Vestibulandos de primeira viagem se sentem prejudicados pelo ensino na pandemia

Quatro estudantes da cidade de São Paulo falam das dificuldades que enfrentaram com o ensino à distância

Por Pedro Ribeiro, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá pela Igualdade Racial

A pandemia do novo coronavírus trouxe grandes problemas para os estudantes em 2020, especialmente os mais pobres. Quatro jovens que estão se preparando para encarar os vestibulares após o ensino médio contaram um pouco das dificuldades que enfrentam.

Sem a possibilidade de acontecer aulas presenciais por risco de transmissão da Covid-19, alunos de todo o estado de São Paulo passaram a ter aulas em casa. Falta de estrutura, internet e qualidade do ensino em formato EaD (Ensino à Distância) são motivos de queixa dos vestibulandos.

Gabriel Lima Viana Silva, de 19 anos, mora no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo. Ele terminou o ensino médio no ano passado e pretende cursar ciências sociais. O jovem chegou a prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020, mas diz que foi mediano. Ele atribui o desempenho pouco satisfatório ao conteúdo do terceiro ano.

Gabriel Lima Viana Silva, 19 anos

“Toda vez que a gente pensa em alguma coisa relacionada à internet, imaginamos algo utópico, fora de padrão, só que na prática não é assim. A acessibilidade de quem mora na periferia é bem difícil. Por mais que nós tenhamos internet fixa dentro de casa, muitas vezes ela é instável. Então não é toda vez que conseguimos ter acesso às aulas e ao material do curso”, explica.

Gabriel espera que o Programa Já É, do Fundo Baobá, o ajude a alcançar uma colocação melhor nos próximos vestibulares e até uma vaga na universidade pública por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). “Espero estar cada vez mais preparado. Essa é a meta”.

Esperança de volta às aulas

Naomi Brito tem 17 anos e mora no bairro do Jaraguá, na Zona Norte da cidade. Ela está cursando o terceiro ano do ensino médio, o segundo dela durante a pandemia. A experiência de aprender longe das salas de aula não foi nada agradável para ela.

“Foi difícil e triste. No primeiro ano eu amadureci muito e tenho certeza de que se tivesse estudado presencialmente  no ano passado teria amadurecido muito mais. 2020 foi um ano perdido. Espero que até a metade deste ano a gente consiga se reunir na escola de novo”, diz.

Naomi Brito, 17 anos

A adolescente sonha em cursar gastronomia desde os oito anos e está focada em estudar na Universidade Federal da Bahia. Ela nunca prestou nenhum vestibular e espera cruzar um caminho difícil até o diploma. Mas, por se identificar com o curso, acha que o esforço valerá a pena.

“Em casa eu estudo pela manhã e à tarde eu preciso fazer comida, limpar a casa e cuidar dos bichos. Quando chega à noite, eu também estudo e termino algumas lições. É difícil me concentrar estudando aqui, eu gosto de estar na sala de aula. Para mim, o EaD nunca vai ser igual ao presencial”, lamenta Naomi.

Aulas e cursinhos presenciais interrompidos

A estudante Natália dos Anjos de Oliveira, de 18 anos, mora com os pais no bairro de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Com uma bolsa de estudos, ela estudou em colégio particular durante todo o ensino fundamental, mas por falta de recursos se transferiu para uma escola estadual.

Para tentar compensar as diferenças do conteúdo das escolas, Natália fez alguns cursos extracurriculares. Nesse período, ela teve que encarar a pandemia durante o terceiro ano do ensino médio e diz que a experiência foi chocante.

Natália dos Anjos de Oliveira, 18 anos

“Quando eu recebi a notícia de que a gente não ia mais sair de casa eu estava fazendo um cursinho promovido pelos professores da escola para ajudar a gente no vestibular. Foi um baque na hora. Todo mundo aqui em casa ficou assustado. Demorou dois meses para as aulas voltarem”, diz a estudante.

Por causa disso, ela diz que foi impossível estudar para encarar um vestibular em 2020. Ainda assim, como aluna do último ano, ela decidiu fazer o Enem. “A prova de humanas eu consegui ir bem, pois já tinha feito simulações. A de exatas foi a que me deixou mais cansada. Mas acho que fui bem para a primeira experiência”.

Esperança com o cursinho

O Programa Já É vai oferecer aulas híbridas, o que resolve parte do problema dos alunos com as aulas EaD. Além disso, os contemplados pelo edital terão consultorias de carreira e orientação psicopedagógica para encarar os vestibulares com força total.

Negros são a maioria entre os trabalhadores informais no país

Informativo do IBGE aponta que 47,4% dos trabalhadores negros do Brasil estão inseridos na informalidade

Por Mônica Moreira, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que, em 2019, a taxa de trabalhadores sem carteira assinada no país ficou em 41,6%, o que corresponde a 39,3 milhões de pessoas nessa situação.

Foi apontado neste mesmo estudo que a população preta ou parda (47,4%) estava mais inserida em ocupações informais em comparação à população branca (34,5%).

Esse grupo de pessoas classificadas como informais inclui trabalhadores empregados no setor privado e empregados domésticos sem carteira assinada, empregador e trabalhador por conta própria sem registro com CNPJ e trabalhador familiar auxiliar.

Kerollyn Silva Alves, de 24 anos, trabalhou informalmente na área privada como puxadora na rua 25 de Março, em São Paulo, função que consiste em atrair potenciais compradores para a loja. “Quando eu estava na informalidade era muito ruim, não tinha direito nenhum. O trabalho autônomo é bom quando se trabalha apenas para você e sabe que está investindo no seu próprio futuro”, aponta.

Kerollyn Silva Alves, 24 anos

Com a pandemia, a loja em que a jovem trabalhava fechou as portas. “Nós trabalhávamos com fluxo de pessoas e no começo da quarentena todo mundo estava respeitando mais as regras de isolamento. Então, a minha antiga chefe me dispensou por não conseguir arcar com os prejuízos”, conta.

Atualmente, a jovem trabalha com registro CLT como operadora de telemarketing. Com o apoio do  Programa Já É e a preparação para os vestibulares, pretende ingressar na universidade e, futuramente, abrir o próprio negócio para oferecer mais opções de emprego a pessoas pretas e LGBTQIA+.

 

Necessidade de mercado

Izabel dos Santos Neimeir, de 23 anos, foi demitida e, para arcar com as despesas da casa, recorreu ao trabalho informal.

“Eu tive meu contrato encerrado numa ONG, onde trabalhava com cuidados de crianças e adultos com deficiência. Em janeiro, eu estava desempregada e com a minha casa em reforma, precisava de um emprego, só com o salário do meu marido não dava para manter a construção. Consegui um emprego perto da minha casa e hoje cuido do Sr. Valdivino, de 86 anos”, comenta.

Izabel dos Santos Neimeir, 23 anos

De acordo com a jovem, a adaptação para o trabalho sem carteira assinada foi fácil, mas trouxe outras responsabilidades que não tinha quando era CLT. “Quando eu estava na casa de repouso, ganhava muito menos e trabalhava bem mais. Mas antes eu tinha mais segurança em relação aos benefícios, como o INSS, por exemplo. Eu sei que tenho a opção de pagar como autônoma, mas não lembro de fazer isso todos os meses e quando era registrada, o valor era descontado automaticamente do meu salário”, relata.

Com o apoio do Fundo Baobá, a jovem quer ingressar no ensino superior para exercer a profissão de professora e enxerga nisso uma oportunidade para sair do mercado informal, ter mais segurança e uma vida mais estável.

Taluma Gabriely Sousa Ferreira, de 21 anos, viu na chegada da pandemia a oportunidade de recomeçar em uma nova área. A jovem passou a fazer unhas em casa após ser demitida do antigo estágio por trancar a faculdade, e, com o fechamento das escolas, não tinha com quem deixar a filha Valentina, de 5 anos.

“Ser autônoma é novo, porque eu nunca fiz unhas na minha vida, mas surgiu essa ideia de fazer algo que me desse suporte. Criei uma página no Instagram, Espaço Luma Ferreira, comecei a divulgar para as minhas amigas e meus parentes, e montei um cômodo da minha casa para fazer os atendimentos. As primeiras unhas que fiz foram da minha mãe, tia e primas. Por enquanto não está da forma que eu gostaria, com muitos clientes e a agenda cheia, mas é só começo”, diz.

Taluma Gabriely Sousa Ferreira, 21 anos

 

Mais flexibilidade

Um dos principais pontos positivos para as jovens em serem autônomas é o fato de poder definir o próprio horário de atividades. Isso possibilita, inclusive, uma melhor adaptação da rotina pessoal com Programa “Já é”, do Fundo Baobá para Equidade Racial.

“Eu trabalho até às 11h da manhã, tenho o dia inteiro para resolver as minhas coisas. O Sr. Valdivino é muito tranquilo, se ele dorme e fica sem febre ou mal-estar, consigo descansar também. […] Quando preciso resolver pendências no período da manhã, tenho a possibilidade de trocar meu horário com a filha dele. No CLT você precisa pedir atestado e nem sempre é condizente com o tempo que você passou fora”, relata Isabel.

A manicure, Taluma, também concorda com este aspecto. “Eu consigo me organizar melhor para atender as clientes de acordo com os meus compromissos pessoais. Ainda mais por não atender no salão em que eu preciso estar lá o dia todo, sem saber quem vai chegar”, explica a jovem.

As barreiras que quatro jovens negras enfrentam para ingressar nos cursos mais concorridos da universidade pública

As estudantes Luiza, Emily, Isabella e Clarissa sonham em estudar na universidade mais cobiçada do país, a USP

Por Kátia Flora, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

A escolha de um curso superior para jovens que terminam o ensino médio não é uma tarefa fácil. A maioria sai de escolas públicas sem perspectivas, por falta de um ensino de qualidade e que dê suporte ao estudante para ingressar numa universidade. Por isso, o auxílio de políticas públicas têm reforçado o incentivo para esses candidatos, como a Lei 12.711, conhecida como a Lei de Cotas, que serviu para a diminuição desse cenário desigual na educação.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados no estudo  Desigualdade Sociais por Cor ou Raça Brasil (2019),  mostram  que pretos e pardos representam 50,3% do número de estudantes no ensino superior vindo da rede pública. Apesar desse avanço, de acordo com a Quero Bolsa, plataforma de inclusão no ensino superior, a taxa de estudantes negros para medicina é menor que 30%.Os cursos de psicologia e biologia seguem na mesma proporção.

Iniciativas como o Programa Já É, do Fundo Baobá, tendem a melhorar esse panorama na sociedade e viabilizar a entrada dos estudantes negros nas universidades.

É o caso da Luiza Firmino Gabriel, 18 anos, uma das jovens selecionadas que pretende fazer medicina. O seu sonho é entrar na Universidade de São Paulo (USP) e para isso tem o apoio da mãe Cíntia Firmino Gabriel, 52 anos, professora do ensino fundamental que incentiva a filha a focar nos livros de literatura para os vestibulares. Luiza promete se dedicar aos estudos e fica entusiasmada com a oportunidade que está recebendo. “Será uma conquista para uma jovem negra ser médica pediatra”, diz.

Luiza Firmino Gabriel, 18 anos

A estudante, moradora do bairro Vila Porto, em Barueri, região metropolitana de São Paulo, afirma que na área de medicina não tem referência de profissionais por ter poucos médicos negros. Mas, ela quer fazer a diferença e inspirar jovens a seguir seu caminho. “Tenho vontade de fazer engajamento social como médica e incentivar outras adolescentes negras com o meu trabalho”.

Emily Tauany Souza Andrade Pereira, 19 anos, também quer exercer medicina e conta que a vontade surgiu quando estava no ensino fundamental, nas aulas de biologia e ciências. “Me apaixonei pela profissão que estuda o corpo humano, é fascinante”, diz entusiasmada.

Atualmente, ela trabalha como jovem aprendiz em uma instituição bancária, seis horas por dia. O contrato será encerrado no mês de março deste ano, e assim a estudante vai ter mais tempo para se empenhar no curso pré-vestibular. Emily, moradora do Parque Fernanda, região do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, tem o apoio dos dois irmãos e da mãe, Marinalva Juvina de Souza, 52 anos, para alcançar o seu sonho.

Emily Tauany Souza Andrade Pereira, 19 anos

O desejo da futura médica pela área de saúde é tão intenso que ela já sabe em qual área pretende seguir: ser cirurgiã torácica. “Nesta especialidade que quero trabalhar vejo muitos homens brancos, não tem referência de negros. Infelizmente a medicina é muito elitista”, enfatiza.

O caso de Isabella Alcântara dos Santos, 17 anos, é um pouco diferente. Antes o seu sonho era cursar medicina, assim como Emily. No entanto, a jovem passou a buscar mais informações sobre a área e percebeu, no primeiro ano do ensino médio, que tem mais afinidade com a área da psicologia. Dedicada aos estudos, a moradora da Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, no ano passado, durante a pandemia, reservava parte do dia para pesquisa dos trabalhos e cursos online.

Isabellla está muito feliz por ser a primeira da família a fazer um curso pré-vestibular e quer estimular o irmão a seguir o mesmo caminho.”Vejo como uma coisa muito boa, no intuito de realizar meu sonho, entrar na USP. Para quem mora na periferia, as dificuldades são muitas, mas não olho pra isso e sim pra onde quero chegar. Penso em abrir meu consultório e atender adolescentes que sofrem com depressão, ansiedade. Eles precisam de cuidado e atenção”.

Isabella Alcântara dos Santos, 17 anos

Com as notícias sobre a pandemia, os insumos e a eficácia das vacinas, despertaram ainda mais o desejo da estudante Clarissa Beatriz da Costa Bulling, 18 anos, em cursar Biologia .”É isso que eu quero seguir no futuro, fazer parte desse meio cientifico”, diz orgulhosa.

A vontade de se aperfeiçoar nesta área surgiu no início de 2020, quando foi com a mãe e o irmão viajar para Manaus. Ao conhecer a cidade, ela se encantou com as florestas, rios e plantas do local.

Clarissa Beatriz da Costa Bulling, 18 anos

Clarissa mora com a mãe e o irmão mais novo. Residem numa casa de cinco cômodos alugada, ela divide o quarto com o irmão, e tem um espaço para guardar os livros e estudar. Com o apoio da família, que mora no bairro Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo, e da bolsa de estudos do Programa Já É, a jovem planeja conquistar seus objetivos. Neste ano pretende se compenetrar nos estudos e entrar na USP para cursar biologia. “Quero conviver com a natureza, isso é tudo pra mim”.

Essas jovens têm sonhos e metas, querem vencer obstáculos, mesmo com toda adversidade e barreiras. As famílias são a base para que elas alcancem seus propósitos e as estudantes veem, na iniciativa do  Fundo Baobá, a possibilidade de estimular outros jovens pretos e pardos.

Jovens artistas negros em busca do diploma

Conheça alguns dos selecionados do programa Já É que se dedicam, por meio do estudo, ao enfrentamento da invisibilização dos artistas negros nos meios artísticos

Por Eduarda Nunes, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Em um país que esconde a cor de Machado de Assis, um dos escritores mais notáveis da Literatura, estimular e visibilizar artistas negros é essencial. Eles demonstram e denunciam cotidianamente o racismo e sexismo ainda presentes na área através de muito Artivismo, movimento que, segundo a pesquisadora Wynne Borges Carneiro, foi iniciado pelos artistas visuais.

A possibilidade de assistir atores e atrizes negras nos filmes, novelas e teatros, fazendo outros papéis que não os de servidão, é uma reivindicação externa às estruturas hegemônicas que legitimam o que é Arte. Ainda nesse sentido, se hoje é possível entender que ser artista não está ligado aos estudos formais e acadêmicos, mas à capacidade de reflexão e criação, essa também é uma conquista dos artivistas. Dentre os selecionados do Programa Já É contamos com alguns jovens artistas que buscam dar continuidade às suas criações a partir do conhecimento que a universidade tem a lhes oferecer.

Luiz Oliveira, de 18 anos, é artista e costureiro, mantém sozinho um atêlie com produções que aquecem a arte Drag de Mogi das Cruzes. Ele vê na iniciativa do Fundo Baobá uma oportunidade de acessar o conhecimento teórico disponível no ensino superior para profissionalizar ainda mais a sua arte. “Por eu já ter essa identificação dentro da arte e por grande parte da minha família fazer um trabalho com arte afrodescendente, eu acho que Artes Visuais seria um engajamento pra tudo”, conta o jovem artista.

Crescido em meio à cultura afro-brasileira fervente, cultivada por seus familiares, a arte Drag chegou à vida do jovem ao entender-se homossexual. Suas principais referências são seu pai e homens gays negros da cena Drag Queen, como Márcia Pantera e Jorge Lafond.

Luiz Benedito Ferreira de Oliveira, 18 anos

A arte que já vivia presente no seu dia a dia, o ajudou a lidar com a depressão e a consolidar seu lugar no meio artístico. Como desde sempre lidou com culturas que são socialmente marginalizadas pelo Estado e pelas pessoas, Luiz sente que é preciso ainda mais união do povo negro para que as manifestações culturais afrobrasileiras continuem vivas e contando as histórias de quem até hoje reinvindica reparaçõa histórica.

Flávia Martins tem 25 anos e é violinista. Ela conta que a rigidez da cena musical erudita impossibilita a inserção de pessoas negras nessa arte. Os entraves desse meio impedem que ela se torne a violonista concertista que gostaria de ser.

“Eles colocam limites em tudo para que você não consiga entrar se não for do jeito deles. Que criança negra tem a oportunidade de tocar violino antes dos 10 anos? Isso não é o tipo de coisa que as crianças geralmente falam para os seus pais. Independente de serem brancas, negras ou indígenas”, comenta. Flávia trabalha para que sua o universo violinista não seja tão “engessado” com regras e preconceitos. Atualmente a jovem trabalha numa organização filantrópica dando aula de violino para pessoas com deficiência.

Flávia Martins de Santana, 25 anos

Flávia também comenta sobre os preconceitos no ramo. “No meio erudito eles não tem medo de serem racistas. As pessoas têm o racismo velado nos espaços, mas no meio erudito, não. Um cara vira pra você e fala ‘uma macaca não vai tocar na minha orquestra’  e pronto. O racismo é liberado nessa área. A misoginia é liberada. Tudo isso é estruturado há muitos anos”, conta ela.

Outra participante do Já É, que tem sua carreira artística iniciada na área da dramaturgia é a Jakeline Souza, de 21 anos. Atriz há quase 3 anos, Jake, como gosta de ser chamada, deseja se formar em Artes Cênicas, no entanto, os anos de experiência na área não impedem que ela sofra com as incertezas que permeiam a escolha da profissão. “Por mais que eu trabalhe na área, ainda é uma coisa muito insegura. É difícil se imaginar bem-sucedida trabalhando com arte na periferia. Não parece que vai ser uma coisa que vai me dar uma estabilidade [financeira]”, confessa.

Por mais que já esteja se preparando para ingressar neste curso na universidade, a jovem vê Artes Cênicas como um campo muito cruel para as pessoas negras. Segundo Jake, o que entra em jogo não é só a capacidade técnica e desenvolvimento de atuação, mas também a estética. Mesmo assim, ela não abandona o sonho de ser uma atriz negra e periférica reconhecida, assim como as suas referências Naruna Costa e Gal Costa, diretoras da Companhia Sansacroma.

Jakeline Souza Lima, 21 anos

“Você precisa ter muito suporte psicológico para estar ali, porque desde o momento que você pisa num teste só pra ser avaliada já é uma questão muito grande. São olhares de pessoas que têm uma realidade totalmente diferente da sua. Pessoas que fazem arte e que estão nesse meio desde criança”, conta a atriz.

Jake, Flávia e Luiz são jovens artistas que nem entraram na faculdade e já abordam diversos pontos sobre a presença e permanência de pessoas negras no mundo das artes. A invisibilidade e imposição de dificuldades sempre aconteceu, mas tem muita gente como eles fazendo os enfrentamentos necessários para que essa deixe de ser uma realidade.

A ancestralidade que acompanha cada passo dos estudantes

A tarefa de ser o primeiro integrante da família no Ensino Superior

Por Ariel Freitas, do Perifaconnection, em colaboração com Fundo Baobá para Equidade Racial

Das filosofias que ligam a vida ao cotidiano real, há um conceito africano que define a importância da vitória coletiva para o povo negro: “Ubuntu – Eu sou porque nós somos”. É nos princípios dessa ideologia que a real dimensão de ser o primeiro integrante da família a ingressar no Ensino Superior é revelada. Na presença desse pensamento e na forma de levar a vida, Alan David Vieira, de 20 anos e morador da Vila Perus – um distrito localizado na Zona Noroeste de São Paulo que abriga 45 bairros e vilas no seu território -, compreende que cada passo seu a universidade representa a vitória dos ancestrais que o acompanham no trajeto.

Alan David Vieira, 20 anos

Amante do gênero rap e apreciador da cultura Hip-Hop, Alan demonstra um olhar atento e curioso sobre as questões humanitárias e sociais, temáticas que explora no seu talento com a área da arte gráfica. Antes de cultivar o desejo de estudar Design Gráfico e, possivelmente, Publicidade e Propaganda, o jovem se dedicou à sua paixão pelo quarto elemento da cultura de rua: o grafite. Das latinhas de tintas e dos sprays nas mãos para a criação de cards, layouts e artes através de softwares de design e fotos.

“Os meus pais só estudaram até o Ensino Fundamental. Então essa oportunidade que tenho agora é muito especial. Quero estudar Design Gráfico para aperfeiçoar a área que já atuo, que é criação de arte. Eu descobri que essa é uma forma de ser e viver livre, confiante e ainda descobrir quem sou. Eu, que não tenho emprego fixo, costumo dizer que meus trabalhos sempre serão mais do que apenas artes”, explica.

De outro lado do mapa, mais especificamente no bairro Ponte Rosa, Zona Leste de São Paulo, Caroline Cristina Santos, de 22 anos, enfrenta as adversidades impostas pela desigualdade racial nas questões que envolvem os índices de educação no Brasil. A jovem fez parte das estatísticas que revelam que 71,7% (IBGE) dos jovens que abandonam os estudos são pessoas negras: a estudante permaneceu na evasão escolar por dois anos.

“Chegou um momento da minha vida que eu perdi totalmente a vontade de estudar. Não tinha ânimo nenhum de ir à escola e isso me fez parar por dois anos. Fiquei em casa cuidando da minha sobrinha e conciliando a rotina com o expediente de trabalho, mas percebi que retornar aos estudos me auxiliaria em serviços melhores e salários mais adequados”, desabafa.

Após esse período longe da escola, Caroline, que trabalha em uma fábrica de costuras, compreendeu que precisava retornar aos estudos para tecer os sonhos em realidade. A partir dessa iniciativa, a estudante definiu que gostaria de ser a primeira da sua família a ingressar no Ensino Superior.

“Eu estou me descobrindo, querendo sair da bolha. A minha família ficou muito feliz com a decisão e me apoia muito todos os dias. Depois de ingressar em uma faculdade, eu busco realizar um intercâmbio em outro país”, complementa.

Fora da Capital de São Paulo, mas dentro dos valores representados pela filosofia de Ubuntu, Geovana da Silva Melo, de 22 anos e moradora de Osasco, detalha que a coragem é essencial para trilhar o caminho de ser a primeira representante da sua família no Ensino Superior. Da Região Metropolitana do estado, a jovem explica que a sua maior determinação é a possibilidade de reverter o quadro taxado para estudantes negros: a de não estarem aptos para cursar uma faculdade.

“É muito difícil ser taxado como alguém que não conseguirá entrar em uma universidade. E esta realidade está sendo redobrada com as mudanças nos Exames Nacionais de Ensino Médio (ENEM). O conteúdo da prova deste ano foi mais elitizado do que de outras edições. Existem mais oportunidades para as pessoas brancas, que estão mais conceituadas nas classes econômicas do Brasil”, aponta.

Geovana da Silva Melo, 22 anos

Na busca do seu sonho, Geovana comenta que estuda em cursinhos populares e presta as provas do ENEM há bastante tempo. A jovem possui a meta de estudar administração, com ênfase em gestão de pessoas. No início deste ano, ela foi aprovada com bolsa integral de estudos do Prouni, mas viu o sentimento de felicidade ser transformado em um momento de frustração, pois, de acordo com ela, os documentos não foram aceitos. Apesar deste contratempo na sua trajetória acadêmica, a estudante destaca que possui certeza que, em breve, o seu ingresso no Ensino Superior será concretizado.

Trabalho tecnológico e trajetória ativista definem a missão da Amadi Technology, apoiador do Programa Já É

O nome Amadi significa alegria e harmonia, ele veio de um ritual conhecido como Ikomojade, que dá nome ao recém nascido dentro da tradição Yorubá. “Há um ano e meio nossa filha nasceu e recebeu esse nome na comunidade tradicional de terreiro, o Ilê Alaketu Ifá Omo Oyá, da qual fazemos parte”, diz Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology, empresa que leva o mesmo nome de sua filha com o esposo e sócio Renato Racin.

A trajetória da Amadi Technology começou com Renato Racin. Trabalhando há 15 anos com informática, iniciou os seus trabalhos com o setor privado, depois contribuiu para ativistas de direitos humanos e ativistas políticos, além da comunidade de software livre. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Renato lutou por melhores condições de acesso e permanência na universidade.  

Com o aumento das demandas por trabalhos de TI com as organizações do terceiro setor, principalmente organizações que lutam pela defesa dos direitos humanos, houve a necessidade de aumentar o nível de profissionalização no atendimento dessas demandas e por uma gestão mais eficiente: “Foi então que constituímos uma sociedade, com a atual diretora-executiva Agnes Karoline”, revela Renato. Graduada em Ciências Sociais também pela UNIFESP, Agnes também possui cursos na área de gestão pública (ETEC CEPAM USP) e gestão e elaboração de projetos sociais (PUC).

Renato Racin, filosofo e sócio da Amadi Technology

Hoje, a Amadi Technology, conta com a colaboração de pessoas que constituem uma Equipe Executiva (Diretora Executiva, Coordenadora Administrativa e Financeira e Diretor de Tecnologia) e a Equipe de Tecnologia, que conta com um analista de suporte nível 1, que realiza seleção, implantação e manutenção de hardwares e software básico e de apoio, um analista de suporte pleno, responsável pelo atendimento de nível 2 e um parceiro de infraestrutura e prestação de serviços na área de elétrica, cabeamento estruturado e Circuito Fechado de TV (CFTV). “Recentemente, também passamos a contar com duas consultorias, responsáveis pelo processo de institucionalização da nossa comunicação e apoio jurídico”, conta Agnes Caroline.

Para Renato, o grande diferencial do trabalho oferecido pela Amadi Technology é a unidade da tecnologia com questões humanas: “Juntamos o trabalho tecnológico com a nossa trajetória ativista e também a experiência com a ancestralidade para dar sentido à empresa e para a missão que temos”.

A missão da Amadi Technology consiste em: 

– Oferecer recursos tecnológicos personalizados para melhorar processos internos de empresas e organizações, agregando maior produtividade por meio de uma gestão inteligente, responsável e confiável em Tecnologia da Informação e Informática. 

– Democratizar o uso das tecnologias da informação e informática, tanto em sua dimensão técnica como de apropriação digital, apresentando suas inúmeras possibilidades de uso criativo e adequado para todos os gêneros, etnias ou raças, modos de existências, lutas ou resistências e para todas as gerações.

“Tudo isso impulsionou nossa profissionalização no campo de direitos humanos e segurança da informação para o terceiro setor”, revela Agnes.

Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology e graduada em Ciências Sociais

E foi com essa vontade de mudar o mundo, oferecendo um bom serviço tecnológico, que os caminhos da Amadi Technology e do Fundo Baobá para Equidade Racial se cruzaram em 2019, conforme relembra Renato: “A diretora-executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira, entrou em contato comigo para realizar a prestação de um serviço pontual de organização do parque de TI do escritório. Na oportunidade, foi possível identificar alguns recursos de produtividade que poderiam ser implantados na organização”. Hoje a parceria entre Amadi e Baobá segue forte: “Após a realização desse serviço inicial, iniciou-se uma parceria que hoje conta com um atendimento personalizado para Suporte e Gestão de TI, além de Compliance na área de proteção de dados pessoais”.

E a parceria entre Fundo Baobá e Amadi Technology se intensificou ainda mais durante a execução do “Já É: Educação e Equidade Racial”. Lançado em 2020, o Programa tem a premissa de apoiar jovens negros entre 17 e 25 anos para o acesso à universidade. As e os jovens selecionados são de regiões periféricas da cidade de São Paulo e da Grande São Paulo e receberam bolsa de estudos para frequentar aulas em um cursinho pré vestibular. O Programa conta com o apoio da Citi Brasil, Demarest Advogados e também da Amadi Technology, que foi fundamental considerando que as aulas iniciaram de forma remota, devido a Covid-19: “Após receber uma demanda operacional, para o levantamento orçamentário para a compra de notebooks e preparação dos mesmos para uso, percebemos a grandeza do Programa Já É e uma oportunidade de exercer nossa missão de facilitar os processos de democratização dos usos de tecnologias digitais”, diz Agnes. 

A Amadi Technology facilita a informatização dos alunos durante as aulas virtuais do Programa Já É: “Inicialmente realizamos uma pesquisa de equipamentos apropriados para contemplar as necessidades dos(as) estudantes do programa. Essa pesquisa inicial contou também com um estudo orçamentário e dos pré-requisitos da plataforma de estudos do cursinho..

Sugerimos também a instalação de um Sistema Operacional Livre (GNU/Linux) em todos os computadores, por conta de questões de segurança e estabilidade dos equipamentos, além de toda a economia com licenças proprietárias de software”. Afirma Renato.

O apoio ao Programa Já É do Fundo Baobá, não é a primeira e nem única incursão da Amadi Technology na esfera da equidade racial, o grupo de desenvolve o tema não apenas em outras parcerias mas dentro da própria empresa: “Apoiamos projetos em nosso território que fazem formação com mulheres na perspectiva interseccional, que é o curso das promotoras legais populares e também realizam atendimento para mulheres vítimas de violência doméstica, onde grande parte destas mulheres são periféricas e negras”, diz Agnes Karoline. “Os critérios de seleção para funcionários têm alta prioridade mulheres negras ou de comunidades tradicionais. Nossas parcerias estratégicas também contam com a sensibilidade para os debates dos direitos humanos”, reforça, acreditando que essa deve ser uma responsabilidade de todo o setor privado: “Em nossa opinião, o setor privado tem que ter responsabilidade social. Entender sua responsabilidade enquanto ator de impacto em questões de ordem econômica, política, social e cultural”.

Agnes Karoline durante a aula inaugural do “Programa Já É: Educação e Equidade Racial”

Agnes Caroline avalia de forma positiva o resultado da parceria da Amadi Technology no Programa Já É: “Conseguimos neste momento já ter entregado os computadores para os estudantes que é um recurso básico para acessar as aulas. E também ficamos disponíveis para eles dando suporte remoto às dificuldades com o hardware ou com o sistema operacional. Em breve faremos uma interação com as aulas para trazer o debate da tecnologia e segurança da informação e tecnopolítica”, que deixa também uma mensagem para todos(as) os(as) jovens participantes do Programa: “Você não está sozinho(a), a luta dos nossos ancestrais vem de muito tempo para chegarmos até aqui. Acredite em você. Todos os lugares são também pra vocês e não acredite naqueles que digam ao contrário ou menos que isso”.

‘Já É’ seleciona bolsistas com dificuldades para estudar dentro de casa

Dentre as principais questões enfrentadas pelas estudantes estão casas lotadas, conciliar o aprendizado com o trabalho e pressões para mudar a condição financeira

Por Marcos Furtado, do Perifaconnection, em colaboração com Fundo Baobá para Equidade Racial

Desde que foi determinado o isolamento social, em março de 2020, devido à pandemia do novo coronavírus, milhões de jovens viram as suas rotinas de estudo mudarem radicalmente. Para os vestibulandos, que estavam se preparando para as provas de ingresso às universidades, o impacto foi ainda maior. No caso dos estudantes periféricos, as dificuldades para manter a qualidade dos estudos são mais específicas: casas lotadas, conciliar o aprendizado com o trabalho e pressões para mudar a condição financeira. Com o objetivo de oferecer assistência para estudantes nessas situações, o programa ‘Já É: Educação e Equidade Racial’ selecionou 100 jovens negros e periféricos com bolsas para fazer um cursinho pré-vestibular. Conhecer quem são alguns deles e os obstáculos que precisaram enfrentar até aqui ajuda a entender a importância dessa iniciativa.

Na casa do tio, em Taboão da Serra, município da região metropolitana de São Paulo, de Vitória de Jesus Damasceno, de 18 anos, há sete pessoas dividindo apenas dois quartos. A falta de privacidade e o constante barulho são situações que atrapalham a rotina de estudos da vestibulanda.

“Eu moro com o meu tio, que é o único trabalhando no momento, a minha tia, a minha prima mais velha, a caçula, um primo e a minha avó. Como aqui são dois quartos, dorme os meus tios em um e o resto da família no outro”, explica. “A condição de estudos não é aquela coisa de concentração ‘master’, que geralmente a gente tem na escola, mas quando quero estudar eu sento na cama, coloco o fone e me isolo.”

Vitória de Jesus Damasceno, 18 anos

A jovem, que pretende estudar Direito, tentou se preparar para o Enem, em 2020, enquanto buscava soluções para dar conta das aulas virtuais do terceiro ano do ensino médio. Mesmo com as dificuldades, Vitória realizou o exame do Inep. Ciente de que certamente não teria um bom desempenho, a jovem se inscreveu e foi selecionada pelo programa ‘Já É’. Com o suporte oferecido pela iniciativa, ela está mais calma e se programa para ter o máximo de aproveitamento possível durante o preparatório. “Eu penso em fazer o cursinho e me doar 100%. Dar o melhor de mim”, afirma.

Para Melissa de Jesus Calixto Costa, de 21 anos, moradora de em Butantã, na Zona Oeste de São Paulo, a maior dificuldade enfrentada nesta pandemia foi manter o trabalho como jovem aprendiz na área da saúde junto com os estudos. Assim como Vitória, ela também tem interesse pelo curso de direito. Selecionada para receber uma das 100 bolsas de estudos do ‘Já É’, a jovem acredita que terá oportunidade de recuperar os conteúdos que não absorveu na correria do supletivo.

Melissa de Jesus Calixto Costa, 21 anos

“Além do conhecimento que perdi na escola, o ‘Já É’ vai me ajudar no autoconhecimento. Ter esse momento para mim, pois sinto que essa parte (a escola) da minha vida foi perdida. Todo mundo precisa desse momento de estudar. A minha expectativa é que quando terminar esse cursinho eu seja uma pessoa melhor”, afirma.

Depois de ficar desempregada no meio da pandemia, Melissa sabe bem a importância de manter o trabalho e só conseguiu participar da iniciativa do Fundo Baobá graças a possibilidade de escolher o melhor horário para fazer o preparatório – neste caso sendo o turno da noite.

Outro tipo de pressão é a que acontece com Tallita Soares de Andrade, de 19 anos, que mora em Diadema, município da região metropolitana de São Paulo. Ela deseja mudar de vida e fazer o curso de economia. Com o total apoio da mãe, que lutou muito para se tornar enfermeira, a vestibulanda tem lidado com uma enorme pressão, especialmente tendo que estudar em casa.

“Vem da sociedade uma pressão de que ‘ah! Você vai fazer 20 anos e não está na faculdade ainda’. Tem a comparação com seus amigos, colegas e outras pessoas”, afirma em meio a um choro de desabafo.

Tallita Soares de Andrade, 19 anos

Com a bolsa para fazer o curso preparatório oferecida pelo Fundo Baobá, a vestibulanda considera que terá um suporte para driblar esses obstáculos. “Eu acho que vai ser muito mais produtivo e encorajador”, avalia. “Por projetos como o do Baobá que se consegue nivelar algumas questões e transformar aspectos da realidade.”

Jovens vêem cursinhos populares como oportunidades para diminuir desigualdade entre ensino público e privado

Para diversos alunos provenientes de escolas públicas, o cursinho popular é a possibilidade de aumentar as chances de cursar uma graduação

Por Tâmara Regina, do Perifaconnection, em colaboração com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Quando se fala em cursos pré-vestibulares não é difícil ouvir relatos como: “aprendi mais em um ano, do que em 11” ou “foi a partir dele que eu me senti preparado para prestar o vestibular”. Os conhecimentos cobrados em provas de universidades deveriam ser adquiridos ano após ano, durante toda a vida escolar do aluno. Porém, muitas vezes, a expectativa está longe da realidade, principalmente por parte dos alunos que são provenientes do ensino público.

Em 2017, após a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apenas 650 escolas ficaram na categoria “melhor nota, com a média de 712,91,”. O que representa, 10% do total das escolas. Deste total de “melhor nota”, 82% são privadas e 18% são públicas. Sendo que as escolas públicas desse grupo são formadas por escolas federais ou estaduais de ensino técnico. Esses dados são de um levantamento da Folha de S. Paulo baseado em dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Este é o caso de Taynara Santos, 21, e de Ketlen Carvalho, 24, que buscam melhorar o conhecimento adquirido na escola para chegar bem preparadas para o vestibular. “Minha expectativa é conseguir uma nota boa no Enem para ganhar uma bolsa de estudos e aprender também”, afirma Ketlen, que estudou a vida toda em escola pública e que já teve a oportunidade de iniciar a faculdade através de uma bolsa de estudos.

Ketlen Leandra Carvalho, 24 anos

A jovem cursou Administração, mas teve que trancar por conta do valor da rematrícula. Ela relata ter abandonado um curso pré-vestibular para começar o curso de administração: “Eu fiz dois meses de curso pré-vestibular e quando eu peguei o material de estudos percebi que tinha muito conteúdo que eu nunca tinha visto”, explica.

Já a Taynara, destaca que um dos diferenciais de fazer curso pré-vestibular é estar com o conteúdo fresco na cabeça: “Quando estava no segundo ano, eu fiz o Enem pela primeira vez, como a minha mente estava fresca, eu fui bem. Se comparar aos outros anos que eu fiz, depois de terminar o ensino médio, fui bem melhor lá atrás”, conta a jovem.

Taynara Silva Santos, 21 anos

Para os adolescentes Rayane Santos, Eduardo de Souza e Nicholas Gonçalves, ambos de 17 anos, que atualmente estão no terceiro ano do ensino médio, o cursinho irá compensar o déficit do ano letivo de 2020/2021, agravado pelas dificuldades do ensino à distância. Em comum, vêem na possibilidade de fazer um curso pré-vestibular a oportunidade de suprir o que faltou no fundamental e no médio.

Correndo atrás do prejuízo

O terceiro ano será um desafio para esses jovens, que a princípio terão aulas híbridas – metade on-line e metade presencial.  Para Rayane, estudar em casa foi muito difícil porque a escola não chegou a ter aula remota. “Foi só conteúdo e apostila. [Em casa] era o pessoal falando alto e eu tentando me concentrar. Foi uma bagunça, muito difícil mesmo”, afirma a adolescente, que considera que de tudo que só conseguiu absorver 50% do conteúdo aprendido no ano passado.

Rayane Jesus Santos, 17 anos

Já o Eduardo relata que não conseguia reter todos os conteúdos das aulas. “Não conseguia aprender com as aulas on-line, mas quando era para fazer as atividades, eu estudava e conseguia entender as matérias”, explica. No entanto, ele pondera: “Foi melhor do que eu esperava”.

Eduardo Silva de Souza, 17 anos

Com Nicholas não foi diferente. Ele conta que, mesmo tendo estudado em colégio particular até a sexta série, a escola pública não foi ruim. Ainda assim, não é possível falar de bom aproveitamento. “Eu não estava esperando, mas o meu rendimento caiu no ensino médio. No primeiro ano não fui bem, no segundo foi difícil por conta da Covid-19 e agora temos o terceiro que está por vir”, explica o adolescente que acredita que de todo o conteúdo que deve levar para realizar uma prova de vestibular aprendeu cerca de  60%. Os motivos são distintos, mas todos os cinco jovens vão tentar compensar em um ano tudo que deveriam ter aprendido em mais de três.

Nicholas Welington Crisologo Gonçalves, 17 anos

Estudantes que possuem apenas celular encontram dificuldades para estudar na pandemia

Sem acesso à computadores ou tablets, estudantes focam estudos nas pequenas telas do celular

Por Pedro Ribeiro, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá pela Igualdade Racial

Com a pandemia, estudantes do estado de São Paulo se viram obrigados a aprender a estudar em casa. Sem as telas de computadores, notebooks ou tablets, esse aprendizado pode ser desconfortável.

No Brasil, apenas 39% dos domicílios possuem computador, como aponta a pesquisa TIC Domicílios de 2019. Ainda segundo o levantamento, 99% da população possui aparelho celular e 58% acessa a internet somente por ele (85% das pessoas de classe D e E).

A pesquisa mostra ainda que as pessoas da classe D e E que têm somente o aparelho móvel para se conectar têm cor. Indígenas, pretos e pardos lideram o recorte de raça quando o assunto é uso apenas do celular.

Dos que possuem computador (de mesa, notebook ou tablete), a classe social também revela uma discrepância na inclusão digital brasileira. Nas classes D e E, somente 14% dos domicílios possuem computador; na classe C, 44%; enquanto na classe B esse índice é de 85% e, na A, 95%.

Trabalho e maternidade

Laiza Catarine Ferreira Diniz tem 25 anos, é mãe e mora com os pais no bairro do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo. Ela está em dúvida sobre cursar administração ou recursos humanos, mas gostaria de trabalhar como recrutadora de diversidade.

Para conquistar esse sonho, Laiza estuda em casa, usando apenas o celular. Ela diz que conversa com conhecidos para tirar dúvidas e usa um aplicativo que a ajuda nos estudos. A irmã dela possui um notebook, mas por estar trabalhando com ele em casa, Laiza não consegue usá-lo para estudar. Além disso, ela diz que consegue se concentrar nos estudos sem muitos problemas, mas muitas vezes o obstáculo é a falta de tempo que o trabalho, cuidados com a filha e a casa demandam.

Laiza Catarine Ferreira Diniz, 25 anos

A jovem chegou a iniciar a graduação no curso de hotelaria, mas trancou por questões financeiras e não conseguiu retomar os estudos. Hoje, ela entende que essa não era a melhor carreira para ela e por isso optou por uma área que a interessa mais.

“Às vezes a gente escolhe uma coisa, mas a vida vai levando a gente para outro lugar. Eu também era muito nova quando comecei nessa parte de hotelaria e de turismo. Aí eu acabei entrando nisso e me deixei levar”, explica a jovem que acumulou dívidas com o financiamento do antigo curso.

Por esses motivos, ela buscou a bolsa do Programa Já É, oferecida pelo Fundo Baobá. O objetivo dela é ser aprovada em uma universidade pública para não precisar se preocupar com as mensalidades. “Eu ainda tenho valores do Fies da outra faculdade para pagar, não tenho como arcar com uma nova”.

Muitos cursos, pouco tempo

Leandro Gomes de Oliveira, de 18 anos, sonha em se tornar cantor profissional e pretende se estabilizar na carreira de recursos humanos para bancar os estudos na música. Leandro mora com sua mãe adotiva no Jardim Guarani, na Zona Leste de São Paulo, e vai ser o primeiro entre os seus amigos a ingressar no ensino superior.

A lista de cursos que ele pretende fazer é bem longa. Leandro quer cursar primeiro Rh, depois administração ou produção musical e por fim psicologia. “Eu vou fazer Rh primeiro porque é a faculdade base para a gente entrar no mercado de trabalho. Em seguida, eu quero fazer música, mas eu acho que vou fazer administração primeiro. Se tiver como fazer as duas ao mesmo tempo, farei”, explica o jovem.

Leandro é ajudante de envidraçamento e passa boa parte do dia instalando placas de vidro em sacadas. Além do pouco tempo para os estudos, o jovem conta que concluiu o ensino médio em 2020, durante a pandemia. Estudante do período noturno, ele diz que teve pouquíssimo conteúdo e não precisou estudar para provas, o que prejudicou seu ingresso imediato no ensino superior.

Leandro Gomes de Oliveira, 18 anos

Juntos a esses problemas está a falta de estrutura para um aprendizado mais eficiente. O notebook que ele possui em casa está com defeito e ele tem somente o celular para estudar no pouco tempo que lhe sobra.

Celular virou rotina

Maria Eduarda da Silva Souza, de 20 anos, mora com os pais e a irmã no bairro do Jaraguá, na Zona Norte da cidade de São Paulo. Ela quer cursar relações públicas para ajudar ainda mais um coletivo pan-africanista do qual faz parte.

A ligação da jovem com o movimento é forte até mesmo na hora dos estudos. Maria Eduarda explica que o coletivo pan-africanista possui redes sociais e promove grupos de estudos frequentemente, por isso ela sempre está estudando matérias de ciências humanas como história e geografia. Tudo pelo celular.

“Meu notebook infelizmente queimou na pandemia. Eu estava utilizando o computador da empresa enquanto estava em home office, mas por enquanto é só o celular mesmo”, conta Maria.

Maria Eduarda da Silva Souza, 20 anos

Entretanto, o uso contínuo do celular fez com que ela se habituasse cada vez mais ao aparelho. “Tudo o que eu faço é pelo celular. Trabalho, coletivo, comunicação com as pessoas… Então eu sou bem tranquila em relação a isso. Só que eu pretendo arrumar o meu notebook, pois para estudo eu acho bem melhor”.

Por causa disso, a jovem tem grandes expectativas para a bolsa do Programa Já É, pois, além das aulas híbridas, ela terá mais acompanhamentos em matérias de ciências exatas, nas quais diz ter dificuldades.

Google e Fundo Baobá vão apoiar com R$ 1 milhão ONGs com foco em equidade racial e justiça

Edital de iniciativa voltada a enfrentamento ao racismo, à violência e às injustiças criminais contra população negra no Brasil abre inscrições no dia 5 de maio

O Fundo Baobá para Equidade Racial, com apoio do Google.org, braço filantrópico do Google, lança no dia 5 de maio um edital para apoiar entidades negras que atuam no enfrentamento do racismo, da violência racial e incorreções que ocorrem dentro do sistema de Justiça Criminal no Brasil. 

Por meio do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça, a iniciativa vai selecionar 10 entidades brasileiras e apoiá-las com R$ 100 mil para cada e, assim, garantir a execução de projetos que viabilizem ações de enfrentamento a esses problemas. 

Além do aporte financeiro, cada uma das 10 entidades receberá suporte técnico para o fortalecimento institucional e todas participarão de jornadas formativas. As lideranças das entidades selecionadas receberão, de forma virtual, capacitação e ferramentas de planejamento, gestão, monitoramento e avaliação de projetos, captação de recursos, entre outros temas importantes para o fortalecimento institucional.   

As organizações interessadas devem apresentar suas propostas para um dos temas a seguir: a) Enfrentamento à violência racial sistêmica; b) Proteção comunitária e promoção da equidade racial; c) Enfrentamento ao encarceramento em massa entre adultos e jovens negros e redução da idade penal para adolescentes; d) Reparação para vítimas e sobreviventes de injustiças criminais com viés racial. 

As inscrições poderão ser feitas a partir de 05 de maio até 06 de junho, às 23h59 (horário de Brasília) no site do Fundo Baobá para Equidade Racial.

 

Enfrentamento ao racismo

“No ano em que o Fundo Baobá celebra 10 anos de existência, o lançamento do  edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça é estratégico. Apenas as ações de políticas públicas não têm sido suficientes para conter a crescente escalada de violências e outras violações de direitos que assolam a população negra brasileira”, diz Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá. 

A iniciativa financiada por Google.org e liderada pelo Fundo Baobá é resultado de um esforço coletivo para o enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial.  O edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça será mais uma oportunidade para organizações negras fortalecerem estratégias de ativismo e resistência  frente às injustiças raciais recorrentes, envolvendo e engajando comunidades, vítimas, sobreviventes e aliados. 

“Injustiças raciais provocam marcas e traumas que estarão sempre presentes na vida das vítimas, de seus familiares, de suas comunidades. Isso jamais poderá ser completamente reparado. Mas, em muitos casos, poderá ser evitado”, completa a diretora executiva do Fundo Baobá, Selma Moreira.

Em 2020, o CEO do Google e da Alphabet, Sundar Pichai, reafirmou a importância de se reconhecer o racismo como um problema global e reforçou o compromisso de colaborar com o trabalho de organizações atuantes no combate ao racismo e à desigualdade em países como o Brasil. O Google.org anunciou então a destinação de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) em doações para organizações sem fins lucrativos que trabalham para promover a justiça racial no país. 

O Fundo Baobá foi uma das entidades contempladas pelo Google.org no Brasil por meio de recurso que seria utilizado para a seleção e apoio continuado a organizações de todos os estados brasileiros com foco no enfrentamento ao racismo em suas regiões de atuação. 

“Temos um compromisso global por equidade racial e inclusão que no Google se traduz em ações internas e externas, seja adotando medidas para aumentar a representatividade negra em cargos de liderança em nossa empresa, seja apoiando o trabalho de organizações que lutam contra o racismo e a desigualdade”, diz Flavia Garcia, head de Diversidade, Igualdade e Inclusão no Google para América Latina e Canadá. “Com esse apoio, queremos promover mudanças que sejam significativas e duradouras pela equidade racial no Brasil, ampliando o alcance do legado de transformação social das organizações negras a serem financiadas por meio do Fundo Baobá”.

Além do Fundo Baobá, o Google.org destinou US$ 100 mil para o Núcleo de Pesquisa em Justiça Racial e Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), liderado pelos professores Thiago Amparo e Marta Machado, com o objetivo de melhorar a coleta de informações sobre o estado da justiça racial no Brasil, a partir da análise de estudos de caso, dados e visualização das dimensões raciais da violência policial no Brasil.

 

Sobre o Fundo Baobá

O Fundo Baobá para Equidade Racial é o primeiro e único fundo dedicado exclusivamente à promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. Criado em 2011, o Fundo Baobá é uma organização sem fins lucrativos que tem por objetivo mobilizar pessoas e recursos, no Brasil e no exterior, para o apoio a projetos e ações pró-equidade racial para a população negra. O Fundo Baobá prioriza apoio a iniciativas negras alinhadas a quatro eixos programáticos: viver com dignidade; educação; desenvolvimento econômico; comunicação e memória. A missão do Baobá é o desenvolvimento de uma agenda filantrópica para a promoção da equidade racial para a população negra calcada em valores como ética, efetividade na gestão e transparência. O Baobá faz parte da Rede de Filantropia para Justiça Social.  

 

Sobre o Google.org

O braço filantrópico do Google apoia organizações sem fins lucrativos voltadas a questões humanitárias e aplicam inovação escalável e orientada por dados para solucionar os maiores desafios do mundo. Aceleramos seus progressos conectando-as a uma combinação única de apoio que inclui financiamento, produtos e conhecimentos técnicos de voluntários do Google. Buscamos nos envolver com as pessoas que fazem acontecer, causando impacto positivo para as comunidades que representam, e cujo trabalho tem potencial de produzir mudanças significativas. Queremos um mundo que funcione para todos – e acreditamos que tecnologia e inovação são peças fundamentais para este objetivo.

Leia aqui a matéria com o doutor em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) Felipe Freitas, um dos idealizadores do edital Vidas Negras: Dignidade e Justiça.

Número de brasileiros que moram sozinhos cresce no país

Muitos deles são jovens que precisam conciliar os cuidados com a casa e os estudos

Por Mônica Moreira do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Em 2019, cerca de 11,7 milhões de pessoas viviam sozinhas no país, o que corresponde a 16,2% dos lares brasileiros, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) mostram o maior número de domicílios com apenas um morador desde 2016.

Ingressante do curso pré-vestibular Já É, do Fundo Baobá, Antônio Gustavo Ribeiro da Silva, de 19 anos, mora sozinho desde que saiu da cidade natal, Mombaça, no interior do Ceará, para morar na capital de São Paulo. “Fui criado pelos meus avós, depois que perdi eles, me mudei para São Paulo e comecei a morar com a minha mãe. Não deu muito certo, então passei a morar sozinho”, comenta.

Natalini conta que a experiência de morar só foi fundamental para que ela se conhecesse, tivesse mais segurança e adquirisse mais maturidade. “Você percebe que não precisa de mais ninguém, só você. Já passei por muitas coisas, então agora ficar sozinha é melhor. […] Fui me conhecendo, sabendo até onde posso ir, as inseguranças e me sentir mais forte. Tudo isso se aprende morando sozinho”, conta.

Responsabilidades da casa e estudos

A rotina de quem vive sozinho exige disciplina e organização, mas se torna um desafio ainda maior ao conciliar as responsabilidades de casa e os estudos pré-vestibular do programa Já É.

Para isso, Natalini Santos de Jesus, de 23 anos, conta com ajuda da irmã mais nova, Janaína, de 14 anos. “Minha irmã me ajuda bastante quando preciso trabalhar ou sair para resolver alguma coisa, ela é a minha principal rede de apoio. […] Ela também vai me auxiliar quando começar os estudos do curso do Fundo Baobá”, relata.

Já Antônio, que tem se preparado desde muito cedo para os vestibulares, desenvolveu uma rotina para que conseguisse ter um tempo dedicado aos estudos e também aos cuidados da casa.

“Normalmente acordo, faço algumas coisas da casa e começo a estudar. Paro no horário do almoço para conseguir fazer minha comida, descanso e depois volto para os estudos. O período da tarde é o momento que mais estudo, costumo parar só no início da noite. Depois disso volto a fazer o serviço de casa, lavo roupa ou coloco comida para o cachorro. Apesar disso, eu considero uma rotina bem tranquila e gosto bastante”, conclui.

Driblando a solidão

Como uma forma de não se sentir tão sozinho, Antônio Gustavo adotou um animal de estimação para lhe fazer companhia no dia a dia. “Eu tenho o Luís Eduardo, o apelido dele é Dudu, meu cachorro de estimação que me faz companhia nas horas que me sinto sozinho, é ele quem traz alegria para casa. Sinto que minha família é eu e ele”, diz.

Natalini Santos, também considera a solidão com um aspecto negativo de estar sozinha, mas não se vê morando com outra pessoa no futuro, além dos dois filhos, Arthur, de 7 anos, e Ezequiel, de 11 meses. “Quando eu morava com meus pais achava que seria muito bom não dar satisfação para ninguém, mas agora é muito ruim. Porém, já me acostumei e só quero ficar morando com os meus filhos mesmo”, brinca.

As culturas no cenário dos exames seletivos

Para se sair bem em um exame vestibular é importante entender que os conteúdos importantes também estão fora dos livros

Por Eduarda Nunes, do Perifaconnection, em parceria com o Fundo Baobá para Equidade Racial

Dentre as dicas implacáveis para fazer uma boa prova de vestibular essa está sempre lá: ler muito, e sobre tudo. Em se tratando do Brasil, um país que tem perdido leitores e que tem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como principal processo seletivo de ingresso nas  universidades públicas e privadas, esse não poderia ser um conselho melhor.

Segundo a pesquisa Retratos do Brasil, a única que faz uma avaliação à nível nacional dos hábitos de leituras dos brasileiros, entre 2015 e 2019 o País perdeu 4,6 milhões de leitores, ou seja,  pessoas que não conseguiram terminar de ler um livro por ano. A cultura da leitura tem sido enfraquecida, e por mais que ela seja uma peça chave para obtenção de um bom resultado nos exames, existem outras culturas que também preparam o vestibulando para a prova.

Sociologicamente, o conceito de cultura é muito amplo. É o que determinados grupos vão comer, vestir, criar e consumir. “A cultura é tudo”, como afirma Lívia Estanislau, uma das selecionadas do “Já É”.

Por meio dela são tecidos padrões comportamentais e imaginários sociais diversos. E é baseado em muitas das culturas existentes que é elaborada uma prova como o Enem. As 90 questões objetivas são embaladas em contextos às vezes inimagináveis.

Como em 2018, quando fez brilhar em uma das questões o Pajubá. A linguagem desenvolvida e utilizada pela população LGBTQIA+ foi apresentada a milhões de jovens que ainda não faziam ideia da  existência do dialeto. O Enem é uma prova que demonstra o quanto é importante estar atento também ao que está fora dos livros didáticos.

Lívia Estanislau, 19 anos

A escolha de Lívia pelo curso da faculdade, por exemplo, não veio dos assuntos tratados na escola, mas do que aprendeu e viveu dentro de casa. A jovem vem de uma família que tem elo no cuidado e na proteção uns com os outros.

Foi assim que surgiu seu interesse por estudar a mente humana. Desde criança ela convive com a mãe e o irmão que lidam com a depressão. Psicologia é sua primeira opção.

Erick dos Santos, de 18 anos, que cresceu bebendo da cultura do hip-hop através de sua mãe – uma artista da cena -, além de estar dando início à sua jornada de artista, também integra conquistas coletivas que levaram ao seus objetivos de vida.

“As culturas em que a gente cresce que faz a gente se interessar por determinadas coisas sim e outras não”, conta o jovem.

Tanto Lívia quanto Érick são estudantes que não tiveram grandes entraves nos estudos. São alunos medianos, que cultivaram boas relações com os professores e outros alunos durante toda a trajetória escolar.

Erick dos Santos, 18 anos

E mesmo assim, algumas das principais escolhas que estão prestes a fazer tiveram as suas bases criadas quase que independente desse contexto, dentro de museus e outros eventos culturais. Também devido ao contexto familiar em que os jovens estão inseridos. É importante estar atento à bagagem cultural para compreender quais são os caminhos, decisões e interpretações que ela pode induzir.

 

Desemprego, informalidade, estudos e pandemia

Como os jovens fizeram para driblar o atípico ano de 2020 para alcançar suas metas

Uma geração que cresceu incentivada a ter carteira de trabalho muito jovem vem enfrentando desde 2015 uma profunda crise em suas rendas, mas viu em 2020 o cenário se agravar pela crise sanitária. São Paulo, cidade que é referência nacional em empregos, têm seus jovens empurrados para o desemprego ou informalidade. Com a pandemia da Covid-19 e o fechamento de escolas e cursos, os estudos também ficaram comprometidos.

O coronavírus chegou de forma avassaladora e fez com que milhões de pessoas perdessem os seus empregos. Esse foi o caso de Karine Lopes dos Santos, 21, e moradora da Vila Brasilina, que até o início de 2020 trabalhava na empresa Clearsale Antifraude e se viu na busca por emprego em um dos piores momentos do mercado nos últimos anos. “Foi bastante complicado, porque as empresas estavam demitindo mais que contratando. A gente manda e-mail e não tem resposta, fazia entrevista e não tinha resposta”, desabafa.

Os jovens são os mais afetados pela crise. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD, no terceiro trimestre de 2020 a taxa de desemprego no país era de 14%, mas entre os jovens de 18 a 24 anos esse número mais que dobrou, chegando a 31%. Essa é a maior taxa de desemprego desde que os indicadores começaram a ser medidos em 2012.

O desemprego é historicamente maior entre os jovens, e muitos já vinham enfrentando dificuldades para conseguir entrar no mercado de trabalho. Além dessa dificuldade, outro fato que os jovens observam são os setores que contratam. Segundo a moradora da Vila das Belezas, Ana Julia Melo de Lucas, 18, o mercado de telemarketing segue como um dos poucos que contrata jovens com pouca ou nenhuma experiência.

“Estou em busca do primeiro emprego, o que mais me desanimou nessa busca são os empregos oferecidos para primeira oportunidade. Só oferecem cargos de telemarketing. Isso é muito errado, não deve ser o único setor que abre portas. Tantas vagas deveriam ser abertas para essa primeira oportunidade em outros setores. Ninguém nasce sabendo, precisamos de oportunidade para ter experiência”, diz

Ana Julia Melo de Lucas, 18 anos

Julia também observa que, por conta da pandemia, viu ainda o mercado de telemarketing se inchar de pessoas com experiências anteriores e que perderam seus empregos e cita como problema a questão salarial da função: “Também é muito ruim a pessoa trabalhar o dia inteiro para ganhar mil e pouco, um salário.” O setor de telemarketing cresceu 67% em 2020, segundo relatório do Linkedin.

Todos esses jovens mantinham a rotina de busca de emprego e estudos, mas Joyce Cristina Nogueira, 20, fez um movimento contrário. Após algum tempo fora do mercado, trabalhou como personal shopper na empresa de delivery Rappi, porém decidiu pedir demissão para  focar apenas nos estudos. “Antes eu trabalhava e estudava, mas tinha problema em focar nos estudos, cansaço por conta do trabalho  não conseguia me dedicar a nenhum”, relata.

Joyce Cristina Nogueira, 20 anos

João Pedro Araújo da Silva, 23, mora no Grajaú, onde de vez em quando trabalha com a sua mãe, Margarida Araújo, no brechó que ela tem na comunidade. Por conta da pandemia, o jovem passou a buscar emprego apenas de forma online. “Eu tenho buscado emprego, mas a pandemia dificultou demais e entreguei muito currículo pela internet. Tem uns sites muito bons, tipo o infojob, vagas, linkedin, mas ainda não rolou.”

João Pedro Araújo da Silva, 23 anos

Além das dificuldades na busca por emprego, Karine, Julia, Joyce e João também enfrentaram problemas com os estudos. Em uma realidade em que muitos cursos foram interrompidos e as aulas remotas apresentaram problemas.

Surgiu então para os esses jovens o edital Já É do Fundo Baobá como um grande impulsionador rumo ao sonho da graduação. “Depois que eu vi o meu nome na lista de selecionados no Baobá eu fiquei bem esperançosa e feliz”, comenta Karine.

O Programa Já É dará uma bolsa de estudos em um curso pré-vestibular e custeará as despesas dos jovens contemplados, além de oferecer outras atividades psicossociais e de mentoria com uma pegada antirracista. Um grande passo para ajudar na formação desses jovens e assim ampliar as suas chances no mercado de trabalho.

Entre expedientes longos e livros: a vida dos estudantes que trabalham e estudam

Atrás da tão sonhada vaga no Ensino Superior, alguns estudantes enfrentam jornadas longas de serviço

Das barreiras sociais à frente dos jovens que pretendem ingressar no Ensino Superior, a mais visível delas reflete sobre a dificuldade da conciliação das horas de expediente e a rotina de estudos. Para Beatriz Moreira Passos da Silva, de 22 anos e moradora do bairro Santana, na Zona Norte de São Paulo, os contratempos para enfrentar esses obstáculos são vários. Entre jornadas de trabalho longas, trajetos de ônibus, cadernos, livros e anotações, a jovem encara uma rotina agitada que exige uma determinação rígida para realizar suas metas.

“Nesse momento, eu trabalho 9h por dia como anfitriã de hospitalidade. Como é uma área que eu já tenho conhecimento e gosto bastante, pretendo estudar no campo da Gestão Hospitalar para contribuir mais e mais no meu trabalho. Por isso, a rotina de estudos acaba sendo divertida”, explica.

Beatriz Moreira Passos da Silva, 22 anos

Demonstrando determinação para suas metas, Beatriz revela que, além dessas barreiras sociais, ela também fez parte das estatísticas dos jovens negros que abandonaram os estudos por complicações com familiares ou outros motivos. O olhar atencioso para as questões que envolvem a saúde de uma pessoa tem relação com um pouco do seu passado: a mãe teve um câncer de mama.

“Infelizmente, eu parei de estudar por questões que vão muito além de mim. Minha mãe teve um câncer de mama e essa doença, com certeza, influenciou nas minhas decisões. Porém, mesmo longe da escola, eu não perdi a paixão e a curiosidade que todo estudante possui. Fico muito feliz pelo meu retorno”, desabafa.

Também da Zona Norte de São Paulo, Bianca Paixão da Silva, de 24 anos e moradora do bairro Jardim Princesa, comenta que a rotina agitada de trabalhos e estudos combina com o seu perfil que visa a constante mudança pessoal. De uma forma leve e divertida, a jovem, que trabalha como Auxiliar de SAC, brinca ao dizer que nem recorda da última vez que não precisou trabalhar enquanto estudava.

“É da minha personalidade mesmo (risos). Eu não consigo ficar parada, eu preciso estar sempre fazendo alguma coisa ou aprendendo algo novo”, afirma.

Bianca Paixão da Silva, 24 anos

Para ela, essa realidade coincide com a população negra e periférica no Brasil que desde cedo tem que realizar tarefas múltiplas e enxerga essa rotina como algo comum. Atualmente, Bianca trabalha cerca de 8 horas por dia. A estudante sonha com a vaga no Ensino Superior para estudar a área de comunicação social e se especializar em Publicidade e Propaganda.

“Ser uma garota de periferia mostra como o mundo é diferente em outras partes da cidade e em outras áreas, como no mercado de trabalho. Desde cedo, eu sempre lidei com a situação de ser a única negra nos ambientes que frequento”, analisa.

Da Zona Leste do mapa de São Paulo, Micheli Karoline da Silva Santos, de 24 anos e moradora da Vila Nhocune, também enxerga essa situação como corriqueira, pois ela trabalha e estuda há muito tempo. De acordo com a jovem, as jornadas de expediente acompanham os horários de estudos desde os 16 anos e, agora que trabalha 8h por dia na área comercial de uma empresa, ela não acredita que seja  um empecilho, mas sim, uma motivação extra para dar o melhor de si.

“Para mim, não é uma novidade trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Faço isso há muito tempo. Atualmente, eu trabalho na área comercial de uma empresa, de segunda a sábado, 8h por dia. Mas, como eu sempre fui ensinada a pensar como ’adulta’, eu lido bem com a situação. E o meu jeito curioso e focado sempre me faz querer estudar mais, saber mais”, detalha.

O norte de incentivo de Micheli aponta para o sonho de estudar Direito e abrir o seu próprio escritório de advocacia, que será especializado em consultoria cidadã. Ela explica que os serviços consistem na introdução dos direitos, as normas de relacionamento e obrigações legais do judiciário frente ao cidadão.

“Eu sempre gostei da ideia de cursar Direito. A minha expectativa com o Programa Já É, do Fundo Baobá, é me tornar uma referência dentro da área para auxiliar as causas femininas. Meu sonho é abrir um escritório de advocacia para mulheres, com consultas gratuitas sobre processos e questões burocráticas”, explica.

Programa de Recuperação Econômica apoia empreendedores negros em meio à pandemia

O Programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá para Equidade Racial, foi lançado no dia 11 de novembro de 2020 em uma iniciativa que contou com a parceria com a Coca-Cola Foundation, Instituto Coca-Cola Brasil, Banco BV e Instituto Votorantim.  O objetivo era apoiar pequenos empreendimentos liderados por pessoas negras em comunidades periféricas ou territórios em contexto de vulnerabilidade socioeconômica no país, que tenham pequenos negócios com faturamento de até R$ 6.750,00.

Em 39 dias de inscrições abertas, a organização recebeu 700 propostas de pequenos empreendedores. Na primeira fase de triagem, 598 inscrições foram validadas, passando para a fase de avaliação das propostas em si. Dessas, 273 seguiram para a etapa de entrevistas virtuais. Elas foram realizadas pela organização FA.VELA, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Segundo Ludmila Correa, representante da FA.VELA, as conversas foram fundamentais para seleção de iniciativas empreendedoras para o programa. “Durante as entrevistas pudemos conhecer diversas realidades, ramos e formas de empreender desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, variando de entrevistas com empreendedores quilombolas, ribeirinhos, da zona rural e do meio urbano. Acreditamos que muitas iniciativas têm perspectiva de expansão, promovendo impacto territorial por meio da geração de renda, desenvolvimento sócio econômico, fortalecimento da atuação em rede, entre outros benefícios. O processo de entrevistas foi fundamental para o diálogo e entendimento da realidade de cada empreendedor, possibilitando verificar a adequação da iniciativa proposta para o programa, assim, colaboramos recomendando os participantes de forma mais assertiva e coerente”.

Ludmila Correa, gerente de projetos e programas do Fa.Vela

Após o processo de entrevistas, 141 iniciativas  foram recomendados ao comitê selecionador, que elegeu as 47, cujos nomes foram divulgados no dia 26 de fevereiro e serão contempladas com os recursos financeiros e de formação do programa. Uma das integrantes do comitê selecionador foi a consultora de negócios de diversidade e inclusão, Caroline Conceição Moreira: “Acredito que, por eu trabalhar com empreendedorismo, consegui contribuir com meu olhar de eterna captadora de talentos. Foi uma experiência incrível poder acessar tantos projetos potentes e saber que estas pessoas terão uma oportunidade incrível de potencializar seus empreendimentos”. 

Quem também utilizou a profissão ao seu favor, durante a sua participação no comitê selecionador, foi a psicóloga e diretora da Teçá Impacto, Marcela Bacchin: “Fiquei muito honrada de poder fazer parte do comitê de seleção do edital e trouxe meu conhecimento de 15 anos no apoio de empreendedores da base da pirâmide como estratégia de combate à pobreza, à serviço da definição de critérios para avaliação de maturidade das propostas e de um olhar propositivo de equilibrar a seleção com recorte de gênero, e territorialidade”. Marcela acredita que esse equilíbrio durante a seleção das iniciativas fez justiça aos selecionados: “Dessa forma, o grupo participante do comitê teve uma atuação de garantir o equilíbrio territorial dos investimentos e a prioridade para projetos do nordeste, liderados majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQI+”.

Marcela Bacchin, psicóloga e diretora da Teçá Impacto

Foi esse entendimento e processo coletivo entre os membros do comitê que ganhou elogios do diretor da Techsocial, conselheiro do Anjos do Brasil – um grupo de investidores anjo – e também conselheiro fiscal do Fundo Baobá para Equidade Racial, Marco Fujihara: “Eu gostei muito porque, principalmente, foi um processo coletivo, não foi a minha opinião sozinha que influenciou na escolha, mas todo processo coletivo é muito rico, porque você ouve a opinião das pessoas, elas ouvem a sua opinião, e você acaba achando um caminho do meio sempre, não tem aquele melhor ou pior”. Assim como também elogiou as iniciativas apoiadas: “Eu gostei muito das iniciativas empreendedoras inscritas pelo vínculo comunitário que elas tinham, o que tornou tudo bastante criativo e produtivo”. 

Marco Fujihara, diretor da Techsocial e conselheiro fiscal do Fundo Baobá

Para a psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva, Crisfanny Souza Soares, integrar o comitê foi um privilégio: “Estar em contato com ideias e iniciativas empreendedoras que virão a ser respostas efetivas na recuperação da economia e no desenvolvimento de modelos de negócios inovadores, trouxe para roda a visão de quem conhece, reconhece e apoia quem movimenta a economia brasileira: os 99% micro e pequenos empreendedores, e investiu no desenvolvimento de metodologias de apoio, parcerias de acesso para inclusão produtiva”. 

Outro membro do comitê foi Marcelo Rocha, mais conhecido como DJ Bola, um dos articuladores do coletivo A Banca. Para ele, integrar o comitê selecionador foi um grande aprendizado, além de uma imensa felicidade também: “Quando a Selma Moreira (diretora-executiva do Fundo Baobá) me disse que havia mais de 700 inscritos buscando apoio para tocar as suas iniciativas no Brasil todo, eu me senti muito feliz, porque isso é uma evidência do quanto o povo negro é potente e o quanto de mudança tem as quebradas”. Na visão do produtor cultural, a periferia tem uma enorme potência e bagagem, e iniciativas como o programa de Recuperação Econômica do Fundo Baobá, potencializa ainda mais os talentos existentes nesse meio: “A gente tem que sair dessa ótica da escassez, porque a periferia tem muito conteúdo, tem muito produto e tem muito serviço. Então, o Fundo Baobá conseguiu evidenciar mais uma vez a luta do povo preto, do pessoal LGBTQ+ e das mulheres, elas que sempre tiveram à frente iniciativas que trouxeram transformações dentro de casa, e agora elas estão à frente de iniciativas empreendedoras”.

Marcelo Rocha, DJ Bola, um dos articuladores do coletivo cultural A Banca

A pandemia da covid-19 ainda não chegou ao fim, pelo contrário: mesmo com a vacina aprovada em território nacional e com um plano de imunização que pretende vacinar toda a população ainda esse ano, apenas uma fatia minúscula da população recebeu a segunda dose da vacina até o momento, enquanto a média móvel diária de novos casos da doença atingiu patamares surpreendentes, com expectativa de chegarmos a meio milhão de mortes em breve. Com os governos estaduais implementando medidas sutis de isolamento para conter o avanço da doença e o colapso hospitalar, que acarreta  falta de leitos, estresse e exaustão de profissionais, os comércios e os pequenos empreendimentos voltam a fechar, o que resulta também em uma crise financeira. Entretanto, é preciso afirmar que os pequenos empreendimentos negros são de sobrevivência e existem, desde antes da crise sanitária, num contexto de desigualdade e racismo estrutural. Justamente dentro desse contexto que considera a relevância de ações como o Programa de Recuperação Econômica, considerando que a população negra, independente do cenário, é mais penalizada com as desigualdades: “A proposta do edital de recuperação econômica para empreendedores negros, busca atender uma demanda de pessoas vulnerabilizadas, de forma a fortalecer a sinergia entre empreendedores e ainda trazendo impacto positivos para os territórios ao qual eles fazem parte”, afirma Marcela Bacchin. “Sendo assim, essa é uma iniciativa que promove a dinamização econômica dos territórios, o desenvolvimento de novos negócios e a geração de renda através de atividades produtivas em diferentes setores. Serão produtos e serviços oferecidos por empreendedores negros para seus territórios, gerando o desenvolvimento local e valorização da comunidade negra”, completa.

Caroline Moreira frisa a importância de ações como essa, considerando o quadro desigual que o negro se encontra na sociedade brasileira: “É de extrema importância pensar nas questões raciais como foco, tendo em vista que os empreendedores negros são os que mais se prejudicam independente do cenário e falando em pandemia com certeza o fundo é uma possibilidade incrível de criar oportunidades para empreendedoras”.

Caroline Conceição Moreira, consultora de negócios de diversidade e inclusão

Crisfanny Soares afirma que o Programa de Recuperação Econômica movimenta dois pontos cruciais para a sustentabilidade das iniciativas: “O primeiro é o acesso ao capital financeiro e o segundo é a capacitação empreendedora que apoiará a estruturação e adaptação a dos negócios neste novo contexto que exige novas habilidades”, a gerente de projetos ainda confirma que o que mais lhe chamou a atenção neste edital foi a proposta de convergir negócios e suas propostas de valor para atuação em um mesmo território: “Além de inovadora, a proposta potencializa a visão de parcerias estratégicas comunitárias que podem fortalecer a economia local e mobilizar o surgimento de novos negócios ampliando o impacto”.

Crisfanny Souza Soares, psicóloga e coordenadora de projetos de impacto em inclusão produtiva

Ainda sobre a vacinação no Brasil, mas trazendo um inédito recorte racial, uma pesquisa feita pela Agência Pública, a partir dos dados de 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose da vacina, mostra que a cada duas pessoas brancas, apenas uma pessoa negra recebeu a vacina, o que equivale a 1,48% da população negra vacinada, contra 3,66% da população branca vacinada. Para Marco Fujihara, o racismo está enraizado em toda estrutura do país e medidas como essa do Fundo Baobá, ajudam a promover a equidade racial: “A questão da equidade racial tem que ser colocada na pauta do dia sempre. O racismo é uma coisa que existe, e a primeira maneira de combater o racismo é acreditar que ele existe. Portanto, esse trabalho do Fundo Baobá é necessário e tem que ser ampliado”.

Programa Já É, do Fundo Baobá, aproxima jovens pretos e periféricos da universidade

Com mais de 200 inscritos, o edital custeará não só os gastos em curso pré-vestibular, mas também despesas com transporte e alimentação

O Fundo Baobá para Equidade Racial busca a promoção da equidade racial para a população negra. No front desde 2011, a instituição não possui fins lucrativos e vem mobilizando recursos pelo Brasil e mundo afora, para apoiar organizações que atuam no enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial.

Na prática, o Fundo Baobá investe em ações por meio de editais, organizações e lideranças pretas, que se comprometem com o combate ao racismo e às desigualdades. Um dos grandes exemplos desse trabalho é o Programa Já É: Educação para Equidade Racial.

O edital foi criado a fim de impulsionar o ingresso de jovens pretos e periféricos nas universidades, através do custeamento dos gastos em um curso pré-vestibular, e também transporte e alimentação. Além de tudo, o edital prevê também atividades voltadas para o enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e para a ampliação das habilidades socioemocionais e vocacionais, bem como mentoria com profissionais de diferentes formações acadêmicas e vivências.

Foram 245 inscritos no total, com a segunda etapa de seleção sendo uma entrevista com 120 desses candidatos. Ao total, 100 jovens foram aprovados para ingressar no programa e, entre eles, estavam Julia Camile Santos, 17, Julia Firmino, 18, e Carlos Eduardo Cerqueira, 19.

Julia Camile encontrou no Fundo Baobá uma oportunidade para conquistar sua independência profissional. A estudante teve uma infância curta, adquirindo responsabilidades já aos 8 anos de idade por conta de problemas familiares. Ela descobriu o edital enquanto navegava na internet em busca de cursos pré-vestibular.

Hoje, com os conflitos familiares já resolvidos,  Camile continua sendo independente e agora já pensa em se tornar universitária. A jovem sonha em ser bióloga por influência de seu ex-professor do ensino fundamental, e enxerga no Programa Já É a porta aberta para o mercado de trabalho. “O edital me abriu portas e hoje enxergo o potencial que antes eu achava que não tinha. Hoje vejo novas perspectivas”, conta.

Julia Camile Santos, 17 anos

Há muitos jovens que almejam ingressar na universidade, mas ainda não decidiram em qual curso pretendem se inscrever. Contudo, isso não é um impeditivo para já começar a se preparar para as provas. Carlos Eduardo é um exemplo. “Eu quero me especializar na área financeira, que é onde me dou bem”, explica. Carlos descobriu o edital através de um amigo, que sabia de sua procura por cursos preparatórios para vestibulares.

Ele acredita que a iniciativa do Fundo Baobá é uma oportunidade para chegar mais perto do seu sonho. “Apesar da pandemia ter atrapalhado os meus planos, pois é muito ruim estudar de casa, o caminho para chegar onde eu quero continua sendo através da educação”, afirma.

Carlos Eduardo Cerqueira, 19 anos

Os efeitos do racismo na vida de jovens negros

O racismo é um projeto genocida que funciona sem grandes falhas e o Fundo Baobá trabalha diariamente para a erradicação dessa estrutura. Apesar dos esforços, muitos jovens pretos ainda não estão livres de vivenciar situações racistas. É o caso de Julia Firmino, de 18 anos.

Julia concluiu o ensino médio em 2020, com formação técnica em Edificações. Apesar de gostar da área e querer cursar Arquitetura, a estudante recebeu pouco apoio dos colegas da escola. “Diziam que o curso técnico não era para mim, e que eu deveria procurar algo mais fácil”, desabafa.

Julia Firmino, 18 anos

Apesar disso, Julia não se abateu, porque vem de uma estrutura familiar fortalecida. “Nossa situação é apertada, pois minha mãe criou eu e meus 5 irmãos sozinha. Mas eu sempre soube que sofria racismo e aprendi a lidar. Fui bem instruída”.

Tais situações só fizeram a jovem ter ainda mais certeza de que poderia conquistar o que quisesse, e o Fundo Baobá colaborou para isso. O edital Já É foi importante para eu entender que, independentemente da minha cor, sou capaz de qualquer coisa”, diz.

Emoção marca aula inaugural do programa educacional Já É, lançado pelo Fundo Baobá para Equidade Racial

A emoção esteve presente o tempo todo na noite de quinta-feira (18 de março) quando o Fundo Baobá realizou a aula inaugural do programa Já É – Educação e Equidade Racial. O Já É tem como objetivo dar apoio a estudantes negros da periferia da cidade de São Paulo e de municípios da região metropolitana de São Paulo no que se refere ao acesso ao ensino superior, um dos grandes gargalos que afetam a juventude negra em seu desenvolvimento social. A aula inaugural do programa aconteceu no formato virtual por conta das medidas de distanciamento social adotadas durante o período da pandemia da Covid-19, que perdura desde março de 2020.

O programa Já É tem apoio de Citi Foundation, Demarest Advogados e Amadi Technology. As inscrições para fazer parte do programa aconteceram entre julho e agosto de 2020. As etapas classificatórias aconteceram entre setembro e novembro de 2020. O Já É selecionou 100 jovens entre 17 e 25 anos que vão receber bolsa para estudarem, durante 1 ano, no Cursinho da Poli. O programa foi todo planejado para que as aulas acontecessem em caráter presencial. Porém, com as medidas restritivas da pandemia, por enquanto, elas terão que ocorrer virtualmente. Para que as aulas possam acontecer dessa forma, cada aluna, aluno, alune recebeu um computador e um chip de acesso à internet, pois a maioria  não possui acesso a internet de banda larga em casa ou pacote de dados que permita acessar a plataforma de aulas, fazer pesquisas e outros detalhes que envolvam aprendizado. Quando as aulas voltarem  a acontecer presencialmente, os alunos selecionados vão receber auxílio alimentação e vale transporte. 

A aula inaugural teve participação de representantes das instituições apoiadoras do Já É, além de membros de órgãos de governança do Fundo Baobá e outros parceiros estratégicos. Pelos apoiadores estiveram presentes Fernando Granziera e Patricia Salles (Citi Brasil), Paulo Rocha e Karina Miranda (Demarest Advogados) e Agnes Karoline de Farias Castro (Amadi Technology). Pelo Fundo Baobá, estiveram presentes Giovanni Harvey (presidente do Conselho Deliberativo), Sueli Carneiro e Rebecca Reichmann Tavares (membros do Conselho Deliberativo), Maria do Socorro Guterres e  Lindivaldo Oliveira Leite Junior (membros da Assembleia Geral), Marco Antonio Fujihara (membro do Conselho Fiscal), além dos membros da equipe executiva. 

Fernando Granziera, líder de Produtos e Co Chair do grupo Blacks at Citi no Brasil, disse que a organização está focando nos projetos sociais. “O empoderamento da juventude negra é prioridade para o Citi. Acreditamos em vocês. Estamos investindo pesado em projetos sociais e esperamos que vocês possam, no futuro, ser nossos colaboradores. Parabéns”, comemorou Granziera.

Fernando Granziera, líder de Produtos e Co Chair do grupo Blacks at Citi no Brasil

Patricia Salles, analista sênior de documentação do Citi, comentou a importância de o Citi Brasil estar presente nesse projeto. “Abraçar a diversidade de pessoas e ideias é atuar com ética. Essa é nossa responsabilidade. Essa é a forma de nos aproximarmos de nossos funcionários, da comunidade e dos nossos clientes”, concluiu Salles que é a madrinha do Ja É no Citi Brasil.

Patricia Salles, analista sênior de documentação do Citi

Já Paulo Coelho da Rocha, do Demarest Advogados, pediu aos alunos muita força de propósito: “Todos acreditamos nos sonhos e ninguém, ninguém, deve desistir de nada. Eu sou um homem branco e isso implica em ter privilégios em nossa sociedade. Então, aproveitem muito essa oportunidade. Aproveitem muito as aulas”, disse.

Paulo Coelho da Rocha, Demarest Advogados

A personificação desse sonho no Demarest está na figura da advogada Karina Miranda, que trabalha com Contencioso Cível. A história dela é semelhante à dos alunos do Já É. “Há 10 anos eu estava no lugar de cada um de vocês. Meu sonho era estudar Direito na USP. Deu certo. Eu me formei na USP. Alcancei meu sonho. Então, dediquem-se! Entreguem-se!”, disse.

Karina Miranda, Demarest Advogados

Com Coelho da Rocha concorda Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology. “Por conta de nossa sociedade desigual, o uso da tecnologia também é desigual entre as pessoas. Somos uma empresa, mas temos uma responsabilidade social grande. Vamos trazer um pouco do debate da tecnopolítica. A tecnologia não é neutra. Ela está nos campos da transformação social”, definiu Agnes Karoline. 

Agnes Karoline, CEO da Amadi Technology

O lançamento do Já É também marca o ano de comemoração dos 10 anos do Fundo Baobá. A diretora de programa, Fernanda Lopes, falou da importância do que aconteceu na noite de quinta (18). “Estamos plantando sementes. Transformando vidas. Mudando a história.  Somos parte dessa massa que conspira e provoca mudanças. E nem o distanciamento vai impedir a nossa força. Quando menos esperarem estaremos em mais lugares, seremos muitos e mais fortes. Muitas sementes de Baobá!”, disse. 

Fernanda Lopes, diretora de programa do Fundo Baobá para Equidade Racial

Giovanni Harvey, presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, enalteceu a iniciativa. “Quero expressar o nosso agradecimento. Porque as iniciativas que o Baobá tem só são viáveis na medida em que possamos trazer parceiros que se tornem viáveis e qualifiquem essas iniciativas. Agradeço por terem se somado a essa iniciativa que busca atender um público prioritário para o Baobá, que é a juventude negra”, afirmou. 

Socorro Guterres, uma das fundadoras do Fundo Baobá e que faz parte da Assembleia Geral, falou da origem da organização. “É com prazer enorme que faço parte desse momento. Porque vejo nesse mosaico de tantas caras de jovens negros e negras, inúmeras perspectivas. Isso é extremamente significativo. Isso mostra que podemos apresentar aos jovens novos caminhos. Caminhos para construir a própria história. Já é possível sonhar. Já é possível esperançar. Já É!”, afirmou Socorro Guterres.

Socorro Guterres, fundadora e membro da assembleia geral do Fundo Baobá 

Thuane Nascimento, diretora executiva do Perifa Connection, destacou a importância do projeto e o histórico que a luta por acesso ao estudo têm no Brasil. “Essa iniciativa é um sopro de esperança. Porque, como diz a professora  de Direito Thula Pires, “vivemos em um mundo meritocrático. Então, vocês precisam estudar; Persistam! Façam o que tem que ser feito, que é estudar. Tenham em mente a luta que foi travada para que vocês estivessem aqui hoje. A luta pelas cotas, travada por pessoas como a Sueli Carneiro, que está aqui entre nós. Não fossem as cotas, eu não estaria aqui hoje”, disse. Thuane é aluna de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  

Thuane Nascimento, diretora executiva do Perifa Connection

As falas dos estudantes foram pautadas pela emoção devido à busca por uma oportunidade como essa, que não estava acontecendo. Uma das falas mais simbólicas foi a da aluna Rubyanne Yasmine, que mostrando a sua filha, ainda um bebê, disse: “Estou aqui porque este é o símbolo da minha luta”.  Para a aluna Isabella Amaro,  o programa é uma espécie de reparo a algumas formas de opressão impostas ao povo negro.

Rubyanne Yasmine, aluna

“O processo escravocrata, o processo de eugenia e o processo de racialização que o Brasil sofre é muito forte na questão da coisificação dos negros. Nós fomos coisificados. Acabamos nos afastando um dos outros e de nós mesmos. Esse projeto é uma forma de reparação. Uma forma de fazer com que andemos juntos. É importante ter um irmão de luta ao lado, que vai saber o que sentimos e vai se identificar com a gente. As palavras para o Já É são humanidade e democratização”, afirmou Isabella Amaro.

Isabella Amaro, aluna

Para Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá, a parte mais importante está na confiança que esses jovens tiveram no Baobá. “Olhando tudo o que a gente dialogou aqui, eu me sinto mais impelida a buscar novas oportunidades como essa. Ainda alcançamos pouco de tudo o que nos é devido. Queremos construir um mundo que seja mais equânime, um mundo mais justo. E é por isso que acordamos todos os dias. O dia de hoje foi lindo e deu mais sentido ao nosso trabalho”, disse.

Fundo Baobá divulga selecionados do Edital de Recuperação Econômica para Empreendedores/as Negros e Negras

Diante da pandemia do novo coronavírus, o Fundo Baobá, em parceria com a Coca-Cola Foundation, o Instituto Coca-Cola Brasil, o BV e o Instituto Votorantim, lançou o edital Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores/as Negros e Negras em 11 de novembro de 2020. No curto espaço de tempo de lá até o dia 25 de fevereiro deste ano transcorreu um rigoroso processo seletivo, que incluiu  entrevistas virtuais e resultou em uma lista de 47 iniciativas que receberão R$30 mil, sendo R$10 mil para cada empreendedor (a). As iniciativas selecionadas podem ser conferidas aqui.

O processo de seleção abarcou 700 propostas recebidas nos 39 dias em que as inscrições estiveram abertas.  A primeira triagem era quanto à sua adequação ao que o edital estabelecia.  A principal premissa do edital de Recuperação Econômica era o suporte necessário para iniciativas lideradas por empreendedores negros e negras que foram afetadas financeiramente dentro do contexto da pandemia. As iniciativas que poderiam se inscrever no edital deveriam atender as com as seguintes características: Ser compostas por 3 empreendedores(as) negros(as) que atuem no mesmo território; que tenham 18 anos ou mais; disponibilidade real para participar das ações propostas pelo edital; que não tenham sido eleitos para cargos no legislativo ou executivo; que não tenham projetos com objetivos políticos/partidários; que não sejam funcionários, cônjuges ou parentes até segundo grau de colaboradores das empresas que apoiam essa iniciativa (Sistema Coca-Cola e Grupo Votorantim) ou mesmo de membros dos órgãos de governança do Fundo Baobá para Equidade Racial; pessoas que não tenham sido apoiadas pelo Fundo Baobá em 2020 por edital próprio (Doações Emergenciais) ou da Coalizão Editodos.

Ao fim desse processo, 595 inscrições foram validadas, passando para a fase de avaliação das propostas em si. Dessas, 278 seguiram para a etapa de entrevistas virtuais. Elas foram realizadas pela organização FA.VELA, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Segundo Ludmila Correa, representante da FA.VELA, as conversas foram fundamentais para seleção de iniciativas empreendedoras para o programa. “Durante as entrevistas pudemos conhecer diversas realidades, ramos e formas de empreender desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, variando de entrevistas com empreendedores quilombolas, ribeirinhos, da zona rural e do meio urbano. Acreditamos que muitas iniciativas têm perspectiva de expansão, promovendo impacto territorial por meio da geração de renda, desenvolvimento sócio econômico, fortalecimento da atuação em rede, entre outros benefícios. O processo de entrevistas foi fundamental para o diálogo e entendimento da realidade de cada empreendedor, possibilitando verificar a adequação da iniciativa proposta para o programa, selecionando assim participantes de forma mais assertiva e coerente”. 

Com esse cuidadoso processo, 141 projetos foram recomendados ao comitê selecionador, que elegeu as 47 iniciativas que serão contempladas com os recursos financeiros e de formação. 

Os próximos passos para os empreendedores selecionados é a assinatura do contrato com o Fundo Baobá, que acontecerá em março, além das atividades formativas, nas quais é obrigatória a participação. Planejamento e gestão de negócios, comunicação e marketing, finanças, marco jurídico – regulamentação dos negócios e direitos, estratégias de sustentabilidade, relação com território, ação em rede e parcerias, serão os temas abordados e discutidos nas formações, que acontecerão de março a julho de 2021. Todos estes passos, além do cronograma completo, serão detalhados por e-mail, na próxima semana.

Programa Já É leva a 100 jovens negros pobres da periferia o direito de ser protagonistas de suas próprias histórias através do acesso à universidade

O direito de poder sonhar com uma vida digna. Nem toda a população brasileira tem isso. A falta dele se manifesta das mais diferentes formas. Aqui, vamos tratar do direito de ter acesso ao ensino superior. No Brasil, país de mais de 220 milhões de pessoas, nem todos têm acesso ao estudo. Os exagerados índices de pobreza, a falta de infraestrutura que gere trabalho decente e rendas compatíveis determinam que muita gente, principalmente a gente negra,  não terá acesso aos bancos escolares na tenra idade, na adolescência e na idade adulta. Essas pessoas,  de  diferentes identidades de gênero, poderão não ter gabaritação estudantil.  

O Fundo Baobá para Equidade Racial está, nesses seus quase 10 anos de existência, apontando formas de contribuir para que o Brasil alcance níveis de sociedade justa. Uma das bases de trabalho do Baobá é a Educação. Permitir o amplo acesso a ela é a meta, buscando os seguintes aspectos:    

  • Enfrentamento ao racismo institucional no ambiente escolar, tanto na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio;  
  • Projetos de vida e ampliação de capacidades socioemocionais entre adolescentes e jovens 
  • Entrada e permanência no ensino superior (investimentos em alunos e alunas do ensino médio e de cursos preparatórios)
  • Formação de lideranças políticas
  • Formação de novos quadros 

Com base nisso e com apoio da Citi Foundation,  Demarest Advogados e Amadi Technology, o Fundo Baobá para Equidade Racial criou o programa Já É, que vai proporcionar a 100 jovens negros e negras da periferia de São Paulo e da Grande São Paulo fazer um curso preparatório para o vestibular durante um ano. Esses jovens, de idade entre 17 e 25 anos, que já tenham terminado o ensino médio ou  estejam cursando o último ano  em escola  pública,  terão um computador com acesso à Internet para que possam ter aulas não presenciais durante o período da pandemia; auxílio transporte e auxílio alimentação em caso de as aulas voltarem a ser presenciais. O custo das despesas com as aulas também será bancado pelo Baobá. 

Esse acesso vai proporcionar a esses 100 jovens negros e negras a possibilidade de poderem ser os artífices de suas próprias vidas ao se formar. Embora pesquisas como a realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2020 indiquem que o número de negros em cursos superiores tenha aumentado, isso em muito se deve à adoção das ações afirmativas, como a política de cotas, que reserva aos negros uma porcentagem de vagas em cursos superiores em faculdades e universidades. Mas o caminho de chegada às faculdades tem trajeto difícil e um gargalo entre a saída do Ensino Médio para o Superior. Sem a preparação adequada, cruzar essa barreira é algo bem difícil, principalmente para quem tem histórico de carências de vida nas mais diversas ordens. O programa Já É tem foco sobre jovens de sexo masculino, jovens transsexuais, jovens mães, jovens que residem em bairros, territórios ou comunidades periféricas.

O fato de terem essa importante oportunidade de acesso ao curso superior é comemorado por importantes educadores que foram convidados pelo Fundo Baobá para Equidade Racial para fazer a seleção dos estudantes. O processo incluiu três etapas seletivas: 1) Análise de Formulário de Inscrição; 2) Entrevista Individual e 3) Análise pelo Comitê de Seleção.

Um dos avaliadores convidados foi o geógrafo e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) Billy Malachias.  “A perspectiva mais direta para esses jovens é a de poder sonhar com o acesso  à universidade. Isso que é feito pelo Baobá, que é o investimento naquilo que antecede a chegada à faculdade, o acesso, é de suma importância.Já a política de cotas  é da própria instituição pública e garantida por lei. Essas duas ações (cotas e investimento) são convergentes entre si e colaboram para uma mudança do acesso de jovens negras e negros para o ensino superior”, disse. 

Billy Malachias, geógrafo e mestre em Geografia Humana – Foto: Rosana Barbosa

A pedagoga e doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense Mônica Sacramento comemora a iniciativa do Baobá. Mônica é coordenadora de projetos do Criola,  organização da sociedade civil que promove a defesa e direitos das mulheres negras. “Acho de extrema importância iniciativas que possibilitem suporte para a construção de trajetórias de jovens para mitigação dos efeitos das instituições e mecanismos de socialização e a forma como os indivíduos e grupos racializados se posicionam e são posicionados em relação a eles”, afirmou.

Mônica Sacramento, pedagoga, doutora em Educação e coordenadora de projetos do Criola

Bacharel pela USP em Matemática Aplicada a Negócios e pedagoga com especialização em Matemática, Francielle Santos é coordenadora pedagógica do Instituto Canoa, organização criada com a missão de viabilizar a formação de professores de excelência no Brasil. Como uma das avaliadoras, ela elogiou a iniciativa do Fundo Baobá. “Essa iniciativa é fundamental pela oportunidade que oferece aos jovens de aumentar as chances de acesso ao ensino superior e, portanto, de assumir posições de lideranças posteriormente. Além disso, a forma como essa proposta foi desenhada pode trazer mais informação sobre o quanto é importante contemplar de uma forma mais integral as necessidades desses jovens, por exemplo,  no que diz respeito ao acompanhamento e permanência ao longo dessa preparação”, disse. 

Francielle Santos, bacharel em Matemática Aplicada a Negócios, pedagoga com especialização em Matemática e coordenadora pedagógica do Instituto Canoa

Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, em recente live realizada pelo Women in Science and Engineering (Wise), falou sobre a importância do Já É para esses 100 jovens negros e negras. “Todos esses cuidados que tomamos no edital ajudam a entender os desafios da educação para a equidade racial, que são proporcionais à sua importância. Sem acesso à educação, um povo é condenado a repetir os mesmos padrões. Mas quando pensamos em educação para a promoção da equidade racial, precisamos levar em conta inúmeros níveis de desigualdade: Diferença de acesso; Diferença de qualidade; Diferença no conteúdo educacional; Diferença no tratamento.” 

O programa Já É, com certeza, é uma grande contribuição para que esses jovens se tornem protagonistas de seus futuros. Além do que, também é transformador na vida dos avaliadores do processo de seleção. “Eu me sinto bastante feliz em ter participado. Sempre me vejo como um agente que precisa apoiar iniciativas como essa do Fundo Baobá. Eu me vejo como alguém que colabora para transformações de vida por meio da qualidade de minha formação docente. Que é algo que contribui para que pessoas se inspirem a trilhar um caminho universitário,  acadêmico, ativista. Não é possível ser um educador sem que  a gente pense em possibilidades melhores de vida, indiscriminadamente, para todos os espaços”, afirmou o geógrafo Billy Malachias. “O convite para compor o comitê de seleção do edital, além de uma satisfação pessoal por integrar um grupo qualificado e de trajetórias profissionais tão expressivas, transforma, em alguma medida, minha trajetória individual e profissional”, afirma  Monica Sacramento, cujo pensamento é seguido por Francielle Santos: “Toda e qualquer oportunidade de conhecer os anseios, desafios, necessidades e potencialidades de jovens negros é uma experiência transformadora para mim. Essa experiência me fez renovar e ampliar as minhas razões para esperançar”, afirmou. 

Além de Billy Malachias, Mônica Sacramento e Francielle Santos, também fizeram parte do comitê selecionador do Já É, a pedagoga com habilitação em Orientação Educacional pela Universidade Federal do Maranhão, Socorro Guterres, membro da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial e Milton Alves dos Santos, pedagogo formado pela USP, com atuação nas temáticas da juventude e da infância.

Milton Alves dos Santos (pedagogo e membro da Assembleia Geral do Fundo Baobá para Equidade Racial) e Socorro Guterres (pedagoga)

Fundo Baobá divulga lista de aprovados para a segunda fase de seleção para o edital de Recuperação Econômica para empreendedores/as negros e negras

O Fundo Baobá, primeiro e único fundo dedicado exclusivamente para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil, encerra o ano de 2020 com um importante anúncio: a lista de selecionados para a segunda etapa do processo seletivo do seu edital de Recuperação Econômica para Micro e Pequenos Empreendedores/as Negros e Negras. O edital foi lançado no dia 11 de novembro e as inscrições foram encerradas em 20 de dezembro. Houve 700 (setecentas) inscrições que passaram por criteriosa primeira avaliação para que 595 fossem consideradas válidas. Dessas, 273 passam à segunda fase. 

O edital de Recuperação Econômica leva em conta o suporte necessário para iniciativas lideradas por empreendedores negros e negras, que foram afetadas financeiramente dentro do contexto da pandemia. Os apoiadores da iniciativa do Fundo Baobá são a  Coca-Cola Foundation, o Instituto Coca-Cola Brasil, o BV e o Instituto Votorantim. O segmento do empreendedorismo estima que 14 milhões de afro-brasileiros desenvolvem atividades como autônomos. Destes, 29% são empregadores. Já o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) indica em pesquisa de 2018 que 40,2% dos micro e pequenos empreendimentos brasileiros são comandados por negros e negras. 

Quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil, as medidas de isolamento adotadas impactou vários setores. Os pequenos e micros que trabalham na formalidade e na informalidade também foram severamente impactados, pois tiveram que parar, a lucratividade cessou e o desespero da falta de recursos foi se instaurando.   Daí a ação do Fundo Baobá para  Equidade Racial em pensar o edital de Recuperação Econômica e buscar essas importantes empresas parceiras que, somadas, destinaram R$ 1,8 milhão para o socorro aos empreendedores negros e negras. 

A lista divulgada agora considerou como aptas a participar da segunda etapa do processo de seleção as iniciativas que cumpriram com as seguintes características: Ser compostos por 3 empreendedores(as) negros(as) que atuem no mesmo território; que tenham 18 anos ou mais; disponibilidade real para participar das ações propostas pelo edital; que não tenham sido eleitos para cargos no legislativo ou executivo; que não tenham projetos com objetivos políticos/partidários; que não sejam funcionários, cônjuges ou parentes até segundo grau de colaboradores das empresas que patrocinam essa iniciativa (Sistema Coca-Cola e Grupo Votorantim) ou mesmo de membros dos órgãos de governança do Fundo Baobá para Equidade Racial; pessoas que não tenham sido apoiadas pelo Fundo Baobá em 2020 por edital próprio (Doações Emergenciais) ou da Coalizão Editodos. Cada um deles receberá R$ 10 mil, perfazendo R$ 30 mil para cada iniciativa.

Os selecionados desta fase serão convocados para a segunda etapa, a entrevista virtual, a partir do dia 5 de janeiro de 2021. As entrevistas estarão sob responsabilidade da organização FA.vela, parceira operadora do Fundo Baobá para este projeto. Os organizadores esperam que cada um dos três sócios inscritos por iniciativa participem da entrevista, que será agendada com antecedência e realizada pelo sistema de videochamada. Caso os empreendedores/as não possuam acesso à internet, a mesma ocorrerá por chamada telefônica. A entrevista agendada não poderá ser remarcada. 

O resultado final da seleção será divulgado em  fevereiro de 2021

Aqui, o link que leva à lista de selecionados.