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Encontro marcou primeiro olho no olho entre colaboradoras e colaboradores desde o início da Pandemia
Por Wagner Prado
O Fundo Baobá para Equidade Racial reuniu seus times de Programas e Projetos, Administrativo-Financeiro, Comunicação (Branding/Marketing/Criação, Imprensa e Divulgação) e Captação para estabelecer um plano de trabalho e metas para o ano de 2022. A ideia foi levar a equipe a realizar exercícios de criação sobre cenários e soluções para superar um de seus principais desafios: motivar mais pessoas físicas e jurídicas a doarem em prol da busca pela equidade racial no Brasil.
Os times do Fundo Baobá foram reunidos entre os dias 1 e 6 de novembro no Ipê (Instituto de Pesquisas Ecológicas), localizado na cidade de Nazaré Paulista, interior de São Paulo. A cidade bucólica também abriga a Represa de Nazaré, considerado um dos locais mais bonitos do interior do estado. Esses detalhes contribuíram para que as criatividades estivessem afloradas, o que motivou ainda mais a jornada de trabalho.
Um fato importante marcou os dias do time Baobá em Nazaré Paulista. Muitos(as) das e dos colaboradores(as) não se conheciam pessoalmente. Por conta da Covid-19, o Baobá vem trabalhando no sistema de home-office desde a decretação da pandemia, em março de 2020, portanto há um ano e oito meses. Quem se juntou à equipe nesse período só havia tido contato virtual com as e os colegas. O contato físico, seguindo protocolos e determinações de cuidado com a saúde, foi alcançado durante o encontro.
Equipe do Fundo Baobá
Ao longo da semana, os times foram integrados e levados a rodas de conversa. Na sexta-feira (5), porém, todos trabalharam em conjunto. Duplas e trios de criação foram montados, juntando pessoas de diferentes áreas. Vários cenários foram levantados e cabia às equipes levantarem soluções práticas que possam ser implementadas em 2022.
O encontro do Fundo Baobá foi encerrado no sábado (6) com uma confraternização iniciada com um passeio de barco pela Represa de Nazaré Paulista, algo apreciado por todas as pessoas envolvidas devido ao dia maravilhoso naquela região. Após o passeio de barco, um churrasco foi servido. Agora é transformar em ações tudo o que foi pensado para que as metas sejam alcançadas.
Frases:
“Eu me senti livre, segura e em família. Afinal, morar em SP tendo poucas pessoas pretas ao lado não é muito confortável.” Mariana Brito (Captação)
“O encontro foi uma oportunidade de aprendizado, reflexão e conexão com meus pares e com o Baobá. Foi fundamental para construirmos uma atuação em equipe cada vez mais sólida e em sintonia.” Tainá Medeiros (Programa)
“O Encontro Baobá foi um momento muito importante de escuta, acolhimento, afeto, aprendizagem e intelecção de como todos que estiveram presentes estão comprometidos com a missão do Fundo Baobá.” Mara Pereira (Programa)
“O encontro foi a junção do fortalecimento das relações e interações em equipe com o compartilhamento mútuo do que queremos em termos de ações futuras e permanentes para o Fundo Baobá.” Marcos Rodrigues (Projetos)
“Estar junto a pessoas que trabalham com o mesmo objetivo é sempre mágico. Saí do encontro ainda mais apaixonado pelo propósito que nos une e com a certeza de que grandes feitos ainda estão por vir.” Douglas Baster (Marketing)
“Foi uma oportunidade incrível de nos conhecermos pessoalmente, depois de um ano e sete meses de trabalho remoto, e também de integrar os nossos setores e as nossas ações em conjunto para o fortalecimento da principal premissa do Fundo Baobá, que é a promoção da equidade racial.” Vinicius Vieira (Imprensa)
“O retiro de planejamento trouxe a certeza de que estamos todas, todos e todes em sintonia. Comprometid@s com a missão e valores da instituição. Dispost@s a trabalhar para/com o coletivo.” Fernanda Lopes (Diretora de Programa)
“Encontrar, planejar em equipe e celebrar. Este foi o tom do nosso encontro presencial de planejamento e, para mim, esses verbos foram ressignificados durante o contexto da pandemia. Portanto, foi ainda mais incrível poder encontrar todo time presencialmente, planejar nossos próximos passos e celebrar as conquistas e aprendizagens acumulados em 10 anos de história da nossa organização. Saio revigorada e segura de que estamos conectados e comprometidos com as transformações que o Fundo Baobá apresenta para toda sociedade.” Selma Moreira (Diretora Executiva)
No mês de outubro de 2021, o Fundo Baobá para Equidade Racial celebra 10 anos de atuação. As primeiras sementes da organização foram plantadas no ano de 2006, pelo movimento negro nordestino, aliadas e aliados em diálogo com a Fundação Kellogg.
Mas foi em 2011 que o Fundo Baobá foi criado formalmente. Com um ambicioso modelo, que inclui um fundo patrimonial, demonstrando ser essencial desenvolver formas de funcionamento específicas para gestão e estratégias de autogestão.
Inicialmente o Fundo Baobá assumiu o compromisso de apoiar iniciativas de curta duração que tenham fins coletivos dentro da temática da promoção da equidade racial. Essa ação também é conhecida como apoio pontual. O primeiro apoio pontual realizado pela organização aconteceu no ano de 2012, por meio da 6ª edição do Prêmio “Educar para a Igualdade Racial”.
Após uma série de apoios pontuais, em 2014 o Fundo Baobá lançou o seu primeiro edital: 1ª Chamada para projetos de Organizações Afro-Brasileiras da Sociedade Civil teve como objetivo apoiar, por 12 meses, 22 organizações pequenas e médias da sociedade civil afro-brasileira de todo o país na implementação de projetos para a promoção da equidade racial.
Desde então, ao longo de uma década de história, os números confirmam a atuação da organização na promoção da equidade racial no país, através de eixos programáticos em áreas priorizadas para doação, como viver com dignidade, educação, desenvolvimento econômico, comunicação e memória.
Como forma de celebrar os 10 anos de atuação do Fundo Baobá, vamos relembrar alguns editais e ouvir histórias de pessoas e organizações que receberam o apoio da entidade, no passado recente.
A Cidade que Queremos
Lançado no dia 9 de maio de 2018, o edital A Cidade que Queremos, teve a parceria da Fundação OAK e era voltado para grupos e organizações Pró Equidade Racial com projetos que visavam fomentar e desenvolver cidades mais inclusivas e justas para todes.
O edital foi exclusivo para as regiões metropolitanas do Nordeste brasileiro, incluindo os nove estados da região. Foram selecionadas 10 organizações que receberam um aporte financeiro, totalizando R$ 450 mil de investimento.
Entre os selecionados estava a “Associação Artística Nóis de Teatro”, de Fortaleza (CE), que foi apoiada com o projeto “Periferias Insurgentes”. O grupo realizou diversos eventos artísticos, entre eles noites culturais, saraus e seminários, que reuniram vozes que compõem as resistências das periferias de Fortaleza, construindo paralelo com o trabalho da associação. Desses encontros, surgiu a peça Ainda Vivas, com três horas de duração.
Para o ator, diretor, produtor e coordenador do Nóis de Teatro, Altemar Di Monteiro, o suporte do Fundo Baobá tem sido fundamental, até hoje, para as ações do grupo na periferia de Fortaleza, considerando que este apoio foi realizado em três oportunidades distintas: “Em uma delas fizemos a circulação do espetáculo Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro pelas periferias de Fortaleza, contribuindo para o debate sobre o extermínio da juventude negra e a militarização da nossa polícia e da nossa política”. Na sequência veio Ainda Vivas, segundo Altemar, inspirado nesse giro pela periferia da capital: “Circular pelas diversas favelas de Fortaleza foi importante para que pudéssemos compreender o grande número de jovens e práticas culturais que pulsam nas periferias e sua forte contribuição para desativar o pensamento militarizado que habita a cidade. São saraus, rolezinhos, movimentos do passinho, do reggae, do teatro que inventam outras cidades, outras periferias. A partir da grande força dessa juventude foi que o espetáculo ‘Ainda Vivas’ nasceu”.
Nóis de Teatro, grupo da periferia de Fortaleza (CE)
Para Altemar, receber o apoio do Fundo Baobá para a realização do espetáculo foi muito importante porque contribuiu para a continuidade das ações do grupo e do fortalecimento de práticas antirracistas na cidade: “Num contexto de escassez de políticas públicas da cultura, além de contribuir para a manutenção de um grupo de teatro que resiste há 20 anos na periferia, o Baobá reafirma a cultura como um valor de desenvolvimento social e humano, a arte como direito de todos e todas”.
Com a chegada da pandemia da Covid-19, o grupo recebeu o terceiro aporte financeiro e deu continuidade ao espetáculo Ainda Vivas, mas dessa vez no formato virtual. Para Altemar, esse processo contribuiu para o fortalecimento do elo com o movimento de saraus da periferia, além da valorização da cultura diante do contexto de isolamento social: “Destaco a importância da arte e da cultura na luta antirracista no momento que vivemos. Acredito fortemente que é pelo sensível, pela articulação de outros saberes e práticas que poderemos construir um outro mundo. E sobre isso, me parece que o Fundo Baobá tem entendido bem”, finaliza.
Editais voltados para o desenvolvimento e fortalecimento de mulheres negras
O fortalecimento das mulheres negras sempre foi uma pauta trabalhada no Fundo Baobá. Em duas oportunidades, a organização lançou editais voltados para o público feminino negro: Empodera, lançado em 2016 em parceria com o Instituto Lojas Renner e ONU Mulheres, apoiou 15 empreendimentos de mulheres negras cujos negócios estivessem vinculados à cadeia produtiva do setor têxtil e de moda. Enquanto o edital Negras Potências, lançado em 2018, em parceria com Instituto Coca-Cola Brasil, Movimento Coletivo e Benfeitoria, apoiou 16 iniciativas de impacto para o empoderamento de meninas e mulheres negras, focados na redução das desigualdades raciais e sociais.
Mas foi no dia 2 de setembro de 2019 que o Fundo Baobá lançou o seu edital mais ousado, o primeiro do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, que contou com a parceria com a Fundação Kellogg, Ford Foundation, Instituto Ibirapitanga e Open Society Foundations. Concebido para acontecer ao longo de cinco anos, incluindo 2 editais de apoio individual e 2 editais de apoio a organizações, grupos e coletivos, a principal premissa do Programa é que as mulheres negras apoiadas tenham mais subsídios para acessar espaços de poder e tomada de decisão, atuar contra o racismo e em defesa da justiça, equidade social e racial e transformar o mundo a partir de suas experiências.
Em 53 dias de inscrições abertas foram recebidas 314 candidaturas individuais e 86 coletivas de mais de 20 estados do país e do Distrito Federal. No dia 10 de dezembro de 2019 foram anunciadas as 63 lideranças e 15 organizações selecionadas pelo edital. Entre elas estava a produtora musical, Andressa Ferreira, do Rio Grande do Sul, que foi selecionada com o projeto Mulheres Negras e Tecnologia – Produção Musical Enegrecida: “Este período em que tive o apoio do Fundo Baobá, através do Programa Marielle Franco, foi de muito crescimento e de muita colheita. Esse apoio me ajudou a passar pela pandemia, conseguindo enxergar novos horizontes e possibilidades”, afirma.
Andressa Ferreira, produtora musical
O projeto de Andressa foi fundamentado diante da baixa representação feminina (cis/trans), negra e indígena no campo da produção musical, sua principal área de atuação: “A possibilidade de acessar os conhecimentos em relação a áudio e tecnologia é algo que atualmente está mais acessível, porém ainda existem vários desafios que enfrentamos diariamente para poder ocupar esse espaço que é majoritariamente branco e masculino”, descreveu Andressa Ferreira no relatório final do Programa Marielle Franco.
Com o apoio fornecido pelo edital, Andressa Ferreira fez um curso de produção musical, iniciou os estudos de inglês, comprou equipamentos para produção de áudio, como computador, microfones, interface de áudio, cabos, entre outros, esteve à frente da “Oficina Online Mulheres Afro-amerindias: Áudio e Tecnologia”, voltada para mulheres negras e indígenas (cis/trans), além de ter trabalhado na produção musical do disco Força e Fé, do grupo Imani, formado por quatro mulheres negras de Florianópolis e ter feito também a mentoria musical no projeto AMPLIA+, no qual envolvia a produção de showcases de quatro artistas LGBTQIAP+ de Porto Alegre.
Com todas essas atividades realizadas, Andressa ressalta a importância de participar também das formações políticas junto com as outras lideranças apoiadas: “Esses encontros foram de extrema importância para que eu alcançasse meu objetivo e conseguisse realizar meu Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) com sucesso, além de fortalecer a minha caminhada profissional e pessoal”.
Andressa Ferreira afirma que o Programa Marielle Franco cumpre o seu papel de fortalecer lideranças femininas negras em espaços de tomadas de decisões: “Termino esse ciclo estando cada vez mais atenta às questões raciais e de gênero. Mais conectada e consciente do legado que carrego, muito agradecida a todas as mulheres negras que abriram os caminhos para que hoje, eu e todas as mulheres contempladas por esse edital, pudéssemos estar aqui construindo o nosso futuro e potencializando não só a nossa trajetória como as das próximas gerações”.
Hoje, Andressa integra uma equipe preta de uma agência de publicidade de São Paulo, sendo contratada como freelancer para realizar a produção musical de vídeos publicitários. Sendo assim, ela demonstra gratidão ao trabalho do Fundo Baobá na promoção da Equidade Racial: “Agradeço imensamente a organização e friso a importância das ações realizadas por esse Fundo, que realiza mudanças efetivas na nossa sociedade, conseguindo fomentar projetos que contribuem de fato na construção de uma sociedade mais equânime”.
Já É: Educação e Equidade Racial
A educação é uma das áreas priorizadas para receber investimentos do Fundo Baobá.
No ano de 2014, a organização, em parceria com o Instituto Unibanco, com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e com a colaboração técnica do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), lançou o edital Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra, com o objetivo de promover a implementação de práticas de gestão escolar voltadas para a elevação de indicadores como acesso, conclusão, frequência e rendimento escolar. O edital, voltado para escolas públicas de Ensino Médio, recebeu a inscrição de 124 projetos de todas as regiões do Brasil. Destes, foram selecionadas 10 iniciativas. No ano de 2016, houve a segunda edição do edital, que recebeu 184 propostas e no final contemplou mais 10 projetos de sete estados do país.
Porém, foi com a premissa de apoiar a entrada de jovens negros no ensino superior que, no dia 10 de julho de 2020, o Fundo Baobá lançou o Programa Já É: Educação e Equidade Racial. Ele conta com apoio do Citi Foundation, Demarest Advogados e Amadi Technology. Além de custear um curso pré-vestibular, as despesas comtransporte e alimentação para jovens negros da cidade de São Paulo e Região Metropolitana, o edital prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, bem como mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas e vivências.
Em um mês, o programa recebeu 245 inscrições, desse número foram selecionados 84 jovens de 12 municípios da região metropolitana. Entre eles, estava Isaque Rodrigues, de São Paulo, que soube da sua aprovação no programa faltando dois dias para seu aniversário de 22 anos: “Quando recebi o e-mail de aprovação para participar do Programa Já É, eu percebi que uma grande oportunidade tinha surgido para mim, oportunidade essa de escrever uma nova história e ter um novo começo”.
Isaque Rodrigues, aluno apoiado
Hoje, aluno do curso pré-vestibular, Isaque afirma que a bolsa de estudos tem sido de grande valia, considerando que a cada dia se aprende algo diferente: “São conteúdos que de fato irão me auxiliar a tirar boas notas em provas e nas atividades que eu irei fazer um dia”. Porém, ele faz questão de dizer que o que mais tem agregado valor são as interações com a equipe do próprio Fundo Baobá: “A Tainá Medeiros [assistente de projetos] é muito proativa e sempre se prontificou a nos auxiliar em qualquer coisa, e a Fernanda Lopes [diretora de programa] me proporcionou uma nova visão, que me fez entender que o nosso lugar de protagonistas neste mundo existe e precisamos ocupá-lo”.
Isaque reforça também a importância das mentorias realizadas e o quanto isso é inspirador em sua vida: “Hoje me sinto inspirado, motivado a fazer a diferença, a ajudar os meus e todos os que estão ao meu redor. Meus olhos brilham cada vez que lembro que olharam para mim e perceberam um potencial de ir além do que eu imaginava ir. Posso dizer que encontrei a minha identidade e hoje tenho orgulho de contar a minha história de vida e de superação”.
Com planos de cursar Publicidade e Propaganda, Isaque Rodrigues é muito grato ao Programa Já É: “Eu vejo que esse edital tem em sua essência transformar a vida de pessoas, que como eu sofrem pela desigualdade, sofrem por serem julgadas pela sua cor, não enxergando a nossa grandeza. É justamente isso que nossa juventude precisa entender: somos grandiosos e só conseguimos derrubar as barreiras juntos”, finaliza.
Ao longo dos seus 10 anos de atuação no campo da filantropia, completados neste 2021, o Fundo Baobá para Equidade Racial tem procurado o protagonismo no que se refere ao trabalho pela busca de uma sociedade equânime no Brasil, onde a equidade racial esteja presente e as oportunidades estejam, o mínimo, em equilíbrio para todos. Essa é a busca. E persegui-la requer muito esforço. A resiliência pede isso: esforço, adaptação e antevisão. O Fundo Baobá tem sido resiliente. No esforço de chegar e ouvir as vozes do campo. Na adaptação de seu modo de gestão. Na antevisão das áreas prioritárias em que pode atuar e melhorar pessoas.
Foi no sentido de antever questões prioritárias que em abril de 2020, um mês após a decretação da Pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março, que o Fundo Baobá lançou o edital Doações Emergenciais, em parceria com a Ford Foundation. Com uma dotação de R$ 870 mil, o edital foi destinado ao suporte a comunidades vulneráveis, mulheres, população negra, idosos, povos originários e comunidades tradicionais. O Doações Emergenciais recebeu 1.037 inscrições e teve 350 selecionados (215 indivíduos e 135 organizações).
Uma das apoiadas foi Amanda Queiroz de Moraes, de Ananindeua, no estado do Pará. Ela faz parte da Associação Centro Social Estrela Dalva e ressalta a importância da iniciativa naquele momento. “A ajuda veio em um momento em que a comunidade estava, mais do que nunca, necessitando de apoio social, visto que estávamos em um período muito crítico da Pandemia”, afirmou.
Amanda de Moraes, de Ananindeua, no estado do Pará
Cada organização ou indivíduo recebeu R$ 2,5 mil. Amanda conta o que foi possível fazer com o recurso recebido. “No Centro Social Estrela Dalva nós atendemos crianças e mães adolescentes. Promovemos rodas de conversa sobre sexualidade e fazemos distribuição de gêneros alimentícios, material de higiene e limpeza e máscaras de proteção. Aquele foi um momento desafiador para nossa comunidade. Não é fácil se aproximar de adolescentes grávidas, sem nenhum tipo.de assistência, seja ela na área da saúde ou familiar”, disse. Apesar dos problemas, a experiência de Amanda Queiroz de Moraes foi única: “Apesar de toda dificuldade e desafios que nos foram postos, foi uma experiência que ficará marcada na história do Centro Estrela Dalva”, finalizou.
Ainda dentro do contexto de quem estava sofrendo com os dissabores causados pela Pandemia do Coronavírus, temos os pequenos empreendedores que foram atingidos diretamente em seus negócios. Muitos fecharam de forma definitiva. Outros tantos tiveram que fechar temporariamente, o que fez cessar a entrada de recursos. O edital Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores Negros e Negras foi lançado em novembro de 2020, para apoiar esses negócios e seus proprietários.
Com apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Instituto Votorantim e Banco BV, o Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores Negros e Negras teve dotação de R$ 1,6 milhão, alcançou 700 inscrições e deu apoio a 47 iniciativas, cada uma composta por 03 empreendimentos. Como premissa do edital, os empreendimentos deviam ser constituídos por três associados, cabendo a cada um deles o valor de R$ 10 mil, perfazendo R$ 30 mil por iniciativa. Todas as pessoas empreendedoras receberam mentoria técnica para que pudessem atualizar processos e incrementar a gestão, com o objetivo de alcançar melhores resultados.
Uma das iniciativas apoiadas pelo Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores Negros e Negras foi a Casas Ecológicas e Sustentáveis, do Rio de Janeiro. O objetivo os associados é baixar o custo de construção de moradias populares com o uso de tijolos ecológicos. Porém, fato comum entre empreendedores, o fôlego inicial sempre é o mais difícil de se obter. Ronaldo Lemos, um dos três empreendedores da Casas Ecológicas e Sustentáveis. “Nos buscávamos iniciar a nossa fabricação de tijolos ecológicos, mas o custo do maquinário era muito alto. Graças ao Fundo Baobá, nós pudemos fazer a compra do maquinário e montar uma estrutura para a fabricação dos tijolos. Nosso maior objetivo é nos consolidarmos como um dos grandes fabricantes de tijolos ecológicos do Brasil. Já fechamos com alguns parceiros e iniciamos a fabricação”, afirmou Ronaldo Lemos. “A equipe Casas Ecológicas e Sustentáveis é imensamente grata ao Fundo Baobá”, completou.
Ronaldo Melo, Casas Ecológicas e Sustentáveis
Em maio de 2021. o Fundo Baobá para Equidade Racial e o Google.org, braço financeiro do Google para apoios filantrópicos, fecharam acordo para o lançamento do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça. Acima de tudo, o Vidas Negras é uma oportunidade para a população negra brasileira reforçar planos de ativismo e resistência diante das injustiças advindas do racismo. O público foco foram organização que mantêm trabalhos voltados ao combate contra a violência sistêmica sobre o povo negro e injustiças criminais que ocorrem dentro do sistema jurídico do Brasil.
O Google.org destinou R$ 1,2 milhão para a escolha de 12 organizações. Cada uma irá receber R$ 100 mil ao longo de 12 meses. As organizações apresentaram inciativas a serem desenvolvidas nas seguintes áreas: a) Enfrentamento à violência racial sistêmica; b) Proteção comunitária e promoção da equidade racial; c) Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes; d) Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial.
Um dos projetos selecionados dentro do eixo “Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes” foi o da Associação Elas Existem – Mulheres Encarceradas. A iniciativa foi inscrita pelo estado do Rio de Janeiro, mas está de mudança para o Acre, onde o projeto será desenvolvido. “O maior impacto do edital nesse momento, em nossa organização, é que estamos iniciando nossa segunda sede no local em que o racismo é predominante, assim como a ausência de discussões sobre direitos humanos e acesso a direitos. O Norte do país, fronteira com diversas nações, possui um alto índice de prisões por tráfico de drogas, sendo urgente questionar essas e outras situações que fazem com que o Brasil permaneça no ranking dos que mais encarceram mulheres”, afirmou Caroline Mendes Bispo. da Associação Elas Existem. Na semana em que conversamos com Caroline, ela estava de mudança para Cruzeiro do Sul (AC), onde vai se estabelecer para coordenar as ações do projeto.
Caroline Bispo, Associação Elas Existem
A Associação Elas Existem vai utilizar a destinação que irá receber para promover as ações que já implementa nos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso. “A Associação atua buscando promover discussões sobre a situação das pessoas privadas de liberdade e a melhoria das condições intramuros, além de incentivar o debate sobre as causas e consequência do encarceramento em massa, principalmente de mulheres (cis e trans), observando como o racismo opera na seletividade do sistema de justiça criminal de jovens negras. Desse modo, desde 2016 organizamos eventos em que arrecadamos doações de absorventes e demais materiais de higiene, que são entregues nas unidades prisionais, de acordo com a disponibilidade e necessidade de cada instituição. Fazemos também diversas campanhas virtuais para demonstrar que um rolo de papel higiênico faz muita diferença na vida de uma mulher.”, disse Caroline Mendes Bispo.
O trabalho da Associação Elas será intenso no Acre. Já estão listadas oito atividades fundamentais para projeto: Estudo sobre o efetivo carcerário; Mapear e acompanhar normativas, ações e projetos de lei, além de outros instrumentos de políticas públicas; Elaborar e distribuir materiais educativo em ambiente carcerário intramuros e extramuros; Fazer o intercâmbio de conhecimento e aprendizado entre as equipes que atuam no estado do Rio e no estado do Acre; Promover Rodas de Conversa sobre direitos e oficinas para o desenvolvimento de potencialidades (intramuros); Promover plantões de orientação sociojurídicas (intra e extramuros); Promover grupos de leitura e rodas de conversa (extramuros).
Duas mulheres com uma grande missão: ajudar a transformar. Ambas exercem isso para muito além dos cargos que ocupam, porque contribuir na transformação não é um trabalho, é uma missão. Selma Moreira é a diretora executiva. Fernanda Lopes, a diretora de programa. Ambas trabalham para o Fundo Baobá para Equidade Racial. Ambas se alternam na função de arco e flecha do primeiro fundo exclusivo para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. Arco e flecha porque têm a função de impulsionar e sair ao ataque certeiro na busca por recursos, pois sem eles as coisas não acontecem.
O Fundo Baobá para Equidade Racial está completando 10 anos. O que irá acontecer nos próximos dez está sendo plantado pela governança do Fundo e orquestrado por Selma e Fernanda, que estão à frente de uma equipe de 14 pessoas entre colaboradores diretos e indiretos.
Os desafios têm sido muitos nesses 10 anos de busca pela consolidação do Baobá. A busca vai continuar pelos próximos anos. Os desafios não serão menores. Neste encontro com Selma Moreira e Fernanda Lopes temos a visão de ambas sobre os caminhos traçados para a gestão futura do Fundo Baobá, sua importância no trabalho de busca pela equidade racial e por uma sociedade igualitária no Brasil.
Selma Moreira (diretora executiva) e Fernanda Lopes (diretora de programa)
Conte como você chegou ao Baobá ou como o Baobá chegou até você?
Selma Moreira – Eu conheci o Fundo Baobá em função de uma conexão feita pelo Fábio Santiago, atual membro do Conselho Fiscal, no período do processo seletivo para a posição de diretora executiva, cargo que ocupo hoje na organização.
Fernanda Lopes – Cheguei ao Fundo Baobá como consultora. Em 2018 fui responsável pela elaboração do plano estratégico do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Em 2019, após aprovação do plano estratégico do Programa e após avaliação do Conselho Deliberativo, recebi o convite, aceitei e passei a compor o time.
Que desafios você enxergou à época?
Selma Moreira – Prioritariamente, desafios de gestão, com foco em governança interna e externa (pessoas) e administração de finanças. A consequência dos itens anteriores conectarem-se com o desenho de estratégia para constituição do endowment (recurso financeiro).
Fernanda Lopes – Naquele momento tínhamos desafios de gestão relacionados ao aprimoramento dos processos, fluxos, instrumentos e mecanismos de monitoramento. Precisávamos aprimorar nossa comunicação, reposicionar nossa marca e fazer do Baobá uma instituição conhecida e reconhecida, no campo da filantropia por justiça social, como a única a atuar neste ecossistema exclusivamente para apoiar e ampliar oportunidades de desenvolvimento para organizações e lideranças negras. Era necessário reafirmar os editais como o mecanismo mais eficiente para ampliar oportunidades de apoio para organizações, grupos, coletivos e lideranças negras de todo o Brasil. Também se apresentava como desafio produzir mais e melhores evidências e ampliar nosso diálogo com o campo para subsidiar nossas decisões acerca dos investimentos prioritários.
Esses desafios se concretizaram?
Selma Moreira – Sim. Governança: o Fundo Baobá é benchmarking (referência) no terceiro setor com um robusto corpo de governança. Temos Assembleia Geral, Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal, Comitê de Investimentos, Comitê de Ética, Comitê Executivo e Diretora Executiva. Este desenho demonstra um conjunto de mecanismos de compliance (observância) para garantir pesos e contrapesos nas tomadas de decisão, de forma a zelar pelas melhores práticas de governança, cumprindo os princípios de transparência, equidade na comunicação das informações, prestação de contas e responsabilidade institucional com todos os públicos de relacionamento
Fernanda Lopes – Trata-se de um processo. E todas as vezes que superamos alguns desafios, passamos a enfrentar novos. Porque a filantropia responsiva se dá desta forma. É preciso muita atenção aos contextos para atuar de modo tempestivo e responsivo. Sempre há algum ponto a ser melhorado. Em 2019, tínhamos dois editais em fase de finalização, 23 projetos no total, todos implementados por organizações formais (com CNPJ). Iniciamos 2020 com 78 projetos sendo implementados por organizações e, pela primeira vez na história do Baobá, também por grupos, coletivos informais e ainda por indivíduos. 2020 foi um ano de muitos aprendizados. Foram seis editais lançados, mais de 470 projetos selecionados, a maioria iniciativas de ações coletivas executadas por indivíduos. Adotamos o meio eletrônico para receber os projetos, iniciamos o processo de gestão de dados e produção de informações para subsidiar a tomada de decisões, fomos revisando os fluxos, definindo políticas, processos, procedimentos. Criamos diferentes espaços de diálogo com o campo e outros atores estratégicos e investimos em comunicação. Eu diria que o mais importante ganho, até agora, foi tornar nítido que a forma de o Baobá atuar como grantmaker (concedente) é diferenciada. A natureza do Baobá não permite ser visto, ou se ver, como um ator que capta e repassa recursos. Nosso modo de operar precisa deixar nítido que, para organizações e lideranças negras vivenciarem a transformação social justa, sustentável e sistêmica, os recursos financeiros e orçamentários são extremamente necessários, mas não são suficientes. É preciso desenvolver competências, habilidades, capacidades.
Quais desafios ainda estão por se concretizar?
Selma Moreira – Expandir e aprofundar o diálogo com toda sociedade brasileira; programa de doação individual recorrente; aprimorar a comunicação estratégica, potente e diversa nas redes sociais e outras mídias; encontro de organizações e lideranças apoiadas pelo Fundo Baobá no período dos últimos 10 anos; influência no setor nacional e internacional acerca do contexto de relações raciais no Brasil.
Fernanda Lopes – Neste momento, outubro de 2021, temos dois editais em fase de finalização, quatro editais em curso e dois para serem lançados. Os aprendizados estão sendo convertidos em medidas corretivas. Estamos avançando em análises de dados e produção de informações para evidenciar os valores agregados pelo Baobá no campo. Sabemos que a pandemia, apesar de toda a sua crueldade, gerou alguns efeitos positivos. Em um único edital, lideranças femininas negras apoiadas por 18 meses realizaram ações que alcançaram mais de meio milhão de pessoas. Isso é semeadura. Há muitos solos férteis e, com certeza, muitas sementes foram fertilizadas em todo o país, na zona rural ou urbana; nas periferias ou nos centros. Nas instituições públicas governamentais ou privadas; nas comunidades ou nas universidades. E, embora eu tenha dado um exemplo quantitativo, ele não é suficiente. Para fazer filantropia para justiça social, para promover equidade racial por meio de ações filantrópicas, é preciso ir além. Relatar esforços, narrar pequenas ou grandes mudanças, mobilizar e engajar mais pessoas e instituições. Estes seguem sendo desafios cotidianamente experimentados por nós.
Como você avalia os caminhos percorridos pelo Baobá nestes 10 anos?
Selma Moreira – O caminho é de fortalecimento, amadurecimento no diálogo com o campo das organizações e lideranças negras. Aprimoramos os diálogos com representantes de organizações que investem em ações sociais via Fundações, Institutos e Empresas. Estamos promovendo editais em todo território nacional e esses editais são estratégicos. Investimos na formação de equipe interna e parceiros estratégicos para a operação. Até o momento temos números bem interessantes, que comprovam nosso crescimento, abrangência e influência nesses 10 anos de atividades: R$ 14 milhões investidos; 21 parcerias conquistadas; 16 editais realizados; 553 iniciativas individuais apoiadas e 279 organizações apoiadas.
Fernanda Lopes – Cheguei há pouco no Baobá, mas conheço a instituição e sua missão desde o início. Muitas das pessoas que participaram de sua criação foram de suma importância para minha formação como pessoa, militante e profissional. Estamos crescendo e nos consolidando. Estamos nos aproximando, a meu ver, daquilo que era a proposta inicial, quando ainda não estava definido o formato, o modo de operar e de ser governado. Não se trata apenas de ampliar o volume captado, o volume investido no campo. Trata-se do modo como nos apresentamos e como somos vistos pela sociedade. O modo como operamos, a forma como escutamos, como realizamos nossos ajustes de rota, como compartilhamos nossos aprendizados, como influenciamos, como transformamos e nos deixamos transformar. Tudo isso tem relação direta com os 10 anos de atuação do Baobá como grantmaker (concedente de apoios financeiros).
O grande gargalo para o Baobá é a captação de recursos?
Selma Moreira – Captação para o endowment (fundo patrimonial) é um gargalo nacional e internacional.
Fernanda Lopes – Os impactos do racismo são vivenciados em todas as dimensões do desenvolvimento – individual, social, econômico, político, cultural e ambiental. O Baobá se propõe a atuar como grantmaker (concedente), apoiando iniciativas negras que respondam a todas estas dimensões. A captação de recursos é a via para garantir que estes apoios ocorram. Contudo, sabemos que, para que a ação filantrópica do Baobá seja sustentável, ela não pode ser apenas para ações programáticas. Precisamos captar para o endowment (fundo patrimonial). Os recursos captados para o endowment nos permitem autonomia de investimento, de acordo com necessidades e expectativas advindas do campo. Por exemplo, no auge da pandemia todos os recursos captados tinham destino certo. A liberdade oferecida, tanto para organizações quanto para lideranças, em nosso primeiro edital de apoio emergencial no contexto da pandemia, só foi possível porque utilizamos recursos oriundos dos rendimentos do fundo patrimonial. Ou seja, recursos próprios do Baobá. Com isso, pudemos receber propostas com demandas por ações e insumos que melhor respondessem às necessidades e expectativas das bases. Não nos vimos motivados a indicar o que poderia constar ou o que priorizar. Era livre. As comunidades, as organizações, as lideranças decidiam o que e como fazer naquele momento. Ter recursos captados para o endowment, além de garantir autonomia nos investimentos programáticos permite tempestividade e sustentabilidade em nossa ação de grantmaker (concedente).
Financiadores do exterior têm uma visão mais apurada socialmente sobre o que venha a ser o trabalho de filantropia para equidade racial?
Selma Moreira – A cultura de doação está mais consolidada no exterior (Estados Unidos e Europa), no que tange a diversos temas. Mas a equidade racial ainda é incipiente. De todo modo, há mais abertura para construção de soluções perenes, assim como o endowment.
Fernanda Lopes – No Brasil, a negação do racismo e de seus efeitos nas condições de vida e saúde e nas oportunidades efetivamente disponíveis para as pessoas negras, em diferentes setores, impede o reconhecimento estratégico da filantropia para a equidade racial como instrumento para o alcance do desenvolvimento com equidade no país e para consolidação da democracia. No exterior, ainda que haja uma suposta maior abertura, as instituições e pessoas desconhecem as iniquidades raciais que existem no Brasil. Logo, há uma certa dificuldade em reconhecer a importância estratégica da filantropia para equidade racial entre aqueles que doam.
Qual a grande satisfação em executar o trabalho feito pelo Fundo Baobá?
Selma Moreira – O Fundo Baobá é uma organização essencial para promoção de uma sociedade mais justa e equânime. Fazer parte das estratégias de mudança e transformação, com as lentes e ações de liderança desta organização, é um desafio ímpar e uma alegria imensa em cada passo dado por um mundo melhor.
Fernanda Lopes – O Baobá é uma instituição que incide no ecossistema de filantropia para garantir que mais recursos, de diferentes fontes, sejam canalizados para o reconhecimento e o desenvolvimento da população negra como sujeito de direito e agente de sua própria história e destino. Uma instituição orientada pelas lentes da justiça racial, cuja missão e propósito estão voltados para promover mudanças estruturais, para intervir na raiz das desigualdades sociorraciais que é o racismo. Mas para isso tudo é preciso inovar e aprimorar todos os dias, e aqui não falamos de tecnologia, falamos de sociologia, antropologia, política, relações institucionais, relações interpessoais. Porque esta é a base para a mudança que vem do e para o coletivo. Isso é algo que, particularmente, me anima. É um lugar onde posso colocar à disposição tudo o que aprendi nos diferentes espaços por onde passei e, sobretudo, que me dá oportunidade de aprender, trocar, me revisitar, reorientar, reordenar, cocriar. Não deixa de ser um espaço de militância. Você pode ter uma bagagem técnica e muitas articulações, conexões, mas aqui só se dispõe a enfrentar toda sorte de desafios quem está disposto a defender a causa.
Formação de lideranças femininas, Primeira Infância, Recuperação Econômica, Direito à Cidade, Auxílio a Populações em Situação de Vulnerabilidade, Apoio à População Quilombola, Acesso a Cursos Superiores em Universidades Públicas, Dignidade e Justiça. Falta algum segmento em que o Baobá ainda não atuou com seus editais?
Selma Moreira – Não consegui identificar. Mapeamos nossas estratégias a fim de sermos responsivos para todas as áreas de atuação da população negra. De todo modo, vale ressaltar que ainda há muito aprimoramento no que tange à construção de estratégias que permitam alianças estruturantes e mudanças sistêmicas na sociedade, envolvendo os diversos atores do sistema.
Fernanda Lopes – Cada área que priorizamos tem um leque de possibilidades. Ter diferentes editais não significa que estamos contemplando tudo o que pode estar contido dentro de uma área. Por exemplo, investir em equidade racial na educação exige que atuemos na educação básica (educação infantil, ensino fundamental e médio), no ensino superior, na pós-graduação e na formação de quadros. Tem iniciativas que podem focar a gestão, o corpo docente, o corpo discente; podem acontecer em unidades escolares, instituições de ensino, pesquisa e extensão ou outros espaços onde as ações educativas ocorrem. Se focamos na comunicação podemos pensar na mídia negra, na educomunicação, no fortalecimento da pauta e ampliação da participação de profissionais negros nos veículos tradicionais e nas mídias independentes nao negras. Naquilo que se faz em diferentes plataformas e formatos. Arte e Cultura é um nicho no qual ainda não conseguimos investir e sabemos que a representação social do negro e o imaginário coletivo se transformam por meio do estímulo ao conjunto de sentidos, tão bem explorado por pessoas, organizações, grupos e coletivos que atuam nessa área e também navegam pela comunicação, arte e cultura, as mais eficientes estratégias de buscar o que, por ventura, pode-se ter esquecido. A memória que nos orienta a ver o hoje, construir um futuro diferente, pautado pelas conquistas, pelos erros e acertos do passado. Isto sem contar a ciência e a tecnologia. Enfim, temos muito a fomentar. E o campo cada dia tem deixado isso mais nítido. A transformação e o desenvolvimento para a população negra têm diferentes matizes e matrizes.
Como instituição, o Baobá vem se internacionalizando. Qual a importância disso?
Selma Moreira – Apoios internacionais com foco nos investimentos programáticos e na construção do fundo patrimonial são de importância estratégica fundamental. Essa internacionalização do Fundo Baobá, que vem já da sua fundação, é uma forma de levar para os países do exterior um maior conhecimento sobre o Brasil. E isso é uma via de mão dupla, pois ter conhecimento envolve o saber de fatos negativos e de fatos positivos também.
Fernanda Lopes – Para além de ampliar a sua capacidade de mobilização de recursos, estabelecimento de parcerias estratégicas e, por consequência, contribuir para mudanças sustentáveis no processo de desenvolvimento integral da população negra, acredito que a internacionalização do Baobá contribua para ampliar a discussão sobre equidade racial no sul global, dentro e fora do ecossistema filantrópico.
O Baobá já alcançou o propósito para o qual foi criado?
Selma Moreira – Avançamos muito em 10 anos, mas ainda há muito a ser feito. Infelizmente, o contexto de desigualdade e racismo recrudesceu com a pandemia. As soluções precisam ser cada vez mais sob medida para as diferentes demandas, tempos e especificidades dos públicos apoiados.
Fernanda Lopes – O Baobá ainda tem muito a realizar. O Baobá pode contribuir para transformar o imaginário coletivo. Pode contribuir influenciando a tomada de decisão das instituições públicas, privadas e do terceiro setor e, sobretudo, fortalecer a sociedade civil organizada negra, o movimento social negro, o movimento de mulheres negras, o movimento LGBTQIA+, o movimento de pessoas negras com deficiência, o movimento quilombola na busca por equidade racial e justiça social.
Que projeção você faz para os próximos 10 anos do Baobá?
Selma Moreira – Dez anos de inúmeros desafios. Desejo que o Baobá se consolide como referência e possa expandir seu impacto a partir da execução da sua missão em apoio a organizações e lideranças negras, a fim de contribuir para uma sociedade mais justa. Ainda desejo que tenham mais organizações engajadas em parceria com o Baobá para promoção de ações para e com a população negra em todo Brasil. E, por fim, desejo que tenhamos possibilidade de expandir os diálogos no eixo sul / sul, a fim de trocar, aprimorar e fortalecer alianças estratégicas conectadas com a nossa missão.
Fernanda Lopes – O plano de ação de Durban completa 20 anos neste 2021. Houve avanços, mas há desafios persistentes. As reparações são parte deste conjunto que, os compromissos assumidos no âmbito da Década de Afrodescendentes ou mesmo da Agenda de Desenvolvimento Sustentável, não contemplam. O Baobá foi criado como um mecanismo capaz de captar recursos e convertê-los em benefícios para a população negra, financeiros e outros. Na vigência do racismo, a ausência de proteção e garantia de direitos é reiterada e esta ausência afeta pessoas e coletivos. Os efeitos são generalizados. Por isso trago o tema reparações. Quando falamos em reparações estamos falando em políticas afirmativas, em investimentos das mais diversas ordens, em recursos financeiros. Para os próximos 10 anos sonho com o Baobá sendo um ator relevante na cena global de enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial, além de ser um mecanismo por meio do qual se possa concretizar ações ou políticas de reparação.
No mês de abril de 2020, durante a gestação da sua segunda filha, a empresária e esteticista Zarah Flor Rizzo descobriu um nódulo no seio esquerdo enquanto fazia um auto exame durante o banho: “Relatei para minha médica obstetra que havia encontrado um nódulo, a médica me examinou e me tranquilizou falando que era um nódulo de leite empedrado, não me senti confortável pois eu conhecia meu corpo e sabia que tinha algo errado”.
A insistência da empresária em relação àquele nódulo levou Zarah a pedir a realização de um exame ultrassom: “Eu sabia que tinha algo de errado, mas a médica achou melhor não fazer porque poderia afetar as glândulas mamárias”. Zarah não desistiu e decidiu ligar no laboratório solicitando o exame: “A atendente também informou que era melhor não realizar o exame pelo mesmo motivo”. Zarah ligou novamente em outra oportunidade e insistiu com a ideia até que o exame fosse feito: “A médica realizou o exame de mama e falou que não era nada, apenas a mama que estava com uma pequena inflamação e com um pouco de líquido por conta das minhas próteses mamárias”.
Após o nascimento da filha, Zarah Flor retornou à obstetra para realização de exames de rotina pós parto e comentou sobre o aumento do nódulo. A médica pediu para ela não se preocupar, mas mesmo assim ela não desistiu de investigar: “Saí do consultório e no estacionamento mesmo eu liguei no meu convênio e perguntei se poderia marcar um mastologista sem encaminhamento médico. A resposta foi sim. Marquei uma consulta com o mastologista e marcamos a biópsia”. Em novembro de 2020, saiu o resultado da biópsia. Zarah Flor estava com câncer de mama.
Zarah Flor Rizzo, empresária e esteticista
Segundo um estudo apresentado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama é o segundo tipo que mais acomete as mulheres brasileiras, representando em torno de 25% de todos os tipos de câncer que afetam o sexo feminino no país. Por isso, o mês de outubro é dedicado à conscientização e controle do câncer de mama, conhecido popularmente como Outubro Rosa.
O movimento foi criado no início da década de 1990 pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, nos Estados Unidos e é celebrado anualmente no mundo todo. O Brasil aderiu à campanha do Outubro Rosa em 2010, com o apoio do Inca, como forma de conscientizar a população feminina sobre a importância do autocuidado.
Ao aprofundar as estatísticas da doença no país, desagregando os dados por raça/cor, no ano de 2019 o Inca apresentou evidências de que a taxa de mortalidade por câncer de mama entre as mulheres negras era maior: 10% superior à observada para mulheres não negras. O Instituto classifica uma das causas que leva a mais mortes, o diagnóstico tardio da doença.
No caso de Zarah, mesmo com todas as interpelações médicas, o diagnóstico precoce da doença proporcionou a ela um tratamento em tempo hábil: “Hoje eu estou curada! Fiz cirurgia, que foi realizada no quadrante. Sigo em tratamento ainda. Ele acaba em Fevereiro de 2022”.
Câncer de mama e as mulheres negras
Para a médica ginecologista Ligia Santos, é preciso compreender que os estudos mostram que o câncer de mama não acomete mulheres negras de forma mais prevalente que as não negras. Porém, quando uma mulher negra apresenta câncer de mama precocemente (antes dos 50 anos, mais especificamente antes dos 45 anos), a doença tende a ser mais grave e com prognóstico pior, e isso está atrelado ao fator social: “Os determinantes sociais de saúde são importantes fatores para a pior evolução da doença, pois eles atuam dificultando o diagnóstico e o tratamento precoce das mulheres negras. Sabemos que a maioria das mulheres negras está na base da pirâmide social e dependem muito do SUS, que é um sistema fundamental para a nossa sociedade, mas possui muitas falhas. Logo, essas mulheres tendem a fazer menos mamografias de rastreamento, passam em menos consultas médicas e com especialistas e com isso podem ter o diagnóstico mais tardio e, consequentemente, mais mortes”.
Ligia Santos, médica ginecologista
Mariana Ferreira, outra médica que atua na área da ginecologia e obstetrícia, também afirma que, no que diz respeito a diagnóstico precoce, a partir do rastreio com mamografia, ainda há uma grande disparidade quando avaliamos o acesso por raça/cor e classe: “Mulheres negras e com escolaridade mais baixa são aquelas que mais têm dificuldade em acessar o rastreio. Isso acaba atrasando o diagnóstico e, consequentemente, o prognóstico se torna mais reservado”.
Os dados do Inca mostram que, enquanto 66,2% das mulheres brancas fizeram o exame da mamografia, somente 54,2% das negras fizeram no mesmo período. Para a médica Ligia Santos, o acesso à saúde é um benefício que embora seja legal é negado a muitas pessoas: “Os mais pobres vivem nas periferias que, geralmente, acabam ficando para segundo plano quando se pensa em políticas públicas em geral ou que não possuem a estrutura que deveriam ter para que o atendimento seja equânime”, segundo a médica. Isso é visível na escassez de equipes, de especialistas e equipamentos de saúde em alguns bairros: “Como a falta de mamógrafos, além da dificuldade em agendar consulta com especialista, entre outros tantos fatores. Sendo assim, uma mulher que deveria fazer o diagnóstico/tratamento precoce acaba perdendo muito tempo entre idas e vindas para poder ‘entrar’ no sistema”.
Para a empresária Zarah Flor, a falta de acesso a direitos básicos por parte da população negra, sendo eles cada vez mais escassos, impacta diretamente no aumento do índice de mortalidade de doenças como o câncer de mama: “A falta da inclusão acaba refletindo na comunidade negra e limitando o mínimo para viver em sociedade. E os números estão aí para comprovar que somos as mais afetadas pela desigualdade onde não temos o mínimo para sobreviver”.
Mariana Ferreira também acredita que, para a mulher que ainda se encontra ativa economicamente, o acesso vai impactar. Por outro lado, a médica também afirma que o medo do diagnóstico também afasta algumas mulheres: “Por se tratar de uma doença ainda cercada de muitos estigmas, acaba fazendo com que muitas mulheres, mesmo após apalparem tumor na mama, acabam por postergar a busca por atendimento. Por isso que estratégias e campanhas que tragam conscientização sobre a doença são tão importantes”.
Cuidado com a saúde da mulher negra para além do Outubro Rosa
Apesar de outubro ser dedicado à prevenção e à conscientização sobre o câncer de mama, tanto Mariana quanto Ligia reforçam a importância dos cuidados de outras enfermidades que são letais para a população negra de modo geral: “Não podemos esquecer que a população negra é mais suscetível à hipertensão e diabetes, que contribuem para o surgimento e piora das doenças cardiovasculares, que são as que mais matam no mundo, além da depressão, que é a doença que mais incapacita pessoas”, afirma Ligia.
Mariana Ferreira, ginecologista e obstetra – Foto: Gabriella Maria
Mariana reforça a importância de campanhas preventivas como a do Outubro Rosa, considerando que as estratégias de prevenção em saúde da mulher negra passam por vários aspectos: “Desde avaliação de risco para doenças cardiovasculares, tentativa de controle de fatores de risco como diagnóstico e controle de condições como hipertensão, diabetes, obesidade, estímulo à prática de atividade física”. Porém, a médica afirma que ainda há campos na saúde da mulher que também requerem atenção e conscientização: “O rastreio de acordo com a faixa etária para câncer de colo do útero e mama; a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, através do acesso a métodos contraceptivos, assim como acesso à pré-natal de qualidade e acompanhamento ao parto, para desta forma prevenir desfechos negativos. São várias as intervenções que podem ser feitas no que diz respeito à saúde da mulher negra”, finaliza.
Recentemente, Zarah Flor integrou uma campanha publicitária de uma famosa loja de departamentos, no qual ela e outras mulheres reais contam como venceram a doença. No vídeo, Zarah diz:
“Eu fui me reconectando, eu consegui trazer a minha autoestima de volta, eu quero estar sempre presente, não deixo nada pra depois, eu quero fazer hoje e agora, eu me sinto uma nova mulher”
Para o Fundo Baobá, Zarah explica o significado desta frase: “Essa afirmação eu levo para vida. Com ela, eu me renovo todos os dias e com a cura do câncer de mama, só me fez enxergar ainda mais o quanto as coisas simples da vida precisam ser valorizadas. Estar com a família, com meu marido e minhas filhas, acabam nos encorajando para lutar contra a doença”. Finaliza.
O estado de ebulição em que o mundo entrou quando do assassinato do negro George Floyd pelo então policial, o branco Derek Chauvin, na cidade de Minneapolis, no estado de Minnesota (Estados Unidos), provocou posicionamentos sociais por parte de várias empresas em todo mundo. O assassinato de Floyd, infelizmente, fez despertar em milhões a atenção sobre os problemas causados pelo racismo, muito mais observado pelos que são vítimas dele no cotidiano.
Uma das corporações mundiais a se manifestar foi o Google, por intermédio de seu CEO, Sundar Pichai. “No ano passado, o CEO Sundar Pichaifalou sobre a importância de reconhecer o racismo como um problema global e sistêmico e assumiu compromissos de aumentar a proporção de pessoas negras em cargos de liderança e dedicar esforços não só no processo de contratação, mas de retenção e promoção. Na ocasião,nos comprometemos globalmentea investir cada vez mais esforços em equidade racial, por meio de iniciativas internas e externas de combate à injustiça racial e construção de sustentabilidade social”, afirmou Flavia Garcia, Head de Diversidade, Equidade e Inclusão do Google na América Latina.
O comprometimento global do Google fez com que ações no sentido do combate ao racismo e busca pela equidade fossem realizadas também no Brasil. Uma dessas ações foi o apoio dado ao Fundo Baobá para Equidade Racial no edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, lançado em maio de 2021 com dotação de R$ 1,2 milhão. Os recursos vieram do Google.org, braço filantrópico do Google, que tem como uma de suas premissas apoiar entidades negras cuja atuação no enfrentamento ao racismo seja o foco.
O edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça selecionou 12 organizações negras brasileiras que apresentaram projetos com os seguintes direcionamentos: Enfrentamento à Violência Racial Sistêmica; Proteção Comunitária e Promoção da Equidade Racial; Enfrentamento ao Encarceramento em Massa entre Adultos e Jovens Negros e Redução da Idade Penal para Adolescentes; Reparação para Vítimas e Sobreviventes de Injustiças Criminais com Viés Racial.
O objetivo do Vidas Negras é ir de encontro a inúmeras arbitrariedades que têm sido relatadas e documentadas dentro do sistema de Justiça do Brasil, que em inúmeros casos procura desqualificar o povo negro impondo a ele decisões sem embasamento que culminam em penas injustificáveis. “Reforçamos nosso compromisso em continuar avançando na redução das desigualdades estruturais raciais, por meio de ações de equidade de oportunidades de acesso, desenvolvimento e liderança para a comunidade negra. Trabalhamos promovendo oportunidade econômica para a população negra e apoiando o trabalho de organizações que atuam no front, realizando ações de combate ao racismo e à desigualdade racial, como é o caso doapoio do Google.org ao Fundo Baobá, primeiro e único fundo filantrópico brasileiro dedicado exclusivamente à equidade racial”, disse Flavia Garcia.
Flavia Garcia, Head de Diversidade, Equidade e Inclusão do Google na América Latina
Um dos objetivos do Google como único apoiador do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça foi o de alcançar o maior número de pessoas possível com as ações implementadas. O objetivo foi alcançado. “Por meio do Fundo Baobá, o apoio do Google se multiplicou, beneficiando 12 organizações com trabalhos com foco no enfrentamento ao racismo em suas regiões de atuação. Além do Fundo Baobá, o Google.org destinou recursos para o Núcleo de Pesquisa em Justiça Racial e Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com o objetivo de apoiar a pesquisa e coleta de informações sobre o estado da justiça racial no Brasil, a partir da análise de estudos de caso, dados e visualização das dimensões raciais da violência policial no país”, revelou a executiva de Diversidade, Equidade e Inclusão do Google para a América Latina.
As organizações selecionadas estão recebendo um amplo treinamento para que alcancem 100% da potencialidade de seus projetos. Como apoiador, o Google vem monitorando e tem apreciado o trabalho que vem sendo feito pelo Baobá. “O Google.org entende que as pessoas mais próximas do problema são as que estão em melhor posição para resolvê-lo. E esse é o caso dos treinamentos que o Fundo Baobá disponibilizou para todo o ecossistema de organizações, o que inclui ferramentas de governança, recursos humanos, monitoramento e avaliação de programas, finanças, saúde e sustentabilidade, estratégia de comunicação e desenvolvimento de competências digitais; essenciais para seu fortalecimento institucional. Estamos entusiasmados em ver que as organizações selecionadas criarão uma rede onde terão interações mais profundas para compartilhar as lições aprendidas umas com as outras, com o objetivo de fortalecer uma rede nacional com representantes de organizações lideradas por pessoas negras de cada região”, finalizou Flavia Garcia.
No dia 4 de outubro, conhecido como o Dia da Natureza, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), em parceria com o LinkedIn, realizou o evento virtual “ESG na Prática: Parcerias e Negócios para um mundo em transformação”, que contou com a participação de profissionais de diversas áreas para falar da prática do ESG (Environmental, Social and corporate Governance – Governança Ambiental, Social e Corporativa) em seu ramo de atuação.
A diretora executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, foi uma das palestrantes na mesa de encerramento do evento. Com o tema “Como evitar o ESG Washing?”, a sessão foi mediada pela professora associada da FEA/USP e vice-presidente do IPÊ, Graziella Comini, e contou com as participações de Adriana Machado (Fundadora do Briyah Institute), Ricardo Batista (CEO do Tribanco) e Tarcila Ursini (EB Capital).
ESG na prática. Sentido horário: Graziella Comini (FEA/USP e IPÊ), Adriana Machado (Briyah Institute), Selma Moreira (Fundo Baobá), Tarcila Ursini (EB Capital) e Ricardo Batista (CEO do Tribanco)
No dia do evento, três redes sociais muito utilizadas tiveram problemas de instabilidade e ficaram sete horas sem funcionamento, gerando caos no mundo todo. Selma Moreira fez questão de iniciar a sua exposição fazendo conexões entre o ocorrido e a prática do ESG: “Se cai a internet, todo mundo enlouquece. Então por que a gente não sente a mesma coisa quando cai uma árvore ou quando a gente perde uma vida?”, perguntou.
Falando sobre ESG na prática, Selma destaca a necessidade de a discussão sobre o tema começar pela letra G, que representa a Governança Corporativa: “A governança é a chave, o espírito, sendo, talvez, o tema mais forte e que a gente tenha que apertar a caneta. Porque você precisa trabalhar a importância internalizada no alto escalão da empresa, para garantir que todos os trabalhos sejam feitos na perspectiva de promover a questão ambiental e a questão social. Muito além de uma simples propaganda”, afirmou.
A expressão ESG Washing é conhecida no meio corporativo como a implementação do ESG, sem o comprometimento real com todas as pautas que compõem a sigla. Neste contexto, Selma Moreira frisou a importância do engajamento e da discussão em torno dos fundamentos estratégicos do ESG; de não ficar apenas em modismos, citando, inclusive, a comoção virtual pela morte do norte-americano George Floyd em junho de 2020: “No ano passado nós vimos todo mundo falando sobre o Black Lives Matter [movimento ‘Vidas Negras Importam’] o tempo todo nas redes sociais. Eu acho muito importante as pessoas dialogarem sobre isso, mas eu quero que seja de verdade, para além de um post nas redes sociais. É preciso que essas pessoas se importem com isso e que todas as decisões tomadas, na vida pessoal ou profissional, estejam conectadas com essa temática também”.
A diretora executiva do Fundo Baobá, o primeiro fundo dedicado à promoção da equidade racial para a população negra no país, fez questão de afirmar que é necessário um olhar cuidadoso para as organizações e Fundos de justiça social e aprender com a experiência de atuação de cada um deles, nas causas mais urgentes: “O nosso trabalho está diretamente ligado ao Brasil profundo, escutando e respondendo às demandas dos diversos públicos. Assim como o Baobá, existem outros Fundos com outras temáticas que atuam para garantir que organizações de base comunitária, rurais, quilombolas, além da população mais afastada e vulnerável, tenham direito de viver com dignidade e de seguir se desenvolvendo”.
Por fim, Selma Moreira reitera que é necessário se permitir colocar em dúvida as nossas certezas: “As crianças têm o chamado ‘cantinho da disciplina’, os adultos precisam ter o cantinho da dúvida, antes de tomar qualquer decisão. É nessa hora da dúvida que se permite dialogar, experimentar e tentar outros caminhos, porque o que falta é conhecer mais do Brasil, falta conhecer mais das necessidades e falta, inclusive, desenhar os nossos planos a partir das escutas”, afirmando que não significa apenas investir o dinheiro em uma causa, baseado nas próprias estratégias, mas ter a sensibilidade de ouvir as demandas de cada um: “É muito do ser humano achar que tem a solução de tudo, no entanto, eu diria que é preciso fazer tudo com intencionalidade”, finalizou.
No final do evento, a artista gráfica Camila G.MW. fez uma arte com todos os participantes da mesa digital e retratou Selma Moreira com os cabelos em formato de baobá, a árvore nativa da África, pertencente à família das malváceas, com um tronco que pode chegar a nove metros de diâmetro e 30 metros de altura e que deu origem ao nome da organização.
O vídeo está disponível no perfil do IPÊ no LinkedIn e pode ser assistido aqui.
A pesquisa Emergência Covid-19, realizada pelo GIFE, apresenta uma análise da atuação emergencial de diferentes organizações do campo da filantropia e de investimento social, e revela que houve uma forte resposta desse setor na construção de ações para minimizar os impactos da pandemia. No que confere à alocação de recursos, num grupo de 98 organizações entrevistadas, 78% afirmaram que investiram em iniciativas finalísticas de enfrentamento à Covid-19. No que se refere ao montante alocado, a pesquisa apresenta que a somatória de 69 organizações resultou num valor total de R$ 2 bilhões. No comparativo com o valor investido em outras iniciativas e na gestão dessas organizações, esse valor é 1,9 vezes superior.
Nesse contexto, os fundos e fundações comunitárias reunidas na Rede de Filantropia para a Justiça Social (RFJS) têm desempenhado também um papel estratégico para viabilizar a doação de recursos. Ao longo de 2020 as organizações da Rede doaram de forma direta um montante de R$ 14.019.120,70 para mais de 1.200 iniciativas da sociedade civil. As doações indiretas (cestas básicas, kit higiene e ajuda humanitária, de forma geral) somam aproximadamente 2,9 milhões de reais, totalizando mais de 16,9 milhões de reais.
Além disso, a RFJS, por meio de seu Programa de Apoio, doou um montante de R$ 210.000 para fortalecimento dos seus membros no enfrentamento da pandemia a partir de três linhas de atuação: mobilização comunitária e campanhas de doação e de comunicação, informação e produção de conhecimento.
Como demonstra o estudo O Papel e o protagonismo da sociedade civil no enfrentamento da pandemia da covid-19 no Brasil, embora o montante das doações dos fundos locais que integram a RFJS não seja comparável aos recursos mobilizados pelas grandes fortunas, a atuação da Rede foi e continua sendo estratégica no contexto da pandemia pela capacidade de reagir de forma ágil e assertiva, atendendo a múltiplas demandas, com foco nas minorias políticas e grupos vulneráveis.
Esses dados demonstram que a urgência por respostas ao cenário da pandemia do coronavírus promoveu uma prioridade de investimentos entre as organizações do universo da filantropia e do investimento social no Brasil.
Se a imprevisibilidade de uma pandemia mundial explicou o deslocamento de prioridades e a maior mobilização por recursos ao longo do ano de 2020, após um ano e meio de seu início percebemos que as urgências não findaram, mas se transformaram.
O país se encontra imerso em um cenário de retrocessos na garantia direitos humanos e ambientais, aumento da taxa de desemprego em consonância com o encarecimento do custo de vida, que somados às inúmeras ausências de políticas públicas para minimizar os impactos da covid-19 têm agravado as condições de vida da população mais vulnerável, em especial os povos indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais.
Parafraseando os autores Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, como combater a mortandade quando ela se torna algo corriqueiro? Se seguirmos as trilhas da resposta à pergunta dos autores, precisamos exercitar a política da vida, o encantamento.
O encantamento como uma capacidade de transitar nas inúmeras voltas do tempo, invocar espiritualidades de batalha e de cura, primar por uma política e educação de base comunitária entre todos os seres e ancestrais, inscrever o cotidiano como rito de leitura e escrita em diferentes sistemas poéticos e primar pela inteligibilidade dos ciclos é luta frente ao paradigma de desencanto instalado aqui. Ou seja, o encante é fundamento político que confronta as limitações da chamada consciência das mentalidades ocidentalizadas. (SIMAS E RUFINO, 2020, p.8).
Portanto, o atual contexto demanda ações destinadas à (re)construção, fortalecimento e principalmente de reconhecimento do protagonismo das organizações de base comunitária e tradicionais. Infelizmente, não vemos a construção de políticas públicas que dê conta de atender essas populações para essa reconstrução.
Passamos de um momento de apoios humanitários para apoios com ações mais estruturantes, e com eles o desafio dos recursos da filantropia chegarem de fato às comunidades mais impactadas.
Aliança entre Fundos
Diante desse contexto é consolidada a Aliança entre Fundos, composta pelos Fundos Baobá, Brasil de Direitos e Casa Socioambiental.
Os diálogos e as trocas entre essas organizações ocorridas no ano de 2020 para aprendizados sobre mobilização, coordenação, alocação e gestão dos recursos emergenciais durante o período mais crítico da pandemia resultaram numa aliança estratégica direcionada a apoiar iniciativas de comunidades tradicionais frente aos impactos causados pela covid19.
A Aliança foi lançada no dia 26 de agosto e tem como objetivo principal contribuir para a autonomia e o protagonismo das populações tradicionais, organizações, grupos e coletivos na construção de soluções para os impactos provocados pela pandemia por meio de apoio a projetos em três eixos temáticos; (1) Fortalecimento da resiliência, (2) soberania e segurança alimentar (3) defesa de direitos.
A iniciativa tem ainda como objetivos fortalecer o ecossistema da filantropia pela justiça racial, social e ambiental por meio de estratégia de atuação conjunta entre os Fundos, gerando aprendizados e reforçando a importância da colaboração para enfrentar emergências, potencializando o apoio aos grupos comunitários.
Assim, a Aliançase inscreve como apoio e ponte para a construção da política de vida plantada nas margens, capoeiras, sambaquis, quilombos, mangues, sertões, gameleiras, esquinas e matas daqui. O “encantamento” se torna metáfora, mas também estratégia colaborativa onde os Fundos que buscam apoiar ações de alicerce, de (re)construção e enfrentamento aos desafios impostos pela pandemia para as comunidades quilombolas e povos indígenas.
A Rede de Filantropia para a Justiça Social foi campo fértil para o nascimento dessa Aliança, criando um importante espaço de diálogo no pior momento da pandemia em 2020, fomentando ações criativas para o apoio aos grupos de base para ações emergenciais de enfrentamento a covid19. Acreditamos que a Aliança e a Rede podem seguir na trilha de gerar aprendizagem, em especial nos temas de estratégias colaborativas para mobilização de recursos e em monitoramento e avaliação dos apoios aos grupos de base.
Para 2022, está sendo construída uma agenda de fortalecimento de capacidades e trocas e intercâmbios entre os grupos comunitários que serão selecionados nos editais.
SIMAS, Luis Antônio e RUFINO, Luis. Encantamento, sobre a política de vida. Rio de Janeiro. Mórula Ed.2020.
Joyce Maria Rodrigues – Mestra em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC, especialista em políticas públicas pela USP e Licenciada em ciências sociais pela UNESP Marília. Atua como consultora técnica da iniciativa Aliança entre Fundos.
Cristina Orpheo é Diretora Executiva do Fundo Casa Socioambiental. É formada em Administração, com pós-graduação em gestão de projetos sociais, terceiro setor e gestão ambiental. Tem 20 anos de experiência em elaboração e gestão de projetos, gestão de recursos humanos, elaboração de projetos, planejamento estratégico e mobilização de recursos. Nos últimos 10 anos atua em Grantmaking e apoios a grupos comunitários de base.
Por intermédio de suas conquistas no Esporte, as PcDs (Pessoas com Deficiência) mostram para os capacitistas que são capazes de fazer qualquer coisa
Por Wagner Prado
Em 1944, o mundo ainda estava sacudido pelo flagelo da II Guerra Mundial, que terminaria um ano depois. Um neurologista de origem alemã, Ludwig Guttmann, recebeu do governo do Reino Unido o aval para abrir um centro de reabilitação para tratar lesões na coluna. O público eram os soldados feridos em batalha. Ludwig Guttman acreditava na prática esportiva como principal forma de reabilitação. Aquilo foi o embrião para o que havia começado como recreação visando reabilitação, se transformasse em competitividade entre pessoas com deficiências.
Como muitas ideias evoluem, Ludwig Guttmann levou seu desejo de promover uma competição entre cadeirantes para a organização dos Jogos Olímpicos de 1948 em Londres. Nascia ali a intenção de promover jogos exclusivos para PcD, chamados então de Jogos Paraolímpicos. A realização dos primeiros Jogos Paraolímpicos ocorreu em Roma, em 1960 e, desde então, acontecem a cada quatro anos após os Jogos Olímpicos.
Competir esportivamente foi e é uma grande conquista das pessoas com deficiência. Porém, algumas conquistas acabam por esconder tantas outras batalhas que estão sendo travadas por este segmento da população e a sociedade, em sua quase totalidade, não tem conhecimento.
Uma dessas batalhas é contra o que se denomina Capacitismo, que é a atitude de discriminar, tratar com preconceito e opressão qualquer pessoa com deficiência física e motora, visual, auditiva, intelectual e de aprendizado. Criou-se o conceito de que pessoas com deficiência são inferiores. Dar a elas tratamento de comiseração é, também, uma forma de capacitismo.
O Brasil tem 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para combater o capacitismo, foi instituída a Lei Federal 13.146, em 6 de julho de 2015, que é o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Em seu artigo 4º, a Lei diz que “toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação”.
Ainda no terreno das leis federais, a Lei 8.213 de 1991, batizada como Lei de Cotas, determina que empresas que tenham de 100 a 200 funcionários reservem 2% das vagas para PcD. Essa porcentagem vai crescendo de acordo com o número de empregados/as e chega ao máximo de 5% para empresas que tenham mais de 1001 colaboradores/as.
A fuga da invisibilidade, a ocupação de espaços que movam a opinião pública, a busca pela conscientização sobre os direitos das pessoas com deficiência, têm sido uma missão para muites. O movimento Vidas Negras com Deficiência Importam (VNDI) foi criado por negros para combater os impactos das intersecções entre racismo, capacitismo e a discriminação a pessoas negras com deficiência. O grupo está bem ativo nas redes sociais e fora delas também.
A prática esportiva tem sido uma forma de afirmação encontrada por PcDs para trazer o olhar da sociedade sobre suas conquistas e também reivindicações. Na última edição da Paraolimpíada de Tóquio, realizada em agosto de 2021, o Brasil levou 253 atletas, sua maior delegação. Um deles, o nadador estreante Gabriel Geraldo Araújo, o Gabrielzinho, de 19 anos. Competindo na categoria S2 (o “S” é de Swimming/Natação e o 2 classifica nadadores com limitações físico motoras). Gabrielzinho nasceu com Focomelia, um tipo de anomalia que provoca a má formação de braços, mãos, pernas e pés. A mãe de Gabriel, Eneida Magna dos Santos, descobriu o problema quando estava em seu quinto mês de gravidez.
Gabriel Geraldo Araújo, o Gabrielzinho
A vida não foi fácil e ninguém disse que seria. Gabriel desde muito cedo, antes de completar um ano, já estava em um centro de reabilitação para aprender a dar os primeiros passos e, com o crescimento, ganhar autonomia. A natação competitiva veio aos 13 anos, quando foi inscrito nos Jogos de Minas Gerais para Deficientes por um professor de Educação Física. De lá até Tóquio o caminho foi de muitas vitórias, mas, acima de tudo, muito esforço visando o próprio aperfeiçoamento. Gabriel Araujo alcançou três medalhas na Paralimpíada japonesa: dois ouros e uma prata. Pela competência de atleta e pelo carisma, ganhou fama e aproveitou para levantar bandeiras: “Na minha vida sempre foi assim, ‘vai lá e faz’. As pessoas, todas, têm que entender que nós somos deficientes, mas nós somos capazes de fazer tudo”, afirmou o campeão paralímpico em entrevista ao site ge.com .
Desde 1996 o Brasil celebra o Dia de Adolescentes (21). Setembro também é o mês em que se celebra o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (10). Em alusão a esta data, desde 2014 acontece a campanha nacional Setembro Amarelo, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) e sendo aderida em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV).
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no Brasil, todos os anos, cerca de 12 mil pessoas tiram a própria vida. Isso representa quase 6% da população. A OMS também informa que o suicídio é a terceira causa de morte de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos.
Dados do Ministério da Saúde, revelam que, em 2019, a taxa de jovens negros entre 10 e 29 anos de idade que cometeram suicídio foi 45% maior que a observada entre jovens brancos na mesma faixa etária. A pergunta que fica é: Qual são os possíveis motivos que levam o adolescente/jovem negro brasileiro a experimentar este risco acrescido de suicídio?
Para a psicóloga, mestre em Saúde Comunitária, doutora em Saúde Pública, docente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e idealizadora da página Saúde Mental da População Negra, Jeanne Saskya Campos Tavares, é preciso voltar no tempo e analisar que o suicídio funciona como estratégia política da população negra no Brasil desde a colonização: “No passado, por diferentes meios, pessoas negras davam fim a sua própria vida e de seus filhos para que não mais fossem submetidos aos horrores da escravização”.
Nos tempos atuais, Jeanne afirma que o racismo continua diretamente ligado à ideação e comportamento suicida, uma vez que este não é um problema individual, mas um processo coletivo: “Ele se relaciona com a necessidade do jovem negro de cessar um intenso sofrimento através da morte e à percepção de que não há esperança de que, em algum momento, terá uma vida que valha a pena viver. Neste sentido, o racismo está diretamente relacionado às questões sociais, de baixa auto-estima e de violência no ambiente escolar desde a infância”.
Jeanne faz questão de salientar que o racismo é um importante fator que vulnerabiliza os adolescentes e jovens negros brasileiros e pode ser entendido como um fator predisponente para o suicídio: “Pois ele impede o acesso aos direitos de cidadania, expõe as pessoas negras a múltiplas violências cotidianas que envolvem desde situações continuadas de humilhação pública, até a possibilidade de sua própria morte e encarceramento ou encarceramento de conhecidos e familiares. Essas experiências comprometem significativamente a saúde mental da maioria das pessoas negras, pois relacionam-se com a baixa qualidade de vida e impossibilidade de receber apoio social em diferentes contextos”.
Jeanne Saskya Campos Tavares, psicóloga, mestre em Saúde Comunitária, doutora em Saúde Pública, docente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e idealizadora da página Saúde Mental da População Negra
Em 2020 e 2021, tivemos que lidar (e estamos lidando) com um fato que afetou diretamente a vida e a saúde mental das pessoas do mundo inteiro: a pandemia da Covid-19. Durante este período, Jeanne Tavares realizou uma série de lives intituladas Saúde mental da população negra em tempos de pandemia, que dialogavam diretamente com os mais afetados nesta crise sanitária. Jeanne diz que o novo coronavírus impactou diretamente na saúde mental dos adolescentes e jovens negros: “A saúde mental foi afetada porque foram expostos à maior insegurança do que já viviam. Não era apenas o risco de contaminação pelo vírus, pois muitos continuaram desenvolvendo atividades laborais, geralmente informais, junto com suas famílias, mas tiveram que lidar com a morte e adoecimento dos seus familiares e conhecidos que, em sua maioria, não puderam estar em trabalho remoto”. Jeanne frisa que, em um ano de pandemia, os jovens experienciaram todas as dificuldades relacionadas à perda de emprego entre os seus e ao empobrecimento coletivo, além da paralisação de suas atividades escolares com comprometimento do apoio que a comunidade escolar pode oferecer, “ainda que tendo muitas limitações, é um contexto reconhecido como protetor e de acesso à alimentação e contatos sociais diários”.
Diante de todo esse cenário, fica evidente que o cuidado com a saúde mental de adolescentes e jovens negros é essencial. Políticas, programas, iniciativas para enfrentar o racismo no ambiente escolar, dialogar sobre orientação sexual, identidade de gênero, entre outras intersecções que contribuem para a vulnerabilidade e podem levar ao suicídio de jovens negres. Trabalho de base realizado em um ambiente escolar, educação básica de qualidade, manutenção de jovens negres na escola, todos estes pontos estão em jogo quando falamos sobre saúde integral e saúde mental, em especial. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018 um terço dos brasileiros entre 19 e 24 anos não havia conseguido concluir o ensino médio. Entre os que não conluíram esta etapa, 44,2% eram homens jovens negros. Um dos motivos da evasão escolar entre negros do sexo masculino, com menos de 18 anos, é o ingresso no mercado de trabalho. O relatório Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, divulgado em 2019 pelo IBGE, mostra que as pessoas negras representam 75% entre os mais pobres. A educação de má qualidade, o ambiente que segrega e a carência econômica contribuem para a busca por emprego em detrimento à formação escolar.
Sobre esta conexão entre situação socioeconomica e educacional, Jeanne acredita que as políticas de redistribuição de renda e as políticas afirmativas, não apenas as cotas como também as que garantam a permanência de crianças, adolescentes e jovens do ensino fundamental ao superior, podem ser interpretadas também como políticas promotoras de saúde mental: “É importante salientar que a saúde mental da população negra está diretamente associada à nossa qualidade de vida, por isso todas as políticas que nos permitam viver numa sociedade equânime, com acesso à alimentação, água, justiça, paz, trabalho, moradia, liberdade de trânsito nas cidades, saúde, educação, descanso, dentre tantos outros direitos humanos, são também produtoras de saúde mental e nos protegem em relação ao suicídio”. Finaliza.
Já É: Promovendo educação, equidade racial e qualidade de vida
Compreendendo as conexões entre educação de adolescentes e jovens, qualidade de vida, saúde mental e justiça racial, o Fundo Baobá lançou em 2020 o Programa Já É: Educação e Equidade Racial. Em parceria com a Citi Foundation, Demarest Advogados e Amadi Technology, o Programa Já É foi criado pelo Baobá com a premissa de impulsionar o ingresso de jovens negros e periféricos nas universidades, através do custeamento dos gastos em um curso pré-vestibular e também transporte e alimentação.
Jakeline Souza Lima, 22 anos, é uma das jovens apoiadas pelo Já É e uma das defensoras da promoção de uma educação de qualidade para o fim do racismo estrutural: “A educação é a ferramenta mais potente para transformar as estruturas, para sanar os problemas que estão enraizados há tanto tempo na nossa sociedade”. Apesar desta certeza, Jakeline também acredita que a educação precisa ser crítica e empoderadora, principalmente no que diz respeito a história negra: “É preciso que nossa história seja passada como realmente foi: cheia de lutas, com muita potência, inventividade, riqueza e orgulho, e não como tem sido desde sempre, quase nos ensinando a termos vergonha e aceitar tudo que nos dizem”.
Jakeline Lima, apoiada no “Programa Já É: Educação e Equidade Racial”
Foi a falta dessa educação crítica e empoderadora, que fez Jakeline sofrer racismo dos 7 aos 14 anos no ambiente escolar: “Os alunos zoavam tudo em mim: o meu cabelo, a cor da minha pele, o meu nariz e o meu peso. Essas ofensas afetaram demais minha autoestima, passei a me sentir feia, achar que eu nunca seria amada; passei a não ter mais vontade de sair e ter medo de ser vista demais, queria ficar escondida e chamar o mínimo de atenção possível”.
Mesmo com a saúde mental abalada pelos ataques racistas na adolescência, durante o ensino médio, Jakeline Lima teve contato com o movimento dos estudantes secundaristas, com o teatro e também com o grêmio estudantil. Montou uma chapa com alguns amigos e realizou um trabalho de conscientização, enfrentamento ao racismo, e outras formas de discriminação: “Realizamos a Semana da Alteridade, levando os alunos mais novos para a biblioteca para contarmos as nossas experiências e explicar o porquê não era bom ofender o amigo, além de várias outras questões”,
Hoje no Programa Já É, Jakeline quer cursar artes cênicas e credita ao teatro um divisor em sua vida: “No teatro eu lidei, e sigo lidando, com as questões mais pessoais, passei a trabalhar minha relação com a imagem e transformar minhas dores em criações, juntar minhas dores com as de muitas pessoas e lutar, criar um coro, forte e potente”.
Jakeline Lima: “No teatro eu transformo minhas dores em criações”
Assim, Jakeline Lima faz questão de reforçar a importância da educação como sendo caminho de potencialização e transformação: “Através da educação a gente se enxerga na história e tem orgulho dela, tanto da que escreveram antes de nós, mas também da que estamos escrevendo”, afirma a estudante, também frisando que o Fundo Baobá, através do Programa Já É, tem permitido que outros adolescentes e jovens escrevam a sua própria história: “O Programa Já É, é um desses caminhos que usa a educação para nos devolver, para nos dar perspectiva, para nos fazer acreditar que somos capazes e também para nos mostrar que, quase cem jovens estão juntos e, se apenas um passar na universidade, todos passam, porque representamos a nós mesmos, mas também toda nossa família que muitas vezes não tiveram a mesma oportunidade que nós”.
No dia 9 de setembro, o Fundo Baobá para Equidade Racial divulgou a lista das organizações selecionadas no edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, iniciativa lançada no dia 5 de maio, com apoio do Google.Org, braço filantrópico do Google, e que tem a premissa de apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil.
Ao todo foram selecionadas 12 iniciativas, divididas pelos seguintes eixos:
I – Enfrentamento à violência racial sistêmica II – Proteção comunitária e promoção da equidade racial III – Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes IV – Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial
Entre as organizações selecionadas temos organizações de mulheres negras e que atuam no enfrentamento à violência racial contra as mulheres, aquelas que atuam no enfrentamento ao racismo religioso, outras que dão visibilidade à situação de encarceramento de mulheres negras, organizações quilombolas que atuam na defesa dos direitos quilombolas, sobretudo o direito à terra. Organizações antiproibicionistas, outras que atuam na defesa do direito à moradia para famílias sem teto de baixa; aquelas que congregam familiares e vítimas de violência do Estado e outras que prestam assistência biopsicossocial e jurídica a familiares de pessoas privadas de liberdade.
As organizações selecionadas estão localizadas nas regiões Sudeste, Norte e Nordeste do país, oriundas dos estados de Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Amapá, Pernambuco e Ceará.
O edital contou com três etapas de seleção sendo que, na última fase, as organizações participaram de um painel de entrevistas conduzido por especialistas e membros da governança do Fundo Baobá. As entrevistas foram realizadas considerando o eixo temático escolhido pela organização no momento da inscrição e cada eixo contava com 2 ou 3 entrevistadores(as).
Para a graduanda em direito, monitora das disciplinas de Sociologia Geral e Assessoria Jurídica Popular na FND/UFRJ, também monitora no curso de extensão Promotoras Legais Populares e liderança comunitária na Baixada Fluminense, Thuane Nascimento, ter atuado no comitê de seleção entrevistando as e os representantes de organizações que inscreveram seus projetos no eixo III Proteção Comunitária e Promoção da Equidade Racial, dialoga perfeitamente com a sua área de atuação, desde quando ela entrou na universidade: “Essa lógica da proteção comunitária junto com a promoção da equidade racial tem tudo a ver com o trabalho que eu desenvolvo. Nós sabemos que quando um território está seguro, a pessoa que mora lá se sente segura naquele território. Entendemos que é a comunidade que consegue dar uma segurança e um aporte para a pessoa que está morando ali”.
Segundo Thuane, essa proteção que a comunidade oferece aos seus moradores, de maioria negra e pobre, faz parte do senso coletivo que está enraizado desde a construção desse local: “As favelas, os assentamentos e as ocupações são construídos numa lógica de coletividade. Isso é muito importante, porque na coletividade as pessoas aprendem a respeitar um ao outro e aprendem a proteger um ao outro”.
Thuane Nascimento, graduanda em direito, monitora das disciplinas de Sociologia Geral e Assessoria Jurídica Popular na FND/UFRJ, também monitora no curso de extensão Promotoras Legais Populares e liderança comunitária na Baixada Fluminense
Thuane atuou em um projeto chamado Circuito Favela por Direito, onde ela pôde vivenciar de perto o senso de coletividade existente nas comunidades do Rio de Janeiro: “Em muitas comunidades existe um grupo de WhatsApp para poder falar onde estava acontecendo um tiroteio, para avisar qual lugar que estava perigoso, além dos grupos de WhatsApp entre as mães. Proteção comunitária tem tudo a ver com o território”, afirma.
Quem também atuou no comitê de seleção do edital Vidas Negras, em diálogo com organizações que apresentaram suas propostas no eixo IV: Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial, foi a doutora e mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado; Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio; Coordenadora Geral do NIREMA – Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente – e professora visitante Jr. no African Gender Institute, University of Cape Town, Thula Pires, que também vê ligação entre a sua área de atuação e o eixo em que realizou entrevistas: “O eixo de Reparação é aquele que mais evidencia a necessidade do Estado se responsabilizar pelas violências que (re)produz e, nesse sentido, dialoga muito intrinsecamente com o campo do Direito Constitucional e da Teoria do Estado”.
No eixo IV foram selecionadas três organizações, todas da região Sudeste. Thula analisou e traçou o perfil característico de cada uma: “As organizações selecionadas no eixo IV nos oferecem a possibilidade de incidir em diferentes dimensões na reparação às vítimas de injustiças raciais. Do direito à moradia, em toda sua complexidade, aos desafios da política de drogas e da política prisional, passando pelo racismo religioso, temos distintas e estratégicas áreas de enfrentamento às violências promovidas, sobretudo, pelo Estado brasileiro”.
Thula Pires, doutora e mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado; Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio; Coordenadora Geral do NIREMA – Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente – e professora visitante Jr. no African Gender Institute, University of Cape Town
Ao relembrar a sua atuação no eixo II, Thuane fala dos diferentes perfis das quatro organizações selecionadas que, segundo a própria, deixou a escolha dos projetos ainda mais interessante. Entretanto, ela fez questão de destacar um dos projetos selecionados: “Uma organização da Região Norte que está situada em uma comunidade quilombola e eles queriam expandir o trabalho para dezenas de comunidades, em um lugar que o principal meio de transporte é o fluvial. Eu fico imaginando a dificuldade: já trabalhavam com algumas comunidades e querem expandir ainda mais o trabalho. Isso é de uma importância imensa”. No caso, Thuane se refere à organização selecionada Associação de Jovens Moradores e Produtores Rurais de Santa Luzia do Maranum I (Ajomprom), localizada em Macapá, no Amapá.
Ao lembrar dessa organização, Thuane Nascimento fala sobre as potencialidades dos projetos e das organizações selecionadas; as expectativas em relação às mudanças que poderão ser geradas na sociedade, além da importância da realização do edital Vidas Negras: “Se as organizações conseguem fazer um trabalho tão bom e chegar até aqui, mesmo sem tanto apoio financeiro e sem um apoio de rede, imagina onde que elas vão conseguir chegar com esse apoio do Fundo Baobá? Eu acredito que teremos muitas mudanças, talvez não seja uma mudança como a gente pensa, que vai abranger a todos, porque nem é essa a proposta, mas vai mudar a comunidade local, vai avançar no sentido dela se sentir protegida, se sentir conscientizada e conseguir avançar nas pautas e demandas que elas precisam para poder se manter e produzir em seu território”.
Para Thula Pires, os projetos selecionados têm a potencialidade de produzir impactos importantes na sociedade brasileira: “Não apenas na redefinição e monitoramento de políticas já existentes, como também na possibilidade de ampliarmos as ações de organizações negras em comunidades e grupos historicamente negligenciados pelas políticas públicas. Em tempos de acirramento da violência e da produção da morte em escala, medidas de enfrentamento às injustiças raciais são não apenas bem-vindas, mas efetivamente necessárias”. Ela também faz questão de ressaltar a importância da realização do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça: “através deste edital, o Fundo Baobá cumpre um papel fundamental na viabilização de ações promovidas por pessoas negras no enfrentamento concreto às injustiças raciais. O apoio financeiro para o desenvolvimento das ações, ao ser acompanhado pelo suporte técnico para o fortalecimento institucional, é capaz de preparar as organizações para intervenções futuras e para ampliar o acesso a outros editais e programas. Nesse sentido, atua tanto no fortalecimento das comunidades, vítimas e sobreviventes das injustiças raciais, como na ampliação da capacidade de incidência das organizações negras de promoção da justiça racial”, finaliza.
Rosana Fernandes e Helio Santos lançam um olhar sobre a sociedade brasileira diante do segmento da filantropia para justiça social
Por Wagner Prado
Dois profundos analistas da sociedade brasileira. Ambos com trabalhos que envolvem a observação das movimentações sociais e a influência dos diferentes fatores econômicos no dia a dia das pessoas. O passado de ambos está ligado à formação do Fundo Baobá para Equidade Racial. A historiadora Rosana Fernandes e o administrador e professor Helio Santos falam sobre doações, consciência social, futuro e a atuação do Baobá dentro desses contextos.
Rosana Fernandes é formada em História pela Universidade Católica de Salvador e faz parte da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), onde atua no Setor de Projetos e Formação. A CESE foi criada há 48 anos e sua atuação está voltada para a defesa e garantia de direitos das pessoas no Brasil. Essa defesa de direitos é motivada por questões de injustiças e desigualdades tão presentes no cotidiano dos brasileiros. A CESE foi criada pela união de várias igrejas cristãs.
Helio Santos é doutor em Administração e mestre em Finanças. O doutorado foi obtido na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Atuou como professor na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e Universidade São Marcos. Atualmente é professor convidado na Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
O ano de 2022 será de transformações políticas no Brasil. A eleição poderá mudar o ocupante do cargo de presidente da República, além de 27 governadores de Estado. Com certeza, novas diretrizes serão adotadas, e elas sempre impactam todos, principalmente os cidadãos e cidadãs comuns. O país encontra-se entre as 19 maiores economias do planeta, mas isso não é visto como positivo em relação à política por equidade racial e o incentivo a doações. “Por mais de uma década o Brasil esteve entre as dez maiores economias do mundo. Então, até um dia desses estávamos junto com China, Japão, Alemanha, Estados Unidos e Canadá. Ao mesmo tempo, estivemos também no banco dos mais desiguais. Se quando estávamos entre os dez mais ricos, sempre houve uma escassez de recursos, o que dará uma vantagem para nós não é essa colocação do Brasil em 19º lugar, esqueça dela, e sim a mudança da sociedade”, disse Helio Santos.
Helio Santos, doutor em Administração, mestre em Finanças e professor convidado na Universidade do Estado da Bahia (Uneb)
Rosana Fernandes é ainda mais reticente ao analisar a tão propalada posição brasileira no ranking da economia mundial. “ Eu questiono muito os índices de crescimento econômico, quando analiso o desemprego e o subemprego. A Pandemia trouxe um número muito grande de pessoas em situação de rua. Está havendo uma migração para cidades menores para se ter uma garantia de vida. Mas não há políticas públicas para a garantia de um lugar de qualidade de vida e de melhoria de vida para essa população. E a fome aumentou. E quem está passando fome? A gente sabe que a fome tem cor”, falou a historiadora.
Mudanças de consciência e engajamento das pessoas em causas que favoreçam populações em situação de vulnerabilidade não acontecem de uma hora para a outra. Mas uma cultura que leve a isso deve ser apoiada, mesmo que a mudança venha de forma lenta. “Se a pessoa acredita e pensa numa sociedade justa, colocar recursos financeiros no Baobá, que luta pelo enfrentamento ao racismo, significa você querer um outro Brasil, uma sociedade melhor. O apoio ao Baobá é fundamental para equilibrar a balança um pouco mais a favor da maioria nesse país. E a maioria é negra. Quem quer fazer a diferença deve colocar recursos no Baobá”, disse Rosana Fernandes.
Iniciativas como as que o Fundo Baobá empreende no ecossistema filantrópico com seus editais voltados para o apoio a comunidades quilombolas, para o acesso de jovens negres à universidade e incentivo ao empreendedorismo estão modificando o pensar sobre engajamento social. “A filantropia racial hoje é o tema da sociedade brasileira. O Fundo Baobá tem muito a ver com isso, porque ele é o primeiro fundo criado com essa vertente e organização. A missão dele é exatamente transferir e fomentar recursos para as organizações negras. O Fundo Baobá tem uma responsabilidade direta nessa mudança. Isso é resultado do esforço da sociedade civil, da qual o Baobá faz parte. E hoje se entende o investimento social como uma mola para o desenvolvimento com sustentabilidade. Então, a vantagem de se doar para o Fundo Baobá é você investir no segmento da equidade racial”, define Helio Santos.
A fidelização, palavra muito usada no segmento corporativo, é o grande desafio para o Fundo Baobá e para o segmento da filantropia para equidade racial, no entender de Rosana Fernandes: “Precisamos ter um discurso direto e respostas objetivas. Mas este é o grande desafio. Como atrair voluntários doadores? Acho que a capacidade de dialogar com a sociedade é que talvez nos dê a independência e a autonomia necessárias. Se a gente trouxer a sociedade para o enfrentamento ao racismo, a gente pode estar trazendo a fidelização para uma estrutura”, afirmou.
Rosana Fernandes, historiadora e integrante da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço)
O Baobá trabalha com a empatia. Analisa os movimentos da sociedade brasileira e faz a escuta sobre as necessidades das populações menos favorecidas. Neste período de Pandemia da Covid-19, essas carências ficaram muito evidenciadas. Hélio Santos analisa: “Solidariedade e generosidade. São elas que permitem sentir a qualidade de uma sociedade. Às vezes, a solidariedade e a generosidade estão acima da própria ética. É arriscado dizer isso, mas muitas vezes tenta-se estruturar ética onde não há nem solidariedade nem generosidade. Essas duas características são eminentemente humanas. Elas são o resultado da empatia e da capacidade que se tem de estar no lugar do outro. Eu hoje meço a qualidade de uma sociedade não só pela renda per capta, não só por parâmetros econométricos. Eu meço pela capacidade que ela tem de produzir empatia. Pela capacidade de estar no lugar do outro. O homem pode, a partir do seu corpo masculino, entender o que significa para uma mulher o estupro. Uma pessoa branca pode muito bem entender o que é a pessoa ser discriminada pelo exclusivo motivo de ser negra, da mesma forma que uma pessoa que tem posses pode muito bem se posicionar e se colocar na situação desses 19 milhões de brasileiros que acordam pela manhã sabendo que não terão ao longo do dia como se alimentar. Então eu acho que radicalizar na empatia é fundamental, é uma forma de demonstrar a qualidade de uma sociedade. Mas que qualidade? A qualidade moral”, declarou.
No dia 25 de julho é celebrado no país o Dia da Mulher Negra. A data foi instituída no ano de 2014, juntamente com o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18. A história conta que, sob a sua liderança, a comunidade do Quariterê, que abrigava mais de 100 pessoas, com destacada presença de negros e indígenas, resistiu à escravidão por duas décadas.
Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18
Para a doutora em História, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escritora e liderança apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, Giovana Xavier, o dia 25 de julho é uma data muito importante porque oficializa o direito humano e o dever patriótico de celebrar a história de mulheres negras, além de suas ideias, emoções e projetos políticos: “Aprendi com a professora Ida Mara Freire um saber precioso: ‘ao celebrar saímos do automático’. Assim, o 25 de julho é o desvio de um olhar automático de inferioridade e objetificação para um olhar vivo, essencial para a missão de restituir a humanidade negada a mulheres negras pelo Estado brasileiro”.
Giovana acredita que este novo olhar impacta todos os grupos raciais: “Pois ao enxergar mulheres negras pelas vias do brilho, criatividade e protagonismo, transformamos positivamente as relações de ensino-aprendizagem, pesquisa científica, relações pessoais e política institucional”.
Giovana Xavier, historiadora, doutora em História, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escritora e liderança apoiada do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco
Entretanto, em um país com 56,4% da população autodeclarada negra (preta e parda) e onde as mulheres negras representam 27,8% da população brasileira (IBGE), ainda há um longo caminho para inserção deste grupo em espaços de poder e tomada de decisões. Giovana acredita que a figura e a história de Tereza de Benguela seja inspiração para outras mulheres negras: “Quando pensamos que, apesar dos indiscutíveis avanços, mulheres negras permanecem sub-representadas em espaços estratégicos de decisão como a ciência e a política institucional, a sua história é inspiradora, pois alude literalmente ao fato de que nossos passos vêm de longe.”
Para explicar a grandeza de Tereza de Benguela, Giovana faz questão de recorrer à reflexão feita pela assistente social e coordenadora geral da Ong Criola, Lúcia Xavier, sobre “sujeito político, mulher negra”: “Tereza é a materialização deste sujeito político, pois definiu nos próprios termos os sentidos de ser mulher e negra. Sentidos estes ligados à autonomia, coragem, governança, que foram combustíveis para colocar em prática o sonho da liberdade para a comunidade negra no Quilombo do Quariterê em Mato Grosso no século 18”.
História não contada
No ano de 2003, foi instituída a lei 10.639, que inclui no currículo oficial da rede de ensino do país a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Porém, mesmo com essa lei, histórias de mulheres negras como Tereza de Benguela, Maria Felipa, Dandara dos Palmares, Luísa Mahin, entre outras, seguem desconhecidas. Para a historiadora Giovana Xavier, existe uma grande diferença entre história desconhecida e história não contada: “As histórias destas mulheres podem até não ser contadas associadas aos seus nomes nos espaços formais de educação, o que, sem dúvida, é uma grande injustiça. Mas para expandir os horizontes, também é importante considerar que seus legados fazem-se presentes na maioria das famílias das classes trabalhadoras brasileiras, chefiadas por mulheres negras que mantêm viva a tradição de liderança em casa, ativismo político em comunidades, criação de definições de cuidado e maternidade, alinhados às suas experiências de vida e leituras de mundo.”, finaliza.
O nascimento do Dia da Mulher Negra no Brasil e a concretização da Marcha das Mulheres Negras
É importante ressaltar que o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído e celebrado no Brasil desde 2014, é inspirado no Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. O reconhecimento desta data surgiu após o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas realizado entre os dias 19 a 25 de julho de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, no qual levaram ao evento discussões sobre os diversos problemas e alternativas de como resolvê-los. A partir desse encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas.
Quem participou deste encontro em Santo Domingo foi a historiadora, mestre em Educação, coordenadora executiva do Odara Instituto da Mulher Negra e do Fórum de Promoção de Igualdade Racial (FOPIR), também secretária-executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Valdecir dos Santos Nascimento, que faz questão de frisar a principal motivação da sua participação e de outras mulheres negras brasileiras neste encontro: “Nós nos organizamos em 1992 e fomos à Santo Domingo para protestar contra as celebrações dos 500 anos do Descobrimento da América. Nós somos um movimento em ressonância ou consonância com toda a conjuntura local, nacional e internacional. Portanto, a nossa participação não foi apenas por uma incidência contra a violência doméstica ou até mesmo contra o racismo, mas sim uma incidência contra um modelo que escravizou e colonizou os povos da América e os povos africanos que foram trazidos para cá”.
Valdecir dos Santos Nascimento, historiadora, mestre em Educação, coordenadora executiva do Odara Instituto da Mulher Negra e do Fórum de Promoção de Igualdade Racial (FOPIR) e secretária-executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) – Photo: UN Women/Ryan Brown
A Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) começou a dar os primeiros passos nos anos 1990, mas ela se consolidou em 2000, para fortalecer a participação das mulheres negras na 3ª Conferência Mundial Contra o Racismo, organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizada em Durban, na África do Sul, em 2001. “Nós sempre atuamos no Brasil, no entanto não estávamos atuando de forma tão organizada, com uma articulação nacional. A partir deste momento, nós começamos a não apenas pautar questões prioritárias, mas como também a mobilizar esses debates em torno das organizações de mulheres negras no Brasil”, afirma Valdecir.
Para a secretária executiva, o marco histórico da AMNB e um importante acontecimento para potencialização das organizações de mulheres negras, foi a 1ª Marcha das Mulheres Negras, que teve toda a sua articulação em 2013, mas foi realizada no dia 18 de novembro de 2015, reunindo cerca de 100 mil mulheres em Brasília. “A Marcha com sua organicidade e com a sua clareza de quais são os próximos passos que ela vai demarcar, tornou-se um espaço político de qualidade de incidência política e de visibilidade do movimento de mulheres negras.”
1ª Marcha das Mulheres Negras em 2015
Hoje, olhando para trás, vendo a sua participação na 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas em Santo Domingo, que gerou o Dia da Mulher Negra, além da sua atuação na AMNB que anos depois consolida na Marcha das Mulheres Negras, Valdecir enxerga avanços significativos: “Depois de todas essas ações, nós vimos aumentar o número de mulheres negras candidatas a cargos eletivos, o que nos mostra uma crescente. Mesmo que a eleição de 2020 não tenha expressado o número de concorrentes, de uma forma ou de outra você vai perceber que o número de mulheres trans e cis negras eleitas, começa a fazer pressão na sociedade brasileira”. A fala de Valdecir afirma a informação do Tribunal Superior Eleitoral, a respeito das eleições municipais de 2020. Em números totais, 84.418 mulheres negras foram candidatas a vereadoras em 2020, mas apenas 3.634 foram eleitas, representando 6% nas câmaras municipais.
A força da mulher negra
A ativista Angela Davis tem uma famosa frase que diz “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela”, Valdecir faz coro à frase da norte-americana, ressaltando que não existiria movimento negro no Brasil sem a articulação das mulheres negras: “O movimento negro brasileiro é conduzido pelas mulheres negras, não tem como solapar o nosso protagonismo. É o movimento mais organizado no país, porque você tem quase todos os segmentos de mulheres negras organizadas, você tem jovens negras feministas, você tem ialorixás organizadas, mulher trans, além de mídia negra com o protagonismo de mulheres negras, produção literária, entre outras. Então, olhando o Brasil e essa mobilização de sujeitas políticas da nossa própria história, ela ganha cada vez mais força”.
A própria criação do Dia da Mulher Negra no Brasil, no dia 25 de julho, em 2014, Valdecir, atribui a essa força: “O Dia de Tereza de Benguela foi instituído porque o nosso movimento se apresenta como uma força política que precisa ser reconhecida, então essa data é evidência de que nós mulheres negras estamos atuando de forma qualitativa para mudança dessa nação”.
Justamente neste contexto, que a historiadora Giovana Xavier escreveu o livro Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história que, segundo a própria autora, tem a premissa de fazer as mulheres negras pensarem e refletirem sobre suas experiências e organizarem as suas ideias: “Lendo isso, parece óbvio, mas no dia a dia costuma ser desconsiderado uma vez que vivemos em um país no qual vigora uma história única da intelectualidade. Gosto de associar o livro, e todo o meu trabalho científico, à oferta de uma alternativa epistemológica na qual mulheres negras ocupam o centro e conduzem a análise”.
Livro de autoria de Giovana Xavier
Isso faz Valdecir Nascimento relembrar a carta escrita pela organização da Marcha das Mulheres Negras, em 2015, apresentando o evento e mostrando a força da mulher negra: “Na carta nós escrevemos ‘nós não queremos reivindicar, nós estamos generosamente apresentando para vocês as possibilidades de fazer um outro Brasil’. Nós, mulheres negras, apresentamos para o Brasil uma estratégia e uma perspectiva de um outro projeto de nação onde a igualdade e a equidade sejam os pontos que estruturem as relações neste país”, finaliza.
Hoje, dia 31 de agosto de 2021, celebramos pela primeira vez o Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes. A data é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), como forma de relembrar a célebre 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, organizada por ela entre os dias 31 de agosto e 8 de setembro de 2001, na cidade de Durban, na África do Sul.
Celebrando 20 anos na presente data, a Conferência de Durban teve a participação de 173 países e 4 mil ONGs. No final do encontro, dois documentos foram gerados como forma de aplicar políticas públicas de combate ao racismo em todo o mundo: a Declaração de Durban e o Programa de Ação.
3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, organizada, em 2001, na cidade de Durban, na África do Sul
O Brasil esteve presente na Conferência. A sociedade civil negra organizada, em especial as mulheres negras, tiveram papel fundamental. O país não só é signatário de suas resoluções, como compôs a relatoria oficial do evento. Para o doutorando em Saúde Coletiva (PPGSCM/IFF/Fiocruz), mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ), psicólogo, pesquisador da Fiocruz e coordenador do Plano Fiocruz de Enfrentamento à Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeiro, Richarlls Martins, a participação do país na Conferência trouxe avanços significativos: “A Conferência de Durban é um marcador histórico no âmbito global e especialmente aqui no Brasil, trazendo pautas relacionadas à promoção da equidade racial e de enfrentamento ao racismo”.
Richarlls Martins, doutorando em Saúde Coletiva (PPGSCM/IFF/Fiocruz), mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ), psicólogo e professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Algumas das pautas defendidas pelo movimento negro no final dos anos 80 e na década de 90 foram reforçadas em Durban e convertidas em políticas públicas: a utilização do critério de autodeclaração de cor/raça nos censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e as políticas afirmativas para inclusão de pessoas negras no ensino superior, como o sistema de cotas em instituições públicas e o Programa Universidade para Todos (ProUni). Com a visibilidade estatística, cuja importância foi tão ressaltada na Conferência Mundial, sabemos hoje que a maioria da população brasileira é negra, representando 54,6% e que, em 2018 negros passaram a representar 50,3% dos estudantes do ensino superior da rede pública.
A premissa do documento é desconstruir culturas de negação, desmantelar o racismo sistêmico e acabar com a impunidade para as violações dos direitos humanos por parte de agentes policiais. O Brasil é um dos países que mais tem mortes de pessoas negras por policiais, o próprio relatório cita um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública no qual a taxa de mortalidade em 2019, devido a intervenções policiais, foi 183,2% maior para pessoas afrodescendentes do que para pessoas brancas. O mesmo estudo foi realizado em 2020 e mostrou que 78% dos mortos pela polícia eram negros.
O relatório da ONU ainda cita os assassinatos de Luana Barbosa dos Reis Santos, que foi morta na frente do seu filho de 14 anos, na cidade de Ribeirão Preto (SP), e do jovem João Pedro Mattos Pinto, que foi assassinado dentro de casa em uma ação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (SP).
Luana Barbosa dos Reis Santos e João Pedro Mattos Pinto
Segundo Richarlls, tudo se trata de um processo histórico de violação de direitos: “Tivemos avanços significativos em algumas áreas setoriais, mas a grande dificuldade desse processo se dá na temática de garantia de direito à vida da população negra. Tudo isso está enraizado no processo histórico de violação dos direitos da população negra, a partir de um processo secular de escravização, que ainda quer permitir o flagelo sobre o corpo negro”. Inclusive, Richarlls faz questão de mencionar que o momento político e econômico atual, além da grande crise sanitária, derivada da pandemia do novo coronavírus, impactou diretamente na vida da população afrodescendente brasileira: “Nos últimos três anos nós tivemos um retrocesso, começando pela perda do ministério da igualdade racial, havendo uma defasagem no âmbito da governança das políticas públicas. Hoje nós temos uma ampliação da extrema pobreza na população negra, além do aumento de desemprego e da violência letal contra afrodescendentes”.
Por reconhecer os impactos do racismo na vida e no desenvolvimento de afrodescendentes, a ONU instituiu de 2015 até 2024 a Década Internacional de Afrodescendentes, sendo uma ocasião para promover maior conhecimento, valor e respeito às conquistas da população afrodescendente e às suas contribuições para a humanidade, além de promover o respeito, proteção e a concretização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, conforme reconhecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Década Internacional dos Afrodescendentes: 2015-2024
Richarlls diz que é preciso aproveitar essas ocasiões para trazer visibilidade para a luta afrodescendente: “O nosso país precisa ser alvo de solidariedade global. Especialmente no que diz respeito à pauta de ampliação e defesa dos direitos da população negra”.
No dia 26 de agosto, aconteceu o evento virtual que discutiu os “Impactos da COVID-19 e a filantropia para a justiça social no Brasil”, que também marcou o lançamento da Aliança Entre Fundos, uma iniciativa surgida a partir da mobilização comunitária pela justiça racial, social e ambiental, propondo um novo modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil: a filantropia colaborativa para a justiça social.
Integram esta iniciativa inédita o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental. Juntos, os três Fundos irão fazer um aporte inicial de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais. A grande novidade é o modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil. Esta é a primeira vez que três Fundos se reúnem para promover o maior aporte de recursos diretos para os povos indígenas e as comunidades quilombolas mais vulnerabilizadas pela pandemia.
O Fundo Baobá, que celebra dez anos de atividades em 2021, é o primeiro e único Fundo no país dedicado à promoção da equidade racial. A organização realizou no ano de 2020, cinco editais inseridos no contexto da Covid-19, entre eles o “Apoio Emergencial para Ações de Prevenção ao Coronavírus”, que apoiou 350 projetos (215 de indivíduos e 135 de organizações) de comunidades vulneráveis, mulheres, população negra, idosos, povos originários e comunidades tradicionais. Acerca das comunidades quilombolas, este edital apoiou 17 iniciativas de organizações quilombolas e 16 projetos de pessoas que moram em quilombos.
O Fundo Brasil Direitos Humanos é uma fundação independente e sem fins lucrativos, formada no ano de 2006 e que atua promovendo o respeito aos direitos humanos no país, criando mecanismos sustentáveis, inovadores e efetivos para fortalecer organizações da sociedade civil e para desenvolver a filantropia de justiça social. No dia 8 de abril, a organização lançou o edital “Fundo de Apoio Emergencial: Covid-19”, que atendeu 271 pedidos de organizações, grupos e coletivos que atuaram no enfrentamento às consequências da pandemia junto às suas comunidades.
O Fundo Casa Socioambiental é uma organização que atua desde 2005 e busca promover a conservação e a sustentabilidade ambiental, a democracia, o respeito aos direitos socioambientais e a justiça social por meio do apoio financeiro e fortalecimento de capacidades de iniciativas da sociedade civil na América do Sul. As suas ações voltadas para o combate da Covid-19 resultou em uma série de parcerias, principalmente em defesa dos povos indígenas, diante do contexto pandêmico, como a campanha do “Fundo de Emergência da Amazônia”, que foi criada justamente para canalizar fundos diretamente para as comunidades indígenas que enfrentam o novo coronavírus na floresta amazônica.
A Iniciativa da Aliança entre Fundos foi impulsionada pelo reconhecimento da atuação e do protagonismo dos povos indígenas, da população quilombola e das organizações de base comunitária diante da pandemia da COVID-19. Antes individualmente e agora unidos, os Fundos atuam na construção de convocatórias para o apoio a ações de grupos, organizações e/ou indivíduos que visem enfrentar os impactos da pandemia.
Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, salienta a importância da aliança inédita entre os três Fundos, ao atender diretamente as comunidades mais vulneráveis: “Decidimos nos voltar para essas comunidades de povos tradicionais, que têm mais dificuldade para acessar esse tipo de recurso. E também resolvemos trabalhar juntos nessa operação por causa da pandemia. Há muitos recursos, mas também muita disputa por eles”.
Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial
“A luta por direitos é coletiva e, portanto, incentivar e viabilizar o trabalho em rede no campo dos direitos humanos é uma estratégia central na atuação do Fundo Brasil”, diz Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos. “Por isso, faz muito sentido para nós que as fundações criem metodologias de apoio conjunto às organizações e grupos ativistas. Essa é uma parceria que fortalece todas e todos nós.”
Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos
Já a fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa Socioambiental Maria Amália Souza, afirma que a organização nasceu e sempre funcionou a partir de alianças, parcerias e uma enorme rede de confiança. “Para atuar em territórios complexos e levar recursos para as mãos dos verdadeiros guardiões planetários, é preciso trabalhar junto. Portanto, a Aliança entre Fundos é uma realização importantíssima, pois viabiliza uma coordenação ímpar no campo da filantropia para a justiça social, onde trabalharemos de forma coordenada para ampliar nosso impacto coletivo na sociedade como um todo”.
Maria Amália Souza, fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa Socioambiental
Os editais de cada uma das instituições que compõem a Aliança Entre Fundos, serão lançados em Setembro.
No mês de julho entrevistamos duas líderes quilombolas: Selma Dealdina, secretária executiva da Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e Luiza Cavalcante Santos Dias, do Sitio Agatha, na Zona da Mata, em Pernambuco. Uma conversa rica, de muito aprendizado sobre a vida nos quilombos. Nesta edição, a conversa será com o Jhonny Martins de Jesus, quilombola com origem na comunidade de Furnas do Dionísio em Jaraguari/MS e que atualmente reside no Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI), estudioso da vida nos quilombos, outra importante figura entre essa rica comunidade
Quais as principais reivindicações da comunidade quilombola hoje? Acesso à terra (titulação), educação, saúde com o enfrentamento ao COVID e vacina para todos/as quilombolas. Apoios com projetos que gerem renda e emprego nos quilombos.
Que barreiras impedem chegar a essas reivindicações? O racismo estrutural e institucional e o sucateamento das políticas públicas são algumas das barreiras impostas aos quilombolas. O Estado brasileiro, com suas estruturas e posturas racistas, é um entrave, uma vez que a política quilombola é vista como uma política de governo e não de Estado. Para atender a algumas poucas reivindicações exigidas pelo movimento quilombola, precisamos recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), como foi o caso recente do COVID em territórios quilombolas.
Jhonny Martins de Jesus, liderança quilombola no Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI)
Como está a questão do não reconhecimento das terras quilombolas? Nossa maior reivindicação é a titulação dos territórios quilombolas. São 1.767 processos no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). São 2.819 quilombos certificados e 3.475 quilombos identificados no Brasil. A CONAQ estima que existam no país 6.300 quilombos. São 134 territórios quilombolas titulados; 47 territórios quilombolas parcialmente titulados. Sem a garantia definitiva dos nossos territórios, continuaremos a sofrer com as violações do Estado brasileiro.
Você se considera um estudioso da vida e da cultura quilombola? Sou um estudioso da vida e da cultura quilombola e também sou um agricultor quilombola.
Que ensinamentos o modo de vida quilombola pode trazer para homens e mulheres neste quase ¼ do século 21? Aprendemos com nossos ancestrais a lutar pela garantia dos nossos territórios, a viver em coletividade, cuidando da terra, da água, das pessoas que no quilombo vivem, guardando os conhecimentos ancestrais. A prendemos a lidar com as plantas medicinais, a produzir e manter a cultura e a tradição quilombola, mas também a fazer o enfrentamento ao racismo, que em pleno Século 21 precisamos denunciar, numa sociedade que viola os corpos negros, que não titula os territórios quilombolas. Vivemos numa reflexão mútua em aprender e ensinar sobre nosso modo de viver e fazendo com que a sociedade conheça a história do Brasil. Para isso, precisam saber que ainda existem sim, quilombos neste país.
Quilombo Salinas, em Campinas do Piauí (PI)
No contexto da Pandemia, os quilombolas deixaram de ser priorizados? No dia 9 de setembro de 2020, a CONAQ, juntamente com entidades que apoiam a luta quilombola, e partidos políticos, protocolou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 742 (ADPF), que reconheceu o direito à implementação de medidas específicas para combate à COVID, diante da vulnerabilidade social das comunidades, agravada pela pandemia. Isso não se restringiu à vacinação, mas também a materiais de higiene; promoção de testagens; logística para acesso a leitos hospitalares; garantia do acesso à alimentação; à água potável e falta de efetivação do direito à terra. Esses foram alguns dos elementos abordados pela ADPF.
No dia 5 de agosto, estreou nos principais cinemas do país o filme Doutor Gama, que narra a trajetória de Luiz Gama, líder abolicionista. A vida de Luiz Gama já foi abordada pelo Fundo Baobá em uma matéria especial, mas é importante salientar que Gama foi uma figura importantíssima para a modernização da Comunicação no país. No ano de 1864, o advogado e jornalista fundou o primeiro jornal ilustrado humorístico da capital paulista, o Diabo Coxo, considerado algo inovador para a época.
Diabo Coxo – Jornal ilustrado idealizado por Luiz Gama
Para Edson Cardoso, jornalista, mestre em Comunicação Social, doutor em Educação e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, há um grande apagamento da história de pessoas negras que contribuíram para o avanço da Comunicação no país, assim como foi Luiz Gama: “José do Patrocínio, outro grande nome do século XIX, é considerado um dos maiores jornalistas que o país conheceu”, relembra Edson. “Mas, além dos indivíduos que se destacaram por seus méritos numa realidade adversa e hostil, há uma imprensa negra vinculada ao coletivo de associações e entidades, que diz respeito aos esforços de organização política”, completa.
José do Patrocínio, jornalista e abolicionista
Foi justamente com a premissa de valorizar e preservar a memória negra brasileira, que nasceu das mãos de Edson Cardoso o Irohin, que surgiu no ano de 1996, como um jornal impresso e hoje é um centro de memória e documentação da história negra, além do projeto de uma biblioteca. O nome Irohin é uma palavra de origem Iorubá que significa notícia. O seu criador considera o Irohin um projeto de maturidade: “Antes do Irohin, eu editei o Raça & Classe e o Jornal do MNU (Movimento Negro Unificado), ambos tabloides. Na revista da UnB (Universidade de Bahia), Humanidades, eu era um faz-de-tudo, com o nome três vezes no expediente, e sou também o editor convidado em 1988 para o número do Centenário da Abolição”, sendo que neste último, Edson contou com a colaboração de Lélia Gonzales, Luíza Bairros, Helena Teodoro, entre outras personalidades negras. “No Irohin, tive oportunidade, finalmente, de coordenar um projeto que envolveu muita gente jovem talentosa, num momento de enfrentamento decisivo como foi a luta pela legitimidade das ações afirmativas. Eu já tinha o mestrado em Comunicação, mas a minha aprendizagem foi lenta e acidentada, fora da escola. O projeto de valorização da memória era, em princípio, valorização da memória do Irohin”, conta Edson, que também afirma que aos poucos vai incorporando outras dimensões no projeto.
Edson Cardoso, jornalista, mestre em Comunicação Social, doutor em Educação e membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá
Quando se fala em resgate de memória, automaticamente pensamos em personalidades renomadas, porém Edson salienta a importância de registrar e contar memórias de pessoas comuns: “é justamente no cotidiano das nossas comunidades que vamos encontrar o rico patrimônio de uma cultura de resistência e continuidade que enfrenta os obstáculos a nossa participação econômica, social e política”. Edson usa como exemplo a história do Valdir Macário, um cabeleireiro que foi brutalmente assassinado em 2016, em seu local de trabalho, em Salvador: “Valdir era referência comunitária importante, uma perda inestimável. Exatamente por isso que eu tenho insistido, em várias intervenções, de que nós devemos valorizar mais as estratégias de sobrevivência utilizadas pela população negra. Sempre estivemos por nossa própria conta, sobrevivemos por nossa própria conta. Os recursos públicos, as políticas públicas, seletivas e orientadas pelo racismo, foram responsáveis pelo aprofundamento das desigualdades raciais. Portanto, é preciso que retornemos à nossa comunidade, sempre. Para nos convencermos de que nada nos é impossível.
Valdir Macário, “Valdir Cabeleireiro”, assassinado em 2016 na Bahia
157 anos depois da fundação do primeiro jornal ilustrado, pelas mãos de Luiz Gama, hoje temos um avanço significativo de pessoas negras na Comunicação. Se por um lado celebramos a presença da jornalista Maju Coutinho como âncora do jornal com maior duração da emissora mais popular do país, Edson faz questão de frisar que no país dos 56,4% da população negra, segundos dados do IBGE, a TV brasileira se comporta como um selo colonial: “Quando você examina um selo de Angola e Moçambique emitidos por Portugal, que era a matriz colonial, a imagem representada no selo era portuguesa. Angola e Moçambique, invisíveis, eram representados por imagens portuguesas, com despudor e arrogância”, diz o jornalista que ainda cita Muniz Sodré para concluir o pensamento: “Ele disse que a TV brasileira, para o negro, era como o espelho para o vampiro. Não reproduzia sua imagem, tal qual como os selos coloniais”, completa.
Mesmo que a representatividade seja pequena, Edson Cardoso acredita que é importante valorizar todas as conquistas: “Quando falamos em avanço, falamos em pequenas mudanças nesse quadro de violência brutal. Há um longo e tortuoso caminho ainda a ser percorrido, mas todos os passos são importantes. Mesmo os vacilantes e trôpegos, o importante é que a direção é correta”.
Edson ressalta, entretanto, que existem muitos veículos de comunicação e que não podemos ficar limitados apenas à grande imprensa: “Temos que nos debruçar também sobre um rico e diversificado acervo: o frente-e-verso, o panfleto, o informativo, a precária e sofrida edição única, os cartazes. Têm um sentido coletivo, de intervenção política, que nos interessa muito”.
Por fim, Edson, que seguiu a profissão de jornalista tendo como exemplo o pai que era tipógrafo, acredita que o essencial para a juventude negra que quer trilhar no caminho da Comunicação é se engajar no esforço coletivo que atravessa gerações: “Tenho esperanças de que a produção intelectual e o avanço das pesquisas conduzidas por intelectuais comprometidos trarão mais luz para os embates que travamos no campo decisivo da Comunicação”.
Martha Rosa, professora e doutora em História, e Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do fundo, falam sobre o tema
Por Wagner Prado
A comemoração dos 10 anos de atividades do Fundo Baobá para Equidade Racial coloca, à equipe de governança da instituição, questionamentos. Alguns deles: Como serão os próximos 10 anos? Como expandir? Como ser a melhor opção para os doadores? Como será a atuação política? Internacionalizar-se ou manter-se local?
Algumas dessas questões foram colocadas para a historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Martha Rosa Queiroz, e para o presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey. Para se ter o olhar no futuro é importante se voltar para o passado, talvez a maior fonte de aprendizado visando um bom planejamento.
O primeiro aspecto abordado por ambos é quanto aos próximos desafios para o Baobá. Para a professora Martha Rosa, ter forte presença nas capitais e cidades do Nordeste é tão fundamental quanto ter voz atuante a partir de estados nordestinos, notadamente alguns dos quais as populações mais sofrem com questões de desigualdade econômica no Brasil. “O mais importante é se firmar como uma voz política em defesa da equidade racial e do combate ao racismo e efetivar sua inspiração primeira de falar a partir do nordeste.” Para Giovanni Harvey, o foco está na maior capacidade e independência de atuação do Baobá. “Acho que o desafio que nós temos, nos próximos dez anos, é alcançar a cifra dos R$ 250 milhões de balanço patrimonial para que o Baobá possa ter, de fato, capacidade de incidência maior. Nós podemos dizer isso, sem prejuízo do avanço institucional e sem prejuízo da necessidade de fazer esse debate”, afirma.
Mas mesmo sem ainda ter alcançado a cifra desejada em termos de doações recebidas, que hoje estaria na casa dos R$ 30 milhões, o Baobá já seria, com 10 anos de existência, uma instituição consolidada? Martha Rosa Queiroz afirma que sim: “Do ponto de vista organizacional, sim. Somos uma instituição bem estruturada e com princípios definidos. Concebendo a consolidação como um processo constante, o Baobá está consolidado para perceber, analisar e atender as demandas, que são muitas e atualizadas cotidianamente”, diz.
Martha Rosa, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
O presidente do Conselho Deliberativo tem a sua própria visão: “A consolidação ainda não foi alcançada. Nós temos um aspecto institucional, esse aspecto institucional está ligado ao desenho do Baobá, sua governança, as funções que são necessárias para que o Baobá possa cumprir a sua missão. Existe o segundo aspecto que é o financeiro, patrimonial, que diz respeito ao quanto esse endowment (balanço patrimonial) dá consistência a que o Baobá possa cumprir as suas atribuições e um terceiro aspecto eu chamaria de mais político-institucional. No institucional, temos um desenho evoluído e estamos próximos da consolidação, com uma assembleia geral, um conselho fiscal, um comitê de investimento. Eu diria que nós avançamos bastante nesses dez anos e que sobre esse ponto de vista o Baobá está mais próximo da consolidação do que nos outros aspectos.”
Analisando o Brasil com o olhar progressista, o que se enxerga é um retrocesso em termos políticos, o que não facilita uma evolução para quem, como o Fundo Baobá, trabalha com ações afirmativas. A partir desse cenário, ambos, Martha Rosa e Giovanni Harvey, pensam em como deverá ser o trabalho do Baobá caso o cenário político brasileiro siga inalterado. “Será necessário ampliar alianças com diferentes setores, fortalecer o Movimento Negro e investir em ações de agenda de autossustentação política e econômica”, afirma a professora Martha Rosa.
Giovanni Harvey acredita que a estratégia futura, mesmo nesse momento em que, administrativamente, a política brasileira está passando por um período de ruptura, seja continuar com o mesmo foco no trabalho desenvolvido até aqui. E o motivo é simples: “Não quero dar a esse ciclo de quatro anos da história do Brasil a capacidade de desconstruir o que foi construído em mais de trinta anos (desde a Constituição de 1988). Eu não reconheço a condição de se evitar que a sociedade civil e a iniciativa privada, mesmo sob este Governo, tomem iniciativas que nunca tomaram na história e que essas iniciativas tenham o peso superior ao que eles (Governo) deixaram de fazer nesse momento. Mas, sem dúvida alguma, estamos diante de uma tentativa de desconstrução”, afirma.
Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá
O caminho da internacionalização do Fundo Baobá é inevitável na estratégia de arregimentar novos e importantes investidores e fortalecer a relação com quem já se tem dialogado ou com quem o fundo já atua em parceria.
Finalizando a conversa sobre o olhar para o futuro, Martha Rosa e Giovanni Harvey falam sobre as vantagens de apoiar o Baobá, sendo um pequeno ou grande doador. “Milhões de potencialidades são abortadas sistematicamente no Brasil em função da mentalidade escravocrata que ainda impera no país. Investir em um Fundo que enfrenta essa mentalidade significa abrir horizontes infinitos”, diz Martha Rosa. Giovanni Harvey é contundente: “Não se faz combate ao racismo promovendo o racismo. Então, se eu tenho uma instituição fundada e liderada sob a hegemonia de pessoas negras e outra liderada por pessoas brancas, as duas instituições se propõem a fazer o enfrentamento à discriminação étnico-racial no Brasil, eu vou botar dinheiro na instituição de negros. Então, a condição preliminar, independentemente do ser o Baobá ou não ser o Baobá, é reconhecer o protagonismo das pessoas negras”, conclui Harvey.
Iniciativa reúne Fundos que trabalham pela equidade racial, direitos humanos e sustentabilidade ambiental para enfrentar os impactos da COVID-19 em comunidades tradicionais
Foi lançada nesta quinta-feira (26/08), em um evento online, a Aliança entre Fundos. Trata-se de uma iniciativa inédita e inovadora de filantropia colaborativa no Brasil. A ação reúne três fundos tradicionais no campo da filantropia social: o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental. O objetivo é ampliar a captação de recursos para fortalecer quilombolas e indígenas no enfrentamento dos impactos da pandemia da COVID-19.
A primeira ação coletiva do grupo será o lançamento de editais, com previsão de abertura das inscrições em setembro. O aporte inicial será de R$ 2,5 milhões distribuídos entre os editais voltados para as comunidades quilombolas e indígenas.
O lançamento da iniciativa foi marcado pela roda de conversa “Impactos da COVID-19 e a filantropia para justiça social no Brasil”. Participaram da Live de lançamento, Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil, e Maria Amália Souza, fundadora e diretora de desenvolvimento estratégico do Fundo Casa. O evento também contou com a participação de David Fleischer, representante da Inter-American Foundation (IAF) para o Brasil e Uruguai. A mediação foi de Fernanda Lopes, diretora de programas do Fundo Baobá.
Evento Aliança Entre Fundos – Sentido horário: Fernanda Lopes (Fundo Baobá), Selma Moreira (Fundo Baobá), Maria Amália (Fundo Casa Socioambiental) e Allyne Andrade (Fundo Brasil)
O encontro abordou questões referentes ao campo da filantropia no Brasil e os desafios para fazer com que os recursos cheguem até às organizações, grupos, coletivos de base e comunitários dos povos indígenas e quilombolas.
Escuta ativa
Ao abrir os diálogos, o representante da IAF ressaltou que a necessidade de ampliar o apoio às comunidades de base foi um dos fatores primordiais para o apoio da IAF à Aliança. Segundo ele, o forte vínculo já estabelecido entre os Fundos e as comunidades quilombolas e indígenas é fundamental para a atuação direta nestes grupos.
“A Aliança entre Fundos aumenta a capilaridade das ações. Principalmente em localidades isoladas, que possuem mais dificuldade de acesso a recursos públicos e ao capital estrangeiro. Além disso, são Fundos temáticos, com forte ênfase em justiça social, que estão trabalhando juntos e trazendo experiências em enfoques diferentes para problemas que afetam toda a sociedade. E segundo, estão concentrando esforços e recursos para apoiar iniciativas locais inovadoras no enfrentamento aos impactos da pandemia”, disse Fleischer. “Outros apoiadores nacionais e internacionais devem investir nessas iniciativas”, afirmou.
David Fleischer, representante da Inter-American Foundation (IAF) para o Brasil e Uruguai
Em 2020, os três Fundos já se mobilizaram individualmente para ações emergenciais a fim de reduzir os impactos da pandemia da COVID-19. As ações incentivaram a aproximação entre os Fundos e fortaleceram o diálogo entre pares para aprimorar as estratégias de promoção da justiça social no país. “Quando do início da pandemia da Covid-19, todos os Fundos, e nós três aqui em particular, iniciamos ações emergenciais. O processo de iniciar editais de ação emergencial nos permitiu ficar ainda mais conectados, próximos, com uma escuta ativa para entender qual era a demanda do campo. Trazemos esta expertise. Por isso, nosso desejo é fazer com que a Aliança se torne mais robusta”, disse Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá.
Allyne Andrade, superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos reforçou este argumento. “Nossa proximidade com o campo faz com que consigamos dar respostas rápidas. Quanto mais pessoas pudermos contar para fortalecer essas iniciativas, colocar dinheiro no campo para fortalecer e apoiar essas lutas, mais impactos positivos teremos”, afirmou.
Também Maria Amália, do Fundo Casa, enfatizou o convite para que novos investidores e filantropos apoiem a iniciativa e destacou que o envolvimento da sociedade é fundamental para defender a vida dos povos tradicionais. “Não é possível, por exemplo, continuar acreditando que os indígenas e os quilombolas devem defender a Amazônia, ao custo da própria vida, sem receber investimentos do Brasil e, dependendo de recursos, de fora do país. O único jeito de proteger a Amazônia e os biomas vitais para o equilíbrio planetário é investindo nessas populações que são os verdadeiros guardiões da Amazônia, um bioma da maior importância para o equilíbrio da vida do planeta”, disse.
Resiliência
Por meio da Aliança entre Fundos, a expectativa é fortalecer a resiliência das comunidades locais e a promoção da justiça racial, social e ambiental. Selma Moreira lembrou que o Fundo Baobá enxergou de perto os efeitos do racismo nas comunidades quilombolas.
“A gente entendeu os efeitos latentes do racismo na estrutura da nossa sociedade. Foi este panorama que nos motivou a entrar na Aliança para atender estas demandas urgentes. E para reconhecer a sabedoria dos quilombolas pelo processo de escuta, com recursos para que as organizações locais tenham protagonismo, liderando seus projetos e soluções para melhorar suas demandas para uma vida plena”.
Já Allyne Andrade, do Fundo Brasil de Direitos Humanos, reforçou que os povos indígenas enfrentam neste momento violações a seus direitos constitucionais de forma ainda mais acentuada.
“Neste exato momento, mais de 170 povos indígenas estão em Brasília marcando posição contra a tese do marco temporal, que pode restringir o acesso destes povos às suas terras ancestrais e está sendo apreciada no Supremo Tribunal Federal”, disse, acrescentando que “estamos assistindo a uma tentativa de apoiar a invasão de terras indígenas, a exploração de recursos naturais, a escalada dos conflitos e da violência contra as comunidades e lideranças indígenas. Por estes motivos, apoiar os povos indígenas é apoiar a defesa e ampliação da própria democracia brasileira”, avaliou Allyne.
Maria Amália, do Fundo Casa Sociambiental, por sua vez, salientou que a instituição foi criada por atores do campo socioambiental da América do Sul que perceberam que os recursos não chegavam aos grupos mais vulneráveis. “Entre os pontos em comum com os parceiros da Aliança está o esforço de compartilhar nossa experiência com líderes sociais dos países vizinhos, o que resultou na criação de quatro novos fundos socioambientais que passam a disponibilizar mais recursos, e de forma coordenada, por toda região. Multiplicar esta experiência colaborativa é fundamental. Queremos inspirar, agregar e estimular outras formas de organização no campo da filantropia social. Sozinho, ninguém resolve tudo”, afirmou.
Foi criado o Comitê Gestor da Aliança entre Fundos, responsável pela captação de recursos para esta iniciativa. Os interessados devem entrar em contato com os seguintes endereços:
A Aliança entre Fundos – surgida a partir da mobilização comunitária pela justiça racial, social e ambiental – propõe um novo modo de atuação no ecossistema da filantropia no Brasil, a filantropia colaborativa para a justiça social.
Composta pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental, a Aliança entre Fundos tem como meta promover maior aporte de recursos diretos para os povos indígenas, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais mais vulnerabilizados pela pandemia da COVID-19.
Juntos, os Fundos irão fazer um aporte inicial no total de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais, com três recortes prioritários: 1) defesa de direitos; 2) resiliência comunitária e sustentabilidade econômica das famílias; e 3) soberania alimentar das populações menos favorecidas no enfrentamento da pandemia causada pela SARS-CoV-2.
Como surgiu
O reconhecimento da atuação e do protagonismo dos povos tradicionais, indígenas e das organizações de base comunitária diante da pandemia da COVID-19 impulsionou os três Fundos, num primeiro momento individualmente, na construção de convocatórias emergenciais de apoio a ações de grupos, organizações e/ou indivíduos em situações de maior vulnerabilidade na pandemia.
A Aliança surge como uma ação estratégica e inovadora no percurso das trocas e diálogos entre os Fundos sobre os obstáculos e aprendizados forjados no fortalecimento da agenda por justiça social durante a pandemia da COVID-19.
Este projeto pioneiro também se estabelece a partir de fortes relações por meio de uma aliança com a base comunitária. E pretende atuar para além deste cenário pandêmico a fim de viabilizar maior resiliência e recuperação de uma autonomia embasada em novos pilares que resultam desta experiência.
Os editais serão lançados conjuntamente pelos Fundos no dia 9 de setembro.