Fundo Baobá e Conaq lançam o edital Quilombolas em Defesa: Vidas, Direitos e Justiça

O Fundo Baobá para Equidade Racial em parceria com a Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) lançam o edital Quilombolas em Defesa: Vidas, Direitos e Justiça.  O objetivo do  edital é apoiar iniciativas de organizações quilombolas para promover a sustentabilidade econômica nas comunidades, a geração de renda, promover a soberania e a segurança alimentar, além de defender os direitos quilombolas nas comunidades. 

Fundo Baobá, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental que, juntos, constituem a Aliança entre Fundos, atuam em prol da justiça racial, justiça social e justiça ambiental. As ações da Aliança são financiadas pela Fundação Interamericana (IAF).  Os três, com editais independentes, pretendem contribuir na redução dos impactos que as crises sanitária e econômica vêm ocasionando nos povos indígenas, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais mais vulnerabilizados pela pandemia da COVID-19.

De acordo com a Conaq e o IBGE,  o Brasil conta com cerca de 6 mil comunidades quilombolas. Dessas, apenas 2.819 já foram certificadas, estando 1.727 localizadas no Nordeste, 450 no Sudeste, 300 no Norte, 191 no Sul e 151 no Centro-Oeste.. Mais de 70% das comunidades quilombolas certificadas, que têm direito à terra coletiva, estão em quatro estados: Maranhão, Minas Gerais, Bahia e Pará.   Segundo a Fundação Cultural Palmares, responsável pela emissão das certidões para as comunidades quilombolas e inclusão das mesmas em um cadastro geral, 3.475 comunidades quilombolas foram reconhecidas, porém ainda aguardam certificação (2196 no Nordeste, 547 no Sudeste, 369 no Norte, 193 no Sul e 169 no Centro-Oeste). Os quilombolas têm, em sua maioria, a agricultura e a pecuária como principais atividades econômicas. A preservação de sua cultura vem da oralidade ancestral e da resistência que têm exercido ao longo de suas existências. 

“Para nós do Fundo Baobá este edital é um marco. Estamos celebrando 10 anos e será a primeira vez que teremos um edital exclusivo para quilombolas. O edital foi todo desenhado em parceria com a Conaq e se apresenta como uma grande oportunidade para fortalecer as estratégias de ativismo, resistência e resiliência das comunidades quilombolas no contexto da pandemia da covid-19.  Sabemos que as organizações de base comunitária nem sempre conseguem acessar recursos, em especial organizações comunitárias lideradas e constituídas por povos tradicionais, por isso o edital também é uma oportunidade para contribuir no aprimoramento da filantropia para justiça social”, afirmou a diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes.  

Entidades e valor do apoio

Apenas organizações  lideradas e constituídas por quilombolas poderão se inscrever.  Essa é a principal premissa do edital. Os recursos financeiros e o apoio técnico irão para a base comunitária.  Serão apoiadas  até 35 (trinta e cinco) iniciativas. Para cada uma caberá um montante de  R$ 30.000 (trinta mil reais), perfazendo R$ 1.050.000 (Um milhão e cinquenta mil reais). As organizações selecionadas também irão receber investimentos indiretos por meio de assessoria e apoio técnico visando seu fortalecimento institucional. O edital completo poderá ser lido neste link.

Inscrições

As inscrições para o edital Quilombolas em Defesa: Vidas, Direitos e Justiça começam no dia 23 de setembro e vão até as 23h59 do dia 25 de outubro (horário de Brasília).  As demais fases do processo seletivo estão descritas no edital. 

Para se inscrever basta acessar o site oficial do edital.

Eixos Temáticos

Cada organização deve apresentar apenas uma proposta que verse sobre um dos eixos temáticos propostos: 

  1. Recuperação e sustentabilidade econômica nas comunidades quilombolas; 
  2. Promoção da soberania e segurança alimentar nas comunidades quilombolas; 
  3. Resiliência comunitária e defesa dos direitos quilombolas. 

Edital Vidas Negras e a potencialização da dignidade e justiça

Por Vinícius Vieira

No dia 9 de setembro, o Fundo Baobá para Equidade Racial divulgou a lista das organizações selecionadas no edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, iniciativa lançada no dia 5 de maio, com apoio do Google.Org, braço filantrópico do Google, e que tem a premissa de apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil.

Ao todo foram selecionadas 12 iniciativas, divididas pelos seguintes eixos: 

I – Enfrentamento à violência racial sistêmica
II – Proteção comunitária e promoção da equidade racial
III – Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes
IV – Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial

Entre as organizações selecionadas temos organizações de mulheres negras e que atuam no enfrentamento à violência racial contra as mulheres, aquelas que atuam no enfrentamento ao racismo religioso, outras que dão visibilidade à situação de encarceramento de mulheres negras, organizações quilombolas que atuam na defesa dos direitos quilombolas, sobretudo o direito à terra. Organizações antiproibicionistas, outras que atuam na defesa do direito à moradia  para famílias sem teto de baixa; aquelas que congregam familiares e vítimas de violência do Estado e outras que prestam assistência biopsicossocial e jurídica a familiares de pessoas privadas de liberdade.

As organizações selecionadas estão localizadas nas regiões Sudeste, Norte e Nordeste do país, oriundas dos estados de Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Amapá, Pernambuco e Ceará.

O edital contou com três etapas de seleção sendo que, na última fase, as organizações  participaram de um painel de entrevistas conduzido por especialistas e membros da governança do Fundo Baobá. As entrevistas foram realizadas considerando o eixo temático escolhido pela organização no momento da inscrição e cada eixo contava com 2 ou 3 entrevistadores(as).

Para a graduanda em direito, monitora das disciplinas de Sociologia Geral e Assessoria Jurídica Popular na FND/UFRJ, também monitora no curso de extensão Promotoras Legais Populares e liderança comunitária na Baixada Fluminense, Thuane Nascimento, ter atuado no comitê de seleção entrevistando as e os representantes de organizações que inscreveram seus projetos no eixo III Proteção Comunitária e Promoção da Equidade Racial, dialoga perfeitamente com a sua área de atuação, desde quando ela entrou na universidade: “Essa lógica da proteção comunitária junto com a promoção da equidade racial tem tudo a ver com o trabalho que eu desenvolvo. Nós sabemos que quando um território está seguro, a pessoa que mora lá se sente segura naquele território. Entendemos que é a comunidade que consegue dar uma segurança e um aporte para a pessoa que está morando ali”.

Segundo Thuane, essa proteção que a comunidade oferece aos seus moradores, de maioria negra e pobre, faz parte do senso coletivo que está enraizado desde a construção desse local: “As favelas, os assentamentos e as ocupações são construídos numa lógica de coletividade. Isso é muito importante, porque na coletividade as pessoas aprendem a respeitar um ao outro e aprendem a proteger um ao outro”.

Thuane Nascimento, graduanda em direito, monitora das disciplinas de Sociologia Geral e Assessoria Jurídica Popular na FND/UFRJ, também monitora no curso de extensão Promotoras Legais Populares e liderança comunitária na Baixada Fluminense

Thuane atuou em um projeto chamado Circuito Favela por Direito, onde ela pôde vivenciar de perto o senso de coletividade existente nas comunidades do Rio de Janeiro: “Em muitas comunidades existe um grupo de WhatsApp para poder falar onde estava acontecendo um tiroteio, para avisar qual lugar que estava perigoso, além dos grupos de WhatsApp entre as mães. Proteção comunitária tem tudo a ver com o território”, afirma.

Quem também atuou no comitê de seleção do edital Vidas Negras, em diálogo com organizações que apresentaram suas propostas no eixo IV: Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial, foi a doutora e mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado; Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio; Coordenadora Geral do NIREMA – Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente – e professora visitante Jr. no African Gender Institute, University of Cape Town, Thula Pires, que também vê ligação entre a sua área de atuação e o eixo em que realizou entrevistas: “O eixo de Reparação é aquele que mais evidencia a necessidade do Estado se responsabilizar pelas violências que (re)produz e, nesse sentido, dialoga muito intrinsecamente com o campo do Direito Constitucional e da Teoria do Estado”.

No eixo IV foram selecionadas três organizações, todas da região Sudeste. Thula analisou e traçou o perfil característico de cada uma: “As organizações selecionadas no eixo IV nos oferecem a possibilidade de incidir em diferentes dimensões na reparação às vítimas de injustiças raciais. Do direito à moradia, em toda sua complexidade, aos desafios da política de drogas e da política prisional, passando pelo racismo religioso, temos distintas e estratégicas áreas de enfrentamento às violências promovidas, sobretudo, pelo Estado brasileiro”.

Thula Pires, doutora e mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado; Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio; Coordenadora Geral do NIREMA – Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente – e professora visitante Jr. no African Gender Institute, University of Cape Town

Ao relembrar a sua atuação no eixo II, Thuane fala dos diferentes perfis das quatro organizações selecionadas que, segundo a própria, deixou a escolha dos projetos ainda mais interessante. Entretanto, ela fez questão de destacar um dos projetos selecionados: “Uma organização da Região Norte que está situada em uma  comunidade quilombola e eles queriam expandir o trabalho para dezenas de comunidades, em um lugar que o principal meio de transporte é o fluvial. Eu fico imaginando a dificuldade: já trabalhavam com algumas comunidades e querem expandir ainda mais o trabalho. Isso é de uma importância imensa”. No caso, Thuane se refere à organização selecionada Associação de Jovens Moradores e Produtores Rurais de Santa Luzia do Maranum I (Ajomprom), localizada em Macapá, no Amapá.

Ao lembrar dessa organização, Thuane Nascimento fala sobre as potencialidades dos projetos e das organizações selecionadas;  as expectativas em relação às mudanças que poderão ser geradas na sociedade, além da importância da realização do edital Vidas Negras: “Se as organizações conseguem fazer um trabalho tão bom e chegar até aqui, mesmo sem tanto apoio financeiro e sem um apoio de rede, imagina onde que elas vão conseguir chegar com esse apoio do Fundo Baobá? Eu acredito que teremos muitas mudanças, talvez não seja uma mudança como a gente pensa, que vai abranger a todos, porque nem é essa a proposta, mas vai mudar a comunidade local, vai avançar no sentido dela se sentir protegida, se sentir conscientizada e conseguir avançar nas pautas e demandas que elas precisam para poder se manter e produzir em seu território”.

Para Thula Pires, os projetos selecionados têm a potencialidade de produzir impactos importantes na sociedade brasileira: “Não apenas na redefinição e monitoramento de políticas já existentes, como também na possibilidade de ampliarmos as ações de organizações negras em comunidades e grupos historicamente negligenciados pelas políticas públicas. Em tempos de acirramento da violência e da produção da morte em escala, medidas de enfrentamento às injustiças raciais são não apenas bem-vindas, mas efetivamente necessárias”. Ela também faz questão de ressaltar a importância da realização do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça: “através deste edital, o Fundo Baobá cumpre um papel fundamental na viabilização de ações promovidas por pessoas negras no enfrentamento concreto às injustiças raciais. O apoio financeiro para o desenvolvimento das ações, ao ser acompanhado pelo suporte técnico para o fortalecimento institucional, é capaz de preparar as organizações para intervenções futuras e para ampliar o acesso a outros editais e programas. Nesse sentido, atua tanto no fortalecimento das comunidades, vítimas e sobreviventes das injustiças raciais, como na ampliação da capacidade de incidência das organizações negras de promoção da justiça racial”, finaliza.

No Dia de Adolescentes, é essencial reconhecer a importância da promoção da educação em nosso país

Por Marcos Furtado e Mônica Moreira, do Perifa Connection,  em parceria com Vinícius Vieira 

Hoje é celebrado no Brasil o “Dia de Adolescentes”, uma data instituída no país no ano de 1996.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui uma população de 211 milhões de pessoas, dos quais 69,8 milhões são crianças e adolescentes entre zero e 19 anos de idade, o que representa 33% da população total do país.

Mais da metade de todas as crianças e adolescentes brasileiros são afrodescendentes e um terço dos cerca de 820 mil indígenas do país é criança. A região onde se concentra a maior população nessa faixa etária é a Sudeste, com mais de 89 milhões de crianças e adolescentes.

Entretanto, mesmo com esse número elevado no país, há adolescentes vivendo em situação domiciliar de extrema pobreza. Um levantamento realizado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), em 2019, relacionado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que 9,1 milhões de adolescentes vivem em lares com uma renda per capita mensal inferior ou igual a um quarto de salário mínimo.

Outro dado alarmante envolvendo os adolescentes, é relacionado ao aumento da taxa de homicídos entre adolescentes e jovens no país. Segundo os dados do Atlas da Violência 2020, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que 30.873 jovens na faixa etária entre 15 e 29 anos foram mortos em 2018 no Brasil, quantidade que equivale a 53,3% dos registros da pesquisa.

Quando o assunto é educação, trazendo para o recorte racial, uma pesquisa do IBGE, de 2018, mostrou que um terço dos brasileiros entre 19 e 24 anos não havia conseguido concluir o ensino médio naquele ano. Entre os que não conluíram esta etapa, 44,2% são homens jovens negros. Muitos dos motivos que mostram a evasão escolar corresponde ao fato de o adolescente negro, com menos de 18 anos, ingressar mais cedo no mercado de trabalho.

Pensando nisso, que o Fundo Baobá para Equidade Racial lançou em 2020 o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, em parceria com a Fundação Citi, com a premissa de potencializar a educação dos jovens negros de regiões vulneráveis, impulsionando para ajudá-los a ultrapassar o estreito gargalo que impede seu acesso a boas universidades e, posteriormente, a postos de trabalho mais altos na hierarquia das empresas.

Quem faz parte do Programa Já É é a adolescente Mayara Maria Malta, de 17 anos, moradora do bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. Antes mesmo de ela terminar o ensino médio, ela ingressou em um curso técnico em administração. No entanto, após alguns cortes, a instituição em que a jovem estuda teve sua carga horária reduzida e concentrou as matérias da formação geral nos dois primeiros anos, deixando para o terceiro apenas a profissional. “A gente aprendeu tudo (do ensino médio) no primeiro e no segundo ano. Foi tudo muito rápido e puxado”, explica. 

Além das alterações na estrutura do ensino de sua escola, a vestibulanda também teve que lidar com os impactos do isolamento social que a pandemia da Covid-19 trouxe para o sistema de ensino. Com a mãe desempregada, o pai afastado do trabalho por questões de saúde, as irmãs com seus filhos em casa e a instabilidade do sinal da internet em alguns cômodos, a vestibulanda precisou se reinventar para estudar. “Eu cheguei a estudar na cozinha e é aquele vai e vem de criança correndo e gritando. Foi bem complicado”, conta.

Mayara Maria Malta, 17 anos

E mesmo diante de todas as adversidades, Mayara encontrou na produção de conteúdo para as redes sociais uma maneira de melhorar o seu estado de saúde emocional. “Eu consegui controlar toda essa ansiedade na internet. Acredito que muitos jovens entraram na internet por conta disso. Então eu consegui sair dessa situação não me distraindo, mas produzindo conteúdo para alcançar outras pessoas.” O que começou como uma forma de driblar toda a pressão dos estudos no ano pandêmico se converteu na identificação de uma carreira: o marketing digital. “No curso técnico de administração, eu tive contato com marketing. E sabe quando você se apaixona? E aí no ano passado eu fui buscar mais sobre isso. Foi quando eu comecei a falar sobre o assunto no meu perfil no Instagram.”

Caminhando para se tornar uma influenciadora digital, Mayara tem consciência da importância do que é produzido na internet. Tanto é que outras temáticas presentes em suas publicações são os cuidados com a aparência e autoestima. “Eu já me autosabotei muito, principalmente no mundo em que a estética é muito importante. Comecei a ir para frente nesse assunto quando comecei a me aceitar, a cuidar de mim e conhecer a Mayara de verdade”, conta.

Do outro lado da capital, mais precisamente em Interlagos, bairro localizado no extremo da zona sul da cidade de São Paulo, vive Luiz Felipe Motta da Silva, junto com os pais e seus quatro irmãos. Com 18 anos de idade, Luiz teve a experiência do ensino médio integrado ao técnico de nutrição, que foi importante para que o jovem descobrisse o gosto que tinha pela área da saúde. Mas, durante a pandemia, o amor pela Medicina falou mais alto e Luiz decidiu que não queria ser nutricionista. “Eu já pensei em vários cursos, Biomedicina, Enfermagem, Biologia. Mas aceitei que Medicina é algo que eu quero muito e estou disposto a tentar passar, mesmo que eu fique alguns anos tentando”.

Por amar praticar esportes, como vôlei, Felipe gostaria de seguir uma especialização que trabalhe diretamente com atletas. Porém, ele diz estar aberto a conhecer outras áreas da Medicina até definir o que seguir.

Luiz Felipe Motta da Silva, 18 anos

Luiz também conta que tinha o plano de fazer intercâmbio no exterior, mas por alguns problemas, não deu certo. Agora ele pretende realizar esse sonho antigo durante a faculdade. “Fico triste até hoje por não ter ido para os Estados Unidos, mas quero tentar fazer um semestre da faculdade fora do país. Eu quero muito viajar e conhecer outros lugares. Meu destino dos sonhos é ir pra Cidade do Cabo, na África do Sul, eu vi que eles falam vários dialetos e quero aprender mais inglês com eles”, afirma o jovem.

O Brasil ainda tem muito o que avançar na proteção dos adolescentes e na promoção dos seus direitos. Acompanhando a trajetória de adolescentes negros como a de Mayara e de Luiz Felipe, além dos outros 82 jovens selecionados no Programa Já É, fica evidente o quanto a educação é essencial para construção de uma sociedade equânime.

Fundo Baobá divulga lista de organizações selecionadas no edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça

O Fundo Baobá para Equidade Racial, com o apoio do Google.Org, braço filantrópico do Google, lançou, no dia 5 de maio, o edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça. O intuito do edital é apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil.

O edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, apresenta-se como uma oportunidade para a população negra fortalecer estratégias de ativismo, resistência e resiliência frente às injustiças raciais recorrentes, envolvendo e engajando comunidades, vítimas, sobreviventes e aliados. “O Vidas Negras integra o Programa Equidade Racial e Justiça do Fundo Baobá e surge inserido neste contexto de garantia à vida e promoção do direito à dignidade para a população negra. Sua implementação reitera a urgência da pauta e uma oportunidade de fortalecimento das organizações em suas ações de resistência e resiliência ao racismo sistêmico”, afirma Fernanda Lopes, diretora de programa do Fundo Baobá.

O Vidas Negras: Dignidade e Justiça contou com três fases. Na primeira etapa,  inscreveram-se 124 organizações. Das propostas apresentadas, 84 respondiam a todos os critérios  de inclusão  e foram para a segunda etapa.  

Na segunda etapa da seleção, as propostas  foram analisadas  por especialistas, com base nos critérios de relevância, coerência, consistência e sustentabilidade, entre outros descritos no edital. Como parte da estratégia de fortalecimento de capacidades, todas as organizações cuja proposta foi analisada por especialistas receberam uma devolutiva, por meio de parecer técnico e recomendações. Os pareceres técnicos foram ainda encaminhados para o  comitê selecionador, responsável pela etapa final de seleção.  

Foram indicadas para a terceira etapa 24 propostas das cinco regiões do país. Nesta fase as organizações  participaram de um painel de entrevistas conduzido por especialistas e membros da governança do Fundo Baobá para Equidade Racial. Cada organização selecionada preparou uma apresentação, com até 10 minutos de duração, falando sobre a sua iniciativa e, em seguida, seus representantes responderam a um conjunto de perguntas. Todas as entrevistas ocorreram de forma virtual, com duração de 50 minutos.

As entrevistas foram realizadas considerando o eixo temático escolhido pela organização e cada eixo contava com 2 ou 3 entrevistadores(as). A coordenadora de Políticas de Promoção de Igualdade de Gênero e Raça do Instituto Geledés da Mulher Negra, Maria Sylvia Aparecida Oliveira, integrou o comitê selecionador do eixo Enfrentamento à violência racial sistêmica: “Foi uma tarefa árdua e sofrida, fazer parte deste comitê, pois todos os projetos que chegaram para nós avaliadoras e avaliadores são extremamente consistentes, extremamente relevantes para o combate ao racismo estrutural, institucional e para formação nas comunidades onde foram pensados”.

Quem também relatou ser desafiador participar do comitê, pelo grande número de excelentes iniciativas, foi a mestra em Ciências Sociais, advogada e atriz, Dina Alves, que integrou a equipe do eixo Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes: “Torna-se cada vez mais urgente e essencial, políticas públicas efetivas aliadas a ações que fortaleçam organizações negras que trabalham para garantir acesso a direitos historicamente interditados da população negra privada da liberdade”. Dina aproveita para salientar o atual contexto pandêmico, no qual a situação das mulheres chama a atenção para suas especificidades nos horrores das prisões: “O apagamento estratégico da condição de gênero é ainda mais devastador e catastrófico neste cenário. Isso porque a subnotificação e ausência de dados sobre as mulheres encarceradas já é um dado importante para diagnosticar a insidiosa persistência do sistema racista e patriarcal”. No fim, Dina Alves frisa que houve muitos projetos com propostas inovadoras sobre a emergência do debate sobre o fim das prisões a alternativas de resistências subterrâneas elaboradas no cotidiano do cárcere por mulheres que já atuam no sistema prisional: “Apoiar essas organizações negras, protagonizadas por mulheres, sobreviventes do sistema prisional, familiares, com aporte financeiro, suporte técnico e fortalecimento institucional são condicionantes que fortalecem suas ações no enfrentamento ao racismo, à violência sistêmica e às injustiças que o sistema de justiça produz”.

Quem também participou do mesmo eixo foi a advogada, especialista em mediação de conflitos e facilitadora de justiça restaurativa, Marina Dias, que fez questão de ressaltar a importância da realização de um edital como o Vidas Negras: Dignidade e Justiça, para o enfrentamento da violência racial sistêmica, assim como a atuação fundamental das organizações: “Me foram trazidas propostas muito consistentes e que estão dialogando de maneira bastante interessante e profunda com relação ao tema do encarceramento em massa. São organizações que estão diretamente trabalhando no território para enfrentar essa realidade e também são organizações que já possuem uma trajetória nesse campo. Então foi muito importante a realização deste edital para transformação dessa realidade e eu me senti muito feliz de poder colaborar com esse processo”.

A graduanda em direito, monitora das disciplinas de Sociologia Geral e Assessoria Jurídica Popular na FND/UFRJ e do curso de extensão Promotoras Legais Populares, liderança comunitária na Baixada Fluminense, Thuane Nascimento atuou no comitê através do eixo Proteção Comunitária e Promoção da Equidade Racial e reconhece o alcance que o Fundo Baobá teve com o seu edital: “Uma coisa que o Baobá conseguiu fazer com este edital, foi chegar ao Brasil inteiro, em projetos diversos e diferentes, todos com muita potencialidade, com temáticas muito interessantes e que partem a partir da territorialidade, justamente o eixo que eu fiquei”. Outro ponto que Thuane destaca sobre o Vidas Negras, é a rede que foi construída entre os participantes: “Para além do apoio financeiro, uma coisa muito interessante que a organização vai fornecer é essa rede de contato entre os movimentos. Trata-se de um incentivo muito interessante e eu acredito que esse apoio vai ser essencial para enfrentamento da violência racial”, finaliza.

Integraram também o comitê selecionador, membros da governança do Fundo Baobá: Lindivaldo Júnior (historiador com pós-graduação em Política e Gestão Cultural), Trícia Calmon (cientista social e mestranda em Gestão Social e Desenvolvimento) e Felipe Freitas (doutor em Direito, Estado e Constituição), todos do estado da Bahia.

Além de membros externos: Monica Oliveira (assessora parlamentar na Juntas Codeputadas), do Pernanbuco e Thula Pires (doutora e mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado; Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio; Coordenadora Geral do NIREMA – Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente – e professora visitante Jr. no African Gender Institute, University of Cape Town), do Rio de Janeiro.

Embora no edital estivessem previstos 10 apoios, em consenso com a instituição financiadora, optou-se por ampliar o número de organizações. Ao todo foram selecionadas 12 iniciativas, divididas pelos seguintes eixos:

a) Enfrentamento à violência racial sistêmica: 2 

b) Proteção comunitária e promoção da equidade racial: 4

c) Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes: 3

d) Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial: 3

Todas as organizações selecionadas vão receber um aporte financeiro de R$100.000 (cem mil reais), além de assessoria e suporte técnico para o fortalecimento institucional. Elas terão 12 meses para execução dos projetos propostos, incluindo prestação de contas final.

Os próximos passos são: 

16 de setembro, das 15h às 17h – encontro virtual de orientação para todas aa organizações selecionadas

23 de setembro a 8 de outubro –  jornada formativa 1 (aulas virtuais assíncronas, com certificação)

1 a 8 de outubro –  assinatura de contrato (por meio eletrônico) 

15 de outubro – pagamento da 1ª parcela do contrato (após conclusão e apresentação de certificado da jornada formativa 1)

Agora acesse o link que leva à lista das organizações negras selecionadas no edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça.

A pressão para decidir o que cursar na graduação

O processo para decidir qual carreira seguir e como ele afeta de diferentes formas os jovens vestibulandos.

Segundo dados divulgados  pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), com base no Censo de Educação Superior 2,  cerca de 56% dos estudantes que acessaram a faculdade acabaram desistindo no decorrer ou trocaram de curso durante a graduação. Muitos deles em decorrência de uma escolha insatisfatória, que não lhes trouxe o retorno esperado. Tal situação deixa alguns jovens indecisos na hora de escolher por qual caminho seguir na universidade. Com a proximidade das provas de vestibulares, é aumentada a pressão interna e externa  para que essa escolha seja feita o quanto antes.

Por que é tão difícil decidir com certeza qual carreira seguir? Vinícius Ribeiro da Silva, de 23 anos e morador da comunidade de Paraisópolis em São Paulo, pretende ser a primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior e quer tomar a decisão certa quando o fizer. Ele teme escolher uma área que lhe dê pouca satisfação e retorno no futuro, além disso, receia a falta de garantia de sucesso. “Eu vou fazer um curso, terminar e acabar trabalhando em outra área. Então, aquele tempo ali foi perdido”, comenta.

Além disso, a desigualdade social é um fator que potencializa a pressão interna. Jovens de baixa renda como Vinicius precisam se estabelecer financeiramente com mais urgência se comparados a outras classes sociais. Apesar do estudo trazer benefícios, quando ele não trás retorno financeiro pode se tornar uma frustração. “Então pensa, periferia, gastar maior tempão estudando pra depois não ter uma garantia? Pessoas da periferia não têm essa condição.”

“Meus pais sempre me apoiaram, claro, mas eu me cobro muito, sabe?” É o que diz Ana Maria Silva Oliveira, de 18 anos. Ela explica que a pressão para decidir o que cursar, vem muito mais de si mesma do que de sua família. Segundo a jovem, é muito angustiante não ter essa resposta tão importante. “É muito difícil escolher pelas matérias. Em quais áreas eu vou conseguir trabalhar? Mais especificamente, como é na prática? Porque na teoria, assim, está tudo na internet. Aí não sei se vou exercer essas atividades. Mas e na prática será que é assim mesmo? Igual? Então essa é a dúvida”, desabafa.

Ana Maria Silva Oliveira, 18 anos

Por outro lado, outros jovens passam por esse processo com mais leveza. Para alguns deles, o foco principal é estudar para tentar entrar na universidade, mas sem pensar tanto na questão da escolha. É a situação de Geovana de Carvalho Teles de Amorim, de 17 anos, que diz oscilar entre momentos de nervosismo e calmaria em relação a essa situação. Segundo a menina, seus pensamentos vagam entre saber que precisa parar de pensar no assunto e ao mesmo tempo tomar uma decisão de certa forma rápida.

Geovana de Carvalho Teles de Amorim, 17 anos

Para Geovana, um ponto que alivia essa pressão é o fato de o Programa Já É, do Fundo Baobá, oferecer orientações para os jovens. “Eu vou ter pessoas que vão me ajudar nesse caminho para a universidade, que vão me auxiliar, me dar apoio e instruções quando eu precisar. Então, eu fiquei tranquila e feliz”, disse ela.

Assim como Geovana, Vitória Nunes Martins, de 17 anos, apesar de se preocupar em decidir o que cursar na faculdade, prefere focar na experiência positiva do momento em que vive. Ela que não esperava passar no Programa Ja É e se sente aliviada com a segurança que o projeto oferece.

Em relação à pressão para tomar uma decisão, ela diz que não chega nem da parte de sua família e nem dela: “Nunca me pressionaram, mas eu também não me pressionei e eu espero achar a resposta nesse ano mesmo. Assim, eu vou estar estudando para fazer as provas e nesse meio tempo eu quero tá pesquisando o que isso mais se encaixa comigo, só que eu nunca decidi nada, nunca tive nada em mente, pois sempre fui deixando”. Ela destaca o fato de estar na universidade para expandir seus conhecimentos, aproveitar novas oportunidades e acredita que independente do curso que escolher, será um momento incrível.

Vitória Nunes Martins, 17 anos

Apesar da indecisão, das incertezas e das dúvidas, algo conforta esses jovens: a certeza de estarem no caminho certo. Através de iniciativas de Instituições como o Fundo Baobá, eles estarão no rumo para seus objetivos. Mesmo sem a incerteza do futuro, eles têm a consciência de que independentemente do curso escolhido, a educação cumprirá seu papel de potencializar suas trajetórias.

Presença de mulheres negras em cursos majoritariamente masculinos têm pouco avanço nas universidades

Raquel e Giovanna querem conquistar espaço nos cursos vistos como masculinos

Por Kátia Flora, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

 A proporção de pretos e pardos no ensino superior teve um aumento na última década. Um levantamento feito pela Quero Bolsa, plataforma de inclusão no ensino superior, a partir de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), informa que entre os anos 2010-2019, cresceu quase 400% o número de estudantes negros nas instituições de ensino. Mas, em alguns cursos como engenharia, administração, nutrição, entre outros, o percentual é bem menor.

Há também a ausência de mulheres negras nos cursos ocupados majoritariamente por homens, por exemplo engenharia civil e administração de empresas. Por outro lado, a Lei de Cotas, criada em 2012 como forma de políticas públicas, têm ajudado muitos jovens a realizar o sonho de entrar numa universidade. Para chegar nesse patamar, o Programa Já É, curso preparatório para o vestibular do Fundo Baobá de equidade racial, têm atividades voltadas à ampliação de habilidades socioemocionais e vocacionais, incluindo programa de mentoria.

É o caso da Raquel Pinheiro de Carvalho, 18 anos, que está feliz pela oportunidade de fazer o curso do Fundo Baobá e ter um auxílio dos profissionais, para alcançar seu objetivo. Ela quer cursar engenharia civil, profissão que conheceu quando tinha apenas 10 anos, através da prima, que estava terminando a faculdade e mostrava os seus trabalhos e projetos. Na época, ficou fascinada com aqueles desenhos, apesar de não entender muito os significados. “Gosto da área de exatas me identifico desde o ensino fundamental”, afirma.

Raquel Pinheiro de Carvalho, 18 anos

Na fase adulta trabalhou como jovem aprendiz em uma empresa de engenharia na Avenida Luiz Carlos Berrini, Zona Sul de São Paulo, na área dos Recursos Humanos, Raquel conta  que a maioria dos funcionários era composta por homens. Havia  apenas uma mulher negra, na época, estagiária de engenharia civil. “Eram quarenta e dois homens brancos e uma mulher negra na mesma área.

Raquel quer ser engenheira civil e seu foco é entrar na Universidade de São Paulo. Sabe das barreiras que irá enfrentar, e que a situação que relatou sobre o antigo emprego pode se repetir, mas segue firme o seu lema: “nunca desista de estudar”.

Já a estudante Giovanna Vitória dos Santos Xavier, 18 anos, quer estudar em universidade pública na área de nutrição. Ela descobriu a profissão no curso técnico da ETEC Uirapuru, que está atualmente no último semestre. Ela conta que, na sua sala de aula, a maioria das estudantes são mulheres e que negros são a minoria, mas ela se inspira no professor e coordenador do curso, homem negro, que motiva os alunos a continuar nos estudos e fazer a diferença na sociedade. Giovanna conta também com o apoio da mãe, que terminou o ensino médio há pouco tempo e trabalha como Líder de limpeza. “Na minha família, nunca fiquei sabendo de ninguém que tenha chegado cursar uma instituição de ensino. Minha mãe se sente orgulhosa e estimulada pelo meu esforço”, ressalta.

Giovanna Vitória dos Santos Xavier, 18 anos

Giovana está radiante com o Programa Já É, e a oportunidade de ter auxílio dos professores no aprendizado. “É a primeira vez que vou fazer cursinho e ter mais chances de passar na Universidade pública”, afirma.

O papel de pais e responsáveis na escolha do curso superior

A escolha pela profissão também passa pelo que é vivido no seio familiar

Por Eduarda Nunes, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Fazer faculdade não é uma escolha simples e para muitos não é nem uma possibilidade. Um país que foi construído sobre o alicerce do racismo e de outras mazelas sociais renega pessoas negras, mulheres e pessoas com deficiência ao Ensino Superior. Desfazer essa condição exige que sejam elaboradas e postas em práticas políticas públicas de reparação como a Lei de Cotas (2012) e os programas de auxílio estudantil .

Um levantamento feito pelo site Quero Bolsa, a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) verificou que entre 2010 e 2019 houve um aumento de 400% de estudantes negros nas graduações (de 38,15% a 56%). Entretanto, esses alunos não chegam a 30% em cursos como Medicina, Publicidade, Relações Internacionais e outros de prestígio social. Isso exemplifica que, embora o acesso da população negra à universidade tenha melhorado, ainda não deixou de ser uma questão que precisa ser amplamente debatida. Iniciativas como a do Fundo Baobá servem tanto para prover oportunidades, como para dar suporte às políticas públicas conquistadas pelo Movimento Negro.

No meio desses desafios há outro que persegue muitos estudantes: escolher o curso da faculdade. Afinal, como saber o que vai fazer, possivelmente, pelo resto da vida aos 17 anos? Esse é um momento importante e exige bastante não só do vestibulando, como também de quem está ao redor dele.

Na maioria das famílias negras brasileiras, as profissões estão sempre ligadas à servidão: trabalho doméstico, vigilância, serviços terceirizados. O programa Já É propõe uma transformação desse quadro, oferecendo suporte para muitos jovens se tornarem os primeiros da família a entrar na faculdade.

É esse o caso de Ângela Ferreira da Silva, jovem de 18 anos que pretende cursar Direito na Universidade de São Paulo (USP). Estudante esforçada, ela está sempre motivada a aprender. Na pandemia, com a instabilidade que foi estabelecida, ela começou a fazer curso de Inglês, Francês e História da Arte para não ficar parada. Segundo ela, essa vontade de conhecimento também faz parte da personalidade de seu pai, seu José Carlos, com quem mora. Embora nem ele nem sua mãe, dona Janaína, tenham cursado ensino superior, eles são essenciais na escolha de Ângela. “Eu sempre busquei as coisas de forma muito individual, quem sempre correu atrás de algum cursinho ou alguma vaga em alguma escola, ou tentar bolsa em escola particular foi sempre eu. Só que os meus familiares sempre me apoiaram nisso. Então eu chegava e mostrava uma oportunidade boa e eles me apoiavam e iam nos processos seletivos”, conta. A jovem mostra que ter apoio e estrutura é tão importante quanto o próprio ato de estudar.

Ângela Ferreira da Silva, 18 anos

O caso de Thauany Christina Gabriel Aniceto de Souza (25)  é um pouco diferente. Sua irmã, Ana Lúcia, foi a primeira a fazer faculdade e na família gerou-se uma expectativa de que ela seguiria os mesmos passos. Mas enquanto a mais velha foi para área de Recursos Humanos, Thauany quer mesmo é ser enfermeira. Os familiares, por um bom tempo, foram contra essa decisão. “Eles sempre disseram que a questão da enfermagem é ser um profissional que não tem vida”, conta ela, que também afirma não se importar de abdicar de seu tempo pessoal para poder ajudar nos cuidados de quem precisa. No início, ela nem queria faculdade mesmo. Aos 16 anos ela pensava em fazer curso técnico ou auxiliar porque queria mesmo era “pôr a mão na massa”, como ela mesma diz. Com o passar do tempo ela conheceu e se encantou pela área de obstetrícia. “Não tem como eu ser técnica e obstetra, eu teria que ser enfermeira obstetra e eu decidi fazer a faculdade de enfermagem para depois fazer a pós-graduação em obstetrícia”, relata. Todo esse processo interno aconteceu em paralelo ao convencimento da família de que essa era uma boa escolha.

Thauany Christina Gabriel Aniceto de Souza, 25 anos

Já com Vanessa da Silva Souza (24), a história é outra. Filha de trabalhadora doméstica, ela, que sempre teve uma relação muito afetiva com a comida, deu muitas voltas para decidir com o que iria trabalhar e acabou parando na área da cozinha. Ela cresceu vendo sua mãe, dona Maria José, cozinhando e fazendo disso uma forma de sustento para a família. Quando terminou o Ensino Médio, participou do projeto Chef Aprendiz e, através dele, conseguiu trabalhar num restaurante de comida saudável no centro de São Paulo. Ela passou de auxiliar de cozinha a cozinheira em pouco mais de dois anos. Foi tanto orgulho e realização pessoal que, juntas, Vanessa e dona Maria José passaram a nutrir o sonho de abrir um restaurante – que agora precisa ser tocado sem uma das partes, por conta de um câncer que acometeu dona Maria José e lhe tirou a vida em 2020.

Vanessa da Silva Souza, 24 anos

Os incentivos vêm de muitos lugares, principalmente do ambiente familiar. As memórias afetivas tem impacto em quem as pessoas são ou querem ser. Nem sempre é preciso ter cursado uma universidade para encorajar alguém a fazer uma. A contribuição para esse desejo acontece de muitas formas, como Ângela, Thauany e Vanessa acabaram de demonstrar.

 

Educar como forma de resistir

Diferentes histórias, um sentimento em comum: o amor pela educação. Em um momento frágil para a educação brasileira, jovens selecionados pelo Programa Já É mostram que o amor pelo ensino resiste

Segundo uma pesquisa realizada em 35 países pela organização educacional Varkey Foundation, o Brasil é o país com menor índice de  valorização dos professores. Além disso, o sistema de ensino público do país convive com a baixa remuneração, a falta de incentivo e de planos de carreira bem definidos – fatores que muitas vezes minam a motivação.

Estes são apenas alguns dos diversos problemas que atingem os profissionais de educação brasileiros. Ainda sim, em meio a um cenário profissional turbulento e uma classe desprestigiada, alguns jovens estudam com afinco para se tornarem professores.

Quando questionada sobre qual o seu maior sonho, Laysa Stefani, 18 anos, responde instintivamente: “tentar marcar vidas. Assim como a minha professora marcou a minha vida. Eu quero fazer isso com outras crianças, marcar a vida delas.”

O profissional da pedagogia, por estar em uma área direcionada à atuação com crianças, participa de fases importantes do desenvolvimento. Esses profissionais acabam se tornando grandes referências na vida de seus alunos.

Laysa Stefani, 18 anos

Foi a  observação da relação entre aluno e professor que fez Laysa optar pelo curso. “Quando as minhas irmãzinhas iam para escolinha, porque o pai delas tinha que trabalhar, eu via o jeito que elas chegavam felizes para estudar. Eu via a admiração que elas tinham pela professora da escolinha e eu percebi que era aquilo que eu queria pra mim quando tivesse que pensar numa profissão, uma coisa que eu queria fazer pra minha vida”, conta.

Apesar da beleza da profissão, o desprestígio dos professores é cada vez maior, assim como os artistas. É nesse cenário adverso que João Gabriel Ribeiro, um cearense de 20 anos, que partiu do seu estado natal para São Paulo em busca do seu objetivo de viver da música, estuda para cursar licenciatura na área.

Ele, que vivia com a sua mãe em uma cidade há cerca de 300 km de Fortaleza, chamada Milhã,  não tinha muitas oportunidades para explorar seu dom e realizar seus sonhos no município onde vivia. É quando ele decide buscar sua felicidade na Grande São Paulo onde, segundo ele, é mais fácil encontrar projetos sociais que o levem a realizar seus sonhos, como o Fundo Baobá.

Quando questionado sobre as motivações para se tornar professor de música, o artista diz querer “levar o ensino da música a mais pessoas que não tiveram, ou que não têm, as mesmas oportunidades que eu tive.”

João Gabriel Ribeiro, 20 anos
João Gabriel Ribeiro, 20 anos

Além disso, o jovem reconhece que, como professor, ele pode ajudar outras pessoas a explorar os seus talentos. “Muitas pessoas não têm a oportunidade de conhecer novos horizontes, alguns têm muito talento e não conseguem desenvolvê-lo e acabam se perdendo e indo para outros caminhos.”

Percebe-se que os jovens que estudam para atuar na área da educação estão buscando repetir padrões positivos da vida deles. Seja um professor exemplar, ou a experiência em si de ser aluno, eles querem reproduzir o que um dia a educação os causou. “O papel da educação na minha vida foi me ensinar a ver o mundo”, afirma João.

Os caminhos que levam os estudantes até a universidade

Da zona leste à Região Metropolitana de São Paulo, o sonho de ingressar no Ensino Superior.

A pluralidade  brasileira, com diversas realidades distintas coexistindo em um mesmo espaço, permite que os caminhos que levam até à universidade sejam incontáveis. Se a entrada no ensino superior fosse um destino pré-definido em um itinerário, a viagem passaria desde a inspiração herdada pelos familiares e amigos à superação de quem nunca se viu representado no universo acadêmico. Nos contrastes destes horizontes, sonhos e metas de estudantes são formados.

É nestes bastidores da vida que os objetivos de Gustavo Jesus Soares, de 17 anos, morador da Vila Yolanda II, na zona leste de São Paulo, foram moldados. Apresentando um olhar calmo e atencioso enquanto arruma o cabelo no formato Black Power, o jovem destaca que uma das suas principais características está na forma como enxerga o mundo: de uma maneira simples onde a sua força de vontade te leva longe.

Com a determinação de quem acredita que somente com os estudos as suas metas serão alcançadas, Gustavo atravessa a zona leste de São Paulo a caminho do trabalho com livros, cadernos e canetas, porém esses objetos não são suas ferramentas de trabalhos — já que atua no ramo de pinturas de bonecos –, mas sim, companheiras diárias da sua busca por conhecimento.

Gustavo Jesus Soares, 17 anos

“Para chegar até onde trabalho, preciso sair de casa muito cedo por causa do trânsito e demora para realizar o trajeto. É mais ou menos uma hora e trinta minutos de deslocamento [de acordo com o Ibope, um paulistano passa cerca de um mês e meio parado no trânsito]. Porém, mesmo com essa demanda, eu encontrei um jeito de estudar e não perder o foco dos meus objetivos. Durante o trajeto do ônibus, eu coloco a leitura de temas importantes em dia”, afirma.

Dividindo o ambiente familiar com os seus pais, o jovem destaca que o incentivo diário de ambos é o que auxilia na concentração dos seus objetivos. O pai do estudante atua no ramo de almoxarifado enquanto a mãe, formada em pedagogia, é professora de educação infantil.

É com esse apoio incondicional que a jornada até a universidade ganhou propósito. Segundo Gustavo, o sonho de viver bem, com a mente tranquila, em paz com o mundo e sem se “matar” por dinheiro é o que dá sentido ao esforço diário que encara no transporte público. Para transformar esses e outros sonhos em realidade, ele pretende cursar administração com foco em Finanças Pessoais.

“Eu busco liberdade de expressão e financeira. Para isso, preciso compreender como administrar os meus gastos e administrar a minha vida como se fosse uma empresa real. Onde eu sou o dono, o funcionário e tudo”, define.

Do outro lado de São Paulo, mais especificamente em Franco Rocha, na Região Metropolitana da cidade, os caminhos até a universidade passam pela inquietação de quem pretende conhecer e conquistar cada detalhe possível de ser desbravado neste mundo. É com curiosidade presente nas personalidades das pessoas jovens, que possuem uma sede natural por descobertas pessoais, que Giovanna Oliveira Correia da Silva expõe em metas os seus desejos: estudar de tudo um pouco.

Convivendo em um ambiente tranquilo, como ela mesmo define, a jovem divide o lar com os seus pais. Ao lado deles, a estudante possui a oportunidade de realizar uma agenda de estudos saudável, com cerca de três horas de dedicação diária. Através das suas lentes de óculos, os olhos castanhos escuros de Giovanna demonstram a vontade de explorar o novo.

“Eu sei que sou muito nova, mas pretendo estudar muitas áreas ainda! Eu quero cursar Publicidade e Propaganda, depois Letras e me aperfeiçoar em inglês. Acredito que são cursos e profissões que exploram o que tem de melhor no mundo”, exalta.

A estudante revela que suas expectativas com o Programa Já É, do Fundo Baobá. Para ela, a iniciativa representa a possibilidade de tornar os seus objetivos em realidade, já que será a primeira vez que fará a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – contará com acompanhamento profissional. Além deste passo importante, Giovanna acredita que é uma oportunidade incrível de conhecer e conectar-se com outros jovens que possuem a mesma determinação de ingressar no ensino superior.

Organizações selecionadas para a terceira fase do Edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça

O Fundo Baobá para Equidade Racial, com o apoio do Google.Org, braço filantrópico do Google, lançou, no dia 5 de maio, o edital “Vidas Negras: Dignidade e Justiça”. O intuito do edital é apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil.

O edital “Vidas Negras: Dignidade e Justiça” irá selecionar 10 entidades negras brasileiras. Cada organização selecionada, além de receber R$ 100 mil para a realização de ações programáticas, também irá participar de jornadas formativas para o fortalecimento institucional.

As organizações interessadas apresentaram suas propostas para um dos temas a seguir:

a) Enfrentamento à violência racial sistêmica
b) Proteção comunitária e promoção da equidade racial
c) Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes
d) Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial.

No dia 18 de junho, foram selecionadas 84 propostas que passaram para a segunda etapa do processo seletivo. Nesta etapa houve análise e avaliação das iniciativas por meio de especialistas, baseado nos critérios de relevância; coerência; consistência e sustentabilidade, entre outros critérios.   

A pontuação máxima a ser atingida nesta etapa era 50 pontos, não passando para a próxima fase, propostas com 25 pontos ou menos. Nesta etapa contamos com o apoio de especialistas que, com base nas necessidades descritas para o campo, além da análise técnica das propostas, buscaram   garantir, nas recomendações para o comitê selecionador, indicação de propostas de todos os eixos e regiões do país.

No prazo de um mês, foram selecionadas para a terceira etapa, 24 propostas das cinco regiões do país.

As organizações selecionadas para a terceira etapa do processo seletivo do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, irão participar de um painel de entrevistas, realizado por um comitê composto por especialistas e membros da governança do Fundo Baobá para Equidade Racial. Cada organização selecionada deverá preparar uma apresentação, com até 10 minutos de duração, sobre a iniciativa defendida. Poderão participar até dois membros da organização. As entrevistas ocorrerão de forma virtual, com duração de 50 minutos, incluído o tempo da apresentação.

A partir dessa entrevista, o comitê selecionador irá escolher as 10 iniciativas que deverão enviar a documentação para análise e possível aprovação. O resultado da terceira etapa do processo seletivo será divulgado no dia 9 de setembro, após as 19h, através das redes sociais do Fundo Baobá para Equidade Racial.

Agora acesse o link que leva à lista das organizações negras selecionadas para a terceira etapa do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça.

Evento virtual marca o encerramento das formações do Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negocios de Empreendedores(as) Negros(as)

No dia 23 de junho, o Fundo Baobá para Equidade Racial, ao lado do FA.VELA, organizou o evento virtual de encerramento das atividades formativas do Edital de Recuperação Econômica de Pequenos Negocios de Empreendedores (as) Negros (as).

Com o apoio do Instituto Coca-Cola Brasil, Coca-Cola Fundation, Banco BV e Instituto Votorantim, o Programa de Recuperação Econômica apoiou empreendimentos comandados por pessoas negras, localizados em comunidades periféricas, territórios rurais e urbanos, alguns em contexto de vulnerabilidade socioeconômica.

O evento contou com a participação dos 137 empreendedores, que compõem as 46 iniciativas apoiadas pelo edital, além dos membros da diretoria do Fundo Baobá e da equipe de planejamento, articulação e execução das formações coordenadas pelo FA.VELA.

Quem conduziu a primeira parte do evento de encerramento foi a auxiliar de projetos do FA.VELA, Lavínni Moraes, que apresentou dados referentes à jornada formativa com atividades síncronas e assincronas. Do dia 29 de março até o dia 22 de junho foram realizadas 30 aulas ao vivo, além de 17 aulas gravadas, em diversos formatos, como vídeo aulas e podcasts. 

Lavínni Moraes, auxiliar de projetos do FA.VELA

Ao longo do processo de formação, foi implementado um sistema de monitoramento, que culminou como uma boa fotografia dos esforços e dos resultados alcançados por empreendedores(as) que, em trio,  compunham as  iniciativas apoiadas. Por meio de  um questionário aplicado no início e no final da capacitação foi perceptível a evolução dos empreendedores em muitos aspectos. No que diz respeito ao “Planejamento e Gestão de Negócios”, no primeiro mapeamento, 14% das iniciativas em funcionamento não tinham estruturação de metas e princípios. No segundo mapeamento, esse número foi zerado, mostrando que 100% das iniciativas em funcionamento contava agora com estruturação de metas e princípios.

Outro item que chamou atenção foi o das “Parcerias”. No primeiro questionário, apenas 49% das iniciativas contavam com parceiros de negócios. No final do curso, este número chegava a 87%. 

No campo de “Comunicação e Marketing”, no primeiro mapeamento 62% das iniciativas investiam em comunicação e marketing. Porém, no segundo questionário, o número de iniciativas que passaram a investir nessa área subiu para 91%.

Foram apresentados também indicadores de desenvolvimento dos negócios individuais. No primeiro mapeamento, apenas 42% dos empreendimentos possuíam CNPJ, no segundo mapeamento este número subiu para 64%. 

Sobre “Planejamento e Gestão de Negócios” em nível individual, no primeiro relatório, 57% funcionavam com estruturação de metas e princípios, porém no segundo relatório, o percentual subiu para 86%.

No campo de “Comunicação e Marketing”, cerca de 66% dos empreendimentos individuais investiram neste diferencial, entretanto, no segundo mapeamento, este número subiu para 77%.

Sobre “Parcerias”, se em um primeiro momento 68% dos empreendimentos contavam parceiros de negócios, no segundo mapeamento 83% dos empreendimentos funcionavam com parcerias.

Após apresentação dos indicadores de desempenho, foi realizada uma retrospectiva do conteúdo das aulas e uma apresentação dos professores e mentores que contribuíram com essa formação, Inclusive, as mentorias individuais foram bastante elogiadas. Uma pesquisa de satisfação mostrou que a cada 10 participantes, 9,84 ficaram satisfeitos com os atendimentos individuais personalizados.

Emoção tomou conta

A empreendedora Danieli Carvalho Silva, do Emprega – Oficina de Costura, juntamente com Ana Cristina Carvalho Silva e Ana Claudia Salgado, todas de São Paulo,  foi a primeira a abrir a sessão de emocionados agradecimentos. Ela fez questão de lembrar que ser empreendedor é uma coisa que já está no sangue de cada um de nós: “A gente já é empreendedor. Temos isso na nossa cultura”, relembrou a empreendedora,  que começou o seu primeiro negócio ainda na infância: “Eu tentei vender doce na porta da casa da minha avó, esse foi o meu primeiro treinamento, de conseguir vender, de saber o que é se relacionar com as pessoas e o que é trabalhar. Desde então, eu venho tentando conquistar o meu espaço”. 

Danieli inscreveu o seu empreendimento ao lado da mãe e da tia. Agradeceu pela oportunidade de participar do Programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá, principalmente por se sentir mais fortalecida: “O programa me mostrou que se eu não estiver fortalecida e se eu não tiver o meu próprio negócio, como que eu vou conseguir gerar renda para outras pessoas? Então, dentro do nosso projeto, que é empreender e ensinar as pessoas por meio da costura, outras pessoas negras podem ter o seu próprio negócio. A gente conseguiu desenvolver uma marca e com as aulas e as conversas que a gente teve, conseguimos nos organizar melhor”, afirmou.

Danieli Carvalho Silva, do Emprega – Oficina de Costura

Pauliana Rita do Nascimento, da Turismo Rural, Tradições Quilombola, do estado da Paraíba,  estava exultante com uma decisão tomada por sua irmã e parceira de negócio Severina Maria do Nascimento. A terceira componente é a também irmã, Edinalva Rita do Nascimento.  “Estou muito grata pela grande surpresa que tive ao longo desse processo. Nossa iniciativa é formada por três irmãs. A Severina falou que vai voltar a estudar. Ela percebeu que, independente da idade, é possível sim”, disse. 

Dayana Barros Oliveira, do Pescadoras Artesanais Beneficiárias e Integradas, do Rio de Janeiro, tem como parceiras Luciana Oliveira Machado e Erlineia Barros de Sousa Viana. Dayana comemorou a evolução da comunicação do negócio das pescadoras. “Aprendi muito e quero levar isso para o resto da vida. Antes, ninguém sabia do nosso negócio. Nunca tínhamos colocado em nada. Agora, estamos no Facebook, no Instagram e muita gente já está nos procurando”, afirmou em declaração que foi sustentada por sua parceira de negócio Luciana:  “Agradeço ao FA.VELA e ao Baobá por terem mudado nossas vidas”. 

Falando pelo FA.VELA, João Souza, seu co-fundador e diretor de novos negócios e parcerias, elogiou a perseverança das e dos envolvidos. “Muitas falas bem potentes aqui. Isso é muito rico, porque deu certo. Ter esses feedbacks de vocês fazem a gente ver que está no caminho certo.”

Finalizando o evento, a diretora executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, falou do caráter de mudança social que o edital de Recuperação Econômica tem. “Sofremos todas as consequências que o racismo impõe em nossa sociedade. Acreditamos no trabalho de todos vocês. Não temos dúvida de que investir nos empreendedores negros é o que vai mexer nessa estrutura social”, concluiu.

Fundo Baobá divulga lista de aprovados do edital Chamada Para Artigos

No dia 6 de agosto de 2020, o Fundo Baobá para Equidade Racial, em parceria com a Fundação Ford, lançou o edital Chamada Para Artigos – Filantropia para Promoção da Equidade Racial no Brasil no Contexto Pós-pandemia da Covid-19.

A principal premissa da iniciativa, que integra o projeto Consolidando Capacidades e Ampliando Fronteiras, realizado em parceria com a Fundação Ford, foi selecionar até 20 artigos inéditos, que contribuam para aprimorar a ação de filantropia para equidade racial no Brasil, pós-pandemia da Covid-19. Uma edição eletrônica bilíngue (português-inglês) de um livro com os artigos será publicada em 2021, ano em que o Fundo Baobá completa 10 anos de fundação.

Para figurar como primeiro(a) autor(a) do artigo, era preciso ser especialista, mestre ou doutor(a) com produção acadêmica concernentes às áreas priorizadas pelo Fundo Baobá, como educação, juventude negra, racismo religioso, violência de gênero, além de ciência e tecnologia, desenvolvimento econômico, comunicação, arte e memória, violência racial e violência contra a população LGBTQI+. 

Para a diretora executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, Selma Moreira, esta publicação, elaborada no contexto da pandemia, poderá trazer elementos que subsidiem nossa ação institucional: “Os números da Covid-19 não deixam dúvidas sobre quem são as principais vítimas. Ao mesmo tempo em que a pandemia explicitou as consequências do racismo que permeia as estruturas sociais do Brasil, ela também acentuou as desigualdades que marcam nosso país. Com esta chamada, quisemos entender esse cenário, que acentuou os problemas conhecidos e trouxe ainda mais desafios para a promoção da equidade racial e da justiça social.”.

Ao longo de dois meses, o edital recebeu 75 artigos de todas as cinco regiões do país. A primeira etapa da seleção contou com o apoio de um grupo de 19  doutoras e doutores, de diferentes áreas de conhecimento, que atuaram como pareceristas para realizar análise crítica dos artigos.

Entre os pareceristas estava a doutora em Ciência Social e mestre em Antropologia e escritora, Heloisa Pires: “A minha contribuição se deu como parecerista, com análise e recomendações para os artigos submetidos ao Edital de Chamadas do Fundo Baobá, principalmente, na comunicação intergeracional. É uma oportunidade para perceber interesses indicativos de demandas e as abordagens dos temas”. Segundo Heloisa a iniciativa do Fundo Baobá em publicar os artigos é importante para localizar a origem da desigualdade racial: “Publicizar uma experiência tão propositiva é fundamental. Pelo potencial de mapeamento, em particular o contexto de pandemia, situação política brasileira e, nível de reflexão dos inscritos. O material pode vir a ser inspiração para iniciativas similares que auxiliem a mapear principais questões saídas dos processos e autorias em destaque por região”.

Outro membro da equipe de seleção foi o Pró-Reitor de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (PROPAAE) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Carlos Alberto Santos de Paulo, que tem uma proximidade com o trabalho realizado pelo Fundo Baobá: “A relação que tenho com a organização, está intrinsecamente associada à defesa dos direitos dos segmentos mais vulneráveis da sociedade brasileira, neste sentido a interseccionalidade entre raça, gênero e desigualdades”. Sobre os artigos analisados, Carlos Alberto teve uma reação bastante satisfatória com os conteúdos abordados pelos participantes do edital: “Os textos que analisei são de vital importância por traduzir a emergência de práticas ancestrais hoje traduzidas em movimentos matrilineares de resistência, acolhimento em redes sociais nos bairros periféricos de maior vulnerabilidade social, tendo nas mulheres negras mais velhas seus elos tradicionais de manutenção da tradição e da cultura”.

“Ter participado deste processo reforça o meu compromisso de contribuir com um país em que a produção acadêmica faça sentido para os verdadeiros beneficiários”, foram as palavras da PhD em Odontologia, coordenadora de projetos, membro do GT Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e pesquisadora na UFRJ – Saúde bucal e Doença Falciforme em parceria com o Ministério da Saúde, Márcia Alves. “Minha relação com o trabalho do Fundo Baobá é a disseminação do conhecimento para promover a busca da Equidade e da justiça social. Ao integrar a equipe de pareceristas deste edital, avaliei o compartilhamento de práticas, saberes e vivências e experiências, inclusive no campo científico de temas e abordagens que respondem às demandas das populações”. Acerca dos textos aprovados por ela, Marcia é bem enfática sobre a importância desta produção: “O edital é uma possibilidade de induzir produção científica, cultural, artística e comunitária sobre temáticas relacionadas à população negra e ou as populações vulnerabilizadas, dando protagonismo  destas produções lideradas por autores negras e negros.”

Ao serem questionados se a publicação desses artigos pelo Fundo Baobá poderá contribuir para o segmento aos quais estão dirigidos, Heloisa Pires acredita que a publicação panorâmica permitirá o debate entre artigos e poderá estimular desdobramentos: “Ela contribui para o exercício de afinar argumentos, relacioná-los em ambiente que valoriza a formação com foco nas relações raciais”. Carlos Alberto afirma que a grande contribuição é registrar o resgate da solidariedade em artigos para o grande público: “Creio que o resgate e a análise dessas práticas de solidariedade tradicional verificadas pela rede sempre presente dessas mulheres negras (tias, avós e mães), que serão expressas  na publicação, poderá sinalizar outras formas de organização que se observa de forma empírica, mas quando traduzida em artigos e veiculados para o grande público dará visibilidade a antigas formas de sociabilidade que perduram até o presente momento como forma de resistência ancestral”. Já Márcia Alves acredita que a relevância do tema contribui para longevidade da publicação: “Novas perspectivas de referenciais teórico-práticos pelo reconhecimento da relevância temática quando do resultado da publicação e ao mesmo tempo, do  incentivo financeiro para que novos estudos/experiências sejam realizados ou mesmo continuados”.

Após o trabalho de seleção dos pareceristas, o Fundo Baobá chegou ao número de 19 artigos aprovados. A organização entrou em contato com os autores dos textos, checando se havia interesse em seguir no processo. Todos tiveram um prazo para fazer os ajustes recomendados pelos(as) pareceristas e devolver para uma nova análise. Caso seja necessário a realização de mais ajustes, os autores serão contatados novamente, agora com base nas recomendações da equipe da editora Ogum’s Toque, responsável pela obra.

Todos os autores aprovados, receberam a quantia de R$ 2,500.00, ofertada pelo edital e estão garantidos na publicação que será um livro eletrônico e já está em fase de produção, com o lançamento previsto para outubro, inserido no conjunto de atividades em celebração ao aniversário de 10 anos do Fundo Baobá.

Para a diretora de programa do Fundo Baobá para Equidade Racial, Fernanda Lopes, a realização deste edital foi muito importante, considerando que todos os autores e autoras apresentaram importantes recomendações para os investimentos programáticos a serem realizados pelo Fundo Baobá no pós-pandemia e que, independente da publicação, as contribuições serão levadas em consideração nos processos de tomada de decisão da organização: “A proposta é que, cada vez mais, possamos atuar em parceria com a comunidade acadêmica dado que a filantropia para equidade racial ainda é uma área pouco estudada no Brasil”.

Confira agora a lista dos 19 artigos selecionados para publicação do Fundo Baobá.

‘Já É’ tem jovens LGBTQIA+ com bolsa para curso de pré-vestibular

Jovens homossexuais e transexuais falam da importância do programa para inclusão de gênero e de sexualidade nas universidades

Por Marcos Furtado, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

O que uma mulher trans, um homem trans e um homossexual que moram em São Paulo têm em comum? Eles estão entre os 100 contemplados pela bolsa do programa ‘Já É: Educação e Equidade Racial’ para fazer um cursinho pré-vestibular. Lucca Catherine, Breno Ribeiro e Victor Passos terão apoio educacional, psicossocial e vocacional durante a preparação para a seleção do ingresso ao ensino superior. No entanto, ainda existem muitos jovens LGBTQIA+ que nem ao menos se imaginam estudando. Afinal, qual a importância de iniciativas que incentivam a diversidade e a inclusão de gênero e de sexualidade nas universidades?

Para a vestibulanda, que se identifica como mulher trans, Lucca Catherine, de 22 anos, “estar em uma universidade mostrando que a gente (pessoas trans) não é só estereótipos. Somos inteligência, conhecimento e capazes de mais. E provar esse tipo de força de não ser cis no mundo cis faz a gente adquirir experiências, como quando nos tratam com o nome errado, nos expulsam do banheiro e nos agridem na rua. Então a gente pode levar para a universidade essa interseccionalidade que as pessoas ainda não entendem”, pontua.

Lucca, que mora em Americanópolis, na Zona Sul de São Paulo, deseja cursar ciências sociais para ensinar outras pessoas sobre questões que envolvem a luta contra a LGBTfobia. O desejo da jovem torna-se ainda mais importante quando se olha para as estatísticas.

Lucca Catherine, 22 anos

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontam que, em 2020, o Brasil, infelizmente, foi o país que mais matou pessoas transexuais do mundo. Com 175 mortes, o ano passado foi o 12º consecutivo em que o país apareceu no topo da lista.

Com a bolsa do ‘Já É’, Lucca considera que terá um importante apoio para atingir os seus objetivos. “Quando recebi a notícia que tinha sido aprovada, eu fiquei muito feliz”, lembra. “Quero poder ajudar a expandir o conhecimento das pessoas sobre questões sociais da melhor forma possível.”

Da mesma maneira, Victor Passos, de 23 anos, percebe a importância da inclusão e representatividade de pessoas LGBTQIA+ na produção de conhecimento acadêmico. “Eu sempre achei necessário que esses corpos ocupem esses espaços para que a gente possa humanizar pessoas que a sociedade lida como anormais”, afirma.

Com o sonho de fazer a graduação de artes cênicas, o jovem, que vive em Taboão da Serra, município da região metropolitana de São Paulo, sonha em trabalhar com televisão. “Acho muito importante a gente ter uma série, como ‘Pose’, trazendo pessoas transexuais e travestis como personagens principais.”

Victor Passos, 23 anos

Breno Ribeiro, de 17 anos, passou por algumas dificuldades dentro de casa, no bairro de Jardim Aracati, em São Paulo, para que alguns membros de sua família o tratassem com os pronomes adequados a um homem trans, sua identidade de gênero. A mudança veio com o tempo e os próprios parentes do rapaz perceberam o quanto isso foi positivo.

O bolsista do ‘Já É’ tem a intenção de cursar física e sonha em algum dia trabalhar com astronomia. Ciente da baixa presença e permanência de pessoas LGBTQIA+ nas universidades, Breno, morador do Jardim Aracati, na Zona Sul de São Paulo, acredita que programas como o do Fundo Baobá agregam para os alunos, que têm a oportunidade de se desenvolverem, e para as instituições, que aprendem quais maneiras de incluir e aumentar o bem-estar dessas pessoas.

Breno Ribeiro, 17 anos

Ter contato com diversidade, seja sexual, de raça, de lugares, de culturas e de pessoas com deficiência na universidade é muito importante para conhecer novos olhares sobre a vida”, avalia. “É ruim viver numa bolha que só tem gente igual. As pessoas são diferentes e a gente precisa ter contato com essas diferenças.”

Lucca, Victor e Breno são três dos 100 jovens que representam a diversidade de gênero, sexualidade, raça, local de moradia e de pessoas com deficiência que o Fundo Baobá quer ver se desenvolver no mercado de trabalho. O programa ‘Já É’ é o primeiro passo desse processo que, dentre tantas bandeiras, tem a causa LBGTQIA+ como uma de suas prioridades.

Enfermeiros e médicos inspiram jovem ao cuidarem de sua avó

A avó de Barbara Oliveira sofria de esclerose lateral amiotrófica, uma doença rara e degenerativa

Barbara Oliveira Guimarães, de 23 anos, mora no bairro de Cachoeirinha (Zona Norte de São Paulo) e sempre admirou os profissionais da saúde. Isso porque durante um período de sua vida, Guimarães passou a receber médicos e enfermeiros em sua residência. O motivo era a condição rara e degenerativa de sua avó, portadora de esclerose lateral amiotrófica.

Ao ver o afeto e dedicação dos profissionais, ela decidiu cursar Enfermagem. “Todo aquele cuidado foi essencial na minha vida, fez toda a diferença. Entendi que era isso que eu queria: ajudar as pessoas através da minha profissão”, conta. Guimarães acredita que, mesmo morando em um país tão corrupto e desigual, ainda assim ela vê potencial em si mesma.

Barbara Oliveira Guimarães, 23 anos

A jovem, que atualmente mora com sua mãe, irmã e sobrinha recém-nascida, deseja conquistar seu espaço na sociedade, e estuda em casa para alcançar seu objetivo de se tornar enfermeira. Apesar do seu foco, a estudante enfrenta alguns problemas estruturais, pois a falta de privacidade em uma casa pequena com muitas pessoas e pouco silêncio, dificulta sua rotina de estudos. “Eu também tenho dificuldade em aprender algumas coisas sozinha, então fica bem complicado”, diz.

Foi através do Fundo Baobá que Guimarães se sentiu mais próxima do seu objetivo. Ela conheceu o projeto através do grupo Fórum da Consciência Negra, do qual participa. O link chegou em meio aos posts, e a estudante se interessou. “Confesso que no começo fui pessimista, achei que não passaria, mas fiquei surpreendida com a notícia boa”, diz. “Eu sinceramente não consigo me ver fazendo outra coisa. Já pensei em mudar para outras profissões, mas nada me chama atenção. Acredito que estou no caminho certo”, conclui.

Fundo Baobá divulga lista de aprovados para a segunda fase de seleção do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça

No dia 5 de maio de 2021, o Fundo Baobá para Equidade Racial, com o apoio do Google.Org, braço filantrópico do Google, lançou o edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça. A premissa da iniciativa é apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo, da violência racial e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil. O edital irá selecionar 10 entidades negras brasileiras. Cada organização selecionada, além de R$ 100 mil para a realização de ações programáticas, também irá participar de jornadas formativas para o fortalecimento institucional. 

Para garantir a vida e o direito à dignidade para a população negra, torna-se cada vez mais urgente e essencial, políticas públicas efetivas aliadas a ações filantrópicas que fortaleçam organizações negras. É dentro deste contexto que o Vidas Negras: Dignidade e Justiça, integrante do Programa Equidade Racial e Justiça, do Fundo Baobá, apresenta-se como uma oportunidade para população negra fortalecer estratégias de ativismo, resistência e resiliência frente às injustiças raciais, além de envolver e engajar comunidades, vítimas, sobreviventes e aliados.

Segundo o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no ano de 2019 e que teve atualização em fevereiro deste ano, o sistema prisional brasileiro conta com 657.844 detentos definidos por cor e raça. Desses, 438.719 (66,7%) são negros e negras. Os brancos são 212.444 (32,3%). O número de negros é o dobro que o de brancos.

Para o doutor em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB), Felipe Freitas, o modo de atuação da polícia no Brasil explica o grande número de negros dentro do sistema prisional: “Em geral as decisões judiciais não reconhecem a violência policial e resistem em agir para coibir a violência de Estado. Conforme evidencia a  pesquisa do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa). Aceita-se a palavra do policial como única prova na ampla maioria dos casos apreciados no âmbito das audiências de custódia. Nos crimes de tráfico, por exemplo, 90% dos casos analisados pelo IDDD tinham como único elemento da acusação a palavra dos agentes envolvidos na abordagem”.

O presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá, Giovanni Harvey, destaca a importância da realização do edital Vida Negras: Dignidade e Justiça, em um país no qual promove o encarceramento em massa da população negra, além do genocídio do povo preto periférico: “É importante que o braço filantrópico de uma empresa como a Google se alinhe ao Baobá no sentido de sinalizar para a sociedade a relevância do enfrentamento desse tema para promover equidade racial”.

O programa lançado pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, o Vidas Negras: Dignidade e Justiça estimula a importância de ações comunitárias para o enfrentamento da violência racial sistêmica existente em nossa sociedade. Para Selma Moreira, diretora-executiva da organização, as injustiças raciais jamais serão reparadas totalmente, mas é possível evitá-las, em muitos casos, por meio da resiliência comunitária: “Apenas as ações de políticas públicas não têm sido suficientes para conter a crescente escalada de violências e outras violações de direitos que assolam a população negra brasileira. Por isso a importância deste edital”.  

As organizações interessadas deveriam se inscrever e apresentar suas propostas para um dos temas a seguir: a) Enfrentamento à violência racial sistêmica; b) Proteção comunitária e promoção da equidade racial; c) Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes; d) Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial. 

No prazo de um mês, foram recebidas 124 inscrições. Foram selecionadas para a segunda etapa, 84 propostas das seguintes regiões do país:

Região Sudeste: 39  

Região Nordeste: 31 

Região Sul:

Região Centro-Oeste: 5

Região Norte:

Entre as 84 organizações negras selecionadas para a próxima fase, 61% atuam no campo há mais de 11 anos e, em relação ao porte, 28% são pequenas, compostas por 5 a 10 membros. Outros dois pontos interessantes sobre o perfil das organizações que irão para a segunda etapa: a liderança feminina é marcante e, embora muitas busquem um equilíbrio intergeracional, ainda prevalecem as organizações lideradas por pessoas com 30 anos ou mais, ou seja, mais mulheres e mais pessoas adultas atuando nessa frente ou, ao menos, buscando recursos para ações.  

Importante ressaltar que, entre outros critérios, foram aprovadas para  a segunda etapa do processo seletivo apenas organizações negras, ou seja, aquelas que declararam ter em sua membresia e coordenação 85% ou mais de pessoas autodeclaradas pretos ou pardas. Caso seja identificada alguma discrepância entre declaração e realidade, neste ou outro critério durante o processo seletivo, a organização terá a sua proposta desclassificada.

O processo seletivo seguirá as próximas etapas obedecendo o cronograma abaixo:

Resultado da segunda etapa do processo seletivo: 19 de julho, após as 19h
Resultado da terceira etapa do processo seletivo: primeira semana de setembro de 2021

Agora acesse o link que leva à lista das organizações negras selecionadas para a segunda etapa do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça.

Vestibulandos de primeira viagem se sentem prejudicados pelo ensino na pandemia

Quatro estudantes da cidade de São Paulo falam das dificuldades que enfrentaram com o ensino à distância

Por Pedro Ribeiro, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá pela Igualdade Racial

A pandemia do novo coronavírus trouxe grandes problemas para os estudantes em 2020, especialmente os mais pobres. Quatro jovens que estão se preparando para encarar os vestibulares após o ensino médio contaram um pouco das dificuldades que enfrentam.

Sem a possibilidade de acontecer aulas presenciais por risco de transmissão da Covid-19, alunos de todo o estado de São Paulo passaram a ter aulas em casa. Falta de estrutura, internet e qualidade do ensino em formato EaD (Ensino à Distância) são motivos de queixa dos vestibulandos.

Gabriel Lima Viana Silva, de 19 anos, mora no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo. Ele terminou o ensino médio no ano passado e pretende cursar ciências sociais. O jovem chegou a prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020, mas diz que foi mediano. Ele atribui o desempenho pouco satisfatório ao conteúdo do terceiro ano.

Gabriel Lima Viana Silva, 19 anos

“Toda vez que a gente pensa em alguma coisa relacionada à internet, imaginamos algo utópico, fora de padrão, só que na prática não é assim. A acessibilidade de quem mora na periferia é bem difícil. Por mais que nós tenhamos internet fixa dentro de casa, muitas vezes ela é instável. Então não é toda vez que conseguimos ter acesso às aulas e ao material do curso”, explica.

Gabriel espera que o Programa Já É, do Fundo Baobá, o ajude a alcançar uma colocação melhor nos próximos vestibulares e até uma vaga na universidade pública por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). “Espero estar cada vez mais preparado. Essa é a meta”.

Esperança de volta às aulas

Naomi Brito tem 17 anos e mora no bairro do Jaraguá, na Zona Norte da cidade. Ela está cursando o terceiro ano do ensino médio, o segundo dela durante a pandemia. A experiência de aprender longe das salas de aula não foi nada agradável para ela.

“Foi difícil e triste. No primeiro ano eu amadureci muito e tenho certeza de que se tivesse estudado presencialmente  no ano passado teria amadurecido muito mais. 2020 foi um ano perdido. Espero que até a metade deste ano a gente consiga se reunir na escola de novo”, diz.

Naomi Brito, 17 anos

A adolescente sonha em cursar gastronomia desde os oito anos e está focada em estudar na Universidade Federal da Bahia. Ela nunca prestou nenhum vestibular e espera cruzar um caminho difícil até o diploma. Mas, por se identificar com o curso, acha que o esforço valerá a pena.

“Em casa eu estudo pela manhã e à tarde eu preciso fazer comida, limpar a casa e cuidar dos bichos. Quando chega à noite, eu também estudo e termino algumas lições. É difícil me concentrar estudando aqui, eu gosto de estar na sala de aula. Para mim, o EaD nunca vai ser igual ao presencial”, lamenta Naomi.

Aulas e cursinhos presenciais interrompidos

A estudante Natália dos Anjos de Oliveira, de 18 anos, mora com os pais no bairro de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Com uma bolsa de estudos, ela estudou em colégio particular durante todo o ensino fundamental, mas por falta de recursos se transferiu para uma escola estadual.

Para tentar compensar as diferenças do conteúdo das escolas, Natália fez alguns cursos extracurriculares. Nesse período, ela teve que encarar a pandemia durante o terceiro ano do ensino médio e diz que a experiência foi chocante.

Natália dos Anjos de Oliveira, 18 anos

“Quando eu recebi a notícia de que a gente não ia mais sair de casa eu estava fazendo um cursinho promovido pelos professores da escola para ajudar a gente no vestibular. Foi um baque na hora. Todo mundo aqui em casa ficou assustado. Demorou dois meses para as aulas voltarem”, diz a estudante.

Por causa disso, ela diz que foi impossível estudar para encarar um vestibular em 2020. Ainda assim, como aluna do último ano, ela decidiu fazer o Enem. “A prova de humanas eu consegui ir bem, pois já tinha feito simulações. A de exatas foi a que me deixou mais cansada. Mas acho que fui bem para a primeira experiência”.

Esperança com o cursinho

O Programa Já É vai oferecer aulas híbridas, o que resolve parte do problema dos alunos com as aulas EaD. Além disso, os contemplados pelo edital terão consultorias de carreira e orientação psicopedagógica para encarar os vestibulares com força total.

Negros são a maioria entre os trabalhadores informais no país

Informativo do IBGE aponta que 47,4% dos trabalhadores negros do Brasil estão inseridos na informalidade

Por Mônica Moreira, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que, em 2019, a taxa de trabalhadores sem carteira assinada no país ficou em 41,6%, o que corresponde a 39,3 milhões de pessoas nessa situação.

Foi apontado neste mesmo estudo que a população preta ou parda (47,4%) estava mais inserida em ocupações informais em comparação à população branca (34,5%).

Esse grupo de pessoas classificadas como informais inclui trabalhadores empregados no setor privado e empregados domésticos sem carteira assinada, empregador e trabalhador por conta própria sem registro com CNPJ e trabalhador familiar auxiliar.

Kerollyn Silva Alves, de 24 anos, trabalhou informalmente na área privada como puxadora na rua 25 de Março, em São Paulo, função que consiste em atrair potenciais compradores para a loja. “Quando eu estava na informalidade era muito ruim, não tinha direito nenhum. O trabalho autônomo é bom quando se trabalha apenas para você e sabe que está investindo no seu próprio futuro”, aponta.

Kerollyn Silva Alves, 24 anos

Com a pandemia, a loja em que a jovem trabalhava fechou as portas. “Nós trabalhávamos com fluxo de pessoas e no começo da quarentena todo mundo estava respeitando mais as regras de isolamento. Então, a minha antiga chefe me dispensou por não conseguir arcar com os prejuízos”, conta.

Atualmente, a jovem trabalha com registro CLT como operadora de telemarketing. Com o apoio do  Programa Já É e a preparação para os vestibulares, pretende ingressar na universidade e, futuramente, abrir o próprio negócio para oferecer mais opções de emprego a pessoas pretas e LGBTQIA+.

 

Necessidade de mercado

Izabel dos Santos Neimeir, de 23 anos, foi demitida e, para arcar com as despesas da casa, recorreu ao trabalho informal.

“Eu tive meu contrato encerrado numa ONG, onde trabalhava com cuidados de crianças e adultos com deficiência. Em janeiro, eu estava desempregada e com a minha casa em reforma, precisava de um emprego, só com o salário do meu marido não dava para manter a construção. Consegui um emprego perto da minha casa e hoje cuido do Sr. Valdivino, de 86 anos”, comenta.

Izabel dos Santos Neimeir, 23 anos

De acordo com a jovem, a adaptação para o trabalho sem carteira assinada foi fácil, mas trouxe outras responsabilidades que não tinha quando era CLT. “Quando eu estava na casa de repouso, ganhava muito menos e trabalhava bem mais. Mas antes eu tinha mais segurança em relação aos benefícios, como o INSS, por exemplo. Eu sei que tenho a opção de pagar como autônoma, mas não lembro de fazer isso todos os meses e quando era registrada, o valor era descontado automaticamente do meu salário”, relata.

Com o apoio do Fundo Baobá, a jovem quer ingressar no ensino superior para exercer a profissão de professora e enxerga nisso uma oportunidade para sair do mercado informal, ter mais segurança e uma vida mais estável.

Taluma Gabriely Sousa Ferreira, de 21 anos, viu na chegada da pandemia a oportunidade de recomeçar em uma nova área. A jovem passou a fazer unhas em casa após ser demitida do antigo estágio por trancar a faculdade, e, com o fechamento das escolas, não tinha com quem deixar a filha Valentina, de 5 anos.

“Ser autônoma é novo, porque eu nunca fiz unhas na minha vida, mas surgiu essa ideia de fazer algo que me desse suporte. Criei uma página no Instagram, Espaço Luma Ferreira, comecei a divulgar para as minhas amigas e meus parentes, e montei um cômodo da minha casa para fazer os atendimentos. As primeiras unhas que fiz foram da minha mãe, tia e primas. Por enquanto não está da forma que eu gostaria, com muitos clientes e a agenda cheia, mas é só começo”, diz.

Taluma Gabriely Sousa Ferreira, 21 anos

 

Mais flexibilidade

Um dos principais pontos positivos para as jovens em serem autônomas é o fato de poder definir o próprio horário de atividades. Isso possibilita, inclusive, uma melhor adaptação da rotina pessoal com Programa “Já é”, do Fundo Baobá para Equidade Racial.

“Eu trabalho até às 11h da manhã, tenho o dia inteiro para resolver as minhas coisas. O Sr. Valdivino é muito tranquilo, se ele dorme e fica sem febre ou mal-estar, consigo descansar também. […] Quando preciso resolver pendências no período da manhã, tenho a possibilidade de trocar meu horário com a filha dele. No CLT você precisa pedir atestado e nem sempre é condizente com o tempo que você passou fora”, relata Isabel.

A manicure, Taluma, também concorda com este aspecto. “Eu consigo me organizar melhor para atender as clientes de acordo com os meus compromissos pessoais. Ainda mais por não atender no salão em que eu preciso estar lá o dia todo, sem saber quem vai chegar”, explica a jovem.

As barreiras que quatro jovens negras enfrentam para ingressar nos cursos mais concorridos da universidade pública

As estudantes Luiza, Emily, Isabella e Clarissa sonham em estudar na universidade mais cobiçada do país, a USP

Por Kátia Flora, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

A escolha de um curso superior para jovens que terminam o ensino médio não é uma tarefa fácil. A maioria sai de escolas públicas sem perspectivas, por falta de um ensino de qualidade e que dê suporte ao estudante para ingressar numa universidade. Por isso, o auxílio de políticas públicas têm reforçado o incentivo para esses candidatos, como a Lei 12.711, conhecida como a Lei de Cotas, que serviu para a diminuição desse cenário desigual na educação.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados no estudo  Desigualdade Sociais por Cor ou Raça Brasil (2019),  mostram  que pretos e pardos representam 50,3% do número de estudantes no ensino superior vindo da rede pública. Apesar desse avanço, de acordo com a Quero Bolsa, plataforma de inclusão no ensino superior, a taxa de estudantes negros para medicina é menor que 30%.Os cursos de psicologia e biologia seguem na mesma proporção.

Iniciativas como o Programa Já É, do Fundo Baobá, tendem a melhorar esse panorama na sociedade e viabilizar a entrada dos estudantes negros nas universidades.

É o caso da Luiza Firmino Gabriel, 18 anos, uma das jovens selecionadas que pretende fazer medicina. O seu sonho é entrar na Universidade de São Paulo (USP) e para isso tem o apoio da mãe Cíntia Firmino Gabriel, 52 anos, professora do ensino fundamental que incentiva a filha a focar nos livros de literatura para os vestibulares. Luiza promete se dedicar aos estudos e fica entusiasmada com a oportunidade que está recebendo. “Será uma conquista para uma jovem negra ser médica pediatra”, diz.

Luiza Firmino Gabriel, 18 anos

A estudante, moradora do bairro Vila Porto, em Barueri, região metropolitana de São Paulo, afirma que na área de medicina não tem referência de profissionais por ter poucos médicos negros. Mas, ela quer fazer a diferença e inspirar jovens a seguir seu caminho. “Tenho vontade de fazer engajamento social como médica e incentivar outras adolescentes negras com o meu trabalho”.

Emily Tauany Souza Andrade Pereira, 19 anos, também quer exercer medicina e conta que a vontade surgiu quando estava no ensino fundamental, nas aulas de biologia e ciências. “Me apaixonei pela profissão que estuda o corpo humano, é fascinante”, diz entusiasmada.

Atualmente, ela trabalha como jovem aprendiz em uma instituição bancária, seis horas por dia. O contrato será encerrado no mês de março deste ano, e assim a estudante vai ter mais tempo para se empenhar no curso pré-vestibular. Emily, moradora do Parque Fernanda, região do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, tem o apoio dos dois irmãos e da mãe, Marinalva Juvina de Souza, 52 anos, para alcançar o seu sonho.

Emily Tauany Souza Andrade Pereira, 19 anos

O desejo da futura médica pela área de saúde é tão intenso que ela já sabe em qual área pretende seguir: ser cirurgiã torácica. “Nesta especialidade que quero trabalhar vejo muitos homens brancos, não tem referência de negros. Infelizmente a medicina é muito elitista”, enfatiza.

O caso de Isabella Alcântara dos Santos, 17 anos, é um pouco diferente. Antes o seu sonho era cursar medicina, assim como Emily. No entanto, a jovem passou a buscar mais informações sobre a área e percebeu, no primeiro ano do ensino médio, que tem mais afinidade com a área da psicologia. Dedicada aos estudos, a moradora da Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, no ano passado, durante a pandemia, reservava parte do dia para pesquisa dos trabalhos e cursos online.

Isabellla está muito feliz por ser a primeira da família a fazer um curso pré-vestibular e quer estimular o irmão a seguir o mesmo caminho.”Vejo como uma coisa muito boa, no intuito de realizar meu sonho, entrar na USP. Para quem mora na periferia, as dificuldades são muitas, mas não olho pra isso e sim pra onde quero chegar. Penso em abrir meu consultório e atender adolescentes que sofrem com depressão, ansiedade. Eles precisam de cuidado e atenção”.

Isabella Alcântara dos Santos, 17 anos

Com as notícias sobre a pandemia, os insumos e a eficácia das vacinas, despertaram ainda mais o desejo da estudante Clarissa Beatriz da Costa Bulling, 18 anos, em cursar Biologia .”É isso que eu quero seguir no futuro, fazer parte desse meio cientifico”, diz orgulhosa.

A vontade de se aperfeiçoar nesta área surgiu no início de 2020, quando foi com a mãe e o irmão viajar para Manaus. Ao conhecer a cidade, ela se encantou com as florestas, rios e plantas do local.

Clarissa Beatriz da Costa Bulling, 18 anos

Clarissa mora com a mãe e o irmão mais novo. Residem numa casa de cinco cômodos alugada, ela divide o quarto com o irmão, e tem um espaço para guardar os livros e estudar. Com o apoio da família, que mora no bairro Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo, e da bolsa de estudos do Programa Já É, a jovem planeja conquistar seus objetivos. Neste ano pretende se compenetrar nos estudos e entrar na USP para cursar biologia. “Quero conviver com a natureza, isso é tudo pra mim”.

Essas jovens têm sonhos e metas, querem vencer obstáculos, mesmo com toda adversidade e barreiras. As famílias são a base para que elas alcancem seus propósitos e as estudantes veem, na iniciativa do  Fundo Baobá, a possibilidade de estimular outros jovens pretos e pardos.

Jovens artistas negros em busca do diploma

Conheça alguns dos selecionados do programa Já É que se dedicam, por meio do estudo, ao enfrentamento da invisibilização dos artistas negros nos meios artísticos

Por Eduarda Nunes, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Em um país que esconde a cor de Machado de Assis, um dos escritores mais notáveis da Literatura, estimular e visibilizar artistas negros é essencial. Eles demonstram e denunciam cotidianamente o racismo e sexismo ainda presentes na área através de muito Artivismo, movimento que, segundo a pesquisadora Wynne Borges Carneiro, foi iniciado pelos artistas visuais.

A possibilidade de assistir atores e atrizes negras nos filmes, novelas e teatros, fazendo outros papéis que não os de servidão, é uma reivindicação externa às estruturas hegemônicas que legitimam o que é Arte. Ainda nesse sentido, se hoje é possível entender que ser artista não está ligado aos estudos formais e acadêmicos, mas à capacidade de reflexão e criação, essa também é uma conquista dos artivistas. Dentre os selecionados do Programa Já É contamos com alguns jovens artistas que buscam dar continuidade às suas criações a partir do conhecimento que a universidade tem a lhes oferecer.

Luiz Oliveira, de 18 anos, é artista e costureiro, mantém sozinho um atêlie com produções que aquecem a arte Drag de Mogi das Cruzes. Ele vê na iniciativa do Fundo Baobá uma oportunidade de acessar o conhecimento teórico disponível no ensino superior para profissionalizar ainda mais a sua arte. “Por eu já ter essa identificação dentro da arte e por grande parte da minha família fazer um trabalho com arte afrodescendente, eu acho que Artes Visuais seria um engajamento pra tudo”, conta o jovem artista.

Crescido em meio à cultura afro-brasileira fervente, cultivada por seus familiares, a arte Drag chegou à vida do jovem ao entender-se homossexual. Suas principais referências são seu pai e homens gays negros da cena Drag Queen, como Márcia Pantera e Jorge Lafond.

Luiz Benedito Ferreira de Oliveira, 18 anos

A arte que já vivia presente no seu dia a dia, o ajudou a lidar com a depressão e a consolidar seu lugar no meio artístico. Como desde sempre lidou com culturas que são socialmente marginalizadas pelo Estado e pelas pessoas, Luiz sente que é preciso ainda mais união do povo negro para que as manifestações culturais afrobrasileiras continuem vivas e contando as histórias de quem até hoje reinvindica reparaçõa histórica.

Flávia Martins tem 25 anos e é violinista. Ela conta que a rigidez da cena musical erudita impossibilita a inserção de pessoas negras nessa arte. Os entraves desse meio impedem que ela se torne a violonista concertista que gostaria de ser.

“Eles colocam limites em tudo para que você não consiga entrar se não for do jeito deles. Que criança negra tem a oportunidade de tocar violino antes dos 10 anos? Isso não é o tipo de coisa que as crianças geralmente falam para os seus pais. Independente de serem brancas, negras ou indígenas”, comenta. Flávia trabalha para que sua o universo violinista não seja tão “engessado” com regras e preconceitos. Atualmente a jovem trabalha numa organização filantrópica dando aula de violino para pessoas com deficiência.

Flávia Martins de Santana, 25 anos

Flávia também comenta sobre os preconceitos no ramo. “No meio erudito eles não tem medo de serem racistas. As pessoas têm o racismo velado nos espaços, mas no meio erudito, não. Um cara vira pra você e fala ‘uma macaca não vai tocar na minha orquestra’  e pronto. O racismo é liberado nessa área. A misoginia é liberada. Tudo isso é estruturado há muitos anos”, conta ela.

Outra participante do Já É, que tem sua carreira artística iniciada na área da dramaturgia é a Jakeline Souza, de 21 anos. Atriz há quase 3 anos, Jake, como gosta de ser chamada, deseja se formar em Artes Cênicas, no entanto, os anos de experiência na área não impedem que ela sofra com as incertezas que permeiam a escolha da profissão. “Por mais que eu trabalhe na área, ainda é uma coisa muito insegura. É difícil se imaginar bem-sucedida trabalhando com arte na periferia. Não parece que vai ser uma coisa que vai me dar uma estabilidade [financeira]”, confessa.

Por mais que já esteja se preparando para ingressar neste curso na universidade, a jovem vê Artes Cênicas como um campo muito cruel para as pessoas negras. Segundo Jake, o que entra em jogo não é só a capacidade técnica e desenvolvimento de atuação, mas também a estética. Mesmo assim, ela não abandona o sonho de ser uma atriz negra e periférica reconhecida, assim como as suas referências Naruna Costa e Gal Costa, diretoras da Companhia Sansacroma.

Jakeline Souza Lima, 21 anos

“Você precisa ter muito suporte psicológico para estar ali, porque desde o momento que você pisa num teste só pra ser avaliada já é uma questão muito grande. São olhares de pessoas que têm uma realidade totalmente diferente da sua. Pessoas que fazem arte e que estão nesse meio desde criança”, conta a atriz.

Jake, Flávia e Luiz são jovens artistas que nem entraram na faculdade e já abordam diversos pontos sobre a presença e permanência de pessoas negras no mundo das artes. A invisibilidade e imposição de dificuldades sempre aconteceu, mas tem muita gente como eles fazendo os enfrentamentos necessários para que essa deixe de ser uma realidade.

A ancestralidade que acompanha cada passo dos estudantes

A tarefa de ser o primeiro integrante da família no Ensino Superior

Por Ariel Freitas, do Perifaconnection, em colaboração com Fundo Baobá para Equidade Racial

Das filosofias que ligam a vida ao cotidiano real, há um conceito africano que define a importância da vitória coletiva para o povo negro: “Ubuntu – Eu sou porque nós somos”. É nos princípios dessa ideologia que a real dimensão de ser o primeiro integrante da família a ingressar no Ensino Superior é revelada. Na presença desse pensamento e na forma de levar a vida, Alan David Vieira, de 20 anos e morador da Vila Perus – um distrito localizado na Zona Noroeste de São Paulo que abriga 45 bairros e vilas no seu território -, compreende que cada passo seu a universidade representa a vitória dos ancestrais que o acompanham no trajeto.

Alan David Vieira, 20 anos

Amante do gênero rap e apreciador da cultura Hip-Hop, Alan demonstra um olhar atento e curioso sobre as questões humanitárias e sociais, temáticas que explora no seu talento com a área da arte gráfica. Antes de cultivar o desejo de estudar Design Gráfico e, possivelmente, Publicidade e Propaganda, o jovem se dedicou à sua paixão pelo quarto elemento da cultura de rua: o grafite. Das latinhas de tintas e dos sprays nas mãos para a criação de cards, layouts e artes através de softwares de design e fotos.

“Os meus pais só estudaram até o Ensino Fundamental. Então essa oportunidade que tenho agora é muito especial. Quero estudar Design Gráfico para aperfeiçoar a área que já atuo, que é criação de arte. Eu descobri que essa é uma forma de ser e viver livre, confiante e ainda descobrir quem sou. Eu, que não tenho emprego fixo, costumo dizer que meus trabalhos sempre serão mais do que apenas artes”, explica.

De outro lado do mapa, mais especificamente no bairro Ponte Rosa, Zona Leste de São Paulo, Caroline Cristina Santos, de 22 anos, enfrenta as adversidades impostas pela desigualdade racial nas questões que envolvem os índices de educação no Brasil. A jovem fez parte das estatísticas que revelam que 71,7% (IBGE) dos jovens que abandonam os estudos são pessoas negras: a estudante permaneceu na evasão escolar por dois anos.

“Chegou um momento da minha vida que eu perdi totalmente a vontade de estudar. Não tinha ânimo nenhum de ir à escola e isso me fez parar por dois anos. Fiquei em casa cuidando da minha sobrinha e conciliando a rotina com o expediente de trabalho, mas percebi que retornar aos estudos me auxiliaria em serviços melhores e salários mais adequados”, desabafa.

Após esse período longe da escola, Caroline, que trabalha em uma fábrica de costuras, compreendeu que precisava retornar aos estudos para tecer os sonhos em realidade. A partir dessa iniciativa, a estudante definiu que gostaria de ser a primeira da sua família a ingressar no Ensino Superior.

“Eu estou me descobrindo, querendo sair da bolha. A minha família ficou muito feliz com a decisão e me apoia muito todos os dias. Depois de ingressar em uma faculdade, eu busco realizar um intercâmbio em outro país”, complementa.

Fora da Capital de São Paulo, mas dentro dos valores representados pela filosofia de Ubuntu, Geovana da Silva Melo, de 22 anos e moradora de Osasco, detalha que a coragem é essencial para trilhar o caminho de ser a primeira representante da sua família no Ensino Superior. Da Região Metropolitana do estado, a jovem explica que a sua maior determinação é a possibilidade de reverter o quadro taxado para estudantes negros: a de não estarem aptos para cursar uma faculdade.

“É muito difícil ser taxado como alguém que não conseguirá entrar em uma universidade. E esta realidade está sendo redobrada com as mudanças nos Exames Nacionais de Ensino Médio (ENEM). O conteúdo da prova deste ano foi mais elitizado do que de outras edições. Existem mais oportunidades para as pessoas brancas, que estão mais conceituadas nas classes econômicas do Brasil”, aponta.

Geovana da Silva Melo, 22 anos

Na busca do seu sonho, Geovana comenta que estuda em cursinhos populares e presta as provas do ENEM há bastante tempo. A jovem possui a meta de estudar administração, com ênfase em gestão de pessoas. No início deste ano, ela foi aprovada com bolsa integral de estudos do Prouni, mas viu o sentimento de felicidade ser transformado em um momento de frustração, pois, de acordo com ela, os documentos não foram aceitos. Apesar deste contratempo na sua trajetória acadêmica, a estudante destaca que possui certeza que, em breve, o seu ingresso no Ensino Superior será concretizado.