho, contando com palestras e discussões sobre intolerância religiosa, feminismo negro, entre outras questões que perpassam a vida de mulheres negras. O evento virtual foi destaque no portal G1 do Piauí e também no portal Pensar Piauí.

Rede de Mulheres Negras do Piauí

O Coletivo Filhas do Vento, de Recife (PE), apoiado no Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, foi destaque no portal SOS Corpo, com o lançamento do projeto audiovisual sobre pautas feministas negras, contando a trajetória de cinco anos do coletivo. Todo o material disponibilizado pode ser acessado no site oficial das Filhas do Vento.

Coletivo Filhas do Vento – PE

Fechando o mês de julho, no dia 30, aconteceu o lançamento do Dossiê Temático: Mulheres Negras da Paraíba no Contexto da Pandemia da Covid 19, escrito e organizado pela Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba – Abayomi. O documento lançado tem como premissa produzir e difundir informações sobre as condições das mulheres negras na Paraíba, no contexto pandêmico, além de estimular os principais setores do Estado a se comprometer com a pauta racial. O evento virtual contou com as autoras colaboradoras, além das participantes do comitê científico do dossiê e da diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes. O mesmo foi divulgado no G1 Paraíba, no Brasil de Fato, no Jornal Floripa e no portal da Edna Soares.

 

Apoiadas

No campo das apoiadas do Fundo Baobá, em especial do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, a advogada, atriz, doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP e liderança apoiada do Programa, Enedina do Amparo Alves, participou da live de abertura do Seminário Estadual Segurança Pública e violência policial: quais corpos são alvos?. A jornalista, co-fundadora da Plataforma Conexão Malunga e pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisa em Análise do Discurso da UFBA, Mariana Gomes, participou do podcast do LeMonde Diplomatique, que falou sobre os resultados do Relatório Direito à Comunicação 2020, produzido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Enquanto a mestra em Cultura e Sociedade (UFBA) e fundadora do Commbne, Midiã Noelle, escreveu para o Correio (BA) a coluna Desistir pra continuar seguindo: uma reflexão sobre a pausa de Simone Biles, falando sobre a ginasta norte-americana, que desistiu de competir no jogos olímpicos em Tóquio, para cuidar da saúde mental.

Ainda sobre o Programa Marielle Franco, o Instituto Ibirapitanga, um dos financiadores do edital, ao lado da Fundação Ford, Fundação Kellogg e Open Society Foundations, fez uma matéria especial com quatro lideranças apoiadas pelo programa: Dandara Rudsan, Jenair Alves, Monalyza Alves e o Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria.

Monalyza Alves e outras três lideranças negras, apoiadas no Programa Marielle Franco, no portal do Instituto Ibirapitanga 

Coluna “Negras que Movem” – Portal Geledés 

Enquanto isso, na coluna Negras Que Movem, publicada no portal do Instituto Geledés da Mulher Negra, com textos e reflexões feitas pelas mulheres negras apoiadas no Programa Marielle Franco, a jornalista e autora do livro-reportagem “Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho”, Jaqueline Fraga escreveu o artigo Precisamos falar sobre as personagens negras em “Salve-se quem puder”.

Enquanto o artigo Resistências! foi escrito em parceria pela assistente social e especialista em gestão pública, Brígida Rocha dos Santos; com a bacharel em Direito, coach de desenvolvimento pessoal afrocentrado, defensora popular, coordenadora cultural e de eventos e integrante do coletivo Juventude de Terreiro Cenarab (MG), Lorena Borges, na companhia das lideranças quilombolas: Emília Carla Costa (Quilombo Santo Antônio dos Pretos – São Luís Gonzaga/MA), Lucimar Sousa Silva Pinto, (Sitio Raízes – Pirapemas/MA) e Tânia Heloísa de Moraes (Quilombo Ostra – Eldorado no Vale do Ribeira/SP).

Aliança entre Fundos é lançada como estratégia inédita no campo da filantropia social no Brasil

Iniciativa reúne Fundos que trabalham pela equidade racial, direitos humanos e sustentabilidade ambiental para enfrentar os impactos da COVID-19 em comunidades tradicionais

Foi lançada nesta quinta-feira (26/08), em um evento online, a Aliança entre Fundos. Trata-se de uma iniciativa inédita e inovadora de filantropia colaborativa no Brasil. A ação reúne três fundos tradicionais no campo da filantropia social: o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental. O objetivo é ampliar a captação de recursos para fortalecer quilombolas e indígenas no enfrentamento dos impactos da pandemia da COVID-19.

A primeira ação coletiva do grupo será o lançamento de editais, com previsão de abertura das inscrições em setembro. O aporte inicial será de R$ 2,5 milhões distribuídos entre os editais voltados para as comunidades quilombolas e indígenas.

O lançamento da iniciativa foi marcado pela roda de conversa “Impactos da COVID-19 e a filantropia para justiça social no Brasil”. Participaram da Live de lançamento, Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil, e Maria Amália Souza, fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa. O evento também contou com a participação de David Fleischer, representante da Inter-American Foundation (IAF) para o Brasil e Uruguai. A mediação foi de Fernanda Lopes, diretora de programas do Fundo Baobá.

Evento Aliança Entre Fundos – Sentido horário: Fernanda Lopes (Fundo Baobá), Selma Moreira (Fundo Baobá), Maria Amália (Fundo Casa Socioambiental) e Allyne Andrade (Fundo Brasil) 

O encontro abordou questões referentes ao campo da filantropia no Brasil e os desafios para fazer com que os recursos cheguem até às organizações, grupos, coletivos de base e comunitários dos povos indígenas e quilombolas.

 

Escuta ativa

Ao abrir os diálogos, o representante da IAF ressaltou que a necessidade de ampliar o apoio às comunidades de base foi um dos fatores primordiais para o apoio da IAF à Aliança. Segundo ele, o forte vínculo já estabelecido entre os Fundos e as comunidades quilombolas e indígenas é fundamental para a atuação direta nestes grupos.

“A Aliança entre Fundos aumenta a capilaridade das ações. Principalmente em localidades isoladas, que possuem mais dificuldade de acesso a recursos públicos e ao capital estrangeiro. Além disso, são Fundos temáticos, com forte ênfase em justiça social, que estão trabalhando juntos e trazendo experiências em enfoques diferentes para problemas que afetam toda a sociedade. E segundo, estão concentrando esforços e recursos para apoiar iniciativas locais inovadoras no enfrentamento aos impactos da pandemia”, disse Fleischer. “Outros apoiadores nacionais e internacionais devem investir nessas iniciativas”, afirmou.

David Fleischer, representante da Inter-American Foundation (IAF) para o Brasil e Uruguai

Em 2020, os três Fundos já se mobilizaram individualmente para ações emergenciais a fim de reduzir os impactos da pandemia da COVID-19. As ações incentivaram a aproximação entre os Fundos e fortaleceram o diálogo entre pares para aprimorar as estratégias de promoção da justiça social no país. “Quando do início da pandemia da Covid-19, todos os Fundos, e nós três aqui em particular, iniciamos ações emergenciais. O processo de iniciar editais de ação emergencial nos permitiu ficar ainda mais conectados, próximos, com uma escuta ativa para entender qual era a demanda do campo. Trazemos esta expertise. Por isso, nosso desejo é fazer com que a Aliança se torne mais robusta”, disse Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá.

Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos reforçou este argumento.  “Nossa proximidade com o campo faz com que consigamos dar respostas rápidas. Quanto mais pessoas pudermos contar para fortalecer essas iniciativas, colocar dinheiro no campo para fortalecer e apoiar essas lutas, mais impactos positivos teremos”, afirmou.

Também Maria Amália, do Fundo Casa, enfatizou o convite para que novos investidores e filantropos apoiem a iniciativa e destacou que o envolvimento da sociedade é fundamental para defender a vida dos povos tradicionais. “Não é possível, por exemplo, continuar acreditando que os indígenas e os quilombolas devem defender a Amazônia, ao custo da própria vida, sem receber investimentos do Brasil e, dependendo de recursos, de fora do país. O único jeito de proteger a Amazônia e os biomas vitais para o equilíbrio planetário é investindo nessas populações que são os verdadeiros guardiões da Amazônia, um bioma da maior importância para o equilíbrio da vida do planeta”, disse.

Resiliência

Por meio da Aliança entre Fundos, a expectativa é fortalecer a resiliência das comunidades locais e a promoção da justiça racial, social e ambiental.  Selma Moreira lembrou que o Fundo Baobá enxergou de perto os efeitos do racismo nas comunidades quilombolas.

“A gente entendeu os efeitos latentes do racismo na estrutura da nossa sociedade. Foi este panorama que nos motivou a entrar na Aliança para atender estas demandas urgentes. E para reconhecer a sabedoria dos quilombolas pelo processo de escuta, com recursos para que as organizações locais tenham protagonismo, liderando seus projetos e soluções para melhorar suas demandas para uma vida plena”.

Já Allyne Andrade, do Fundo Brasil de Direitos Humanos, reforçou que os povos indígenas enfrentam neste momento violações a seus direitos constitucionais de forma ainda mais acentuada.

“Neste exato momento, mais de 170 povos indígenas estão em Brasília marcando posição contra a tese do marco temporal, que pode restringir o acesso destes povos às suas terras ancestrais e está sendo apreciada no Supremo Tribunal Federal”, disse, acrescentando que “estamos assistindo a uma tentativa de apoiar a invasão de terras indígenas, a exploração de recursos naturais, a escalada dos conflitos e da violência contra as comunidades e lideranças indígenas. Por estes motivos, apoiar os povos indígenas é apoiar a defesa e ampliação da própria democracia brasileira”, avaliou Allyne.

Maria Amália, do Fundo Casa Sociambiental, por sua vez, salientou que a instituição foi criada por atores do campo socioambiental da América do Sul que perceberam que os recursos não chegavam aos grupos mais vulneráveis. “Entre os pontos em comum com os parceiros da Aliança está o esforço de compartilhar nossa experiência com líderes sociais dos países vizinhos, o que resultou na criação de quatro novos fundos socioambientais que passam a disponibilizar mais recursos, e de forma coordenada, por toda região. Multiplicar esta experiência colaborativa é fundamental. Queremos inspirar, agregar e estimular outras formas de organização no campo da filantropia social. Sozinho, ninguém resolve tudo”, afirmou.

Foi criado o Comitê Gestor da Aliança entre Fundos, responsável pela captação de recursos para esta iniciativa. Os interessados devem entrar em contato com os seguintes endereços:

alianca@baoba.org.br
alianca@fundobrasil.org.br
alianca@casa.org.br

Aliança entre Fundos – Iniciativa inédita e inovadora

A Aliança entre Fundos – surgida a partir da mobilização comunitária pela justiça racial, social e ambiental – propõe um novo modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil, a filantropia colaborativa para a justiça social.

Composta pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental, a Aliança entre Fundos tem como meta promover maior aporte de recursos diretos para os povos indígenas, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais mais vulnerabilizados pela pandemia da COVID-19.

Juntos, os Fundos irão fazer um aporte inicial no total de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais, com três recortes prioritários: 1) defesa de direitos; 2) resiliência comunitária e sustentabilidade econômica das famílias; e 3) soberania alimentar das populações menos favorecidas no enfrentamento da pandemia causada pela SARS-CoV-2.

Como surgiu

O reconhecimento da atuação e do protagonismo dos povos tradicionais, indígenas e das organizações de base comunitária diante da pandemia da COVID-19 impulsionou os três Fundos, num primeiro momento individualmente, na construção de convocatórias emergenciais de apoio a ações de grupos, organizações e/ou indivíduos em situações de maior vulnerabilidade na pandemia.

A Aliança surge como uma ação estratégica e inovadora no percurso das trocas e diálogos entre os Fundos sobre os obstáculos e aprendizados forjados no fortalecimento da agenda por justiça social durante a pandemia da COVID-19.

Este projeto pioneiro também se estabelece a partir de fortes relações por meio de uma aliança com a base comunitária. E pretende atuar para além deste cenário pandêmico a fim de viabilizar maior resiliência e recuperação de uma autonomia embasada em novos pilares que resultam desta experiência.

Os editais serão lançados conjuntamente pelos Fundos no dia 9 de setembro.

Em breve anunciaremos os detalhes neste site.

Olimpíada de Tóquio 2020: Negras, Negres, Negros de Ouro, Prata e Bronze

Por Wagner Prado

Os recém-encerrados Jogos Olímpicos Tóquio 2020, a 32ª edição da Olimpíada, foram marcados pela diversidade, com 163 atletas LGBTQIA+, a inclusão de cinco novos esportes: surfe, skate, karatê, escalada, beisebol/softbol, ameaça de punição a um protesto político e, no âmbito brasileiro, a conquista de 21 medalhas, superando as 19 dos Jogos Olímpicos Rio 2016, o que deu ao Brasil sua melhor colocação em Jogos Olímpicos, o 12º lugar, uma posição acima do 13º lugar no Rio, há cinco anos. 

Dessas 21 medalhas, oito atletas negras e negros foram responsáveis por 9 medalhas. Rayssa Leal (prata/skate),  Isaquias Queiroz (ouro/canoagem), Rebeca Andrade (ouro e prata/ginástica artística), Hebert Conceição (ouro/boxe), Beatriz Ferreira (prata/boxe), Abner Teixeira (bonze/boxe), Alisson dos Santos (bronze/atletismo) e Thiago Braz (bronze/salto com vara). Isso sem contar esportes coletivos, onde estão Fernanda Garay e Ana Cristina (prata/vôlei feminino) e Lucão, Abner, Daniel Alves, Gabriel Menino, Guilherme Arana, Claudinho, Matheus Cunha, Paulinho, Richarlison e o responsável pelo gol do título, Malcom (ouro/futebol). 

Ouro, prata e bronze: Hebert Conceição (boxe), Rayssa Leal (skate) e Alisson dos Santos (atletismo), foram alguns dos medalhistas negros nas Olimpíadas em Tóquio

A influenciadora digital e desportista Mia Lopes, baiana de Salvador e radicada em São Paulo, faz uma análise do que foi a participação dos atletas negros em Tóquio. Mia é criadora do Afroesporte, que mesmo no momento pré-olímpico passou a fazer postagens sobre os nomes negros que estariam na disputa no Oriente e suas possibilidades.

Mia Lopes experimentou muito mais o sucesso agora com a Olimpíada de Tóquio. O Afroesporte acabou sendo fonte de informação e pesquisa para muita gente que recorreu à página para incrementar seu nível de informação sobre os e as atletas negras e negros. “Por incrível que pareça eu não esperava que o Afroesporte fosse performar tão bem em plataformas como o Linkedin, por exemplo. Daí, com as interações, passei a focar em outras plataformas também. Ainda não conseguimos mensurar tudo, mas assim que nosso business intelligence fechar esses números, vamos divulgar”, disse Mia. 

Mia Lopes, criadora do Afroesporte

Mia é atleta amadora e considera que as atletas  e os atletas do Brasil são, primeiramente, fruto de seu próprio talento nato, que acabou saltando barreiras. “Eu gosto sempre de falar que a Olimpíada surgiu de forma extremamente  excludente. Ela nasceu racista e machista. Sem negros e mulheres, nem nas arquibancadas”, disse. O fato de o Brasil ter entre medalhadas e medalhados essa presença negra é importante. “Tem o pessoal aí que fala: ‘ah, tem gente aí que ganha o Bolsa Atleta (programa de incentivo do Governo Federal que destina salários de acordo com resultados e representatividade de competidores). Mas, e se a gente for botar na ponta da caneta quanto custa a vida de uma ou um atleta? Assessoria esportiva. É preciso treinar, ter orientação de nutricionista, ter suplementação alimentar. R$ 8 mil não são somente para o esporte, acaba sendo pelo conjunto dessas coisas. Aí não dá conta”, afirma.

Para Mia Lopes, o próximo ciclo de preparação olímpica, que será de apenas três anos devido ao adiamento de Tóquio de 2020 para 2021, por conta da Pandemia da Covid-19, será difícil para atletas brasileiros. Talentos como Rebeca Andrade, que alcançou ouro e prata na ginástica artística, podem surpreender. “Quero dar o exemplo da minha avó. Ela fazia uma feijoada todo domingo uma feijoada muito famosa, e ninguém sabia do que era feito essa feijoada. O segredo da feijoada de Dona Santa era a xepa da feira que ela ia no final da tarde com a minha mãe e os outros filhos catar.  Ela pegava os ossos do boi que eram jogados fora. Ela pegava a cabeça do gado. Ela raspava assim embaixo da orelha, onde tem muita carne, pra fazer a feijoada do domingo. O que os nossos atletas estão fazendo é uma feijoada muito boa com a xepa da feira e dando um show de beleza, de garra e determinação”, disse.

Negras vitórias: Um legado de conquistas da população negra

“Existe uma história do Negro sem o Brasil.
O que não existe é uma história do Brasil sem o Negro”
(Januário Garcia)

A cantora norte-americana Beyoncé, ao lançar o álbum visual Black Is King, em 2020, recebeu duras críticas por mostrar uma África glamurosa e afrofuturista. As críticas, fundamentadas por profissionais da comunicação e até mesmo por pessoas do meio acadêmico, mostram um imenso desconhecimento da história dos povos africanos, repletas de conquistas e glamour. Antes da colonização européia, o continente africano teve grandes impérios, grandes reinos, além de organizações tribais que possuíam um patamar tecnológico e desenvolvimento de técnicas autônomas. 

Alguns dos principais legados tecnológicos, presentes até os dias atuais, foram desenvolvidos no continente africano: começou no Egito o estudo de hieróglifos e dos mapas lunares para controlar as cheias dos rios. A matemática tem origem em tribos do reino do Congo, além da metalurgia, que também foi desenvolvida em Gana e o sistema de alfabeto, que desenvolveu a escrita, teve início na Etiópia.

A colonização e a escravidão, durante séculos, geraram o apagamento da história,  das conquistas e do pioneirismo da população negra em diversos setores. Na história do Brasil, Princesa Isabel recebe o título de libertadora de negros escravizados, mas o país desconhece a atuação de negros livres que integraram o movimento abolicionista e ajudaram a libertar muitos escravizados, como José do Patrocínio, Ferreira de Menezes, Ignácio de Araújo Lima, Arthur Carlos, Theophilo Dias de Castro e Luiz Gama a quem, recentemente, foi concedido o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de São Paulo. Era dia 29 de junho de 2021.

Cultne – 40 anos de conquistas negras em um acervo digital

Manter vivo o legado da cultura e das grandes conquistas negras no Brasil é a principal missão do Cultne – Acervo da Cultura Negra, fundado em 1980 por Asfilófio de Oliveira Filho, mais conhecido como Filó Filho, que é engenheiro civil de formação, mas atua como jornalista, produtor cultural e cine-documentarista com mais de 40 anos de experiência nas áreas de cultura, esporte, marketing e comunicação: “O Cultne vem garantindo, há quatro décadas, a valorização da cultura popular, o fomento à cultura de qualidade, possibilitando a interface com as mais diversas camadas sociais e viabilizando a comunicação entre diferentes comunidades”. 

Asfilófio de Oliveira Filho – Filó Filho – engenheiro civil de formação, jornalista, produtor cultural, cine-documentarista e diretor do Acervo Cultne

A história do Cultne inicia na década de 1980, diante do surgimento do Movimento Negro Unificado, na década anterior, e das movimentações e lutas contra o racismo no país. Destas ações políticas derivou a necessidade de documentar em vídeo o levante negro que ocorria naquele momento, mas que não ganhava espaço na grande mídia. Assim nasce o Cultne, que 40 anos depois reúne um acervo com cerca de 2 mil horas de materiais que incluem shows, documentários, filmes, séries, entrevistas, programas, entre outras linguagens.

Fundadores do Acervo Cultne: Ras Adauto, Vik Birkbeck e Filó Filho

Inclusive, foi no acervo histórico Cultne que o rapper Emicida encontrou imagens das mais diversas conquistas negras brasileiras, e incluiu em seu documentário AmarElo – É Tudo pra Ontem (Netflix). Filó Filho afirma que, ao longo dos anos, o acervo Cultne vem contribuindo com diversas narrativas cinematográficas nacionais e internacionais: “O documentário AmarElo de Emicida veio confirmar a quebra de paradigmas que envolve a negação da história afro-brasileira, principalmente nos meios de comunicação e nos bancos escolares. Podemos afirmar que a oralidade de outrora se faz presente em nossas lentes de forma expressiva e fundamental. A companhia de mentes saudáveis como Emicida nos faz acreditar que estamos numa mesma página em que todos nós ganhamos em qualidade e esperança.”

Para Filó Filho, os arquivos históricos no acervo Cultne documentam marcos da cultura negra e a memória pública, garantindo para as gerações presentes e futuras o universo afroimaginário dos últimos 40 anos. Sobre o público que acessa esse material, Filó traz um panorama: “Os que acessam o acervo são, principalmente, professores, pesquisadores e estudantes de diferentes faixas etárias, além de um público em busca de informação e entretenimento”. Filó Filho ainda revela que segundo as estatísticas do canal do Youtube, nota-se que o portal é acessado em diferentes partes do mundo, independentemente do idioma: “Estamos falando de países das Américas, Europa, África e Ásia. Portanto, é gigantesca a nossa responsabilidade em perpetuar esse imenso arquivo que a cada dia cresce mais”.

É no acervo Cultne que encontramos os registros do “1º Encontro Nacional de Mulheres Negras”, realizado no Rio de Janeiro, em 1988, com a presença de Luiza Bairros – ex-ministra de Estado e uma das fundadoras do Baobá,  e outras mulheres negras cujo legado buscamos honrar; da Marcha do Movimento Negro, realizada em novembro de 1983, dentro das comemorações do Dia da Consciência Negra, com a presença e articulação de Lélia Gonzalez; a visita de Pelé e Gilberto Gil pela África, durante o centenário da abolição da escravidão em 1988; a Missa dos Quilombos, ocorrida em 1989, no Rio de Janeiro, idealizada pelo bispo Dom Pedro Cassaldáliga, com música de Milton Nascimento e com intervenções artísticas de grandes artistas como Zezé Motta, Milton Gonçalves, Grande Otelo, Antônio Pompeo, entre outros.

“É impossível alinhar os mais importantes”, afirma Filó Filho, “mas podemos afirmar que os conteúdos que descrevem a trajetória da luta negra em nosso país são os mais relevantes do ponto de vista histórico, como por exemplo as diversas marchas ao longo das últimas décadas envolvendo as lutas do Movimento Negro, das mulheres negras e de centenas de personalidades que contribuíram e contribuem para o combate ao racismo em nosso país e no mundo”. Na lista de personalidades negras, além das citadas acima, temos os fundadores da Frente Negra Brasileira, Aristides Barbosa, Raul Joviano do Amaral, José Correia Leite, Henrique Cunha e Francisco Lucrécio; as intelectuais Beatriz Nascimento e Tereza Santos; mulheres marcantes como Ruth de Souza e Mãe Beata de Iemanjá; ícones como Abdias Nascimento, Joel Rufino do Santos, Zózimo Bulbul, Januário Garcia e Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e líder da luta contra o Apartheid, que visitou o Brasil em 1991, e o único registro em vídeo da sua visita está no acervo Cultne.

Hoje o recém criado Instituto Cultne vem trabalhando no sentido de “salvar” todo o conteúdo registrado ao longo de 40 anos: “O foco hoje é digitalizar, catalogar e sistematizar todo o acervo o mais rápido possível, sendo que essa tarefa requer recursos financeiros e mão de obra especializada”, diz Filó, que afirma estar buscando parceiros para atingir esse objetivo, além de ampliar a parceria com o Google, a partir da plataforma Google Arts & Culture, no sentido de potencializar tecnologicamente o acervo Cultne, garantindo sua longevidade e disseminação.

Outro fator importante a ser ressaltado é que o Cultne deixou de ser apenas um acervo para tornar-se uma plataforma streaming Cultne.TV: “que se propõe distribuir, gratuitamente, todo o seu conteúdo exclusivo de temática negra, reafirmando ser o maior conteúdo digital de cultura negra da América Latina”.

O aumento de negros na universidade é uma negra vitória

Filó Filho costuma dizer que ele é um negro que furou a bolha ao ser o primeiro da família com curso superior:  engenharia civil. Hoje, houve um aumento significativo de pessoas negras nas universidades, o que pode se considerar uma grande conquista nos últimos tempos. Para Filó, essa conquista se deve ao movimento negro e, em especial a uma geração de militantes que pavimentaram a estrada que existe hoje, pressionou o governo federal para criação de políticas públicas para inserção do negro no ensino superior: “Fomos nós, negros e negras ilustres e anônimos, que fomos às ruas, marchamos, lutamos e nos organizamos em tempos trevosos, durante e após a ditadura militar em nosso país”.

Ainda falando de conquistas negras, segundo o documentarista, a grande virada da luta antirracista no Brasil ocorreu em 2001: “Foi  decisiva a participação da nossa delegação na 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização das Nações Unidas ONU), entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2001, na cidade de Durban, África do Sul. Após esse encontro, avançamos firmemente nessa área e,  20 anos depois, o panorama é outro, de mais esperança e de união”, afirma Filó Filho.

Para alcançar a justiça racial é também necessário  reconhecer e difundir lutas e conquistas negras ao longo da história, em todos os setores. Para o Fundo Baobá, o eixo comunicação e memória precisa ser priorizado. Uma das metas para o futuro próximo é prover investimentos nestas áreas como parte de uma estratégia coletiva de  valorização e difusão de conhecimentos, saberes, e outros bens materiais e simbólicos; de construção de novas representações sociais da população negra.

Quilombolas: a arte de viver respeitando a natureza, as pessoas e as tradições

Uma conversa que envolve produção agrícola, agricultura de subsistência, agroecologia, escoamento de produção e venda final poderia muito bem juntar um engenheiro agrícola, um agricultor ecologista, um especialista em logística e um especialista em marketing e vendas. Mas quando a mesma conversa envereda para religiões de matrizes africanas, ancestralidade negra, poder das plantas medicinais, preservação cultural e a relação de tirar da terra o necessário para viver, sem exaurir o solo, aí é bom chamar quem tem alta especialização na área: quilombolas. As comunidades quilombolas são, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 5.972 em todo o país, envolvendo cerca de 16 milhões de pessoas. Para o Fundo Baobá, investir em iniciativas que valorizam a história e promovam os direitos das comunidades quilombolas é prioridade.

Conversamos com duas líderes quilombolas. Luiza Cavalcante Santos Dias, que mora no Sítio Agatha, na Zona da Mata, em Pernambuco. E Selma Dealdina, secretária executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). O Sítio Agatha é uma das organizações apoiadas pelo edital “A Cidade Que Queremos”. Lançado em 2018 pelo Fundo Baobá, em parceria com a OAK Foundation, o edital apoiou iniciativas das regiões metropolitanas do Nordeste do Brasil nas seguintes temáticas: Educação, Meio Ambiente, Segurança, Lazer e Cultura, Trabalho, Transporte, Habitação, Saúde e Serviços. Em 2021, com recursos remanescentes do edital, alguns dos projetos estão recebendo um pequeno aporte financeiro (2a onda de apoio), o Sítio Agatha é um deles.  A Conaq foi concebida em 1996, durante o Encontro de Avaliação do I Encontro Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas, realizado em Bom Jesus da Lapa em maio.  O tema da conversa com elas? Vida Quilombola. Algumas respostas serão compartilhadas por ambas. 

O que é um Quilombo hoje? 

Luiza Cavalcante – Os quilombos hoje,  na nossa concepção,  são comunidades negras que mantêm suas memórias,  tradições e cultura, além de uma forma própria de autogestão. O Sítio Agatha é sim um quilombo

Selma Dealdina – Os quilombos de hoje são continuidade dos quilombos liderados, né? E constituídos por Zumbi, Tereza de Benguela, Dandara e tantas outras Dandara e tantas outras lideranças que nos antecederam. Então nós seguimos o passo da luta coletiva, seguimos o passo de viver em comunidade. A maioria dos quilombos tem uma relação familiar. É quase noventa por cento ou mais.  Tem quilombo que é cem por cento composto por família. Dos troncos familiares, nós somos mais de seis mil trezentos e trinta quilombos no Brasil,  em vinte e quatro estados da federação. Aproximadamente dezesseis milhões de pessoas, isso computado através dos cadastros de programas sociais. 

Luiza Cavalcante Santos Dias, Sítio Agatha, Zona da Mata, em Pernambuco

A administração dos quilombos é feminina? 

Selma Dealdina – O papel das mulheres nos quilombos é fundamental. Primeiro que a luta é constituída por homens e mulheres. Segundo, nós tivemos vários quilombos que foram liderados por mulheres. Como o de Conceição das Crioulas  e o de  Salgueiro, em Pernambuco. Então a luta das mulheres e a presença das mulheres nesse espaço é fundamental,  inclusive para a continuidade dos quilombos.  As mulheres estão lá desempenhando seus vários papéis: estudando na academia, fazendo doutorado, mestrado, agentes de saúde, professoras, pedagogas, agricultoras. Temos também parteiras e  coveiras. Enfim,  o papel das mulheres é fundamental. Eu não consigo imaginar nenhuma organicidade de quilombos sem a presença das mulheres. 

Vocês trabalham com agroecologia. O que é isso? 

Luiza Cavalcante Bom, os conceitos são variados sobre agroecologia,  mas em geral é a maneira como a gente cuida da natureza. Como a gente preserva a biodiversidade. Como a gente estabelece relações, de fato, sustentáveis entre as pessoas e o meio ambiente. Mas para nós do Sítio Agatha,  a gente tem dito que a gente  vive afroecologia,  a agroecologia já não mais nos abarca. 

Selma Dealdina – Os quilombos produzem de tudo.  É como  aquele cântico que diz que a Terra é de todos. Tome, cultive e tire dela o seu pão. Então os quilombos produzem muito. A gente compõe os setenta por cento da produção familiar que vai pra mesa dos brasileiros e das brasileiras. Produzimos banana, cana, mandioca e aipim, abóbora, maxixe, quiabo, pimenta, pimenta do reino, café, criamos  animais de pequeno porte,  como frangos, frangos caipira, porcos caipira e, alguns quilombos, têm também gado. A terra, ela é fértil. Tudo que a gente planta, na terra dá. É isso que a gente tem feito, mesmo sem apoio de projetos e sem apoio de programas do Governo brasileiro, o maior violador das comunidades quilombolas. 

Qual é o ideal da população quilombola no Brasil? 

Selma Dealdina –  Os quilombolas não querem dividir miséria. Nós queremos dividir a riqueza.  Nós queremos ter uma boa moradia, nós queremos ter o mínimo de conforto,  que é algo necessário. Queremos ter carros bons. Nós não queremos viver na miséria, porque nós não somos corpos apartados da sociedade. Então,  a gente produz,  planta, colhe, vende o que é necessário para poder comprar o que a gente não produz. É  importante dizer que a comunidade negra em geral,  e aqui no caso os quilombolas,  não vive apartada do capitalismo. Nós vivemos numa sociedade capitalista. Nós vivemos numa sociedade que comercializa tudo.  Da vida à morte. Do nascer ao morrer. 

Selma Dealdina, secretária executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)

Como a Pandemia da Covid-19 influenciou o trabalho de vocês? 

Luiza Cavalcante – No Sítio Agatha sempre tem gente. Mesmo nesse tempo de pandemia. Nós promovíamos mutirões, que sempre juntavam muita gente. Decidimos fechar para os mutirões, como uma forma de preservar a saúde de todos. Mas a gente sempre teve alguém que chegou, que chega… Uma pessoa, duas pessoas, sempre vem alguém. Alguns chegam porque precisam de algum tipo de cuidado. E como temos aqui pessoas que trabalham com saúde holística, elas dão esse tipo de cuidado a quem precisa. 

Selma Dealdina –  O nosso trabalho não foi impactado porque a nossa luta continua. Nós não temos o privilégio de sentar para esperar nada em berço esplêndido. Porque a nossa pauta é ainda uma pauta de governo,  não é uma pauta de Estado. O mundo viveu antes e vai viver depois da pandemia. Eu  acho que é impossível qualquer ser humano que esteja vivo que não seja influenciado pelo Covid. Mas nós vamos existir antes e depois. 

A questão da imunização da população quilombola foi bem coordenada? Houve mortes?  

Selma Dealdina – Nós temos o número de 299 quilombolas mortos, mais de cinco mil infectados e cinco mortes que nós até hoje não sabemos a causa, porque não teve autópsia. É importante ressaltar que o racismo do Estado brasileiro, o racismo da sociedade, o racismo estrutural e institucional contribuíram para a morte de quilombolas. O atraso da imunização nos quilombos no Brasil é porque nós vivemos num Estado extremamente racista. 

Como vocês estão preservando as tradições quilombolas, a cultura quilombola? 

Luiza CavalcanteEntão, esse cuidado é uma coisa que a gente costuma passar na base da oralidade. Mas está também no nosso jeito de fazer nossa comida, no jeito de  prestar atenção nos outros, prestar atenção em onde é que está faltando algo. E se está faltando algo, a gente chega junto e quando a gente não pode chegar junto,  a gente acha quem chega para contribuir. Lembro muito dos cafés da manhã. Minha mãe nos levava para a casa de alguém, dava o bom dia e anunciava ter vindo tomar café. Quando a resposta era: “Oh, comadre,  hoje não dá porque hoje eu estou daquele jeito.. Ali minha mãe ia na casa de mais duas ou três comadres e dali a pouco as mulheres se reuniam todas na casa daquela que estava sem condições e traziam o café da manhã pra gente criança. Era uma alegria imensa, porque a gente ia se encontrando logo cedo de manhã. Ali já  começava a farra de brincadeiras!

Atividades de agroecologia e cuidado pessoal realizadas no Sitio Agatha

Selma Dealdina – Nossa forma ancestral de viver é repassada de geração em geração.  Os idosos passam pras crianças, pros jovens, pros adultos e assim a gente faz uma grande rede de transmissão do saber o que a gente sabe e repassa. Nos terreiros, onde existem   os festejos  de santos de devotos, a gente trabalha com a preservação das tradições quilombolas que são heranças passadas de geração em geração. Então,  quando você repassa o saber, quando você é o ensinamento, e esse ensinamento é repassado pra frente, as tradições são mantidas.

10 anos do Baobá: filantropia não é evento, é processo que deve ser estimulado

O olhar de economistas sempre é muito importante para uma análise sobre como vai a saúde financeira do país e o que poderá advir dela. Evidentemente, a economia determina hábitos e costumes. Por outro lado, ela os restringe também. Dois economistas que fazem parte da governança do Fundo Baobá para Equidade Racial falam como o trabalho da instituição vem sendo realizado e quais são as diretrizes que o Brasil deve seguir para alcançar a tão almejada equidade racial, algo que passa por questões políticas, educacionais, culturais, sociais e até religiosas. 

Ana Toni tem graduação em Economia e Estudos Sociais pela Swansea University, no Reino Unido, é mestra em Política Econômica pela London School of Economics and Political Sciences, além de doutorado em Ciências Políticas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente,  atua como diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Silvio Humberto é graduado em Economia pela Universidade Católica de Salvador, mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia e doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), É professor na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e, atualmente, cumpre seu terceiro mandato como vereador. Silvio Humberto é fundador do Instituto Cultural Steve Biko. 

A primeira questão comentada por ela e ele é o fato de a economia brasileira ter crescido em 1,2% no primeiro trimestre de 2021 e se isso seria benéfico para o trabalho de filantropia no país. Para Ana Toni, o mar da economia, revolto ou calmo, tem pouca relação com o desenvolvimento da filantropia. “Vejo pouca relação entre crescimento econômico e crescimento ou não crescimento da filantropia brasileira. Filantropia é muito mais uma questão de cultura e política pública. É uma questão de experiência: quanto mais a gente a exercita, melhor e mais ampla ela fica. Então, mesmo que o crescimento econômico brasileiro esteja para cima ou para baixo, penso que o dilema aqui é como a gente nutre essa cultura filantrópica, que eu vejo que está se fortalecendo no Brasil”, conclui. 

Ana Toni, economista, doutora em Ciências Políticas e diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS)

Para Silvio Humberto, a questão da doação filantrópica perpassa a questão dos índices econômicos. “Diria que o principal desafio para a filantropia no Brasil é fazer com que os brasileiros que detém recursos, os que são ricos, os que concentram a riqueza, doem. Porque nós sabemos que o Brasil não perde uma copa do mundo das desigualdades.  Então, é preciso um esforço conjunto. Sobretudo da sociedade brasileira. Daqueles que de fato podem doar e são capazes de doar para fora. Mas aqui dentro eu acho que falta empatia. As elites brasileiras sempre encararam o país como um grande negócio.”, comenta o professor de Economia na  Universidade Estadual de Feira de Santana (BA). 

Mas para promover a filantropia, principalmente quando ela busca promover a equidade racial, é necessário quebrar alguns paradigmas. “É preciso entender a filantropia. A filantropia não como um evento, mas sim como um processo. Processo que precisa ser estimulado. A sociedade como um todo tem que entender que, se nós queremos que o Brasil avance, temos que combater e enfrentar as desigualdades. Não as desigualdades vistas de forma monocromática, mas entender também a desigualdade de gênero, racial, geracional. Então, entender o caráter multidimensional  da pobreza é muito importante nesse processo”, afirma Silvio Humberto. 

Ana Toni destaca a necessidade de mudanças na legislação. Isso daria incentivo para que pessoas físicas e jurídicas fossem levadas a doar. O caminho dos incentivos fiscais não pode ser esquecido. “Acho que a gente está dando, nesses últimos anos, alguns passos mais largos do que, pelo menos historicamente, já  foi feito. Mas tenho certeza que se não mudar alguma coisa de legislação, para incentivar doadores a fazer essa doação, a gente não vai jamais conseguir. As igrejas têm incentivos, as entidades privadas não têm. Isso já faz um diferencial imenso para os doadores. Então, sem mudar uma legislação vai ser também muito difícil mudar essa cultura”, afirma. 

Fatos lamentáveis ocorridos no mundo e no Brasil, como os assassinatos de George Floyd e Breonna Taylor, além do assassinato do brasileiro João Alberto, em Porto Alegre, contribuíram para uma retomada de consciência das pessoas e também das empresas. Inclusive o mercado financeiro balançou. Grandes instituições bancárias dos Estados Unidos aconselharam seus investidores a não apostar na estabilidade do dólar no momento em que o país estava convulsionado por manifestações populares. “Esses fatos mais que motivam as pessoas a se engajar como doadores para a filantropia de equidade racial. Acho que é um dever, hoje em dia, de qualquer organização lidar com o tema do racismo. Não dá mais para essas organizações, que estão vendo essa brutalidade há séculos e séculos, considerarem que isso não está mexendo com elas. Esses fatos mostram a necessidade de todos agirem como doadores: os brancos de bem, os brancos progressistas, todos”, diz. 

Silvio Humberto segue a mesma fala de Ana Toni e acrescenta: “Esses casos motivam mais as pessoas a se envolverem nas questões raciais. Sobretudo o que o caso George Floyd fez foi envolver as pessoas brancas. Elas não saíam às ruas. A questão racial era vista como uma questão negra  e dos grupos minorizados.  Com relação ao caso do Carrefour, temos que ter cuidado para que isso não vire monetização da questão racial. Tudo se resume com a empresa pagando uma indenização. Não podemos cair na armadilha do ouro de tolo. As vidas não têm preço”, conclui.

Silvio Humberto, economista, doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), fundador do Instituto Cultural Steve Biko e atualmente cumpre seu terceiro mandato como vereador

Os dois economistas analisam como muito importante o trabalho que o Fundo Baobá vem fazendo para que a filantropia para a equidade racial tenha apoio e visibilidade no Brasil. “O Baobá simboliza a modernidade da filantropia para equidade racial. Os negros e o movimento negro já tinham organizações filantrópicas na sua história. Mas o Baobá tem feito isso com a  governança que o mundo moderno exige e quer. O tema da filantropia para equidade racial é difícil. As pessoas não sabem como lidar. O Baobá tem influenciado muito o setor filantrópico e mostrado não só como fazer mas também a vantagem de se fazer filantropia para a equidade racial”, afirma Ana Toni. Silvio Humberto compara o trabalho do Baobá à missão de um orixá guerreiro. “O Baobá tem uma missão oguniana (de Ogum, orixá descrito como forte perseguidor de seus objetivos), que é abrir caminhos nunca d´antes navegados. Ele é um divisor de águas nessa relação com essa filantropia que, antes, pouquissimas organizações do movimento negro tinham acesso. Os projetos sociais que são apoiados têm que estar cada vez mais vinculados ao fortalecimento das organizações negras, das nossas organizações”, define.

Fundo Baobá na imprensa em Junho

A participação  do Fundo Baobá em eventos virtuais sobre filantropia, captação de recursos e sustentabilidade ganhou destaque na imprensa no mês de junho em diversos veículos.

No dia 16 de junho, o presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, participou do “1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento”, organizado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Em sua fala no painel “Impacto social e ambiental”, Harvey deu seu recado aos dirigentes empresariais:

“Precisamos aperfeiçoar o modelo capitalista no Brasil. Temos uma sociedade de classes estratificada. Temos, em algum sentido, uma certa punição à possibilidade de consumo de  determinados segmentos sociais. Nós vemos com preconceito a possibilidade de certos segmentos sociais adquirirem determinados bens, determinados produtos. De certa forma, até punimos empresas que são mais ousadas e buscam ampliar  sua participação no mercado buscando esses segmentos”

A divulgação do evento foi destaque no portal Metrópoles.

No dia 22 de junho, foi a vez de a diretora-executiva da organização, Selma Moreira, participar da plenária de abertura do 10º Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, organizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Com o tema “O Capital e a Humanidade”, o painel discutiu a superexposição das desigualdades sociais no contexto da pandemia e a responsabilidade do setor privado na mudança deste cenário. Selma reconheceu que a pandemia motivou a filantropia em muitos âmbitos e destacou a necessidade de uma ação filantrópica contínua, considerando que a desigualdade não é algo momentâneo:

“A gente precisa de um processo de desenvolvimento da sociedade para além de uma perspectiva humanitária, que é necessária agora. Precisamos construir um novo cenário para os próximos anos. Infelizmente a gente não vai mudar esta perspectiva de extrema miséria e fome, mas precisamos trabalhar em uma perspectiva que contribua para que as organizações sociais tenham possibilidades de desenvolver as suas capacidades, cada vez mais fortalecidas. A partir disso, desenvolvendo suas capacidades, também haverá uma possibilidade de desenvolver o campo, as pessoas e os micronúcleos.”

Selma Moreira citou a importância da existência de fundos de filantropia para justiça social, que olham diretamente para determinadas regiões, assim como também ressaltou que é o momento de as organizações lucrativas irem além daquilo que, historicamente, realizam,  “Tendo esse olhar de que nós podemos construir uma sociedade que, de fato seja mais inclusiva, mais humana e mais equânime”.

O evento completo foi divulgado na Folha de São Paulo e o painel “O Capital e a Humanidade”, com participação da Selma Moreira, pode ser assistido na íntegra abaixo

Conforme também noticiado na Folha de São Paulo, nos dias 28, 29 e 30 aconteceu o Festival ABCR – Conexões para mudar o mundo, organizado pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Selma Moreira participou no segundo dia de evento virtual com a palestra “Investindo nas capacidades de gestão como estratégia de sustentabilidade”. A diretora-executiva do Fundo Baobá apresentou a organização em sua fala:

“A gente é um fundo para a justiça social, como outros fundos irmãos que fazem parte da Rede de Filantropia para a Justiça Social. Somos uma organização que está muito próxima do campo. Ali, no dia a dia. Esse é um dos maiores ativos de ser um fundo para a justiça social. Ter essa capacidade de escuta muito conectada com o dia a dia. Fazer uma escuta muito ativa e permitir que ela direcione a forma de doar.” 

Além das participações em webinários, um grande destaque na mídia, envolvendo o Fundo Baobá, foi a parceria com o MOVER (Movimento pela Equidade Racial). A iniciativa envolve  45 empresas nacionais e multinacionais que divulgaram um manifesto contra o racismo e se comprometeram a gerar 10 mil cargos de liderança para pessoas negras, promover a empregabilidade de 3 milhões de pessoas negras, além de outras ações. O Fundo Baobá é um dos parceiros especializados na promoção da equidade racial a atuar em conjunto com este grupo de empresas. 

A criação do Projeto MOVER foi destaque na CNN Brasil e no portal da EPBR.

Apoiadas do Fundo Baobá

No campo das apoiadas do Fundo Baobá, o portal Eu Rio divulgou o Workshop Empoderamento Talentos Black, que ocorreu no dia 13 de junho, em Nilópolis, no Rio de Janeiro. Com a premissa de levar experiências e conhecimentos para empreendedores, o workshop foi ministrado pela jornalista Angélica Zago, a maquiadora Danny Soares e a empresária Emanuele Sanuto, as três apoiadas no Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as), iniciativa do Fundo Baobá com o apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim. 

Emanuele Sanuto, Angélica Zago e Danny Soares, apoiadas no Programa de Recuperação Econômica, com o Workshop Empoderamento Talentos Black – Foto: Thiago Lara

Outro projeto viabilizado com apoio do Programa de Recuperação Econômica, teve destaque na imprensa, desta vez no jornal A Tarde (BA). O Akuaba, formado pelas doulas e terapeutas em ginecologia natural, Júlia Morais e Laura Daltro e pela relações públicas, Alana Santana. O trabalho realizado pelo Akuaba consiste em promover encontros, em Itapuã (BA), para falar sobre autocuidado feminino.

Laura Daltro, Júlia Morais e Alana Santana, do projeto Akuaba – Foto: Jefferson Dias

No dia 18 de junho foi celebrado o Dia Nacional do Tambor de Crioula, riquíssima expressão da cultura afro. O portal O Imparcial fez uma matéria especial com o grupo MaraCrioula, do Maranhão, que foi um dos apoiados no edital Doações Emergenciais no Contexto da Covid-19. O grupo se inscreveu no edital e, na ocasião, o apoio recebido viabilizou 120 kits de higiene básica, máscaras, álcool em gel e cestas básicas para a comunidade. 

Tambor MaraCrioula (MA), apoiado no Edital Doações Emergenciais no Combate a Covid-19

Coluna Negras que Movem – Portal Geledés

Dando continuidade às ações do Negras Que Movem, a coluna do portal do Geledés – Instituto da Mulher Negra, assinada pelas apoiadas do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, no mês de junho teve  quatro textos publicados:

Políticas públicas e a necropolítica brasileira, de autoria da graduada em Serviço Social,  pós-graduada em Política de Assistência Social e MBA em Administração Pública e Gerência de Cidades, Sibele Gabriela dos Santos.

O futuro é uma mulher preta, escrito pela servidora da carreira de planejamento e orçamento federal, Clara Marinho.

Pandemia ladeira abaixo: A gente sempre tem que morrer?, assinado pela publicitária e bombeira militar, Marina Ribeiro Lopes.

Preta, pretinha, não liga para o que dizem essas pessoas e só abaixe a sua cabeça quando for para colocar a coroa, escrito pela advogada Mayara Silva de Souza, em parceria com a coordenadora da Clínica de Direitos da Criança e do Adolescente, Letícia Carvalho Silva.

Mês da Filantropia Negra (Black Philanthropy Month) é aberto oficialmente no Brasil pela primeira vez

Diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira chamou as pessoas a fazerem doações pela causa negra

Um marco para a filantropia pela equidade racial foi estabelecido neste 4 de agosto no Brasil com a abertura do Black Philanthropy Month (Mês da Filantropia Negra), que já acontece há 10 anos nos Estados Unidos e, pela primeira vez, se realiza no Brasil em parceria com o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). Participou do evento, Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, primeiro e único fundo voltado, exclusivamente, para apoiar iniciativas negras para  promoção da equidade racial. 

O BPM Brasil teve as palavras de abertura proferidas pela afro-americana Jackie Copeland, fundadora do BPM nos Estados Unidos: “A justiça econômica é a última fronteira do movimento pelos Direitos Civis e Humanos. Esperamos que todo o mundo nos acompanhe na celebração do mês de agosto, pressionando por tornar a equidade uma realidade”, ressaltou Jackie. 

Jackie Copeland, fundadora do BPM nos Estados Unidos

Em sua fala, Selma Moreira, lembrou das raízes de ajuda mútua que sempre acompanharam a história dos negros no Brasil. “Não vou me estender nos dados que comprovam o resultado de séculos de opressão e preconceito. São verdades que carregamos em nossas veias, no nosso DNA. Mas carregamos também uma história de lutas.  Atualmente, é comum ouvir, especialmente entre mulheres negras, a expressão que ganhou visibilidade em um dos livros organizados por Jurema Werneck: ‘Nossos passos vêm de longe’. Trata-se da mais absoluta verdade: entre nós, ninguém soltou a mão de ninguém. E talvez o exemplo mais emblemático seja a criação das irmandades negras. O agrupamento em irmandades foi uma estratégia encontrada pela população negra para a construção da solidariedade diante de uma sociedade hostil em pleno escravismo colonial.” 

Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial

Segundo dados do Censo GIFE 2018, apenas 10% das organizações afirmam focar a população negra em seus programas e projetos de doação. Este percentual cai para 2% quando se trata de definir organizações que tenham a população negra, a equidade racial ou o combate ao racismo contra a população negra como foco prioritário. O investimento social privado e a filantropia podem ter um papel estratégico em diferentes frentes, seja no âmbito do investimento ou, de modo transversal,  em todas as ações e políticas implementadas pelas organizações.

Em sua fala de encerramento, Selma Moreira disse:

“Nós temos todos os saberes e capacidade para construir os próximos passos da nossa história. Durante essa pandemia nós vimos as pessoas mais simples doando para suas comunidades. Temos que pensar nas estratégias que envolvem o capital, porque a gente também doa. Somos a maior parte da população e é fundamental que encontremos essas saídas. Mas acho que temos que fazer isso juntos. E vamos fazer isso com a absoluta certeza de que isso se faz a partir de um conjunto de pessoas. Que a gente tenha capacidade de pensar na doação da  forma mais ampla. Que a gente possa doar vida. As irmandades se juntavam para comprar as cartas de alforria para comprar a liberdade. O que é mais necessário que poder viver em liberdade e de forma digna? Que a gente tenha a possibilidade de seguir juntos, de construir nossa história potente e de múltiplos atores. Que tenhamos condição de ver a justiça social, a equidade racial  para todos e não apenas para alguns. Espero que você doe, que se engaje e permita que seu melhor aflore na perspectiva de uma sociedade mais conectada, onde as pessoas negras sigam vivendo e vivendo com dignidade.”

Além de Selma Moreira, outras importantes vozes brasileiras no tema da filantropia para equidade racial participaram como palestrantes desta primeira edição do BPM Brasil: Adriana Barbosa (Fundadora e CEO da Feira Preta); Atila Roque (Diretor da Fundação Ford Brasil); Gilberto Costa (Diretor executivo do JP Morgan Brasil); Ines Lafer (Presidente do  Conselho do GIFE e Diretora da Fundação Betty e Jacob Lafer) e Neca Setubal (Ex-presidente do Conselho do GIFE e Presidente da Fundação Tide Setubal).

Palestrantes do BPM Brasil 2021 em sentido horário: Márcio Black, Gilberto Costa (JP Morgan Brasil), Ines Lafer (GIFE, Fundação Betty e Jacob Lafer) Adriana Barbosa (Feira Preta e Pretahub), Atila Roque (Fundação Ford Brasil) e Neca Setubal (Fundação Tide Setubal)

Para assistir o painel na íntegra basta fazer a inscrição gratuitamente neste link e depois acessar esta sala.

 

Sobre o Black Philanthropy Month

Ao longo do mês de agosto, o Black Philanthropy Month vai promover atividades para disseminação da cultura de doação no Brasil e no mundo. Estão programadas as seguintes ações: 

  • Lançamento do mapa de iniciativas da filantropia pela Equidade Racial no Brasil;
  • Lançamento da plataforma ISP pela equidade racial;
  • Encontro de formação e sensibilização das governanças do ISP para a Equidade Racial;
  • Produção de vídeos pílulas que respondam a pergunta: “Quais contribuições aprofundadas podem e precisam ser dadas pela filantropia e o investimento social privado para responder ao desafio de uma maior equidade racial?” para ser divulgado durante o mês de agosto;
  • Disseminação, divulgação das ações (rede GIFE, imprensa etc).

10 Anos do Baobá: a importância da Assembleia Geral e do Conselho Deliberativo

O texto começa com um agradecimento. Mas não é pieguice. É que ele tem muito significado para o que estará escrito posteriormente. Sim, o agradecimento é sentimental, mas também tem posicionamento político contundente. “Tenho prazer enorme em fazer parte desse time. Prazer enorme em estar desde o início dessa construção de ações, de projetos, de propostas de promoção de equidade racial no Brasil.  O Fundo Baobá tem um valor enorme para milhares de famílias brasileiras, de famílias nordestinas sobretudo. Porque aqui no nordeste está a expressão  maior de negação de direitos de todas as ordens. Quero agradecer imensamente por estar nessa organização, por fazer parte da Assembleia Geral do Baobá e poder contribuir de forma efetiva para que tenhamos uma sociedade mais justa, mais igualitária, que respeite de fato a sua diversidade.” 

A fala acima é da pedagoga Maria do Socorro Guterres, que faz parte da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial. Mas qual é o papel da Assembleia Geral e de seus membros dentro do Fundo Baobá? A própria Socorro Guterres explica: “A assembleia tem papel fundamental para a condução dos trabalhos da missão do Baobá. Os membros da assembleia têm um papel não só burocrático de aprovar e assinar atas, além da prestação de contas. O papel é de fortalecer o processo organizativo do Baobá. De construir alternativas que possibilitem a alteração dos propósitos de vida das pessoas para as quais o Baobá executa as suas ações. A Assembleia Geral não só decide, mas constrói, coordena e articula, ela decide os processos organizativos. Os processos de fortalecimento do Baobá.”

Maria do Socorro Guterres, pedagoga

Outra esfera de governança do Fundo Baobá é o Conselho Deliberativo, do qual faz parte o economista Elias Sampaio. Falando diretamente de Salvador, na Bahia, Sampaio disse: “O Conselho Deliberativo faz parte do que chamamos de Governança do Baobá. O Conselho é o elo entre a execução e os guardiões dos princípios do Baobá, que são os associados, os membros da Assembleia. O Conselho toma decisões estratégicas. É quem aponta os caminhos para onde o Baobá deve seguir e aponta correções, quando necessárias.  O papel do conselheiro é contribuir com esse debate”, afirma Elias Sampaio.  

Socorro Guterres e Elias Sampaio fazem parte da trajetória de criação do Fundo Baobá para Equidade Racial, lá na metade da primeira década dos anos 2000.  Como profissional da Educação e profissional da Economia, eles falam sobre esses dois eixos programáticos do Baobá. “O eixo educação é fundamental. A importância de ter o eixo educação desde a fundação do Fundo Baobá é pensar que ainda existe um fosso extremamente grande entre a população negra (adolescentes, jovens e crianças) e a população branca. Um fosso ainda muito grande em relação à educação. É necessário construir estratégias para a sua diminuição ou eliminação. Para que tenhamos a população negra em iguais possibilidades de acesso à educação em nosso país, isso pode ser construído e fortalecido com ações do Fundo Baobá”, afirma Socorro Guterres. 

Elias Sampaio enfatiza o papel da Economia. “A centralidade do Baobá é a Economia. Você não pode promover ação sem ter financiamento dessa ação. A grande inovação do Baobá é isso. O Baobá tem que ter mecanismos sólidos e sustentáveis de financiamento. Sem financiamento não há nenhum tipo de política pública”, afirma.

Elias Sampaio, economista

Com relação à contribuição do Fundo Baobá para a implementação da equidade racial no Brasil e o combate ao racismo, as visões dos conselheiros, por serem pessoas de muito conteúdo, como classificou Elias Sampaio, podem ser diferentes, fato que contribui ainda mais para o debate e tomada de um caminho comum.  “Acho sim que o Baobá já alcançou o propósito para o qual foi criado. Porque a promoção da equidade racial no Brasil não é só do Baobá. O Fundo Baobá  foi criado para contribuir nesse processo de construção de promoção da equidade. E tenho certeza que nesses 10 anos já cumpriu com isso. É claro que pode mais. Intensificando, continuando a implementar projetos, editais, ações que promovam e fortaleçam o exercício da cidadania de tantos sujeitos homens e mulheres, negros e negras. Podemos fortalecer o exercício de disputa de espaços de poder. Quando falo em disputa, falo no sentido do exercício sadio. Falo da possibilidade real de negros e negras estarem em espaços de poder”, diz Socorro Guterres. 

Elias Sampaio considera que a luta histórica ainda tem muito para ser equilibrada, quando questionado se o Fundo Baobá já teria alcançado o propósito de sua criação. “Não. E não poderia. Como vamos conseguir equidade racial em 10 anos se temos mais de 500 de iniquidade?  Nem que fosse com 25 bilhões de dólares, em 10 anos não conseguiriamos alterar as desigualdades históricas contra os negros no Brasil. E isso não é nenhum demérito para o Baobá. Nós não conseguimos chegar a nossa meta, pois ela é a meta de 210 milhões de brasileiros. Essa luta não é apenas dos negros, é de todos os brasileiros”, conclui.

Empreendedorismo negro: Chefs investem nas comidas africanas e têm sucesso

“No tabuleiro da baiana tem: Vatapá, Caruru, Munguzá…”  O verso do compositor Ari Barroso (1903-1964), feito em 1936 e imortalizado na voz de Dorival Caymmi, mostra como a culinária africana está incorporada à cultura do Brasil. Afinal, os povos negros, sequestrados de África e trazidos à força para cá, conferem ao país outros universos de conhecimentos, cores e sabores, desde 1530.

As comidas são algumas  das mais ricas fontes culturais de um povo. Porém, ao contrário do que ocorre com a culinária dos povos europeus que colonizaram o Brasil – e que figuram nos cardápios dos mais caros restaurantes das capitais brasileiras -, as diferentes culinárias  encontradas nos 54 países que compõem a África sofrem rejeição, apesar de terem  muitos de seus elementos em alguns dos mais cultuados pratos da cozinha brasileira. Acarajé, xinxim, vatapá, caruru, amalá, abará, cuscuz, mungunzá, angu e feijoada:  essas iguarias e inúmeras outras estão inseridas dentro do que se chama hoje de comida brasileira. A origem de muitas delas, porém, está nos porões dos navios negreiros que aportaram na costa de Pernambuco, da Bahia e do Rio de Janeiro ainda antes de 1550. 

A diversa culinária africana permanecia invisível, até que uma polêmica televisiva chamou a atenção para sua existência. Houve uma zombaria a uma comida, o Ugali, feita por um camaronês, o chef Sam. Os envolvidos na prova do Ugali mencionaram que poderiam morrer depois de comer. A manifestação viralizou na internet, gerando protestos. 

A dedicação em produzir a culinária dos países africanos  tem sido o meio de vida de muita gente envolvida com gastronomia.  Uma empreendedora que apostou nisso é Rosilene Rodrigues dos Santos, 60 anos, mais conhecida no Recife (Pernambuco) como Rose Tabuleiro. “Tabuleiro é um instrumento onde se expõem as mercadorias ou quitutes para venda. Era muito usado pelas mulheres negras alforriadas ou escravizadas, para vender nas ruas os quitutes produzidos por elas mesmas”, explicou Rose Tabuleiro, revelando de onde vem o apelido. O tabuleiro se transformou no Tabuleiro Culinária Afro Brasileira, empreendimento de Rose que já está no segmento de restaurantes há 20 anos. 

Segundo dados de 2020 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM),  há cerca de 24 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil.  A Taxa Total de Empreendedores (TTE) entre pretos é maior do que a de brancos, de acordo com a pesquisa do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), Sebrae e GEM 2019: 16,5%. Empreendedores brancos são 15,2%, respectivamente. Um dos eixos programáticos do Fundo Baobá para Equidade Racial é o do Desenvolvimento Econômico. Para nós, promover o desenvolvimento econômico da população negra significa apoiar iniciativas de formação de cidadãos e cidadãs para o ingresso no mercado de trabalho formal ou para o seu aprimoramento, nos mais diferentes setores; que estimulem o empreendedorismo como  engrenagem para o emprego e geração de renda; defendam a diversidade e a equidade como um valores  na indústria, comércio, serviços e demais áreas; ou mesmo o apoio a iniciativas que protejam os direitos das trabalhadoras e trabalhadores domésticos ou ampliem o acesso da população negra ao crédito. 

Rosilene Rodrigues dos Santos – Rose Tabuleiro – Tabuleiro Culinária Afro Brasileira

A jornada de Rose Tabuleiro não foi fácil. Um dos motivos, o estigma que existe em relação à culinária africana. “Existe um preconceito histórico com relação a tudo que é considerado africano no Brasil. Em relação à culinária, isso é percebido quando não se ressalta nas preparações da comida brasileira a contribuição do povo africano nos pratos desta culinária. Muitas vezes se referem a esses pratos como preparações regionais, mas não ressaltam a identidade do povo de origem”, afirma Rose.

Rose vê como fruto do racismo estrutural a pouca difusão da culinária dos países africanos. “No Brasil,  o racismo é estrutural. Ou seja, está na base de todas as nossas relações. Nessas relações, tudo que se refere ao povo preto, consequentemente com raiz africana, é taxado como não tendo valor. Portanto, não deve ser difundido”, afirma. 

Outros dois nomes que trabalham com comidas africanas são Leila Ione Oliveira, 47 anos, e André Luis Maciel Lobão, 44. O interesse deles veio por meio da religiosidade. Ambos são iniciados no Candomblé. Leila há 10 anos. É Yabassé, cargo dado às mulheres para serem guardiãs dos segredos da comida sagrada e ritual dos Orixás. André Lobão é iniciado há 15 anos. É Egbomi (alguém que está na direção de ser Ialorixá ou Babalorixá). Ambos integram a comunidade do Ilê Axé Alagbedê Olodumare. 

A evolução de Leila e André na culinária africana deu origem ao Cozinha Ancestral, restaurante localizado em São Luís (Maranhão) e referência no local. Ambos reconhecem que há pouca difusão do seu tipo de trabalho no Brasil, mesmo o país contando com um contingente de 56% de gente negra. “Vivemos no Brasil um complexo cultural colonialista e racista que é estrutural. Ele nos impediu e nos distanciou da soberania alimentar africana, assim como de seus mitos e tabus. Além disso, a disseminação racista sobre a relação sacrificial do alimento, tradicionalmente presente na cultura africana, contribuiu para a construção de um imaginário preconceituoso, macabro e perverso sobre a origem, o manuseio e o propósito do alimento na culinária do povo africano e dos praticantes de seus ritos ancestrais na diáspora”, diz André Lobão.

Leila Ione Oliveira e André Luis Maciel Lobão, Cozinha Ancestral

Leila Oliveira, uma mulher afro-ameríndia, nascida em Belém, no Pará, cresceu dentro do mercado Ver-o-Peso, centro comercial e gastronômico da cidade. Aprendeu a base da culinária em meio a ervas, raízes, frutos e pescados ofertados pela floresta e pelos rios. Para ela, há pouco conhecimento sobre a cultura alimentar no Brasil. “O povo brasileiro, apesar de desfrutar de uma diversidade cultural na sua alimentação, pouco conhece a origem dos ingredientes, receitas, mitologias e tabus que envolvem o imaginário da herança dos povos africanos e indígenas. Fomos educados com um referencial civilizatório europeu e uma economia pautada no capital norte-americano. Esquecemos, porque nos foi negada, a história e a cultura do povo africano. A culinária de um povo é uma de suas principais manifestações culturais. Fala de como os ancestrais nos ensinaram a comer para ter longevidade e sermos felizes”, afirma. 

 “Costumo dizer que trabalho com culinária afro-brasileira e saliento que a contribuição do povo preto da África com o povo preto do Brasil foi e tem sido de extrema importância na formulação desta cozinha tão marcante e rica em qualquer um dos seus territórios. Qualquer preparação advinda destes povos nos representa e reafirma o quanto eles contribuíram para que este país seja engrandecido e enegrecido nesta área”, diz Rosilene, a Rose Tabuleiro. 

André Lobão e Leila Oliveira fizeram um convite a quem for a São Luís: passar no Cozinha Ancestral e comer o Banquete do Caçador. Rose Tabuleiro mandou uma receita para ser experimentada pelos leitores e leitoras:  

Rose Tabuleiro

“Quero, nesta receita, ressaltar a parceria entre o povo indigena e o povo preto, que fez com que esta iguaria se tornasse patrimônio do povo brasileiro, a  Tapioca, uma raiz cultivada e transformada pelos povos indígenas e transformada em culinária saborosa e nutritiva pelas mãos negras.”

Tapioca Ensopada no leite de coco

Ingredientes:

500 gr de goma para tapioca (não é sagu)

500 ml de leite líquido (de caixinha)

300 gramas de coco ralado fresco

100 gramas de açúcar

sal a gosto

10 gramas de canela em pó

Modo de Preparo:

1- peneire a goma para tapioca e faça as tapiocas(de forma tradicional) e reserve,

2- coloque no liquidificador o coco ralado fresco com o leite líquido e coe. Adoce com o açúcar e parte da canela em pó,

3- em um refratário coloque as tapiocas em camadas alternadas com os leites reservados antes

4- polvilhe com o restante do coco ralado fresco e o restante da canela

5- leve à geladeira por pelo menos 2 horas antes de servir


Observações da chef:

1.  Se for servir como sobremesa sirva gelado
2. Se for servir no café da manhã ou jantar, sirva em temperatura ambiente

10 anos do Baobá: base sólida de trabalho, forte estruturação e internacionalização

A cultura de doação no Brasil vem passando por transformações. Como agente desse ecossistema, a atuação do Fundo Baobá para Equidade Racial tem sido marcante. O segmento em que o Baobá atua, o da captação e destinação de recursos visando o combate ao racismo e promoção da equidade no Brasil, vem sendo mais notado por financiadores que enxergam a defesa dos direitos e oportunidades justas para a  população negra como algo sem retrocesso, que vai contribuir para uma melhor sociedade. 

O Baobá completa dez anos de fundação neste ano de 2021. Seu trabalho vem sendo significativo na captação e destinação de recursos para que entidades negras alcancem excelência em suas propostas de transformação da realidade social do Brasil. Esse trabalho, porém, é mais que secular, como explica a socióloga e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Amalia Fischer: “Acho que o Baobá tem mais de dez anos. Ele tem 310 anos. Por que falo isso? Porque o Baobá tem a linhagem de toda ancestralidade que criou formas de solidariedade e formas de construir filantropia pela justiça social. A filantropia pela justiça social no Brasil começa com as irmandades negras”,  afirma. “O Baobá tem o conhecimento e a experiência de todas essas pessoas negras que o formam e o fortalecem”, completa. 

Amalia Fischer, socióloga e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá para Equidade Racial

O administrador Fábio Santiago, membro do Conselho Fiscal do Fundo Baobá, vê com otimismo o desenvolvimento de captação de recursos para filantropia no país. “Quando comparamos o ecossistema de doação e a prática de filantropia no Brasil e no exterior, podemos notar a enorme diferença na quantidade de fundos patrimoniais criados e também sobre as diferenças de valores que os compõem. Claro que a situação econômica do país é determinante para esses aspectos, mas o Brasil ainda tem muito espaço para melhorar sua visão e suas práticas no que tange à promoção da filantropia”, diz. 

Para Santiago, o nível organizacional desenvolvido pelo Fundo Baobá nesses dez anos de atuação propiciou confiabilidade dentro do segmento da filantropia. “Trabalhar com objetivos bem definidos, ter discurso coerente, prática estruturada e um processo de prestação de contas bem elaborado e transparente anima as empresas”, explica. Porém, alerta Fábio Santiago, há outras formas de os financiadores contribuírem. “É importante deixar nítido que nem só de dinheiro depende o fortalecimento de certas causas. Acesso ao trabalho, a serviços e produtos essenciais, além do reforço de mensagens afirmativas são algumas contribuições possíveis por empresas de diferentes portes e que podem resultar em mudanças muito significativas no contexto brasileiro.”

Fábio Santiago, administrador e membro do Conselho Fiscal do Fundo Baobá

O desenvolvimento da cultura de doações no Brasil pode fazer uma entidade com o nível organizacional do Baobá crescer ainda mais em importância para a sociedade. “O Baobá vai ser uma das grandes instituições do país. Porque tem capacidade de gerar recursos grandes e altos. Conhece muito bem as organizações e os territórios onde elas estão. Sabe das necessidades dessas organizações e sabe como fortalecê-las. Além disso, sabe construir colaborativamente com outros fundos e outras fundações”, afirma Amalia Fischer. 

O mês de agosto vai marcar a realização do Black Philanthropy Month (BPM). O evento aconteceu pela primeira vez em 2011 e tem como objetivo investir na liderança filantrópica negra para o fortalecimento da doação também negra visando beneficiar organizações, comunidades e vidas dos afrodescendentes brasileiros. Pela primeira vez o BPM acontecerá no Brasil e o Fundo Baobá terá papel de destaque. “Será uma oportunidade de colocar luz sobre um tema, de atrair novos olhares, de promover trocas entre os participantes e conhecer experiências de determinadas regiões que podem ser aplicadas em outras. A participação do Baobá no BPM reforça seu papel de organização formadora de opinião, de incentivo à causa e engajamento de diferentes públicos, além de projetar a instituição internacionalmente. Ter papel de destaque no evento promete ser um grande gol para o Baobá”, destaca Fábio Santiago. 

O caminho da internacionalização do Fundo é analisado também pela vice-presidente do Conselho Deliberativo, Amalia Fischer. “A participação do Baobá no Black Philantrophy Month (BPM) vai ser super importante. Vai ser uma troca em que o Baobá vai aprender e também compartilhar conhecimentos e experiências. Vai também estimular que essas doações sejam dirigidas  para a questão do combate ao racismo no Brasil”, declara.   

Arte negra engajada: existir e resistir

Uma pesquisa realizada em junho de 2020, pelo jornal britânico The Sunday Time, perguntava quais eram as cinco profissões consideradas essenciais e quais as profissões consideradas não essenciais, no contexto da pandemia. Do lado essencial, profissionais da área da saúde lideravam a lista ao lado de faxineiras, coletores de lixo e entregadores delivery. Do lado não essencial, artistas aparecem liderando a lista, com 71% dos votos. Mesmo que a escolha tenha sido feita pela população britânica, este pensamento atravessa fronteiras e oceanos e é reproduzido aqui em nosso país. A professora de dança em Goiânia, Juliana Jardel, já foi questionada acerca da sua profissão: “Já perguntaram se eu só dou aulas de dança ou se eu trabalho também”, mostrando que há uma desvalorização imensa da classe artística. Juliana se utiliza de meios pedagógicos para mostrar a importância da arte, principalmente no contexto pandêmico: “Eu sempre digo  para quem diz que a arte não é importante e que nunca precisou de um artista, para desligar os rádios e as TVs, além de não abrir nenhum livro. Dessa forma eles compreendem a importância de qualquer manifestação artística”.

Por compreender a importância das artes para desconstruir representações sociais negativas da população negra, o  Fundo Baobá para Equidade Racial prioriza apoio a iniciativas negras alinhadas aos eixos programáticos da organização, entre eles o comunicação e memória, que consiste em apoiar projetos e iniciativas de valorização e difusão de bens culturais materiais e simbólicos (produção artística – música, dança, canto, literatura, etc.; práticas culturais tradicionais e inovadoras), além da mídia negra. Promovendo a cultura negra e resgatando a nossa memória em todo o território nacional.

Cientes que somos da importância da arte para reflexão, alívio das dores e preocupações ou mesmo para o nosso entretenimento, deixamos as seguintes perguntas no ar: a (o) artista deve se engajar e se posicionar diante de determinadas situações de crise? As diversas manifestações artísticas negras que, historicamente foram perseguidas, por si só não são um ato de resistência? 

O Fundo Baobá entrevistou três artistas negros, de diferentes linguagens, para responder a estes questionamentos e nos  contar suas histórias e  trajetórias.

Juliana Jardel: A dança como instrumento de resistência e cuidado do nosso povo

Com quatro anos de idade, Juliana Jardel acompanhava a sua mãe, que era costureira em domicílio, até a casa de outras mulheres, para pegar roupas e realizar reparos. Em um desses passeios, a pequena Juliana se encantou com uma foto de formatura que estava pendurada na parede de uma casa, ao lado de um altar com imagens de santos: “Essa pessoa deve ser muito importante, porque a foto dela está do lado de um santo”, pensou a criança, que mesmo muito pequena lembrou que só havia visto fotos parecidas com aquela na casa de outras pessoas brancas. Ao chegar em casa, perguntou ao pai, que era fotógrafo, se pessoas negras poderiam ter aquela foto também e por que ela nunca tinha visto uma parecida na casa de pessoas negras. Naquele momento, Juliana Jardel decidiu que teria uma foto como aquela. Hoje, aos 43 anos de idade, Juliana não só tem uma foto da sua formatura em Dança, como também do mestrado em Performances Culturais e, logo mais, terá registros de sua tese de doutorado em Antropologia Social.

O amor de Juliana Jardel pela arte começou no seio familiar: “A minha família sempre foi muito dançante. O meu tio Virgílio – hoje falecido – fazia parte de uma escola de samba, aqui de Goiânia, chamada Brasil Mulato, e as minhas tias faziam uma ala só da família nessa escola”, recorda Juliana, que estreou como membro da Brasil Mulato com apenas três anos de idade. “A escola de samba ficava em um bairro negro, era o principal ponto de encontro da população negra de Goiânia”.

Aos oito anos, quando Juliana Jardel foi fazer aulas de jazz, ela pôde sentir a importância da representatividade negra: “A Tia Constança, a minha professora de jazz, era negra. Aquilo foi muito importante pra mim, porque eu fui criança nos anos 1980, e naquela década  tinha muitos filmes musicais e tinham muitos corpos negros dançando. Então, na minha cabeça, eu tinha que ir para os Estados Unidos para dançar. Mas quando eu vi a Tia Constança, eu entendi que era possível fazer algo aqui”. Ainda na infância, ao lado de seu irmão Jarbas, outro grande apaixonado por dança, e dos seus primos, fizeram parte da companhia do Juquinha: “Era um show que tinha em Goiânia com apresentações artísticas e imitações”, relembra Juliana que, ao lado do irmão fez imitações do Trem da Alegria e da Banda Reflexu’s, famoso grupo de samba reggae formado nos anos 1980, em Salvador (BA). A Reflexu´s tem um trabalho musical voltado à valorização da história e cultura afro-brasileira: “Até então, a gente não tinha muito entendimento do que era o continente africano. Mas as letras da Banda Reflexu’s nos impactaram porque falavam de uma África completamente diferente do que era aprendido na escola. Foi muito importante pra mim”, revela Juliana.

Com a separação dos pais, Juliana Jardel deu um tempo na dança ( “Dança é algo muito caro, infelizmente”) e aos 16 anos arrumou um emprego. Mas o amor pela arte falou mais alto e  retornou à dança na fase adulta. Integrou a Companhia Nômades até que, finalmente, entrou na faculdade de dança, no mesmo ano em que sofreu um imenso golpe: “Quando entrei na universidade, eu estava com mais de 30 anos, mas entrei com tudo. Falei ‘a minha hora é agora’. Mas logo no primeiro ano, o meu irmão, meu parceiro de dança, faleceu”.

No ano de 2014, Juliana fundou o grupo Corpo Suspeito, uma parceria da Universidade Federal de Goiânia (UFG) com o Sesi, e em paralelo a isso criou um método de dança chamado Movimentos Atlânticos: “é o método de dança que eu uso no Corpo Suspeito e tem ligação com a minha avó que morava na fazenda. Então, alguns pilares dessa dança são coisas cotidianas que a minha avó fazia por lá, o pilar, o peneirar e encher o pote d’água. São esses três elementos que fazem parte fundamental da coreografia, mas entra também a coisa do axé, da dança dos orixás e dos elementos do candomblé”, revela.

Na primeira apresentação do Corpo Suspeito, Juliana Jardel teve uma ideia: convidar dois dançarinos brancos para interpretar a sua coreografia: “Foi proposital, eu queria ver a reação das pessoas ao ver uma mulher negra coreografando pessoas brancas”. O experimento realizado por Juliana funcionou: as pessoas presentes acreditavam que a performance era elaborada pelo dançarino branco, que chegou a demonstrar desconforto com a situação: “Ele chegava até mim e dizia que estava se sentindo mal, pelo fato de as pessoas acharem que o grupo era dele. Mas eu disse para ele não se preocupar, que na hora certa eu iria aparecer. Quando eu apareci, foi engraçado ver a reação chocada das pessoas”.

Juliana Jardel, graduada em dança, mestre em Performances Culturais, doutoranda em Antropologia Social e idealizadora do grupo Corpo Suspeito

O último trabalho realizado pela coreógrafa foi “Do Àiyé ao Òrun: A Escrita da Diáspora”, um filme dança, como ela mesmo gosta de chamar, por causa dos seus 32 minutos de duração, gravado no espaço da UFG – que estava fechado devido à pandemia da Covid-19 e que, segundo a própria coreógrafa, é um trabalho político: “O vídeo retrata o processo da escrita. Mas não só da escrita acadêmica,  uma escrita da vida ou a escrita do corpo. Um movimentar constante e um correr constante”. No vídeo, Juliana Jardel faz sua performance artística rodeada de imagens e desenhos de personalidades negras como Marielle Franco, Mestre Moa (morto a facadas em outubro de 2018, em Salvador, por motivações políticas) e Zumbi dos Palmares, além de fazer uma referência ao baculejo, gíria dada à revista efetuada por policiais a civis em locais públicos: “Não é só o baculejo da polícia que eu retrato, é o baculejo do sistema, que a toda hora vai te parar e vai te advertir, para ver se você realmente está apto a seguir”. Além do posicionamento político, o vídeo também remete à ancestralidade e à gratidão familiar, contando com imagens dos seus familiares ao longo da manifestação artística e com a narração do Babalorixá Paulo de Odé: “Por mais que o meu trabalho seja de cunho político, eu faço de tudo para não construir uma estética negra, simplesmente, pelo viés da dor, mas pela potência que o nosso povo tem. Me incomoda muito essa estética ainda presa a um sistema colonial, sempre da coisa da escravidão. Porque não é só isso, nós somos ricos em criatividade, em virtualidade, em poesia e em sensibilidade. Então, eu procuro sempre trazer essa delicadeza nos meus trabalhos”.

Em 2019, Juliana Jardel foi uma das selecionadas para o Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com Fundação Kellogg, Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford e Open Society Foundations. Juliana reconhece que o apoio do Fundo Baobá foi importante para a manutenção do seu mestrado em Performances Culturais, além de exibir orgulhosa, pela chamada de vídeo, as suas maiores aquisições graças ao Programa Marielle Franco: “Não sei se dá pra ver a minha estante aqui, ela está lotada de livros. Eu comprei os livros que eu mais desejei na minha vida e que são importantes para minha área, graças ao apoio do Fundo Baobá”.

No dia 8 de abril, o mundo perdeu o dançarino, coreógrafo Ismael Ivo, mais uma vítima da Covid-19. Juliana Jardel, que tem uma admiração imensurável pelo coreógrafo, chegou a estudar a sua obra em dois momentos da sua vida acadêmica. Na graduação, ela estudou a obra de Ismael Ivo pela ótica da estética do trauma e no mestrado ela mergulhou na pesquisa do dançarino na perspectiva da antropofagia. Juliana lamenta, não apenas a perda de Ismael Ivo, mas a falta de reconhecimento com a sua obra ainda em vida: “Muita gente me disse que conheceu Ismael Ivo através de mim. Eu sempre colocava foto dele nas minhas redes sociais e muitas pessoas vinham me perguntar quem era aquela pessoa. Se você for nas escolas de formação em dança, você jamais vai ver uma foto do Ismael Ivo. Quantos bailarinos negros nós poderíamos ter formado, com uma simples imagem do Ismael Ivo, em uma sala de dança? Mas o racismo no Brasil tem esse poder de eliminação e eu temo que ele e a sua obra caiam no esquecimento”. Diante deste fato, Juliana reforça a importância da arte negra ser engajada: “Eu sempre me posicionei e não é possível fazer arte sem posicionamento, porque a nossa dança, o nosso corpo é um ato político e o nosso papel é cuidar do nosso povo”. Finaliza.

Orun Santana: Colocando a dança de Pernambuco no mapa do mundo

“Artista sem posição só contribui para a permanência absoluta do racismo estrutural e de seus agentes.” A fala forte é do bailarino, capoeirista, professor e pesquisador da dança e cultura afro Orun Santana, 30 anos, do Recife (Pernambuco). Ele vem se tornando uma das referências da dança no país. Em 2019, seu espetáculo Meia Noite, depois de passar por importantes palcos de Pernambuco, São Paulo e Belo Horizonte,  foi parar no outro lado do mundo. Meia Noite foi visto no 22o Festival Lusofonia, em Macau, na costa sul da China, e na 11a Semana Cultural da China dos Países de Língua Portuguesa. 

O espetáculo Meia Noite mostra a relação entre Orun Santana e o mestre Meia Noite, fundador, juntamente com sua esposa,  a também bailarina Vilma Carijós, do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo. Meia Noite e Vilma são os pais de Orun. “Nasci dentro de uma família de artistas. Tive o privilégio de crescer em contato direto com a cultura popular, envolvido com os movimentos socioculturais desenvolvidos e vivenciados junto a meus pais. Não me enxergo vivendo uma vida longe da arte e da dança. A arte sempre fez e continuará fazendo parte de quem sou”, afirma.

Orun Santana, bailarino, capoeirista, professor e pesquisador da dança e cultura afro

Orun Santana não se vê criando espetáculos de dança que não reflitam a realidade do povo preto no Brasil. “Minha prática artística está ancorada nas danças negras, deste corpo que fala e se move dentro de uma construção simbólica e imaginativa dentro de nossa construção de negritude. Em meu segmento,  o corpo negro que consegue e acessa espaços da cena já torna-se político. Justamente pela ausência de nós, negros, ocupando espaços e lugares. Partindo daí,  sigo elaborando discursos e poéticas na dança”, diz. 

Como artista negro engajado, os fatos do cotidiano que acontecem no Brasil influenciam diretamente na criação de Orun. “Faz parte de meu trabalho solo, a lembrança da morte do mestre baiano Moa do Katendê, assim como da negritude morta pela polícia nas periferias. As cenas dialogam demais com os acontecimentos recentes (espancamento e morte de João Alfredo, massacre no morro do Jacarezinho, entre outros). Esses fatos mexeram e mexem muito comigo, primeiro como homem negro; depois  em minhas ações e práticas educativas e artísticas”, afirma. 

O bailarino brasileiro, já reconhecido no exterior, está cuidando de algo importante para quem já domina a prática: a formação acadêmica: .”Minha principal formação foi pelo Daruê Malungo. Pelos mestres Vilma Carijós e Meia Noite. Também estou cursando Licenciatura em Dança pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)”. Suas principais influências, além dos pais, são Germaine Acogny (bailarina e coreógrafa do Senegal), Rui Moreira (bailarino e coreógrafo brasileiro, com atuações no Cisne Negro, Grupo Corpo e São Paulo Cia de Dança), Mercedes Baptista (primeira negra a ser bailarina clássica no Brasil), Mestre Martelo (artista de sabedoria popular que junta histórias, cantigas, cordéis e dança em suas apresentações),  Alvin Ailey (coreógrafo e ativista norte-americano que fundou o Alvin Ailey American Dance Theater), Zebrinha (mestre capoeirista) e demais amigos e parceiros da dança que tanto contribuem dançando junto comigo.

Samuel Santos: Do palco do futebol para o palco do teatro

Futebol e teatro. Em comum entre essas duas formas de arte a palavra atuação. A vida do pernambucano Samuel Santos, 50 anos, caminhava nos anos 1980 para uma carreira no futebol. Mas a dura realidade brasileira deu um chute no sonho. A luta pela sobrevivência gritou mais alto. Era necessário ajudar a família a pôr comida dentro de casa. Um momento de arrebatamento, ocorrido tempos depois, o colocou em contato com outra arte, que definiu uma vida.

Samuel vinha se destacando nas equipes de categoria de base do Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, que revelou nomes como o também pernambucano Rivaldo, campeão do mundo com a Seleção Brasileira em 2002, no Japão. Mas o sonho do jovem centroavante ficou pelo caminho. “Aos dezessete anos sai do Santa e abandonei o sonho de ser jogador. Não por falta de talento, mas por necessidade de sobrevivência. Tinha que trabalhar e ganhar dinheiro para o sustento da família”, diz. 

A arte entrou de forma definitiva na vida de Samuel Santos durante as festas juninas, uma das principais manifestações culturais do país, tão marcante nos estados do nordeste. “Em 1989, num ensaio de quadrilha junina, fui convidado para fazer parte de um grupo de teatro na comunidade do Alto José Bonifácio, bairro do Recife. Entrei em contato com o teatro de forma empírica (por observação e experiência, sem metodologia) e formei o Grupo Teatral Pé no Chão”, afirma Samuel. 

Samuel Santos, ator e fundador do Grupo Teatral Pé no Chão

O autodidatismo fez com que o conhecimento de Samuel Santos pela arte da representação fosse crescendo. “Não tenho curso superior, não sou acadêmico. Sou autodidata. Tenho 32 anos de teatro e já fiz cursos e oficinas com principais nomes do teatro brasileiro e internacional, como Antunes Filho (um dos principais diretores teatrais brasileiros, morto em 2019), Eugenio Barba (italiano, diretor de teatro e cinema, criador do ISTA – International School of Theatre Anthropology), Julia Varley (atriz e dramaturga), Linna de La Roca (atriz), Roberta Carreri (atriz), entre outros”. 

A formação de uma consciência social em suas plateias sempre esteve presente no trabalho de Silva, desde o grupo Pé No Chão. “Como primeiro trabalho,  o Grupo montou a peça Calendário Tradicional, de Zezo de Oliveira. O grupo tinha como objetivo discutir as questões sociais na comunidade e lá desenvolver um rico trabalho de conscientização sobre as problemáticas do bairro”, salienta. 

Da experiência de conscientização da gente do bairro para a abordagem das questões sociorraciais no Brasil não levou muito tempo. Para ele, artistas negros e negras devem estar engajados na luta por equidade. “Se o desejo do artista for pela mudança das estruturas, sim. Mas sabemos que a saúde mental do povo negro vem sendo bombardeada desde a sua captura e sequestro da África, passando pelos navios e chegada no Brasil. Então,  é todo um processo histórico para entender e se entender”, afirma. 

O entendimento desse processo histórico e o entendimento sobre o que se passa é uma longa jornada.” Tudo é um processo de construção e desconstrução para depois a gente ter uma base e uma consciência preta. As nossas referências negras foram e são invisibilizadas no processo de nossa formação. Isso é histórico e cruel. As nossas escolas, universidades e  espetáculos não trazem essas bases negras. Somos colonizados dentro de uma formação de branquitude e eurocentrismo. As novelas, a literatura, o cinema, as expressões artísticas como um tudo. Tudo nos leva apenas a um único olhar: o do colonizador.  Sabe quando a gente é criança e nossos pais dizem que Papai Noel existe? Que ele vai trazer no Natal um presente e para ganhar esse presente temos que nos comportar? Ao descobrir que esse Papai Noel não existe, ficamos com raiva de ter sido enganados por muito tempo. Pronto! É assim!”, afirma. 

O ativismo preto está presente em suas criações ou colaborações em eventos como o Festival Luz Negra: O Negro em Estado de Representação, que evidencia o protagonismo de artistas negros nas artes cênicas; o Pretação, mostra de teatro de mulheres pretas; as Terças Pretas, sequência de lives teatrais e a Escola de Antropologia Teatral, onde alunos, alunas, alunes têm contato com expressões culturais negras de Pernambuco, além de desenvolverem exercícios ancestrais de dança baseados nos movimentos dos orixás. 

Samuel Santos, mesmo fora do futebol, continua marcando seus gols. ”Quando você percebe que o teatro é um instrumento, uma arma poderosa, e que nele, o teatro, e que nela, a arte, podemos construir uma vida melhor para quem faz e para quem assiste, não tem preço”, define.