Programa Black STEM abre oportunidade de apoio a estudo no exterior para estudantes brasileiros

Edital Black Stem 2026

O Fundo Baobá anunciou, no dia 26 de março, a terceira edição do Programa Black STEM, voltado ao apoio de estudantes negros brasileiros que desejam cursar a graduação no exterior. A iniciativa, com apoio da B3 Social e parceria da BRASA, fortalece um ecossistema que acredita na educação como ferramenta real de transformação.

A proposta é simples e potente ao mesmo tempo: ampliar o acesso de pessoas negras às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as famosas STEM) em universidades de ponta ao redor do mundo. Mas o programa vai além do acesso, ele também garante a permanência dos estudantes na universidade.

Nesta nova edição, até três estudantes serão contemplados com bolsas anuais de R$ 42 mil, que apoiam os custos desde moradia até o material acadêmico Os selecionados também terão apoio com mentorias, acompanhamentos psicológicos, conexão com lideranças negras e uma rede que faz toda diferença na jornada internacional. 

As inscrições, com início em 26 de março, vão até 7 de maio. O processo seletivo inclui análise de perfil, vídeo de apresentação e entrevista. É aquele tipo de oportunidade que exige preparo, mas que também pode mudar completamente o rumo da história de estudantes negros e negras do Brasil. 

O Black STEM acumula diversas histórias inspiradoras pelo mundo. São estudantes de diferentes cantos do Brasil que hoje ocupam universidades reconhecidas, como Enio Barbosa (Ciência da Computação na Stanford University – EUA), Gabriel Menezes (Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – EUA), Gabriela Marques Ferreira  (Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame EUA).  Essas trajetórias mostram que estudar fora do país é ocupar espaços historicamente negados, mas hoje permitem também mostrar como a ciência é produzida no mundo.

As áreas STEM estão no centro das grandes mudanças do planeta: da tecnologia que usamos no dia a dia às soluções para saúde e meio ambiente. E mesmo com toda contribuição histórica da população negra, ainda existe sub-representação nessas áreas. O Black STEM chega justamente para  transformar nesse cenário, incentivando, apoiando e confirmando, na prática, que pessoas negras não só pertencem a esses lugares como sempre fizeram parte da construção da ciência.

O programa Black STEM constrói pontes, fortalece trajetórias e amplia o futuro de pessoas negras, afinal quando uma pessoa negra acessa a universidade, no Brasil ou no exterior, ela não vai sozinha. Ela leva consigo sua história, sua comunidade e abre caminho para muita gente que ainda virá.

Winsana  N’Tchala: Do Programa Já É para o curso de Medicina

Winsana N’Tchala: do Programa Já É para o curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná

Há histórias que são sobre conquistas e resistência. A de Winsana N’Tchala é sobre as duas coisas, mas também sobre amor, propósito e educação como ferramenta de transformação. Aos 21 anos, essa jovem curitibana realizou o sonho de infância: foi aprovada em Medicina na Universidade Federal do Paraná. E não foi por acaso.

A trajetória de Winsana ganhou reforço importante quando ela conheceu o Programa Já É: Educação e Equidade Racial, iniciativa do Baobá – Fundo para Equidade Racial. A indicação veio da cunhada, Byanka, que acompanhava as ações do Fundo Baobá e enviou o link de inscrição pelo WhatsApp.

O Já É, que está em sua segunda edição, foi criado para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior para pessoas negras de 20 a 25 anos, com ensino médio completo em escola pública. Nesta segunda edição, até 30 jovens receberam bolsa mensal de R$ 700 por 17 meses, além de mentorias coletivas e individuais, acompanhamento psicológico e atividades formativas. Um investimento na permanência e na potência da presença negra na academia, que amplia perspectivas e fortalece a produção de conhecimento.

Para Winsana, o impacto foi concreto.“O Já É agregou muito ao meu conhecimento de mundo, ao meu desenvolvimento pessoal e trouxe uma estabilidade financeira melhor do que eu tinha antes. A bolsa ajudou, e ainda ajuda, a custear gastos com os estudos.”

Mais do que apoio financeiro, o programa oferece algo essencial: pertencimento e orientação. Para muitos jovens negros, entrar e permanecer na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, e contar com uma rede de apoio faz diferença.

O sonho da menina da periferia que  nasceu e cresceu em Curitiba hoje se concretiza com o alicerce da família. A mãe, Claudia Maria Ferreira; o pai, Francisco N’Tchalá, natural de Guiné-Bissau; e os irmãos Watena, Yabna e Abayomi.

A infância simples, marcada por desafios financeiros, mas também por algo fundamental: incentivo. “Meus pais nunca deixaram faltar nada. Sempre me incentivaram a fazer uma graduação e ter orgulho da minha negritude”, conta.

Aos 6 anos, em uma conversa sobre profissões com o pai, nasceu a vontade de estudar Medicina. Quando ele morreu, vítima de insuficiência renal, ela tinha apenas 10 anos. A experiência de cuidar dele reforçou o desejo: queria ser médica. Queria cuidar de pessoas.

Sua formação se deu por completa em escolas públicas, como tantos jovens negros e negras no Brasil que enfrentam as defasagens estruturais da educação básica. Nas últimas décadas, houve avanços importantes no acesso ao ensino superior, mas pessoas negras ainda estão sub-representadas nas universidades. Em cursos altamente concorridos, como Medicina, a desigualdade é ainda mais visível.

“Foram quatro anos de dedicação total aos estudos. Parei de fazer coisas que eu gostava, sofri com matérias que tinha dificuldade. Não foi fácil. Mas valeu a pena”, afirma.

Nesse percurso, ela prestou vestibular para a PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), onde conquistou o segundo lugar. Mesmo assim, a escolha já  estava feita: seguir na UFPR. “Foi a realização de um sonho para mim e para minha família.” E a sensação da aprovação? “Foi como quando uma criança ganha um presente que queria muito”, afirma. 

Segundo o IBGE 2022, embora a presença de pessoas pretas e pardas com ensino superior tenha crescido, a proporção de jovens brancos de 18 a 24 anos com ensino superior completo ainda é mais que o dobro da registrada entre pretos e pardos. Além disso, milhões de jovens brasileiros não concluem sequer o ensino médio. E a maioria é negra.

Esses dados evidenciam que a desigualdade não está na capacidade, mas no acesso às oportunidades e nas condições de permanência.

Quando perguntada sobre o futuro, Winsana responde com simplicidade e firmeza:
“Quero ser uma médica humanizada, que escuta com atenção os pacientes, uma profissional de excelência.” Ela ainda não decidiu a especialidade. Mas já decidiu o principal: fará tudo com dedicação.

Para quem sonha em participar do Programa Já É, ela deixa um conselho direto: “Não vai ser fácil. Mas não desistam. A única forma que tenho certeza que nós, pessoas de baixa renda e negras, temos de ter ascensão social é por meio dos estudos.”

A aprovação de Winsana na UFPR é, sim, uma conquista individual. Mas também é a prova de que quando existe investimento, acompanhamento e confiança na juventude negra, os resultados aparecem. O Fundo Baobá acredita nisso. O Já É aposta nisso.
E Winsana N´Tchala é a prova viva de que já é tempo de ocupar todos os espaços,  inclusive aqueles que, historicamente, sempre foram negados ao povo preto.

Além de Winsana N´Tchala, o Fundo Baobá comemora também o sucesso de outros estudantes apoiados pela segunda edição do Programa Já É: Aryele Costa, Administração na Universidade Federal do Maranhão; Christian Leal, Arquivologia na Universidade Federal da Bahia; Denagnon Gogo, Engenharia na Universidade Federal do Espírito Santo; Gabriele Marques, Medicina na Universidade Federal de Pelotas; Joicilene Cabral, Medicina na Universidade Federal do Pará e Lara Dias, Jornalismo na Universidade Salvador (Unifacs).

Ciência negra sem fronteiras: caminhos e dicas para uma carreira global em STEM

dicas para uma carreira global em STEM

As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) estão no centro das grandes transformações do mundo contemporâneo. É nesses campos que surgem soluções para a saúde, o meio ambiente, a mobilidade e até mesmo para os desafios sociais que vivemos diariamente. No entanto, quando pensamos em quem tem ocupado esses espaços, é impossível ignorar a baixa presença de pessoas negras. Embora a população negra sempre tenha contribuído para a ciência, essa participação histórica e atual frequentemente é invisibilizada nos círculos acadêmicos. Para universitários negros em STEM, o desafio é duplo: superar as barreiras de acesso ao ensino superior e, uma vez dentro, garantir que suas perspectivas sejam valorizadas.

A potência da formação internacional em STEM

Quando estudantes negros brasileiros chegam a universidades internacionais, eles não levam apenas suas mochilas, mas também suas histórias, seus territórios e suas referências culturais. Essa presença muda não só a trajetória individual, mas também a forma como a ciência é produzida globalmente, enquanto se redobram os desafios, sejam eles linguísticos, culturais ou financeiros. Para estudantes negros, ocupar esses espaços é também um ato de reafirmar que a produção científica negra existe, é potente e precisa ser valorizada.

A brasileira Luana Marques Ferreira, de 29 anos, atualmente estudante de doutorado em Ciência de Polímeros e Engenharia, na Universidade de Massachusetts Amherst, Cidade de Amherst, Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos da América (EUA), relatou que mesmo durante toda a graduação no Brasil, na área de STEM, precisou se desdobrar em várias atividades para custear a sua permanência na universidade, além de contribuir com as despesas de casa, e que:

Crédito: Acervo pessoal (2025). Legenda: Imagem de Luana Marques no campus da Universidade de Massachusetts Amherst 
 

“Por isso, quando surgiu a oportunidade de vir para os Estados Unidos, mesmo com a bolsa da universidade, eu tinha receio dos novos desafios que enfrentaria, especialmente o elevado custo de vida do estado que moro e a incerteza financeira até o recebimento da primeira bolsa”, relatou a estudante.

É verdade que o caminho da formação internacional apresenta desafios únicos, desde a adaptação cultural até o enfrentamento de microagressões. Mas cada obstáculo superado fortalece a convicção de que você pertence a esse espaço e de que sua perspectiva no ensino superior é fundamental. O mais importante é saber que, para cada barreira, existe uma rede de apoio e uma solução possível.

Por onde começar sua jornada internacional no STEM 

É hora de sair do sonho e entrar na estratégia! Sabemos que fazer uma graduação exige um planejamento minucioso. Por isso, preparamos um guia com os primeiros passos práticos e estratégicos para você começar a construir sua jornada internacional agora:

•   Defina opções de cursos ou áreas: Engenharia, por exemplo, é um campo amplo, com formações que se conectam entre si, como Materiais, Química, Ambiental ou Biomédica. Ter mais de uma opção não reduz seu caminho, apenas aumenta as possibilidades de encontrar um programa que combine com seus interesses e objetivos acadêmicos. Importante lembrar que o mesmo acontece para a área de saúde ou humanidades, crie uma lista de cursos prioritários.

•   ENEM: Identificar países que aceitam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como forma de ingresso direto em universidades estrangeiras pode ser um diferencial, porque o exame que já conhecemos no Brasil também abre portas no exterior. Portugal, por exemplo, possui acordos com diversas instituições que recebem a nota do ENEM no processo seletivo. Além disso, outros países na América Latina e até na Europa já vêm reconhecendo o exame como critério de admissão. Confira aqui a indicação dos países que aceitaram o ENEM em 2025.

•   Busque Bolsas Específicas: Concentre-se em editais que valorizam a diversidade, como o Black STEM, mas também em fundações e programas das próprias universidades que focam na permanência estudantil.

•   Invista no Idioma e na Rede: A proficiência em idiomas é essencial. Construa sua rede de apoio com professores, colegas, organizações negras e comunidades acadêmicas. Use o LinkedIn para encontrar egressos do seu curso ou universidade de interesse.

•   Experiências Extracurriculares: Um ponto que pode ser a grande diferença da sua candidatura são as experiências fora da sala de aula. Participar de projetos voluntários, grêmios estudantis, associações culturais, esportes, música ou feiras acadêmicas demonstra disciplina, liderança e capacidade de impacto. Até mesmo o bom desempenho em esportes ou artes conta, mostrando comprometimento e trabalho em equipe. Essas experiências revelam quem você é além das notas, e fortalecem suas chances de ingresso e adaptação na universidade. E essa dica vale para a maioria dos cursos.

Rede de Apoio: A Força da Permanência

Em muitas das situações, o mais difícil não é ser aceito para uma graduação em um outro país, mas sim permanecer. Um dos diferenciais do Black STEM é oferecer não apenas o apoio financeiro, mas também suporte acadêmico, psicológico e uma rede de contatos que acompanha cada bolsista ao longo da jornada. Essa rede é fundamental para garantir que os estudantes consolidem sua trajetória nas universidades. Luana Marques também destaca que: 

“Na área de STEM, os custos com workshops, viagens e eventos científicos muitas vezes tornam o ambiente inacessível para quem vem de contextos menos privilegiados. Programas como esse não apenas viabilizam a permanência de estudantes em ambientes internacionais, mas também ampliam a diversidade e o impacto das nossas vozes na ciência”, relatou a brasileira.

Estudar fora do país envolve desafios que vão além das aulas. Moradia, alimentação, materiais acadêmicos e transporte exigem organização financeira, ao mesmo tempo em que o estudante precisa lidar com a distância da família, o choque cultural e o idioma. Para quem está entrando no ensino superior agora, essa transição já é grande. Para jovens negros em países onde o racismo segue permeando algumas relações, tudo se torna ainda mais delicado. Por isso, o apoio à permanência é tão importante quanto o acesso: é o que garante que esses estudantes possam não só chegar, mas permanecer e crescer nesses novos espaços.

Conheça mais sobre o trabalho, as experiências e as conquistas de Luana Marques através dos seus perfis no Linkedln e no Instagram. Lembre-se de que o objetivo final vai além da obtenção de um diploma internacional. É sobre fortalecer a presença de pessoas negras no cenário científico e acadêmico global, incentivando descobertas, inovação e o surgimento de uma nova geração de líderes em STEM. 

Não espere chegar à universidade para dar o primeiro passo. Desde o Ensino Médio, suas escolhas já podem abrir portas para o exterior. Quem sabe se o próximo capítulo da ciência pode ser escrito por você?

Fundo Baobá anuncia as selecionadas da segunda edição do Programa Marielle Franco – Edital de Apoio Individual

É com alegria que o Fundo Baobá anuncia os nomes das selecionadas na segunda edição do edital de apoio individual do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Ao todo, são 30 mulheres negras de todas as regiões do país, cis, trans ou travestis, maiores de 18 anos, residentes em diferentes estados e do Distrito Federal, que passarão a integrar o programa. O apoio inclui bolsas mensais de R$3.500,00 por 18 meses, além de mentorias individuais e coletivas voltadas ao fortalecimento e à aceleração de trajetórias de liderança já em curso, com foco no fortalecimento de competências técnicas, socioemocionais e à ampliação de incidência em espaços de decisão.

O Programa Marielle Franco é uma oportunidade de ampliar a capacidade de atuação, incidência e ocupação de espaços de tomada de decisão por mulheres negras, contribuindo para o enfrentamento ao racismo e promoção da equidade racial e de gênero.

A segunda edição do edital de apoio individual evidenciou a dimensão e complexidade desse desafio. Ao todo, foram recebidas 3793 candidaturas de todas as regiões do país. Desse total, após análise, 2188 candidaturas foram consideradas válidas, por atenderem integralmente a todos os pré-requisitos do edital. Cada uma dessas candidaturas foi efetivamente lida e avaliada segundo critérios estabelecidos no edital, em um processo que envolveu múltiplas etapas.

Após a etapa de análise técnica, conduzida por consultoria externa especializada, foram elaborados pareceres individuais para as mais de 2000 candidaturas válidas, consolidando a avaliação realizada com base nos critérios do processo seletivo.

O volume e a profundidade dessa etapa evidenciam a complexidade do edital e o nível de estrutura necessário para conduzir uma seleção dessa dimensão, em um cenário marcado por alta demanda e poucas oportunidades de apoio similares. Ainda sim, todas as candidatas aprovadas ou não receberão devolutiva sobre sua participação no processo.

O processo seletivo incluiu uma etapa de entrevistas individuais, que envolveu 24 avaliadoras convidadas, mulheres negras que são referências atuando no setor público, setor privado, na academia e no terceiro setor, em organizações nacionais e internacionais, distribuídas em nove painéis de avaliação. Os painéis dividiram-se para realizar as entrevistas com as 42 candidatas presentes nesta etapa, e entrevistou de quatro a cinco candidatas, produzindo um novo parecer técnico correspondente a essa etapa.

“Foi uma alegria enorme participar como avaliadora do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Todas as mulheres, em sua diversidade, que chegaram nesta fase da seleção, apresentaram trajetórias de resiliência e de impacto presente e condições reais de transformação futura pelo fim do racismo e o bem-viver para todas as pessoas. O programa é um sucesso e deveria ser escalado, para alcançar e impulsionar ainda mais mulheres negras”, afirma Rachel Quintiliano, jornalista, escritora e fundadora da Quintiliano: Planejamento e Comunicação.

Amalia Fischer e Sueli Carneiro na etapa final de seleção

A etapa final contou com a composição de um Comitê de Seleção liderado por Sueli Carneiro e Amália Fischer, respectivamente Presidente e Vice-Presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá. A divulgação das selecionadas marca o encerramento de um processo seletivo complexo e multifacetado, marcado pela qualidade e diversidade das candidaturas analisadas e a articulação de diferentes olhares avaliativos ao longo de todas as etapas.

Para Sueli Carneiro, o Programa Marielle Franco é surpreendente a cada edição, pois “é uma agradável surpresa presenciar candidaturas tão ousadas, altivas e super qualificadas, afirmando que é um florescimento desse segmento social vencendo barreiras e disputando lugares estratégicos da sociedade”, ressalta. “Quando temos a oportunidade de lançamento de um edital como esse, podemos constatar como as mulheres negras estão se desenvolvendo de maneira extraordinária, desafiando um conjunto de ideologias que amarram, que interditam a presença das mulheres negras em determinados espaços”, afirma.

A metodologia do Programa Mariele Franco e dos demais editais do Fundo Baobá, é fruto dos 15 anos de atuação do fundo na implementação de editais voltados à promoção da equidade racial, com processos que vêm sendo aprimorados a cada edição a partir da experiência acumulada e da escuta contínua de lideranças, organizações e especialistas do campo da equidade racial.

“Celebramos as admiráveis trajetórias de mulheres negras, cis, trans e travestis, que constroem trajetórias pessoais, acadêmicas e profissionais comprometidas com a equidade de gênero e raça. As 30 mulheres selecionadas representam um retrato importante das mulheres negras brasileiras, abrangendo diferentes territórios, faixas etárias, áreas de atuação mas principalmente refletindo toda a sua densidade, força e brilhantismo”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.

Grande parte do grupo das mulheres selecionadas é composto por mulheres entre 35 e 59 anos, com trajetórias de liderança em curso. A seleção inclui ainda mulheres pertencentes a grupos sub-representados, como quilombolas, ribeirinhas, de povos e comunidades tradicionais, mulheres trans e travestis, mulheres com deficiência e LBTQIA+, refletindo a diversidade de experiências, territórios e identidades que marcam esta edição.

A alta qualificação das candidaturas e o grande volume de inscrições evidenciam a escassez de iniciativas de apoio a lideranças negras no país, especialmente femininas. Há trajetórias qualificadas e projetos sólidos, mas poucas oportunidades capazes de responder a essa demanda. O Programa Marielle Franco se insere nesse cenário como uma resposta concreta, ao acelerar o desenvolvimento de lideranças em áreas como Direitos, Justiça e Cidadania, Saúde, Finanças, Meio Ambiente, Tecnologia e Engenharias, entre outras.

Para Amália Fischer, o edital revela a potência das mulheres negras em diferentes contextos do país. “Frente a um mundo totalmente patriarcal em que a palavra de mulheres negras não vale nada, a gente observa através deste edital que o que elas se dedicam elas cumprem com lealdade e honestidade”, afirma. Ela destaca ainda a importância de ampliar o investimento filantrópico em iniciativas como o Programa Marielle Franco, diante do papel estratégico que essas lideranças exercem na defesa da democracia e da justiça social.

Desde a fundação, o Fundo Baobá investiu mais de R$22,4 milhões em 1209 iniciativas e ações ao longo dessa jornada. Já são mais de 1 milhão e 350 mil beneficiários indiretos, com investimentos nas cinco regiões do país. O Programa Marielle Franco é um dos pilares dessa atuação, e a cada edição, reafirmamos nosso compromisso com o legado de Marielle e com a construção de um futuro onde todas as vozes sejam ouvidas e valorizadas.

Programa Marielle Franco bate recorde e demonstra a força das mulheres negras

Um feito para celebrar: O Baobá – Fundo para Equidade Racial alcançou um número recorde com a segunda edição do Programa Marielle Franco: 3.793 inscrições oriundas de todos os estados brasileiros, um crescimento de 19 vezes em relação à primeira edição, realizada em 2019.

Esse salto demonstra não apenas o crescimento do programa, mas também o engajamento e a força das mulheres negras em todo o país, que seguem se organizando, se fortalecendo e se reconhecendo como protagonistas de suas próprias trajetórias.

Cada inscrição carrega em si uma história de perseverança e de luta, além de uma visão potente de transformação social. Diante da alta qualidade e diversidade das inscrições recebidas, o Fundo Baobá vai precisar de um tempo adicional para realizar a avaliação minuciosa que cada candidatura merece. Por isso, a divulgação do resultado final, que estava prevista para 09 de janeiro, passou a ser 09 de fevereiro de 2026.

Este volume expressivo de inscrições comprova a urgência de iniciativas como essa e a necessidade de mais instituições que estejam comprometidas a se somarem a esta causa. É mais uma evidência de que há potência, criatividade e liderança feminina negra pulsando em todos os cantos do Brasil. 

O Fundo Baobá também reafirma o compromisso de seguir fortalecendo caminhos de justiça e liberdade, honrando o legado de Marielle Franco.

Sulamita Silva, donatária da primeira edição do Programa Marielle Franco, compartilha sua experiência de crescimento

Uma tomada de decisão. Algo simples, que pode mudar uma história de vida. Está sendo assim com a  volta redondense, Sulamita Silva. Em 2019, após uma conversa com as amigas, ela ficou sabendo que o Baobá – Fundo para Equidade Racial havia lançado o edital do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco.  O objetivo do programa é ampliar a presença de mulheres negras em posições de poder e influência. Para isso, o Fundo Baobá investiu em seus planos de desenvolvimento individual, fortalecendo habilidades técnicas e políticas para que pudessem potencializar seu impacto em diferentes setores de atuação.

O desejo de Sulamita, graduada em Pedagogia, era ser professora universitária e fazer doutorado em Educação. Para alcançar esse objetivo, ela teria que desenvolver a liderança, habilidade que ainda não dominava. “Eu sabia que tinha um potencial adormecido. Comecei a despertar sobre esse potencial de liderança quando gravei o vídeo para o Baobá sobre o projeto e me vi no vídeo”,   afirma Sulamita, que foi uma das selecionadas no edital individual da primeira edição do Programa Marielle Franco. 

O edital do Programa Marielle Franco foi dividido em dois segmentos em 2019. O primeiro destinou-se ao apoio individual de mulheres negras, e o segundo ao fortalecimento de organizações, grupos e coletivos de mulheres negras. Um número de 63 mulheres foi selecionado. Dessas, 59, entre elas Sulamita, receberam o apoio financeiro que o Fundo Baobá destinou a cada uma no projeto. Cada participante contemplada no edital individual recebeu o investimento de R$ 40 mil. Além do recurso financeiro, as apoiadas participaram de um conjunto completo de formações, mentorias e espaços de fortalecimento político e emocional. Os números são grandiosos: foram cerca de 1.000 atividades de compartilhamento de conhecimento, mais de 300 sessões de coaching individual, 15 horas dedicadas ao enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e 42 horas de formação política.

Esse conjunto de informações deu a ela  confiança para arriscar e buscar suas metas. A primeira conquista foi ser aprovada no concurso público para professora na Universidade Federal do Acre (UFAC), fala, com contentamento. A segunda conquista veio com a mudança do Acre para São Paulo em 2022, quando ela já havia iniciado o doutorado no formato virtual. Naquele ano, mudou-se para cursar algumas disciplinas presencialmente na USP (Universidade de São Paulo). “Ainda estou cursando o doutorado. Ele começou no formato virtual, mas depois voltou ao presencial. Em 2023 fui convocada no concurso para professora na UFAC, retornei ao Acre, onde minha pesquisa está sendo desenvolvida”, fala.

As atividades envolvendo a conclusão do doutorado, previsto para acontecer em 2026, têm tomado a atenção de Sulamita “Eu pretendo, assim que finalizar a etapa da tese de doutorado, iniciar novos projetos, abrangendo mais mulheres”, afirma. 

Como donatária da primeira edição do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco e reforçando a ideia de compartilhar conhecimento, Sulamita deixa um recado para as interessadas em participar da segunda edição do programa, que tem previsão de lançamento em setembro: “Aproveitem para realizar os seus sonhos profissionais sem medo. Projetem o que vocês querem a curto, médio e longo prazo de modo realista e possível, de acordo com o orçamento disponibilizado, tendo como suporte o Fundo Baobá. Almejem uma preparação para algo mais consolidado e fixo, para depois darem continuidade aos sonhos que podem ser realizados com uma base já fortalecida.”

Programa Black STEM apresenta nova turma de bolsistas em São Paulo

Quatro novos bolsistas se uniram aos cinco pioneiros da 1ª edição do programa, que oferece bolsas de estudo para graduação no exterior.

Em evento realizado na B3, a bolsa do Brasil, localizada na região central de São Paulo, o Baobá – Fundo para Equidade Racial, e a B3 Social apresentaram quatro bolsistas selecionados na segunda edição do Programa Black STEM. Os estudantes foram aceitos por universidades nos Estados Unidos e na Europa e terão o apoio complementar do Black STEM para custear suas despesas no exterior. 

O programa Black STEM tem como objetivo apoiar a permanência de pessoas negras em cursos de graduação no exterior, especificamente nas áreas STEM, que englobam Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

 O histórico

Em 2025, o Programa mantém seu propósito: quatro novos bolsistas foram selecionados por especialistas em STEM,  Psicologia e Educação. Cada um receberá uma bolsa de R$35 mil anuais para custear moradia, transporte, alimentação, mensalidades e material acadêmico. As bolsas são renovadas anualmente até o estudante concluir o curso. Conheça as pessoas selecionadas: 

Enio Ferreira Barbosa (Salvador/BA): Ciência da Computação na Stanford University, EUA.

●    Gabriel Hemetrio de Menezes (Belo Horizonte/MG): Física e Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology – MIT, EUA

●    Gabriela Torreão Marques Ferreira (Fortaleza/CE): Engenharia Química e Biomolecular na University of Notre Dame, EUA

Maria Luiza Storck Ferreira (Rio de Janeiro/RJ): Engenharia Química na Universidad de Jaén, Espanha

Trajetórias negras na ciência

A história das ciências exatas no Brasil é marcada por contribuições fundamentais de profissionais negros. Alguns nomes se destacam: Sonia Guimarães, física e professora no Instituto Tecnológico da  Aeronáutica (ITA); Enedina Alves, primeira mulher negra a concluir o curso de Engenharia no Brasil em 1945; os irmãos engenheiros André e Antônio Rebouças, engenheiros que revolucionaram a infraestrutura urbana no século XIX, e Simone Evaristo, bióloga cujas pesquisas no Instituto Nacional do Câncer (INCA) avançaram no combate à doença.

Sonhar sem fronteiras

A trajetória desses jovens prova que estudar no exterior é possível e transformador. Além de ampliar os próprios horizontes, contribuirão para a produção de conhecimento na academia global e ainda se tornarão inspiração para outras pessoas que desejam seguir o mesmo caminho. O Black STEM não apenas abre portas, mas constrói pontes. Como parte de um movimento maior pela equidade na educação, o edital transforma o sonho de fazer graduação no exterior em realidade concreta para estudantes negros. Desde 2024, os primeiros bolsistas já vivem essa experiência – cada trajetória acadêmica internacional não só amplia seus horizontes individuais, mas se torna farol para quem vem depois.

Com muita emoção diante de seus pais e familiares, os estudantes selecionados pelo edital Black STEM puderam vislumbrar os caminhos profissionais que irão seguir depois de formados. Maria Luiza Storck Ferreira creditou a uma professora do Ensino Médio, Claudia, o incentivo que a apoiou em Química.“Com isso, eu talvez me fixe na área da cosmetologia. Estudar a pele negra e ver quais produtos podem ser desenvolvidos.” 

Gabriel Hemetrio de Menezes confessou ser curioso desde pequeno e isso o levou a desenvolver o interesse pela Física. “Eu queria saber de tudo: por que as estrelas brilhavam? Por que existia o arco-íris? Isso foi me levando a pesquisar e, a partir daí, consegui resultados expressivos em olimpíadas científicas. Quero me aprofundar em Física Quântica e Cosmologia”. Gabriela Torreão Marques Ferreira, por sua vez, aprendeu a explorar os jogos de lógica até descobrir a Química. “Na química descobri uma espécie de quebra-cabeça que eu seria capaz de resolver. Meu desejo é me especializar em nanotecnologia e criar remédios para ajudar as pessoas a tratarem suas doenças.” 

Enio Ferreira Barbosa teve em uma conterrânea baiana a sua inspiração. “Certa vez li sobre Georgia Gabriela, uma menina na Bahia que foi aprovada em nove universidades americanas e optou por Stanford. Optei por Stanford naquela oportunidade”. A fala dele reflete o pensamento dos alunos sobre a importância das bolsas Black STEM em suas trajetórias. “O edital me dá a tranquilidade de ter uma rede de apoio. Nossa missão, como estudantes, é técnica. Mas ela também tem um lado social. Nós vamos para um ambiente de elite, mas não vamos negligenciar nossa origem, nossa raça e nossos valores”, afirmou. 

Continuidade

Mais do que um programa, é o início de um ciclo: em 2026, o Fundo Baobá seguirá fomentando o acesso às universidades do mundo todo, fortalecendo a presença negra nas áreas STEM – onde a população negra brasileira sempre contribuiu, muitas vezes como pioneira. Aqui, permanência e excelência acadêmica andam juntas, com apoio financeiro e mentorias para a permanência no ambiente acadêmico.

Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Baobá – Fundo para Equidade Racial, comenta sobre a segunda turma do Programa Black STEM:  “Projeto nenhum produz resultado sozinho. É a somatória que vem produzir resultados. O Baobá assumiu com a B3 o compromisso de descentralizar oportunidades. O sentido do investimento que estamos fazendo está voltado para onde o conhecimento negro vai fazer a diferença.”

Fabiana Prianti, head da B3 Social, coinvestidora do Programa, destacou o impacto estratégico desse investimento: “a B3 Social acredita no poder transformador da educação como caminho para o desenvolvimento econômico sustentável e, como consequência, para a equidade racial. Apoiar o Black STEM representa a oportunidade de contribuir para a formação de uma nova geração de talentos diversos, impulsionando mudanças reais no acesso ao conhecimento e ao mercado. Projetos como esse ampliam horizontes, rompem barreiras históricas e mostram que diversidade e inovação caminham juntas.”

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, reforçou a importância do programa. “O Black STEM tem a ousadia de ampliar o universo dos direitos. 18% dos profissionais de STEM no país são negros. Esperamos que quando esses estudantes regressarem, voltem com o compromisso de alavancar essa presença e alavancar as tecnologias nacionais.”

Selecionado na primeira edição do Programa Já É, João Pedro carrega até hoje as lembranças das trocas adquiridas com outros participantes

João Pedro Araújo, 27 anos, foi um dos jovens selecionados na primeira edição do Programa Já É – uma iniciativa do Fundo Baobá que apoia jovens negros no acesso ao ensino superior no Brasil. Atualmente, ele cursa Ciências e Tecnologias na Universidade Federal do ABC (UFABC), com previsão de formatura em 2027.

Morador do bairro do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, João Pedro enfrentou uma realidade de poucas oportunidades. Para ele, o Programa Já É foi essencial para transformar a trajetória marcada pela simplicidade e pelos desafios da vida periférica. Egresso da rede pública de ensino durante a maior parte de sua vida escolar, precisou conciliar trabalho e estudos, como tantas outras pessoas jovens negras periféricas do país.

Mesmo com tantas dificuldades, teve na mãe a maior fonte de inspiração — uma mulher batalhadora que, com um salário mínimo, sustentou a casa e alimentou os sonhos do filho. “Ela me ensinou que é possível sonhar alto e mudar a realidade, mesmo quando tudo parece difícil”, afirma.

Como funciona o Programa Já É: educação e equidade racial?

O Programa Já É: Educação e Equidade Racial oferece apoio financeiro, educacional e psicossocial a jovens negros, com o objetivo de promover o acesso ao ensino superior e ampliar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Em sua primeira edição, realizada em 2021, o programa selecionou 85 estudantes. Destes, 32 foram aprovados em vestibulares — 12 em universidades públicas e 20 em instituições privadas como bolsistas do ProUni (Programa Universidade para Todos).

Políticas afirmativas como caminho para a transformação social

Naquele mesmo ano, João se inscreveu em todos os projetos possíveis, em busca de alternativas, já que a pandemia dificultou o acesso a oportunidades de emprego. Foi então que, por indicação de uma amiga, conheceu o Já É. A motivação veio do desejo de ser o primeiro da família a cursar uma universidade pública — e, mais do que isso, de abrir caminhos para seus amigos e sua comunidade, mostrando que o acesso à educação de qualidade também é possível para quem não teve privilégios.

“Quando conheci o Já É, já achei a proposta interessante. Mas, ao participar, percebi que aquilo era só a ponta do iceberg. As trocas e aprendizados com os outros participantes foram transformadores e carrego comigo até hoje”, relembra João.

No início, ele confessa que duvidava de si mesmo. “É difícil acreditar que alguém está investindo em você quando se vem da periferia. Eu me perguntava se era realmente capaz. Mas, logo na primeira reunião com os outros selecionados, senti como se já nos conhecêssemos. Foi um acolhimento imediato.”

João destaca a importância de políticas afirmativas e programas como o Já É para ampliar o acesso de jovens negros ao ensino superior. “Mesmo com iniciativas como essa, ainda somos minoria nas universidades, e essa presença diminui ainda mais nas instituições públicas. Precisamos ocupar esses espaços para inspirar outros a acreditarem que também é possível.”

Para ele, estar na universidade vai muito além de uma conquista individual — representa um sonho coletivo. Em um país ainda marcado por desigualdades estruturais, a presença de pessoas jovens negras no ensino superior é símbolo de resistência, transformação e esperança.

Segunda edição do Programa Já É tem inscrições abertas

As inscrições para a segunda edição do Programa Já É estão abertas até o dia 06 de junho. Para mais informações, acesse: Programa Já É.

Eric Ribeiro: da curiosidade infantil aos sonhos aeroespaciais

Natural de Caieiras, em São Paulo, Eric Ribeiro atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM — iniciativa que apoia a presença e a permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais.

Na fotografia, Eric Ribeiro que atualmente cursa Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, nos Estados Unidos. Aos 19 anos, ele foi um dos selecionados da primeira edição do programa de bolsa de estudos de graduação para estudantes negros do Fundo Baobá, o Black STEM, é
um homem negro jovem aparece sorrindo enquanto fala ao microfone. Ele usa óculos de armação redonda, camisa branca e calça em tom verde oliva. Sobre os ombros, está com um suéter bege, criando um visual elegante e descontraído. Ele está sentado em uma cadeira branca, participando de um painel ou mesa de conversa em ambiente institucional, com fundo azul e telão ao fundo. Sua expressão transmite entusiasmo e segurança, em um momento de partilha e escuta ativa.
Eric Ribeiro, no evento de boas-vindas do Edital Black STEM 2024.

“Desde pequeno, sempre fui apaixonado por máquinas. Foi assim que aprendi a ler, pois queria entender sobre ônibus e carros. Com o tempo, essa curiosidade se voltou para aviões e foguetes. Eu conseguia identificar qualquer avião que passasse no céu. Essa paixão persiste e se transformou no motor que me move até hoje: estudar engenharia aeroespacial”, afirma.

Mergulhado nos estudos, ele transforma a curiosidade da infância em projetos inovadores. Entre cálculos complexos, simulações e projetos de foguetes, destaca-se por sua dedicação e desejo de contribuir com o futuro da aviação e da exploração espacial.

O estudante conheceu o programa de bolsas por meio de uma amiga, que compartilhou a oportunidade. Como já havia sido aprovado na universidade, ele não hesitou em se inscrever. Hoje, a bolsa oferecida pelo Fundo Baobá, em parceria com a B3 Social, garante a estabilidade financeira necessária para que Eric possa se dedicar integralmente aos estudos e à vida acadêmica. Isso também permite que ele participe com mais liberdade de atividades extracurriculares, sem a necessidade de buscar outras fontes de renda durante o semestre.

Nova edição do programa amplia oportunidades

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, destaca a importância da iniciativa:

“A presença negra na ciência é relevante para a humanidade. Por isso afirmamos que o Black STEM não é ‘apenas’ um programa de bolsas complementares para apoiar a permanência de estudantes negros em cursos de graduação completa em instituições estrangeiras. Ele é a recuperação da memória das contribuições negras para a ciência e tecnologia mundial.” Ela reitera que, no futuro, grandes descobertas e avanços também poderão ser protagonizados por pessoas negras.

A segunda edição do Programa Black STEM foi lançada em 27 de março e oferecerá três bolsas complementares de R$ 35 mil a estudantes negros aprovados em cursos de graduação no exterior na área de STEM. As inscrições estão abertas até 30 de abril.

Eric deixa uma mensagem para outras pessoas estudantes que também querem estudar no exterior:

“Quando você sonha por você, você também sonha por todos que vieram antes e por aqueles que ainda virão. E quando você realiza, nós todos — eu, você e milhares de jovens negros periféricos — realizamos juntos”, afirma.

Para mais informações sobre a segunda edição do Black STEM, acesse:
https://bit.ly/BS-2edicao 

Edital Educação e Identidades Negras provoca transformações significativas nas organizações apoiadas

O edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial foi encerrado com um saldo bastante positivo. Após dois anos de vigência, ele resultou em um impacto de transformação para as 12 organizações que receberam, cada uma, R$ 175 mil para implementar seus projetos. 

As transformações foram possíveis tanto pelo apoio financeiro quanto pelo suporte técnico oferecido nas oficinas organizadas pelo Fundo Baobá. As organizações tiveram acesso a recursos para aquisição de equipamentos e capacitação em gestão, o que gerou aumento da visibilidade de cada uma delas, além do fortalecimento institucional.

Ações antirracistas e fortalecimento institucional

Uma característica comum entre as organizações participantes do processo seletivo foi o desenvolvimento de estratégias para enfrentar o racismo em instituições educacionais — formais e não formais — e promover maior representação de pessoas negras nos espaços de decisão na educação. 

Das 12 organizações apoiadas, 9 nunca haviam recebido qualquer tipo de financiamento para seus projetos. Isso reflete a missão do Fundo Baobá, que realiza uma busca ativa por organizações que atuam em territórios desassistidos.

O papel do Fundo Baobá na descentralização de recursos

A diretora de Programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes, analisa esse cenário:

“Algumas das organizações apoiadas atuam na luta antirracista há uma ou duas décadas e, ainda assim, não haviam acessado recursos da filantropia. Alcançá-las com bons critérios de seleção é um indicador de sucesso. Aos poucos, estamos chegando a organizações de diferentes regiões do país, saindo das capitais dos estados. Descentralizar o acesso aos recursos financeiros e ampliar o acesso às assessorias técnicas que contribuam com o fortalecimento das lideranças, organizações, grupos e coletivos negros é parte da nossa missão”, afirma.

Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá, que é uma mulher negra, com cabelos longos em dreadlocks e óculos de armação clara, sorri enquanto participa de uma conversa em ambiente interno iluminado. Ela veste uma blusa preta sem mangas e calça com estampa colorida. Está sentada em uma cadeira de escritório bege, com postura aberta e expressiva, demonstrando atenção e receptividade. Ao fundo, vê-se uma parede clara e uma planta em vaso, o que reforça o clima acolhedor do espaço. Simulando a fala sobre  edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial
Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá. Crédito: Thalita Novais 

Um dos critérios para seleção das organizações era a atuação na promoção efetiva do que determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Essas legislações tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas, modificando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apesar da determinação legal, muitas instituições de ensino — tanto públicas quanto privadas — ainda a ignoram, uma realidade que precisa ser transformada.

“As organizações apoiadas no edital contribuíram para reduzir o desconhecimento, subsidiar e cobrar a implementação. Promoveram diálogos que, na maioria das vezes, são incomuns, envolvendo movimento social e unidades formais de educação básica ou universitária. Ver os resultados e saber que mais de 15 mil pessoas tiveram acesso a conteúdos anteriormente vetados em função do racismo é um bom indicador de que estamos no caminho certo de investimento”, completa Fernanda Lopes.

Afoxé Omô Nilê Ogunjá: cultura, autonomia e educação

O edital apoiou organizações, coletivos e grupos negros de nove estados brasileiros. Uma delas foi o Afoxé Omô Nilê Ogunjá, uma associação cultural de tradição afro-brasileira da cidade de Recife, em Pernambuco. Assim como as demais, o Afoxé enfrentou desafios relacionados à gestão de projetos e à prestação de contas. Mas as dificuldades apenas reforçaram o desenvolvimento das habilidades nessas áreas, contribuindo para a autonomia operacional da associação.

Com essa autonomia consolidada, o Afoxé Omô Nilê Ogunjá estabeleceu parcerias para difundir, entre estudantes e educadores da Educação Básica ao Ensino Superior, conhecimentos importantes sobre a cultura afro-brasileira e a história do Brasil, por meio da dança, da música e dos saberes ancestrais.

“Firmamos parcerias com instituições de ensino acadêmico, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com instituições de educação básica, que são o nosso público-alvo, o nosso grande público. Firmamos também parcerias com quatro escolas do bairro do Ibura, escolas públicas e uma escola de capital misto. Trabalhamos, através da Lei 10.639, aspectos da cultura e identidade afro-brasileira, passando pela questão da educação etnicorracial. Tivemos formações para professores, atividades com estudantes e levantamentos diagnósticos”, relata Manoel Neto, representante da organização pernambucana.

Manoel Neto é um homem negro, com barba cheia e cabelo raspado, veste uma camisa clara de linho com o primeiro botão aberto. Ele usa óculos de armação redonda e sorri levemente para a câmera. Ao fundo, vê-se um mural colorido com figuras humanas e elementos da cultura afro-brasileira, trazendo um ar vibrante e artístico à composição. A iluminação suave valoriza a expressão serena e confiante do retratado. Ele é representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá
Manoel Neto, representante da organização pernambucana Afoxé Omô Nilê Ogunjá.

Ele também destaca o salto de qualidade obtido com o apoio técnico do Fundo Baobá: “Foi um ganho muito grande para a nossa instituição. Nós tivemos muitas mudanças corroboradas por esse processo de participação no edital. Passamos a ter um planejamento mais institucional. A elaboração desse planejamento, realizada durante a parceria com o Fundo Baobá, foi muito importante para definir os horizontes que agora estamos trilhando — e que são os que gostaríamos de trilhar. Foi importante para definir onde vamos chegar e aonde queremos chegar. Foi importante, inclusive, para conseguirmos uma parceria com uma nova instituição. Conseguimos um financiamento para 2025 de R$ 300 mil para dar continuidade às ações e garantir a permanência das atividades”, conclui.

Parceria com Imaginable Futures e Fundação Lemann

O Fundo Baobá para Equidade Racial contou com apoio financeiro das instituições Imaginable Futures e Fundação Lemann para a realização do edital Educação e Identidades Negras: Políticas de Equidade Racial, que teve um aporte de aproximadamente R$ 2,5 milhões e resultou no apoio a 12 organizações.

A Imaginable Futures participou, pela primeira vez, de uma iniciativa dedicada exclusivamente a organizações negras e reconhece a importância dessa participação:

“Historicamente, organizações negras têm acumulado experiências valorosas que as colocam em um lugar central para propor práticas e políticas públicas para promover a equidade no ensino e melhorar a qualidade da educação. No entanto, elas enfrentam desafios para acessar recursos e recebem apenas uma pequena parcela do capital filantrópico no Brasil. Em razão dessa assimetria, temos nos juntado a iniciativas que destinam recursos para essas organizações. A iniciativa com o Baobá foi uma experiência inaugural e transformadora para a Imaginable Futures — não apenas pela legitimidade que o Baobá já tem no campo, mas porque nos permitiu aprender e evoluir enquanto organização. Foi uma parceria de muita aprendizagem, que fortaleceu a nossa estratégia e nos ajudou a melhorar a forma como atuamos em prol da equidade racial na educação”, diz Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures, pessoa negra, com cabelo volumoso em estilo afro e barba bem cuidada, sorri enquanto olha para o lado, transmitindo leveza e naturalidade. Usa óculos de armação arredondada e brinco geométrico pendente, além de uma camiseta sem mangas em tom terroso. O fundo neutro e levemente desfocado valoriza sua presença e expressão, em uma composição simples e elegante.
Samuel Emílio, Gerente de Programa da Imaginable Futures.

Como apoiar o Fundo Baobá

Para contribuir com ações transformadoras como essa, acesse o site do Fundo Baobá e faça sua doação.

Para saber mais sobre o edital Educação e Identidades Negras, clique aqui.

Diovanna Negeski, selecionada da 1º edição do Black STEM, compartilha sua jornada direto de Xangai

Diovanna Negeski, selecionada na primeira edição do Black Stem, fala de sua vida como estudante na China

Xangai, na China, uma das cidades mais populosas do mundo. Com quase 27 milhões de pessoas, é um poderoso centro financeiro, econômico, tecnológico e educacional. Por ser considerada uma esquina do mundo, assim como Nova York, Paris e Tóquio, foi lá que a New York University (NYU) decidiu, em 2011, ter um polo de educação fora dos Estados Unidos. Em 2019 iniciou a construção do seu moderno campus e o concluiu em 2022, objetivando receber 4 mil alunos vindos de todas as partes do mundo. 

Diovanna Negeski, jovem de pele clara e cabelos cacheados escuros, aparece sorrindo levemente, vestindo um look branco sem mangas e usando um crachá com a identidade visual do edital Black STEM. Ela está em pé, com o braço apoiado em uma superfície, em um ambiente interno iluminado. A foto foi registrada nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do programa Black STEM, momento que marca o início de sua jornada internacional acadêmica.
Diovanna Negeski nos bastidores da cerimônia de assinatura da bolsa do edital Black Stem. Crédito: Thalita Novais 

Um desses 4 mil alunos é Diovanna Negeski, uma brasileira negra que cresceu, como ela própria diz, no fundão da zona leste, no bairro de Itaquera, hoje conhecido em todo o Brasil por abrigar o estádio do Corinthians, também chamado de  Itaquerão.

Bairro de classe média baixa, composto por famílias de trabalhadores, ele é o palco da infância de Diovanna, que foi sendo cuidada por sua avó, já que seus pais tinham que trabalhar para dar uma vida mais confortável à filha. A avó também se virava como podia, fazendo serviços domésticos nas casas da região. 

Querendo que Diovanna  tivesse um futuro diferente dos demais da casa, a avó um dia disse a ela que a condição social da menina a estava fazendo perder a luta para a vida. Motivo: as pessoas mais abastadas tinham acesso a um estudo melhor e a cada dia ganhavam mais distância dela em termos escolares.

Aquilo despertou na itaquerense o desejo de brigar por espaço nos melhores bancos escolares. Esse desejo levou Diovanna a avançar nos estudos e, posteriormente, se inscrever no edital Black Stem, do Fundo Baobá, realizado em parceria com a B3 Social e a BRASA. Em 2024, ela foi selecionada na primeira edição do edital e  atualmente está morando e estudando em Xangai.  Fomos conferir como está sendo o dia a dia de transformações em sua vida. 

Como você soube  do edital Black Stem?  Que benefícios essa bolsa tem trazido para você? 

A bolsa do Black STEM foi para mim o alívio, o escape que eu precisava e foi o motivo de hoje eu estar estudando na NYU Xangai, estar inspirando outras pessoas e o motivo de  trazer a minha voz para esse lugar. Minha perspectiva, minha voz, minhas ideias,  porque sem essa bolsa, sem o benefício do Baobá eu não conseguiria viver aqui.  Xangai é uma cidade muito cara. A bolsa que eu recebi da universidade não cobria tudo, então eu tive que  ir atrás do que pudesse me ajudar. Foi quando o Baobá apareceu (fui parar nas inscrições por intermédio de um  amigo na África do Sul que viu). Eu conhecia o Baobá, mas por algum motivo eu não tinha visto as inscrições. Eu não tinha essa informação de que tinha inscrição para pessoas negras que queriam estudar no exterior. Ele, esse amigo querido, o Luís, de Recife, viu que eu tinha todo o perfil e disse que eu tinha que me aplicar para aquilo. Eu já conhecia o Fundo, toda a transparência e toda a cultura das coisas que eles estão fazendo para a comunidade negra. Eu me apliquei e passei e com muito orgulho estou trazendo a força da comunidade negra aqui para a Universidade de Nova York, na China. 

Quando, como e por que você decidiu pela NYU China? Por que um país tão distante e com cultura tão diferente da brasileira? 

É, para contar essa história eu acho que tenho que voltar um pouquinho no tempo. Sempre fui uma menina que nasceu na zona leste de São Paulo,  região de Itaquera,  onde fui criada. Estudei toda minha infância em escola pública do bairro. Mas já nessa época eu era muito inquieta, alguém que buscava muitos desafios e coisas novas. Comecei a me envolver com projetos sociais durante esse momento do ensino fundamental. Eu gostava muito de entender como a educação poderia ser uma chave de transformação na vida das pessoas. Com isso eu fui estudar no Instituto Federal de São Paulo. No Instituto Federal de São Paulo comecei a estudar tecnologia e me envolvi com diversas iniciativas interessantes. Mas essa inquietação,  esse desejo pelo novo, esse desejo por desafios e por algo que me tirasse dessa zona de conforto foi o fator decisivo quando estava pensando para onde eu iria estudar. Porque o maior sonho da minha vida era viajar para Nova York e  meu sonho era estudar na Universidade de Nova York. Consegui realizar esse sonho de conhecer Nova York antes de vir para a China. Porém, apesar de ser o meu maior sonho,  eu ainda sentia que não era exatamente esse lugar que queria morar. Apesar de não ser uma pessoa de fala nativa. uma estadunidense,  eu domino o inglês. Então,  eu achava que Nova York não seria tão desafiador. Aí,  quando eu vi a China, Xangai,  eu falei: esse é o lugar perfeito para mim.  É o lugar que vai me desafiar. O lugar que vai me tirar da zona de conforto todos os dias. Que vai me colocar para estar sempre atenta e sempre buscando novos desafios.  Estando no Brasil, você imagina que a  China tem uma cultura que é muito distante da nossa. Mas,  estando aqui hoje, eu posso falar pela perspectiva de alguém que está morando aqui há mais de 6 meses. Eu falo que a gente (Brasil e China) tem muita similaridade. Queria sair da zona de conforto. Todo dia aqui é um desafio novo. Eu  estou  aprendendo chinês, que é uma das línguas mais difíceis do mundo, mas eu acho que é nesses momentos que a gente consegue ser moldado como ser humano e é por isso que escolhi aqui. 

O estudo é puxado? Como é sua rotina de estudos? Qual a matéria que tem sido mais difícil?

É bastante puxado. Meu dia começa bem cedo, às 6 horas da manhã. Aí eu vou pra faculdade e tenho aula das 8h às 14h. Todas as semanas temos provas, provas e mais provas. E há outras atividades. Então, a agenda tem que ser muito organizada. Isso demanda ter que ser muito certinho. Como eu gosto, preciso e necessito estudar, mantenho tudo em ordem. Mas também gosto de cuidar do meu corpo, de fazer esportes. Então, vou  para a academia. Mas tudo é agendado. A matéria mais difícil para mim foi chinês. É uma língua muito difícil, tem caracteres. Fiz o milagre de aprender de uma forma muito rápida,  porque aqui a gente aprende de uma forma extremamente rápida. Em quatro meses eu aprendi o que uma pessoa aprende em  um ano. Está muito rápido o processo. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece entre colegas internacionais da New York University (NYU) Shanghai durante a celebração do Ano Novo Chinês. O grupo está sorridente, vestindo moletons roxos com o nome da universidade, e segura enfeites e cartazes vermelhos com mensagens de boas-vindas e prosperidade. A imagem foi registrada em um ambiente interno colorido e moderno, refletindo a diversidade e o espírito coletivo da turma de alunos na China.
Diovanna na China com a turma de alunos da New York University (NYU)

Você chegou em Xangai e logo já foi fazendo um “Perdida na China”, série de vídeos sobre seu dia a dia aí.  A ideia nasceu aqui no Brasil ou quando pisou em Xangai?

A questão do Perdida é muito interessante, porque está tendo um alcance muito bacana.  Então,  muitas pessoas estão conhecendo. Nos últimos vídeos que eu postei, tive mais de  380 mil visualizações. Então,  muita gente está conhecendo um pouco mais sobre a China. O intuito do Perdida na China é fazer um  quadro semanal de vídeos onde eu mostro a minha realidade. Quero informar as pessoas, porque vejo quanto a desinformação pode ser um fator perigoso. Como ela pode colocar as pessoas em lugares de ignorância. Então, pensei em como eu vou conectar as pessoas que estão lá no Brasil para que elas vejam que a China não é de outro mundo. A China é um país como qualquer outro,  com suas peculiaridades. É um país com diferenças e similaridades.  Então o Perdida é um espaço de afirmação para espalhar informação de qualidade,  informação de alguém que está vivendo aqui,  informação verdadeira sobre o que é a China. 

Por que o apelido de “Blogueira de Centavos”? 

É interessante porque eu coloco em todos os vídeos a legenda: Perdida na China, episódio “X”, que vai mostrar a saga dessa blogueira de centavos tentando conquistar seu diploma na NYU Xangai. Blogueira de Centavos  é uma brincadeira,  porque com certeza eu não sou uma blogueira. Não considero também que eu seja criadora de conteúdo. Mas é uma brincadeira que tem  na internet, pois quando você posta você está explorando esse mundo das mídias sociais, onde tudo é muito rápido. Então, Blogueira de Centavos sou eu tentando me adaptar a esse modelo mais instagramável, em que as pessoas gostam de coisas mais instantâneas, rápidas, mais miojo. 

Quando começou a crescer na cabeça daquela menina da Zona Leste o desejo de ir para outros países? Houve algum motivo ou alguém inspirador?

Essa pergunta é bem profunda. Eu gosto muito de falar de um lugar, que é o meu coração.  Gosto de falar das coisas que vêm do coração. Eu adoro falar de mim menina. Aquela criança que nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo, no fundão de Itaquera. Sempre fui uma criança inquieta, sonhadora, obstinada e dedicada. Fui criada pela minha avó, porque os meus pais trabalhavam. Eu os via com mais frequência nos finais de semana. Meu avô é um imigrante russo, que veio para o Brasil para trabalhar nas fazendas. Já a minha bisavó por parte de mãe era uma pessoa que vivia em situação de escravidão. Já a minha avó fazia esses trabalhos informais para as pessoas como empregada doméstica.  Meus pais tinham que trabalhar muito para que eu tivesse uma vida razoável. Lembro certa vez que  minha avó estava arrumando meu cabelo e ela disse uma das frases que muitos jovens negros ouvem: “Você sabe que está perdendo a corrida da vida, não sabe?” Eu era uma menina de uns 8 anos de idade e falei:  “Como assim?” Ela disse: “ É porque as pessoas que estão recebendo uma educação de melhor qualidade, os ricos, estão à frente de você. Estão a passos largos, muito mais na frente!”  Quando ela disse isso, eu passei a ver minha vida com uma corrida mesmo,  em que as pessoas que estavam melhor instruídas,  que tinham melhor educação, recebiam acesso a lugares que possivelmente poderiam potencializá-las mais. Elas poderiam acessar coisas diferentes. Então, eu  comecei a correr muito mais, a fazer muito mais. Ela, minha avó, além da minha mãe, foi esse motivo tão inspirador para me fazer estar aqui. Minha família sempre me apoiou muito em tudo, apesar das dificuldades financeiras. Eu tenho uma família que acreditou mesmo quando os sonhos eram muito grandes. Quando eu dizia: eu quero ir para Nova York,  nunca ninguém da minha família tinha tido um passaporte. Eu fui a primeira da minha família a ter um passaporte. A primeira da minha família a aprender inglês e viajar para fora.   Minha família nem achava que inglês era necessário. Então, mesmo sem entender exatamente para que serviria aquilo, ela me apoiou. 

Descreva sua chegada na NYU China e, se possível, o impacto que isso te causou. 

A minha chegada na NYU Xangai foi surpreendente, mas muito tranquila. Antes de eu vir para a China, estava morando na África do Sul, por conta de um programa de voluntariado que eu estava fazendo lá. Então eu passei um mês apenas pelo Brasil e vim para a China. Quando vim para cá, eu já estava acostumada com essa questão de não ter uma casa  fixa,  já estava acostumada a dividir um apartamento, dividir o quarto e essas coisas. Então, foi uma chegada muito tranquila. Tem sido muito desafiador aprender chinês, apesar de eu gostar muito de aprender línguas. Mas a cidade é incrível,  maravilhosa. A faculdade é muito interessante também. Ajuda a gente a ir mais longe,  chegar e conquistar o que a gente quer. Mas efetivamente eu acho que o maior impacto é eu estar aqui não só por mim, mas pelas pessoas que estão comigo. As crianças da minha comunidade de jovens negros, jovens como eu que nasceram na zona leste,  na periferia e que me dão força. Os meus sonhos não são só meus,  mas deles também. 

Diovanna Negeski, participante do programa Black STEM, aparece sorrindo em destaque na frente de um grupo de colegas estudantes da New York University (NYU) Shanghai. Usando moletons roxos com a identidade da universidade, a turma posa de forma descontraída em um corredor interno, com sinais de paz e alegria. A diversidade cultural do grupo e o ambiente universitário reforçam a experiência internacional de Diovanna na China.
Diovanna com a turma de alunos na China

As aulas são em inglês, certo? Onde, como ou com quem você aprendeu a língua?

Sim, as aulas são em inglês. Mas eu tenho que aprender também o chinês, pois tenho aulas separadas que são só em chinês. Mas as referentes ao meu curso são todas em inglês. É  muito interessante como eu aprendi inglês, mas eu preciso dar também um contexto. Eu vim de uma família que nunca entendeu qual era o propósito de falar inglês, não entendia qual é o propósito de aprender uma língua. Eu tive que implorar,  que pedir para minha mãe muitas vezes para que ela me colocasse num curso de inglês. Mas ela não conseguia entender qual era o propósito daquilo.  Eu sei que em outras famílias,  em outros contextos sociais no Brasil, você não precisa implorar para que um pai,  uma mãe pague um curso de inglês. Mas é que minha mãe e meu pai  não entendiam por que isso era necessário. Para que isso era bom? Com muito custo eu consegui convencer minha mãe a pagar. Eu fiz um curso de inglês particular, que ela pagou durante anos e também não gostava de pagar. 

Você cursa Ciência da Computação. O curso é de quantos anos? A divisão é por semestres, como aqui no Brasil?

Sim, eu curso Ciência da Computação, que é um curso de 4 anos e a divisão é por semestres, como no Brasil. A cada semestre eu pego algumas matérias. Nesse primeiro ano geralmente a gente faz matérias que a faculdade chama de core  (matérias que são fundamentais para a formação acadêmica do estudante), pois precisamos ter  o nível x de matemática e o nível y de escrita. Então,  eu tenho que pegar algumas matérias específicas para cumprir primeiro esses requerimentos e aí depois eu consigo pegar as matérias de outro curso. Mas as matérias de ciência da computação são mais voltadas para software,  programação  e dados. 

Você sempre aparece nos vídeos com amigos brasileiros e uma garota negra norte-americana. Quem são eles e como nasceu essa integração entre vocês aí na China? Qual a importância deles na sua vida hoje?

Existe claramente aqui uma diferenciação de culturas, mas  além da diferenciação existe a diversidade cultural, que dá a oportunidade de  ver pessoas do mundo inteiro falando línguas das mais diversas,  mais especiais e diferentes. A gente sabe que a questão racial  no Brasil é estruturada de uma forma e estruturada por outra nos Estados Unidos.  Mas as questões raciais sempre estiveram atreladas, histórica e antropologicamente, às questões de ordem  financeira, ao capital. Estudar em uma das universidades mais caras dos Estados Unidos e a mais cara da China faz a gente não ter muitas referências negras aqui. As pessoas negras que tem aqui são pessoas negras que talvez não se sintam pertencentes, porque são negros, mas cresceram como pessoas brancas ricas nos Estados Unidos. Aí eu encontro essa minha amiga, a Fortune, uma garota negra, e a  primeira vez que eu a vi eu sabia que queria ser muito amiga dela. A gente cresceu em culturas diferentes,  em países completamente diferentes, mas as nossas realidades são muito parecidas. Ela também tem um nível de conquistas muito grande, também tem bolsas e, como eu, está lutando aqui para se afirmar nesse espaço. Ela é muito importante nesse processo de aquilombamento, onde nos juntamos para falar de nossas dúvidas, dores, dificuldades, mas também falar das nossas alegrias de estar aqui. De termos chegado. Então, tenho essa amiga, a Fortune, outros brasileiros, muitos internacionais, mas há uma brasileira, a Clara, que foi crucial para mim. Ela tornou a minha chegada aqui na China tranquila.  A gente se considera uma família,  mas uma família longe da minha família, por  exemplo. 

Que mensagem você deixa para outros estudantes brasileiros que têm também o sonho de estudar no exterior? 

Eu penso sempre na palavra acreditar. E acreditar é um movimento de acreditar em si. De  ser o seu primeiro apoiador. De ser o seu primeiro fã. Eu tive apoio de familiares, de  amigos, mas a pessoa que mais acreditou em mim fui eu. Apostei muito em mim,  acreditei no meu potencial,  acreditei que iria mudar o jogo de um modo que inspirasse outras pessoas,  que trouxesse transformação social, que trouxesse diferenças. Então é muito importante que os estudantes acreditem que podem, que é possível!  

Você tem até o dia 30 de abril para se inscrever na segunda edição do edital Black Stem. Para ter mais informações, acesse este link: https://bit.ly/BS-2edicao. 

E quem se interessou por seguir os episódios do Perdida na China, que a Diovanna posta toda semana, siga ela no Instagram.

Estudar fora do Brasil: a atitude faz a diferença

Selecionados do Black STEM 2024

Especialista e familiares dos bolsistas do Black STEM falam sobre desafios e conquistas no exterior

O senso comum diz que, para estudar no exterior, é necessário ser alguém especial – o famoso ponto fora da curva. Quem dissipa esse mito é o professor Fernando Caixeta, titular do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), Campus Uberlândia, que atua com mentoria em programas de internacionalização e foi convidado a ser um dos mentores dos estudantes do programa Black STEM.

Essa iniciativa, promovida pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, apoia a presença e permanência de pessoas negras em universidades fora do Brasil. No início de julho de 2024, cinco estudantes negros foram selecionados – quatro mulheres e um homem. Desde então, esses pioneiros vêm sendo acompanhados e apoiados por professores e suas famílias.

“Não tem que ser gênio e não tem que ter nota acima da média. Isso é uma grande ilusão. Eu acredito muito que são fatores que contam, mas não são o principal. O principal é o fator atitude”, sintetiza Caixeta, ao comentar o que levou esses jovens a serem selecionados por instituições de ensino no exterior. 

“Muitas universidades estrangeiras consideram o ponto de onde você partiu até o ponto em que você chegou. Se você teve acesso a estudo de línguas, fez várias viagens, você tem uma bagagem cultural e de experiência muito maior que aqueles que não tiveram essa chance.”

“Então, é muito mais o que você fez com aquilo que você tinha do que as notas que você alcançou. Tem que ter vontade e estar habilitado a receber não. A vida de quem se candidata a uma oportunidade no exterior é de muitos nãos até que se obtenha um sim. É importante entender que isso faz parte do processo”, diz.

O impacto do Black STEM na vida dos estudantes negros

O Black STEM tem foco em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Também conhecidas como ciências exatas, essas áreas têm uma ligação histórica com a população negra, responsável por importantes desenvolvimentos científicos e tecnológicos. 

O programa foi criado pelo Fundo Baobá, com apoio da B3 – Social e parceria do BRASA (Brazilian Student Association). 

Camila. bolsista Black STEM, é uma mulher negra, de cabelos cacheados e sorriso radiante, está posicionada atrás de um balcão azul com o logotipo iluminado da B3 Social, iniciativa de impacto social da Bolsa de Valores. Ela veste uma camisa preta e um blazer colorido com estampas geométricas vibrantes. No fundo, uma grande tela exibe gráficos de variação do mercado financeiro e cotações de ações, reforçando o ambiente corporativo e tecnológico.
Camila Ribeiro, bolsista Black STEM. Crédito: Thalita Novais.

Camila Ribeiro está em Portugal. Ela optou por cursar Pilotagem na Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique. A Marinha Mercante surge como uma grande alternativa profissional quando estiver formada. 

Eric Ribeiro está nos Estados Unidos cursando Engenharia Aeroespacial na Universidade Notre Dame. Os desafios que ambos têm que enfrentar são duros e não estão apenas dentro das instituições em que estudam. 

“Tenho conversado com os estudantes do BlackSTEM com alguma frequência. O que eles relatam de maneira geral é que o início é complicado, no sentido de se entender em uma sociedade que não é a deles.  E o que a gente entende como prioridade é que se encontre quem pode nos ajudar nesse processo. Grupos de pessoas pretas nos ajudam bastante. Aquilombar, nessa hora, pode ser um fator essencial”, diz o professor Caixeta. 

O impacto familiar e os desafios da distância

Camila é capixaba de Vitória (ES). Sua mãe, Andressa Ribeiro, fala sobre como é estar longe da filha, que não voltou para o Brasil no período de Natal e Réveillon: 

“Nos preparamos para esse momento, é um sonho se realizando, então há um misto de sentimentos. Muita saudade, mas também orgulho pelo protagonismo dela. Há o receio com relação ao clima, ao racismo, que buscamos mitigar com informação, muita fé e sorte. A tecnologia tem sido aliada nesse processo. Nos falamos com frequência”, afirma Andressa.

A rotina de Camila em Portugal é puxada. “Ela tem aulas diariamente, pela manhã e à tarde; tem excelentes professores, que focam o ensinamento mais na parte prática da matéria. Ou seja, no que ela realmente vai aplicar no dia a dia da profissão.”

“Está integrada com os colegas, formaram grupos de estudos e recebeu orientação da instituição para obter alguns  documentos que precisava. Ela mora no alojamento e faz as refeições na própria faculdade. Quando possível,  aproveita para conhecer um pouco mais a cidade”, revela Andressa Ribeiro. 

Eric, bolsista Black STEM, é um homem negro jovem, de cabelos crespos e óculos redondos, sorri enquanto posa atrás de um balcão azul com o logotipo iluminado da B3 Social. Ele veste uma camisa branca e tem um suéter claro sobre os ombros. O fundo é azul, com detalhes metálicos, criando um ambiente moderno e corporativo.
Eric Ribeiro, bolsista Black STEM. Crédito: Thalita Novais.

Joelma Ribeiro, mãe de Eric, de 18 anos, e moradora de Caieiras, na Grande São Paulo, relata que a vida de seu filho não tem sido muito diferente da vida de Camila. E seu coração vive tão apertado quanto o da mãe da colega.

“Tenho um misto de sentimentos: saudade, orgulho e felicidade. Às vezes, ver o Eric alcançando seus objetivos tão jovem é uma realização, mas também é desafiador conciliar os sentimentos, justamente por causa da distância e da sensação de ‘deixar ir’. Mas é lindo ver como ele está crescendo cada vez mais e desbravando o mundo”, diz.

Eric está na Universidade de Notre Dame, de olho em seu maior sonho: entrar na NASA (Agência Espacial Norte-Americana). Ele quer chegar lá e se tornar astronauta.

“Ele está se adaptando e lidando com as novas experiências de forma responsável, e isso é uma grande conquista! Suas preocupações, como não ficar doente e cuidar de si mesmo, são sinais de que está amadurecendo e aprendendo a ser independente, o que é um passo muito importante nessa fase da vida. Ele parece estar em um ótimo caminho”, diz Joelma.

Andressa e Joelma enaltecem a iniciativa do Fundo Baobá em criar um programa que possibilita a estudantes negros brasileiros ingressarem em universidades no exterior.

“A aprovação da Camila no edital foi de grande relevância. A bolsa tem sido essencial para viabilizar sua permanência em Portugal e a conclusão do curso.”

Joelma completa: “Foi um alívio ver o Eric conquistando essa oportunidade, ainda mais em um momento de tantas mudanças. Saber que ele conseguiu se organizar financeiramente e que está se virando sozinho em tantas questões, desde as mais práticas até as acadêmicas, é uma grande conquista para ele e também um grande alívio para mim.”

Conheça mais sobre o edital Black STEM aqui.

Primeiros estudantes selecionados pelo programa Black STEM para bolsas de estudo no exterior são apresentados em evento na B3 Social

Primeiros estudantes selecionados pelo programa Black STEM para bolsas de estudo no exterior são apresentados em evento na B3 Social

Em grande celebração, no dia 6 de agosto, o Baobá – Fundo para Equidade Racial e a B3 Social apresentaram os primeiros estudantes selecionados pelo edital Black STEM, voltado para jovens negros e negras brasileiros que alcançaram o objetivo de cursar uma graduação no exterior.  

O Black STEM é uma iniciativa que apoia a presença e permanência de pessoas negras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) em universidades internacionais. No Brasil, pessoas negras (pretos e pardos) constituem 56% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas representaram apenas 36% dos formados em cursos superiores em 2020 e 32% dos formados em STEM. Essas áreas têm uma ligação histórica com a população negra, responsável por importantes desenvolvimentos científicos e tecnológicos. E o programa faz com que essa ligação histórica se perpetue, pois promove formação acadêmica para esses estudantes e contribui para a produção de conhecimento negro dentro da academia global.  

A apresentação de cinco estudantes selecionados pelo programa Black STEM foi feita no auditório da B3 (região central de São Paulo), apoiadora do programa criado pelo Fundo Baobá – Fundo para Equidade Racial, que teve como parceiro a BRASA (Brazilian Student Association). O processo seletivo, composto por quatro etapas, contou com especialistas das áreas de STEM, Psicologia e Educação com diferentes conhecimentos e experiências sobre graduação no exterior. Cada um dos selecionados receberá o equivalente a R$35 mil anuais para cobrir despesas de moradia, alimentação, transporte, entre outros, com a possibilidade de essas bolsas serem renovadas anualmente até a conclusão do curso. 

Celebração do dia 6 de agosto, em que o Baobá – Fundo para Equidade Racial e a B3 Social apresentaram os primeiros estudantes selecionados pelo edital Black STEM


Os selecionados pelo Black STEM foram:  

  • Camila Ribeiro Martins (Vitória, ES): Pilotagem na Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique, Portugal. 
  • Diovanna Stelmam Negeski de Aguiar (São Paulo, SP): Ciência da Computação, na New York University (NYU), na China. 
  • Eric Souza Costa Ribeiro (Caieiras, SP): Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, EUA. 
  • Melissa Simplicio Silva (Rio de Janeiro, RJ): Ciência da Computação na New York University (NYU), EUA.
  • Rilary Oliveira Torres (Diadema, SP): Medicina na Universidad Nacional de Rosario, Argentina.

“O Black STEM é um programa de incentivo financeiro e educacional para adolescentes e jovens negros que desejam estudar ciências exatas fora do Brasil. Esta iniciativa não é um projeto de curto prazo, mas um programa duradouro desenvolvido pelo Fundo Baobá e pela B3 Social. Os resultados do primeiro processo seletivo mostram que estamos no caminho certo. Por isso, continuaremos a investir e a trabalhar para ampliar as perspectivas e horizontes dos alunos de escolas públicas e privadas que promovem a diversidade étnica por meio de ações afirmativas”, celebra Giovanni Harvey, Diretor Executivo do Fundo Baobá. 

A jornalista Adriana Couto fez a condução da cerimônia, transmitindo muita emoção para todos os presentes. Familiares e amigos dos estudantes tiveram a oportunidade de presenciar uma cerimônia recheada de alegria e comemorações. 

As histórias pessoais dos estudantes encantaram os presentes. Camila Ribeiro Martins, por exemplo, decidiu cursar Pilotagem depois de servir por dois anos à Marinha brasileira. “Servi como técnica no Rio de Janeiro e trabalhei em uma ilha. Tive muito contato com embarcações. O sonho de pilotar nasceu ali. Existe uma escola aqui no Brasil. Mas é escola militar e tem limite de idade. Então, as oportunidades existem, mas por vários motivos elas nos são negadas”, disse.     

Diovanna Aguiar se destaca desde a infância. “Amo ler. Aos 11 anos cheguei à marca de 300 livros lidos. Um dia, porém, minha avó me alertou para o fato de eu estar perdendo a corrida da vida. Ela se referia ao fato de eu não estar em uma boa escola. Eu sou de Itaquera e passei a querer estar nas melhores escolas. Entrei na Federal de São Paulo, uma das melhores instituições de ensino que temos. Nem que seja à força, temos que ocupar esses espaços”, afirmou Diovanna.  

Eric Souza começou a demonstrar ser uma criança fora da curva logo cedo. A mola propulsora de sua ida para a Notre Dame University é sua mãe. “Minha mãe, com a cara de pau dela, passou a ir às escolas particulares de Caieiras pedindo uma vaga para mim, sem ter nenhum dinheiro para pagar. Ela conseguiu. Passei a pensar em ser astronauta. Em 2021, fui o primeiro negro a representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Ciência”, festejou.  

Melissa Simplicio Silva já está em Nova York e participou do encontro pela internet. Ela afirmou que a experiência como estudante no exterior faz com que enxergue melhor o Brasil: “Quando colocamos o pé para fora, a gente aprende a dar muito mais valor ao nosso país”, revelou.  

Os familiares estavam extremamente emotivos e a fala de Andressa Martins, mãe da estudante Camila, traduziu o pensamento de todos: “Não se trata só do dinheiro para eles permanecerem nesses países. Agradeço muito a isso, mas agradeço muito mais ao suporte. Isso é muito importante e vocês, Fundo Baobá e B3 Social,  estão dando”, concluiu.   

Fabiana Prianti, Head da B3 Social, enalteceu o fato de os estudantes estarem efetuando um resgate. “Vocês estão realizando os sonhos de seus familiares. Precisamos desses talentos negros. Portanto, voltem para o Brasil e assumam seus lugares de liderança”, disse. A fala de Fabiana reforça o que foi dito por Alexandre Moysés Nascimento, diretor de Governança da B3: “Esse é um dia histórico para nós. Celebramos aqui nossas vitórias e honramos os nossos ancestrais. Temos capacidade e competência, o que nos falta são oportunidades. É isso que a B3 quer proporcionar”, falou Alexandre.  

Outro momento de grande emoção foi com as participações do Professor Hélio Santos, membro da Assembleia Geral do Fundo Baobá e Presidente do Conselho da OXFAM, e André Lázaro, membro do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá. Santos exaltou a perseverança dos estudantes: “O maior delito da elite brasileira foi impedir a juventude de sonhar. Não há investimento maior do que investir na juventude. Por isso, ousem! Ousar nada tem a ver com irresponsabilidade. Ousem! Duas mulheres negras deram duas medalhas de ouro ao Brasil nas Olimpíadas de Paris. Então, ousem, porque não queremos apontar apenas os riscos que a população jovem negra sofre. Queremos mostrar as oportunidades que eles têm também”.  

O também professor André Lázaro encerrou o evento dizendo: “Estar aqui hoje é ver mais uma oportunidade. O Fundo Baobá está olhando para as pessoas e para o compromisso que tem com elas. Esse encontro revela compromissos transformadores. O Movimento Negro civilizou o Brasil. Ter a  B3 comprometida com a equidade é um grande passo que a nossa sociedade também tem para dar”, disse. Para os estudantes, Lázaro deixou o seguinte recado: “Não levem com vocês o peso da responsabilidade. Aceitem o direito de errar”, alertou.   

Coletivo de mulheres negras lança e-book após participação no Programa de Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco

O e-book “Negras que Movem: Olhares e Perspectivas das Líderes Aceleradas pelo Fundo Baobá" fortalece o protagonismo em diversos espaços de diálogo e debate

O e-book “Negras que Movem: Olhares e Perspectivas das Líderes Aceleradas pelo Fundo Baobá” fortalece o protagonismo em diversos espaços de diálogo e debate

A revolução das mulheres negras através da escrita se iniciou a partir de uma necessidade de sanar diversos obstáculos enfrentados por elas. Em um contexto complexo e imersas em opressão, negligências e vulnerabilidades, foi na escrita que grandes estrelas da literatura brasileira se destacaram, como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, entre outras, para reivindicar por seus direitos básicos de humanidade, dignidade e presença.

Tal prática se perpetua até hoje entre as mulheres negras, como é para Luciane Reis, uma das idealizadoras do livro “Negras que Movem: Olhares e Perspectivas das Líderes Aceleradas pelo Fundo Baobá”, que deve  ser lançado em 10/08/2024, no formato virtual, com aproximadamente 80 artigos. A obra é uma chamada à ação para reconhecer e valorizar as contribuições negras, desafiar os paradigmas estabelecidos, e ampliar o entendimento sobre a riqueza e a complexidade das vozes negras.

São nos escritos que suas dores e reivindicações ganham força para romper séculos de silenciamento e expandir a necessidade de ascensão, protagonismo e representatividade feminina negra na comunicação opinativa e emancipatória. Seguindo o exemplo e inspiração das mais velhas, foi criado em 2019 o coletivo Negras que Movem, com o objetivo de dar representatividade e empoderamento às mulheres negras na comunicação e em todas as esferas da vida social. 

Essa iniciativa se tornou viável com a união de 24 mulheres negras selecionadas no Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco, no qual o Baobá – Fundo para Equidade Racial proporcionou o desenvolvimento financeiro individual e organizacional de diversas lideranças, grupos e coletivos liderados por mulheres negras.

Luciane Reis, uma das contempladas, nasceu no bairro Saramandaia, em Salvador – BA, é especialista em Educação Online e mestre em Desenvolvimento e Gestão, e sempre foi apaixonada por livros desde a adolescência, então se conectar com a diáspora africana, os movimentos de resistência negra e os intelectuais que moldaram o pensamento afrocentrado não foi tão complicado. Pelo contrário, ela enxerga nesse percurso a possibilidade de encorajar outras mulheres negras a encontrar suas próprias vozes e a se tornarem agentes de mudança em suas comunidades. 

“Na época em que recebi a doação, eu havia sido demitida do meu emprego. A doação foi essencial para que eu pudesse finalizar minha dissertação de mestrado com tranquilidade. Graças à bolsa, pude concluir meus estudos sem precisar me preocupar com minha sobrevivência básica”, afirma Luciane Reis, sobre o período da vida em  que recebeu o recurso.

Ao participar das atividades propostas, Luciane observou a oportunidade de criar o coletivo Negras que Movem. O coletivo surgiu da vontade e necessidade de união dessas mulheres, que enxergaram a potência que havia ao se unirem para alcançar espaços antes intangíveis. Um dos resultados dessa potência foi a oportunidade de publicar seus artigos no portal Geledés, representando uma ampla gama de perspectivas e análises sobre questões sociais, políticas e culturais. 

Sulamita Rosa da Silva, mestre em educação na Ufac de Rio Branco, e uma das 24 mulheres negras que compõem o Coletivo Negras que Movem, relata que a participação e os resultados que obteve no Programa fizeram muita diferença em sua vida e que estão gerando frutos que irão repercutir por toda a comunidade negra. “O que precisamos para nos mover é de oportunidades e vocês concederam ao fornecer apoio a muitas pessoas negras. Parabéns por fazerem a diferença na vida dos nossos”, afirma.

Cada texto que será publicado no e-book oferece uma visão única e poderosa, permeada pela vivência e pelo engajamento das líderes aceleradas com as comunidades e os movimentos sociais. Apoiadas pelo Fundo Baobá, essas mulheres inspiradoras têm se destacado em diversas áreas, incluindo ativismo social, empreendedorismo, jornalismo, educação e cultura. São mulheres que, apesar das adversidades, têm feito a diferença em suas comunidades e contribuído para a construção de um mundo mais justo e igualitário para todos.

Apesar da grandiosidade do projeto e da iniciativa, elas ainda encontram diversos obstáculos no caminho, como o financiamento do livro e a dificuldade de publicação dos textos, porque ainda são privadas de ter acesso a recursos econômicos e ao mercado editorial, como acontece com a população negra. Porém, o desejo e a esperança seguem  presentes na vida delas e das demais mulheres negras que compõem o coletivo. O que elas realmente almejam é que seus escritos sejam propagados e suas vozes sejam ouvidas, ajudando a construir um mundo mais humano e afrocentrado.

Para mais detalhes e resultados do Programa de Aceleração de Lideranças Femininas: Marielle Franco, acesse este link.

Black STEM seleciona estudantes negros brasileiros para graduação no exterior em ciências exatas 

Edital Black-Stem

O edital  vai oferecer suporte financeiro para apoiar a permanência dos estudantes durante a graduação

Contribuir para que sonhos sejam alcançados. A divulgação da lista de selecionados do edital Black STEM, do Baobá – Fundo para Equidade Racial, marca a formação da primeira turma de bolsistas apoiados pelo edital Black STEM, voltado a estudantes negros e negras brasileiros que hoje alcançam o objetivo de cursar uma graduação fora do Brasil. O edital  destinou cinco bolsas de estudo de R$ 35 mil para estudantes das áreas de Exatas (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), com a possibilidade de as bolsas serem renovadas anualmente até o período de conclusão do curso.

O objetivo do Black STEM, que tem apoio da B3 – Social e parceria com a BRASA (Brazilian Students Association), é dar suporte aos cinco estudantes negros brasileiros para que permaneçam nas universidades que escolheram no exterior, em condições de suprir despesas de aluguel, transporte, alimentação e material acadêmico. Os selecionados, cuja lista foi divulgada em 15 de julho, são de São Paulo (2), Rio de Janeiro (1), Bahia (1) e Espírito Santo (1). 

O representante do estado de São Paulo é de cidade da região metropolitana: Eric Souza Costa Ribeiro é de Caieiras. Já Micaela Melissa Simplicio Silva é da cidade do Rio de Janeiro (RJ), Marcus Senghor Guena dos Santos Oliveira é de Salvador (BA) e Camila Ribeiro Martins é de Vitória (ES). 

Os cursos pelos quais optaram são os mais variados e a escolha pelas universidades, ao contrário do que costuma ocorrer, não recaiu apenas sobre Europa e América do Norte. Eric Ribeiro vai para os Estados Unidos cursar Engenharia Aeroespacial na University of Notre Dame, no estado de Indiana;  Micaela Melissa Silva também vai para os Estados Unidos fazer Ciência da Computação na New York University (NYU), em Nova York; Marcus Ghena Oliveira também optou pela América do Norte e estará no Canadá estudando Game Design na Brock University, em Ontário, e Camilla Martins vai para Portugal estudar Pilotagem na Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique, na cidade de Oeiras. 

Embora a presença de estudantes negros e de baixa renda em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) ainda seja limitada, o Programa Black STEM visa combater a baixa representação de estudantes negros brasileiros em universidades internacionais. Essas áreas, também conhecidas como ciências exatas, têm uma ligação histórica com a população negra, responsável por importantes desenvolvimentos científicos e tecnológicos. . O programa visa resgatar essa herança e promover a inclusão de mais pessoas negras na academia, trabalhando para ampliar as perspectivas e horizontes dos alunos de escolas públicas e privadas

Para saber detalhes sobre o edital Black STEM, clique aqui .

Da superação à qualificação: conheça a história do Jean Carlos

Jean Carlos é um paraense radicado em Belo Horizonte inicia jornada de conhecimento para se qualificar profissionalmente após superar sério problema de saúde

Paraense radicado em Belo Horizonte inicia jornada de conhecimento para se qualificar profissionalmente após superar sério problema de saúde  

“O edital foi importante para eu poder viabilizar cursos, como inglês, Excel e Power BI. Eu trabalho com departamento pessoal. Gosto muito dessa questão de controles. Aí eu pensei:  vou melhorar nessa parte para quando voltar ao trabalho eu ter facilidade de recolocação. Porque quando você sai, a sua vaga é disponibilizada para que outro profissional cumpra o trabalho que você fazia. Eu cheguei à conclusão que precisava de uma bagagem para poder retornar ao trabalho e me sentir acolhido.” 

O pensamento acima é bastante comum para quem está preocupado em manter sua posição no mercado de trabalho, especialmente quando se sabe que há 8,6 milhões de pessoas desempregadas no país, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). No caso de Jean Carlos Oliveira, 57 anos, o desafio era ainda maior quando esteve internado no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte (MG), Ωe temia pelo seu futuro profissional

Formado em Administração de Empresas pela Faculdade Pan Amazônica, a Fapan, em Belém (PA), Jean Carlos migrou de seu estado para Minas Gerais em busca de mais  oportunidades. Ele entrou na faculdade aos 40 anos e ir para um  outro estado mostrou ser a solução para alcançar melhoria de vida. Especializou-se na área de recursos humanos e tudo ia bem até que no segundo semestre de 2022 ele passou a enfrentar problemas de saúde cuja causa não era determinada. 

Preocupado em manter o emprego na empresa em que estava contratado havia apenas oito meses, Jean não media esforços. Enfrentava as questões físicas e em algumas oportunidades chegou a fazer algo não recomendado, como a automedicação. Até que não foi possível deter os sintomas de algo ainda desconhecido. “Em um atendimento de emergência, fiz todos os exames, mas a médica disse que a perícia não havia sido conclusiva. Eu iria ficar internado. Foi um mês de exames, biópsias e tudo que se possa imaginar. Então, recebi o diagnóstico: Linfoma de Hodgkin”, disse. O linfoma de hodgkin é um tipo de câncer no sistema linfático. 

O diagnóstico de câncer não foi o único problema que Jean teve que cuidar nesse período. “Eu e meu irmão moramos juntos. Eu sempre fui o provedor das coisas em casa. Mas naquele período, recebemos da síndica do prédio uma ordem de despejo. No hospital, eu com a cabeça a mil por hora e preocupado com as coisas de fora, não me concentrava na minha melhora. Não aceitava que eu estava doente. Aí, o tratamento não funcionava. Só passou a funcionar quando eu aceitei que estava doente”, afirmou.

No início de 2023, Jean iniciou as sessões de quimioterapia. Foram 12 no total. Ainda convalescendo, recebeu de uma sobrinha a informação sobre o edital Carreiras em Movimento, do Baobá – Fundo para Equidade Racial. No edital, 298 pessoas foram classificadas e, entre elas, Jean Carlos. O edital faz parte do Programa Presente e Futuro em Movimento, foi lançado em setembro de 2023 e tem como objetivo promover a ampliação de oportunidades no mercado de trabalho para pessoas negras em empresas privadas. Um recurso que poderia variar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil foi designado para cada um dos selecionados, que poderão usar esse valor para desenvolver suas carreiras com cursos, compra de equipamentos, intercâmbios e outros itens que possam contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional.  

Aprovado no edital e depois de mais de um ano sob tratamento, Jean Carlos queria iniciar os cursos que o colocariam em posição de competitividade com outras pessoas no mercado, principalmente o curso de inglês. Porém, uma outra doença veio para testar sua resiliência: a dengue. “Eu ainda estava debilitado, mas queria iniciar os cursos. Porém, peguei dengue e levei um tempo para me recuperar”, disse. 

Jean ainda tinha uma outra preocupação para quando fosse reassumir seu posto na empresa em que trabalha: o etarismo. Após ficar mais de 1 ano e meio fora e sendo um funcionário com idade acima dos 50 anos, ele temia ser dispensado. “Antes de entrar para essa empresa que me acolheu no período da minha doença, o mercado de trabalho estava bem difícil. Mandava currículos, fazia entrevistas, até me dispunha a fazer outras funções e nada. Passei vários meses sem emprego. É doído! Você chega na empresa com uma boa carga de aprendizado e vê que havia muita gente mais jovem e que a opção foi por elas. Acho um absurdo gente na minha faixa de idade e com experiência não conseguir ser inserida no mercado de trabalho”, afirmou o administrador de empresas. 

Livre das questões de saúde, pronto para iniciar os cursos que vão trazer mais habilidades ao seu perfil profissional, Jean Carlos é só comemoração. “É fantástico sair da situação da qual saí e retornar no intuito de crescimento profissional”, concluiu o donatário do edital Carreiras em Movimento, sobre o qual você pode conhecer mais detalhes clicando aqui.  

Fundo Baobá faz primeiro encontro presencial com participantes do Edital Educação e Identidades Negras

Entre os dias 24 e 26 de agosto, o Baobá – Fundo para Equidade Racial, proporcionou um momento valioso para os projetos apoiados no  Edital Educação e Identidades Negras – Políticas de Equidade Racial, na cidade de Recife. Nesses dias aconteceu o primeiro evento presencial com as instituições selecionadas, que teve como objetivo proporcionar um espaço único para compartilhar experiências, aprendizados, avanços e os próximos desafios de cada projeto. 

Ao todo foram 12 organizações, grupos e coletivos selecionados, de oito estados brasileiros mais o Distrito Federal. Cada  um recebeu R$ 175.000,00 de apoio financeiro para a implementação de projetos de enfrentamento ao racismo e valorização da identidade e cultura negra no campo da educação, além de aumentar a representação de pessoas negras dentro da esfera educacional formal e não formal. O edital é uma parceria com a Imaginable Futures e Fundação Lemann e integra o Programa de Educação e Equidade Racial do Fundo Baobá.

O Edital Educação e Identidades Negras reforça o compromisso do Fundo Baobá com a educação antirracista do país e a cobrança no cumprimento efetivo da lei 10.639/03, que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira na educação básica. Ao todo são 20 anos da lei 10.639, os desafios são inúmeros e os avanços escassos. Muitas instituições não cumprem a designação da lei por falta de formação, compromisso político ou até mesmo desconhecimento da obrigatoriedade. A implementação da lei é uma oportunidade ímpar para ampliar o debate sobre reconhecimento, justiça, desenvolvimento, memória e transformação social. A ausência de monitoramento e avaliação por parte das autoridades estaduais e municipais de educação, reitera o descompromisso com o enfrentamento ao racismo e com o exercício dos direitos da população negra, afirma a diretora de programa do Fundo Baobá, Fernanda Lopes.

Durante o encontro, as instituições tiveram a oportunidade de se conhecer melhor através de dinâmicas simples, mas que carregavam em si uma memória materializada em palavras e objetos que representavam a história e o legado de cada uma das organizações. Essas trocas fomentaram um olhar mais atento sobre os desafios vividos nas unidades escolares formais, sobre a necessidade de  aprimoramento e/ou implementação de novas propostas pedagógicas, capazes de fazer dialogar o formal e o informal na educação. Segundo Dinho Paciência, representante do Movimento Nação Marabaixeira, o Baobá é muito mais que uma instituição financeira: é um mecanismo de antecipação de propostas que só aconteceriam a longo prazo. 

Para Fernanda Lopes, diretora de Programa do Baobá, “Transformar as manifestações culturais negras, as práticas tradicionais de ensino e aprendizagem, em algo que o sistema formal reconheça e incorpore, é uma das maneiras de contribuir para  a construção de uma sociedade democrática”. Para ela, o Edital Educação e Identidades Negras é um marco, pois ele reitera a necessidade de produzir e divulgar conhecimentos e práticas negras populares, tradicionais e eruditas, ao mesmo tempo em que promove  novas atitudes e valores, pautados nos direitos humanos e na pluralidade étnico-racial, que devem permear  toda e qualquer ação educativa. Além disso, Fernanda destaca o fato de as instituições donatárias reconhecerem que a atuação em rede será um grande diferencial, reforçando o que, para o Fundo Baobá, é um indicador de sucesso, as parcerias estabelecidas entre donatários como estratégia de enfrentamento ao racismo, resistência e resiliência em todas as áreas de atuação. 



Baobá faz jornadas ao Pará em prol da saúde mental do povo quilombola

O estado do Pará figura entre os que possuem o maior número de comunidades quilombolas do Brasil. Com o objetivo de abrandar os impactos psicossociais agravados pela pandemia da Covid 19 nessas populações, o Baobá – Fundo para Equidade Racial, com apoio da Johnson & Johnson, realiza o projeto Saúde Mental Quilombola: Direitos, 

Resistência e Resiliência. Com foco na saúde mental e nas estratégias de resiliência das comunidades quilombolas em territórios paraenses, o Baobá reafirma seu papel em aportar recursos para áreas estratégicas. Hoje, 39% das iniciativas apoiadas pelo Fundo são projetos apresentados por associações quilombolas localizadas em diferentes estados do país. 

Uma equipe multidisciplinar composta por profissionais de enfermagem, psicologia, jornalismo, publicidade, história, administração e direito está atuando no sentido de promover a saúde mental da população quilombola, criando pontes com os serviços de saúde e reiterando o fato de que o bem estar e o bem viver também são resultado do protagonismo e da soberania dos quilombolas em defesa de sua cultura, tradição e saberes. 

As ações são realizadas em parceria com a Malungu – Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará e com a ARQIB – Associação dos Remanescentes Quilombolas de Igarapé Preto e Baixinha. A expectativa é que, ao alcançar 12 comunidades que estão no mesmo território, mais de 5 mil pessoas sejam impactadas indiretamente pela ação. 

Já foram realizadas quatro missões, com duração de 1 semana cada. Em 5 das 12 comunidades foram realizadas atividades com participação de homens, mulheres, adolescentes, jovens e crianças; profissionais de saúde, educação e lideranças comunitárias. Além das rodas de conversa sobre saúde mental, saúde das mulheres, direitos da população quilombola, também aconteceram oficinas de produção audiovisual. 

O Coletivo Negritar, um dos parceiros implementadores do Fundo Baobá, ministrou oficinas para que, a partir de seus aparelhos celulares, fosse possível roteirizar, captar e editar imagens. “Conseguimos registrar e entender como a comunidade cada vez mais se comunica, se fortalece, se potencializa, se movimenta e funciona. O objetivo foi mostrar como usar essa ferramenta, o vídeo, em prol da transformação, de educação e de arte”, conta Tamara Mesquita, do Negritar. 

As diversas ações, com foco em promover a saúde mental da comunidade, reúnem diferentes agentes e possibilitam que haja interação entre eles. “Ficamos muito felizes, porque tinha gente de 12 a 64 anos que estava interagindo e trocando dentro da equipe. Outro momento marcante foi uma roda de conversa que tivemos falando sobre infecções sexualmente transmissíveis, métodos contraceptivos, uso de camisinha, menstruação, uso de coletor e identidade de gênero”, diz Tamara.

A saúde é determinada por fatores culturais, políticos, ambientais e econômicos que são levados em consideração. Sem a valorização da identidade, defesa e garantia dos direitos quilombola, não será possível alcançar um bom nível de saúde mental.

Além de contar com ações de educomunicação, o projeto também conta com profissionais da psicologia que compõem a equipe multidisciplinar. ”Percebo que meu corpo de mulher negra tem facilitado para que algumas mulheres me procurem para falar sobre vivências de violências que já passaram ou estão passando”, revela a psicóloga paraense Bianca Mycaella Tsubaki. 

Liderando o time de saúde mental da equipe multidisciplinar está o psicólogo, também paraense, Álvaro Palha. Ele traça um rápido perfil do trabalho que o projeto  Saúde Mental Quilombola vem realizando. “Em geral, penso as ações em projetos de saúde mental como únicas, que mesmo que baseadas em pressupostos técnicos comuns e utilizando instrumentos e ferramentas de trabalho próximas, devem se adaptar à história e singularidade das comunidades”, comenta Palha. 

O que possibilita ao Baobá – Fundo para Equidade Racial promover iniciativas como o projeto Saúde Mental Quilombola é contar com um fundo patrimonial em ampliação: o endowment, que é uma fonte de financiamento de longo prazo composta por doações de apoio. Anualmente, os rendimentos dessa conta são distribuídos para viabilizar as ações da organização em prol da equidade racial. As doações para o endowment são essenciais para garantir a perenidade e sustentabilidade financeira do Fundo. 

Para saber mais sobre o trabalho que o Fundo Baobá realiza, você pode acessar o site www.baoba.org.br



Edital Educação em Tecnologia: Resultado da segunda fase é divulgado

Edital Educação em Tecnologia: Resultado da segunda fase é divulgado

O Baobá – Fundo para Equidade Racial divulga nesta quarta-feira (5), a relação de empresas e organizações escolhidas para a etapa final do edital Educação em Tecnologia. A iniciativa tem como objetivo oferecer suporte a negócios e organizações negras que atuam na expansão ou desenvolvimento das habilidades técnicas de indivíduos negros na área de tecnologia. A iniciativa conta com a parceria do MOVER (Movimento pela Equidade Racial) e investimento no valor de R$4.000.000,00 (quatro milhões de reais) que serão destinados a apoiar até 16 iniciativas.  A lista final será divulgada em 26 de abril.

Nesta segunda fase 8 propostas, entre 17 analisadas, foram validadas e seguem para a terceira e última etapa do programa. Para conferir a lista completa com os selecionados para a terceira fase do edital Educação em Tecnologia clique aqui.

É importante ressaltar que os projetos selecionados receberão um aporte financeiro que pode variar de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais) a R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), além de assessoria e suporte técnico para o desenvolvimento e fortalecimento institucional. Estão sendo valorizadas as propostas que venham de organizações e empresas das regiões Nordeste e Norte, e que tenham como foco jovens negres periféricos, pessoas com 40 anos ou mais, população LGBTQIAP+, pessoas com deficiência, jovens em cumprimento de medida socioeducativa, pessoas egressas do sistema prisional, migrantes e refugiados africanos ou afrodescendentes, população quilombola, ribeirinha ou outras comunidades tradicionais. Saiba mais sobre o programa aqui

Sobre o Fundo Baobá:

O Fundo Baobá para Equidade Racial é o primeiro e único fundo patrimonial dedicado, de forma exclusiva, à promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. Criado em 2011, o Baobá é uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é  mobilizar pessoas e recursos, no Brasil e no exterior, para apoiar projetos e iniciativas negras para o enfrentamento ao racismo e a promoção da equidade racial. 

Sobre o Mover:

Com o objetivo de extinguir a desigualdade e o racismo no mercado de trabalho, um grupo de empresas com atuação em vários setores da economia juntou-se para criar ações de promoção da diversidade, da equidade e da inclusão. Esse foi o início do Mover (Movimento pela Equidade Racial), que atualmente agrupa 47 empresas que proporcionam postos de trabalho para 1,3 milhão de pessoas. 

O legado de Marielle Franco na história das mulheres brasileiras

Marielle Franco
Por Fernanda Lopes, Diretora de Programa e Giovanni Harvey, Diretor Executivo no Baobá – Fundo Para Equidade Racial.  

 

Uma tragédia brasileira que tomou conta da mídia nacional e internacional completa cinco anos: o ataque brutal que vitimou a vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, ocorrido no bairro do Estácio, região central do Rio de Janeiro, na noite de 14 de março de 2018. Um crime hediondo, que causa repulsa na opinião pública até hoje, gerando a recusa de um libelo que não encontrou responsáveis até o momento. A sociedade exige que o crime seja solucionado. Marielle Franco tornou-se um símbolo da luta pelos direitos humanos e fonte inspiracional para um sem número de mulheres que, a partir do exemplo dela, estão mudando seus horizontes.

Euclides da Cunha escreveu que o sertanejo é forte. O favelado também o é. Marielle Franco cresceu como favelada na Maré, uma das comunidades que compõem o Complexo da Maré. Em suas aparições públicas ou no púlpito da Câmara do Rio de Janeiro, ela sempre se apresentava como mulher negra, mãe, socióloga e cria da Maré. Para ocupar o púlpito e um gabinete na Câmara, foi eleita em 2016 com 46.502 votos para um mandato de quatro anos que não chegou a concluir. Uma mulher negra eleita, parte da comunidade LGBTQIAP+. 

A opressão funciona como o lodo e suas impurezas, em meio às quais coisas boas podem florescer. Na natureza, a flor de lótus é um exemplo. Na história de Marielle, foi o assassinato da amiga Jaqueline que a fez decidir por um trabalho voltado à defesa e promoção dos direitos humanos, à vida digna e sem violência nas favelas e por uma crítica acirrada aos métodos e processos de trabalho das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs. Ao decidir militar em prol dos direitos humanos, em ser a voz dos migrantes nordestinos menos favorecidos e peitar o sistema de discriminação e morte contra os que têm orientação sexual oposta àquela considerada norma, Marielle Franco sabia que teria que batalhar em inúmeros fronts. Mas ela era uma guerreira ímpar. Era figura que vergava, mas não quebrava, como o bambu. Ela se impunha, reivindicava e não descansava enquanto não obtinha resultados. Gente com esse perfil é taxada de incômoda. Marielle era a linguagem do povo, por ser sua representante legítima. 

 A representatividade de Marielle Franco ganhou corpo nas eleições municipais de 2020. A tradução do empenho das mulheres negras em ter suas vozes sendo ouvidas, suas ações definindo agendas e influenciando o cenário político, foi estampada em números: concorreram a postos nas Câmaras Municipais do país 84.418 mulheres negras, 856 concorreram ao cargo de prefeitas em suas cidades. O movimento Eu Voto Em Negra surgiu de articulações femininas e se baseou em uma frase dita por Marielle Franco: “podemos ser diversas, mas não somos dispersas!”. Os dizeres da vereadora geraram uma onda de afeto e solidariedade feminino-negra que, até então, não havia sido vista em termos de presença política. 

O nome de Marielle já tinha alcançado projeção internacional por ser ela uma defensora dos direitos humanos. A sua morte, porém, o elevou a um fenômeno mundial. A repercussão internacional foi muito grande. Alguns dos principais veículos da imprensa mundial, como The New York Times, The Wall Street Journal e Washington Post (Estados Unidos), The Guardian e BBC (Inglaterra), Le Monde e Le Figaro (França), El País (Espanha) e Der Spiegel (Alemanha) abriram e abrem seus noticiários para falar do agressivo acontecimento com a vereadora e seu motorista. E a história não fica por aí: todos os anos esses veículos cobram um desfecho conclusivo da investigação criminal. Isso tornará a acontecer neste 2023. 

O fenômeno no qual o seu legado se transformou é uma força da natureza, influenciando todo lugar por onde passa. Nos Estados Unidos, a Universidade Johns Hopkins, em sua Escola de Estudos Internacionais Avançados, criou a Bolsa Marielle Franco, após receber uma doação anônima. O programa é voltado aos estudos de relações internacionais, com foco na América Latina. O Marielle Franco Community-Design Award é um prêmio de 10 mil euros criado em Portugal para incentivar arquitetos que trabalham com favelas ou áreas em que vivem pessoas em vulnerabilidade social. Uneafro, Pré Vest Comunitário, Emancipa e outras iniciativas educacionais criaram cursinhos pré-vestibulares voltados a alunos, alunas e alunes negros, negras e negres visando facilitar o caminho de acesso ao ensino superior.  

O Fundo Baobá para Equidade Racial, em 2019, baseou-se no impulso influenciador que a atuação da mulher negra, vereadora, favelada e LGBTQIAP+ havia deixado como legado e criou o Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. Seu objetivo: ampliar e consolidar a participação de mulheres negras em posições de poder e influência, por intermédio de investimentos em seus planos de desenvolvimento individual, formações políticas e técnicas, além da promoção do fortalecimento das organizações, grupos e coletivos liderados por elas. Isso ressalta a importância do financiamento com foco no desenvolvimento social, cujo impacto está nas transformações pelas quais as pessoas passam e, por consequência, são transmitidas a outras pessoas de seus territórios. O programa, que está em andamento, tem como parceiros Kellogg Foundation, Ford Foundation, Instituto Ibirapitanga e Open Society Foundations. Na primeira edição, selecionou 59 mulheres e 14 organizações, sendo que cada uma recebeu diretamente R$ 40 mil para investir em seu projeto e cerca de R$ 20 mil em investimentos indiretos (assessorias, coach, apoio psicossocial, formação política). Considerando os apoios coletivos e individuais, foram cerca de 200 beneficiárias diretas, 520 mil pessoas indiretamente impactadas e R$ 4 milhões de investimento direto. 

Organizações como a Abayomi – Grupo de Juristas Negras, de Pernambuco, por exemplo, têm o objetivo de ampliar a participação de mulheres negras no sistema nacional de Justiça. Hoje, após um início com cinco mulheres, já congrega quase uma centena de mulheres negras com atuação no Judiciário e lidera a mobilização nacional em defesa de mulheres negras no STF (Supremo Tribunal Federal). Esses espaços e cargos são, atualmente, ocupados por homens e mulheres brancos. 

Pesquisa feita pelo Conselho Nacional de Justiça em 2020 apontou a porcentagem de negros e negras nas diferentes esferas do Judiciário: entre os magistrados, a Justiça do Trabalho tem 15,9%; entre os servidores, a Justiça Eleitoral tem 34,7% e entre os estagiários, a Justiça Federal tem 59,4% de pessoas negras. 

Clara Marinho, graduada em administração e mestre em Desenvolvimento Econômico, é outra profissional apoiada pelo Programa Marielle Franco. Ela elaborou o projeto Construindo a Liderança na Administração Pública Federal, recentemente foi convidada a assumir o cargo de Coordenadora-Geral de Estudos e Acompanhamento de Temas Transversais e Investimentos Plurianuais no Ministério do Planejamento e Orçamento. Outra que se inspirou nos ventos deixados por Marielle foi a jornalista Jaqueline Fraga, autora do premiado livro-reportagem “Negra Sou”, que narra a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho. O Instituto Marielle Franco foi criado por iniciativa da família da vereadora para manter acesa a chama de seu legado e ampliar o processo de valorização das vidas negras, femininas e periféricas e ainda funcionar como um espaço de educação transformadora onde também se oferece auxílio psicológico, legal, se promove arte e literatura, se realiza oficinas e outras ações voltadas para a herança de luta pelos direitos humanos deixada pela vereadora. Anielle Franco, irmã de Marielle e ministra da Igualdade Racial, Marinete da Silva, mãe de Marielle e Anielle, que é advogada popular, além de Luyara Santos, filha de Marielle, que é estudante de educação física, tiveram os projetos de ampliação de suas habilidades de liderança apoiados pelo Fundo Baobá. 

 A sociedade brasileira, e as mulheres em especial, está convicta do que quer, pode e deve fazer com o legado de Marielle Franco. Ela se foi, mas como herdeira de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Elza Soares, Benedita da Silva, Esperança Garcia, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro e tantas outras, plantou sementes que germinaram, florescem e dão frutos. Permanece ativa, por intermédio de ideias e causas que defendia. Suas certezas e ideais seguem vivos em mulheres, homens e pessoas não binárias que ela inspira. Marielle está e estará, sempre, PRESENTE! 

 

Artigo originalmente publicado no Nexo em 13/03/2023 

  • Fernanda Lopes é bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). Co-coordenou o Programa de Combate ao Racismo Institucional, uma parceria entre o governo brasileiro, o governo britânico e a ONU Brasil. Por 11 anos compôs a equipe do Fundo de População das Nações Unidas, escritório Brasil. Desde 2019 lidera a área de programas e projetos do Fundo Baobá para Equidade Racial e foi a responsável pela elaboração da teoria da mudança que orienta a implementação do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco. 
  • Giovanni Harvey é diretor-executivo do Fundo Baobá para a Equidade Racial e tem 30 anos de experiência como executivo na iniciativa privada, na administração pública e no terceiro setor. Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Fluminense (1988 a 1989), empresário no setor de seguros e previdência privada (1994 a 2004), fundador da Incubadora Afro-Brasileira (2004) e consultor do Programa de Incubadoras do Ministério da Economia de Cabo Verde (2007). Exerceu funções estratégicas nos três níveis da administração pública nas áreas de direitos humanos, trabalho, ciência e tecnologia, assistência social, governança e igualdade racial. Foi secretário nacional de Políticas de Ações Afirmativas (2008 a 2009) e secretário-executivo (2013 a 2015) da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.