Lideranças negras lutam por representatividade e igualdade de gênero na gestão pública

Apoiadas pelo Fundo Baobá, Monalyza Alves e Clara Marinho lutam para ocupar espaços antes negados às mulheres negras

Por Danielle Souza*

 

Assim como em outros setores da sociedade, as mulheres são sub-representadas na gestão pública. Apesar de serem 52,2% da população brasileira (IBGE) e 52,6% do eleitorado do país, segundo pesquisa realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2020, as mulheres ocuparam apenas 11,5% das vagas no Senado; 15% na Câmara de Deputados Federais; e 15,5% nas Assembleias Legislativas Estaduais. Se analisado por uma perspectiva interseccional, as mulheres negras têm ainda mais dificuldades em alcançar posições de liderança e poder: embora representem 28% da população do Brasil; elas são apenas 2,36% do Congresso Nacional, ocupando 14 das 594 vagas somadas entre Câmara e Senado. 

Na contramão a esses dados, lideranças negras como a historiadora e chefe de gabinete da Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher – SPM da Prefeitura do Rio de Janeiro, Monalyza Alves (RJ), e a administradora e servidora pública atuante na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, Clara Marinho (DF), se destacam na luta pela paridade de gênero e pela representatividade negra na gestão pública. Ambas buscam quebrar barreiras e ocupar espaços historicamente negados às mulheres negras. 

Clara Marinho e Monalyza Alves são algumas das lideranças negras contempladas pela 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

Monalyza Ferreira

 

Clara Maria Guimarães

 

Liderança e luta por direitos

Desde que ingressou na carreira pública, a servidora Clara Marinho atuou no desenvolvimento de políticas sociais, tendo acesso a uma formação sobre as questões raciais no espaço burocrático. Também trabalhou na implementação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que buscava fazer articulação entre a União, estados e municípios e depois passou a atuar como Analista de Planejamento e Orçamento. “Sempre tive interesse em políticas públicas e sociais, em particular, por terem um efeito direto na vida e no usufruto de direitos da população. Hoje, com a minha entrada no Programa Marielle Franco, entendo que tratar de orçamento público e tratar da questão racial são dimensões que se entrecruzaram e se fortaleceram de forma significativa na minha trajetória”, enfatiza. 

Clara afirma ter se inscrito no edital em busca de aprimoramento e conhecimento, propondo um projeto individual para o fortalecimento da sua capacidade de intervenção como servidora pública. “À época eu estava me sentindo muito isolada. A SEPPIR tinha perdido seu status de ministério e eu estava na Secretaria de Orçamento, distante da pauta racial e de gênero. Mas, sentia a necessidade de estudar, aprender, e como a proposta do edital trazia atividades formativas, eu prontamente me interessei”, diz. Além disso, entrar em contato com outras mulheres negras, trocar experiências, ampliar conexões e romper a bolha do isolamento burocrático para desenvolver uma articulação antirracista e antissexista no poder público também foram possibilidades traziadas pelo Fundo através do Programa. 

Para a historiadora Monalyza Alves, sua trajetória como liderança começou ainda na infância, dentro da sala de aula. Com o passar do tempo, suas habilidades foram desenvolvidas e ganharam destaque através da sua atuação no serviço público nas áreas de Direitos Humanos, Igualdade Racial e de Gênero. Destaque para sua participação na implementação de políticas públicas, a exemplo da Casa de Direitos, iniciativa que oferece serviços de acesso à justiça e cidadania para a população em situação de vulnerabilidade socioeconômica do Rio de Janeiro. 

O projeto proposto por Monalyza e contemplado pelo edital do Fundo Baobá foi o “De uma para muitas – Transformação, comunicação e formação em Gestão de Políticas Públicas”, a fim de compartilhar informações básicas sobre gestão pública para iniciantes. “A ideia surgiu da prática profissional, onde lidei com diversas pessoas que não tinham informações sobre a máquina pública, apesar de exercerem cargos nesta”, ressalta. 

 

Atuação na pandemia

Dentre as dificuldades enfrentadas no percurso, as consequências trazidas pela pandemia foram as que demandaram maior esforço. Mãe de duas crianças pequenas, Clara teve que articular as atividades do Programa, o trabalho e a rotina no lar. Ela afirma que ter uma rede de apoio fortalecida em casa foi essencial para que tudo fluísse bem. Alguns cursos planejados também não passaram para a modalidade virtual, necessitando de realocação ao longo do trajeto. Além disso, as atividades do AMMA Psique e Negritude, organização não governamental que atua no enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e sexismo,  também foram de suma importância para o seu desenvolvimento. “A despeito de todas as necessidades, toda a dor que muitas de nós tivemos e ainda temos com a pandemia, as atividades do AMMA propiciaram o encontro, o fortalecimento e a escuta necessária. Sou muito grata por esse tipo de espaço!”, afirma a liderança. 

Por outro lado, para além do período pandêmico, Monalyza destaca como dificuldade a mudança no cenário político provocada pelas eleições de 2020. “A minha meta de público inicial era trabalhar com lideranças que atuavam no âmbito municipal, mas com as eleições, esse público migrou para outras frentes e assim eu tive que readaptar a dinâmica pensada para o desenvolvimento do projeto”, lembra a historiadora. Ela afirma ainda que hoje compreende a possibilidade de ampliar o raio de pessoas atingidas e impactadas por sua iniciativa. 

 

Objetivos alcançados e planos para o futuro

Com o apoio do Fundo Baobá, Monalyza conseguiu alcançar objetivos ainda maiores. Além de concluir a faculdade de História, ela realizou aulas de inglês e adquiriu equipamentos essenciais para aprimorar a sua atuação, como o notebook. “Vi no Fundo Baobá e no Programa Marielle Franco a oportunidade de crescimento individual, alinhada ao compartilhamento de saberes adquiridos na gestão pública”, afirma. 

Dentre os feitos durante o Programa, Monalyza participou de lives e workshops com instituições como: a Ordem dos Advogados do Brasil, o Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ e a Anistia Internacional seccional Natal (RN). Também desenvolveu pesquisa para a elaboração do material didático a ser disponibilizado no projeto; escreveu sobre a temática em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação; além de observar os desdobramentos das eleições municipais e as dinâmicas subsequentes. “Foi possível constatar a ascensão da perspectiva antirracista ao passo do arrefecimento dos setores da promoção da igualdade racial”, diz.

Os planos para o futuro são ainda mais ambiciosos. Monalyza está disposta a continuar atuando no fortalecimento da política pública através do compartilhamento de informações sobre gestão pública com foco na questão racial e de gênero, a partir de marcos históricos e legais. “Quero continuar sendo reconhecida pelo o que faço e alcançar novos espaços na tomada de decisão, sendo referência na área”, ressalta.

Para a historiadora, o sentimento que se sobressai ao longo do processo é a gratidão. “Eu quero agradecer a empatia do Fundo Baobá e parceiros, cuja sensibilidade me manteve viva e com propósito em 2020. Um pouco antes do lockdown pela pandemia de Covid-19, eu fui demitida, e o que me manteve viva, sã e com propósito, foi a garantia de sobrevivência dada pela bolsa do Fundo Baobá. Serei eternamente grata!”, finaliza Monalyza Alves.

Com Clara Marinho não foi diferente. Um dos seus objetivos principais, e que foi alcançado com sucesso através do Programa, foi consolidar sua posição de liderança no poder público federal, estabelecendo-se como uma ponte para o tratamento de demandas das questões raciais e de gênero que estão no contexto da burocracia. Além disso, o apoio do Fundo Baobá também permitiu que ela fizesse atualizações na sua área de atuação com cursos de gerenciamento de projetos, facilitações, desenvolvimento de habilidades interpessoais e de liderança. Além de, melhorar as suas capacidades de comunicação oral e escrita, tornando a linguagem das suas produções mais acessível ao grande público.

Outras metas alcançadas foram a criação de um canal de diálogo e articulação com outras lideranças, organizações e profissionais do setor público. “O Plano de Desenvolvimento Individual me permitiu amadurecer intelectualmente, ora por meio das atividades formativas oferecidas e contratadas, ora por meio do ambiente de reflexão coletivo criado”, afirma.

Dentre os feitos realizados estão: o curso de escrita criativa; gestão profissional das redes sociais; produção de 3 lives; participações em podcasts; publicação de 3 artigos na coluna “Negras que Movem” no Portal Geledés e de um artigo de opinião no Correio Braziliense; e a apresentação de painel sobre Orçamento e Mulheres Negras no Festival Latinidades. Além disso, também houve a participação em debates, a exemplo dos promovidos pela Comissão de Juristas no Combate ao Racismo Estrutural da Câmara de Deputados; e a realização do estudo dirigido para o TOEFL, teste de proficiência em inglês, que foi uma ferramenta facilitadora de acesso ao Fellowship das Nações Unidas para a Década Afrodescendente, ampliando conexões com uma rede internacional de ativistas. Recentemente, Clara também tem conseguido tocar projetos dentro do setor público com temáticas relacionadas à questão racial e de gênero, sendo alocada numa pesquisa relevante para a população negra que avalia a assistência estudantil no ensino superior e profissional.

Os planos para o futuro também voam alto. Clara recebeu convites para realizar apresentações orais junto ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO); aulas agendadas na Unicamp e na Universidade Federal de Alagoas (UFAL); além de textos no portal UOL. Clara também planeja reforçar a sua presença em cursos e seminários voltados para a articulação entre orçamento público e questões de gênero e raça. 

Ao encerrar esse ciclo, Clara Marinho diz sentir-se bastante esperançosa e disposta a fazer muito mais pela sociedade brasileira, por entender que a questão racial é uma questão nacional e que a democracia brasileira depende da cidadania das pessoas negras. “De uma profissional desmotivada e sem saber o que fazer, consegui me afirmar como uma referência no debate sobre orçamento e políticas públicas orientadas para o combate às desigualdades raciais. E isso só foi possível porque houve uma avenida aberta por organizações como o Fundo Baobá e a SEPPIR, que permitiram que o talento pudesse florescer”, conclui a liderança. 

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Comunicação enquanto direito: mulheres negras protagonizam iniciativas de comunicação antirracista e estratégica

Contempladas pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, as comunicadoras baianas Midiã e Danubia desenvolvem projetos transformadores

Por Jamile Novaes*

 

Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabeleceu o direito à comunicação como fundamental. Desde então, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) vem empenhando esforços para garantir que a comunicação seja efetivamente instituída enquanto um direito. Seja através da emissão ou do acesso às informações, ela é crucial para a elaboração, implementação e acompanhamento de políticas públicas e, mais que isso, para a garantia do acesso aos demais direitos humanos. 

Porém, o que tem se notado ao longo da história do Brasil é uma regulação ineficiente da área. As concessões públicas aos veículos de comunicação permanecem, por décadas, nas mãos dos mesmos conglomerados – pertencentes a algumas poucas famílias ricas e brancas. Uma pesquisa realizada pelo Reuters Institute for the Study of Journalism e divulgada em março de 2021, mostrou que não existem pessoas negras no comando de nenhum grande veículo de comunicação no Brasil, apesar de quase 57% da população brasileira se autodeclarar negra (IBGE, 2019). 

Indo de encontro a essa realidade de invisibilização da população negra na mídia brasileira, várias iniciativas ao longo da história lutaram para mudar o cenário, como a imprensa negra. Mais recentemente o avanço das tecnologias digitais e a popularização do acesso à internet, tem permitido que novos veículos e mídias sigam com a luta histórica deste segmento. Um mapeamento das mídias negras no Brasil foi realizado em 2020 pelo Fórum Permanente pela Igualdade Racial (Fopir). Neste cenário, as mulheres negras se destacam: das 65 mídias mapeadas pelo Fopir, 31% eram compostas exclusivamente por mulheres negras. Quanto à sustentabilidade dessas mídias, o estudo revela que a maioria se mantém através de recursos próprios, publicidade, voluntariado e editais. 

E foi justamente através de um edital que as baianas Danubia Santos e Midiã Noelle tiveram a oportunidade de investir em suas formações profissionais e alavancar projetos relacionados à comunicação. Ambas foram contempladas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

Midiã Noelle
Danúbia Santos

 

Danubia é estudante de graduação em Publicidade e Propaganda e, através do financiamento do Programa, pôde voltar à faculdade; participar de cursos e formações online; fazer aulas de inglês e realizar o evento “Julho das Pretas – Arte e Solidariedade”. Seu projeto previa viagens e atividades presenciais que não puderam ser realizadas por conta da pandemia de Covid-19, então parte dos recursos foi destinada para a distribuição de cestas básicas às mães em situação de vulnerabilidade em comunidades periféricas.

Ela contou sobre como o apoio técnico e financeiro do Programa Marielle Franco foi essencial para que conseguisse se capacitar, potencializar suas atuações e ampliar as vozes negras no campo da comunicação: “Dei várias entrevistas, fui um dos destaques na Revista Claudia, fiz muitas lives e até escrevi um livro [Danubia é co-autora do livro ‘Mães Negras – Maternidade Solo e Dororidade’]. É muito satisfatório ser parte disso e me tornar uma referência positiva para a minha favela, principalmente para outras mulheres pretas”, comemora Danubia.

O reconhecimento obtido por meio das suas ações resultou em um convite para coordenar as redes sociais da Central Única das Favelas (Cufa) e a implantação do núcleo Mulheres da Cufa – projeto que visa a reunião de mulheres que protagonizam temas, agendas e ações para a transformação social. Ela explica que “as Mulheres da Cufa vem com o intuito de potencializar ainda mais essas mulheres que muitas vezes estão invisibilizadas em suas áreas para mostrarem suas forças nacionalmente”. As formações do coletivo acontecem através de lives abertas ao público e formações internas entre as participantes.

Danubia entende a comunicação como uma importante ferramenta de engajamento comunitário no contexto das lutas protagonizadas por mulheres negras. “Quando conseguimos mostrar nossas potencialidades, surgem novas oportunidades e uma mulher preta nunca chega só em lugar nenhum. Toda uma comunidade chega junto conosco, pois nós estamos embaixo de tudo e não tem como chegarmos ao topo sozinhas”, afirma.

A jornalista Midiã Noelle também aposta na comunicação como um meio de ampliar as vozes de mulheres negras em suas diversidades e singularidades. Ela explica que é uma importante maneira não só de manifestar percepções, dores e vivências, mas também “as nossas narrativas e as formas possíveis de transformação e de melhoria dos nossos territórios, das nossas vidas, das nossas famílias, dos nossos projetos de vida, das nossas individualidades”.

Foi também pensando no caráter comunitário e numa perspectiva antirracista para a comunicação que Midiã, apoiada pelo Programa Marielle Franco, criou a Commbne, projeto que propõe discutir a comunicação aliada à inovação, raça e etnia. “A Commbne surge com um objetivo, que é promover esse diálogo, esse intercâmbio entre comunicadores e fomentar esse debate da comunicação enquanto direito humano fundamental na perspectiva de gênero e raça numa lógica diaspórica”, explica.

Desde 2020,  a Commbne já atingiu cerca de 500 pessoas com formações em comunicação antirracista e comunicação estratégica pra organizações sociais e atuou em rede com canais como o Notícia Preta, Ong Crioula, Diáspora Black e Afro Resistance. A partir da Commbne e das redes estabelecidas durante o programa de formações, Midiã passou a integrar a Rede de Líderes da Fundação Lemann, Ong que impulsiona pessoas engajadas em resolver questões sociais em todo o território nacional.

Inicialmente, o projeto enviado por Midiã ao Fundo Baobá incluía uma experiência de intercâmbio fora do Brasil para aperfeiçoar as suas habilidades linguísticas e fazer conexões internacionais, o que não foi possível realizar por conta da pandemia de Covid-19. Mesmo com as limitações impostas, Midiã conseguiu ampliar os seus canais de diálogo e as possibilidades de realizar ações em formato virtual: “Eu consegui me abrir para o mundo, realizar formações com diversas organizações que eu fui dialogando e também ampliando meu diálogo com os comunicadores”, relata. 

Apesar das ameaças à liberdade de expressão, apagamentos históricos e culturais e limitação do acesso de pessoas negras à comunicação, Midiã pontua que houve avanços no campo durante as últimas décadas, graças a mulheres negras como: “Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Valdecir Nascimento, Vilma Reis, Nazaré Lima e Fernanda Lopes”. Mulheres  que abriram os caminhos para as comunicadoras negras da atualidade: “Comunicação é fazer o círculo rodar. Quando essas mulheres se movem, a gente se move junto. Quando elas utilizam de ferramentas e métodos de comunicação para disseminar a nossa luta coletiva enquanto população negra, isso também é comunicação”, defende.

 

Planos para o futuro

Após concluir o ciclo de ações propostas para o edital, as comunicadoras já traçam planos para o futuro com perspectiva de expandir suas atuações e continuar desenvolvendo projetos que pautem reflexões sobre a necessidade de uma comunicação popular, negra e antirracista. Danubia pretende continuar a sua trajetória com um trabalho voltado para crianças negras, com o objetivo de mostrar que “podemos e devemos transformar o mundo através do nosso poder de comunicar por nosso lugar”. Já Midiã, tem como foco criar um portal para ampliar as conexões internacionais e discutir comunicação a partir de uma perspectiva afrodiaspórica, chamando também para o diálogo comunicadoras(es) negras(os) não formais.

Diante de um cenário adverso, onde a democratização da comunicação ainda soa distante, iniciativas criadas por comunicadoras negras para socializar as suas demandas, percepções, projetos e estratégias coletivas de luta, têm se mostrado como um caminho possível. Através delas é possível pensar em reapropriação das narrativas sobre negritude, garantia do livre expressar e geração de impactos políticos que afetam diretamente as condições de vida e existência da população negra brasileira. 

“O espaço da comunicação é um espaço de poder, conseguimos transformar vidas e criar consciência através da comunicação. Minha perspectiva é de que nós, pretos e pretas, possamos cada dia mais estarmos ocupando a comunicação”, conclui Danubia.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Mídias Negras e Jornalismo Antirracista: a comunicação como ferramenta de luta e emancipação das mulheres negras

Mulheres negras enxergam na comunicação uma forma de enfrentar as desigualdades geradas pelo racismo

Por Andressa Franco*

 

O racismo está presente nos diversos veículos de comunicação tradicional, e implica não somente na baixa porcentagem de pessoas negras ocupando essas redações, mas também na forma como essas pessoas são representadas na mídia. Trata-se de um fenômeno que exige a presença de mais profissionais negros comprometidos com a luta antirracista atuando neste mercado. E, além disso, que atuem e fortaleçam as mídias negras, segmento que ao longo da história utiliza a comunicação como ferramenta de luta contra o racismo.

Foi com esse objetivo em comum, que Marina Ribeiro Lopes, Jaqueline Ferreira Fraga e Brunna Kalynne se inscreverem no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations  

Os projetos destas comunicadoras tiveram como meta trazer para o foco o papel das mídias negras e a importância da prática de comuicação antirracista. A pandemia mudou os planos, mas estas lideranças encontraram no apoio do Fundo Baobá maneiras de se reinventar e alcançar seus objetivos.

 

Marina Ribeiro
Marina Ribeiro
Jaqueline Fraga
Jaqueline Fraga

 

Brunna Moraes
Brunna Moraes

 

“Comunica Preta”

Desde antes do nascimento oficial da Imprensa no Brasil (1808), negros e negras já utilizavam a comunicação como forma de articulação das lutas pela liberdade. A Revolta dos Búzios (1798) é uma data simbólica para as mídias negras, já que, mesmo em um período onde a imprensa era proibida pela Metrópole portuguesa, a comunicação foi a estratégia utilizada. Boletins manuscritos foram espalhados pela cidade de Salvador, permitindo que a mensagem fosse propagada, dos poucos que eram alfabetizados, para a maior parte da população. 

Foi pensando nas mídias negras como um legado histórico, que Brunna Moraes, de 24 anos, decidiu se inscrever no Programa. O objetivo foi desenvolver suas habilidades como profissional da comunicação e a construção coletiva de um veículo de mídia antirracista no estado de Alagoas. 

“Eu sentia necessidade de escrever no meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] sobre o quanto o curso de jornalismo não aborda a comunicação antirracista, e deveria, porque não é a partir de hoje que existem mídias negras. Desde os tempos da escravização no Brasil existem pessoas negras organizadas dentro da comunicação”, conta a jovem, que é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Brunna também faz parte da Associação de Negras e Negros da instituição, e integra o Instituto do Negro de Alagoas (INEG).

O período como bolsista do Baobá foi turbulento para Brunna, tanto por conta da pandemia, que resultou na reconfiguração do seu planejamento, como também pela descoberta de uma gravidez. Mesmo nesse processo, conseguiu fazer um curso de design, área em que tinha mais dificuldade, além de ter se dedicado ao estudo sobre comunicação negra.

Também foi a partir do financiamento que a estudante pôde comprar seu celular e seu computador, acessando assim oportunidades de trabalho. A jornalista colaborou durante um ano com o portal Notícia Preta, seu primeiro contato profissional com uma mídia negra. Isso a estimulou ainda mais na construção de um veículo nos mesmos moldes no seu próprio estado. 

“Durante o projeto fiz diversos vínculos, consegui formar uma equipe que hoje trabalha comigo no Mocambo Online. Mas, todo mundo tem diversas demandas e é algo que não dá lucro instantâneo. Então, o desafio principal é esse, mas tá rolando”, comenta sobre o projeto de mídia negra que toca em Alagoas.  

Inicialmente, a pretensão de Brunna era promover reuniões, encontros, palestras, viagens para colher histórias, que viriam a fazer parte da produção jornalística e realizar um evento de lançamento do jornal Mocambo Online. Mas, todos esses planos foram barrados por conta da pandemia.

“O principal desafio foi conseguir reunir o grupo que ia fazer parte do Mocambo Online. Eram pessoas que eu não conhecia e convidei através das redes sociais. Até hoje a gente nunca se reuniu presencialmente, tudo que a gente faz é online, mas é algo que a gente foi aprendendo a lidar com o tempo. Hoje eu sou a maior defensora de: se existe a possibilidade de ser remoto, por que tanto fetiche no presencial?”, brinca. 

O cuidado que recebeu das responsáveis pela iniciativa também chamou sua atenção. “As meninas sempre deixavam claro que o financiamento não era apenas de resultados demonstrados em nota fiscal. Mas, que a gente pudesse, de repente, cuidar da nossa pele, da nossa saúde mental, o que achasse necessário para crescer profissional e pessoalmente nesse período. Foi um cuidado muito importante se tratando de mulheres negras”, lembra a estudante, que hoje tem como perspectiva conseguir manter o projeto de maneira sustentável. 

“Aqui em Alagoas é muito difícil, é um estado extremamente oligárquico, as mídias são muito controladas e monopolizadas pela política local de coronelismo. Então, é furar uma situação de que as pessoas almoçam assistindo jornal policial, sabe? É um desafio, mas se ninguém fizer, não dá pra mudar”, completa.

 

“Comunicação Negra: Inspirar, Apoiar e Conscientizar”

Melhorar a comunicação para público em debates, formação, rodas de conversas e em construção de parcerias e captação de recursos era o principal objetivo da pernambucana Jaqueline Fraga, de 31 anos. Ela é jornalista da Folha de Pernambuco, escritora, e também é formada em administração.

Com MBA (Master in Business Administration, pós-graduação na área de gestão e administração) em Comunicação e Jornalismo Digital pela Universidade Cândido Mendes, Jaqueline destaca o apreço pelo estudo como uma de suas principais características. Foi com o recurso do Fundo Baobá que pôde alimentar essa característica, e também atuar em rede com mulheres negras de todo Brasil, o que considera um legado deixado pela iniciativa.

Desde a infância, sua identificação com a escrita se mostrou presente, o que a levou a publicar um livro finalista do Prêmio Jabuti na categoria biografia documental e reportagem: “Negra Sou: Ascensão da Mulher Negra no Mercado de Trabalho”. A jornalista era a única mulher entre os 10 finalistas do prêmio na categoria, e também a única com produção independente. 

O trabalho conquistou menção honrosa na 36ª edição do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. A série de reportagens, antes de se tornar um livro físico, foi agraciada com o prêmio Antonieta de Barros – Jovens Comunicadores Negros e Negras.

Um dos seus desejos é que o livro seja adotado por escolas do ensino básico, mas destaca que, muitas vezes, ser mulher, negra e nordestina é um obstáculo. “Eu valorizo demais e tenho orgulho de ver tantas escritoras negras ganhando o mercado. Mas, às vezes, é como se fosse só aquele pequeno nicho, as pessoas não estão tão dispostas a conhecer pessoas de outras regiões, comprar do novo”, explica. 

A partir do financiamento, Jaqueline conseguiu realizar seu MBA; participou de cursos de marketing digital para auxiliar na divulgação de seus livros; adquiriu equipamentos e livros que atendessem às necessidades do seu trabalho. E, graças à rede com quem teve contato durante o Programa, conheceu outras mulheres com quem criou a Coletiva Negras que Movem, que tem uma coluna coletiva no portal Geledés.

A construção desta rede proporcionada pelo Programa fez diferença no trabalho de Jaqueline. A jornalista já fez entrevistas e escreveu matérias tendo como fontes mulheres que conheceu através do Baobá. “São projetos que querem levar pessoas negras, mulheres negras em especial, para locais que ainda são muito embranquecidos, e isso dialoga muito com o Programa” relata.

Mas, a pandemia também impactou as metas iniciais. Em maio de 2020, o pai da jornalista faleceu, e seus planos precisaram de uma pausa. Alguns ficaram inconclusos, como o curso de inglês avançado que queria fazer de forma presencial e não pôde terminar.

“Sigamos criando e ocupando espaços, porque a gente tem que ocupar os que nos foram negados e precisa criar os que sejam nossos”, é um dos lemas da comunicadora. Ela acompanha o conteúdo produzido pelas mídias negras, e acredita na importância de ocupar as redações tradicionais, para “tentar modificar o sistema por dentro”. 

Tendo ingressado em um jornal tradicional na área de colunismo social, surpreendeu o público ao trazer mais pessoas negras como personagens dos seus textos. Nesse processo, também produziu uma série para o site  Roberta Jungmann, colunista social da Folha de Pernambuco sobre a negritude pernambucana, em que entrevistou personalidades negras do estado que ganharam o mundo nas suas áreas de atuação. 

Quando passou pela editoria de cultura, levantou pautas com escritoras negras da região. Hoje na editoria de cotidiano tenta, ao máximo, trazer pessoas negras como fonte para debater os mais diversos assuntos. De economia à medicina.

“E não são só jornalistas negros que têm esse papel. Deve ser um objetivo da mídia fazer jornalismo pautado no antirracismo” defende. “Eu trabalho muito com histórias de exceções. As mulheres que eu entrevistei sempre são as únicas mulheres negras nos seus espaços. E a gente não quer mais que aconteça dessa forma”.

 

“Vozes Pretas – o poder da comunicação no combate ao racismo”

Já na vida de Marina Ribeiro Lopes, a comunicação se encaixa em outro lugar. O aprimoramento das habilidades como jornalista e comunicadora e a divulgação do trabalho de outras mulheres negras foi seu objetivo ao se inscrever para o edital com o projeto “Vozes Pretas – o poder da comunicação no combate ao racismo”.

Nascida em Santa Maria da Vitória, interior da Bahia, Marina vive há muitos anos em Aracaju, capital sergipana. Dentro do movimento negro organizado, ela fez parte do Grupo Abaô de Capoeira Angola. Também integra a Auto-Organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria, e a diretoria do terreiro Ile Axé Opo Osogunlade. 

Como profissão, ela nunca passou pela área do jornalismo. Atua como bombeira militar, e com auxílio do Programa, agora também está experimentando a carreira de escritora. “Foi bem doido fazer esse projeto dentro de uma pandemia, no meu caso, além da pandemia, uma gestação e um parto, eu tive que mudar algumas coisas”, conta.

A ideia inicial de Marina era trabalhar as habilidades com a comunicação, para iniciar um projeto dentro do Grupo Abaô com crianças e adolescentes negras e negros, a fim de ajudar no desenvolvimento desses jovens. 

“O que atrapalhou mesmo minha comunicação foi ser uma criança negra dentro dessa sociedade. Eu sempre me omitia, não queria aparecer, histórias comuns às pessoas negras, às crianças principalmente”. Mas, por conta da pandemia, o Grupo Abaô perdeu a sede, e pouco depois a comunicadora descobriu que estava grávida. 

O projeto então foi redirecionado. O recurso se voltou para um projeto que Marina já vinha desenvolvendo, o Mercado Negro Aracaju, uma plataforma onde pessoas negras cadastram seus serviços e produtos. “Às vezes a gente quer ir a um médico, a uma costureira, ou qualquer serviço, e queremos dar prioridade às pessoas negras, e não sabemos onde encontrar. É dessa necessidade que surge a plataforma”, relata. 

Com ajuda do Programa, ela conseguiu uma parceria para auxiliar na produção de conteúdo para o site e para as redes sociais da plataforma, o que resultou em crescimento de acessos e de cadastros. A outra ação que Marina desenvolveu, surgiu por acaso, foi o livro QUARTA ÀS 9, que assina como autora, e nasceu da publicação de seus textos no Facebook.

“Eu tinha muita vergonha de mostrar o que eu escrevia, e como minha habilidade a ser desenvolvida era a comunicação e a gente estava na pandemia, eu acabei experimentando escrever e publicar”. Mesmo com medo de se expor, depois do convite de uma pequena editora independente de um casal de amigos da cidade, a IPADÊ – Estúdio Gráfico – Marina aceitou o desafio. Começaram uma campanha de financiamento coletivo e, junto com os recursos do Programa, o livro foi lançado em setembro deste ano. 

“Não sei se tenho dimensão do quanto esse projeto impactou minha vida. Acho que minha maior dificuldade era trabalhar no âmbito individual, porque sempre falei enquanto parte de coletivos. Minha maior transformação foi a coragem de falar que eu não sou somente uma pessoa em um grupo”. 

O foco de Marina hoje é a filha recém-nascida. Mas depois da experiência e da iniciativa de lançar um livro, ela pretende se esforçar para continuar na trajetória de escritora. Tudo isso, afirma, sem abrir mão de tentar colocar em prática seu objetivo inicial, trabalhar com a comunicação de jovens negros através do Grupo Abaô de Capoeira Angola.

 

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Conexão e cura através da arte: um impulso para transformar criativamente as condições opressivas que nos cercam

Três iniciativas contempladas pelo Fundo Baobá têm em comum o objetivo de impulsionar mulheres negras a ocupar espaços culturais a fim de protagonizarem suas próprias histórias

Por Júlia de Miranda*

 

A filósofa norte-americana Angela Davis defende que a arte é uma forma peculiar de consciência social que tem o poder de despertar nas pessoas tocadas por ela um impulso para transformar criativamente as condições opressivas que as cercam. Aqui no Brasil, muito da nossa cultura é oriunda do continente africano: comida, música, a nossa própria língua (o ‘pretuguês’ como chama Lélia Gonzalez), danças e muitas tradições. Conectar arte e ancestralidade negra de maneira responsável possibilita a abertura de processos de cura, pessoais e coletivos.

Projetos voltados para a arte e cultura ancestral foram contemplados na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. 

Os projetos: “Negras e Tecnologia – Produção Musical Enegrecida”, da produtora musical, cantautora e multi-instrumentista Andressa Ferreira, de Porto Alegre (RS); “Meduza a Vez e a Voz Dela”, da pedagoga Renata da Silva, de São Paulo (SP); e “Enegrecendo o artvismo: multilinguagem na luta antirracista”, da produtora cultural de Campina Grande (PB), Carolina Brito; foram três iniciativas que têm em comum o objetivo de impulsionar mulheres negras a ocupar espaços culturais e protagonizar suas próprias histórias. 

Renata Santos

 

Contornando os desafios 

Renata da Silva articulou atividades culturais de capoeira e graffiti, mas com a pandemia os encontros e oficinas aconteceram em sua maioria de forma virtual. Algumas poucas presenciais, com número menor de pessoas e os cuidados necessários de distanciamento social. Já o projeto de Andressa Ferreira surgiu da necessidade de ter mais autonomia nos trabalhos em que participa, e também pela urgência de tornar o ambiente da produção musical menos hostil para mulheres, principalmente as negras e indígenas, cis e trans. “Isso se deve ao fato de que a área do áudio e da tecnologia ainda é dominado por homens brancos cis”, pontua.

O ‘Enegrecendo o Artvismo’, projeto de Carolina Brito, nasceu diante da falta de diálogo sobre a questão racial em sua cidade, no interior da Paraíba. A iniciativa foi baseada num caminho que a produtora já vinha percorrendo há 4 anos desde o seu trabalho de conclusão de curso, o “Enegrecida”. Ele evoluiu e virou atividade formativa e palestra, passou a ser iniciativa social, loja e página de produção de conteúdo. 

Com o apoio do Fundo Baobá, Carolina vivenciou algo inédito, a possibilidade de olhar para si com mais carinho e dedicação: começou uma pós-graduação em História e Cultura Afro-Brasileira e também a psicoterapia. “O desenvolvimento pessoal acabou sendo a principal parte do meu projeto, estamos sempre olhando para fora ao invés de olhar para dentro primeiro e esse foi um ensinamento muito grande que o projeto me deu”, conta a artivista que chegou a ter início de depressão durante o processo e obteve ajuda no Programa. “Fizemos uma série de atividades on-line com mulheres negras sobre saúde mental e turmas de trabalho sobre o pensamento de Angela Davis”, relembra Carolina. 

Adequando o projeto para uma nova roupagem remota e virtual, Andressa conseguiu acessar os conhecimentos em relação a áudio e tecnologia, área onde existem ainda vários desafios por se tratar de um espaço que é majoritariamente branco, masculino e elitizado. Ela comenta que trabalhar com isso requer alto investimento em equipamentos tecnológicos que não são acessíveis para a maioria da população negra, indígena e periférica. “Consegui montar um home estúdio itinerante; ampliei redes; conheci outros produtores (as); fiz cursos de formação; aulas de inglês e dei início a um novo empreendimento voltado para produção musical e inclusão de mulheres negras e indígenas cis e trans na área do áudio e tecnologia: o MAAT, Mulheres Afro-indígenas Áudio e Tecnologia”, elenca Andressa.  

Carolina também financiou cursos de edição de vídeo, investiu em livros, e comprou alguns equipamentos para colocar em prática o conhecimento no audiovisual. A execução do seu trabalho envolveu encontros virtuais para debates sobre raça e também o Slam das Pretas, que contou com a participação de mulheres do Nordeste e poetisas da Colômbia, Moçambique e Angola. 

 

Expectativas e autoestima 

Renata descreve a sua participação no Programa como “um momento mágico” na sua vida. Ela conseguiu ter tranquilidade financeira para se organizar, e estar próxima, mesmo que virtualmente, de outras lideranças. “No decorrer do projeto aproveitei o momento de isolamento social para estudar editais e escrever projetos, um deles veio ao encontro com o triste momento vivenciado em março de 2020. O ‘CapoELAndo na Luta por Direitos Fundamentais’, nos possibilitou auxiliar centenas de famílias com produtos de higiene, cestas básicas e conscientização na região de Sapopemba, no município de São Paulo”, explica Renata. 

O principal objetivo do seu projeto foi alcançado enquanto liderança feminina negra e também no desenvolvimento de atividades culturais, realizadas de forma remota, ligadas ao graffiti e capoeira. Com o apoio do Fundo Baobá, Renata conseguiu  remunerar mensalmente 15 pessoas, e indiretamente dezenas de artistas, agentes culturais, músicos, grupos de capoeira e outros coletivos. 

Para Andressa o período também foi de “grande benção” e muito crescimento e colheita que a ajudou bastante a passar pela pandemia conseguindo visualizar novos horizontes e possibilidades. “Me sinto apta e autorizada a me apresentar e atuar cada vez mais como produtora musical, pois além de ter uma formação, tive várias oportunidades para colocar em prática os conhecimentos adquiridos ao longo da execução do projeto”, comenta a produtora. Ela conta que graças às aquisições dos equipamentos, realizou a produção musical de diversos trabalhos, além de mentorias para pessoas da comunidade LGBTQIAP+. “Compartilhei e sigo compartilhando saberes com mulheres negras, e também com algumas comunidades indígenas Mbya Guarani a convite da Tela Indígena, em parceria com a Comunicação Kuery”, comemora  a produtora. 

Carolina Brito, através da experiência oferecida pelo Fundo Baobá, também enxerga hoje todo o seu potencial enquanto líder. A única parte do seu projeto que não foi concluída foram as oficinas nas escolas (escrita criativa afrocentrada, identidade racial e vídeos-poemas). Como tudo estava fechado durante a pandemia e agora as aulas presenciais retornaram, essas atividades serão realizadas com os estudantes do infanto-juvenil. “Ser uma mulher negra que trabalha com audiovisual e que está no mercado com autonomia das suas produções, isso é revolucionário para a minha história. Tenho agora uma equipe formada para fortalecer essas atividades culturais comigo”, afirma. 

Andressa pretende continuar atuando na área para adquirir mais experiência e, se for possível, realizar mais algumas formações técnicas para aprimorar os trabalhos que vem desenvolvendo e assim poder abrir mais portas. Além disso, quer organizar novas oficinas e vivências estimulando outras mulheres negras e indígenas a ocuparem a área de produção musical. “A oficina que eu ofereci para mulheres negras e indígenas cis e trans foi um sucesso e me fez confirmar a demanda e vontade de outras mulheres de acessarem esses conhecimentos”, afirma. 

Para ela o Fundo Baobá realiza mudanças efetivas na nossa sociedade, conseguindo fomentar projetos que contribuem de fato na construção de uma sociedade mais equânime. “Tive a oportunidade de participar das formações políticas junto com as outras lideranças apoiadas, e esses encontros foram de extrema importância para que eu alcançasse meu objetivo. Hoje eu, assim como todas as mulheres contempladas por esse edital, podemos estar aqui planejando nosso futuro e potencializando não só a nossa trajetória como as das próximas gerações”, prevê a produtora musical.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Dança ancestral: ferramenta de cura e conexão para o corpo negro

Leandra Silva e Juliana Jardel apostam na dança como ferramenta de ascensão da potência negra e comentam sobre seus projetos apoiados pelo Fundo Baobá

Por Júlia de Miranda*

 

Pensar a dança como ferramenta de cura não é algo novo. Movimentar e ocupar o próprio corpo conscientemente, compreendendo que é da natureza humana dançar, faz parte do paradigma civilizatório que o continente africano reverbera ainda hoje: os africanos estão sempre dançando em seus rituais e cerimônias. A escritora estadunidense Alice Walker foi cirúrgica quando afirmou que “tempos difíceis exigem uma dança furiosa”, e que ela é crucial na manutenção do equilíbrio. Acordar o corpo adormecido e reaprender os passos no ritmo frenético dos novos tempos requer um olhar interior atento para perceber que a força de uma coreografia solo (o processo do autoconhecimento) tem poder, e que quando esses dançarinos fortalecidos se juntam (a potência do coletivo), as mudanças acontecem. 

A dança ancestral foi contemplada na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. Através dos projetos Movimentos Atlânticos, da bailarina, professora de dança e doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás (UFG), Juliana Jardel; e VERVE- DÉJÀ VU AFROTURISTA 1º ATO- ANCESTRALIDADE HIGH TECH, proposta da também bailarina, professora e jornalista Leandra Silva, ambas mulheres de Axé.

Juliana Jardel

 

Leandra Silva

 

Leandra relata que fazer parte do Programa foi uma das melhores coisas que poderia ter acontecido, e foi a primeira vez que ela vivenciou esse nível de investimento profissional. Ela acredita que a iniciativa do Baobá, em querer formar lideranças negras, vai na contramão do que o Brasil está acostumado. “Essa bolsa me deu um chão e essa é uma das coisas mais revolucionárias que eu vejo na proposta do Baobá, que é o investimento financeiro direto e real em mulheres negras; aí eu tive a dimensão do quanto eu posso chegar simplesmente tendo um investimento mínimo”, relata a coreógrafa.

A paulistana dança e atua como professora há 20 anos e reconhece ali um lugar de cura onde a partir de tecnologias ancestrais consegue ancorar processos criativos que possibilitam o crescimento de sua autoestima. Leandra já passou por algumas importantes escolas de dança, por isso sabe que essa arte não é tão acessível e os lugares de aprendizado podem ser torturantes para pessoas negras. Passar por esses lugares e manter autoestima, criatividade, brilho e não desistir, é um grande desafio. “O mundo branco da dança é bastante complicado para a autoconfiança e saúde mental; e foi justamente dessas experiências de alegria, cura e também de discriminação dentro dos espaços brancos de aprendizado que eu fui forjando a minha experiência como dançarina”.

O projeto foi pensado para que Leandra pudesse ter as devidas condições financeiras, e conseguisse pesquisar e se fortalecer como coreógrafa e líder da companhia Verve de Arte Negra. O ‘Déjà vú Afrofuturista Ancestralidade High-Tech’ é o primeiro espetáculo coreografado por ela e discorre sobre a guerra do Orí, o conflito para ser dona da própria cabeça. Ele se chama Déjà vú porque carrega a ideia de que nós não estamos inventando a roda, e que na cultura negra a gente passa pelo processo de recriação, cocriação e inovação devido ao tempo de civilização e história. 

“No primeiro espetáculo, todas as pessoas [negras] que estavam no palco relataram alguma experiência de ouvirem que elas não poderiam dançar seja pelo corpo inadequado, a cor, o lugar, a idade e todas essas coisas que no Brasil são colocadas na hora de você ter preparo para se tornar um artista. Nenhum corpo é impedido do palco e da experiência com a dança negra contemporânea, e nem por isso ela deixa de ser criteriosa”, reitera Leandra. 

A pandemia da Covid-19 surgiu no auge do lançamento do espetáculo, e com o projeto do Fundo Baobá aprovado o foco se voltou para buscar os recursos financeiros que possibilitassem a permanência da equipe virtualmente. Foram grandes os desafios e as mudanças na rota possibilitaram novas narrativas: por envolver muitas pessoas, ‘Déjà vú’ saiu de cena e surgiu a ideia de produzir o Festival FERVE – projeto idealizado por Edvan Mota, com a sua companhia. O festival aconteceu virtualmente em agosto de 2021, com apoio da  Lei Aldir Blanc, e durou 6 dias, trazendo o tambor como centro em variadas temáticas, contando com uma gama de artistas de distintas gerações. Dentro do festival, Leandra criou  a dança solo ‘Firmamento’ que é o trânsito entre o tradicional e o contemporâneo. Mesmo tendo somente a artista nos holofotes, a produção envolveu uma equipe técnica de 20 pessoas. 

O Fundo Baobá possibilitou para a dançarina uma estrutura pessoal que permitiu a dedicação dela em outros projetos que somaram na melhoria da Cia de Dança. A realização do festival é fruto deste investimento. 

“O desenvolvimento do projeto se deu com muitas transformações e altos e baixos. Tive assessoria de um coach do Baobá, oficinas, reflexões e muitas trocas com outras mulheres negras agraciadas pelo Fundo.  Foi bastante inspirador estar com essas mulheres de tanta criatividade e coragem. Mulheres gigantes de distintas trajetórias”, recorda Leandra. A dançarina conquistou, além de formação e conhecimento, a aprovação em outros editais. O dinheiro captado não foi para o próprio benefício, todavia trouxe paz, alegria e trabalho com todos da sua comunidade de dança. 

Sobre o que está por vir, Leandra costuma dizer que o hoje é um futuro que foi sonhado pelos seus ancestrais. Celebra com orgulho a conquista de ser a primeira mulher da família que ocupou a cadeira numa universidade (fez parte da primeira turma com cotas raciais na Universidade Federal da Bahia – UFBA). “Eu entendi que se eu esperasse do mundo o devido papel e o devido lugar, eu nunca estaria no palco da forma como a minha potência exige e merece. Eu coreografo porque escolhi trilhar um futuro onde eu tenha voz, poder, autonojmia e autoridade para escolher sobre em que corpo e em que pele está à luz”. 

 

Dançando com as águas da diáspora africana 

Ser um corpo negro no mundo, como sugere a cantora Luedji Luna, significa ter cor e corte. É carregar as dores da diáspora africana no Brasil que ainda não reconhece mulheres e homens negras e negros como valiosos protagonistas no desenvolvimento social, econômico, cultural e intelectual da nossa história. 

O projeto Movimentos Atlânticos de Juliana Jardel, já existia e é a metodologia em dança que ela desenvolve há alguns anos. O nome é inspirado no documentário Orí, da cineasta e socióloga Raquel Gerber, que tem a intelectual Beatriz Nascimento como protagonista. Após perceber que as alunos negros chegavam à sala de aula rígidos e envergonhados do próprio corpo, mesmo os que já tinham consciência racial e trabalhavam a valorização da cultura negra.  Quando iam para a prática desse corpo coletivo e individual essas pessoas eram muito travadas. Juliana decidiu trabalhar com esses corpos no movimento da dança, algo semelhante à fluidez de um rio na pulsação da vida. 

A ancestralidade é fator marcante em alguns pontos específicos do método que relembram a infância da dançarina na fazenda observando o ato de pilar realizado pela avó, e também a sua proximidade com o candomblé. Quando saiu o edital do Fundo Baobá, Juliana vislumbrou a possibilidade de utilizar o recurso financeiro e ainda estabelecer conexões com outras pessoas negras, potencializando o seu projeto em Goiânia, cidade onde vive. 

“O racismo se dá diretamente no corpo, e após observar os meus alunos eu percebi que aqueles corpos ainda tinham questões para serem resolvidas. Do entendimento que esse corpo é diariamente atacado, e ele funciona como um receptáculo que guarda informações, eu procurei no projeto cuidar dele evidenciando que ali é o primeiro alvo a ser violentado nessa estrutura racista. O corpo coletivo e individual é um lugar de morada, Beatriz Nascimento dizia que o negro precisa entender no corpo que ele não é mais um cativo”, reflete a dançarina.

Pensar a libertação do próprio corpo, entendendo-o como potência, fez com que Juliana encarasse uma dança turbulenta. Ela foi desligada do mestrado em dança durante o processo de desenvolvimento do projeto e pôde contar com a assessoria jurídica e rede de apoio do Baobá para reverter a situação. Concluiu o mestrado em Performance Culturais e engatou na sequência o doutorado. 

O Fundo ainda possibilitou o investimento em livros, cursos e materiais para as aulas no grupo Corpo Suspeito, montado pela professora. Ela pôde ainda se resguardar no período pandêmico (sem dar aula de forma presencial) e projetar sua carreira. “Pude ampliar a minha rede de conexão com essas mulheres que conheci. Hoje eu me vejo mais conectada, rápida, atenta às mudanças do mercado e com segurança de me lançar. O projeto me ajudou profissionalmente como artista e acadêmica, estou perdendo o medo da escrita”, afirma Juliana. 

Para o futuro, ela pretende seguir no doutorado e continuar ampliando as redes sem perder o contato com a que foi construída através do Baobá. Ser uma colaboradora nos próximos editais do Fundo faz parte de seus planos, além de seguir dançando. E nas palavras de Luedji: sendo a sua própria embarcação e sorte.

E você, já dançou hoje!?

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Tecnologia afrofuturista: mulheres negras impulsionando a ciência e o conhecimento

Projetos voltados para a ciência de dados da saúde da população negra, tecnologia da informação e design apontam novos futuros nas carreiras profissionais de lideranças negras

Por Júlia de Miranda*

 

Pensar na modernidade dos tempos atuais envolve refletir e planejar um futuro cada vez mais conectado, onde as diversas tecnologias nos levam para um mundo novo. Afrofuturismo é uma forma de imaginar o futuro em que nós, pessoas negras, existimos como criadores numa sociedade marcada pelo intenso desenvolvimento tecnológico, pela cultura e estética africana sem esquecer a conexão com a nossa ancestralidade. Futuro e tecnologia são ambientes construídos estrategicamente na caminhada política coletiva no presente, e pretos e pretas são agora os protagonistas de suas próprias narrativas. Escrevemos história no passado, presente e no afrofuturo.

As mulheres negras da Ciência e Tecnologia foram contempladas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. O apoio foi para os projetos: “Black Data – Uma preta na ciência de dados”, de Jéssica dos Remédios (RJ); “Inspirar e atrair mais mulheres negras na área de Design e Tecnologia a partir da minha liderança”, da Taís Nascimento (PE); “Pretas Tech: Mais Mulheres Negras na Tecnologia”, de Bárbara Aguilar (MG); e “BotDandara”, da Vitória da Silva (SC).

Bárbara Aguilar

 

Vitória da Silva

 

Adaptações devido a pandemia 

O projeto da designer Taís Nascimento, que já possui quase 20 anos de carreira em Tecnologia da Informação, precisava de uma “mão amiga” para sair do papel. E foi justamente isso que o Fundo Baobá proporcionou: recurso e apoio para planejar de forma consistente e investir em seu desenvolvimento profissional e acadêmico. Taís teve o intuito de fortalecimento pessoal para se tornar mais competente em formar e empoderar outras mulheres negras na área em que atua,  a UX Design, em tradução literal “design de experiência do usuário”. Área responsável para que  usuários tenham a melhor experiência de uso.  

“Nesta época, já havia um grupo articulado e apoiado por mim, de mulheres negras, em transição de carreira para área de UX Design e era com esse grupo que eu pretendia promover ações educacionais”, recorda a designer. Porém os planos foram prejudicados pela pandemia, e pelos poucos recursos tecnológicos da maioria das integrantes do grupo. “Outro objetivo prejudicado pela pandemia foi a conquista da proficiência em inglês. Boa parte dos recursos recebidos seria utilizada para realizar um intercâmbio profissional, a partir de cursos na língua e na área de Design e Tecnologia fora do país”, comenta.   

Bárbara Aguilar, também da área de design, contou que a KilomboTech nasceu em 2019, de um encontro com a historiadora e cientista de dados Allana Cardoso, após vivenciarem inúmeras situações de apagamento e racismo nos espaços do mercado de Tecnologia da Informação (TI). Optando por navegar em outros mares profissionais, ambas estavam sem referências negras e sentindo na pele a baixa representatividade nas empresas de tecnologia. “A pandemia infelizmente nos fez adiar e recalcular toda a rota do projeto, mudamos o foco principal das aulas e treinamentos presenciais e focamos no fortalecimento de nossa rede e comunidade online com outras mulheres negras”, analisa a participante. Ela seguiu construindo uma forte e engajada rede profissional e tem sido reconhecida por outras empresas e comunidades de tecnologia; agora também realizando palestras, aulas e mentorias individuais.

 Jéssica dos Remédios, pesquisadora de políticas públicas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) também estava num momento de querer visualizar novos horizontes quando foi contemplada com o Programa. “Eu já tinha um desejo que era me voltar para a ciência de dados, um mercado que estava em ascensão. Diante disso, eu escolhi fazer uma especialização em data science e informática para a saúde no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e direcionei o meu recurso para isso”, recorda Jéssica. Tudo que foi vivido fortaleceu o processo de transição de carreira e hoje ela trabalha com saúde pública voltada para análise de dados e saúde da população negra, ambiente que, no passado, ela tinha dificuldade de encontrar informações de qualidade. 

A CEO no LAB the Creator, Vitória da Silva, ambicionou a ideia de ter uma plataforma onde pudesse pensar no afrofuturismo, imaginar o futuro de forma afrocentrada e ver pessoas negras criando através das suas próprias perspectivas. A sua meta era construir projetos inovadores a partir de tecnologias emergentes, todavia ela não encontrava esse lugar em Florianópolis (SC). “Uma das principais coisas que eu aprendi com as ferramentas que o Fundo Baobá forneceu para mim durante esse período, foi pensar em mim e como eu poderia me desenvolver, e devolver isso, para o coletivo”. Vitória conta que foi um desafio pensar em si como uma referência, por questões de autoestima, autocuidado e de desenvolvimento pessoal. “Isso foi um exercício difícil porque eu estava muito acostumada a estar e ser para os outros e pouco voltava o olhar para mim”, analisa.  

 

Mulheres negras no front 

A colheita de Taís com a vivência proporcionada pelo Fundo Baobá foi de êxito profissional, acadêmico e financeiro. Ela foi promovida e passou de uma profissional de nível pleno para consultora em UX Design. Além disso, tornou- se líder técnica, professora, palestrante e mentora nesse curto período de tempo. A execução do projeto ficou prejudicada no contexto trazido pela pandemia, porém ao mesmo tempo Taís salienta que foi essencial atravessar essa turbulência mundial tão crítica estando conectada a tantas mulheres potentes que foram trazidas pelo Programa. “Entendo que a estruturação de um plano de carreira aliada à disposição de recursos foi primordial para efetivar tais conquistas. Mesmo nesse contexto, e embora tenha sido necessário reconfigurar o meu trabalho para aquela realidade de isolamento social, vejo que os resultados foram satisfatoriamente alcançados”, avalia a designer.

Para Bárbara os próximos passos estão focados na estruturação, formalização da Kilombo Tech como uma EdTech/TechCommunity (startup tecnológica) e ganhar escala para impactar outras mulheres em diversas regiões, e não apenas localmente. Ela descreve que a sua experiência com o Fundo “foi espetacular” e que conseguiu investir em seu crescimento profissional. Atualmente se prepara para alavancar a carreira e priorizar ainda mais o desenvolvimento da Kilombo Tech. “Meus objetivos foram alcançados com sucesso, mesmo com os ajustes na pandemia. Conquistei reconhecimentos e promoções no meu trabalho e também houve a visibilidade da Kilombo Tech dentre as comunidades de tecnologia”, comemora Bárbara. 

Quando planeja o futuro, Vitória diz estar buscando articular parcerias em novas tecnologias emergentes para poder alçar voos em 2022. Com o Fundo Baobá ela alcançou estabilidade maior na carreira e investiu em hardwares e estrutura para home office, que ajudou a enfrentar as mudanças no mundo em situação pandêmica. 

Já Jéssica analisa que o que mais a marcou no processo foi abrir espaço para que as pessoas consigam falar da saúde da população negra e tenham informação de qualidade para poder discorrer com profundidade sobre o tema. “O que ficou de legado foi trabalhar com ciência de dados e estar com outras mulheres negras potentes do Brasil inteiro. Ter construído junto com elas um coletivo que chama Negras que Movem (virou até uma página nas redes sociais)”, destaca. Ela ainda quer conseguir financiamento para um projeto que foque na qualificação de registros, principalmente no quesito raça/cor, e todas as informações relacionadas aos diversos agravos de saúde da população negra.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Mulheres negras lutam pelo direito à cidade como uma garantia para as populações negras e periféricas

Ana Caminha e Sarah Marques são ativistas pelo direito à cidade e debatem sobre o espaço urbano, moradia e racismo em suas comunidades

Por Júlia de Miranda*

 

Num passeio pela sua cidade, você consegue perceber a forma como a ocupa e quais são os sentimentos que emergem sobre pertencer a esse espaço? Qual a relação da arquitetura e urbanismo com os habitantes ali? Exclui, limita ou convida e agrega? Depende da região? Percebe como os problemas que acompanham a formação histórica do nosso país (questões de raça, gênero e classe, que hierarquizam as vivências) são materializados nos espaços da cidade? 

Tudo isso passa despercebido para muitos moradores, mas, de acordo com a escritora Joice Berth, arquitetura e urbanismo não são neutros. O geógrafo Milton Santos traz o pensamento da cidadania mutilada: se a gente não vivencia as cidades de uma maneira igualitária, justa, equilibrada e integral, nós não podemos dizer que somos cidadãos ou cidadãs. O sociólogo Boaventura de Sousa Santos fala em “racismo do apartheid”, para ele a segregação social dos excluídos se dá através de uma cartografia urbana que divide as cidades em “zonas selvagens” e “zonas civilizadas”.

O conceito “direito à cidade” foi originalmente cunhado pelo sociólogo francês Henri Lefebvre, em 1968, e significa o direito dos cidadãos figurar sobre todas as redes, circuitos de comunicação, de informação e de trocas. Será que quando falamos da população negra esses tais direitos valem? 

A agenda política “População Negra e Direito à Cidade” foi contemplado na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. Os projetos da comerciante Ana Cristina da Silva Caminha, de Salvador (BA), e Sarah Marques do Nascimento, educadora popular do Recife (PE), debatem sobre o espaço urbano e o direito à cidade e moradia, combatendo o racismo e fortalecendo a resistência comunitária. 

Ana Caminha | Reprodução: Instagram

 

A luta para transformar as comunidades

Ana e Sarah são duas mulheres negras que assumiram a liderança em seus territórios. No caso da pernambucana, a comunidade Caranguejo Tabaiares, localizada na zona Oeste do Recife, instalada numa Zona Especial de Interesse Social (Zeis) de tradição pesqueira. Seu processo de despertar para a consciência de que era necessário resistir com os seus se deu em 2018, quando a prefeitura municipal ameaçou remover os moradores do local (76 casas na época) devido a uma obra. Prometendo levá-los para outro espaço, tirando seus vínculos e profissão, a comunidade não aceitou a decisão e Sarah mergulhou de vez em sua militância. “O Fundo Baobá me proporcionou condições para me aprofundar na minha luta. Nós somos os donos dessa terra, o projeto foi pensado para evidenciar as nossas raízes e escutar as mulheres idosas para a produção de uma revista que circularia por toda a cidade divulgando a nossa história e resistência”, conta a educadora popular. 

Com a pandemia da Covid-19 os planos precisaram mudar, pois o acesso à terceira idade ficou restrito diante do distanciamento social. A proposta foi adaptada para um projeto de sustentabilidade, alimentação e autocuidado com todos os moradores da região. Foram arrecadadas cestas básicas e álcool para serem distribuídos nas casas, além de um dedicado trabalho de comunicação social informando a todos sobre noções de higiene pessoal e os cuidados necessários para não pegar o coronavírus. Tudo foi adaptado e produzido numa linguagem acessível para as ribeirinhas. Com o apoio financeiro do Fundo, Sarah conseguiu ficar mais tempo em casa protegida, pôde pagar as contas, comprar equipamentos de trabalho e alimentos para doação na comunidade.  

Hoje ela se considera uma mulher de forte liderança e isso foi impulsionado pelo Programa, que ofereceu formação direta e a apresentou para outras lideranças negras de todo o país. “Conheci mulheres negras que estão na academia e isso me fortaleceu mostrando que estou no caminho certo sendo uma líder comunitária. A nossa discussão, que é o direito à cidade, é ampla e isso fala do acesso que todos deveríamos ter por direito. Quando são para poucos, isso se chama privilégio”, defende Sarah.

Para o futuro a intenção é que as mulheres da comunidade, maioria chefes de família, encontrem uma maneira de se auto sustentarem. Elas normalmente assumem subempregos, sem ter os seus direitos garantidos. A ideia, que já está em curso, é manter a horta e cozinha comunitária para que todos usufruam e ainda abrir para projetos de artesanatos.

Uma assessoria jurídica garantiu a regularização fundiária para a comunidade Caranguejo Tabaiares, e a prefeitura revogou o decreto. Sarah e suas companheiras e companheiros seguem firmes na luta por direito à terra. 

Já Ana Caminha foi contemplada com o Fundo Baobá quando sua atuação política estava bastante intensa em defesa dos direitos da comunidade negra, periférica e pesqueira da Gamboa de Baixo, em Salvador (BA). Ela também atua em outras localizações do Centro Antigo da capital baiana. Naquele momento ela tinha notado como era importante se aprofundar no antirracismo e nos movimentos das mulheres negras, mas precisava de tempo e apoio para amplificar sua voz. “Sou uma liderança antiga, mas com dificuldades financeiras para me dispor e estar atuando no movimento”, enfatiza. Para a comerciante, a iniciativa do Baobá caiu como uma luva, já que precisava ter tempo livre para entender mais sobre o processo político. “Pelo fato de eu representar a articulação Centro Antigo de Salvador, vi na situação a possibilidade de voltar a estudar e me apropriar de informações que possibilitam uma atuação ainda mais ativa e firme”, explica Ana.

O período pandêmico foi turbulento e exigiu que a proximidade com as tecnologias chegasse à comunidade. Ana precisou adaptar sua atuação para o formato de lives, cortejos virtuais e a comunicação com outras organizações, cursos e universidades. Ela avançou seus conhecimentos na língua inglesa, porém a imersão no idioma prevista para acontecer nos EUA ainda não aconteceu. Ana pretende agora investir na carreira acadêmica. “Para mim foi uma vitória e uma conquista aprender a lidar com tecnologia e fazer luta neste espaço. Nós, da periferia, não temos tanto acesso às tecnologias e adaptar o projeto durante a pandemia me obrigou a imergir no virtual”, avalia.

O investimento do Fundo Baobá promoveu o contato de Ana com outras lideranças negras e possibilitou, maior disponibilidade para ela se debruçar no conhecimento político acadêmico. Ela também formou um grupo de mulheres negras na Gamboa para somar no ativismo.

Continuar os estudos, representar as comunidades do centro na luta por moradia e fazer frente às ações políticas antirracistas completam a lista de Ana. O objetivo é se tornar uma referência e exemplo para as mulheres negras da sua comunidade, do centro e diversos espaços soteropolitanos onde mulheres e homens negros são segregados. Seu desejo é transformar a atual precariedade e garantir  direito à cidade à população negra e periférica do Centro de Salvador.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Mulheres negras traçam estratégias para incidir na saúde e no bem-estar das populações negras

Lideranças apoiadas pelo Fundo Baobá se especializam para criar estratégias de cuidados específicas para este segmento da população

Por Morgana Damásio*

 

“Esse é o produto do meu luto”. Magna Barbosa havia acabado de perder um filho quando decidiu se inscrever para a 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. “Eu precisava me recolocar no mundo novamente, não dava pra ser mais a mesma mulher que antes. Precisava deixar um outro tipo de legado e eu acho que a partida do meu filho foi isso”, partilha Magna, que é psicóloga, mestre em psicologia social e gestora pública. “Então eu precisava sobretudo me amar, eu era sim essa pessoa preta merecedora. Pensei no meu trabalho, nas coisas que eu faço e falei:  é isso aqui que eu vou fazer, é nisso que vou investir”, complementa. 

 

Magna Barbosa
Magna Barbosa

 

Desde 2009 ela é Coordenadora da Rede de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Doméstica e Sexual de Suzano (SP), onde realiza um monitoramento das pessoas que chegam até o SUS por uma necessidade de saúde decorrente da violência. A ação é feita a partir da ficha de notificação nos Pronto Socorro e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Magna explica que os/as pacientes iam embora e, posteriormente, não se sabia se o ciclo da violência havia se rompido. “Com o passar do tempo eu entendi que isso tinha um recorte racial forte, na sua maioria  as mulheres pretas e pardas eram as mulheres que estavam ali vivenciando as questões de violência em todas as gerações, desde muito pequenas, adolescentes e mulheres adultas e idosas. Era uma violência estrutural”.

A partir dessa percepção, Magna construiu o projeto Racismo e a interface com a violência doméstica na Saúde, que objetiva desenvolver ações de formação que possam impactar nas condições de saúde da população negra por meio da oferta de formações para profissionais do sistema público de  saúde. “Se você olhar para a maioria dos profissionais de saúde com nível superior, são pessoas brancas. O quanto isso não fica também impactando nas questões do atendimento das pessoas que sofrem violência?”, questiona.

Magna destaca que, a partir do apoio do Fundo, foi possível construir um instrumento que possibilitasse entender a interface entre violência e  racismo estrutural, apontando quantas mulheres vítimas de violência estão em atendimento, em acompanhamento ou que tiveram alta (ou não). Também foi elaborada uma classificação de risco  a partir das vulnerabilidades sociais e marcadores sociais que ajudam a organizar a prioridade no atendimento “para que haja manutenção da vida e da subjetividade dessas mulheres”, explica. Ela destaca que mulheres negras e transexuais estão mais vulneráveis, como apontam os indicadores sociais. 

O projeto é desenvolvido em 44 unidades de saúde e tem três etapas: o  monitoramento do cuidado, a capacitação e a implementação dos núcleos de prevenção à violência. Para a capacitação de qualificação e gestão foram desenvolvidos 5 encontros sobre temáticas da violência. “Ao invés  de eu ficar só conceituando o que é a violência, como ela acontece, eu vou trazendo as discussões do dia a dia, que foram dores que doeram em mim enquanto profissional de saúde no atendimento na UBS. Eu procuro trazer no cotidiano exemplos que as pessoas vão se identificando, cada encontro é uma temática diferente”, sinaliza. 

Em reconhecimento ao impacto que o projeto tem proporcionado, Magna recebeu neste ano o Prêmio Viva, iniciativa do Instituto Avon em parceria com a Revista Marie Claire, que busca reconhecer as práticas de pessoas que se destacam no cuidado, acolhimento e proteção das mulheres no Brasil. Ela também foi convidada a lecionar em uma faculdade. Sobre seu fortalecimento enquanto liderança, a partir da experiência do Programa, ela destaca: “Você reconhece o seu lugar e o tamanho da sua potência, isso ninguém mais te tira”.

 

“Precisamos quebrar um pacto de que a gente tem que dar conta de tudo”  

Eu estava emocionalmente debilitada, então uma companheira me falou assim: a militância não vai deixar de acontecer se você parar um pouco, ela vai continuar acontecendo e é saudável que dentro da militância algumas parem, outras retomem e a gente avança. É preciso que a gente se dê essa autorização”, compartilhou Mayne Silva, de Serra Grande (BA). Mãe solo, que em meio a pandemia experimentou ainda mais a sobrecarga dos 17 anos de militância, os 4 últimos como gestora comunitária de uma ONG. Sentiu que era o momento de fazer a transição de carreira e se dedicar às atividades como terapeuta. Mayne também é uma das contempladas no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.

Para tornar esse sonho concreto, ela escreveu o projeto Novos espaços de poder, re-existir e seguir tecendo a rede. A iniciativa apoiou  processos formativos  e de aprofundamento nas habilidades terapêuticas, facilitação de processos comunitários e fortalecimento da atuação como profissional e liderança. Hoje se dedica ao estímulo do cuidado e autocuidado entre mulheres e ativistas, sobretudo outras mulheres negras. “ Eu uso as ferramentas para apoiar mulheres a tratarem suas dores, emoções e assumirem sua expressão, sua voz, sua potência, seu lugar no mundo”, diz.

Mayne explica que o fortalecimento da ampliação das ferramentas como terapeuta a fortaleceu para que  assumisse a sua voz e partilhasse seus escritos com o mundo. Já são três participações em publicações, um livro solo lançado e mais dois em planejamento, além de convites para festivais nacionais e fora do país. “É esse lugar que o Baobá me trouxe no encontro com outras mulheres e também nas formações terapêuticas: de assumir a minha imagem, a minha voz, a ancestralidade, mas também a arte como uma permissão de expressão”. 

Ela acredita que é preciso desmistificar essa ideia de mulher preta que precisa ser sempre forte. “É preciso quebrar uma corrente de que a mulher das comunidades, a mulher preta, pobre, dá conta de tudo sem se cuidar, porque ela tá ali pra se sacrificar. Para as lideranças isso ainda é ainda mais forte, eu vivenciei isso”, conclui a terapeuta.

 

“ A descoberta do quanto podemos ser potentes quando somos acreditadas é a mais significativa”  

“O que me impulsionou a me inscrever no Programa [de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco] foi o ineditismo de investir financeiramente em mulheres negras para que pudessem realizar projetos de alcance comunitário e/ou investir no desenvolvimento de suas carreiras”, explica Evania Maria, especialista em Medicina Comportamental e instrutora de mindfulness (atenção plena). 

Evania Maria

Evania também atua como educadora em saúde, e concretizou com o apoio do Programa, a pós-graduação em dor pelo Hospital Albert Einstein. Outro resultado do projeto foi a realização do seu desejo de difundir, por meio de um site, o potencial da atenção plena para a promoção da justiça social. Reativou também as atividades do Grupo de Estudos Reverter Conceitos, iniciado em 2017 com outros profissionais parceiros com o intuito de oferecer conhecimentos e técnicas para reduzir o preconceito implícito presente na cultura. 

A especialista aponta que o alto custo da formação em dor, que no Brasil ainda é bastante elitizada, é uma das causas  que contribuem para a falta de acesso ao tratamento. “A informação e a educação sobre dor tanto para profissionais de saúde como para a população em geral, são os pilares para ampliar o acesso. Pois, as pessoas estarão mais informadas sobre seus direitos e poderão pressionar o poder público para criação e/ou ampliação de políticas públicas que possibilitem o acesso ao tratamento da dor”, explica. Ela destaca ações estratégicas que vêm sendo desenvolvidas como o Programa de Reabilitação da Pós-Graduação em Dor do Hospital Albert Einstein, oferecido de forma gratuita; e o curso de Educação Continuada em Dor, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que possui um custo mais acessível para formação dos profissionais da saúde.

“Outras duas ações estratégicas que tenho trabalhado é, primeiro, a realização de programas de educação em dor para pacientes com dor crônica. Em segundo, em 2019, eu e o tradutor Nélio Schneider, traduzimos e adaptamos uma cartilha sobre dor, visando disponibilizar informações mais precisas e aumentar esse conhecimento entre a população”, comenta. De acordo com Evania, a cartilha é um material que oferece, em linguagem acessível, informações básicas sobre dor e formas de aliviá-la.

A especialista ressalta que devido às desigualdades sociais, a dor traz uma carga de incapacidade e sofrimento adicional para as pessoas de baixa renda que são as mais vulneráveis em termos de assistência à saúde e qualidade de vida. “A população negra em todas as faixas etárias é cotidianamente mais exposta a circunstâncias de estresse e violência, devido aos efeitos sociais, políticos e econômicos decorrentes do racismo estrutural”. 

Para a socióloga e instrutora de mindfulness já não se pode mais pôr em dúvida que, quando o estresse é constante e a pessoa não tem chances de reagir de forma adaptativa, ele se torna crônico. Isso leva a população negra a ficar mais suscetível a doenças e/ou agravamento de quadros clínicos decorrentes do estresse, como hipertensão arterial, dor crônica, diabetes, ansiedade e depressão. “Avanços de estudos no campo da medicina e psicologia relacionados aos efeitos do estresse na saúde explicam que o alto grau de ameaça que um indivíduo experimenta provoca nele respostas de estresse que se acumulam ao longo do tempo, levando eventualmente a uma má saúde mental e física”. 

A atenção à saúde mental foi também uma experiência vivenciada por Evania dentro do programa. “O edital surpreendeu, ele também proporcionou ações de autocuidado (as apoiadas poderiam investir seus recursos em serviços de saúde mental) e ofereceu formações com foco na cultura do autocuidado e da saúde mental”.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Desafios da Luta Quilombola no Brasil: Como as comunidades se articulam pela garantia dos seus direitos

Projetos de mulheres quilombolas trazem importância da coletividade e influência da ancestralidade no processo de lutas por mudanças sociais

Por Andressa Franco*

Lugar secreto para onde iam as pessoas escravizadas que fugiam das fazendas, minas e casas das famílias brancas coloniais, onde eram exploradas e sofriam maus tratos. Normalmente encoberto ou escondido em meio ao mato, como o mais famoso deles, o Quilombo dos Palmares. Essa é uma das definições encontradas no dicionário para a palavra “quilombo”.  Com o desafio de alcançar visibilidade e trazer as questões que pautam a luta quilombola no Brasil para o debate, é que os remanescentes dessas comunidades travam uma luta conjunta. 

Visando o aprimoramento das habilidades de liderança para darem contribuições ainda mais qualificadas na luta pelo direito à terra, Lucimar Sousa, Emília Costa e Tânia de Moraes, mulheres quilombolas, se inscreveram na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

 

Emília Costa
Lucimar Sousa
Tânia de Moraes

 

Coletividade e Ancestralidade 

A importância da coletividade e influência da ancestralidade na formação das atuais lideranças quilombolas e no processo de lutas por mudanças sociais, é um ponto em comum a ser ressaltado nos projetos de Lucimar, Emília e Tânia.

Maranhense de Pirapemas, mãe de oito filhos e quebradeira de coco, Lucimar Sousa decidiu apresentar o projeto “Mulher negra plantando sementes, cultivando redes de cuidado e colhendo justiça social”. Pensar formas de enfrentamento à violência contra a mulher, resgatar as práticas de medicina natural e da alimentação alternativa eram os principais objetivos da senhora de 64 anos. A ideia foi realizar oficinas com as mulheres do Quilombo Aldeia Velha voltadas para promoção da saúde fitoterápica, agroecologia e soberania alimentar.

“Esse é meu trabalho, faço com orgulho e vou em qualquer lugar do país, basta me chamar que vou fazer as oficinas, não tenho preguiça. Tenho vários cursos em reflorestamento, fitoterapia, a minha bagagem é bem grande”, afirma a maranhense. O projeto de Lucimar conseguiu implementar quintais produtivos que beneficiam nove famílias da comunidade, e que representam caminhos para garantir renda com a venda de hortaliças. Além de soberania alimentar e saúde popular aos desassistidos de políticas públicas. 

Com o recurso do Baobá, também foi possível instalar aviários e a implementação de estratégias de apoio emergencial a três comunidades quilombolas na região, ofertando roupas e outros itens básicos. Aparelhos eletrônicos também foram adquiridos a partir do Programa. “Foi um grande salto na minha vida ter ganhado este edital. Só tenho a agradecer, porque nesse tempo de pandemia eu não teria aguentado ver as famílias sofrendo sem poder alcançar algo, sem poder sair de casa”, relata Lucimar. Ela conta que no início não gostava da palavra liderança, devido ao medo das perseguições contra líderes comunitários. 

A quilombola ainda se dedica a oficinas de artesanato, especialmente das confecções de bonecas, cestos, tapetes. Também desenvolve oficinas voltadas para mulheres que colhem e vivem do coco babaçu. No Maranhão, muitas quebradeiras garantem o sustento da família através dessa prática. 

Lucimar não está sozinha. No projeto “Recontando nossas Histórias como instrumento de luta pelo Chão Sagrado”, Emília Costa se dedicou a viabilizar seu fortalecimento como líder, para representar melhor seu território. Além de fortalecer outras mulheres negras quilombolas que estivessem se descobrindo lideranças nos quilombos. Ela vive na comunidade quilombola de Santo Antônio do Costa, localizado no município de São Luiz Gonzaga, também no Maranhão. 

Articuladora do Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM) e da Articulação de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, Emília também atua no movimento Guerreiras da Resistência, voltado para o empoderamento feminino. Além disso, trabalha como auxiliar administrativa na Secretaria de Igualdade Racial do município. 

“O Programa me ajudou bastante, comprei muitos livros que me ajudaram. As formações que foram realizadas, foi tudo bem interessante pro meu desenvolvimento pessoal”, pontua. Ela diz que hoje se vê como uma liderança mais madura. Para isso, conta que se concentrou em leituras sobre o feminismo negro, lives, formações e entrevistas com anciãos para rememorar a ancestralidade da comunidade “a partir do chão em que pisam”.

Alguns dos resultados observados a partir do seu projeto, foram: a maior incidência de mulheres e jovens no fortalecimento da organização do território; promoção de reuniões no quilombo, no MOQUIBOM; na Articulação das Mulheres do Cerrado; participação em oficinas e formações; e da compra de um notebook como equipamento para se aprofundar nos estudos. “Esse era meu intuito, criar uma relação maior nos outros e também em mim, de pertencimento ao território”, explica Emília.

Já Tânia de Moraes propôs o projeto “Mulher Quilombola na Defesa dos Direitos e pela Vida!” focada no fortalecimento de mulheres quilombolas nas comunidades, com conversas, diálogos e vivências, resgatando os históricos de luta. Tânia pertence ao Quilombo das Ostras, localizado próximo ao município de Eldorado, em São Paulo. Mas, desde novembro de 2020, vive no Quilombo Sapatu, localizado a aproximadamente 35 km do centro da cidade de Eldorado. A base da economia da comunidade é a agricultura, o turismo e a venda de artesanato. As famílias locais se sustentam a partir da colheita de banana, arroz, feijão, milho e inhame.

Aos 30 anos, seu principal espaço de atuação hoje é a Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras (EAACONE), onde trabalha há sete anos. Uma entidade juridicamente constituída, sem fins lucrativos, que trabalha para que o artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal, cumpra os requisitos que dizem respeito ao direito à terra dos Remanescentes de Quilombo. Para isso, assessora as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira com o intuito de que se auto-identifiquem como quilombo, recuperem sua história e seus valores culturais e encaminhem a documentação aos órgãos públicos demandando o reconhecimento e a titulação coletiva de suas terras. 

Com toda a experiência acumulada na entidade, Tânia viu no Programa uma oportunidade para investir em sua própria formação e capacidade como liderança e contribuir de forma mais ativa nos territórios. O que inclui a defesa das ameaças que cercam esses territórios, como barragens, Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH), mineração, entre outros. “O meu projeto era voltado para me fortalecer enquanto mulher negra, sair um pouco da assessoria da EAACONE, e ter mais voz ativa fora, trazendo mais mulheres para fortalecer”, explica Tânia, que também integra o Movimento dos Ameaçados por Barragens (MOAB).  

 

Impactos da Pandemia nos Quilombos

A chegada da pandemia de covid-19 no Brasil trouxe à tona uma série de desigualdades que impactaram diretamente nas comunidades quilombolas. Esse cenário não poderia deixar de impactar no segmento dos projetos elaborados pelas mulheres quilombolas. Para Lucimar, foi essencial ficar ao lado das famílias do seu quilombo, apoiando durante os momentos difíceis da pandemia. 

Durante esse período ela quebrou a perna, e precisou ficar seis meses de cama. Foi um momento de adaptação para seguir com todas as suas atividades por meio da tecnologia, algo que não estava habituada. “O aprendizado foi um sucesso na minha vida, mexer com celular, computador, internet, conversar com pessoas que nunca vi do outro lado da tela”, comemora Lucimar. Uma das adaptações do projeto foi utilizar o recurso para as cirurgias e remédios. “Mesmo quando me quebro não fico parada, já me quebrei várias vezes e estou aqui, sinto orgulho da minha luta e de ser mulher negra”, completa.

Já Emília precisou remodelar a ideia das visitas a locais sagrados com os membros da sua comunidade. Devido à pandemia, o grupo foi bem menor. O mesmo aconteceu com as visitas planejadas para outros quilombos da região. “Fui adaptando, fazendo entrevista individual com os mais velhos; visitas com duas ou três pessoas nos quilombos vizinhos. Pra gente poder entender um pouco mais da nossa ancestralidade, criar uma relação maior de pertencimento”, explica. Um de seus objetivos era realização de leituras sobre feminismo negro, no que ela obteve sucesso. 

Apesar de não ter sido possível participar de diversos encontros de mulheres negras devido à pandemia, a liderança conseguiu levar seis jovens do seu território para um Encontro de Juventude do MOQUIBOM. O período de isolamento também deu a Emília a oportunidade de adotar a prática do autocuidado, o que também aprendeu entre as trocas com as mulheres que conheceu através do Fundo Baobá. “Eu percebi que se eu não cuidar de mim, eu não vou estar bem para cuidar do próximo”, pontua.

As comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, onde Tânia vive, adotaram medidas sanitárias, promovendo o controle de acesso de visitantes e turistas. Elas continuam na luta pelo andamento da regularização fundiária de suas terras. Tânia conta que a EAACONE em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) apoiou as comunidades através das licenças das roças tradicionais solicitando que elas fossem autorizadas em caráter de urgência. “A gente tem esse problema do racismo ambiental, porque você tem que pedir uma licença pra roça, um tempo para plantio. E quando não tem essa licença muitas lideranças acabam fazendo assim mesmo, e mesmo em terra coletiva, acaba tendo uma multa super alta”, explica.

Mas, apesar da pandemia, Tânia não deixou de seguir com os planejamentos do seu projeto. Ela realizou pesquisas, através de aplicativos de mensagens, com mulheres das diferentes comunidades, e produziu um diagnóstico dos principais problemas enfrentados por essas mulheres. Considerando as dificuldades de acesso à internet nesses espaços, não alcançou o número de mulheres desejado. A própria Tânia hoje tem melhor acesso devido ao recurso do Baobá, contudo percebe através da pesquisa o interesse dessas mulheres de ocupar os espaços de coordenação e articulação dos seus quilombos.

Já as rodas de conversa presenciais nas 13 comunidades em que atua, não ocorreram. Ela então focou nas pesquisas, leituras e no resgate histórico. “Mesmo eu tentando fazer um projeto individual, o projeto não é de hoje, é um trabalho de luta e resistência que já vem sendo construído desde 1991, e eu consegui trazer essas lembranças”, diz. Entre outros resultados, está a participação no Fórum Povos de Comunidades Tradicionais; atuação organizada no combate ao coronavírus, com distribuição de cestas básicas, produtos de limpeza, máscaras e reivindicação pela prioridade na vacina.

Outro feito de que se orgulha no período da pandemia, foi a construção do Protocolo de Consulta Prévia dos Territórios Quilombolas do Vale do Ribeira – SP, lançado no dia 20 de novembro de 2020, Dia da Consciência Negra. Os Protocolos de Consulta e Consentimento são documentos elaborados por cada povo indígena ou comunidade tradicional sobre a forma e processo em que querem ser consultados, de modo que respeite suas culturas, tradições e organização social. “Neste 20 de novembro (2021) a gente fez um encontro por município para entregar o protocolo em mãos. Foi uma demanda que aconteceu mesmo na pandemia, com dificuldade, mas que hoje a gente pode se orgulhar”, acrescenta.

 

Desafios da Luta Quilombola no País

É consenso entre as representantes quilombolas contempladas pelo Programa, que o direito à terra é o principal desafio a ser alcançado . Hoje, o Brasil soma mais de 6 mil quilombos, e aproximadamente 16 milhões de remanescentes. Apesar dos obstáculos, os quilombos sempre mantiveram sua identidade étnica e cultural voltada à preservação do meio ambiente e à manutenção das práticas tradicionais herdadas de seus ancestrais. 

A experiência com o Fundo Baobá inspirou Lucimar, por saber que existem mais companheiros de luta espalhados pelo país. “A gente não pode parar nos territórios, nos quilombos, com a demarcação da terra. Precisamos de políticas pública, os negros, os pobres estão sofrendo muito por causa do latifúndio”, destaca.

O mesmo vale para Emília, que enxerga a militância como intrínseca à sua vida pessoal. “A gente não tem vida pessoal, nossa vida pessoal é lutar pelo território livre, pela libertação dos povos, não tem separação. O nosso principal desafio é a titulação do território. Esse é um entrave crucial”. 

A perspectiva de Tânia é de esperança, principalmente a partir da juventude presente na luta pelo território. “O fortalecimento da base é fundamental. Nada impede que a juventude saia, estude e volte para ajudar e assessorar as comunidades dentro do território. É um avanço grande”, afirma. Enquanto isso, se dedica a levar para as comunidades onde atua o conhecimento sobre seus direitos. 

Mas Tânia não tira a atenção das ameaças que rondam as comunidades do Vale do Ribeira, por ser uma região rica em biodiversidade. “Nós, lideranças, nos encorajamos para ter nosso direito de terra, plantio, roça, tradição. Não é para ter aquele olhar que todo quilombola tem a mesma casinha de barro, a mesma vivência, que não pode melhorar seu desenvolvimento de vida. O que fica é a valorização, a cultura, a vivência dos mais velhos, a medicina, e isso é um fortalecimento rico”, finaliza.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Lideranças negras se fortalecem e criam redes nacionais e internacionais para debater encarceramento de mulheres negras e luta antiproibicionista

Projetos chamam atenção para o impacto da “guerras às drogas” e o encarceramento em massa de mulheres negras e pobres no país

PorAndressa Franco*

Quando se discute encarceramento e abolicionismo penal a partir dos atravessamentos que há em relação às mulheres negras, alguns dados chamam atenção. O relatório “Mulheres em Prisão: enfrentando a (in)visibilidade das mulheres submetidas à justiça criminal”, do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), aponta que 68% das mulheres encarceradas são negras e 50% têm apenas o ensino fundamental. O estudo lançado em 2019 também mostra que a maioria é mãe, não possui antecedentes criminais, estava envolvida com atividades relacionadas ao tráfico de drogas e possui dificuldade de acesso a empregos formais.

Duas pesquisadoras que fazem esse debate, Ingrid Farias e Enedina do Amparo, foram  contempladas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

 

Trajetórias potentes e a luta por uma legislação menos desigual 

Com atuações que se intercalam entre trabalho, militância e vida pessoal, a pernambucana Ingrid Farias integra a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA) e a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. Articuladora política de pessoas e recursos para defesa de Direitos Humanos, voltada em especial para mulheres e população negra, Ingrid viu no programa uma oportunidade de qualificar sua atuação enquanto ativista negra no advocacy. O objetivo foi realizar incidência política e influenciar na construção de alternativas ao atual modelo de política de drogas e segurança pública no âmbito do legislativo federal e estadual.

“Esse projeto mistura o tempo inteiro a minha ação política dentro dos coletivos e organizações que eu faço parte, assim como no espaço político profissional de acompanhamento da construção da legislação brasileira e da formulação das políticas públicas no país”, afirma a ativista. 

Também atuando na área dos Direitos Humanos, Enedina do Amparo tem uma trajetória pessoal e acadêmica extensa. Doutoranda em Ciências Sociais na área de Antropologia Social pela Universidade Católica de São Paulo, ela é mestra em Ciências Sociais na área de Antropologia, com ênfase em gênero, raça, agência criminal negra e geografias carcerárias, pela mesma universidade. Em 2015 defendeu a dissertação “Rés negras, Judiciário branco: análise da interseccionalidade de raça, classe e gênero na distribuição da justiça em São Paulo”. Advogada desde 2009, atua junto aos movimentos sociais urbanos e com organizações populares dos movimentos negro e feminista. Ela também é co-fundadora do Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas ADELINAS.

Enedina nasceu em Ituberá (BA), chegou em São Paulo em 1990, onde trabalhou no emprego doméstico, foi balconista, babá e enfrentou o racismo e a xenofobia por ser nordestina. Hoje, aos 47 anos, ela conta que se orgulha muito de suas origens: um pai trabalhador rural, que perdeu para a Covid-19 em janeiro de 2021; e uma mãe que criou nove filhos lavando roupa para as elites – sua primeira referência de ativismo.

Na faculdade, que começou em 2004 com apoio da ONG Educafro, Enedina já fazia debates que denomina “antiprisionais” e “antipoliciais”. Mas, foi a partir do primeiro estágio, no Ministério Público (MP – SP), que passou a observar a realidade do sistema de justiça mais de perto. O trabalho era na Vara da Infância e Juventude. “Ali eu vi a criminalização da maternidade negra… a produção de subjetividades submissas. Todas as frases utilizadas pelos promotores revelavam o olhar do poder judiciário e a visão patológica da mulher negra como mães de bandidinhos”, relata Enedina. Na época, a própria advogada sofria um tratamento racista e machista por parte dos promotores e até mesmo de outros estagiários.

A liderança permaneceu por um ano como estagiária no MP, e usou esse espaço para hackear o sistema como podia. Dava informações para essas mães, acompanhava até a Fundação Casa, orientava sobre como poderiam se comportar nas audiências.

 

Os percalços e mudanças de rotas geradas pela pandemia

Dentre as atividades com apoio do Fundo Baobá, Ingrid participou do processo da constituição da Frente Parlamentar Feminista Antirracista no Congresso Nacional. A liderança afirma que a iniciativa tem acompanhado hoje de forma mais organizada, projetos de lei ligados ao ataque às vidas e direitos das mulheres. 

No entanto, com a chegada da pandemia, foi necessária uma adequação para repensar os planos. Entre esses planos, estavam algumas idas à Brasília: “é onde acontece o processo de institucionalização da nossa política, do acesso a direitos”, pontua Ingrid Farias. Mas novas estratégias foram aplicadas por meio de acompanhamento remoto. Assim, ela estreitou diálogos com deputadas feministas e participou de audiências públicas e reuniões de comissões da Câmara, sempre de forma virtual.

Com uma carreira construída em torno da agenda antiproibicionista, Ingrid destaca que o momento atual é extremamente desfavorável para perspectivas de construção de alternativas dentro do campo da segurança pública e da política de drogas. Para a ativista, a atual conjuntura nacional e institucional não dá oportunidade de avançar com esses debates. Ainda assim, destaca que há um avanço mínimo no que diz respeito ao uso terapêutico da cannabis, por exemplo.

“Tem muitas mulheres que são de periferias e não têm condições de fazer compra de óleos caros que são importados de outros países. E esse trabalho de advocacy tem ajudado a avançar, especialmente com o direito das mães de crianças que precisam fazer o uso terapêutico da maconha para ter uma sobrevida”, explica. 

Ingrid ainda chama atenção para as propostas que atingem diretamente a população negra brasileira e que tem avançado institucionalmente. Como por exemplo os softwares de reconhecimento facial, propostas de aumento de penas e do encarceramento.

Assim como para Ingrid, a pandemia também afetou o projeto inicialmente proposto por Enedina. A advogada investiu em terapia em decorrência do período. Além disso, estava previsto um intercâmbio para desenvolver o repertório linguístico, o que precisou ser modificado. Começou então um intercâmbio virtual com estudantes da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. “Falando a língua do colonizador a gente entende as formas sutis e explícitas do racismo; analisa arquivos e dados estatísticos sobre assassinatos de mulheres negras no Brasil e fora do Brasil; acessa artigos em inglês e estabelece novas parcerias, sobretudo com as mulheres norte americanas feministas negras”, defende.

 

Criação de redes internacionais

Com o objetivo de criar redes e pensar quais são as produções de resistência que existem no campo da segurança pública e da política de drogas em outros países, Ingrid Farias também fez cursos de línguas. Com foco especialmente na América Latina, a liderança pretende expandir sua luta para além do Brasil.

Enedina do Amparo, por sua vez, se inscreveu no Programa de Aceleração justamente pensando na perspectiva de internacionalização da sua atuação. Refletindo sobre a própria trajetória, ela sentiu a necessidade de resolver algo que classifica como um trauma pessoal: o conhecimento da língua inglesa. E foi a fim de desenvolver o segundo idioma que se inscreveu no edital.

Para a ativista, hoje os padrões de exclusão são diferentes, e podem ser medidos no acesso ao treinamento da língua estrangeira. “Bell Hooks nos convida a pensar que, ao mesmo tempo em que a língua oprime, ela é o lugar onde nos fazemos sujeitos da nossa própria história. Apenas 5% da população brasileira sabe se comunicar em inglês. E, embora eu não tenha dados, as mulheres negras devem ser as últimas da fila”, comenta. Enedina está agora no terceiro módulo do curso de inglês, já em nível pré-intermediário. O objetivo é pensar a luta antiprisional e antipolicial fora do país.

 

Fortalecimento das lideranças

Atualmente, Enedina é assistente de acusação no Ministério Público no processo criminal sobre o assassinato de Luana Barbosa – mulher negra, lésbica, mãe e periférica, que foi espancada e morta por três policiais militares em Ribeirão Preto (SP). Com a participação no programa, a advogada conta que conseguiu fortalecer e construir novas redes, junto a este caso, em que ela é a única advogada negra atuando.

A contratação de uma assessoria em segurança digital também foi um destino para os recursos de apoio à advogada, que em 2019 sofreu um ataque nas redes sociais. Assim, ela investiu no conhecimento para se proteger nesse ambiente; Contratou uma assessoria de marketing para a produção de conteúdo nas redes sociais, com objetivo de ampliar o debate sobre abolicionismo penal e encarceramento em massa; e também se dedicou a organizar um livro que pretende lançar em 2022, fruto da sua dissertação de mestrado.

Para o futuro, a advogada vislumbra um PhD fora do país. Outra pretensão é a publicação de um livro em inglês, e tradução de seus textos para o idioma, como uma forma de fazer o debate ultrapassar as fronteiras.

Ingrid também relata que nestes 18 meses do projeto Baobá ela pôde acessar muitas oportunidades de qualificação, que influenciaram diretamente na sua atuação técnica e profissional. “Eu participei de formações dentro de grandes instituições do Estado como o Senado e a Câmara Federal. Então acho que a maior possibilidade que o edital nos deu foi tempo. Tempo para que a gente pudesse se dedicar a outras coisas e não estivesse só naquela luta eterna que nós mulheres pretas estamos pela sobrevivência”, finaliza.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Mulheres negras se reinventam a partir de apoio no enfrentamento ao racismo religioso

Ana Bartira e Mãe Jaciara encontraram no apoio do Fundo Baobá um respiro para seguir na luta contra o racismo religioso e se fortalecerem como lideranças

Por Jamile Araújo*

É no contexto de enfrentamento ao racismo religioso e intolerância religiosa que as histórias de Jaciara Ribeiro dos Santos, Iyalorixá do Axé Abassá de Ogum em Salvador (BA), e Ana Bartira da Penha Silva, assistente social, membro da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro)  e do Centro de Estudos Afro-Brasileiro Ironides Ribeiro (CEABIR), de Niterói (RJ), se interseccionam. As lideranças negras que atuam no segmento de enfrentamento ao racismo religioso foram contempladas pela 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

Apesar da laicidade do Estado brasileiro, e da garantia na Constituição de 1988 da liberdade religiosa, na prática essa liberdade está longe de ser plena. Nos últimos anos no Brasil houve aumento das denúncias de intolerância religiosa no Disque 100, canal de denúncias de violação de direitos humanos. Até outubro de 2021 foram realizadas 462 denúncias, um aumento de 90,9% em relação ao ano de 2020, onde 243 denúncias foram realizadas. Os números são da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), ligada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH)

Manifestado de diversas maneiras, desde depredações, incêndio de terreiros e violência física, ou assédio e perseguição em ambiente de trabalho e escolar, o racismo religioso está presente na vida dos povos e comunidades de axé. “O racismo religioso condena a origem, a existência, a relação entre uma crença e uma origem preta”, afirma Sidnei Nogueira, professor e Babalorixá, em seu livro “Intolerância Religiosa”, da coleção Feminismos Plurais. Ele defende que não se trata apenas do eixo religioso, que o racismo não incide apenas entre as pessoas pretas que praticam as religiões de matriz africana, mas sobre as origens, práticas e crenças da religião.  “É provável que o termo ‘intolerância religiosa’ seja mais aceito por conta dos mitos da democracia racial e da democracia religiosa (laicidade)”, acrescenta. Em seu livro, Sidnei também analisa os dados do disque 100 dos últimos anos, e confirma que as denúncias de intolerância contra pessoas das religiões de matriz africana correspondem à maioria das realizadas.

“Nossos passos vêm de longe”

Mãe Jaciara explica que desde os três anos de idade está dentro do candomblé, mas que se tornou ativista da luta contra a intolerância religiosa a partir da morte de sua mãe, a Iyalorixá Gilda de Ogum. Fundadora do Axé Abassá de Ogum, Mãe Gilda sofreu um infarto fulminante e faleceu, em decorrência do racismo religioso, em 21 de janeiro de 2000. “A Igreja Universal do Reino de Deus pegou uma imagem dela, que saiu na revista ‘Isto é’,  e colocou na Folha Universal com a tarja preta no rosto escrito ‘macumbeiros, charlatões lesam o bolso e a vida de clientes’”, relata.

Ela  também cita um ataque ao terreiro de candomblé e a sua mãe. “A Igreja Assembleia de Deus aqui na comunidade, invadiu o terreiro e tentou bater com a Bíblia na cabeça de minha mãe. Então são 21 anos da morte dela, e 21 anos que eu assumi esse papel de filha biológica, e que entendi que precisava denunciar esse racismo religioso”. Mãe Jaciara ressalta que foi um processo muito difícil,  porque teve que assumir o terreiro enquanto religiosa da comunidade e também se tornar uma mulher política ativista, sem nenhuma formação acadêmica ou preparação. “Mãe Jaciara é esta mulher que se reinventou a partir da dor da morte da mãe biológica”, diz.

Em sua trajetória no enfrentamento ao racismo religioso, Mãe Jaciara destaca a importância do diálogo inter-religioso bem como a necessidade de fortalecer a auto estima dos membros do candomblé. “Você não pode falar da sua dor só para o povo de candomblé, a gente deve levar isso para os espaços onde acomete essa dor para nós. Faço parceria com espíritas, com evangélicos, com pastores e padres. Tenho um trabalho de fazer roda de diálogo dentro do terreiro de candomblé, para orientar os nossos jovens a saber denunciar”, declara.

Ana Bartira Silva, conta que cresceu e se tornou adulta acompanhando a atuação de sua mãe, que foi militante do movimento negro na década de 80. “Ela participou do Centro de Estudos Brasil África (CEBA) e do Agbara Dudu, considerado o primeiro bloco afro do Rio de Janeiro. Além disso, fundou o CEABIR, organização que tem o combate ao racismo, machismo, sexismo, homofobia, violências e todas as formas de intolerâncias, como missão”. Ela explica que o CEABIR (Centro de Estudos Afro Brasileiro Ironides Rodrigues) é uma organização não governamental coordenada por mulheres negras, criada a partir da indignação e revolta após a chacina que vitimou sete moradores na favela da Coreia, no bairro da Engenhoca, em Niterói (RJ), no ano de 1989. “Fui me inserindo e influenciada desde a infância por minha mãe. E, atualmente, ainda continuo com ela à frente do CEABIR”, afirma. 

De acordo com Ana Bartira, sua participação na militância com os jovens de terreiros se iniciou por meio do Ogã José Marmo (in memoriam), que fundou a Renafro, motivado pela necessidade de criar um espaço público, político e democrático para jovens. O objetivo era proporcionar que estes jovens ocupassem o seu lugar de fala no que diz respeito à promoção da saúde, no seu sentido ampliado, no espaço de terreiro. “Em agosto de 2006 realizamos o primeiro Encontro Estadual da Juventude de Terreiros – RJ. Participei deste encontro como convidada, por ser uma jovem de terreiro. A partir desta data comecei desenvolver atividades e ações com esse público”.  

 

“Ajuda mágica para seguir”

Mãe Jaciara compartilha a sua felicidade em ter tido um projeto apoiado pelo Fundo Baobá e afirma que esse apoio é algo mágico, que vai muito além do apoio financeiro. “Ele vem como uma ajuda mágica que me deixou contaminada positivamente para seguir. Dá uma sustentabilidade, uma ferradura e arma na mão para eu seguir”, ressalta.

Ela relata que, após 21 anos de luta, percebeu que precisava sair do espaço do terreiro e ir para o mundo. “O projeto me deu essa possibilidade ao ser acolhida e escolhida em uma seleção que teve muitas mulheres inscritas. Já dá uma grande emoção ter sido escolhida para poder contar minha história e empoderar outras mulheres”. A Iyalorixá acredita que o apoio possibilitou como consequência, enquanto uma mulher de candomblé negra, o fortalecimento de outras mulheres em outros espaços.

Entre as ações realizadas durante a execução do projeto “Iyá Omi: O legado ancestral da Iyalorixá Jaciara Ribeiro na luta contra o racismo e a intolerância religiosa”, escrito por Mãe Jaciara, estão: o lançamento do coletivo nacional Iya Akobiodé – mulheres que transformam; lives do programa Candomblé e seus Caminhos; Campanha Mãe Gilda de Ogum 21 anos de Memória Ancestral, realizada todo dia 21 de cada mês; construção, diagramação e impressão da cartilha “Akoberê Aiyê – Racismo Ambiental e religião de matriz africana”; realização do II Festival de Oxum; reuniões de articulação política; articulação com Quilombo Caipora; entre outras atividades. 

Ana Bartira conta que, para ela, uma das etapas mais desafiadoras foi fazer o Plano de Desenvolvimento Individual, pois sua experiência sempre foi coletiva quando se trata de editais e apoios. “Então pensar um plano a partir da minha necessidade como mulher negra militante, ter a leitura do que o Programa tem para me oferecer, a partir da liderança, foi muito importante, desafiador e necessário”, diz.

Ana escreveu o plano no contexto das suas necessidade profissionais, e antes da pandemia seu objetivo era centrado na qualificação para ampliar a sua atuação política junto ao seu coletivo. A assistente social conta que uma das lições aprendidas é que “dentro de um todo é preciso nos colocar como prioridade também, pois ajuda muito na nossa saúde física e mental”.

Ao longo do Programa, Ana Bartira participou de diversas atividades: formações, oficinas, lives, rodas de conversa, cursos, podcast, atos e manifestações. “Nesses encontros tivemos a oportunidade de dialogar com expressivas intelectuais negras, dentre algumas delas: Sueli Carneiro, Érika Malunguinho, Lúcia Xavier, Magali da Silva Almeida, a jornalista Flávia Oliveira, Márcia Lima, Jurema Werneck”. A partir de sua participação no programa, um importante fruto foi conseguir transformar o CEABIR num Ponto de Cultura. Hoje o coletivo tem realizado palestras sobre cidadania, ancestralidade, identidade cultural, racismo e história afro-brasileira, oficinas de percussão, dança afro-brasileira para jovens, adultos, crianças e idosos.

 

“Sou como a haste fina que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta”

A pandemia de Covid-19 gerou consequências no desenvolvimento das ações previstas nos planos das lideranças. Ana Bartira diz que mesmo com as mudanças na programação, o suporte dado pelo apoio do Baobá foi importante para que ela enfrentasse o período. “A bolsa foi fundamental para atravessar este período de desemprego, fome, morte e adoecimento de pessoas por sequelas da covid-19. Pois apesar disso tudo, consegui manter minha saúde mental, física, emocional”, reforça.

Entre as dificuldades encontradas por Ana estavam o acesso a internet e a falta de domínio da informática. “Me reinventei em meio a pandemia, a fim de manter as atividades dos coletivos nos quais estou à frente. Apesar dos desafios encontrados, consegui boas articulações com outras lideranças negras, com jovens de terreiros e alcancei outros públicos nas redes sociais”, relata.

“Foi frustrante para mim a pandemia ter chegado, porque eu tive que reestruturar totalmente o projeto”, destaca Mãe Jaciara. Ela diz que, como a proposta era ir presencialmente em locais de vulnerabilidade, em comunidades quilombolas, comunidades de terreiro, o isolamento social impossibilitou essa interação. “Foi muito ruim porque tivemos que estar silenciadas, foi através desta plataforma, do notebook, do celular, dessas redes sociais que a gente conseguiu fazer alguma coisa. E também  ter de lidar com essa nova ferramenta, acho que não atingi muitas mulheres que eu queria, porque muitas comunidades não tinham acesso à internet”, comenta. 

A Iyalorixá diz ainda que mesmo assim foi interessante, porque não se deixou abalar psicologicamente com a frustração e a interação virtual com outras mulheres contempladas no edital a fortaleceu. “Achei que o Baobá foi muito feliz nos temas que foram trazidos para gente dialogar. O racismo, a intolerância religiosa, a violência contra mulher, e outros assuntos que deixou as pessoas mais conectadas umas com a outras”. 

Ambas destacam que a pandemia despertou o olhar para algumas necessidades como o resgate do autocuidado, construção e fortalecimento de espaços coletivos, acolhimento, escuta, fortalecimento de laços. Sobretudo, a percepção de que quando cuidam de si, estão cuidando também de outras. 

 

“Aprender a ler pra ensinar meus camaradas”

“O Baobá ficou tatuado em minha mente como algo projetor, como uma flecha para eu voar longe”, diz Mãe Jaciara sobre a sua participação no Programa. Ela conta que esta foi a primeira vez que teve apoio de um edital desse tamanho.

Mãe Jaciara está dando continuidade aos projetos. Em setembro foi inaugurado o primeiro terreiro de candomblé dentro do Quilombo Caipora, onde também serão construídas 16 casas para 16 mulheres que transformam a vida de outras mulheres. “A minha vontade é que essas 16 mulheres que transformam o mundo, possam realmente ser essa força de união para uma estar cuidando da outra”. 

Ana compartilha que se sente orgulhosa e emocionada por ter participado do Programa, considera que agregou muito conhecimento, oportunidade, experiência e troca. “A participação no Programa potencializou meu processo de desenvolvimento de habilidades de liderança. Fortaleceu minha capacidade de produzir ideias, conhecimentos, leitura política e inovações, que dão sentido ao verdadeiro ‘aquilombar-se’”.

Outro ponto levantado por ela é o de reconhecer que o trabalho que realiza enquanto militante deve ser valorizado. “Entender que é um trabalho profissional e que toma, de forma expressiva, grande parte dos meus dias, fortalece em mim a necessidade de reconhecer quem eu sou, o que eu desenvolvo, minha responsabilidade e capacidade no processo de formação da juventude negra”, pontua.

Ana escreveu  seu trabalho de conclusão de curso da Especialização de Direitos Humanos, Saúde e Racismo: Questão Negra, do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública (DIHS/ENSP) sobre o programa do Fundo Baobá. “No trabalho intitulado ‘O Programa de Aceleração de lideranças Femininass Negras Marielle Franco: potencialização do processo de empoderamento das mulheres negras’ analisei como este Programa contribuiu no processo de empoderamento das ativistas negras contempladas no período de 2020 a 2021”. Ela mapeou as atividades das ativistas negras inscritas, buscando compreender como elas contribuíram para o os processos de continuidade de militância e liderança negra. 

Mãe Jaciara e Ana afirmam terem saído fortalecidas do Programa, qualificadas e impulsionadas a ir além e construir novos projetos. “Até hoje esqueço e acho que ainda estou sendo apoiada pelo Baobá e pelo edital Marielle Franco, mas não no financeiro, e sim nessa contaminação, dessa vitamina, que ficou em mim. Parece que eu tomei uma injeção e está no meu DNA, que é acreditar que nós mulheres pretas, especialmente de candomblé, somos mágicas, somos capazes de transformar as nossas vidas e de outras mulheres”, finaliza Mãe Jaciara.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Programa de Aceleração Marielle Franco inspira lideranças femininas ao engajamento proposto pelo Dia Internacional contra a Discriminação Racial

“Nós, mulheres negras, somos a vanguarda do movimento feminista nesse país. Nós, povo negro, somos a vanguarda das lutas sociais deste país,  porque somos os que sempre ficaram para trás, aquelas e aqueles para os quais nunca houve um projeto real e efetivo de integração social.”  A frase da filósofa, escritora, ativista do movimento negro brasileiro, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra e uma das fundadoras do Fundo Baobá para Equidade Racial, Sueli Carneiro, retrata de forma fiel o que tem marcado, ao longo da história, a busca pelos direitos de igualdade na sociedade brasileira..

As mulheres têm tido papel preponderante nessa busca, pois além de se posicionarem e lutarem pelos direitos de todas, todos, todes , têm buscado e alcançado vitórias, mas ainda há muito a conquistar contra o racismo estrutural e a desigualdade social. 

O Dia Internacional contra a Discriminação Racial foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para ser uma espécie de lembrete pela conscientização contra o racismo em todo 21 de março. Ele tem origem a partir do massacre ocorrido em Shaperville (Joanesburgo), na África do Sul, também em  21 de março, mas em 1960. A população negra saiu às ruas protestando contra a Lei do Passe, que a obrigava a só circular apenas por locais pré-determinados. Mesmo sendo uma ação pacífica, a polícia sul-africana abriu fogo contra os manifestantes. Morreram 69 pessoas, mulheres e homens, e outras 186 ficaram feridas. Essa é a informação oficial. Os números podem ser bem maiores. 

O racismo anda de mãos dadas com a morte, pactua com a violência e é amigo íntimo da opressão. Sempre foi assim. Continua sendo assim no mundo moderno. A conscientização relacionada ao respeito ao outro, independentemente de sua cor, religião, raça, orientação sexual ou identidade de gênero ainda não contagiou toda a  humanidade. Mas sua influência está crescendo. As manifestações ocorridas ao redor do mundo após a morte do negro norte-americano George Floyd e da negra norte-americana Breonna Taylor, ambos assassinados por policiais, lançam uma luz de esperança na busca por uma sociedade em que a equidade racial seja exercida por todos, todas e todes. 

George Floyd e Breonna Taylor, ambos assassinados nos Estados Unidos

Lucia Xavier, assistente social, ativista dos direitos humanos no Brasil,  coordenadora-geral do Criola, organização social que trabalha na defesa dos direitos das mulheres negras, afirma que o racismo impede toda forma de desenvolvimento. “Enquanto houver racismo não haverá democracia. Para que a população negra alcance a equidade faz-se necessário enfrentar o racismo, a discriminação racial e as formas correlatas de intolerância, efetivando direitos e estabelecendo políticas de ações afirmativas para dirimir as desigualdades. Além de alcançar o acesso e a participação nos espaços de decisão e deliberação”, disse. 

Lucia Xavier, assistente social, ativista dos direitos humanos no Brasil,  coordenadora-geral do Criola

Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco

A fala de Lucia Xavier remete ao que foi escrito e dito pela administradora, doutora em Ciências Sociais e também fundadora do Fundo Baobá, Luiza Bairros: “Não se trata mais de ficarmos o tempo todo implorando, digamos assim, para que os setores levem em conta nossas questões, que abram espaços para que o negro possa participar. Essa fase efetivamente acabou. Daqui para a frente, vamos construir nossas próprias alternativas e, a partir dessas alternativas, criar para o povo negro como um todo no Brasil uma referência positiva”. Se estivesse viva, Luiza Bairros teria completado 63 anos de idade no dia 27 de março.

O Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco , lançado pelo Fundo Baobá em 2019 em parceria com a Ford Foundation, Open Society Foundations, Instituto Ibirapitanga e W.K. Kellogg Foundation, surge à luz da alteração. O principal objetivo do Programa de Aceleração é ampliar a participação e consolidar mulheres negras cis e trans em posições de poder e influência, através de investimento em suas formações políticas e técnicas. 

As ações desenvolvidas pelo Programa de Aceleração foram a sustentação para que a professora de Comunicação e Empreendedorismo, gerente de projetos e co-fundadora do projeto Ecociclo, a baiana Hellen Caroline dos Santos Sousa, colocasse suas ideias na rua e com muito sucesso. A Ecociclo foi criada a partir da ideia de desenvolvimento de um absorvente 100% biodegradável e brasileiro. “Em 2019 a Universidade de Michigan (EUA) nos convidou para apresentar lá o nosso plano de negócios”, disse Hellen. Além do desenvolvimento do Ecociclo, o apoio do Marielle Franco fez surgir uma nova Hellen Caroline. “O trabalho do Fundo Baobá tem sido justo, maravilhoso e honesto. É a primeira vez que o Brasil tem algo tratado com tanto cuidado, como tem que ser para nós, mulheres pretas. Algo que nos dá ferramentas e a oportunidade de escolha sobre o que fazer com essas ferramentas. Além do que, foi a primeira vez que eu pude pensar a minha vida com estratégia”, afirmou. 

Hellen Caroline dos Santos Sousa, professora de Comunicação e Empreendedorismo, gerente de projetos e co-fundadora do projeto Ecociclo

Lucia Xavier enaltece a importância do Programa Marielle Franco para o coletivo de mulheres negras brasileiras. “É uma das mais importantes iniciativas em prol das mulheres negras no Brasil. Além de ser a maior ação afirmativa para o desenvolvimento de habilidades, profissionalização, participação cívica e de empoderamento de jovens mulheres negras cis e trans. O programa traz como marca política o apoio aos projetos de vida e o fortalecimento das lideranças, transferindo também tecnologias sociais para o desenvolvimento de ações, o enfrentamento do racismo patriarcal  cis-heteronormativo”, afirmou. 

Os objetivos do Programa de Aceleração Marielle Franco possibilitaram à pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal do Acre, Sulamita Rosa, da Rede de Formação para Mulheres Negras, Indígenas e Afro-indígenas do Acre,  implementar seu PDI (plano de desenvolvimento individual).  “Trabalho com formação para enfrentar o racismo e contribuir com a inserção de mulheres negras nos espaços de poder, com foco no ambiente acadêmico”, disse. Desde que iniciou seu trabalho, a proximidade e a influência sobre outras mulheres têm sido suas maiores conquistas. “O reconhecimento das outras mulheres e os feedbacks com relação a continuar nesse meu sonho têm me incentivado muito”, revela.

Sulamita Rosa, pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal do Acre e integrante da Rede de Formação para Mulheres Negras, Indígenas e Afro-indígenas do Acre

 

Combate às questões de vulnerabilidade

No contexto do Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, a luta das mulheres tem foco também no combate ao sexismo e outras questões que as colocam em situação de vulnerabilidade. Lucia Xavier cita a Carta das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver como o guia nessa luta. “Na carta, o movimento de mulheres negras declara as diferentes reivindicações no campo dos direitos, mas entra também nas possibilidades de inverter o padrão dessa civilidade que convive pacificamente com o racismo e as desigualdades raciais”, argumenta.  Já em termos de avanços, Xavier fala dos diferentes focos nos quais as futuras conquistas estão centradas: “As estratégias políticas adotadas para enfrentar o racismo patriarcal cis-heteronormativo são aquelas relacionadas à incidência política por direitos; o fortalecimento das mulheres negras cis e trans e suas organizações; a mobilização política; a articulação com diferentes setores da sociedade brasileira e internacional para ampliação da luta contra o racismo; a disseminação do pensamento das mulheres negras cis e trans; e a mudança do padrão  desumano, excludente, violento e hierarquizante das civilidades”, afirma.  

Ativismo antirracista

Para o escritor Oswaldo Faustino, autor de A Legião Negra – A Luta dos Afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 e  Nei Lopes – Retratos do Brasil Negro, Shaperville marcou o início de uma grande jornada de conquistas em todas as vertentes em que ocorria a discriminação por cor, raça e sexo. “O Massacre de Shapeville é um marco não só na história da luta contra o Apartheid sul-africano, mas na própria luta antirracista e contra as discriminações de todos os gêneros no mundo todo,  em especial nos países onde a diáspora africana aconteceu em números mais expressivos. Ele mudou a postura do Congresso Nacional Africano (CNA), que pregava a não violência frente aos ataques policiais, gerou manifestações internacionais de consciência racial  e angariou solidariedade pela causa negra em povos dos cinco continentes”, afirmou Faustino.

Escritor Oswaldo Faustino

Quem legitima a liderança de uma mulher negra evangélica?

Conheça a trajetória de Vanessa Maria, liderança da Rede de Mulheres Negras Evangélicas

Por Brenda Gomes*

Vanessa Maria Barboza, 32, desde muito nova teve contato com a religiosidade praticada pela sua família. Foi dentro da igreja evangélica que aprendeu valores cristãos que a acompanham até hoje. Foi lá também que começou a sentir a necessidade de questionar as estruturas que ajudaram a formar as suas experiências, não somente com a espiritualidade, mas também como mulher negra.

“A igreja me ajudou a pensar sobre minha existência neste plano. A religiosidade sempre fez parte da minha vida. Mas, tem uma hora que você para e pensa: ‘será que está tudo certo, mesmo?’ Foi quando eu comecei a perceber que tinham coisas ótimas, dentro do contexto religioso, mas que a minha formação neste espaço, foi construída a partir da lógica da branquitude.”

Assim como Vanessa, a história de muitas mulheres negras brasileiras é marcada por vivências em igrejas evangélicas. Segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha, no final de 2019, cerca de 31% dos brasileiros são evangélicos, dentre estes 58% são mulheres, entre as quais 43% se identificam como pardas e 16% como pretas, totalizando 59% de mulheres negras. Levando em conta dados como esses e as vivências de mulheres negras dentro das igrejas, que em 2018, Vanessa fundou a Rede de Mulheres Negras Evangélicas – RMNE, um movimento que começou em Recife (PE), mas que se estendeu por todo o país. O grupo, formado por 110 participantes e 35 lideranças ativas, se propõe a fazer releituras das experiências espirituais a partir de uma perspectiva que leve em conta as perspectivas de raça e gênero, além de discutir políticas públicas e de bem viver para mulheres negras. 

Apesar de ocupar um espaço de liderança no grupo, o lugar de “líder” sempre foi questionado por Vanessa. Questionamentos que foram aprofundados durante a jornada de autoconhecimento proporcionada através do incentivo ao participar da 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

“Eu me perguntava sempre que tipo de liderança eu era, e quem legitimava a minha liderança. Porque o racismo está em todas as áreas; na vida da gente, nos meios sociais, nas discussões e também no meio evangélico”, conta Vanessa, que é também assistente social. Ela diz que o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) foi muito importante para saber que o trabalho que desenvolve com o movimento progressista evangélico não está desfocado da luta antirracista, “e nem da luta coletiva das mulheres negras, essas percepções eu fui amadurecendo ao longo do Programa”, completa. 

O edital foi visto por Vanessa como uma possibilidade de dar alguns passos em sua trajetória profissional. Por isso, utilizou o recurso para subsidiar realização de cursos de aprimoramento e aquisição de equipamentos para auxiliar sua pesquisa acadêmica, que tinha como foco os grupos de mulheres evangélicas, em especial a RMNE. Para a assistente social foi também a possibilidade de pensar em sua trajetória individual.

“Eu sempre pensei em coletivo nos espaços que eu estava inserida, mas com o apoio do Baobá eu consegui pensar em mim enquanto sujeito que tem suas individualidades e histórias. Esse recurso foi uma virada de chave para Vanessa”, relata. 

Dentre as atividades que foram desenvolvidas para as mulheres apoiadas pelo Fundo Baobá, estava o encontro das lideranças. Momento que inicialmente foi utilizado para trocar experiências sobre os trabalhos desenvolvidos, mas que por conta do cenário pandêmico, se transformou em uma rede de apoio e acolhimento. 

“Quando eu me aprofundo e vou trocando experiências com outras mulheres, eu consigo ter uma visão mais amadurecida da minha trajetória. Percebo que, como talvez a única liderança que traga esse recorte religioso evangélico, dentro do grupo, eu preciso ser mais estratégica e generosa comigo e com minhas ancestrais. Ouvir outras companheiras me fez perceber que meu trajeto não deixou de ser marcado pelo racismo e machismo apenas porque sou de uma religião que é aceita pela sociedade, meu corpo ainda é de uma mulher e negra”.

 

Cidadania, fé e política

Entre os resultados apresentados por ela está o Relatório Cidadã de Fé, que teve como objetivo conhecer as noções de cidadania e acesso a direitos de mulheres evangélicas. “Eu já havia iniciado uma pequena pesquisa exploratória sobre cidadania, com algumas mulheres evangélicas. E com o apoio do Fundo Baobá eu consegui fazer o relatório final dessa análise, que ainda que pequena, demonstra um pouco desse universo”, conta. 

A pesquisa foi realizada através de entrevistas com mulheres dos estados de Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba, Alagoas e uma participante brasileira nos Estados Unidos. Todas com idades entre 18 e 63 anos. Apesar de demonstrar que a maior parte das entrevistadas possuem nível superior, 64% destas nunca fizeram uma formação específica sobre cidadania, 43% de todas respondentes consideram saber pouco sobre o assunto.

Em um cenário de eleições municipais (2020), a pesquisa ainda provoca reflexões em torno da influência que a organização religiosa tem sob o eleitorado, o chamado “voto de cajado”, que configura o uso do poder clerical para impor o voto da comunidade religiosa. “As representações evangélicas têm crescido nos espaços políticos, mas quem são essas pessoas? Elas de fato representam os evangélicos? Os representantes políticos evangélicos não representam esse grupo [negras evangélicas] nem nos seus corpos e nem do princípio do ponto de vista democrático. Se questionar sobre esses pontos também é pensar sobre cidadania”, explica Vanessa. 

Os primeiros relatos do movimento evangélico na política brasileira foram na década de 60, mas só tiveram uma presença mais efetiva no sistema político do país a partir da década de 80, quando as igrejas tiveram a inclusão de mais parlamentares cristãos. Nos últimos anos, a atuação da Bancada Evangélica, na Câmara dos Deputados, tem se mostrado com bastante força, o avanço na aprovação de pautas mais conservadoras que barram direitos conquistados pela comunidade LGBTQIA+ e das mulheres é um exemplo disso.

Como mestra em educação e culturas, Vanessa atribui que o poder desses grupos é estruturado em ações que, apesar de se demonstrarem como uma forma de incentivo à educação, apresentam uma “perspectiva colonizadora da mente”.

“Existem muitas pessoas que foram alfabetizadas a partir de projetos de igrejas cristãs, imagine o que essas pessoas aprenderam além da língua portuguesa? Algumas aprenderam uma interpretação fundamentalista da bíblia. Esse é um fenômeno social que vem acontecendo há anos, que muitas vezes encontram solos férteis em determinadas denominações que têm um projeto de poder político, que cooperam com a estrutura racista da sociedade.”

Sankofa e saúde mental

Quando resolveu submeter um projeto de mestrado na Universidade Federal Rural de Pernambuco, em 2017, Vanessa não imaginava que durante o processo de pesquisa ela passaria por um cenário de crise pandêmica. No final da especialização, os desgastes físicos e emocionais atravessaram a jornada acadêmica. Com esse contexto, os recursos do Fundo foram redirecionados também para cuidados com a saúde mental e próprio sustento. 

“Quando começou o lockdown eu tive uma crise de pânico, justamente pelas incertezas e instabilidade daquele momento. Eu estava desempregada, estava bem mal financeiramente. O recurso ajudou a cuidar da minha saúde mental e da minha subsistência naquele momento”, conta. 

Distanciamento social, perda de parentes e amigos, incertezas sobre o futuro e a rotina reconfigurada pela crise sanitária mundial afetou o estado emocional dos brasileiros. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Fórum Econômico Mundial, em abril de 2021, os brasileiros ocupam a quinta posição entre os que mais sentiram uma piora na saúde mental durante o último ano, 53% das pessoas entrevistadas apontaram que a saúde mental piorou desde março de 2020.  

Para Vanessa a psicoterapia mostrou que, além dos efeitos do contexto de pandemia, os traumas adquiridos durante a vida, por conta do racismo, também influenciaram no adoecimento mental. “Na terapia eu pude entender mais como os impactos racistas, que eu sofri durante toda a minha vida, impactam a minha existência. Como o contexto, tantas vezes, fundamentalista e conservador, serviu para o apagamento da minha negritude”. 

Nessa trajetória de aceitação do seu lugar de liderança, a pernambucana também sentiu necessidade de refazer e de construir alguns caminhos para entender melhor a sua identidade. O PDI possibilitou que Vanessa realizasse um curso na área de gestão de projetos na cidade de São Paulo, onde reside a sua família paterna. Ela não tinha proximidade e essa mudança possibilitou-a se conectar com a sua ancestralidade.

“Com essa reconexão com eles, percebi o quando o racismo afeta nossas vidas em uma perspectiva intergeracional. Eu leio isso em artigos e textos, mas quando vejo que isso trouxe para mim traumas e danos emocionais que afetam na minha construção de ser menina e mulher negra, eu venho tentando reconstruir esse processo”, conta. 

Para as pessoas negras a recuperação dessa ancestralidade é o ponto de partida para a luta antirracista. Para as mulheres negras evangélicas, que sofrem a intersecção das opressões racial e de gênero, esse caminho de reconexão permite que o racismo e o machismo não sejam naturalizados dentro da sua espiritualidade.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

“Saúde mental é uma questão política”, defende a psicóloga e ativista Joice dos Santos

Joice Silva dos Santos, liderança apoiada pelo Programa Marielle Franco, fala sobre sua trajetória e seus processos durante a pandemia

Por Giovane Alcântara*

Nascida em Jacobina (BA), Joice dos Santos reside há oito anos no estado do Piauí. Migrou para o estado com o objetivo de cursar Psicologia e hoje é mestranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Conversamos com Joice Silva sobre seu caminho dentro do ativismo; pandemia e os impactos para a saúde mental da população negra. Joice é uma das liderança apoiadas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

Na vida de Joice dos Santos, a pauta da psicologia chega muito tempo depois do ativismo. “Enquanto pessoa negra, enquanto mulher negra, não-heterossexual, a pauta do ativismo é uma pauta que se encontra aliada à pauta da sobrevivência”, comenta. “Eu escolhi fazer psicologia porque eu entendia, e entendo, que o racismo produz um modo de adoecimento muito característico em pessoas negras. Meu interesse era entender como isso acontece, para desenvolver técnicas de cuidado para pessoas negras em meio a um mundo racista que os adoece frequentemente.” completa. 

Além de ser psicóloga, Joice também é especialista em cabelos naturais e atua como cabeleireira afro. Ela nos contou como o processo pandêmico a atingiu e como o Baobá contribuiu positivamente para passar por esse processo.

 

  • Como o processo pandêmico te atingiu enquanto mulher negra e liderança? E como o Fundo Baobá contribuiu para o seu processo?

A pandemia me atingiu em termos financeiros, que é o impacto de modo inicial que qualquer pessoa sente, se não tiver renda. Então, por exemplo no meu mestrado, devido aos cortes do desgoverno, não tem bolsa para nenhum estudante de nenhuma categoria. Se naquele momento eu não tivesse o apoio do Baobá, o mínimo teria faltado porque eu não poderia trabalhar, o salão estaria fechado devido a pandemia. Foi muito importante ser uma das escolhidas para ser financiada porque garantiu que, minimamente, eu tivesse onde morar, o que comer, pra que eu me mantivesse no mestrado. Porque se eu tivesse que escolher entre sobreviver e mestrado, óbvio que eu iria escolher sobreviver. Fora isso, estrutura. Eu pude investir numa mesa de trabalho; numa cadeira confortável para produzir; investir em curso de inglês, que estava previsto no meu projeto; pude investir e adaptar coisas que parecem pequenas, mas que são importantes. E o mais importante: pude investir em acompanhamento psiquiátrico e psicológico.

  • Quais os efeitos da pandemia para pessoas negras, e o que fazer para que a saúde mental desse grupo seja preservada?

A pandemia não é o problema que causa o racismo, a gente precisa entender que ela é um catalisador que age sobre um problema que já existia. E, como esse problema já existia de forma crônica e grave, ele só piora. Não é na pandemia que surge o racismo, nós sempre estivemos em pandemia. A população negra sempre esteve em toque de recolher, sempre esteve em pânico, sempre esteve sem saber se vai sair pro trabalho e vai voltar ou não. A primeira parte é entender isso, a gente não resolve a pandemia, a gente cria práticas de emergências. 

Pensando nessa perspectiva não é nem solucionar, mas criar outra forma de existência. É a gente voltar pra questão que gera o cenário pandêmico atravessado completamente pelo racismo. Não somos nós, pessoas negras, que racializamos o mundo, são as pessoas brancas que racializam o mundo. As coisas sempre estiveram acontecendo, a diferença é que a pandemia catalisou e aumentou a divulgação. 

  • Existe algum caminho de fortalecimento para que esse momento seja menos denso e tenso para a população negra? E você pode se incluir nesse processo… O que você fez para que esse momento fosse um pouco menos tenso para você? Se é que ele foi um pouco menos tenso para você, pensando a pandemia como catalisador de emoções  e de outras problemáticas sociais que atingem o mundo.

Alguns momentos e algumas coisas são impossíveis de torná-las menos horríveis. A gente vive num momento social de muita positividade tóxica, as invenções das fórmulas perfeitas para felicidade, para você passar no concurso, para ficar magra, para ter um desempenho sexual incrível. E isso, lógico, acontece também no campo da saúde mental. Algumas coisas são horríveis e a gente não pode fazer nada sobre isso.  A gente faz o que então? Acolhe a demanda de sofrimento. A gente não consegue mais acolher as demandas de sofrimento, então quando alguém está sofrendo, nós nos resolvemos em soluções temporárias, que é pra tapar o sofrimento dela. Para ela parar de sofrer, porque não suportamos mais escutar aquele sofrimento. Nas últimas décadas temos perdido a habilidade de sustentar o sofrimento dos outros, ouvir… então a primeira pauta é que a gente consiga sustentar. 

Resolveria grande parte do meu estresse em meio ao meu surto psicológico (psicólogos também surtam porque são pessoas) se eu soubesse que meu aluguel seria pago. Que o auxílio emergencial fosse calculado com base minimamente no que seria necessário para uma pessoa comer, morar, beber água e viver num cenário pandêmico. Saúde mental é uma questão política, assim só é possível garantir saúde mental para as pessoas se elas tiverem o mínimo. E o mínimo não foi dado, esse mínimo não está sendo dado.

  • Na sua trajetória enquanto mulher negra e enquanto pessoa articulada politicamente, ativista da raça, do gênero e da sexualidade, quando você percebeu que era necessário você se cuidar? Se autopreservar?

Essa é a parte mais difícil, mulheres são criadas para ser cuidadoras, e mulheres negras são criadas para ser cuidadoras e servas dos outros. Nós somos fortes e aguentamos muitas coisas, dentro dessa lógica, nós acreditamos que precisamos aguentar. Então, praticamente no meu caso, e de outras mulheres negras, a gente não percebe e adoece. Estamos falando de um estado mental de sobrecarga. De que essas mulheres negras têm várias funções: são mães, são trabalhadoras, são esposas, são ativistas. E o ativismo demanda muito, porque a gente tá lutando por uma questão que nos afeta diretamente, e a outras pessoas como nós. Eu fiz um artigo na pós-graduação onde questiono a maneira como a militância se organiza né?! A gente tem que parar de ter uma militância messiânica. A gente precisa entender que a militância precisa ser uma coisa co-construída, com poder, destaque, democraticamente distribuído, ou sempre vão haver pessoas sobrecarregadas.

  • Nesse processo, a articulação com outras pessoas, instituições, organizações é muito importante. Durante esse período de financiamento do Baobá você conseguiu se articular com outras mulheres que estavam participando do Programa Marielle Franco, ou fora do programa?

Sim, uma das minhas propostas era fazer um mapeamento das lideranças do meu território e transmitir para elas o conhecimento que eu estava adquirindo. A primeira fase era o mapeamento e depois o compartilhamento dos conhecimentos. A ideia era que fosse presencial, mas como a pandemia chegou, isso foi feito de maneira online. Foram várias lives, grupos, várias rodas de conversa online em que lideranças de diversas áreas eram convidadas a participar e contribuir. Eu sempre digo isso, o ativismo me manteve saudável, apesar da sobrecarga. Porque esses encontros serviam como momento catártico. É muito difícil você ficar em casa se organizando sozinha, quando você vai pros encontros, aquele encontro ressignifica sua caminhada. Ele faz com que você entenda que você não está caminhando sozinha para aquele lugar, que existe motivo real para você continuar caminhando, e que existe outras pessoas caminhando com você, mesmo que em outros lugares. Essa é a principal potência dos encontros. 

  • Você conseguiu cumprir todos os seus objetivos estabelecidos no projeto?

Acho que acabei alterando os objetivos. Um dos meus objetivos era um intercâmbio. Eu queria ir pra África do Sul, fazer uma capacitação de inglês lá, mas foi alterado devido a pandemia. Então foi adequado para o curso de inglês. Em relação ao que era meu principal foco, o mestrado, está em processo de conclusão. Vamos ver se eu consigo concluir porque meu quadro psicológico se agravou bastante e eu não conseguia produzir. Graças ao Baobá eu pude pagar psiquiatra e psicólogo pra me acompanhar nesse processo. Agora que eu colhendo os frutos de conseguir voltar a produzir, porque a escrita não é uma coisa automática, você se implica naquilo ali. Para “me ajudar” – porque já não bastava os problemas que eu tinha como ativista – minha dissertação pauta diretamente o racismo na pandemia, isso gerou um estado muito pesado, eu não conseguia abrir meu documento word porque eu não aguentava mais tanto sofrimento. Isso dificultou meu processo de produção, então, atualmente eu estou recorrendo a ter mais tempo para concluir esse mestrado, no caso, apresentar a última fase e defender, se tudo der certo nesse semestre.

  • Qual a importância de iniciativas como esta do Programa de Aceleração? 

Sobre a importância é muito louco, né?! Nas primeiras reuniões das mulheres escolhidas existia uma grande dificuldade, teve umas lives explicativas e eu entendi. Mas no começo era difícil entender o que o projeto era pra nós. Então, todas as mulheres apresentaram dificuldade para entender que esse dinheiro não era pra fazer uma feira, fazer mil cursos para outras pessoas. Esse dinheiro era pro auto investimento único e exclusivo em si mesma, enquanto liderança. Esse foi meu primeiro choque. Eu não consegui compreender. É difícil para uma mulher negra entender que esse dinheiro é todo pra ela, pro investimento na nossa capacitação, isso foi muito marcante.

O dinheiro que é investido nas lideranças, não impacta unicamente na vida dessas mulheres. Como elas são lideranças, esse dinheiro vai reverberar nas ações que elas vão produzir dali pra frente para com outras mulheres negras, pra crianças negras, pra sociedade de maneira geral. Então, o pacto para equidade racial que o Baobá se propõe e a gente compreende, é uma estratégia. Eu preciso de pessoas negras ocupando cargos de liderança, para que nesses cargos, elas consigam fazer mudanças necessárias para que o mundo exploda e a gente crie outro mundo. Para mudar o mundo, para que o mundo tenha equidade racial e que a gente consiga viver de forma justa, digna, enquanto pessoas negras. Essa é a importância do Programa Marielle Franco.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

A ativista pernambucana Jéssica dos Santos aponta os desafios da construção de políticas públicas para as juventudes

Apoiada pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, do Fundo Baobá, Jéssica Vanessa dos Santos desenvolve projetos de fomento à formação política de jovens

Por Jamile Novaes*

Jéssica Vanessa dos Santos é natural da cidade de Buíque, em Pernambuco. Aos 26 anos, atua em prol da construção de políticas para a juventude na região metropolitana de Recife. É ativista pelos direitos humanos e tem trajetória como mobilizadora e educadora popular. Durante quatro anos fez parte do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Juventude do Recife (CMPPJ). Tem participado e ajudado a construir diversas iniciativas que impulsionam a atuação política de jovens e mulheres negras, como o projeto Juventude Negra e Participação Política, o Movimento Mulheres Negras Decidem e o projeto Emergências Políticas Jovens, do Instituto Update. 

Jessica é uma das contempladas da 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. A militante de políticas para as juventudes conta como foi o processo de ser bolsista do Baobá, e como os desafios impostos pela pandemia afetaram o percurso de seu projeto. 

 

Reprodução: Instagram

 

  • Qual foi o start da sua trajetória política? Como você despertou para essa necessidade?

Eu participei de um curso que era do CCJ Recife, o Centro de Comunicação e Juventude. Eles ofereciam curso de fotografia, audiovisual, design gráfico, cinema… Abriu um leque, porque o CCJ além de oferecer o curso de fotografia, a gente tinha uma formação sobre direitos humanos e educação popular. Também através da Ong Diaconia, que apoiava esse projeto do CCJ e tem uma trajetória de formação e diálogo com jovens, tanto da igreja quanto de fora. Então fui convidada para participar de seminários. Tinha temas ligados à juventude, direitos humanos, e eu fui me apropriando um pouco mais desse espaço. Até porque, pelo que eu conseguia ter de informações da televisão, “direitos humanos eram para bandido”, então eu fiquei um pouco curiosa para entender. Eu pensava “o que eu vou fazer lá?”. Então teve uma inquietação minha e pra mim era tudo muito novo, eu era muito nova. Foi diante desse espaço que eu consegui me entender e me observar.

Depois de acabar o curso a gente teve algumas viagens para participar de seminários e foi onde eu consegui compreender as temáticas e participar. Foi aí que eu entrei no Movimento Negro Unificado, o MNU, onde eu tive uma educação racial participativa que me ensinou muita coisa, sabe? Eu fui conhecendo outras redes, outras ações e eu não parei mais.

  • Quem são as suas principais referências políticas?

Antonieta de Barros, Benedita da Silva, Vilma Reis, Taliria Petrone, Marielle Franco, Renata Souza, Mônica Francisco, Dani Monteiro, Erica Malunguinho, Erika Hilton, Robeyoncé Lima. Eu acho que pesa mais Marielle, pelo fato de eu ter conhecido ela, ter tido a oportunidade de participar de uma atividade, estar junto.

  • Assim como todas essas mulheres, eu imagino que a sua trajetória enquanto ativista política também já vem causando impactos sobre outras jovens e mulheres negras. Você consegue perceber isso?

Eu dei uma oficina dentro da Funase (Fundação de Atendimento Socioeducativo / Pernambuco) e teve um jovem que ficou muito agarrado comigo durante a oficina inteira. Ele era curioso e queria saber sobre o tema que a gente tava falando, sobre direitos da juventude, direitos humanos. Ele também entendia que direitos humanos era só para bandido e coisa e tal.  Depois que saiu, ele me achou nas redes sociais e mandou uma mensagem falando: “Obrigado por ter ido fazer aquela palestra. Hoje eu estou trabalhando e tudo mudou totalmente depois que vocês foram lá. Hoje eu saí da Funase e tenho outra perspectiva de vida. Voltei para a escola e quero fazer enfermagem. Quero ir para a universidade”. Marcou muito o fato de eu ter ido falar da minha trajetória e vivência, levar um pouco do conhecimento que eu tenho, um pouco da bagagem, e poder transformar. Para mim é muito importante essa construção, essa troca. 

Semana passada eu recebi uma mensagem de uma jovem parlamentar me dando os parabéns pela minha trajetória. Isso porque eu estou enquanto pesquisadora do Update (Instituição da sociedade civil que atua na pesquisa e fomento de iniciativas de inovação política da América Latina), fazendo muito conteúdo de texto, card, live. Eu escrevi um texto falando sobre a radical imaginação política da juventude brasileira e ela me mandou um feedback muito massa sobre como é difícil a gente, enquanto jovem, colocar para fora o que a gente pensa, o que a gente entende, o que a gente quer. Ela falou que vai começar a fazer esse exercício de colocar também a narrativa que ela entende, que ela quer.

  • Quais são as principais demandas de juventudes no Brasil atualmente?

Eu acho que é a questão do trabalho. Não dá pra pensar em outra coisa que não seja a relação trabalhista. A gente tem 92% de jovens que estão trabalhando informalmente, seja entregando alimentos, trabalhando em comércio de feiras ou em plataformas de metrô e ônibus. Quando você pega o metrô você vê claramente o jovem vendendo água, pipoca… Então no momento a questão é o trabalho que está faltando. Quando se coloca uma oportunidade pedem tanta formação que o jovem que acabou de sair da universidade não consegue nem o estágio, porque estão pedindo muita coisa. As pessoas precisam se sustentar, pagar contas e o desemprego está enorme.

  • Quais os principais desafios para se pensar em políticas públicas de juventude e para a juventude?

A construção da política em si já é um pouco distante da nossa realidade. Quando se coloca jovem, participação política e ativa, a gente falando de impossibilidade de um jovem dentro da periferia ter esse entendimento. Foi o que aconteceu comigo: durante quatro anos eu  fui conselheira municipal de juventude aqui no Recife e eu consegui perceber o distanciamento do poder público com a sociedade civil. A gente tinha que sempre cobrando a prefeitura, o município, o secretário: “cadê o tal orçamento?”. Precisava ter um plano para que a gente pudesse ter pelo menos um recurso mínimo para construir e debater a política  do município junto com a juventude, e a grande discussão era o orçamento público. Para você ter ideia, a secretaria tem só R$5 mil para fazer as atividades anuais. Como a gente faz para que outros jovens possam participar do conselho? Porque é através do conselho que você faz a construção com a secretaria, é através do conselho que os jovens podem levar as demandas da sua comunidade, sabe? Há um distanciamento muito grande. Não dá pra gente falando de juventude sem ter jovem no meio.

  • Como foi o seu processo de inscrição no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco?

O Programa Marielle Franco veio pra minha vida de forma relâmpago. Eu tinha acabado de participar do Ocupa Política aqui em Recife, mais ou menos em agosto de 2019, e eu pude conhecer várias iniciativas, várias parlamentares. E depois disso eu pensei “poxa, tem tanta gente massa fazendo tanta coisa bacana. Por que as pessoas dizem que política não presta? Quando a Talíria (Petrone) no Congresso fazendo um mandato muito bom, a Áurea Carolina também . O Ivan está fazendo um mandato participativo aqui em Recife, fazendo prestação de contas do próprio mandato”. Daí eu conheci Daiane Dultra, que é uma pessoa maravilhosa, e foi ela quem me mandou o edital. Só estava faltando 5 dias para fechar o edital. A escrita do projeto não foi solo, foi coletiva. Teve outras pessoas envolvidas: o Bruno (Vieira), a Débora (Brito), a Mayara (Santana), [ativistas e amigos pessoais de Jéssica, que colaboraram com a elaboração e execução do projeto]. Essas pessoas ajudaram tanto na escrita, quanto na produção do vídeo, no envio do projeto. Eu fiquei muito receosa pensando que eu não tinha essa capacidade toda. Eu não sou acadêmica ainda, mas tenho um grande currículo de experiência e trajetória e Daiane me disse que não é isso que vale, que o importante era eu escrever a minha história e a minha proposta.  Durante os cinco dias a gente se falava de madrugada e foi daí que a gente foi pensando coletivamente em fazer uma caravana dentro das comunidades aqui em Recife, dialogar com as juventudes sobre as problemáticas em relação ao território, à participação social ativa. Essa seria a primeira parte e depois eu faria um tour para conhecer os mandatos, ir para Brasília conversar com a Áurea e a Talíria. Ir para São Paulo dialogar com a Érica Malunguinho (que é a primeira mulher negra trans a ocupar a assembleia legislativa de SP), ir no Rio de Janeiro conversar com a Dani Monteiro (a primeira jovem negra eleita deputada estadual pelo PSOL), ir para Salvador conversar com outras mulheres, ir para Minas Gerais… Então, a gente ia fazer uma pesquisa e depois lançar uma plataforma com todas as narrativas que a gente obteve durante o processo de viagem.

  • Você disse que a ideia inicial do seu projeto era fazer uma caravana. De que forma isso foi adaptado para a realidade da pandemia?

Eu não consegui produzir durante a pandemia toda. Eu não tive condições psicológicas. Eu não tinha algo que pudesse me levar para a frente. Eu acho que as únicas coisas positivas foram as formações do Baobá que a gente tinha e eu fui fazendo tudo muito aos poucos. Então as caravanas a gente colocou para o final, porque a gente entendia que não ia conseguir realizar online, já que tava todo mundo com muita coisa. A gente entendeu também que cada deputado ou deputada teria uma rotina muito grande, então as agendas não estavam batendo para pelo menos fazer um bate-papo online. [Dada a impossibilidade de realização das caravanas, foi realizado um ciclo de formações online sobre juventude e participação política]. Foi quando decidi que isso ficaria para o final do projeto, na expectativa de poder sair para fazer isso, mas me bateu uma tristeza muito grande de pensar que sempre que conseguimos algo tem que ter alguma coisa que faça voltar dois passos atrás. Também tive muitas perdas, mortes, o que pesou muito. Eu fiquei mal psicologicamente, então não foi uma produção da forma que eu queria que fosse. Eu fui fazendo aos poucos o meu projeto. O processo de a gente sair para os territórios também não aconteceu. A gente colocou para o final do ano, mas não aconteceu. Então pra mim foi muito ruim.

O meu projeto que seria uma plataforma incrível que estávamos imaginando e sonhando, não obteve o que a gente queria. Então eu fui fazendo leituras políticas, fui estudando aos poucos. Teve o Mulheres Negras Decidem que ajudou bastante. A gente fez várias formações e eu estava sempre participando. Ver tantas mulheres negras unidas no mesmo propósito era essencial e importante. 

  • E as atividades que aconteceram no formato online atingiram o público esperado? Ou foi necessário também alterar sua expectativa de público? Como ficou essa configuração?

Já que a gente não ia conseguir sair para os territórios, eu resolvi fazer uma formação online. Quando estava na construção dessa formação eu pensei em fazer algo fechado só para jovens aqui em Recife, mas depois eu pensando bem resolvi abrir para quem quisesse participar. Eu queria que fosse presencial porque tem outra energia, outra perspectiva e você acaba obtendo até mais que esperava, mas tudo bem. Quando fechei as inscrições, tínhamos pessoas de São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Paraíba. Aqui em Pernambuco tinha gente de todos os municípios: Recife, Jaboatão, Camaragibe, Paulista, Igarassu, Itamaracá, todos. Querendo ou não, a gente ultrapassou a expectativa do que imaginávamos. Fiquei surpresa, mas foi muito importante ter uma galera de fora participando.

  • Qual foi a principal contribuição do Programa Marielle Franco na sua formação política? Quais são as suas perspectivas e projetos para o futuro?

Para mim foi o aprendizado com mulheres negras, todas as histórias que escutamos, as contribuições e as formações que o Fundo Baobá deu – principalmente com a (ONG) Criola. O Programa trouxe muitas mulheres acadêmicas e eu quero muito entrar na universidade e fazer gestão pública. Também pretendo lançar um projeto que possa formar jovens dentro dos seus territórios e comunidades. Tem outro projeto que é um sonho meu: um grande festival aqui na minha periferia. Ele já está guardado há 3 anos e eu estou mexendo novamente porque quero muito que isso aconteça. Eu penso também em criar um espaço no qual eu possa fomentar e estudar a imaginação política com as juventudes. Trazer essa ajuda para que o jovem que está dentro da periferia sem perspectiva de vida, possa mudar através do conhecimento e das oportunidades. Da mesma forma que eu tive a oportunidade de fazer um curso de graça, eu quero que outros jovens possam ter esse caminho. O sistema é cruel, o racismo, a sociedade em si. Construir, caminhar e ser um ativista requer muito tempo da gente, requer um espaço. Eu consegui obter isso, mas não foi sozinha. Eu consegui me tornar essa pessoa que eu sou hoje através da minha tia, porque quando eu tava na rua (brincando), ela tava trabalhando.

  • Se você pudesse mandar um recado para toda a juventude brasileira, o que diria?

Eu diria que a gente não pode deixar de sonhar. Sonhar é extremamente importante pra gente se manter vivo e manter as nossas ideias. É isso que eu faço.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Liderança multipotencial, Brígida Rocha dos Santos, atua na luta contra o trabalho escravo no Maranhão e em outros estados do país

Assistente Social de formação, a liderança maranhense atua em diversas áreas dos Direitos Humanos

Por Juliana Dias*

Quando a maranhense e assistente social Brígida Rocha dos Santos se inscreveu para ser uma das bolsistas da 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, ela não esperava que os números fossem impactar de maneira tão significativa na continuidade e fortalecimento de sua trajetória enquanto liderança negra com atuação no combate ao trabalho escravo.

O Programa, que é uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations, proporcionou a Brígida, em dois anos: fazer 13 cursos, 3 mentorias e 4 imersões; escrever 6 artigos; ampliar sua participação nas redes sociais; e integrar uma plataforma para visibilidade de assistentes sociais.

Brígida Rocha recebeu em 2015 um Prêmio de Direitos Humanos na categoria Combate e Erradicação do Trabalho Escravo. Em entrevista, a maranhense da cidade de Açailândia, nos conta como as trocas com outras mulheres negras potencializou sua atuação e contribuiu para sua autoestima e autonomia financeira dentro do campo profissional, pessoal e do ativismo.

  • Como começou sua trajetória enquanto liderança negra?

Iniciou na igreja enquanto catequista, e aí logo vem o convite, ainda adolescente, para trabalhar numa rádio comunitária em um programa infantil. Assim, eu fiz o percurso de aprender tudo sobre comunicação na rádio comunitária e aí ficava acompanhando as crianças, apresentando o programa, mas me envolvendo já com as pautas de direitos humanos, principalmente do tema trabalho escravo e trabalho infantil. E aí estudava, fazia cursos, fui até para experiência de estágio como professora, mas recebi esse convite para passar a atender pessoas vítimas de trabalho escravo. Era a possibilidade de um projeto que havia surgido na ONG Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos. É uma ONG que tinha criado essa rádio comunitária, então já trabalhava com essa temática desde sua fundação. E no período de 2005, eles com um projeto tiveram a possibilidade de contratar alguém, aí me deram esse desafio para em três meses aprender as técnicas do atendimento às vítimas de trabalho escravo. A partir disso eu fui me desenvolvendo, até mesmo em conhecer a realidade do trabalho escravo contemporâneo, pois o que eu tinha era mais a partir do que eu lia, visões muito fechadas sobre aquilo que a gente aprende nas escolas.

Foi um divisor de muitas mudanças pra mim, de ideias, de compreensões. Assim fui me destacando nessa temática, estudando bastante, sempre nessa parte de atendimentos, mas fui recebendo outras funções, outras missões, como coordenar equipes de atendimentos, fazer palestras, participar de atividades específicas, organizar eventos. E a gente nesse processo de acolher trabalhadores foi conseguindo também atender pessoas de outros estados.

Eu sempre tive esse contato com o tema da Campanha de Combate ao Trabalho Escravo e é uma campanha nacional da Comissão da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Então, em um período eles se juntaram (o Centro de Defesa e a CPT) e fizeram uma indicação para eu receber um prêmio de direitos humanos na categoria de combate ao trabalho escravo, por entender dessa contribuição que eu vinha tendo diretamente.

  • Quando foi esse prêmio?

Foi em 2015. É um prêmio nacional, que foi entregue pela presidenta Dilma na época. Foi em Brasília e foi um grande momento quando esse prêmio apareceu. Uma gratidão muito grande permanece, pela confiança dos trabalhadores. Eu vejo que esse destaque todo foi devido a qualidade do atendimento, mas principalmente da aceitação, da recepção, da força dos trabalhadores que possibilitaram isso. Na minha trajetória toda eu sou conhecida como alguém que atende vítimas de trabalho escravo, que orienta, que faz encaminhamentos, articulações e trata dessa pauta. Mas, eu faço outras coisas. Também atendo mulheres vítimas de violência e também atuo nessa pauta do trabalho infantil.

Minha profissão é Serviço Social, sou assistente social, me formei em 2013. Eu tinha muito sonho de me formar em direito e por questões econômicas e por não conseguir a vaga na faculdade pública, eu não cursei. Então, depois eu consegui entrar no Serviço Social que era um curso de valor menor, com parcelas econômicas. Tão logo fui contemplada pelo PROUNI, fui bolsista integral. Fiz a graduação em Serviço Social e uma pós em gestão pública por outra faculdade estadual. É esse o meu nível de escolaridade, mas antes eu já tinha feito magistério. Sempre fiz muitos cursos nessa área de direitos humanos, participei de vários eventos nacionais e internacionais (dentro do Brasil) nesta pauta da migração forçada, do trabalho escravo. Em relação às mulheres, em especial, eu estive participando de algumas atividades de encontros de mulheres. Mas, nessa pauta da mulher negra, da raça, isso foi uma vivência que eu consegui através do projeto financiado pelo Baobá, do Programa Marielle Franco. 

  • E como é a Brígida Rocha dos Santos fora desses espaços de militância?

Eu sou mãe, tenho duas crianças de 11 e 13 anos. Eu resido no município de Açailândia, no estado do Maranhão. Eu sou natural desse município, mas trabalho em municípios diferentes pela minha relação com essa pauta do trabalho escravo e minha integração na Comissão Pastoral da Terra. Eu fico aqui no Maranhão, mas contribuo com os demais estados nessa discussão da pauta de trabalho escravo e a gente vem trazendo essa contribuição da visibilidade das mulheres vítimas do trabalho escravo, que é um contexto antes não muito discutido, era sempre tratado pela situação dos homens. Então, eu percebo que eu venho me desenvolvendo, aprendendo, conhecendo mais a partir do acompanhamento que eu tenho com comunidades quilombolas, comunidades tradicionais aqui no estado. Isso permite eu me desenvolver pessoalmente e também profissionalmente, e contribuir para o movimento quilombola do Maranhão. É um movimento que eu apoio e acompanho desde 2013. Aprendo muito com eles e também com a CPT.  Eu me vejo como alguém que é assistente social, comunicadora, mãe e faz várias coisas. Eu também crio outras estratégias empreendedoras, como vendas de roupas íntimas e assim eu vou seguindo a vida. Eu estudo bastante, mas sempre em relação a esses temas das quais eu já trabalho. Minha pós, meu TCC, por exemplo, foram com tema sobre trabalho escravo. 

  • Isso tudo que você é, representa e faz, significa ser uma liderança multipotencial, como você nomeia no seu projeto?

Eu me vejo como liderança multipotencial por eu estar em vários espaços, tanto com mulheres, com movimentos e com diversas temáticas. Eu tenho esse foco do trabalho escravo, porém eu participo de outras, tanto devido a minha profissão quanto às afinidades que eu tenho. Eu contribuo também nessa parte de formação de comunicadores; enquanto assistente social contribuo tanto em atividades técnicas, como na formação de alunos, de discussões do curso em si, como professora, facilitadora, convidada para atividades específicas, mas principalmente pelos atendimentos com as comunidades quilombolas. É uma trajetória complicada, mas muito gostosa. Quando precisei ficar algum tempo parada nesse período da pandemia, o início foi um pouco complicado, eu estava me sentindo bloqueada. Eu dizia: “Eu tenho que acordar. Essa não é a Brígida. Eu tenho que me envolver”. O Programa, por exemplo, me ajudou muito. Esse período da pandemia foi difícil, mas abriu muito essa possibilidade de estudo, de interação com outros grupos. Essa visão de estar nos espaços virtuais, que foi um desafio, mas que foi necessário e importante e que abriu grandes oportunidades. 

  • Como tem sido atuar em uma rede de assistentes sociais (a Ikesocial)?

A Ikesocial é um espaço mais para dar visibilidade às assistentes sociais, inclusive a gente vem passando por formações, discussões tanto em grupo de Instagram quanto de WhatsApp. A gente troca experiências e isso tem sido muito importante, como também é uma das bases para eu poder entrar no processo de melhor fazer minha avaliação profissional, de estabelecer preços. É uma revisão de, enquanto assistente social, eu posso fazer os trabalhos de forma autônoma sem ter que estar com vínculo trabalhista diretamente. A pessoa que faz a gestão, que é quem fundou, é também uma assistente social negra, que passou por esses desafios que a gente passa. Eu vejo como um espaço interessante que também serve para eu poder divulgar, apresentar meus trabalhos. E essa visibilidade é acompanhada de muitas formações. Para mim tem sido um grande desafio, eu me formei em 2013, porém vim ter alguns conhecimentos mais específicos desse grande leque de oportunidades já a partir desse envolvimento com a Ikesocial. Até melhorei meu Instagram, mas ainda tem coisas que eu preciso pôr em prática. 

  • Essa presença no Instagram foi algo novo dentro dessa sua experiência com a Ikesocial e com o Programa Marielle Franco? 

A orientação deles é que a gente crie um Instagram específico enquanto assistente social para dar essa visibilidade profissional, porém o meu Instagram que eu já tinha a muito tempo vivia parado. Eu não movimentava. Aí quando eu comecei a movimentar foi quando eu entrei no Programa Marielle Franco. Então, eu comecei a postar coisas no Instagram já a partir da entrada dentro do Programa, só que ainda não tinha essa grande visibilidade, eu não tinha muitos seguidores. Depois eu entro com a Ikesocial e eles vem incentivando essa melhoria do Instagram e também para melhorar a visibilidade profissional, o que eu fiz foi: não vou criar um outro Instagram como eles orientam, porque o meu também não tem muita coisa, eu só vou adequar mais para esses temas específicos e é isso que eu venho fazendo. Então assim, eu tinha um número tão baixo, acho que era menos de 300 pessoas. Esses dias eu não olhei ainda, mas suponho que está em 900 e poucas pessoas. Como também a visibilidade nos temas, nas matérias que consegui desenvolver, textos junto ao [Portal] Geledés. Então, assim essa parte de dar visibilidade a profissional Brígida, enquanto assistente social, enquanto liderança feminina negra, enquanto mulher que trabalha dentro dessa temática do trabalho escravo, pra mim é um grande resultado. Foi um grande desafio e eu vejo como resultado isso: eu consegui pensar mais em mim, me ver mais e passar isso para os outros. 

  • De que maneira a pandemia impactou nas metas que você traçou como liderança do Programa Marielle?

Eu sempre fui muito comunicativa, mas teve um período que eu me bloqueei. Eu não sei exatamente o ocorrido, mas teve um período que eu corria de lives. Alguém convidava, eu inventava desculpa, eu não queria participar desses espaços virtuais, por alguma insegurança da qual eu não sei exatamente o porquê, já que eu não tinha medo de falar. Esse foi um dos impactos que, pra mim, foi muito estranho quando eu me percebi naquele processo de não querer me comunicar. Até porque, antes eu participava bastante, mas não nos meios digitais, era sempre eventos presenciais. Creio que talvez esse tenha sido um dos motivos. Essa área virtual, de estar aparecendo nas lives, eu fiquei preocupada com várias coisas, questões de julgamento. Me perdi aí num período, mas eu reanimei depois e voltei a ativa.

A pandemia me prejudicou de concreto dentro do que eu havia planejado, na proximidade com as mulheres. Meu projeto visa dar visibilidade às mulheres vítimas de trabalho escravo, pra isso eu precisaria estar também próxima, estar em contato direto com essas mulheres. Mulheres que já haviam sido resgatadas, em períodos anteriores, mulheres que conseguiram sobreviver, sair do trabalho escravo. A pandemia me impediu no sentido de não encontrá-las, elas são do estado, mas não ficam em localidades tão fáceis, algumas eu busquei fazer agendamentos, mas não foi possível. A situação de não encontrar essas mulheres e a partir dali identificar como elas conseguiram sobreviver, quais estratégias elas utilizaram para poder resistir, sair do que elas vivenciaram, é um impacto que vejo como o mais difícil dentro do meu projeto. As outras coisas eu avalio que eu consegui ter um bom êxito, nessa coisa da partilha de saberes, porque eu participei de muitas atividades. Também de integração com outras líderes do Programa, trocamos ideias, construímos coisas juntas, fizemos artigos, participamos de lives.

Eu aprendi muito com as formações que a Baobá promoveu com os parceiros, com a Coach, com o pessoal da Criola, entre outros. De todos eu aprendi bastante. Uma coisa assim que eu vejo também que foi um grande desafio foi colocar as despesas dentro do projeto, nessa coisa pró-labore, porque é algo que, no início, eu não tinha pensado quando eu fiz o meu projeto. Ele era focado em produções, em organizar o meu registro profissional, que estava pendente.

Eu consegui me atualizar com taxas, eu consegui comprar materiais que eu não tinha, como notebook, impressora, itens de escritório, para eu poder trabalhar com tranquilidade, estudar também, poder atender as pessoas. Consegui quitar as mensalidades da internet. Pra mim essa coisa do salário de pró-labore era algo que eu não tinha pensado, nas formações e nos encontros com a Baobá fui percebendo essa possibilidade e foi o que me ajudou muito. As minhas despesas fixas, de alimentação e coisas diversas, saíram desse projeto. Antes eu nem tinha pensado, porque eu estava numa condição melhor, mas tudo mudou devido ao encerramento do projeto na organização que eu estava. Eu trabalhava com o projeto chamado Raice (Rede de Ação Integrada para Combater a Escravidão) e as vivências é direto nos quilombos, nas comunidades, aí como não podia ir mais devido aos protocolos de saúde, foram rompidas. 

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Líderes Negras: O sul audiovisual da cineasta e intelectual Éthel Ramos

Por Juliana Dias*

O interesse por uma memória positiva e profunda da população negra brasileira é o Sul de Éthel Ramos. Sim, o Sul. A cineasta e intelectual carioca de 44 anos diz que cansou de ser norteada. “É o Sul que está para o mundo. A América Latina, o continente africano”. Ela foi uma das líderes negras contempladas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

Com mais de vinte anos atuando no campo audiovisual brasileiro, especificamente no gênero documental, Éthel Ramos nos conta como a bolsa oferecida pelo Baobá foi fundamental para a construção da própria autonomia na produção cinematográfica. Éthel assina a co-direção do filme “Sementes – Mulheres Pretas no Poder” (2020). 

Por meio dos recursos disponibilizados pelo Programa, ela adquiriu uma série de equipamentos, aperfeiçoou o aprendizado de idioma estrangeiro e rompeu barreiras dentro da área audiovisual. Isso fez com que ela enxergasse na linguagem da ficção um dos novos caminhos para a inclusão de sua narrativa em prol da valorização da imagem criativa do povo preto. Além disso, a líder negra relata como foram os dois anos como bolsista frente à pandemia do coronavírus, que impossibilitou os encontros presenciais, mas que possibilitou a formação de uma rede de mulheres negras que contribuíram para a sustentação do próprio autocuidado e da autoestima.

Reprodução: Site Embaúba Filmes

 

  • Quais as diferenças entre a Éthel Ramos antes e depois do Programa?

Ser bolsista do Fundo Baobá foi uma das experiências mais bonitas que eu pude participar da minha vida. Tenho 44 anos, então eu já vivi bastante experiências legais, bons encontros. Foi uma grande infelicidade nós não podermos ter tido a oportunidade de um encontro presencial, você imagina todas essas mulheres incríveis juntas. Já era bastante emocionante os encontros online de formação, isso absolutamente foi fundamental, esse processo de ajuntamento das bolsistas. Eu percebo de diferença essa certeza, de que quando as mulheres negras se reúnem, não há nada mais potente do que isso. Isso me atualiza na minha fé, na minha esperança, no meu compromisso com meu trabalho e no meu compromisso em viver bem. Encontrei com Ialorixás, que é um rolê que eu faço muito – sou uma mulher de axé – mas também, encontrei com mulheres muito jovens. E essa intergeracionalidade me fortalece muito. Foram momentos muito especiais. Tanto que, esse encontro entre nós, teve impacto no filme que eu estava realizando nesse momento. 

  • Nos conte sobre esse impacto…

Eu estou co-diretora do “Sementes – Mulheres Pretas no Poder”, que é um filme independente, com pouquíssimos recursos. Começamos a fazer com recursos próprios, depois fizemos vaquinha. Apenas na reta final que conseguimos financiamento para fazer a finalização do filme. É um filme de grande êxito na sua trajetória cinematográfica. Sementes estreou no dia 7 de setembro de 2020 e teve quase mil pessoas na live de estreia. 

Nesse momento (do apoio) eu estava montando Sementes, que é uma etapa fílmica onde o filme realmente nasce. Um dos encontros foi conduzido por Jurema Werneck e ela fez uma fala muito linda sobre a Marcha das Mulheres Negras de 2018. Nós havíamos filmado essa marcha, mas não sabia bem como encaixar. Porque o Sementes também foi um filme que foi feito no sentido de ser uma escola. Primeiro porque não tínhamos dinheiro, então não podíamos pagar as profissionais. Por isso, convocamos as mulheres pretas do audiovisual pra colar com a gente. Sementes teve momentos de grande produção para filmes sem dinheiro. Um desses momentos foi a Marcha das Mulheres Negras. A gente fazia seis equipes de fotografia, som direto e produção. Minimamente 18 pessoas na rua pra poder acompanhar cada uma das personagens. Então, na Marcha das Mulheres Negras, no #EleNão e no dia da eleição [de 2018] foi essa superprodução.

A gente não tinha condições de pagar 18 pessoas, convocamos as mulheres negras do audiovisual pra colar nesses momentos. Quem colou primeiro foram as meninas mais jovens, com pouca experiência no rolê do audiovisual. Eu fiquei um pouco ali na função de formação pra elas, então é um material irregular um pouco. Tem coisas que estão legais, outras que não estão tão legais. A gente não sabia bem como encaixar, era uma montagem difícil. Depois dessa fala de Jurema, eu falei pra Julia [Mariano, também co-diretora do filme] que tínhamos que incluir essa Marcha, porque foi um calendário fundamental na direção da reorganização política das mulheres negras. 

Esse é um caso especial, a partir da importante relevância que Jurema trouxe em um dos encontros do Programa. Mas, especificamente o que mudou para mim foi isso, uma atualização muito profunda da centralidade das mulheres negras na condução de novos horizontes.

  • Como o Programa contribuiu para sua trajetória e fortalecimento enquanto mulher negra dentro do audiovisual?

Contribuiu de forma material pra mim. Isso foi fundamental. Eu estou nesse rolê do audiovisual tem quase vinte anos e nunca conseguia ter uma câmera. É muito oneroso equipamentos audiovisuais, e pagando aluguel, fazendo filmes com o próprio dinheiro, nunca priorizei ter meu próprio equipamento. Sempre contei com o apoio dos meus colegas para poder realizar os filmes que realizei. São coisas muito concretas, os equipamentos e acessórios. Porque era sempre um corre, pega uma câmera emprestada, um microfone e agora tenho o kit completo. 

Eu estudei também, estudei na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, fui bolsista nessa escola e só assim como bolsista pude fazer as formações que fiz. Agora eu pude escolher os cursos que eu poderia investir, curso de roteiro, curso de câmera, me atualizar na montagem. Então, eu pude pagar e isso colabora materialmente, colabora na minha formação enquanto intelectual também, de poder desenvolver uma segunda língua, porque o meu projeto é também de aperfeiçoamento da língua inglesa. Eu tive aulas duas vezes na semana de inglês e só não fui fazer o intercâmbio na África do Sul – seria a primeira vez que eu faria uma viagem internacional. Minha viagem estava marcada para junho e se instaurou a pandemia e eu não pude ir, mas essa viagem está marcada. Eu nunca pensei em fazer um intercâmbio, nem quando eu escrevi o projeto, porque era algo tão fora da minha realidade. Mas, trocando com o grupo de WhatsApp do Programa, as meninas começaram a falar do intercâmbio na África do Sul, que era possível. Então vou me jogar nessa coisa do intercâmbio. Estou um pouco melhor do que antes do programa e eu aguardo esse aperfeiçoamento rebuscado a partir do intercâmbio.

  • O que te motivou a se interessar pela linguagem de ficção?

Documentário é uma linguagem que eu domino, estou fazendo isso há vinte anos. Eu dou aulas sobre isso, tenho dado muitas aulas, sempre me dediquei à formação audiovisual, de compartilhar minha formação com pessoas de periferia, do terreiro, do sertão. O documentário é realmente minha zona de conforto, mas sei que a ficção vai poder me levar a maiores elaborações estéticas acerca da nossa cultura preta. A gente tem inúmeras histórias ainda não contadas a partir do nosso ponto de vista. Por exemplo, a Jurema tem um artigo chamado “Macacas de Auditório” – isso está na redação do meu projeto – falando dessas mulheres pretas que foram conhecidas como as macacas de auditórios dessa época da era do rádio. O que era essa época? Um momento de profunda internacionalização da cultura brasileira a partir da musicalidade. A bossa nova, por exemplo, que é um grande marco, no mundo inteiro conhecida. E a cara da bossa nova é Vinicius de Moraes, bastante Baden Powell. Só que qual é o disco fundamental da bossa nova? “Canção do amor demais”. E quem é a cara e a voz de “Canção do amor demais”? Elizete Cardoso. E onde está a minissérie sobre Elizete Cardoso, os grandes filmes de ficção sobre ela? Obstante tenhamos muitos filmes sobre Elis Regina, Maysa, essas grandes cantoras maravilhosas, fundamentais, esplêndidas cantoras brancas. Não tem nenhum filme sobre a Elizete, sobre a Dona Ivone Lara. Outro dia estava vendo uma história super interessante sobre a vinda da Josephine Baker ao Rio de Janeiro e ela indo a Madureira. É um roteiro pronto. 

  • Você pode adiantar que tipo de filme de ficção você pretende realizar?

Eu tenho muito desejo de fazer sobre Elizete Cardoso, sobre a musicalidade preta a partir de Elizete Cardoso. Na linguagem da ficção isso dá muito pano pra manga para entender o que é que é o Brasil de hoje. Se tivéssemos tido um letramento audiovisual a partir das imagens pretas, das experiências pretas, o Brasil não era o que é hoje. Quantos filmes nós temos sobre a maior experiência – não sei se cabe esse termo de experiência democrática horizontal de política de auto-organização no Brasil – que foi o Quilombo dos Palmares, e que durou 96 anos? São essas histórias que quero contar, e o documentário tem um grande poder, mas sei que a ficção é um universo de elaboração que talvez comunique melhor, porque nós temos um letramento audiovisual que vem das novelas. Eu acho que nós temos que nos apropriar dessa linguagem televisiva, novelesca para gente fazer a nossa história. Acho que nossa educação cultural, política, filosófica, vai avançar muito quando a gente tiver essas obras audiovisuais da ficção pela perspectiva preta, pela perspectiva travesti, lésbica… Eu sempre digo isso, que se as novelas investissem naquilo que a gente chama dentro do universo das mulheres lésbicas de rebuceteio – namora amiga, que namora a inimiga – as novelas seriam muito mais divertidas. A lesbofobia seria bastante menos alastrada, porque a gente tem um universo de narrativas e de humor dentro da comunidade lésbica muito grande, um universo de trama muito sofisticada, romances que só acontecem no universo lésbico. São essas histórias que quero contar, pra colaborar pra ampliação dos horizontes, não somente das pessoas negras, mas ampliação dos horizontes de todo telespectador brasileiro.

  • De que maneira a pandemia impactou nas metas que você traçou como líder do Programa Marielle Franco?

É um momento muito duro esse que a gente está vivendo. Você imagine o que seria a gente fazer formação presencial com Vilma Reis, Erica Malunguinho, Jurema Werneck. Nos encontrarmos, nos aliançarmos de maneira quase íntima, isso teria sido algo… O Programa já é de vanguarda, eu acho que se tivesse tido essa oportunidade presencial seria revolucionário, seria uma centelha revolucionária. 

O Fundo Baobá nos oportunizou fazer momentos de encontros que cuidávamos da nossa parte emocional também. Isso é um negócio inédito, isso só podia vir a partir da cabeça de uma mulher preta. Esse cuidado com a parte emocional, com a parte psíquica, momentos de relaxamento. Isso foi fundamental para passarmos por esse momento, esse carinho, essa atenção, esse ajuste das nossas frustações durante a pandemia, em face do nosso projeto. 

O ano passado eu estava toda envolvida com Sementes. Fazendo montagem, depois estreando, depois foi a carreira de fazer lives. Tinha dias que eu fazia três lives por dia. A gente fez um projeto de distribuição de impacto com a Taturana, que tem uma rede muito grande de pontos de distribuição. A gente teve essa estratégia de impacto, que eu coordenei, então eram muitas demandas. Fiquei todo o ano muito envolvida com isso.

Quando chegou janeiro e fevereiro eu caí numa depressão que eu só consegui levantar em julho. Esses encontros do cuidado foram fundamentais para a minha sobrevivência. E digo mais, nesse período, refletindo sobre pandemia, cheguei a conclusão que esse não é um período inédito para as pessoas pretas, nós já passamos por isso quando nossos ancestrais vieram sequestrados de África. Na privação do encontro, do encontro familiar, do distanciamento social. Nós viemos nessa situação e nós sobrevivemos a isso.  Então, está guardado, como diz a música de Virginia Rodrigues, “Está esculpido na mente muito além da minha consciência”. E isso me ajudou muito a entender que isso não era um momento inédito para nós pessoas pretas, que nós já havíamos passado por isso e nós sobrevivemos. E eu sou prova disso no sentido de que se eu sobrevivi a isso, meus ancestrais também sobreviveram e hoje sou uma mulher liberta, cineasta, intelectual, bolsista do Fundo Baobá. Então, toda essa energia preta que estava circulando na minha vida de uma maneira muito íntima todos os dias, era a palavra das mulheres pretas. Eu não estava falando por mim, eu estava falando pelo coletivo. Essa força que tem me salvado a vida toda.

  • Quais são seus planos para o futuro dentro desse campo do audiovisual após todas essas metas atingidas?

O mais importante de todos os meus planos é o desenvolvimento de roteiros de ficção e produção desses roteiros. Isso é mais importante. Já estou desenvolvendo, só não posso contar pra você, porque é um negócio tão bom (risos)… Deixa eu estar mais adiantada que você vai ouvir falar desses filmes e vai dizer: a Ethel vai fazer um bom caminho.

Por exemplo, eu estou no estado de Pernambuco, tenho grande paixão pelo Maestro Moacir Santos. Um homem que foi fundamental na musicalidade brasileira. Grande exemplo disso é que é ele quem ensina os acordes dos afrosambas para o Baden e para o Vinicius. Fez grandes trilhas em Los Angeles, um homem fundamental. Quantos filmes existem sobre esse homem que vai fazer 100 anos em 2026? Quantos? Isso é gravíssimo. Quando eu mostro as músicas do Maestro Moacir, as pessoas se ressentem de não conhecê-lo. Maestro Moacir está na lista desses filmes de ficção que eu quero fazer, e os filmes das mulheres lésbicas também. 

  • Quais as suas referências de cinema negro?

Everlane Moraes, Milena Manfredini, Clementina de Ouro e Ava DuVernay. São as mais importantes para mim. 

  • Quais foram os principais desafios e aprendizados que você teve durante essa jornada enquanto líder do Programa Marielle Franco?

O aprendizado foi principalmente esse de ter a certeza do respeito das mulheres negras. É algo muito radical, me informa, me forma, me ensina e me dá sul. Eu tenho dito isso que não quero mais ser norteada, mas sim suleada. É o Sul que está para o mundo. A América Latina, o continente africano. Então, o Programa me dá esse farol ao sul. Foi meu farol ao Sul.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Professora pernambucana, Maria da Piedade Marques de Souza, propõe mergulho na memória ancestral para fortalecer grupos de mulheres nordestinas

Redes de apoio e incentivo às mulheres negras são fundamentais para “erguer-nos enquanto subimos”

Por Julia de Miranda*

A filósofa estadunidense Angela Davis escreveu um texto em 1987 sobre o empoderamento das mulheres negras norte-americanas e propôs que devemos subir, unidas e nos apoiando, todas juntas. Ela sinalizou que precisamos nos esforçar para erguer-nos enquanto subimos. “Essa deve ser a dinâmica essencial da nossa busca por poder – um princípio que deve não apenas determinar nossas lutas enquanto mulheres afro-americanas, mas também governar todas as lutas autênticas das pessoas despossuídas”, pontuou Davis.

Estar de pé e seguir resistentes na caminhada implica em cuidar umas das outras (sem esquecer de si) e criar a possibilidade de novos espaços que trabalhem, politicamente, em prol da proteção e defesa de meninas e mulheres. 

É justamente partindo desse pensamento que a professora pernambucana Maria da Piedade Marques, do Recife (PE), entendeu que, ao se erguer, poderia levar outras mulheres.  Ela foi uma das contempladas na 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations. 

Com o projeto “Mulheres Negras e Irmandade: Construindo redes de solidariedade”, a professora está construindo uma rede de irmandade de mulheres negras, através de vivências e oficinas de memórias entre mulheres de Pernambuco, do Nordeste brasileiro e do exterior. Coordenadora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, ela acredita que a educação, não apenas a formal, mas também os saberes orais, são a base fundamental e humana para o nosso crescimento pessoal e coletivo. “Durante o desenvolvimento do projeto tivemos encontros virtuais fantásticos, mesmo com tantas dores, a alegria sobressaiu e conseguimos nos conectar com mulheres de quase todos os estados do Nordeste”, comemora Piedade.

Confira na entrevista como foi a experiência dela no Programa, os desafios e anseios, e conheça um pouco mais do seu projeto. 

  • Como surgiu a ideia do projeto Mulheres Negras e Irmandade: Construindo redes de solidariedade?

Quando saiu o edital do Fundo Baobá eu estava como pesquisadora visitante na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, em 2019, e de lá é que eu escrevi a proposta. Algumas questões me inquietaram ao longo da minha trajetória e surpresas da vida vieram reforçar isso. Refletia sobre a dificuldade que nós, mulheres negras da minha faixa de idade (40 a 50 anos), temos de descobrir a necessidade da língua inglesa para ampliar o diálogo. Essa era uma das minhas preocupações iniciais e a motivação para aprender o idioma nos 4 meses que eu residi no país.

Nos Estados Unidos eu tive uma grata surpresa, consegui encontrar um grupo de mulheres negras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), elas foram as responsáveis pela vinda da Angela Davis em 2017 para a Bahia. Esse era um curso com pessoas vinculadas às organizações sociais e pude então entrar em contato com esse pessoal e acabei recebendo convites para somar nas ações.

O campo fértil que foi estar em contato com ativistas de outros países me motivou a preparar, para o edital do Fundo, uma metodologia envolvendo a solidariedade de mulheres negras de Pernambuco para apresentar no exterior. Nesse meio tempo, por questões pessoais, precisei voltar para o Brasil e não pude retornar ao intercâmbio devido a pandemia. Ser acolhida nos Estados Unidos foi algo que me tocou profundamente e me fez querer colaborar ainda mais. Ser solidária é algo de quem sabe se colocar no lugar do outro.

  • E como foi o desenvolvimento e os desdobramentos do projeto?

Com a mentoria do coaching proporcionada pelo Baobá, eu tive o auxílio na escolha por um novo caminho diante das circunstâncias. Continuo em contato com várias pessoas nos Estados Unidos, mesmo que a proposta não seja vinculada só lá, mas é onde hoje eu posso dizer que existe um  vínculo um pouco maior. O grande desejo da metodologia era poder juntar mulheres negras para conversar sobre memória, epistêmica e oral, que incluísse nossas mães, avós e tantas mulheres negras ‘anônimas’ do núcleo familiar que não são lembradas na academia. 

Com a adaptação do projeto eu consegui realizar durante esse período oficinas on-line. Iniciei construindo um percurso com a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco: de forma tranquila e leve os encontros foram acontecendo no formato virtual, nada presencial e esse foi um pedido do Baobá. Outra inquietação que a prática me trouxe foi que nós passamos toda a nossa militância escrevendo ou dizendo que “as mulheres negras das nossas vidas vieram de muito longe”. Porém, é essa questão do tempo e da memória que trazem isso à tona, todavia a gente termina se afundando somente nos referenciais teóricos e esquecendo de resgatar quem realmente são as mulheres importantes, além das ativistas e intelectuais. 

Quem são essas outras mulheres que estão mais perto de nós, e algumas a gente nem sequer conhece? Eu posso não tê-la conhecido fisicamente, contudo ela tem um papel importante na nossa memória coletiva, isso não pode ser desconsiderado. As nossas rodas de conversa foram fantásticas, mesmo com dores no compartilhamento das memórias (reunimos algumas mulheres mais velhas), existiu muita alegria e força  em todos os encontros com as mulheres nordestinas, tanto das capitais como do interior. A carga emocional acessada nas trocas foi positiva e relevante para todas nós nesse momento de pandemia. Ao todo, fizemos encontros e oficinas de resgate a memórias das nossas ancestrais em seis estados da região Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte), os que faltaram foi por falta de tempo. Nem tudo proposto foi alcançado, mas ressignificar e mudar a rota do projeto foram essenciais para o aprendizado. 

  • No decorrer do processo, quais foram os aprendizados e conquistas?

Uma das coisas que eu inclusive levo como anseio para o futuro é que eu percebi o quanto essa experiência nos trouxe alegria. Apesar das memórias nem sempre apresentarem conteúdos lindos, muita dor emergiu e a gente conseguiu conectar as pessoas através dessa experiência sublime e luminosa.  As memórias compartilhadas nos alimentavam através da identificação com as histórias. Memórias desde o tempo que a gente era criança, e hoje, como adultas, acolhemos com gentileza e cuidado. 

Eu optei em investir no idioma, pois pretendo voltar para os Estados Unidos. Quero organizar uma grande rede e conectar as mulheres norte-americanas com as brasileiras para instigar e encontrar soluções de apoio para as nossas vivências, dessa maneira a gente avança. Como conquista, além do curso de inglês, foi conhecer outro universo, diferentes realidades e culturas durante a minha imersão. 

Pretendo voltar em breve e mostrar a nossa realidade e o que fazemos aqui no Brasil com a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras do Nordeste. 

A experiência com as outras lideranças que estão vinculadas a organizações comunitárias nos Estados Unidos, a recepção, o apoio e a percepção de que é possível construir pontes, diálogos e relações de acolhimento lá e cá, é algo latente e inspirador para mim.

  • Quais são seus planos para o futuro? 

Enquanto a pandemia não acaba, eu sigo a caminhada no Brasil no passinho de tartaruga. Pretendo em breve me reunir presencialmente com os grupos e voltar às oficinas e encontros. Quero trabalhar com as imagens dessas memórias de cada uma de nós e fazer uma exposição fotográfica em todas as cidades visitadas nas reuniões. É importante que a sociedade veja e reconheça as nossas “mulheres anônimas”. Em 2023 o plano é voltar para os Estados Unidos.

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

O conhecimento que se adquire e distribui de Girlian Silva

Liderança Negra que atua na Amazônia, Girlian acredita no poder da coletividade para transformar a realidade das mulheres negras

Por Juliana Dias*

A Sumaúma é uma das árvores mais extraordinárias da Amazônia e sua grandiosidade não está apenas na altura que ela pode chegar (70 metros), mas também por ser um portal de comunicação para os povos da floresta, nos âmbitos real e espiritual. É  enraizada na sagacidade da gigante da Amazônia que Girlian Silva de Sousa, integrante da 1ª turma do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, nomeou o seu projeto: “Sumaúma Literária”. O Programa é uma ação do Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Fundação Kellogg, o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

A iniciativa de Girlian tem como foco principal a publicação de um e-book escrito por mulheres negras (cis e trans) do Baixo Amazonas, principalmente da cidade Santarém (Pará). Aliando o ativismo feminismo negro com os saberes do meio digital, a baiana de Itabuna movimentou diversas mulheres negras da região da Amazônia para potencializar a transmissão de conhecimentos. Embora tenha sido ela a contemplada pelo Programa, o projeto aprovado foi realizado em coletividade com o grupo Mulheres Negras de Santarém, da qual ela faz parte. O resultado dessa movimentação em rede vai gerar a publicação do livro “Vozes Afroamazônidas: entre rios, terras e afetos” e do blog “Vozes Negras”. Nessa entrevista exclusiva, a economista Girlian Silva, que tem mestrado e é doutoranda em Desenvolvimento Socioambiental (UFPA), comenta como a especialização em Influência Digital (PUC-RS) vem contribuindo para ampliação de seus horizontes dentro do ativismo feminista negro.

  • Como é a atuação de uma liderança consciente do pluralismo do feminismo negro?

Desde o início eu me coloquei enquanto uma liderança em formação, porque realmente eu sou uma liderança em formação, eu ainda estou naquele processo de aprendizado e de descobrir um pouco mais sobre o feminismo negro. Toda vez que começo acreditar que eu já sei muito, eu descubro que não é bem assim; quanto mais você lê, escuta outras mulheres falando sobre, você descobre que ainda tem muita coisa que ainda não percebeu. Um dos aprendizados mais importantes que eu tive ao longo desse Programa, foi justamente esse relacionado a pluralidade do feminismo negro. Porque a gente costuma falar em mulher negra e acaba muitas vezes caindo no mesmo equívoco do feminismo tradicional, do feminismo não negro, que é você colocar todas as mulheres dentro de uma categoria só, esquecendo as particularidades de cada uma, as demandas de cada uma. É como se não habitássemos em territórios diferentes e sofrêssemos formas de opressão diferentes. Eu gostaria de sair de todo esse processo, que ainda tem muita coisa pela frente, com essa capacidade, essa consciência muito mais entranhada, mais trabalhada, mais desenvolvida. De que as mulheres negras são plurais, são diferentes e você precisa enxergar até mesmo quando elas não conseguem se enxergar, não conseguem enxergar sua própria particularidade. Então, eu acho que para se colocar no lugar de liderança você precisa ter essa expertise e se você não tiver, tá faltando muita coisa ainda para você desenvolver. Antes de participar do Programa, por exemplo, eu não tinha uma visão um pouco mais elaborada sobre as mulheres trans. Eu estava naquela pegada de “Olha, somos todas negras e tal”. E aí depois de conviver ao longo desses dois anos com uma mulher trans, de ter a oportunidade de ouvi-la, eu fui perceber a importância. 

  • Quais outras contribuições do Programa Marielle Franco para sua formação enquanto liderança negra?

Uma ideia muito mais clara sobre coletividade, que eu acho que é fundamental. Veja, eu sou baiana de Itabuna, moro na Amazônia há quase dez anos. Eu vim para cá em 2013, para fazer um mestrado, fiquei, iniciei um doutorado e estou vivendo aqui. Mesmo sendo economista e sabendo do quanto o capitalismo acaba formatando a nossa visão de mundo, o jeito de conviver, interagir, formando uma sociedade totalmente individualista, nem sempre eu estive ciente desse individualismo entranhado. E nem sempre eu tive essa consciência de que, naquele momento, minha visão era uma visão individualista, mesmo sendo uma pessoa que trabalhava dentro do movimento.

Eu só fui me associar a um grupo de mulheres em 2017, o Movimento de Mulheres Negras de Santarém, no Pará. Até então, eu achava que eu sozinha, estava tudo ótimo. Aquela história de que você não precisa estar no coletivo para poder atuar. Somente a partir de 2017 eu fui ter esse convívio, e com o Programa fui tendo essa visão melhor sobre coletividade. No coletivo somos mais fortes. Ao longo desses dois anos também, eu acho que adquiri um pouco mais de compreensão sobre os problemas que esse comportamento individualista acaba causando dentro do próprio movimento de mulheres. Eu acho que consegui construir esse objeto de observação, de começar prestar mais atenção nas outras, tentar diminuir o julgamento e prestar mais atenção nas ações. E hoje eu saio desse projeto entendendo que precisamos trabalhar bastante dentro do movimento essa coisa do individualismo, que cria concorrência. E esse sentimento de concorrência é algo que nunca faz sentido, mas que muitas vezes tá ali velado e enfraquecendo as coisas. 

  • Você conseguiu atingir os objetivos e as metas que você esperava com o programa?

Todos ainda não. Estou atrasada nisso. A pandemia me pegou de jeito. Pra mim, o Programa começou junto com a pandemia, porque as bolsas foram implementadas em março/abril de 2020 e eu já estava sofrendo as consequências da pandemia. Eu não sei o que poderia ter acontecido se eu não tivesse sido agraciada pelo Programa. Ele foi fundamental pra mim. E mesmo tendo esse suporte, a coisa foi feia, muito difícil. Uma das minhas metas era concluir o curso de especialização em Influência Digital e na sequência colocar um blog no ar. Outra meta importante que eu tinha no meu PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) era a publicação do livro. Na minha cabeça quando tudo foi estruturado, o livro era para ser publicado em 31 de julho. Não foi bem assim que aconteceu, o livro está sendo encaminhado para editora ainda essa semana [novembro de 2021]. O livro se mostrou um grande desafio porque me coloquei na obrigação de organizá-lo de forma coletiva. Primeiro tivemos que mobilizar a mulherada para comprar a ideia do livro, fazer as pessoas acreditarem que seria possível ter a publicação desse livro aqui na Amazônia. Se a mulher negra já é invisibilizada, aqui na Amazônia é muito mais. Ainda mais na região que será o foco do livro. A ideia inicial era que a gente ficasse com as mulheres do baixo Amazonas, principalmente da cidade de Santarém, uma cidade que é extremamente elitista, racista, machista e homofóbica. Tivemos todos esses desafios.  

  • Esse processo de elaboração do livro foi coletivo?

Peguei o recurso do Baobá e fui para as mulheres do movimento, do grupo e convoquei aquelas que se interessassem para formar uma comissão organizadora para pensar o livro. Tudo foi pensado de forma coletiva. Quando vimos que havia a necessidade de provocar uma mobilização mais forte para que as mulheres conhecessem o edital, já estava na época da COVID. Então, usamos as mídias digitais. Abrimos um edital para que as mulheres negras cis e trans do baixo Amazonas se inscrevessem. Com a chamada, as mulheres diziam que não se sentiam seguras, achavam que não tinha condições de escrever um artigo. Então, pensamos em fazer aulas online falando sobre temas relacionados ao livro e trazer as pessoas, para ouvir os debates, as aulas e depois isso poderia ser um material para usarmos mais lá na frente, para incentivar.

  • Quais os temas que vocês estão trabalhando no livro?

São diversos eixos temáticos que colocamos lá: mulheres negras e acesso à saúde; mulheres negras e acesso a saneamento básico; empreendedorismo; mulheres negras e direito; mulheres negras e educação, entre outros. Eram eixos pensados para que pudéssemos adequar ao que as mulheres quisessem escrever pra não ficar uma coisa muito engessada. Fizemos parcerias com professoras, professores, profissionais de outras áreas, inclusive pessoas não negras também, que se disponibilizaram a gravar essas vídeos-aulas e convocar a galera para isso. Fizemos toda essa movimentação, mas ainda assim quando o prazo de submissão chegou, tivemos dois artigos submetidos. A previsão era de que publicássemos 16 artigos. Reabrimos o edital e nada. Tivemos que pensar alternativas, porque se a gente não publica o livro, reforça a ideia de que mulheres negras não conseguem escrever. Na época, o edital foi muito visto, o projeto foi bem midiatizado e depois dizer que não ia rolar, seria um tiro no pé. Aí pensamos em abrir para a Amazônia inteira. Deixamos de abrir somente para o baixo Amazônia, ainda assim não rolou. Por último, decidimos chamar mulheres que já tinham o hábito de publicar artigos. Uma preocupação que tínhamos também era que não queríamos só doutoras, em nenhum momento pensamos em um livro formado somente por doutoras ou por mulheres que já eram reconhecidas no meio acadêmico. A gente queria mulheres anônimas.  Colocamos em prática essa ideia e ainda assim – e eu digo que foi por conta da pandemia -, a gente acabou não conseguindo os 16 artigos, a muito custo conseguimos 09 e para isso as mulheres que estavam na organização tiveram que participar também.

Uma coisa que nós diagnosticamos é que existe muita insegurança, as pessoas não acreditam que elas são capazes de escrever, mesmo pegando mulheres que já estão na academia. Daí, pensamos o seguinte: vamos juntar e escrever esses artigos não de forma individual, mas vamos fazer duplas, trios, quartetos, o que for, mas vamos escrever. E daí conseguimos que os 09 artigos saíssem dessa forma. Eu acho que a partir daí já conseguimos atingir alguma coisa, não era a meta que a gente tinha colocado antes, mas o projeto não morreu.

Eu acho que conseguimos homenagear mulheres da região, mulheres anônimas. Queríamos dar visibilidade a essas pautas do território, falar sobre as demandas daqui, mesmo porque temos um problemão quando falamos sobre negritude aqui. Houve todo um processo histórico de apagamento do negro na Amazônia, como se a Amazônia não tivesse participação do negro e teve! Cada vez que as pessoas veem um negro de pele retinta pergunta logo se é do Maranhão, nunca se é do Pará, por exemplo. Então, as pessoas não entendem que o processo de formação social aqui se deu de uma forma, que as pessoas negras daqui vão ter características diferentes das pessoas negras da Bahia, por exemplo. Eu acho que o livro acaba atingindo pelo menos essa meta. 

  • Qual a avaliação positiva desses desafios?

O aprendizado, porque a partir dessa dificuldade toda, tanto pra mim quanto para as outras colegas que estão participando, ficou claro: trabalhar um edital para mulher negra não é o mesmo que trabalhar para mulheres não-negras. Temos gargalos que precisam ser vistos. Saímos desse processo todo com a certeza de que é possível e de que é um eixo que precisa, pode e deve ser trabalhado. O meu grupo acha que a gente vai ter que correr atrás, depois do livro, vamos ter que sentar, reavaliar tudo, ver onde nós erramos, o que pode ser melhorado e gostaríamos de continuar com esse tipo de iniciativa, em outro formato. Eu acho que tem muita história que a gente precisa contar, tem muita coisa para ser visibilizada, discutida. Então, eu acho que o livro de positivo tem isso e sei que vai ser muito legal quando ele for impresso, acreditamos que em novembro já estaremos com ele em mãos. Eu sei que vai ser muito bom para a autoestima das mulheres que participaram desse processo. 

  • Sua proposta de projeto estava relacionada com o âmbito digital, com a chegada da pandemia esse foi o principal ambiente de atuação das líderes negras e de outras atrizes sociais. Como foi essa experiência para você? 

Foi novamente uma outra oportunidade que o Programa me deu, porque no final das contas essa especialização que estou concluindo foi fundamental não somente no campo profissional, do ativismo, porque isso vai se desenvolvendo em novos projetos, em novas ações, vai ser uma forma de eu atuar através da mídias digitais, através do blog Vozes Negras. O que ficou muito claro que é uma ferramenta do futuro, uma forma de trabalho do futuro e ela agregou não somente nesse campo ativista, mas na minha formação profissional enquanto economista. Por exemplo, eu vejo oportunidade da gente tentar fomentar negócios de outras mulheres negras que estão no afroempreendedorismo. Foi uma experiência que confirmou inclusive a hipótese que eu tinha quando escrevi o projeto: de que esse meio digital seria muito mais eficiente do ponto de vista de larga escala do que o presencial. Porque a gente para montar uma ação presencial às vezes os custos são muito maiores, temos que mobilizar carro de som, contar com a boa vontade da polícia, mobilizar uma série de atores que muitas vezes não estão interessados que aquele ato saia. E no meio digital eu pego uma câmera e pronto. Sou eu e minha câmera, claro que tem os outros cuidados e conhecimentos, mas assim é muito mais fácil e consegue atingir um público muito maior. A pandemia foi uma oportunidade de comprovar isso, foi uma confirmação de que eu estava correta. É um curso que realmente vai me render muito. 

  • De que maneira as metas que você atingiu com o programa vão impactar nos grupos sociais/ instituições de mulheres negras que você faz parte?

Eu acho que já começou a impactar. Quando a gente começou a articular o livro, a gente conseguiu, através da mídia, chamar a atenção de outras mulheres do território. Uma coisa que eu acho muito legal porque hoje temos uma demanda maior de mulheres pelo menos com mais curiosidade, principalmente em cidades menores do interior. Outro impacto é a questão trans, essa discussão sobre as demandas LBT, que a gente ainda não estava nessa pegada, ainda não estávamos falando com as mulheres trans. Temos muito o que aprender com elas. É um dos impactos positivos que nós tivemos coletivamente.

  • Quais são seus planos e interesses para o futuro?

Então, finalizar a publicação do livro e colocar logo esse blog no ar. Eu estou saindo dessa experiência toda com a ideia de coletividade muito bem assentada na minha cabeça. Temos planos de começar a garimpar editais para publicar novos livros. Durante o tempo que estávamos rodando a organização do livro, surgiram outras ideias, outras demandas. Por exemplo, tivemos participação de outras mulheres que nesse formato do livro em artigo não seria possível, que são mulheres mais da zona rural. Então, temos de pensar como a gente poderia fazer, pensar que tipo de narrativas e escritas a gente pode passar a aproveitar para que essas mulheres também tenham visibilidade. Pensamos em fazer uma espécie de documentário com mulheres quilombolas, temos até o título: “Meu Quilombo Por Elas”. Seria um documentário em que as mulheres quilombolas falariam sobre os quilombos, a vivência do quilombo a partir das mulheres. Chegamos a submeter em alguns editais, mas ainda não conseguimos aprovação, talvez não tenha sido o momento mesmo. Mas, ideias a gente tem.  

 

*Esta entrevista foi realizada pelo Fundo Baobá, em parceria com a Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra.

Direção do Fundo Baobá e apoiadas do Programa Marielle Franco participam de live sobre diversidade e liderança

A diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, participou do evento Road Show 2020 – Conexão, Diálogos e Transformação, organizado pela Eight Diálogos Transformadores, uma rede colaborativa de coaches e facilitadores de diálogos, em 17 de setembro. Além da Selma Moreira, participaram também três apoiadas do Programa de Desenvolvimento e Aceleração de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, iniciativa do Fundo Baobá em parceria com a Fundação Kellogg, Instituto Ibirapitanga, Fundação Ford e Open Society Foundations. Entre elas estavam a diretora-executiva do Instituto Migra, Monalyza Alves; a cineasta e coordenadora de licenciamento e filmes originais da Netflix, Aline Lourena; e a educadora social e estudante de filosofia Lídia Rodrigues.

Com o tema “Diversidade na Prática – Coaching como Acelerador de Lideranças”, o evento virtual foi mediado por Christine Napoli e Roberto Rotenberg, ambos da Eight. Em sua fala inicial, Selma apresentou o Fundo Baobá, a forma como a organização funciona e o seu trabalho de promoção da equidade racial no país, por meio do apoio financeiro e técnico que alcança organizações, grupos e coletivos negros via editais. A diretora-executiva também explicou a forma como o Baobá capta recursos, dialogando com empresas e instituições, e também com indivíduos, que podem doar para a instituição funcionar no dia a dia, para os programas e projetos ou para o fundo patrimonial. Sobre isso, Selma frisou a importância de dialogar com as pessoas e mostrar a necessidade de se empenhar na luta antirracista: “Captar é um grande desafio, mas tem um diálogo para ser dirigido aos indivíduos, que cada cidadão precisa também pensar qual é o seu lugar, nessa construção de uma sociedade mais justa, o que te toca o que você pode contribuir para isso, além de fazer um post bacana nas redes sociais”.

Selma Moreira e as apoiadas do Programa de Aceleração e Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco no Road Show 2020 – Conexão, Diálogos e Transformação

Entre as lideranças apoiadas, Monalyza Alves fez questão de destacar a importância do seu projeto desenvolvido com apoio do Programa Marielle Franco: “Eu trabalhei por dez anos no governo do Estado do Rio de Janeiro, atuando com políticas de promoção da igualdade racial e também com direitos humanos. E havia uma dificudade por parte de gestores, principalmente negros, em entender como a estrutura do governo funciona. Então quando eu fiquei sabendo do Fundo Baobá, eu inscrevi esse projeto que é uma espécie de formação inicial para quem vai assumir cargos públicos. Porque eu entendo que se você conhece a máquina, você consegue transformá-la”.

Para a cineasta Aline Lourena, a raiz do seu trabalho é empoderar mulheres negras e torná-las protagonistas da sua própria história: “A minha missão é ampliar o número de mulheres negras em cargos de liderança. Eu sou cineasta, mas eu passei boa parte da minha vida empreendendo em uma agência de comunicação e publicidade, sendo pioneira no Brasil em ter todo um processo de admissão de um corpo de profissionais negros e LGBTQI+, sendo essa uma das únicas estratégias possíveis de atuar no mercado de trabalho, na área da comunicação e do entretenimento, em um espaço de protagonismo, onde eu pudesse trazer as nossas histórias para o grande público”.

Sendo uma grande militante em defesa das crianças e adolescentes vitimas de violência sexual, Lígia Rodrigues falou sobre o seu projeto que busca trabalhar autoproteção, principalmente com a perspectiva racial: “Desde os 15 anos eu sou ativista do enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes e, ao longo dos anos, eu fiz educação social de rua, educação em saúde e planejamento de políticas públicas. Em 2019 eu estava em Brasília, e eu estava muito angustiada porque eu não conseguia ver o link das ações que aconteciam no campo, de enfrentamento direto a violência sexual, e o que repercutia lá no planalto, considerando que eles queriam aumentar a pena para autores de crimes sexuais, mas lutavam pra acabar com a educação sexual, que é o principal mecanimo de enfrentamento a violência sexual. E foi à partir dessa indignação que formulei o meu projeto que é de educação e autoproteção para crianças e adolescentes.”, completa.

Christine Napoli, relembrou o papel da Eight no Programa Marielle Franco, considerando que ele é fomentado por dois blocos: “Um dedicado à formação das líderes individuais e o outro é o apoio aos coletivos liderados por mulheres negras. Nessa parte da formação individual, o Programa tem três pilares, um que irá subsidiar as líderes em sua atuação política e de lugar de fala, outro que cuida da parte psicológica, resiliência e de enfrentamento ao racismo, e a outra parte de coaching individual, que foi justamente onde nós da Eight entramos”. Para Selma, o trabalho da Eight com as apoiadas do Programa é essencial: “O racismo é algo tão perverso, tão absurdo, que muitas vezes faz com que a gente tenha dúvidas da nossa capacidade, tenha dúvidas da nossa luz, então a perspectiva é que nós tenhamos o coach como uma ferramenta que nos auxilia a entender todo o nosso potencial, brilho, capacidade e força. O que a gente está sonhando e como é que a gente faz acontecer, e esse é o papel da Eight, de apoio nessa transição do sonho para a realidade”, destacou.

Confira a live completa aqui